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WILD HONEY PIE
por: exonguitars
Não é como se não estivesse acostumado com o frio, Junmyeon até gostava desde o tempo mais agradável até poder usar as roupas que comprou com sua mãe, na última vez que foram para Suíça. Eram poucas coisas que o faziam lembrar de casa, como algumas roupas perfeitamente dobradas que mesmo depois de um mês longe ainda não conseguiu tirar da mala e claro também o sentimento de estar em casa. Em noites solitárias como aquela até chegava a se questionar se aquela saudade era de algo que somente queria ter, e na verdade não tinha.
Para Junmyeon estava tudo bem, vivendo sua vida com seus livros e indo a cafés com seus poucos amigos, até que seus pais de repente o mandaram para aquele lugar tão longe de tudo, uma instituição de preparo para a universidade e quem sabe para já começar a universidade em si que ficava em algumas montanhas acima no meio de lugar nenhum na Escócia. Aparentemente para ser bem-sucedido pelos olhos dos pais ele precisava daquilo, isolado em um lugar prestigiado que seus amigos de negócios que eles nem mesmo gostavam de verdade disseram que era o ideal para seus filhos serem alguém na vida e seguir o legado da família.
Precisava de um cigarro, não conseguia ler um dos livros que estava lendo, um não obrigatório sendo A Sociedade dos Poetas Mortos, todo surrado com alguns trechos que sentia já estarem cravados em si. E se tivesse que ler mais uma linha de Odisséia fora da sala de aula ou se debruçar sobre um texto em latim, iria chorar. Junmyeon tinha quase certeza que queria ser um professor de literatura clássica, talvez fosse deserdado ou talvez soasse bonito e altruísta para seus pais jogarem na roda de conversas com seus amigos apesar que no fundo, seria claro que eles não aprovaram seu modo de viver, sua vontade, mas deixaria a imagem da família mais altruísta e até mais intelectual.
Junmyeon já tinha 19 anos e sabia as opções que possuía muito bem e não se sentia pronto para abrir mão do conforto de não saber o que quer e ter tudo aos seus pés do mesmo jeito. Se não fosse seu companheiro de quarto, pegaria o cigarro ali mesmo enquanto relia aquelas mesmas palavras.
“Sinto como se nunca tivesse vivido — Charlie disse triste. — Durante todos esses anos não tenho arriscado nada. Não faço a menor ideia do que sou, do que quero…”
O dormitório parecia uma suíte presidencial de algum hotel de luxo durante o inverno, os espaços da escola preparatória tinham uma arquitetura meio gótica que possui um charme decadente, se estivesse sozinho no quarto não tinha dúvida de que seu estado refletiria como ele se sente, sua sorte é que Yixing era um anjo, tão silencioso se movimentando pelo quarto e uma presença ao mesmo tempo tão confortável. Mesmo que seu envolvimento com Wicca várias vezes deixasse cheiro de ervas estranhas no ar, com seus olhos tão inteligentes por trás daqueles óculos que o deixava tão bonito, tinha a sensação curiosa que aquele rapaz sabia de alguma coisa que ele mesmo não fazia ideia, aquela leve malícia nas atitudes do outro não poderiam ser só sua imaginação.
Tinha dificuldade de dormir desde que chegou ali, nos corredores também não se sentia à vontade, as aulas eram o seu refúgio e o maior momento de paixão por algo que já tinha sentido, aprender aquilo que o interessava. Era tanto conhecimento que se sentia até inundado, era fantástico e assustador.
Não se esforçava exatamente para fazer amigos, Yixing era o mais próximo disso, só que ele já pertencia a um grupo, um grupo que intimidava Junmyeon com sua presença e podia jurar que bagunçaram também seus sonhos. Não faziam nada contra ele, mas a presença deles o deixava atormentado e a visível inclinação deles para que também participasse do grupo o deixava confuso. Era um novato.
Era até engraçado que tivesse sido mandado a um lugar que lhe lembrava tanto sua história favorita, podia se alienar que também fazia parte daquilo mesmo que fosse muito chato precisar usar gravatas todos os dias. Seu uniforme não era bem um problema mas poderiam ser enganados como se estivesse em um tempo totalmente distante dos anos 2010, algo que parou no tempo, suéteres e camisas sociais brancas e manto preso e liso, a calça de alfaiataria, os sapatos e meias eram livres, alguns acessórios discretos também eram permitidos mas todos tinham que estar em conformidade uns com os outros na vestimenta.
