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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2022-07-13
Words:
14,845
Chapters:
1/1
Kudos:
18
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6
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290

Lucky

Summary:

Harry possui osteogênese imperfeita, condição que faz com que seus ossos sejam frágeis como vidro. Por insistência de sua irmã, muito fã de esportes, decide acompanhá-la na semifinal de boxe. A surpresa vem quando ele é chamado para sair por Louis Tomlinson, o lutador finalista.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

"Você consegue me escutar? Estou falando com você
Através das águas, do outro lado do profundo oceano azul
Sob o céu aberto, oh, nossa, meu bem, estou tentando"
– Lucky - Jason Mraz feat Colbie Caillat.

 

Quando o pugilista com aparentemente dois metros e cento e tantos quilos desaba no chão do ringue, Harry tem a sensação de que a terra treme. O homem é tão imenso que não seria surpresa caso uma cratera se abrisse exatamente onde ele caiu desacordado.

O golpe foi doloroso.

Ele pôde ouvir o som dos ossos quebrando e isso inevitavelmente refletiu em si próprio, embora não fosse necessário algo tão forte para quebrá-lo. Harry era um tipo raro de pessoa, ele não exigia esforço, por ser assim, tão facilmente destrutível.

Foi só ao nascer que descobriram o que havia de errado com ele. Portador de uma doença delicada chamada osteogênese imperfeita, o que afeta a condução do colágeno que nada mais é do que uma proteína que ajuda a fortalecer os ossos, conclusão, Harry tinha ossos tão frágeis que se quebram como vidro. Isso naturalmente lhe acarretou uma vida cheia de limitações, desde a infância e se propagando pela vida adulta. É claro que nos primeiros anos fizeram todo o possível para que ele levasse uma vida o mais próxima do normal, mas a escola era inviável, uma vez que só de andar nos corredores durante as trocas de aula era puro suicídio para o garoto. Ele tentou, mas no instante em que a primeira fratura aconteceu, Anne não resistiu em tirá-lo de lá, Harry estudou em casa, toda vez que se metia em qualquer passeio levemente "arriscado" acabava mal, com o tempo ficou evidente que ele era incompatível com os demais garotos da sua idade. Coisas simples como ir a um pub ou um passeio de bicicleta significava a morte para Harry.

E foi após tantas tentativas frustradas, em conjunto com outras tantas fraturas e meses, até anos, com idas desesperadas ao hospital com seus membros sendo literalmente torcidos e retorcidos. Sem contar a dor, depois de um tempo ele começou a temê-la e evitá-la a todo custo.

Sabendo que esta seria sua condição e não adiantando quantos tratamentos experimentais ou remédios caríssimos ingerisse na tentativa vã de achar uma cura, nada funcionava e ele teria de lidar com isso pelo resto da sua vida. A única coisa que lhe restava era tentar fazer com que passasse mais tempo dela inteiro do que repartido em pedaços.

Foi com esse objetivo em mente que ele guiou sua vida, no lugar de seguir o sonho de se tornar um chefe de cozinha, o que iria requerer aulas práticas, numa universidade de verdade, e trabalhar em uma cozinha de restaurante, agitada, com pessoas para todo lado, correndo e se batendo – o que consequentemente quebraria os ossos de Styles – , acabou abraçando seu amor pelos lírios e girassóis e quando se mudou com sua irmã para Londres abriu uma pequena floricultura que era sua maior e mais apaixonante realização. Lá não havia correria, todos sempre andavam com vagarosidade por entre as prateleiras com vasos coloridos e o principal, as rosas não podiam feri-lo, aquele deveria ser o único lugar que Harry não se sentia como um menino de cristal, mas sim alguém normal. Como qualquer outro, ele dizia a si mesmo toda vez que pisava em seu paraíso particular.

Quando não estava no trabalho ele gostava de ler, cuidar do jardim, meditar, praticar yoga no nível mais leve possível, fazer cursos online e seu único passeio era até o lugar onde ele sabia que não era o único que não podia se machucar. Os idosos recebiam Harry de braços abertos durante todas as quintas que ele surgia para jogarem cartas, xadrez, dominó, ou bingo.

Em todas as vezes as senhoras diziam a mesma coisa: não tenha medo de aproveitar a vida, se machucar é natural. O problema é que ele já havia se machucado demais e estava cansado disso.

Mesmo assim, resoluto quanto não se colocar em situações que não lhe oferecessem segurança absoluta ele aceitou, talvez por impulso ou um surto. Não se sabe. Mas era isso, naquela noite fria de sexta-feira Harry se colocou em perigo ao entrar num carro, o qual sua irmã que provavelmente havia comprado a carteira de motorista, dirigia, enquanto eles seguiam até a semifinal do campeonato nacional de boxe. Era absurdo, contudo, Gemma era uma grande fã de esportes desde criança. O principal motivo para ela ter se mudado para a capital foi justamente a oportunidade de ver de perto os maiores eventos esportivos do país, tal como este.

Em anos Harry nunca sequer cogitou acompanhá-la.

Mas quando ela o chamou casualmente, as palavras da velha Sra. Gambell martelavam em sua mente e por mais uma vez ele resolveu arriscar.

E okay.

Agora ele estava apavorado.

Gemma tinha ingressos para a primeira fila e eles chegaram cedo, o que evitou que eles pegassem uma fila monstruosa e violenta. Só que depois de ver toda a agressividade e tumulto envolvendo o lugar ele começou a se questionar se de fato foi uma boa ideia aceitar o convite.

Com certeza não.

— Isso, Payne, arrebenta ele! — Sua irmã gritou quando o lutador deu um soco certeiro no rosto do outro. Harry não deixou de se doer por aquilo, se fosse com ele... Por Deus!

O tal Payne venceu.

Restava só mais uma luta para saber quem viria a ser seu oponente na luta final que aconteceria na próxima semana.

Ele não fazia ideia de quem seriam os próximos competidores, mas torcia para que fosse menos brutal do que os anteriores.

Sua irmã vibrava com tudo aquilo.

— Se divertindo? — Ela perguntou, tirando fotos do lutador que levanta os punhos em vitória. Todos gritam por ele, uma ou outra vaia, mas ninguém dá a mínima.

— Aqui é bem barulhento. — Disse encolhendo os ombros ao que o homem às suas costas berra enlouquecido.

— Claro, é a semifinal, um desses caras vai levar o cinturão semana que vem. — Harry assentiu, sem ter a menor ideia do que aquilo significava, qual era a graça em ter um cinto? Não era melhor um troféu? Uma medalha?

Era tudo tão idiota. Eles eram perfeitos e se feriam propositalmente.

— Droga, minha cerveja acabou. Eu vou pegar outra, você vai ficar bem?

— Contanto que ninguém toque em mim.

Gemma olhou sobre o ombro.

— As arquibancadas são bem divididas e aqui é chique, não tem empurra-empurra.

— Sendo assim, eu vou ficar bem.

— Vai querer alguma coisa?

— Um chá gelado, por favor. — Harry pediu sorrindo com os lábios fechados.

Ela não evitou de revirar os olhos. Chá gelado era o tipo de coisa que você não encontrava naquele lugar.

— Vou ver o que eu posso fazer. Volto em um instante.

Styles a observou partir. O falatório era incessante, assim como pessoas nas arquibancadas da frente imitando os golpes dos boxeadores e fazendo comentários e críticas como se fossem especialistas no assunto. O que deveriam ser já que usavam camisas do Mike Tyson, Muhammad Ali e outras com os nomes dos lutadores que competiam esta noite. Harry baixou os olhos para seus vans, a calça de veludo vinho combinada com a camiseta branca e o sobretudo. Ele realmente precisava usar sobretudo com uma calça de veludo? Tudo a ver.

Isso é claro se esquecessem seus óculos de grau com armadura de oncinha que descansava no topo de sua cabeça.

Dava, literalmente, pra ver que aquela não era sua área.

Foi refletindo consigo mesmo, revirando seus bolsos que ele sentiu algo fino e escorregadio deslizar por seus dedos. Firmou os dígitos e puxou a correntinha de prata com o pingente da cruz. Ela brilhou em sua visão quando todo o público se levantou em um estardalhaço assombroso, o primeiro pensamento que o ocorreu foi que havia começado algum incêndio ou que só fosse Taylor Swift surgindo no meio do ringue para um show surpresa, o que devia equivaler ao mesmo para os fãs de boxe quando o grande astro chegou.

Se tratava de um homem, um lutador, ele não era muito grande, mas o recebiam como se fosse um gigante. Usava um robe vermelho e calções azuis, Harry procurou por um instante pelas estrelas brancas, bem, talvez ele fosse daqui mesmo. Seus punhos golpeavam o ar e todos queriam uma brecha para vê-lo, o que incluía o homem grisalho e rechonchudo as suas costas, no frenesi ele se inclinou, o cotovelo bateu no ombro de Harry. Antes de sentir o toque ele viu estrelas.

Tudo escureceu.

— Qual é a porra do seu problema? — Ouviu alguém gritar com uma voz raivosa.

Foi quando se deu conta de que estava encolhido no banco, abraçando a si mesmo. Todos o olhavam assustados e certo, ele gritou mais alto do que a voz do juiz no microfone anunciando o nome de Louis Tomlinson, o boxeador preferido.

— Eu não sei. Eu mal toquei no garoto. — O homem respondeu confuso.

— Ah claro, todo mundo viu. Se está tão afim de brigar sobe comigo no ringue e vamos ver como é que se sai, seu merda.

Os olhos verdes de Styles dobraram de tamanho, ele não podia acreditar que um lutador de verdade estava armando um escarcéu para defendê-lo.

— Okay, Louis, já chega! — Alguém da equipe de Louis pediu.

Harry levantou o rosto a tempo de ver o mais velho fechar a cara e repelir o toque em seu braço de maneira hostil.

— Eu não luto enquanto esse cara não sair daqui. — Decretou.

E por mais animador que fosse estar sendo valentemente resgatado ele sabia que não era nem um pouco justo deixar que o pobre desconhecido fosse injuriado.

— Por favor, ele não fez nada. A culpa foi minha, eu é quem não deveria estar aqui.

Tomlinson desviou o olhar mortal para encarar o rapaz de forma bem mais afável.

— Não tem porque defender esse merda.

— Eu não estou tentando defender ninguém, acontece que ele mal me tocou.

— Você gritou.

As bochechas do mais novo coraram.

— Eu me assustei.

O lutador colocou as mãos nos quadris e refletiu brevemente sobre o que ouviu, meio ranzinza soltou um "foi mal" para o homem que deveria ser tão seu fã que só faltou desmaiar em encantamento. O público continuava a berrar por Tomlinson quando este se ajoelhou, seu braço roçou no joelho de Harry que não tardou em se encolher um pouco mais.

