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Uma aura assassina se formou ao redor de Akutagawa, o copo de plástico em sua mão direita quase completamente esmagado. Se olhares pudessem matar, o garoto de cabelos brancos mais a frente, o qual estava pacificamente fazendo coroas de flores junto das outras crianças, já teria caído morto há bastante tempo.
— Seja lá o que estiver pensando, tenho quase certeza de que o copo é inocente.
Como se só agora tivesse criado consciência do que fazia, o garoto soltou no chão o pedaço de plástico deformado. Um homem ruivo sentou-se ao seu lado, segurando um copo em cada mão, ele ofereceu um a Akutagawa, ficando com o outro para si.
— Qual o problema em relação ao garoto? — disse, apontando com o copo em direção a Atsushi, em seguida deu um gole em sua bebida.
— Fora o fato de que há apenas algumas semanas ele era uma das pessoas mais temidas de Yokohama e tentamos matar um ao outro? Nenhum. — A ironia em seu tom chegava a pingar. — Ainda assim, a Agência o aceitou e Oda-san até o tomou sob seus cuidados. Não acha que ele ainda pode representar uma ameaça? Digo, para os pirralhos.
— Hm. — Oda, que estava com o copo em seus lábios, o colocou sobre o chão e observou em silêncio por alguns instantes a cena à sua frente.
Semanas atrás, Akutagawa Ryunosuke, o protegido de Oda, declarou guerra contra a organização criminosa Máfia do Porto após descobrir que o homem o qual havia levado sua irmã anos atrás e o chefe da Máfia eram a mesma pessoa. Além de um encontro pra lá de inesperado com o chefe da Máfia em pessoa, Oda — e nem o restante da Agência de Detetives Armados — não havia tido uma grande participação no conflito, sendo assim, a maioria dos detalhes ainda eram um pouco nebulosos para ele.
Tudo o que ele sabia era que algo havia ocorrido durante a batalha final de Akutagawa contra Atsushi — o menino conhecido pela alcunha de Shinigami Branco da Máfia do Porto —, algo grande o suficiente para fazê-lo mudar sua mentalidade e deixar a organização criminosa para trás. Depois disso, várias coisas aconteceram em um curto espaço de tempo, que culminaram na atual situação: Atsushi agora estava vivendo junto de Oda e seus filhos adotivos.
Não fazia muito tempo desde que o garoto havia se mudado oficialmente para sua casa, mas Oda já podia notar algumas diferenças em sua pessoa. Apesar de ainda continuar calado e sério em torno dos adultos, Atsushi parecia muito mais leve e falante quando estava junto das crianças, Oda também havia finalmente o convencido a tirar aquela terrível coleira de seu pescoço — o garoto insistiu que aquilo o impedia de sair de controle e o mais velho precisou de muita teimosia e paciência para fazê-lo acreditar que, a habilidade do presidente Fukuzawa era o suficiente para controlar o tigre adormecido dentro dele —, contudo, Atsushi passou a usar bandagens em torno do pescoço mesmo sem necessidade, uma vez que o poder de cura do tigre foi capaz de fazer os ferimentos sumirem completamente — quando perguntado sobre isso, o garoto apenas deu um sorriso triste e disse que aquilo lhe lembrava de um velho amigo.
Mas principalmente sua expressão. Mesmo que aos poucos, Atsushi havia começado a sorrir e seus olhos agora estavam mais brilhantes e vivos, muito diferente da expressão vazia e opaca que ele carregava quando Oda o conheceu.
— Tudo o que eu vejo é uma criança perdida que precisa se encontrar. — O ruivo olhou para Akutagawa com o canto do olho. — Na verdade, ele me lembra alguém.
Ele fechou os olhos por alguns instantes, recordando-se da criança maltrapilha e faminta que havia encontrado na beira do rio. Era tão esguio e leve que Oda sequer teve dificuldade para posicioná-lo sobre seu ombro e posteriormente carregá-lo até a Agência. Aquela criança fraca e sem esperanças havia percorrido um longo caminho e se tornado o jovem cheio de potencial sentado ali, bem ao seu lado.
— Tsc. Não me compare a aquele tigre fedorento. — Akutagawa disse, cruzando os braços.
— Eu não disse nada, mas já que você sozinho fez a comparação. Talvez você se veja nele. — O ruivo tentou pegar seu copo, mas Rashomon acabou chegando antes dele, derramando o conteúdo. Oda apenas riu e deu alguns tapinhas leves nas costas do pupilo.
— Venha, eu também quero uma coroa de flores. — O homem ficou de pé e puxou Akutagawa pelas mãos, fazendo-o ficar de pé.
— Eu não preciso de uma coroa. — O garoto resmungou.
— Não tem problema, você pode me ajudar a fazer a minha. — Oda sorriu e colocou o braço em torno dos ombros de Akutagawa, que apenas revirou os olhos e concordou.