O grupo de Yixing era no mínimo enigmático, a sensação que participava de algo estranho só aumentava para Junmyeon, era uma instituição muito exclusiva e quem poderia pagar altas quantias entrava. Ninguém tinha muita certeza, mas parecia que seu companheiro de quarto tinha dois namorados, que não poderiam ser mais diferentes dele mesmo e mais atraentes, Baekhyun e Sehun, o primeiro sendo a faísca que todo mundo precisava para deixar a vida mais movimentava e não gostava de admitir, Sehun já era o que parecia o elo mais racional e mais introvertido, o próprio Yixing já era muito expansivo e talentoso especialmente em músicas e plantas para suas poções. Junmyeon não entendia como funcionava aquela religião, mas tentava ser respeitoso, sabia que a natureza era a coisa mais importante e só.
O centro daquele grupo era Minseok, Junmyeon nunca tinha visto uma pessoa tão intrigante e tão misteriosa em sua vida. Em suas furtivas observações nunca conseguiu descobrir muito sobre ele, pensava tanto nele que acreditava até que em seu sono pertubado sonhava com os olhos dele sob si, com os dedos esguios segurando seu rosto com o mesmo cuidado que Minseok parecia ter com o colar de ouro que sempre estava tocando.
Precisava tomar um ar e do jeito mais quieto que encontrou para sair para fumar, tinha uma parte do jardim não tão longe dos dormitórios que alguns casais usavam para se pegarem tarde da noite ou alguém como ele querendo fumar e que convenientemente os monitores não monitoravam como deveria. O vento frio e a nicotina o deixaram mais calmo, ficou 15 minutos só prestando atenção em sua própria companhia até que ficou um pouco entediado e começou a prestar atenção ao que estava acontecendo ao seu redor, não se surpreendeu com a presença de Minseok com Sehun e como eles estavam impecáveis como sempre, tinha pessoas que não tinham nenhum momento em que não eram extremamente bonitas e bem alinhadas, como aqueles dois eram.
O grupo de seu colega de quarto tentava fazer com que ele participasse de suas rodas de estudos e fazer algum dos esportes disponíveis, além de intimidado pela presença deles não era muito chegado aos esportes europeus demais e chatos demais para seu gosto, mas se sentia grato, um grupo sólido de amigos queria o integrar, podiam não ser os mais populares, mas eram os mais interessantes e inevitavelmente mais bonitos, em um mundo de prestígio como aquele.
A distância que estava não conseguia ouvir nem se quisesse o que estavam conversando, Minseok era sem dúvida desenvolto e poderia facilmente conseguir o que bem entendia, Sehun não parecia exatamente bem-humorado e foi o primeiro a notar a presença dele no jardim, com pequenos gestos avisou o amigo sobre isso, que olhou diretamente para Junmyeon com seus olhos gélidos que de repente se suavizaram ao mesmo que acenava para ele, de uma forma tão adorável que Junmyeon se questionou se não estava sonhando novamente com ele, de forma mecânica acenou de volta por educação.
Tão rápido que o cumprimento aconteceu ele se foi, Minseok voltou ao que estava fazendo e foi tão estranho e o tempo e espaço pareceu tão confuso, ele e Sehun não estavam amistosos com quem quer que seja que estavam conversando, eram duas pessoas, talvez alguma das poções de Yixing funcionava e o afetou, se sentia tonto e perdido, talvez estivesse realmente enlouquecendo por estar dormindo tão pouco e lendo tantas coisas diferentes ao mesmo tempo, mas Junmyeon poderia jurar de pés juntos que o tão composto Minseok pareceu ter presas e ter os olhos vermelhos vivos, não sabia o que estava acontecendo direito, não sabia como mas Minseok em algum momento estava ao seu lado, segurando seu rosto com tanta delicadeza e com um olhar tão desolado, ele estava falando mas Junmyeon não conseguia entender muita coisa.