Louis era um lutador, seu trabalho era machucar pessoas, provavelmente um toque áspero seu poder esmigalhar seus ossos num piscar de olhos.

— Isso é seu? — Perguntou baixinho, mostrando o colar que sem se dar conta deixara cair.

Harry olhou ao redor. Ele tinha atenção geral.

O oponente já esperava por ele no tablado e mesmo assim ele continuava ali, agachado e se importando, embora não tivesse obrigação alguma para fazê-lo. Indo contra todas as expectativas, Louis Tomlinson era gentil.

— Fique. Pra dar sorte. — Murmurou timidamente. Seu desejo era tocar a mão de Louis para fazer com que ele envolvesse os dedos ao redor do pingente, mas não. Era perigoso.

De repente surgiu um brilho, Harry se atentou a cor dos olhos de Louis e em muito se assemelhava ao céu aberto e claro de uma manhã de verão. Ele quis ser uma borboleta e poder voar livremente por aquela imensidão azul, mas no mundo real ele era apenas um menino de vidro.

— Precisamos ir agora. — O treinador de Tomlinson gritou.

Sem dizer nada ele se levantou e partiu em direção ao ringue. Na mesma hora Gemma retornou, habilidosamente equilibrando dois copos cheios, um cachorro quente e um balde de frango.

— Perdi alguma coisa? — Quis saber dividindo o peso com Harry.

Ele olhou para Louis que se preparava para o combate e para sua irmã.

— Nada demais.

— Ufa! Ainda bem.

Era engraçado como o rosto de Louis estava pelos pôsteres espalhados por todo o lugar, de haver pessoas usando camisas com sua foto e só agora, depois de estar cara a cara com ele, com milímetros de distância entre eles, foi que Harry percebeu como o lutador era bonito. Ia além de seus traços assimétricos e fortes, do cabelo brilhoso que caia por seu rosto enquanto saltava de uma perna para a outra durante o aquecimento ou em como seus músculos eram bem definidos, era algo além, ele não podia explicar, nem ver, ele apenas sentia.

Era isso. Ele sentia toda a beleza que havia em Louis e isso era assustador e incrível, ambos na mesma intensidade.

Então a luta teve início. Harry não se agradava em ver pessoas se socando, mas aquela luta em particular o deixara com um aperto agonizante no peito.

Seu chá gelado ficou entalado em sua garganta quando Louis levou o primeiro soco, seu oponente era imenso, do tamanho ou até maior do que aquele gigante que caíra no começo.

Quando Tomlinson reagiu encurralando o tal Bates contra as cordas todos vibraram. Era uma violenta chuva de socos.

Aquilo o deixava agoniado.

— Esse cara é um filho da puta gostoso! — Em um dado momento Gemma gritou em seu ouvido quando Louis arrancou o protetor para cuspir sangue. Aquela altura ele estava completamente suado, o peito brilhando – com seu colar se destacando na pele bronzeada – e o short se agarrando em suas coxas e outras partes.

— Ele é bem bonito. — Foi sua resposta.

A loira o olhou descrente como se bonito fosse pouco para se referir a Tomlinson.

— Olha só. — Apontou com as duas mãos ao que Louis caminhou pelo tablado — O que você faria com um homem desses? Eu nem saberia por onde começar.

O que você faria com um homem desses? Nada, ele pensou em dizer. Eu não faria nada porque nós dois juntos seria o equivalente a deixar um cubo de gelo próximo ao fogo acreditando que tudo ficaria bem.

Louis era bom, mas não pra ele.

A luta durou oito rounds e já não haviam mais unhas para serem roídas. A tensão era insuportável e todos só queriam que aquilo chegasse ao fim, não era fácil saber quem levava a vantagem, os dois eram bons. Porém, Louis se provou como o melhor durante uma ofensiva na qual a pulso nocauteou Bates. Quando a montanha caiu sobre seus pés houve o mais absoluto silêncio.

Ninguém comemorou de imediato. Louis olhou para frente, exatamente onde Harry estava e sorriu antes que toda a sua equipe o envolvessem gritando em comemoração, a plateia não deixou a desejar. Eles tocavam buzinas e jogavam coisas no ar. Até Gemma estava pulando feito uma louca e Harry deveria ser o único contido ali por motivos óbvios. Se ele vibrava por dentro? Definitivamente.

O apresentador cavou seu lugar até o campeão do embate e agarrou Louis pelo ombro e lhe fez uma pergunta, a qual não foi respondida porque com os olhos ainda no menino a sua frente pulou sobre as cordas, se mantendo no tablado do lado de fora. As luzes esbranquiçadas oscilavam as suas costas e seu nome brilhava imenso no letreiro anunciando que ele disputaria pelo cinturão de campeão na próxima semana.

— Qual é o seu nome? — Perguntou sem mais.

Harry pensou que ele se dirigisse a alguém as suas costas e virou o rosto, procurando quem quer que fosse. Gemma foi mais rápida.

— Ele é Harry, Harry Styles. Ele é meu irmão. — Harry tinha certeza que nunca havia sido apresentado com tanta empolgação.

Fuzilou a irmã com o olhar por estar fazendo dele o centro das atenções, pela segunda vez só naquela noite.

— Harry Styles. — A voz de Louis foi ampliada pelo microfone quando o apresentador o alcançou para capturar suas próximas palavras — Você quer sair comigo?

O mundo parecia estático e voltado para Harry. E isso não era exagero, não quando uma intensa luz branca focou diretamente nele, assim como câmeras do canal de esportes.

Louis estava bem ali, suado, lindo e ansioso por uma resposta.

Só havia uma coisa a se dizer.

— Sim.

E todos aplaudiram.

"Garoto, te escuto em meus sonhos
Sinto o seu sussurro do outro lado do mar
Te guardo comigo em meu coração
Você torna as coisas fáceis quando a vida fica difícil"

 

Era a sua primeira vez em um vestiário. Como não frequentou a escola ele sequer viu um fora dos filmes, mas estes o haviam retratado bem, exceto pelo excesso de roupa íntima jogado por toda a parte. Porém, Harry não estava ali pra reparar na organização, ele tinha uma missão e era nisso que precisava focar.

Iria educadamente declinar do convite de Louis.

Era tolice levar a sério toda aquela situação.

Eles mal se conheciam, eram dois completos estranhos, além disso alguém famoso como Louis não sairia por aí chamando qualquer um pra sair. Ele deveria ter feito aquilo só pra chamar a atenção, provavelmente falariam disso pelos próximos dias. Excelente golpe de marketing, ficaria conhecido como algum romântico charmoso e dali há duas semanas estaria de romance com alguma estrela do tênis ou futebol e Harry teria servido como um bom zé ninguém insignificante, mas ainda assim ele se sentia no dever de ir até lá mesmo que fosse para elogiar Louis pela bela luta.

Harry estava na metade de seu discurso mental que vinha criando desde que o tão absurdo "sim" rompeu de seus lábios quando se deparou com um alguém vindo em sua direção, tinha uma toalha cobrindo todo o seu rosto, mas o segurança garantira que Tomlinson era o único no vestiário aquelas horas. Embora angustiado, ele parou, temendo que não fosse o lutador, mas no instante em que seus olhos caíram em direção ao peito nu com as mesmas tatuagens e sua correntinha brilhando não houveram mais dúvidas.

Vestindo apenas uma cueca e bem pequena por sinal, Harry sentiu as bochechas arderem e se virou na hora. Louis terminava de secar os cabelos quando ouviu o pequeno engasgo a sua frente.

Um sorriso nasceu em seu rosto quando se deparou com o garoto da plateia.

— Harry, oi. Que bom que você veio, durante o banho eu me lembrei que não havia pedido seu telefone e fiquei com medo de te perder.

Me perder? Tudo aquilo estava sendo tão estranho para o mais novo.

— Sim, eu vim para agradecer.

Louis esfregou a toalha nos cabelos antes de soltá-la no banco longo. O fato de estar usando apenas uma boxer não parecia ser incômodo algum para o homem que deu alguns passos em direção a Harry.

— Me agradecer?

— Pelo que você fez lá fora ao me defender, mesmo que tudo tenha sido um mal entendido, foi muito...Muito legal, de verdade.

— Bem, eu é quem deveria estar agradecendo, você me fez vencer. — Styles o mirou confuso, Louis exibiu o colar — Seu amuleto me deu sorte. Eu nunca teria ganhado de Evan Bates.

— Você é um lutador incrível.

— Não, eu sou um lutador sortudo, primeiro por ganhar a luta e agora por sair com você.

Harry engoliu em seco, apertando os braços ao redor do estômago.

— Sobre isso...

— Oh meu deus, você não gosta de garotos ou namora? Perdão, eu não vi nenhuma aliança, mas você não usar uma não significa que... — O homem estava pálido.

O outro se apressou em dizer:

— Não é nada disso, eu gosto de garotos e não tenho namorado, mas mesmo assim eu não posso sair com você, Louis.

— E por que não? — Harry não o olhava e seu tom de voz não escondia que ele estava chateado.

Porque um abraço seu pode me matar. O pensamento levou lágrimas aos seus olhos.

— É complicado. — Disse baixinho, receoso.

— Eu vou entender, eu juro.

Harry olhou para cima, os olhos ardiam e a luz branca o cegou momentaneamente.

— Eu tenho uma doença, chamada osteogênese imperfeita, ela faz com que os meus ossos sejam frágeis. Eles quebram com o mínimo de contato brusco, por causa disso as minhas atividades são muito limitadas, eu já quebrei todos os ossos do meu corpo por mais de dez vezes e estar aqui, num lugar como esse, é loucura. Foi por isso que eu gritei quando achei que havia levado uma pancada daquele homem, eu tenho um medo absurdo de me machucar porque a dor é insuportável e a recuperação tão lenta e é por isso que...

— Você tem medo que eu te machuque. — Ele saltou ao perceber que Louis atravessara o corredor até haver uma curta distância entre seus corpos.

— Você vai me machucar. — Garantiu, envergonhado ao ouvir sua voz chorosa.

— Não, eu não vou.

— Claro que não seria intencional, mas vai acontecer, e eu não quero sair com alguém que não possa me tocar.

— Tá okay, eu não preciso te tocar. — Louis tentou contornar a situação, mas Harry já estava suficientemente angustiado.

— Não, isso não está certo. Você teria que ficar se policiando o tempo todo enquanto se preocupa em não cruzar a linha imaginária que te impede de se aproximar de mim, não é justo que você não possa ir a um restaurante e sair de mãos dadas.

