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Único
Law acabava de colocar a carne para assar quando seu pai entrou com uma sacola de compras e cantarolando uma música que ele não fazia ideia de onde era. Em um primeiro momento, não estranhou, porque imaginou se tratar de mais comida para o almoço em família.
O que era bem-vindo, já que seu namorado, Luffy, era um morto de fome.
Só que quando o pai tirou da sacola uma garrafa de whisky (cara), a bebida somada à cantoria, acendeu um alerta vermelho em sua cabeça.
Não era a primeira vez que via o pai agindo estranho. Por vezes, acordava com ele tropeçando em algo de madrugada porque voltara tarde do trabalho, ou digitando mensagens com um sorriso nada discreto no rosto, o que somado a outros pequenos detalhes levavam a uma única conclusão:
— Vai sair mais tarde? — perguntou, já pegando a garrafa e as sacolas antes que acontecesse um desastre. — Eu cuido disso.
Um sorriso bobo iluminou o rosto de Rosinante e Law não sabia se era por causa da pergunta ou da ajuda.
— Não. Ele vai vir aqui mais tarde.
Então era um cara. Law estava para pegar a sacola, quando a expressão do pai mudou para uma de súbito pavor, quase parecia que ele carregava uma arma ali dentro pela força que usou para puxar a alça de volta.
— D-deixa que eu cuido dessa!
Algo de errado não estava certo.
Aquele comportamento era estranho, mas não era como se seu pai pudesse estar carregando algo ilícito em uma sacola de supermercado. Se a atitude viesse do tio Doffy, não insistiria, porque poderia haver uma granada ali — se bem que o tio não seria sonso de levar a sacola suspeita para a cozinha —, mas como se tratava de Donquixote Rosinante, a pessoa mais aloprada da face da Terra...
— Você vai deixar tudo cair, eu guardo. — Law puxou a sacola para si, sem entender o motivo para tanta resistência.
— Dessa vez eu insisto! — E puxou de volta.
No que a sacola rasgou. Pacotes de salgadinho caíram no chão e, por muita sorte, não abriram, ao contrário de um único pacote branco, feito de papel, que tinha dentro pequenos invólucros roxos brilhantes. Law não precisava ser nenhum gênio para saber do que se tratava, ainda mais quando seu pai ficou vermelho feito um tomate.
— Law... — Estava óbvio que ele não sabia o que dizer e, na busca por um meio de salvação, sua expressão mudou de assustada para forçadamente séria. — Existem momentos na vida de um homem...
— Pai, corta essa! Você colocou camisinha junto da sacola com comida, que nojo!
— Estavam dentro de um outro pacote! Mais tarde a gente pode falar sobre o uso dessas coisas...
Law suspirou pesado, não era possível que o pai ainda o tratasse feito criança. Ele já tinha dezenove anos! Se bem que ele estava era mais preocupado com o fato de que só agora seu cérebro processava que Rosinante, seu pai, transava.
Não era para isso ser uma informação absurda, afinal, seu pai era humano, apesar de continuar sendo pai... O que criava em sua cabeça uma névoa em cima desse conceito, e esse era o problema.
Por fim, Law acabou dando de ombros, sem falar nada. Rosinante interpretou o gesto como um “mais tarde conversamos sobre isso” — sendo que o filho sabia muito bem como usar uma camisinha — e começou a imaginar formas de abordar o assunto, enquanto catava os famigerados pertences e sumia para guardar no quarto.
Notando que estava sozinho, Law começou a arrumar a bagunça, mas quando pegou a garrafa de whisky, sentiu o corpo tensionar. O pai não era de consumir nada muito caro (fosse bebida ou cigarro), então para ele optar por algo assim, era porque o cara possuía gosto refinado.
Em outras palavras, era esnobe. Quer dizer, podia não ser isso. Law tinha consciência de que o certo seria conhecer a pessoa primeiro, mas isso não o impedia de não gostar dela com antecedência.
Impossível seu pai gostar de alguém metido a rico.
E foi nesse fluxo de pensamentos que Law quase deixou a carne passar do ponto.