— Esperei tanto por você Junmyeon, você… — Minseok dizia tão baixo, tão vulnerável e Junmyeon queria chorar, ele queria entender, ele queria saber mais.
No outro dia acordou em sua cama como todos os dias, se sentindo ainda mais tonto e desorientado e não conseguia se lembrar de como tinha parado ali de volta, se lembrava do toque gelado de Minseok em sua pele e se arrepiou, lembrava daqueles olhos bonitos o olhando com uma adoração um tanto melancólica, era estranho, mas não de todo ruim.
Por mais que nunca tenha se apaixonado por ninguém, sabia reconhecer que se sentia atraído por Minseok, desde o primeiro dia que o viu, quando Yixing os apresentou, mas não sabia o que fazer com aquilo, tudo na sua vida Junmyeon não sabia muito bem como lidar naquele mundo, não queria sair da sua cama e encarar o universo.
Não queria encarar Minseok tão cedo, queria aproveitar a chance que tinha de estar ali e encontrar seu lugar no mundo e encarar suas próprias vontades. Junmyeon sempre teve o hábito de fugir de tudo lendo e foi isso que fez, se sentia tão ingênuo para não dizer outra coisa quando se tratava de se relacionar com outras pessoas e se isolar era a única coisa que conhecia.
Seu mundo girava em torno do que tentava aprender, apesar de sentir a solidão cada vez maior dentro daquela instituição tão majestosa que tinha dias que parecia esmagadora e sufocante, não podia contar exatamente com sua família, quanto mais avançavam na escala da alta sociedade mais distante ficavam, se sentia descartável e que tudo à sua volta também era.
— Vamos lá, Junmyeon, todo mundo vai ver o jogo de futebol. — Yixing estava o arrancar de fora da biblioteca. — Não é críquete o que é uma vantagem, e ainda tem o bônus de ver o Sehun e o Minseok correndo de um lado pro outro com short curto e suados.
Junmyeon fica vermelho e um pouco animado, acompanhar qualquer coisa que não fosse críquete era mais divertido para passar o tempo. Na maior parte dos dias parecia que aquele lugar estava parado no tempo, não era permitido celulares e a internet era somente para os meios de estudo, era um choque muito grande e Junmyeon poderia estar vendo coisas onde não tinha mas até o comportamento das pessoas era estranho, não cresceu com nenhuma religião como regra de padrão social, o que conhecia era a regra social do dinheiro.
Talvez toda a estranheza estivesse dentro do próprio Junmyeon e ele procurava colocar isso nos outros, nem ele tinha certeza de muita coisa, mas era certo que ninguém tinha presas e nem olhos vermelhos. A imaginação dele corria longe até certo ponto até que começava a se autoincriminar, não era possível, não conhecia muito do mundo e muita ficção estava o deixando ainda mais confuso.
Tinha momentos que sentia algo de errado com Yixing e seus amigos, mas não sabia dizer o que eles eram tão simpáticos consigo, que ele se sentia mal por pensar assim. Desde que chegou o sentimento de vulnerabilidade, não o abandonou, fosse pelos jogos sociais que os jovens ricos ali viviam, que já esperava, mas mesmo assim não tornava a coisa toda mais agradável e também com aquele grupo que não sabia explicar o que era.
Muita gente rica demais no mesmo lugar era um prelúdio de um engolindo o outro, ou porque podiam fazer isso ou por estarem entediados demais e precisavam de uma emoção a mais. Tentava viver um pouco à margem daquilo só não tinha pra onde correr e o grupo do seu companheiro de dormitório, mesmo com a impressão estranha que tinha deles, parecia o mais perto do normal do que poderia ter.
E realmente acompanhar Minseok correndo de um lado pro outro foi uma distração muito bem vinda, nas vezes que ele se aproximava de onde estava para pegar água, que Yixing cuidava de forma zelosa. Minseok além de uma grande visão, era uma presença tempestuosa, nas poucas aulas que compartilhava com ele o observava questionando em alto e bom tom alguns professores, era firme no que falava e mesmo recebendo repreensões não se calava.