— Nós podemos andar de mãos dadas.

— Não podemos não. — Harry murmurou fungando e esfregando os olhos com a manga do casaco.

Louis sorriu para seu nariz vermelhinho.

— Harry, eu entendi, você tem uma doença e isso o torna delicado e é claro que um encontro com um boxeador parece suicídio, mas eu quero, de verdade, conhecer você e definitivamente ir a esse encontro com você. Eu compreendo o seu receio e não espero que eu valha o sacrifício, porém, se você quiser, se quiser mesmo sair comigo, eu te juro que nada vai te machucar. — Tomlinson disse convicto e por mais seguro que ele soasse Harry não poderia acreditar naquilo cem por cento.

— Não pode garantir isso.

— Eu posso e eu garanto. — Deu um passo à frente e Harry recuou — Apenas me dê uma chance.

— Por que eu?

Então foi a vez de Tomlinson corar, ele se inclinou sobre o armário de metal coçando a barba castanha.

— Acredita em amor à primeira vista?

O cacheado revirou os olhos ofendidos.

— Você não me ama.

— Só vai descobrir saindo comigo.

Houve um minuto inteiro de silêncio com Harry franzindo os lábios.

— Eu provavelmente vou me arrepender dessa loucura.

Endless Love foi a música seguinte na playlist de músicas de amor dos anos 90, Harry inconscientemente começou a dublar enquanto passava uma segunda mão de esmalte verde cintilante nas unhas do pé direito para combinar com a pintura das mãos. Por mais vezes do que estava disposto a admitir sua atenção se voltou para a página do Instagram aberta de Tomlinson no notebook, estava repleta de imagens dele na academia, durante os treinos e em viagens radicais.

Ele era tão livre.

Uma pontada de inveja deu um tom amargo a cantoria de Styles que após clicar em uma foto apenas do rosto de Louis, um photoshoot profissional para alguma campanha. Havia o destaque para os olhos, o formato do rosto e nada que entregasse a imensa diferença que havia entre eles.

De repente a música estava no refrão e parecia certo cantar com todo o fôlego cada estrofe em dedicatória a aquele rosto tão bonito. O shampoo de Gemma servia de microfone e o espelho era a plateia. Ele se jogava nas notas altas e performava com paixão sentindo borboletas no estômago ao lembrar do quão lindo foi a cena de Louis saltando aquelas cordas com luzes o cercando feito um anjo e a forma como ele sorria para ele como se... Como se ele fosse o único, o único que importava.

Tan tan tan tan tan tan ele foi cantarolando baixinho, mesmo que a trilha de Cidade dos Anjos estivesse começando.

Amor à primeira vista?

— Será que isso existe mesmo?

— O que que existe? — Gemma entrou apressada no banheiro desabotoando a calça. Harry se virou saindo na mesma hora.

— Essa intimidade já tem passado dos limites, você não acha? — Indagou parado ao lado da porta.

— É o intervalo. Eu tenho pouquíssimos minutos e a culpa não é minha que a cerveja me faz mijar feito uma velhinha.

— Mijar? Quando a gente morava em Holmes Chapel você falava "xixi".

— Pois é, Londres fez de mim uma mulher evoluída. — Harry ouviu o som da descarga seguido da torneira e então ela estava saindo virando o boné de beisebol — Veja só você, enquanto eu vou passar o sábado a noite em casa vendo tevê você vai pro seu primeiro encontro. Meu bebê está todo crescidinho.

— Sem bullying, por favor. — Ele pediu, caminhando até o quarto. Gemma vinha em sua cola.

— Não é bullying, eu estou orgulhosa, de verdade. É bom ver você saindo, sabe, já faz anos desde que você tentou.

Quando Harry sumiu dentro de seu closet, sem dizer uma palavra, Gemma estranhou e foi até ele, o irmão contornava uma figurinha antiga colada na porta.

— Ele iria me odiar se eu cancelasse agora, não é?

Gemma suspirou, olhando suas camisas à procura de algo para ele vestir.

— Não precisa ir se não quiser, você não é obrigado a nada, Hazza.

— Eu sei e esse é o maldito problema! — Rosnou irritado, a irmã arregalou os olhos ao ouvi-lo xingar. Ela podia jurar que era a primeira vez que o ouvira falar assim.

— Tá tudo bem?

— Não, não está nada bem. — Inquieto, começou a andar de um lado para o outro no pequeno closet com o laço do roupão apertado em sua cintura estreita — Eu só posso ter enlouquecido, quer dizer, qual é o meu problema? Um encontro com um lutador, um cara que literalmente ganha a vida com força bruta. Não faz sentido e quando a mamãe descobrir ela vai pirar.

— Oh, ela já sabe que você vai sair com o Louis.

Harry parou imediatamente.

— Você contou.

— Eu não! Foi o Louis, eles conversaram por telefone. — Gemma separou uma blusa e partiu para as calças.

— Como assim?

— Ele te ligou hoje de manhã e eu atendi, falei sobre a mamãe ter lido a notícia em um tabloide e estar pirando então ele pediu o numero dela e disse que iria conversar com ela e pelo jeito o papo foi produtivo porque ela me ligou depois dizendo pra te ajudar a ir bem bonito.

— Não pode ser.

Gemma puxou uma calça branca do cabide e jogou sobre o ombro.

— Sabe, eu acho que estamos sendo meio preconceituosos, o Louis é um boxeador, mas isso não faz dele uma espécie de Hulk, ele é um cara normal, na real, um cara bem bacana e gentil. Quando nos falamos ele me pediu algumas dicas sobre o que você gostava.

— Pediu? — Levou o polegar e o indicador até o lábio inferior, o beliscando em uma mania nervosa.

Gemma assentiu risonha tocando com cuidado em seu pulso para levá-lo de volta ao banheiro.

— Eu achei a roupa perfeita, agora vamos dar um jeito nesse cabelo.

Assim que a campainha soou Harry quis correr e se esconder debaixo da cama pra sempre. Ele não se envergonhava nem um pouco em ser um covarde, nada disso importava contanto que ele pudesse escapar daquele encontro que já previa como sendo a coisa mais chata e deprimente da vida de Tomlinson, era óbvio que ele insistiu por pura pena. Harry já tinha vinte e cinco anos e nunca havia ido a um encontro com ninguém, aquilo não passava de uma boa ação.

Era ilógico que ele fosse de fato desejar estar com alguém que não podia tocar livremente.

Ele podia sentir o gosto do esmalte na língua ao que roía incontrolavelmente a unha enquanto se mantinha no banheiro sentado na privada tentando controlar a agonia em seu interior. Uma linha estava solta de seu suéter de pelinhos metade verde, metade vermelho com as cores azul e laranja no centro do peito, o jeans branco era justo e seu design era repleto de riscos pretos desconexos. Toda aquela irregularidade o agradava e o suéter era macio e o fazia se sentir protegido, mas ele não podia negar que para muitos seu gosto por roupas era no mínimo esquisito. E se Louis o achasse um bobo ridículo e o dispensasse?

Também havia seu cabelo, há dois meses atrás passava dos ombros, contudo, em sua última estadia no hospital quando quebrou ambas as pernas por um estúpido escorregão na cozinha ele conheceu Lea, uma garotinha de sete anos que lutava contra um câncer agressivo, ela havia se apaixonado por ele – mais especificamente por seu cabelo, a menina não fez questão alguma de mascarar seu fascínio e principalmente de se doer por ter perdido seu cabelo todo durante o tratamento. Harry foi incapaz de sair dali levando os cachinhos que ela tanto amava.

Semana passada ela lhe enviou uma foto com sua nova peruca cacheada, ela estava linda e cada dia mais alegre em seu estado de remissão – só que agora, dominado pelo desespero não conseguia parar de pensar que seu cabelo estava curto demais e sem forma, num liso meio falso por ele ser verdadeiramente cacheado, sua irmã tinha inventado uma arte que não deu muito certo e seu cabelo acabou meio lambido e a parte da frente caiu em sua testa como uma franja e ela declarou que estava bom e deixou do jeito que estava.

Naquele intervalo entre a campainha sendo tocada e a porta aberta Harry Styles tomou toda a insegurança do mundo pra si.

Rapidamente Gemma veio chama-la, mas assim que a porta começou a ser aberta ele correu para impedir, deixando apenas uma fresta por onde ela tinha uma parca visão dos azulejos.

— Vamos, criatura, ele já tá aí fora.

— Diz que...diz que eu estou com dor de barriga, sei lá, inventa algo e dispensa ele pra mim.

— O quê? Não! Você mesmo disse que queria ir a esse encontro.

Harry arranhou a madeira as suas costas.

— Você não entende, ele pode me machucar...

— Literalmente tudo pode te machucar. — Gritou ela — Mas pelo menos desta vez pode ser por um bom motivo.

— Bom motivo? Eu queria ver se fosse com você, se consideraria um bom motivo pra passar meses num hospital morrendo de dor.

— Eu queria que fosse comigo, queria ter nascido com a osteogênese no seu lugar. Queria poder tirar ela de você e colocar em mim, mas eu não posso, infelizmente não dá. Talvez seja porque o universo sabia que você era o mais forte pra aguentar isso e quer saber de uma coisa? Eu super concordo com ele. Você pode viver com isso e pode fazer o que quiser. — Disse ela por entre a fresta.

Emocionado o mais novo abriu a porta com os dentes superiores massacrando o lábio inferior.

— Eu te odeio. — Resmungou sem convicção.

— Também te amo, agora se você não quer, seja homem e venha dar um pé na bunda de Tomlinson você mesmo.

Ela saiu andando e Harry precisou tomar um grande fôlego antes de acompanhá-la. Debatia consigo mesmo sobre ir ou não quando chegou até a porta e não encontrou Louis ali o esperando com um buquê ou algo do tipo, ele estava longe, ao lado de uma... Carruagem? Não, não, estava mais para uma charrete vermelha e elegante, com um senhor bem trajado servindo de cocheiro e um puro sangue inglês nos arreios. Pelo jeito Harry não havia sido o único a investir em roupas que o faziam se sentir confortável.

Ele usava uma camisa com uma estampa no mínimo sinistra, jaqueta esportiva, calça de moletom e vans nos pés. O cabelo não vira um pente, assim como seu rosto não tivera contato com uma máquina de barbear. E simples assim, alcançara a perfeição.

A irmã mais velha estava parada na soleira da porta com a mão no coração.

— Olha se você não quiser eu quero. Eu quero muito. — Afirmou empolgada — Acho que eu já vou indo.

Harry a puxou pelo cabelo para refreá-la.

— Sabe, eu pensei melhor e não custa nada dar uma chance. — Falou um tanto hipnotizado.