**
— Torao! — Luffy exclamou, dando-lhe um abraço apertado. — Sinto cheiro de carne! Heh.
Era exatamente meio-dia e Law não conseguiu tirar da cabeça que seu pai estava com alguém, mas assim que recebeu Luffy e sentiu-o junto de si, seu corpo relaxou de imediato.
Até ele notar a figura alta atrás do namorado.
— Ei, Luffy...
Law não fazia ideia de quem era. Só sabia que odiou a cara de poucos amigos, ao mesmo tempo que ficou se perguntando quem era louco de usar casaco de pele no verão.
Se bem que o pai gostava de usar um pesado casaco de penas.
Enfim, a hipocrisia.
— Ah, esse é o meu pai. Pai, esse é o meu namorado!
Conte com Luffy para fazer a melhor apresentação do mundo.
— Trafalgar Law. — Fez questão de se apresentar da maneira apropriada. — Prazer em conhecê-lo.
O pai de Luffy o olhou com desconfiança. Para ser bem sincero, ele tinha cara de gângster e, para piorar, quando o homem abriu a boca para se apresentar, Rosinante fez o favor.
— Crocodile!
Aquele tom de surpresa alegre acertou Law como um soco. Ele se lembrou do whisky e viu que batia direitinho com o perfil do homem à sua frente.
Só pode ser brincadeira...
— Rosinante, vim mais cedo dar carona para o Luffy.
Law pôde vislumbrar estacionado em frente à casa um carro de luxo.
Luffy nunca havia dito que tinha um pai rico.
— Ei, Torao, cadê a comida? — Luffy perguntou.
Por um segundo, Law se perguntou “que comida?”, até se lembrar que aquele era para ser um almoço em família e se recompor.
— Vamos para a sala de jantar.
— Então vamos! Ah, oi — Luffy sorriu para Rosinante e começou a puxar Law para uma sala de jantar que ele nem sabia onde era. — Vem, pai!
Segurou com firmeza a mão de Luffy, sem vontade de soltar, ao mesmo tempo que olhava para trás e via seu pai interagindo com um Crocodile que parecia irritado com a petulância do próprio filho.
O sorriso bobo de Rosinante...
Por um segundo, Law desejou que tudo não passasse de um pequeno pesadelo.
**
O único que estava ciente do clima de enterro na mesa parecia ser o próprio Law, porque o pai estava distraído sendo gado de Crocodile e Luffy estava concentrado em enfiar quantidades obscenas de comida na boca. Às vezes, ele se perguntava se o namorado não era feito de borracha, pelo tanto que era flexível.
— Ei, Torao, sua comida ‘tá muito boa!
— Obrigado. — Sorriu, satisfeito pelo elogio, mas atento à dupla do outro lado da mesa.
Não era possível que aqueles dois combinassem.
— Crocodile-ya, o que você faz? — Law perguntou.
— Eu sou empresário — respondeu, sem vontade de dar espaço para mais perguntas, no entanto, subitamente interessado em seu interlocutor. — Você começará medicina mês que vem, certo?
— É.
— O Law é um garoto muito inteligente! Ele passou em primeiro na prova de admissão — Rosinante elogiou.
Law, no entanto, pensava nos mil e um significados da palavra empresário quando jogada daquela maneira.
— O Torao é super inteligente mesmo! — Luffy exclamou e, na hora, Law parou de raciocinar, sentindo o coração bater mais forte. — Vai ter sobremesa?
— Eu vou pegar pra você — Law respondeu de imediato.
Depois seu pai que era gado.
— Pai do Law, se importa de a gente passar a noite aqui?
Law faltou engasgar com a própria saliva ao escutar a pergunta, e ao saber o que poderia vir em seguida, suas pernas começaram a se mover mais rápido que o normal para impedir a vergonha completa.
— Não se pede essas coisas em cima da hora! — Crocodile reclamou.
— Me chame de Rosinante ou Corazón. — Escutou o pai dizendo. — Se quiserem passar a noite aqui, eu não ligo. Temos um quarto extra.