Era engraçado como Yixing e seus amigos pareciam sempre estar no lugar certo, na hora certa ou talvez fosse porque Junmyeon orbitava junto com eles e não percebia ou queria admitir. Por mais independente que quisesse aparecer, só queria pertencer a algum lugar e lá no fundo conhecer o que é sentir alguma coisa real, não o que esperavam que ele se sentisse e se comportasse.
A rotina realmente mudou quando em uma tarde comum 6 meses depois que viu Minseok com os olhos vermelhos no jardim, estava treinando a escrita em latim e leitura em latim, se sentia bem disposto e ter se arriscado a tomar algo feito pelo seu companheiro de quarto o fez se sentir muito bem e Yixing não era somente bom em palavras como também muito habilidoso como bruxo. Minseok tão sorrateiramente se sentou ao seu lado e ficou repetindo as palavras que estava estudando, como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo.
Não esperava que fosse convidado para passar uma tarde no River Devon, que era um rio idílico e o rio mais próximo de onde estavam, tinham algumas horas livres e a ideia de fugir de algumas obrigações por um dia em algum lugar apreciando a natureza com boa companhia, quando chegou no dia sua confusão se perdia entre a beleza etérea a sua frente e com a presença expansiva de Minseok.
Somente os dois dentro do seu próprio tempo, em um piquenique simples a uma distância da margem do rio, Minseok deitado olhando para o céu e pedindo para que Junmyeon continuasse falando o que quisesse, sua vida e seus livros, novas línguas que se interessava, suas aulas e só ouvia.
— Ainda não sei o que faço aqui, é como se o tempo fosse diferente neste lugar — Junmyeon disse olhando para o rio.
— Talvez seja, ou talvez você esteja deixando algo escapar — Minseok respondeu, ele tinha um sorriso quase infantil, mas não tinha como se enganar, seus felinos olhos eram maliciosos demais para isso.
Se sentia atraído na mesma medida que se sentia intimidado, ele não falava muito de si que fosse muito pessoal, deixando apenas escapar que conhecia Yixing de muito tempo e que cresceu com Baekhyun, Minseok comia muito pouco e a contragosto isso ele já tinha notado nos refeitórios. O silêncio entre eles era confortável, não se conheciam muito, mas não tinham aquela necessidade de falar o tempo todo para preencher o espaço.
— Quero que sinta uma coisa — Minseok disse de repente enquanto falavam sobre um livro de contos que ambos gostavam. — Feche os olhos.
Quase que como um comando se sentiu compelido a obedecer, a respiração de Junmyeon ficou um pouco mais difícil e o primeiro contato que sentiu foi na sua mão, a temperatura do corpo de Minseok era estranha, mas não exatamente ruim. O jeito como a mão dele na sua o fez relaxar um pouco causou uma sensação diferente.
Como naquela noite, pareceu mais uma vez que tudo ficou suspenso, sentiu um toque frio em seu rosto, talvez fosse o nariz de Minseok em sua bochecha, não tinha como ter certeza, não conseguia sentir uma respiração contra si.
— Eu esperei tanto por você Junmyeon, você foi tão ruim por me fazer esperar tanto — a voz de Minseok saiu baixa e abafada contra a sua pele.
Junmyeon não entendeu direito, mas a próxima ação de Minseok o impediu de tentar formular qualquer resposta. A atenção do mais velho estava na parte mais sensível de seu pescoço, leves e devotados beijos e de forma involuntária quase imediatamente o puxou contra si para ficar mais perto, sua mão indo para os cabelos dele, na nuca e no meio daquele momento em que se sentia derretendo naqueles braços que estavam em volta de seu corpo, com justamente aquele cara por cima dele e mesmo tão delicado o acendeu mais do que com os amassos desajeitados que deu quando estava na casa dos seus pais.
Se arrepiou quando sentiu que Minseok iria o marcar com os dentes, não era tão inocente para não saber o que era chupões e como os fazer, só não esperava aquilo sem nem ao menos ser beijado. Sentia os dentes meio que raspando em sua pele, entretanto, a mordida em si não chegava, só que era estranho até que se lembrou de ter vistos as garras e ficou rígido de medo, o abraço contra si apertou, mas não ao ponto de o machucar e por breves momentos tentou se desvencilhar.