— Okay, seu safadinho. Eu quero você de volta às onze, se atrase e eu chamo a polícia, ah, e caso for transar me manda mensagem. Pode ser só o emoji do pêssego e da berinjela, eu vou entender.

Seu dedo do meio disfarçadamente se ergueu as suas costas em direção a Gemma que gargalhou e então houve o clarão sobre seu ombro, Harry olhou descrente.

— Que é? Disparou sem querer. — Mentiu, guardando o celular de volta no bolso. Ela lhe deu um aceno antes de entrar em casa.

Bastou poucos passos até que ele pudesse estar diante do lutador. Louis soltou a respiração que não percebera estar segurando.

— Uau, Harry.

— O quê? — Harry sorriu, as covinhas surgindo em suas bochechas rosadas.

A lua brilhava em sua luz pálida e incandescente sobre eles. Estrelas se espalhavam pelo céu azul marinho e o tempo ameno parecia colaborar para que aquela fosse uma noite especial.

— Você está tão lindo. — Tomlinson confessou sincero.

O coração de Harry se aqueceu.

— Você também. Eu gostei do cabelo.

— Obrigado, eu pensei em vestir um terno ou algo mais formal...

— Fico feliz que não o tenha feito.

— É, eu também. Agora, me daria a honra de me acompanhar? — Se afastou para que Harry pudesse subir na charrete, por mais que seus dedos coçassem ele seguia as instruções para não tomar a atitude de tocar Harry. Ele deveria esperar que o cacheado o tocasse.

— Com prazer. — Falou mantendo o sorriso ao subir devagar os três degraus e se acomodar no estofado macio, o mais velho veio logo para o seu lado. A charrete começou a se mover e o galope do alazão era suave, as ruas estavam calmas e era como se eles estivessem montados em uma nuvem flutuante.

O passeio foi adorável, em nada parecido com estar em um automóvel irregular e cheio de trancos que o deixava dolorido depois.

A charrete parou diante de um elegante restaurante italiano que qualquer um poderia identificar como um dos estabelecimentos mais caros de toda a Londres. Tomlinson havia reservado uma mesa na janela que lhes dava uma visão perfeita do Tâmisa ao longe.

Ele estava realmente impressionado, Louis estava se esforçando para fazer daquela uma noite especial e sem fraturas, uma vez que tudo havia sido manejado na mais perfeita segurança para Harry que por sua vez se via pressionado a ser no mínimo interessante. Sua primeira tentativa foi engatar uma conversa ainda durante o caminho sobre cinema, o Oscar mais recente e novos atores, Louis não ia ao cinema há mais de cinco anos e era fã do Adam Sandler. Harry partiu para música clássica, Louis só ouvia a trilha de Rocky Balboa e por fim, sua mais recente tentativa foi na área da literatura, ele deveria estar falando há quase uma hora porque a garçonete recolhia suas sobremesas.

— E quanto a você, qual é o seu livro favorito?

Louis o mirou com seus intensos olhos azuis através da cortina de velas flamejantes dispostas sobre a mesa.

— Eu só li "Sonhos de uma noite de verão" quando tinha quatorze anos e odiei.

— Oh.

— Mas e você, sempre fala muito quando fica nervoso?

— Eu? Nervoso? — Piscou atônito.

— Sim, você está nervoso, já deve ter torcido esse guardanapo de todas as formas possíveis.

O mais novo baixou os olhos para onde seus dedos maltratavam o tecido sobre a mesa. O suntuoso restaurante tinha poucos clientes naquele horário, então Harry pode firmar sua atenção em uma cadeira avulsa, embora soubesse que os olhos de Louis estavam nele.

— Eu nunca fiz isso antes. — A confissão saiu tímida — Nunca tive um encontro formal com ninguém. A minha vida não é das mais empolgantes e eu estou com medo que você me ache desinteressante e saia daqui certo de que cometeu um erro.

— Eu acho que você não seria desinteressante nem se quisesse.

Olhou para Louis confuso.

— Harry, não se esforce para me entreter, isso não é sobre mim.

— É sobre quem então?

Repousou o queixo sobre a mão.

— Sobre nós. Vamos apenas deixar seguir o curso natural.

Seguir o curso natural era sem dúvida a melhor opção. Foi Louis quem engatou o assunto sobre sua infância, Harry ficou sabendo sobre suas várias irmãs, os casamentos de sua mãe, como ele descobriu ser bom de briga durante uma manifestação para a preservação das árvores em Doncaster.

Harry falou pouco, mas foi o suficiente para que a nuvem densa que pesava sobre seus ombros zarpasse para longe.

Junto com a conta a garçonete trouxe uma cesta de piquenique.

Ele teria perguntado para onde estavam indo, não fosse por Tomlinson quase segurando sua mão para guiá-lo. Foi um instante de pavor, o qual levou o lutador a repetir diversos pedidos de desculpas envergonhado.

O outro não demonstrou qualquer tipo de irritação, apesar do pequeno susto. Era visível que aquilo abalara Louis negativamente, ele tinha falado com sua mãe e irmã e é claro que elas devem ter reforçado o quão delicada era a estrutura de seus ossos. Talvez naquele instante em que caminhava de cabeça baixa a frente de Harry ele estivesse se culpando pelo quase toque.

Uma dupla de mulheres cantavam em um gazebo iluminado por pisca-pisca, o visco sobre suas cabeças com o presságio do natal.

Os atentos olhos verdes notaram Louis mirando na decoração natalina e um pequeno sorriso de tão imensurável doçura que se refletiu em seus próprios lábios.

Foi o primeiro poder que ele descobriu de Tomlinson: ele atraía sorrisos. Parecia até ofensivo ficar sério diante de olhos tão brilhantes e de um sorriso tão abrasador.

— Eu tenho uma confissão a fazer. — Disse em tom de segredo, suas mãos estavam metidas nos bolsos da calça e uma brisa quente fez com que sua franja cobrisse um dos olhos. Styles se viu tentado a afastá-la.

— Fique a vontade, eu não vou contar a nenhum repórter, não por menos de cinco mil libras. — Harry brincou, as duas taças de vinho o deixaram mais solto e sociável.

— Ora, ora, e eu pensando que fôssemos amigos. Bom, meu segredo é que quando eu era criança costumava acreditar que todas essas luzes, a comemoração era tudo pra mim, sabe, eu nasci na véspera do Natal.

— E não é pra você? — Se fez de surpreso, arrancando algumas risadas de Louis por sua expressão indignada — Oh, espere, não está falando isso só pra ganhar dois presentes?! Seu pilantrinha!

Automaticamente as bochechas de Harry tomaram um aspecto rubro e seus olhos se arregalaram, tal como suas mãos lutaram para trazer de volta às palavras para sua boca. Ele tinha realmente chamado Louis Tomlinson, o possível campeão do cinturão de ouro de pilantrinha? Pilantrinha, sério? Quis morrer ali mesmo.

O mais velho estava prestes a falar quando um grupo de jovens universitários se aproximou. Todos eram grandes fãs de Louis e o cercaram pedindo fotos e autógrafos, o aglomerado chamou a atenção de outros adoradores e de repente formaram uma grande muralha entre Louis e Harry que o olhava agora à distância. Tomlinson lhe lançou um olhar de desculpas, mas Styles fez um gesto como se dissesse que não havia problema algum.

Voltou sua atenção para as cantoras de rua. No teclado a moça de traços asiáticos tocou a introdução de "She" do Elvis Costello, a morena no microfone começou a cantar com a voz doce e carregada de emoção. Eram ambas muito talentosas.

Harry as ouvia com carinho, recordando-se de quando ouvira a música pela primeira vez em um domingo à noite, embrulhado em edredons no sofá da casa de sua mãe, ao lado dela e de Gemma vendo o rosto de Julia Roberts por toda parte. Qual era mesmo o filme? Ah, sim. Um Lugar Chamado Notting Hill.

A lembrança da história o fez rir consigo mesmo. De esguelha encontrou Louis tentando dar seu autógrafo para todos e sorrir para os flashes, com desconhecidos declamando seu amor e admiração.

Ele era a celebridade ali, sua Julia Roberts, enquanto Harry era um anônimo que tirara a sorte grande, o Hugh Grant da história.

E sua trilha romântica estava tocando em uma praça charmosamente iluminada com os primeiros flocos de neve caindo.

Ele queria tanto poder dançar.

— Ei, Hugh! — Se encolheu em seu suéter ao ouvir a voz rouca de Louis soando tão próxima. O peito dele roçou em seu ombro quando virou para poder encara-lo.

E pelo jeito eles dividiam o mesmo neurônio.

— Julia. — O saudou e Louis fez uma bela imitação de estar jogando os cabelos longos para fora dos ombros — Na verdade me sinto muito aliviado, eu costumo ser sempre a Julia Roberts.

— Essa é a primeira vez que vejo alguém reclamando de ser a Julia. — Umedeceu os lábios com a língua inconscientemente ao notar um floquinho caindo sobre o lábio inferior de Harry. Tão cheio e vermelho e provavelmente macio, o tocou com o polegar. Definitivamente macio. Mostrou o resquício de neve — O inverno chegou.

Harry lutou para não se mostrar afetado. Ele tinha tocado sua boca e a forma como ele o olhou. Puta merda.

— Você já assistiu The Vampire Diaries?

Tomlinson piscou para aquela mudança brusca de assunto.

— Bem, sim, uns episódios sortidos. — Mirou os olhos nos próprios pés.

— Tem... Tem um episódio em que eles dançam, é uma dança muito legal, onde eles mal se tocam. — O cacheado disse, meio sem jeito, esperando que o outro entendesse.

Louis sorriu com a cabeça baixa. O coração acelerando.

— Mesmo? E como era?

Mesmo trêmulo, Harry deu um passo à frente e ergueu uma mão, pediu para que Louis fizesse o mesmo com a mão contrária. As palmas mantinham a distância de cinco centímetros.

— Agora vamos girar, devagarinho.

E eles o fizeram.

Calmamente, como se tivessem todo o tempo do mundo.

Tomlinson queria poder dançar com Harry do jeito tradicional, poder abraçar sua cintura, segurar com firmeza sua mão, o tórax se tocando e sentir a respiração dele no pescoço, mas assim, assim era muito melhor porque podia olhar para aquelas duas pedrinhas de jade assustadas que procuravam em seus olhos toda a segurança e conforto. Pelo amor de Deus, Louis poderia usar uma camisa de força por toda a vida para garantir a Harry que ele ficaria seguro, deixaria ser colocado em um aquário no quarto dele só para poder admira-lo dia e noite sem que ele o temesse. Louis faria qualquer coisa para ter aqueles olhos sobre os seus.