— Precisa disso não! Eu durmo com o To-
— Aqui, Luffy-ya — Law interrompeu o namorado com uma taça cheia de doce, só que já era tarde, pois tanto o pai quanto Crocodile fizeram uma cara que seria cômica, não fosse o momento trágico.
Law precisava consertar as palavras do namorado antes que a situação virasse um completo desastre.
— Ele quis dizer no meu quarto. Eu posso dormir na sala.
Rosinante e Crocodile se entreolharam.
Law detestava quando pais faziam isso: era sinal de que fingiam ter acreditado e arranjariam uma desculpa. Ao mesmo tempo, ver que os dois eram capazes de se comunicar por um olhar trouxe um gosto amargo à boca.
— Não tem problema. Façam como achar melhor. — Rosinante fingiu ser o pai calmo que ele não era.
Luffy sorriu e Law, por sua vez, olhou de canto para Crocodile que retribuiu a gentileza com um sorriso de arrombado.
— O senhor também vai ficar?
— Por quê? Quer que eu fique? — Crocodile respondeu.
— Quero — Rosinante respondeu a pergunta que não era para ele sem pensar. Quando se deu conta do erro, arregalou os olhos, sem saber o que fazer. — S-se quiser, foi o que eu quis dizer.
Só não houve um novo momento de silêncio constrangedor, porque Luffy riu, sem maldade, mas ainda assim de um jeito que fez Law balançar a cabeça, desacreditado, e suspirar.
A reação dele não foi muito diferente da do próprio Crocodile.
— Vou pensar no seu caso.
Que resposta de arrombado.
Law não entendeu como o pai pôde ficar feliz com uma resposta daquelas.
Aquele homem devia ter alguma qualidade ou Law acabaria louco.
**
No final das contas, Crocodile resolveu ficar. A decisão surpreendeu até mesmo Luffy, que não ligava para essas coisas.
Law ficou entre dormir na sala — já que não poderia desfazer o que disse, mesmo não cumprindo, pois era capaz de Luffy migrar para o mesmo cômodo — e ficar de olho em Crocodile ou aproveitar a companhia do namorado.
Era o tipo de dilema idiota que ele sabia ser idiota. Parecia até mesmo que estava com ciúme do próprio pai, o que... poderia ser verdade, não fosse Crocodile o tipo de pessoa que faltava ter uma placa de neon na testa escrito “NÃO CONFIE”. De certa forma, lembrava o tio Doffy, aliás, esses pareciam combinavam muito mais.
E pensar que estava considerando Crocodile um babaca antes mesmo de conhecê-lo.
Sentou no sofá, pensando no pai que estava agora no escritório com aquele homem e na estranha sensação de estar agindo feito um idiota e ter consciência disso. Luffy não demorou a aparecer, vestindo regata e bermuda típicas de quando ficava em casa.
Até porque, Crocodile havia decidido ficar, mas não sem antes voltar para casa a fim de buscar algumas mudas de roupas.
Law também não deixou de notar o travesseiro extra que o namorado carregava debaixo do braço.
— Luffy, se for para fazer isso, melhor irmos dormir no meu quarto.
— Então vamos para o seu quarto — disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
A pior parte era que não dava para argumentar. Law pegou o travesseiro e a coberta, mas enquanto subiam as escadas, resolveu quebrar o silêncio.
— Luffy, seu pai é mesmo empresário?
— É. — Deu de ombros. — Ele é dono de um cassino.
— Por que nunca me falou dele?
— Precisava? — Luffy agora estava confuso.
Era melhor mudar de assunto.
— É que essa é a primeira vez que conheço um dos seus pais.
— Meu pai é legal. Meio mandão e chato, mas legal.
Se Luffy estava falando, não havia razão para ser mentira.
— Aliás, seu pai também é bem legal.
— Ele é. — Law sorriu.
Do andar de baixo ouviu risos. O pai parecia estar se divertindo e, mesmo que Luffy não estivesse mentindo, custava nada ficar de olho.
Pelo menos, até se acostumar com a ideia de ter um padrasto que também era seu sogro.