— Não vou te machucar, não agora que te encontrei. Se você tivesse ideia do quanto eu procurei por você, quanto tempo eu esperei até que fosse seguro. — A voz era uma lamentação. — Finalmente o vazio está acabando, Junmyeon, e não vou perder isso de novo. Por favor.
A mesma sensação daquela noite no jardim o tomou novamente, só que com a diferença de uma dor lancinante onde os dentes de Minseok morderam o seu pescoço e tudo ficou em suspenso, não tinha força nem para gritar mas não queria o empurrar para longe, queria que a dor parasse, que seus pensamentos voltassem a ser tão sólidos como eram.
Pela segunda vez acordou desnorteado em sua cama, mas, naquele momento, a raiva que sentia o tirou do seu estupor. Minseok não tinha o direito de fazer aquilo sem sua permissão, não tinha o direito de quebrar a promessa deles que se comprometeram tantos anos atrás, que o deixaria encontrar a imortalidade por seus próprios meios, pelos seus próprios estudos. Já esteve tão perto de fazer o elixir da vida com uns empurrões de Yixing, tinha certeza de que conseguiria chegar lá mesmo que não se lembrasse de fato quem era e não o transformar em um vampiro sendo o caminho mais fácil, eles nem tinham se reencontrado por tanto tempo, seu companheiro já foi mais prudente.
Agora que sabia quem era naquele corpo, naquele tempo tão diferente do seu já que tinha morrido aproximadamente há 150 anos depois de uma emboscada que Minseok não conseguiu o salvar a tempo, fingiria dormir, ainda tinha muito o que pensar, estavam no lugar errado e vulneráveis a outras criaturas e quem sabe deuses contra eles, a ciência não deveria se misturar com o divino, ou no caso de Minseok, com sua natureza predadora. Mas não abriria mão dele, era um homem precavido e sábio que pela ligação que tinham, tinha a certeza que retornaria para ele, que suas almas se complementariam em algum momento, só não sabia que demoraria tanto para nascer novamente, para que sua alma estivesse pronta para aquele reencontro e se juntar a ele.
Conhece Minseok há tanto tempo que é como se estivesse com ele desde que chegou ao mundo, era tudo muito menor e mais simples e a miséria que compartilhavam era a única certeza no começo deles. Minseok a miséria na forma da fome e para ele na forma de punições físicas sem fim em nome de uma religião que odiava, uma série de roubos e trapaças os liberam de seu algoz e os jogaram em outro ainda desconhecido, portanto, tinham um ao outro, até que o mundo sobrenatural os atropelou e tomou Minseok para si e o tornou vampiro e como vampiro seu parceiro encontrou seu lugar no mundo, tomando sangue humano e acumulando riquezas por seus próprios meios. Os vampiros eram uma sociedade organizada junto de outros seres sobrenaturais, como os bruxos, e eram conhecidos por sua vaidade e sua sede de poder, vampiros estes que valorizavam a beleza e o dinheiro tanto quanto o sangue os mantiveram existindo e Junmyeon estava ali somente por Minseok, que por causa dele, conheceu aquilo que tornou o propósito de sua vida, o conhecimento, principalmente a alquimia. O trato com a filosofia, medicina e a arte sendo seu principal foco entre tantas outras possibilidades que se abriram aos seus olhos.
Se tornam poderosos demais em seu próprio modo e juntos se tornaram perigosos e quando se deram conta que o cerco estava se fechando, nenhum dos dois queria que Junmyeon se tornasse vampiro e tinham fé que ele encontraria um jeito de ter a vida eterna do lado do homem que amava, só não tiveram tempo para isso e não tinham como prever quando que a alma dele voltaria ao mundo. Deixou suas anotações e tudo que poderia ajudar quando o tempo chegasse com Yixing, que era tão talentoso e ainda tinha contatos com os seus com o dom da vidência e tempo não seria um problema, bruxos envelhecem de forma diferente e Minseok não estaria sozinho.
Yixing sabia o que fazer para o procurar e facilitar o processo para que se lembrasse de quem era, afinal voltaria com o mesmo rosto e corpo, a vidente que o criou foi quem previu o ano de seu nascimento, sem o lugar onde estava e mais nenhuma informação, conforme crescia o universo daria chances para que escolhesse o próprio destino, tanto para continuar o caminho de onde foi arrancado ou traçar um novo caminho.