— Agora nós trocamos. — Ele fez obedientemente, sem imaginar que Harry pensava exatamente a mesma coisa.

Em vinte e cinco anos ele nunca havia encontrado ninguém assim, que não o encarasse com pena ou pavor de fazer algo de errado, Louis o olhava como ele sempre quis que o olhassem, como alguém normal, como uma pessoa de carne e osso e não apenas uma frágil peça de porcelana, Louis conseguia ir além, porque em seus olhos havia intensidade, compreensão, carinho e se permitisse um pouco de equívoco diria paixão.

Ele o perguntou naquele dia: Acredita em amor à primeira vista?

Até ali a resposta era óbvia: Não!

Mas agora, ele se via duvidando de suas convicções.

Aquele não podia ser um olhar qualquer.

Não podia estar sentindo sua pele clamando por um toque se fosse um toque fugaz, se Louis fosse um qualquer.

Aquilo era especial, fosse o que fosse.

Quando a música acabou, um grupo de casais idosos que os assistiu da varanda do restaurante onde estavam minutos atrás os aplaudiu.

Harry desviou o olhar constrangido e se encolheu, voltando a beliscar o lábio. Louis, por outro lado, sorriu e fez uma reverência em agradecimento.

— Será que toda vez que interagimos haverá uma salva de palmas?

O cacheado gemeu desgostoso quando o mais velho assentiu.

— Depois dessa dança adorável, o que acha de continuarmos nosso encontro?

Eles seguiram a pé, com Louis citando todas as suas vitórias, até que Harry identificou o grande jardim do Hedsor Park coberto por toalhas de piquenique, um imenso telão em frente a mansão e pessoas em roupas de passeio se acomodando por toda a área extensa.

— Eu não acredito!

— Melhor nos apressarmos, o filme já vai começar.

Louis estendeu a toalha e após confortavelmente acomodados ofereceu um taco a Harry – aproveitando-se de sua pesquisa realizada mais cedo com a mãe e irmã. Ele também pegou um e assim puderam assistir o filme que cuidadosamente fora escolhido para a ocasião.

Grease.

Apenas para que Tomlinson pudesse se inclinar e dizer próximo a pequena orelha do mais novo o que ele esperava lhe dar uns pontos a mais.

— No musical da escola eu fui Danny Zuko.

Harry desviou a atenção da tela.

— Sério? O Danny é um babaca.

Oh merda! O sorrisinho convencido de Louis morreu.

— Hum, por quê? — Sua voz não saiu tão casual quanto planejava.

— Ele é arrogante e espera que a Sandy se sinta honrada de estar com ele, ele nem se esforça por ela. Só no final e quando ela decide mudar por ele, o babaca regride tudo de novo. Ou seja, foda-se a sua personalidade, tudo deve ser sacrificado pra agarrar um homem.

Sentindo-se frustrado, Louis olhou para Danny dançando encima do carro. Ele sempre pareceu tão legal. Poxa!

— Mas ainda é um ótimo filme, com ótimas músicas.

Harry notou Louis cabisbaixo e na hora se arrependeu.

— Desculpa, eu não deveria falar assim do seu filme favorito. Foi grosseiro e o problema não é o filme em si, é só que eu tenho uma lembrança ruim associada a ele.

— Que lembrança? Quer dizer, não precisa falar nada se não quiser, não é da minha conta... — Traçou os quadradinhos na toalha com o indicador.

Os dois ficaram em silêncio.

A próxima música começara.

— Eu tive um namorado, ele era um cliente da minha floricultura. Era incrível, sabe, tão cuidadoso e engraçado, sempre me fazia rir e conhecia todas as flores do mundo, teve essa vez em que ele me chamou para um drive-in e eu pensei que seria apenas um filme, mas ele queria mais, muito mais. — Sorri pequeno, como se a lembrança não fizesse seu peito doer — Talvez não teria problema se as condições fossem mais apropriadas, mas em um carro minúsculo e com toda aquela euforia dele não, nunca! Ele tinha bebido um pouco e eu prefiro acreditar que foi por isso que ele ignorou os meus pedidos pra parar...

— Harry, não precisa... — O lutador soprou, arrependendo-se de sua escolha idiota de um cinema ao ar livre. Ele queria que fosse especial, mas agora Harry estava quase chorando e ele não podia abraça-lo. Era uma tortura.

— Tudo bem, tudo bem, ele não chegou a fazer nada comigo, quer dizer, quando ele tentou abrir a minha calça e eu tentei impedir ele apertou meu pulso que quebrou feio, mas assim que eu comecei a chorar ele recobrou a consciência e me levou pro hospital. Aquela foi a última vez que eu "namorei" alguém.

— E qual era o nome dele?

— Luke Hemmings, por quê? — Estranhou ao ver que Louis tinha escrito o nome em uma nota do celular — Espera, Louis, você não está pensando em fazer alguma coisa com ele, né? Isso tem tempo.

Louis riu quase ofendido.

— Você acha que só porque eu sou um lutador profissional saio por aí dando porrada em todo mundo?

Louis parecia sério e Harry não soube o que responder.

— Se você acha que sim, está completamente certo. Eu trarei o coração desse desgraçado em uma bandeja, meu príncipe.

Ele franze as sobrancelhas.

— Eu não sou um príncipe.

— Como não? Todos sabem que a Inglaterra tem um príncipe Harry, só pode ser você.

Harry enrubesce ao mesmo tempo que aperta os lábios em um sorriso estupidamente feliz, mas que rapidamente congela ao que Tomlinson está se inclinando e ele tem absoluta de que será beijado.

Meu Deus, faz tanto tempo desde a última vez que isso aconteceu.

Como funciona mesmo?

Não era muito complicado. Okay.

Não pire.

Não pire.

Não pire.

Espera com a respiração irregular e o coração pulsando no peito, mas ao invés da boca sente a testa de Louis tocando a sua, tão suave e superficial que a única certeza de que estão se tocando é pela textura macia de sua pele beijando a sua.

Seus olhos se abrem para contemplar os cílios espessos sombreando as bochechas de Louis. Até mesmo deste ângulo ele consegue ser bonito, com seu narizinho arrebitado, lembra os botões das rosas desabrochando.

Suas respirações tocavam de forma branda o rosto um do outro.

Harry tinha que concordar, as músicas de Grease eram muito boas e lhe davam a impressão de estar em um filme, com trilha sonora e um par romântico como mandava o roteiro, esse seria o momento ideal para tocar o rosto de Louis com a ponta dos dedos e quando ele o olhasse, com aqueles olhos de safira, unir seus lábios.

Beija-lo.

As borboletas voavam enlouquecidas em seu estômago, contudo, algo o impediu de prosseguir.

— Lou...

Lou? Okay.

— Hum?

— Eu... Tem uma coisa que eu acho que você precisa saber. — Tomou uma longa respiração — Eu não sou virgem. — Louis olhou pra ele — É, bem, eu não posso dizer que sou muito experiente, na verdade não sou nada experiente, aconteceu umas três, quatro vezes e basicamente é como andar no campo minado, exige muito cuidado e é preciso ir muito devagar, mais devagar do que uma lesma, mas é possível. Era o que eu queria que soubesse.

Num átimo Louis se afasta, puxa as pernas até poder apoiar os cotovelos sobre elas e então corre os dedos pelos cabelos e quando volta a mirar o mais novo tem os cabelos revoltos e os olhos brilham em malícia.

— Eu passei todo esse tempo fantasiando em segurar a sua mão ou beijar sua bochecha e você vem me falar de sexo. Harry, seu pervertido!

— Aí meu deus! — Sussurra ruborizado e deixa seu corpo repousar na toalha enquanto esconde seu rosto.

Tomlinson o admira, tão fodidamente adorável, ele parece uma criança envergonhada. Tapando o rosto como se pudesse se esconder, obviamente era difícil desaparecer com aquelas pernas intermináveis, o suéter subira e agora ele podia ver as gordurinhas nos quadris de Harry, assim como seu umbigo.

Talvez eles não tivessem intimidade o bastante, mas Harry já tinha lhe dado um tutorial de como fazer amor com ele, então não haviam mais muros entre eles. Com isso em mente, colocou a ponta do dedo na boca e o umedeceu com saliva antes de mergulhá-lo no umbigo do cacheado que chiou e saltou achando que era algum monstro sobrenatural.

Louis gargalhou na cara dele.

Harry torceu o rosto como se fosse um bebê prestes a cair no choro e isso foi demais para Tomlinson que simplesmente se curvou e o beijou.

Na ponta do nariz.

— O que acha de jogarmos boliche antes de foder loucamente?

Harry girou de barriga pra baixo e grunhiu, ignorando as risadas de Louis.

"Não sabem como demora
Esperar por um amor como esse
Toda vez que dizemos adeus
Queria que nos beijássemos novamente
Vou esperar você, juro que vou esperar"

 

Strike!

Louis não viu seu feito porque estava ocupado dando mais alguns autógrafos.

A família a quem ele atendia era numerosa e muito empolgada, a mãe até insistiu para que ele posasse com o bebê garantindo que o pequeno dormia feito um anjinho ouvindo as lutas de Louis, embora achando um tanto mórbido, aceitou de bom grado o elogio.

Quando foi a vez de trocar quem tiraria a próxima foto com Tomlinson, este se virou para checar Harry, sorrindo quando o pegou olhando pra ele e balançou o bebê em sua direção, sibilando um "quando vamos ter o nosso?"

De repente o teto parecia estranhamente interessante aos seus olhos verdes.

O letreiro indicava que era sua vez.

A bola estava lá, esperando que ele encaixasse seus dedos e a lançasse com força em direção aos pinos, mas não era tão simples assim. Porém, já estavam ali, seria estranho ficar assistindo Louis jogar.

Encheu o peito de ar e encaixou o primeiro dedo, trêmulo e tenso de medo, prestes a encaixar os outros dois uma segunda mão se intrometeu, colocando os dedos nos buracos restantes e a carregando até seu peito, não deixando peso algum para Harry.

O cacheado olhou para Louis sobre o ombro, não necessitando de palavras para expressar sua gratidão. Eles caminharam até a pista e a proximidade nunca fora tão grande, com o mais velho grudado as suas costas, a respiração na nuca de Harry e seus quadris se tocando.

— Não precisa dar um impulso, eu lanço, só deixe o seu braço seguir o meu. — Instruiu baixinho.

Harry obedeceu e eles lançaram a bola, mesmo não havendo mais necessidade eles continuaram juntos. Seus dedos se roçando, sem nunca tocar propriamente.

Depois que a bola atingiu os pinos, outros quatro permaneceram em pé.