Junmyeon se lembrava de ambas suas vidas, ainda que misturadas, e parecia que um caminhão tinha passado por cima dele, Minseok iria pagar por isso, por estragar seus planos, por tão pouco não foi como deveria ser, queria ter tido a chance de fazer seu próprio elixir da imortalidade, os recursos que tinha agora eram tão mais ricos, não era justo.
— Junmyeon, pare de pensar em formas de torturar o pobre Minseok. — Yixing o desperta dos seus pensamentos. — Foi muito tempo que ele esperou por você e pode levantar, você tem aula.
A contragosto se levantou e ignorou todos do quarto, Sehun e Baekhyun estavam por ali olhando para ele com curiosidade e, claro, Minseok, que estava tomando alguma poção feita por Yixing para que ele e os outros pudessem ficar o mais normal possível no meio de seres humanos e conter seus impulsos. Não queria encarar nada daquilo agora e só seguiu sua rotina ignorando os outros até que se sentisse mais calmo na situação que estava.
Agora que tinha suas lembranças de volta, seus sentimentos por Minseok eram ainda mais aflorados e precisava depois estudar sobre isso, mas estava certo que só se lembrava de tudo quase imediatamente por conta do elo que possuíram, tanto bruxas como vampiros mais velhos que conheceram afirmaram que eram almas gêmeas e que quando o mundo foi criado e o ser humano foi dividido em duas partes, os dois se encaixavam de forma perfeita. Sentiu a falta de sua outra metade mesmo que não soubesse que era disso que sentia saudades, só precisava de um tempo para aceitar que não foi pelo modo que escolheu que ficaria ao lado dele.
Minseok era puro instinto e não consegue imaginar o que ele possa ter sentido durante todo o tempo que o esperou, a segurança da ignorância o abençoou por 19 anos que estava nessa nova vida, com essa nova família e toda essa nova história que agora carregava junto consigo e o amava como um louco ao mesmo tempo que seu mais recente eu estava interessado por ele também por mais que se sentisse vulnerável ao lado dele. Agora mais do que nunca sabia que não tinha o que temer, só que isso não tornava a situação mais fácil, não quando tinha outros jeitos deles ficarem juntos e dele recuperar suas memórias.
Não conseguiria ficar longe dele por muito tempo e não queria, só precisava se acostumar com sua nova condição e isso era o que repetia para si mesmo enquanto tentava fazer o mesmo de sempre, seu eu atual ainda era muito perdido sobre tudo na vida, se sentia abandonado por sua família.
Durante as aulas não conseguia prestar atenção e sentia que Minseok o observava mais do que o comum. Não podia fugir dele por muito tempo. Yixing era um achado além de ser seu confidente, ainda era cuidado por ele já pela própria experiência conhecia que a transformação de um vampiro não era um processo fácil, mas com tudo que o amigo sabia fazer, poderia imaginar dos rituais ou o que poderia ter tomado e não se lembrava para ficar tão sob controle com tantos humanos ao redor.
Estava ali por causa de Minseok no final das contas e se lembrava de quem já foi também por ele, era um sentimento agridoce. Não era justo que tudo acontecesse de um jeito tão desastrado, Junmyeon sabia que poderia encontrar a imortalidade por ele mesmo e essa chance foi perdida, tempo não seria um problema para fazer seu próprio elixir ou quem sabe uma pedra filosofal que é algo um tanto mais complexo.
Passou o resto do dia tão ocupado tentando lembrar exatamente os conceitos mais básicos de química, que seu eu atual não era tão bom que não percebeu os olhares preocupados dos seus amigos, na verdade nem tinha prestado tanta atenção a eles e sim para tudo que não saiu como ele queria, no fundo se sentiu culpado, mas acreditava que estava no seu direito.
Minseok não foi o único que sofreu e possivelmente mais do que ele, não custava esperar mais um pouco e as coisas seguirem um curso mais dentro do natural nas circunstâncias, o novo Junmyeon tinha mais facilidade de expressar sua vulnerabilidade e não conseguia se entender totalmente no momento.
Saber quem era de verdade também veio com a certeza de que era amado e que nunca mais se sentiria sozinho como se sentiu durante 19 anos e que poderia fazer o que desejava sem remorsos, sem amarras. Com o passar do dia, começou a ficar fraco e foi para o seu dormitório, se jogando na cama ainda com os sapatos e a gravata em seu lugar, o que poderia o sufocar e se distrair do que não queria pensar não existia mais. Poucas coisas agora poderiam o machucar.
— Pensei que nessa vida você preservava mais sua boa aparência, Myeon. — Baekhyun tinha um tipo de voz muito específico quando falava, sempre soava como se ele estivesse sendo zombeteiro. — Não sentiu saudades de nós? Esperamos tanto para você chegar.
— Você não costumava ser tão fofo assim Baekhyun. Se me lembro bem, você tem uma boa mira — Junmyeon resmungou no travesseiro. — Aliás, o que acontece entre você, Sehun e Yixing?
— O que acontece entre você e Minseok? Até em outra vida, você ficou caidinho por ele e agora está aí deitado se lamentando como o bom riquinho contrariado que você é. — Baekhyun sabia ser tudo, menos sutil.
Antes que pudesse responder qualquer coisa, uma voz também bastante conhecida se intrometeu.
— Você vai ter a eternidade para o perturbar, mas agora ele precisa de sangue. Nessa fase ele precisa de sangue mais fresco e Minseok conseguiu — Sehun disse já se sentando na cama e empurrando Junmyeon sem cerimônia.
Ainda tinha que beber sangue humano agora, realmente não era a melhor forma de ser imortal. Não iria pensar na forma de tirar sangue humano para sobreviver, no passado não se importava muito com isso contanto que Minseok estivesse bem, mas agora era estranho pensar nisso, era uma necessidade de sangue que agora fazia parte do que era.
Sono já não era seu companheiro antes, as noites se tornaram mais longas e por mais que quisesse que Minseok estivesse ao seu lado, não queria dar o braço a torcer e o procurar, quem tinha feito algo errado não foi ele. Sempre teriam seus livros e ficou triste ao lembrar da grande biblioteca que possuía na mansão que moravam juntos antes de morrer, seu laboratório, tudo que construiu que foi perdido. Uma das coisas que mais amava em Minseok era como ele tinha um senso de quando precisava dele, tanto para momentos para o confortar, o acolher, como para o salvar de algum apuro que se envolvia.
Desde criança seu companheiro já se movia ágil como um gato, depois que foi transformado em vampiro ficou muito mais gracioso e o observar era um deleite, tudo com Minseok era na verdade, mesmo quando ele só se sentava ao seu lado ou tinham discussões acaloradas enquanto estudavam idiomas ou sobre algum comportamento que não gostavam um do outro. Ele nunca sofreu grandes momentos de conflitos morais sobre beber sangue humano, quando ainda era humano já não era muito dado a maioria dos moralismos religiosos. Junmyeon estava deitado lendo, mas nenhum assunto prendia sua atenção quando estavam no mesmo lugar e Minseok se deitou ao lado dele, sem o tocar.
Deixou cair a peça que estava lendo e quase se sentou, mas desistiu porque queria seu corpo junto ao dele, sempre foi assim e agora que eram a mesma criatura era quase insuportável o empurrar quando Minseok estava tão por perto.
— Eu não vou pedir desculpas por fazer você ficar para sempre, se é isso que você quer — Minseok disse sem rodeios, era uma resposta óbvia entre eles. — Só sinto muito que tenha te machucado, mas não me peça para ser alguém que não sou e por querer estar ao seu lado depois de mais de 100 anos, depois de ficar sozinho tentando redimir por ter te colocado nesse mundo das sombras lá atrás só por me amar.
Amar Minseok nunca foi um sacrifício, nunca foi uma obrigação ele ter o salvado tanto tempo atrás de quem o deveria o proteger e só o quebrou, nenhum orgulho era maior do que viveram, sejam os anos de opulência ou os momentos em que só tinham a roupa do corpo e um ao outro no mundo que os desprezava.
— Você tinha que fazer do seu jeito, não é? — Junmyeon disse já um pouco derrotado, tocando em seu rosto e indo para os seus braços, percorrendo com os dedos o que já fez tantas vezes.