— Não vai ser uma competição justa se você ficar jogando por mim.

Louis deu de ombros.

— Menino, ei, menino! — Os dois olharam na direção da família que Louis tivera uma seção de fotos.

— Eu sou o menino?

— É, né. — Uma menina minúscula de jardineira e Maria Chiquinha resmungou — Joga que nem eu.

Foi quando reparou na forma como ela jogava, sentada com as pernas espalhadas, a bola sendo entregue pelos pais e em seguida sendo colocada no chão, dando a ela o trabalho apenas de empurrar, para que ela rolasse até os pinos. Prático e nada perigoso.

Harry resolveu arriscar e acabou dando muito certo.

A menina, que se apresentou como Sophie, o desafiou.

A família da menina ficou maravilhada porque assim tiveram uma desculpa pra ficar falando com o lutador e pedir mais fotos e até gravar um vídeo, enquanto este só focava nas bochechas rosadas de Harry, não pelo constrangimento, mas pelas risadas incessantes.

Quando ele marcou o último strike, derrotando a garotinha, se levantou abruptamente e Louis fez o mesmo, ele quis muito correr até ele e saltar em seus braços e afim de impedir tal loucura seu corpo o parou fazendo com que ele sentisse os ossos do quadril reclamar pela falta de cuidado em levantar, se curvou pelo incômodo e Tomlinson disparou em sua direção.

— Você está bem? Devemos ir ao médico? — Louis precisou cruzar os braços para não pegá-lo no colo e correr para o pronto socorro.

Styles se concentrou em respirar, administrando o que sentia até concluir que não fora nada demais. Sem fraturas.

— Tudo bem, só mal jeito. — Disse tranquilizador. Louis suspirou e passou a mão pelo rosto — Que drama!

— Você quase me matou do coração.

— Viu quem ganhou?

— Vi sim, campeão, meus parabéns!

— Eu nunca pensei que poderia fazer isso, jogar boliche.

— Isso é besteira! Você pode fazer o que quiser.

Ele o olha intrigado.

— Não, eu definitivamente não posso fazer um monte de coisas.

— Tipo?

— Tipo, sei lá, participar de uma corrida de kart.

Louis dá um sorriso rápido e o chama com o dedo.

— É o que vamos ver, príncipe.

Harry revira os olhos para o apelido e o segue e então, lá estão eles, em uma pista de kart, com Harry querendo fugir para as colunas e não ter de entrar naquela coisa, mas o amigo de Louis que por acaso é dono daquela pista o garante que é totalmente seguro. Ele não sabe se pode confiar em Niall, ele é agitado demais e tem um monte de latas de cerveja espalhadas sendo que não passam das 21h.

Por fim ele entra e como Louis garantiu, havia sim a possibilidade de não saírem disparados. Estavam em um velocidade saudável e sem perigo.

O carro de Tomlinson estava na frente e Like a Virgin estava tocando sem sentido algum. Sua mente começou a viajar sobre os ocorridos daquela noite, Louis indo busca-lo de charrete, do jantar com a vista para o rio, sua dança sem toques, o cinema que tinha tudo para ser um desastre e acabou com um beijinho em seu nariz, o boliche e agora uma corrida.

Gemma estaria pirando se estivesse aqui.

O que ela faria? Harry reflete e decide incorporar sua grande heroína e acelera um pouco para bater na lateral do carro de Louis, o tirando um pouco da pista.

— Seu vândalo! — Berra em meio a risada cheia de "hahahaha". Styles decide que adora a risada de Louis, assim como adora sua voz e tudo o que ele diz.

Dali eles vão para outro lugar que Harry confessa que nunca poderia estar: em um campo de futebol.

Eles facilmente encontram um num dos muitos parques da cidade.

Harry ainda testava a sensação da grama sintética por entre os dedos, estava úmida da garoa que dera mais cedo. Tinha um cheiro bom. Cheiro de liberdade ou talvez fosse o perfume de Louis ao que se aproximava com uma bola em mãos.

— Pro gol, Harold.

O cacheado riu.

— É sério, vai lá.

— Eu não posso...

— Confia em mim.

A contragosto ele foi, entretanto, no momento que o lutador chutou a bola, Harry correu pra trás da rede do gol. A bola de Louis veio tão fraca que não chegou tão longe.

Tomlinson ri desacreditado.

— Não vale. O goleiro deve ficar na frente do gol.

— Eu vou contra o sistema, campeão. — Grita a distância.

— Não sou campeão ainda, não antes de derrotar o Payne e minha chances são nulas. Eu vou perder. — Fala, deixando a jaqueta sobre o gramado, dando algumas embaixadinhas antes que sinta algo o acertando na orelha.

Um tufo de grama.

— Hey!

— Como se atreve a falar desse jeito do meu lutador favorito?

— Ah, você gosta do Payne? — Provoca deixando a bola de lado e seguindo até ele, agarra a rede que se mantém entre eles.

— Não. — Responde com um biquinho, apoiando seu corpo sobre a rede. Ao que parece essa barreira maleável o proporciona uma sensação maior de segurança — Você é o meu lutador favorito e eu acho que você vai vencer. Você tem que vencer.

Louis sorri pelas palavras, mas está distraído encarando fixamente a boca que tanto deseja beijar. Um selinho seria o bastante, só unzinho, rapidinho.

Sente algo que acredita ser o toque das fadas, não, é muito melhor, é Harry contornando a corda em seu pulso com a ponta do dedo. Ele segue o toque com os olhos e suspira ao que o mais novo dá um beijinho em seu pulso. Com a proximidade, Louis aproveita para tocar o cabelo na testa de Harry, ele olha para Tomlinson, que só consegue se perguntar no que Harry estaria pensando. E constata que gosta dos olhos dele.

São lindos olhos, cativantes, inteligentes, profundos e misteriosos, como se escondessem um segredo.

Qual o segredo que você está escondendo?

— Se eu te contar deixa de ser segredo. — Ele responde e é quando se dá conta de que disse aquilo em voz alta.

Voltam a apoiar as testas e desta vez seus narizes estão se tocando também, Harry faz questão de acariciar o nariz de Lou com o seu, ampliando o toque para seus dedos, Louis morde os lábios sentindo os dígitos de Harry tocando os seus.

Por que o pouco parecia muito com ele?

Ao longo de sua vida já teve muito mais que isso, a maioria de seus encontros se resumiam a um jantar, logo depois da segunda taça de vinho estavam se atracando em algum hotel, ou no carro mesmo, beijando loucamente e arrancando as roupas, apertando e arranhando, sem se importar com marcas ou hematomas, feito dois animais no cio, só queriam saber de reclamar seus orgasmos e quando o faziam, voltavam a ser dois estranhos, cada um fumando seus respectivos cigarros em lados divergentes da cama.

Mas com Harry...

Ele sorria só de ouvi-lo respirar.

Encarar seus olhos faziam seu estômago borbulhar e as mãos suarem.

Voltava a ser um adolescente emocionado.

Apaixonado.

Seria isso, então?

Com Harry ia além do carnal. Era sua alma. Ele tinha conseguido conquistar sua alma.

Entre tantas pessoas naquele clube, tantas, era como se eles tivessem se escolhido. Como eles chamariam isso? Destino? Acaso?

Sorte?

Bem, ambos se sentiam muito sortudos agora.

"E então estou velejando pelo mar
Para uma ilha aonde vamos nos encontrar
Você ouvirá a música preencher o ar
Vou colocar uma flor em seu cabelo"

 

É preciso um pouco mais de força para empurrar a dura porta de metal, mas nada problemático para Louis que cria uma nota mental para usar aquela porta em seus treinos futuros.

Seu date vem logo atrás, amuado e de olhos arregalados, olhando para tudo aquilo como se tivesse entrado em um buraco de minhoca e caído em um novo universo. O universo de Louis.

A academia estava escura, todas as luzes apagadas, a única iluminação proveniente da luz lunar que atravessava as imensas janelas vitorianas. Tudo estava metodicamente organizado, pesos, barras, cordas, caneleiras, muito bem enfileiradas em suas respectivas prateleiras.

Harry examinou a grande barra de ferro, os pesos eram imensos, no mínimo oitenta quilos de cada lado. Nunca poderia pegar uma coisa daquelas.

— Consegue? — Perguntou, apontando para a barra.

Ele assentiu como se fosse absurda qualquer outra alternativa.

Styles sabia que Louis dava ótimos socos, mas não tinha lá muita noção quanto a sua força, até se deitar e erguer centímetros acima da base, repetiu o ato exatas dez vezes antes de devolver com calma. Embora não tenha feito ruído ou demonstrado incômodo seu rosto estava um pouco mais suado.

— Fácil. — Disse com descaso.

— Percebi. — Harry ironizou, cobrindo as mãos com as mangas da blusa.

— Agora você me espera aqui. Vou realizar o seu sonho.

Louis se afastou, o cacheado bufou, já havia se esquecido de seu estúpido comentário meia hora atrás sobre as coisas que ele não podia fazer, entre elas estava socar alguém. Claro que isso era inadmissível para Louis.

Durante o tempo em que esteve sozinho aproveitou para desbravar o lugar, a maioria das coisas era pesada ou pontiaguda e não querendo terminar a noite no hospital evitou tudo isso até voltar a atenção para o ringue alto em outra sala, foi até ele e não satisfeito de circundá-lo subiu, passando sobre as cordas e se colocou exatamente no centro. Imaginou-se com um estádio lotado, todos o assistindo, torcendo por ele, gritando seu nome. Nunca aconteceria, mas era bom sonhar.

As luzes se acenderam, esbranquiçadas e exatamente sobre sua cabeça. Fazendo dele um alvo, um alvo da adoração do mais velho.

— Você não me obedeceu. — Louis fez cara de bravo, apesar de estar sorrindo, seus braços estavam apoiados no chão e o queixo sobre eles. De onde Harry estava ele parecia encantador.

— Eu sou meio rebelde, sabe. — Suspirou girando pelo tablado como uma bailarina.

A intenção era fazer o outro rir, mas na verdade ele o assistiu embasbacado.

— Lou, amigos riem das palhaçadas um do outro.

Tomlinson piscou como se tivesse sido pego fazendo algo errado. E ele estava olhando para bunda de Harry. Segredo, shiiiiu!

— E nós somos amigos?

— Você não sente que somos? — Parou de girar, respirando ansioso, com medo de ter falado demais.

— Sinto, sinto como se te conhecesse a vida toda, como se você fosse meu melhor amigo. — Respondeu com sinceridade, pulando para dentro do tablado trazendo algo grande e borrachudo nas costas.

— Melhores amigos.