Poderiam ficar horas naquele jogo tão conhecido por eles, mas se beijar novamente depois de tanto tempo, era uma forma muito melhor de passar o tempo e agora mais do que nunca eram iguais, não tinham mais barreiras, nenhuma limitação para voltarem a se tornar um como eram antes do mundo ser o que é. Conhecer novamente o corpo um do outro, seus desejos e novos sonhos era a realidade que tinham e continuar também de onde pararam se quisessem, novos obstáculos com a imortalidade como aliada.
Procuravam coisas em comum e a perfeição não era uma delas, Junmyeon também tinha uma família para colocar na balança e que antes não tinha, o mundo mudou até se encontrarem de novo, ainda precisava pensar em qual profissão escolheria por mais que amasse alquimia, por experiência própria sabia que funcionava melhor longe dos olhos das pessoas que não entendiam ou tolerar aquela ciência tão antiga.
Junmyeon teria que ensinar Minseok em algum momento para não tentar manipular tanto suas emoções, o deixando confuso quando bem entendesse como era antes de ser transformado. Agora como vampiro, sabia reconhecer as habilidades do outro por também as ter, era grato por Yixing estar presente desde que chegou ali porque ele trazia um equilíbrio que Minseok não tinha e tudo poderia ter sido ainda pior do que já foi e não os abandonou, o bruxo era o mais pé no chão entre todos eles.
Uma saudade fútil que tinha da vida humana era poder fumar quando se sentia nervoso ou embaraçado, tinha certos aspectos da sua nova personalidade que o fazia revirar os olhos para si mesmo, como Minseok em um calção de banho muito semelhante com os que usavam em seu próprio tempo, não revelando quase nada mas que ele conhecia muito bem o que escondiam. Se pudesse teria ficado vermelho porque Minseok poderia o ler pela conexão que tinha, literalmente o ler em seus pensamentos assim como ele também podia.
Aquele lugar imponente cheio de jovens adultos construindo seus futuros e engolindo uns aos outros no caminho, eram só uma parte do que sua existência agora era como imortal, não foi bem sua ideia ser um vampiro professor de literatura e de uma forma ou de outra conseguiu o que queria, a imortalidade para explorar todas as áreas do conhecimento que lhe interessasse e amar Minseok sem medo de que algo os separasse.
— Não está ansioso para voltar para casa? As férias estão finalmente chegando — Minseok o perguntou ainda molhado, depois de nadar no River Devon. — Não faz ideia de como foi difícil espantar invasores sem fazer um banho de sangue, por mais tentador que foi, preservar sua preciosa bagunça por um século só um louco.
Não foi de cara que conseguiu entender cada implicação, não quando Minseok o lembrava um gatinho molhado contrariado se secando e era surreal demais, só que o detalhe do mundo sobrenatural que fazia parte era que nada era impossível e que Minseok, assim como na outra vida e nessa, faria qualquer coisa por ele, mesmo que por ele mesmo achasse mesquinho e que para Junmyeon não era, como seus papéis riscados em um latim desleixado.
— Casa, você diz nossa casa? — Junmyeon precisava ter certeza, não queria entender errado justamente aquilo. — Minseok, com isso não se brinca, eu nem lembro direito como é estar em casa sem pensar nos papéis que deixei pra trás.
— Bobo, é sua cara lembrar somente disso quando temos uma cama de dossel, quase do tamanho das porcarias de dormitório que temos que dividir aqui, tanto dinheiro para dormir numa caixa de fósforos — Minseok responde beijando sua mão, algo que ele gostava de fazer. — Agora é melhor aproveitarmos que estamos sozinhos antes do Baekhyun e os meninos chegarem.
A noite já estava chegando e o rio junto com o céu pareciam uma coisa só em um tom de azul etéreo com o contraste dos vividos olhos vermelhos de Minseok com suas feições de tanto amor e adoração que em nada pareciam de um sugador de sangue humano nos seus olhos igualmente vermelhos. Estar completo pela primeira vez em suas duas vidas valia ter que estudar com tanta gente mesquinha mais nova do que era e ter que beber sangue e não um elixir da vida para cada dia estar ao lado dele redescobrindo tudo que ambos os mundos tinham a oferecer.