— Isso, Bff, agora venha socar esse idiota. — Colocou o boneco de frente para o cacheado — Pode socar a vontade, ele volta e é borracha, não machuca.

Harry se aproximou, desconfiado como sempre e testou um tapinha na cara do boneco, quase se desculpou. Não era educado bater na cara de ninguém, real ou não.

— Eu não sei fazer isso. — Gemeu.

— É fácil. — E sem mais Louis derrubou o boneco com um gancho de direita violento — Ops! — O trouxe de volta.

— Oi. — O mais novo saudou o boneco quando voltaram a ficar cara a cara.

— Vamos, príncipe, eu acredito no seu potencial para violência. — Esse era o apoio moral de Tomlinson.

— Que horror! — Então socou o boneco, estava mais para um peteleco, mas ao menos ele estava tentando. Pouco a pouco foi se empolgando, pegando o tal jeito e ouvindo algumas dicas de Louis como se o estivesse preparando para uma briga de rua, depois de um tempo ele começou a se referir a Harry como "Garanhão Italiano" o que não tinha sentido pra ele, já que não tinha uma gota de sangue italiano e Louis se dizia "Apollo Doutrinador", ele também não fazia ideia do que isso queria dizer, mas a palavra "doutrinador" o preocupou, preferindo quando Louis só se chamava de "Creed".

— Espera, precisamos de trilha sonora. — E dito isso ele deu um mortal para fora do ringue. A porra de um mortal. Harry quase desmaiou.

Louis correu para o som e bastou dar play para que Eye Of The Tiger começasse. Ele reconheceu por ser a música de sexo de Gemma, basicamente toda vez que ela transava com alguém colocava essa música no último volume como para protegê-lo de ouvir coisas desagradáveis, mas tende a ser bem inconveniente às 4h da manhã.

— Que tal uma competição? — Louis sugere, pelo jeito a música reaviva o pugilista excitado que vive nele — Vamos ver quem consegue dar mais socos.

— Tá na cara que eu vou perder. Qual o sentido de me chamar pra um encontro e me humilhar durante? — Resmunga esperando que Louis caia nessa.

Sua empolgação cai e ele se sente culpado pela sugestão, afasta-se do saco de areia para falar com Harry quando o mesmo grita:

— Valendo! — E começa a socar seu boneco, começando na liderança.

— Ora, seu pilantrinha!

Corre para o saco de areia e tenta passar na frente.

Eles golpeiam com gana, até o ar tornar-se rarefeito e os cabelos gotejar de suor, com Harry odiando não usar uma blusa por baixo do suéter e Louis a tempos de arrancar a camiseta. A disputa se encontrava bastante acirrada até Harry não aguentar mais e jogar as mãos para o alto se sentando no chão, exausto.

Absorto em socar, levou algum tempo até que Tomlinson reconhecesse sua vitória. Depois de feito se sentia meio bobo por perder tanto tempo socando um saco de areia no meio de um encontro e ainda por cima cansar Harry daquele jeito, o menino mal conseguia respirar.

Pela segunda vez, pulou as cordas e afastou o boneco, sentando-se diante dele. Harry estava com a cabeça jogada para trás, o pescoço imaculado exposto praticamente implorando por beijos e mordidas que ele teria o maior prazer em oferecer.

Notou que seus desejos para com Harry iam evoluindo progressivamente. Não podia imaginar o que estaria se passando em sua cabeça ao final daquele encontro, ah, aquele encontro que poderia não acabar nunca.

Assim que ele arruma a postura, Louis desvia o olhar, brincando com os dedos no colo.

— Eu pensei nisso a primeira vez que nos vimos e durante todo esse encontro e até agora não consigo entender. — Harry diz com sua voz rouca e levemente ofegante.

— O quê?

— Por que você faria isso? Por que entre tantas coisas escolheria justamente essa profissão? Escolher machucar os outros, algo tão agressivo e violento. Você não tem nada a ver com os outros lutadores que a minha irmã acompanha.

Louis se remexeu, espelhando a posição de Harry, sentado em posição de lótus, com os joelhos se tocando e os olhos baixos.

— Eu nunca fui do tipo violento, sabia brigar e descobri que mandava muito bem nisso durante o tempo em que estive em umas campanhas ativistas na minha antiga cidade. Naquela época eu gostava de pensar que os meus punhos faziam o "bem", mas ao mesmo tempo estava crescendo e percebendo que não estava ficando como os meus amigos, eu não ficava pensando em que cor era a calcinha da professora ou querendo levar as meninas pra cama, logo percebi que era diferente e eu sabia como eles tratavam quem era diferente por lá. Eu só não... não aceitava ser assim, não podia, devia ser consertado, então pensei na coisa mais "máscula" que podia usar, uma máscara para que não vissem a verdade e funcionou, por um tempo. Mas então só ser um lutador não funcionava mais, precisavam de provas, então veio a fama de mulherengo, as saídas falsas de boates embriagado com modelos do lado e até um relacionamento falso. Valia qualquer coisa pra fugir da verdade, só que não compensava, o meu medo acabou se tornando aquilo que eu vivia, a minha prisão, era mais assustador do que ser homossexual, então eu comecei a me aceitar, a conhecer outros homens e tentar, sabe. Talvez pudesse ter dado certo, mas quem aceitaria entrar na minha rede de mentiras? Era tóxico pra caralho e eu estava farto daquilo. Há um ano atrás eu saí do armário publicamente, como era de se esperar muita gente virou as costas pra mim, perdi contratos, patrocinadores, "fãs" e tem muitos oponentes meus que adoram usar "viadinho" ou "mariquinha" no meio das lutas, é quase um apelido na cabeça deles, mas também recebi muito apoio, da minha família, dos fãs de verdade e também tem uma tonelada de mensagens de pessoas que dizem que eu as inspiro, que se assumiram por minha causa e tem revistas por aí dizendo que por minha influência o boxe deixou de ser um esporte de "macho" pra um esporte de pessoas briguentas, só, apenas pessoas. Por isso que eu me esforcei muito esse ano pra chegar até a final, prometi a mim mesmo que eu trocaria o meu robe por uma bandeira LGBTQ+ e que vencendo ou não, ela será asteada naquela porra de ringue pra que todo aquele estádio veja e as pessoas que assistirem na TV também que nós estamos aqui, que não temos medo e nem vamos nos calar. Nós somos fortes e incríveis e nada pode nos parar, nada...

Ele toma coragem para olhar para o cacheado e o mundo para.

Para para aplaudir, porque Harry lhe dá um beijo delicado, não no pulso, mas na boca. Seus lábios estão se tocando e a mão dele acaricia a bochecha de Louis. Sua respiração se acelera. O beijo aumenta de intensidade, mas sem se aprofundar e Louis quer por as mãos nele, arrisca afagar seu joelho, com muito cuidado, todos os seus neurônios se concentrando em não fazer nada de errado e isso o acaba fazendo esquecer de algo muito importante: Continuar beijando Harry.

Ele não parece chateado ao encostar a testa na de Tomlinson, olhos fechados, a voz embargada.

— Lou. — Suspira. Só agora ele notou que Harry está chamando-o pelo apelido. Seu coração se derrete mais um pouco — Estou tão orgulhoso de você.

Louis sorri ao mesmo tempo que soluça e olha para as mãos do mais novo repousando em suas coxas. As unhas verdes cintilando.

— Eu gosto das suas unhas.

O cacheado suspira.

— Não cheguei a ir o suficiente pra escola, mas no hospital tinha uns garotos que implicavam comigo, pelo meu jeito, pelos meus gostos. Eu tinha muito medo de não ser aceito, então, eu só pintava uma unha e escondia sempre que eles apareciam e vivia de touca porque diziam que o meu cabelo cacheado era de menina, então teve essa vez que eu perdi minha touca e eles me encontraram antes que a minha mãe trouxesse outra, eles empurraram a minha cadeira de rodas para um canto e começaram a me dizer coisas horríveis e me fizeram chorar. Depois a minha irmã chegou e bateu em todo mundo, ela é pequena, mas é muito forte, como você.

O lutador sorriu pequeno, optando por não fazer caso da questão do tamanho.

— Aquilo podia ter acabado comigo, porém, enquanto eu chorava naquele quarto de hospital, sem querer deixar ninguém entrar pra me consolar, eu tomei uma decisão. Como você, me fiz uma promessa, que o meu corpo pode ser fácil de ferir, os meus ossos podem se estilhaçar com o menor impacto, mas não precisa ser igual com o meu coração, nem com os meus sentimentos, eles podem ser mais fortes que o meu corpo e são. Por isso eu não tenho medo de ser eu mesmo, de pintar as unhas, usar roupas estranhas, maquiagem se me der na telha, eu posso não ser perfeito, com certeza não, mas o que importa é que eu sou eu.

— Eu tenho muito orgulho de você, Harry.

E num ato de pura covardia contra o mais velho, Styles abre um sorriso de tirar o fôlego, exibindo as covinhas e para derrubar de uma vez todas defesas de Louis entrelaça seus dedos. Suas mãos se abraçam.

O tão almejado toque está acontecendo!

Respirando fundo, tentando não surtar de felicidade, Louis o beija na testa e encosta o nariz em seu cabelo, aspirando seu perfume delicioso de morango.

— Muito orgulho, meu amor. — Repete sussurrado e esse segredo pertence apenas aos dois.

E é com pesar que eles caminham, de mãos dadas, o aperto é inexistente, são só seus dedos se tocando, as palmas se pressionando de vez em quando e isso é mais do que o suficiente para ele. Às vezes Harry deixa um beijinho na bochecha de Louis que retribui com outro beijinho e eles não conseguem parar de fazer isso, já se tornou um vício. Um vício que precisa ser interrompido quando param diante da porta da casa de Harry.

Eye Of The Tiger não está tocando e isso é um ótimo sinal.

— É aqui. — Anuncia sem necessidade.

— Sim, me parece familiar. — Louis retruca, não querendo deixá-lo ir. Ainda é cedo.

— Então, deveríamos nos despedir.

— Deveríamos.

Harry mordisca o lábio, inseguro. Resolve não fazer nada.

— Até mais. — E se vira para a porta.

— Até mais? É o melhor que você tem? — Zomba indignado.

Styles está ofendido.

— Pois é, eu te disse que não era bom com essas coisas.

— Mesmo assim eu esperava mais do cara que não tirou os olhos da minha bunda a noite inteira.

De ofendido ele foi pra puto rapidamente.

— Não, não, está acontecendo um engano aqui, era você quem não parava de olhar pra minha bunda e não pense que eu acreditei que foi um "acidente" aquela hora em que você foi me ajudar a descer do ringue. Você apertou a minha bunda.

— Que calúnia!

— Eu não nasci ontem, Tomlinson!

— Foi um acidente, mas tá tudo bem porque ali é uma área segura.

— Área segura? — Repetiu até compreender e deixou o queixo cair — Espera um pouco que eu vou chamar a minha irmã pra te bater. — Se apressou em procurar a chave.

Louis agiu rapidamente e o segurou pela cintura, trazendo-o para si. Ele que se policiou a noite inteira, prendeu o ar diante do que fez, olhou para Harry com olhos imensos e horrorizados, sem querer saber o que podia ter quebrado nele. Estranho, Harry parecia bem, um pouco atônito, mas nada de agonizar de dor.

— Eu estava errado, quando disse que você ia me machucar.

— Tá tudo bem?

— Tá, tá sim. Você sabe exatamente como me tocar, Lou.

Relaxando deixou que suas mãos apropriam-se um pouco mais daquela cintura tão perfeitamente modelada e fofinha sobre o casaco, as mãos de Harry abraçaram seus ombros, uma delas indo religiosamente para sua bochecha, era uma mania doce que ele tinha ao beijar, tão estupidamente carinhoso.

E lá estão eles, se beijando mais uma vez, não um beijo casto, mas um beijo de verdade. Com Harry arranhando seu ombro quando suas línguas se enroscam e os dentes de Louis provocam uma ardência deliciosa em seu lábio inferior e então volta a se concentrar em dominar por completo sua boca. Tudo se acende dentro de ambos, o frenesi se instaura, acompanhado do desejo e o mais novo geme contra os lábios de Louis que se vê ainda mais motivada a beija-lo até o fim dos tempos.

São incontáveis às vezes que eles tentam se separar, não deveria ser difícil, a porta de Harry estava bem ali, era só entrar. Tchau, até mais, nos vemos. Não existia segredo ou impedimentos, exceto que eles não conseguiam parar de se beijar. Em um dado momento, quando Harry se encontrava encostado na porta – não pressionado, jamais – com seus corpos juntos, se deleitando com mais um beijo intenso, arfou ao sentir algo duro roçando em sua perna. Se ele ficou envergonhado, Louis era um caso a parte que escondeu o rosto em seu pescoço pra grunhir de vergonha.

— E de volta a puberdade. — Sua voz sai abafada e a respiração quente faz cócegas no mais novo.

— Pelo menos você não está sozinho nessa.

Toma uma distância, em choque ao baixar os olhos para a parte da frente do jeans de Harry e certo, Harry também está duro.

Os dois estão.

Eles deveriam parar de se beijar agora, mas o cacheado faz aquele biquinho irresistível e cá estão de volta aos amassos, até a luz do segundo andar acender e ruídos serem ouvidos do lado de dentro.

— Ai droga, a Gemma acordou.

— Então vou poder te entregar direto em mãos.

— Você não está entendendo, tarde da noite ela fica meio tradicionalista e basta olhar pra você pra saber que andamos nos beijando, ela vai vir com a arma dela e te obrigar a se casar comigo.

— E por que você fala disso como se fosse ruim? Estou quase te pedindo em casamento mesmo... — Murmurou abobado, cobrindo o sinal perto da boca de Harry com o polegar — Espera, ela tem uma arma?

— Sim, algumas.

— Algumas? Ela é matadora de aluguel ou o quê?

— Não, claro que não.

— Okay.

— Ela é delegada.

Algo ficou preso na garganta de Louis, talvez fosse seu bom senso querendo fugir antes que uma delegada o flagrasse prestes a deflorar seu irmão contra a porta da casa deles.

— Não é nada demais, Lou.

— Imagina, mais algum cargo importante?

— Hum, ela era tenente no exército.

— Exército? Certo. Ela pode me matar, sem dúvidas. É melhor eu ir.

Girou nos calcanhares, pronto para partir e ele o teria feito, com muita má vontade por deixar seu príncipe tão cedo, o dia ainda nem começara a nascer.

Harry fez questão de resolver o problema do mais velho, o abraçando pela cintura e apoiando o queixo em seu ombro. Ele não tinha mais medo, confiava que Louis poderia fazer qualquer coisa, desde que seguisse a risca sem lema "com cuidado e devagar" era simples.

— Tem um lugar que eu quero que conheça.

O tal lugar ficava a cinco minutos da casa de Harry e era lindo. Louis quase ronronou ao adentrar aquele pequeno aquário florido que era a floricultura de Styles, tinha o melhor perfume do mundo, o maravilhoso misto de essências naturais e do cabelo de Harry, sinceramente, Tomlinson estava nas nuvens, deixou um beijo na orelhinha mais fofa do universo antes de sair desbravando o pequeno espaço.

Entre os vasinho com botões recém plantados encontrou uma gatinha gorda de pelagem negra e sem uma orelha, massageou as costas da garota que se acomodou melhor para receber o carinho.

— Qual o nome dela? — Perguntou, não podendo ver Harry por entre as prateleiras com arranjos e vasos espalhados.

— É Honey. Encontramos ela há duas semanas, como não é permitido animais na casa, a deixamos aqui. Me parte o coração, mas é melhor do que a rua.

Louis assentiu, adorando a gata. Ele tinha um fraco por gatos.

— Hey, Honey Boo, acha que eu tenho chances com o seu papai? — Nenhum miado. Mal sinal.

Mesmo correndo perigo pela falta de aprovação da filha de Harry ele começou a vaguear pela floricultura. Não sabia o nome de nada ali, mas achava tudo muito bonito, perfumado e calmo, entre as frestas das prateleiras mirou o garoto atrás do balcão, concentrado em cortar alguns ramos e ajustar as pétalas de forma que exalasse ainda mais beleza. Parecia o lugar perfeito para ele.

Calmo. Sereno. Bonito. Isso era tão... Harry.

Uma tulipa amarela parecia perfeita para completar a cena.

Harry se fez de distraído para não estragar o plano de Louis ao surgir as suas costas para surpreendê-lo com uma tulipa roubada de um de seus arranjos.

— Quem é o vândalo agora? — Resmungou para o lutador, se arrepiando por inteiro quando sua resposta foi um beijo molhado no pescoço que desceu para o ombro e subiu em direção a boca, o que lhes tomou longos minutos e o ressurgimento de suas ereções. Lutando para ficar focado, Louis colocou a tulipa atrás da orelha de Harry, enfeitando seus cabelos.

— Lindo. — Um novo beijo na nuca e Styles finalizou seu trabalho.

Afastou-se para oferecer seu singelo presente. Tomlinson olhou para a diversidade de flores, cores lindas e chamativas, todas bem organizadas e unidas em um buquê que tinha até mesmo um laço e um cartão.

— Não, não, leia depois, por favor. — Se apressou em dizer quando ele estava pra pegar o cartão.

— Tudo bem, meu príncipe, está muito tarde, é melhor irmos. — Harry concordou e eles rumaram de volta para a casa dos Styles se o cacheado não tivesse parado diante de um alto portão de ferro.

Louis olhou para os muros.

— Sem chance de invadir.

— Eu tenho a chave.

— Como? Espera, você é milionário e essa é a sua verdadeira casa? — O seguiu quando ele abriu e entrou.

— Quem me dera. — Caminharam de mãos dadas mais uma vez — Esse é o asilo no qual sou voluntário. — Claro que ele seria voluntário em um asilo, ele era perfeito demais. Louis queria poder apertá-lo. Andaram um pouco mais pelo jardim extenso com a grama verde bem aparada, mais a frente estava o imenso casarão, semelhante a um castelo antigo, as luzes apagadas. Sentaram-se no banco de madeira — Minha esposa está lá.

— Esposa?

— Uhum. Mary Ann, ela me ama muito, nos casamos de mentirinha na terça, eu tenho até uma aliança. — Exibiu seu anel de rosa — Por isso precisa ficar quietinho para que ela não descubra sobre nós.

— E todo esse tempo comigo achando que você era um santo quando tem uma esposa, você tem filhos também? — Louis entrou na brincadeira com bom humor.

— Não, ela tem noventa e três anos, mas isso não nos impede de tentar, muito.

Louis fez careta.

— Você é péssimo, Harold, péssimo. — Riu um pouco sonolento, encostou as costas no banco. A noite já se despedia e o sol surgia no horizonte. Ele não era o único cansado, Harry deitou no banco, a cabeça nas coxas de Louis.

— Eu nunca deitei a cabeça no colo de ninguém antes. — Disse piscando com os olhos pesados.

— Eu não vou quebrar seu pescoço, Haz.

— Estou confiando em você.

Dois minutos depois, completamente adormecido ou quase porque ainda conseguiu pedir um beijinho e murmurar que era um dia lindo, depois disso mais nada.

Louis não voltou a ficar tenso, seu corpo parecia acostumado a cuidar de Harry e não houveram chances de qualquer fratura ou torção, seu sono foi protegido por seu devoto anjo da guarda que só se moveu para pegar o cartão no buquê, leu a frase transcorrida em uma letra caprichada:

Eu nunca me senti tão vivo como me senti com você.

Harry estava dormindo mesmo assim fez questão de dizer próximo ao rosto dele:

— Eu também, meu príncipe, eu também.

O casal foi despertado próximo às onze da manhã com bengalas cutucando Louis e uma pluma no ouvido de Harry, eles saltaram assustados, enquanto os idosos riam de seu desespero. Foram bocejando e com a cabeça de Harry apoiada no peito de Louis até em casa onde fatidicamente tiveram de se despedir.

Foi breve, mas perfeito e assim que entrou em casa, flutuando nas nuvens tomou um susto e quase conseguiu uma fratura ao tropeçar no degrau da sala, lá estava sua irmã, fardada, usando o quepe, a arma sobre a mesinha de centro e uma xícara de café na mão, o esperando sentada na poltrona. Tinha certeza que ela treinara um discurso cheio de ameaças para Louis e agora estava frustrada por ele ter aparecido sozinho, até lançou os olhos esperançosos em direção a porta.

— Você devia ter voltado às onze. Eu esperei pelo emoji, Harry, esperei a noite toda e nenhum emoji. — Declarou dramaticamente como se fosse a maior traição da história da humanidade.

Harry revirou os olhos e pegou o celular, digitando rapidamente.

Gemma recebeu a mensagem e checou desconfiada.

— Ué, um monte de corações, o que...? — Seus olhos dobraram de tamanho e ela saltou da poltrona — Puta merda! Você está apaixonado.

— Acho que agora eu acredito em amor à primeira vista ou primeiro encontro. — Suspirou visivelmente apaixonado.

Gemma soltou os ombros, se dando por vencida.

— Eu queria tanto te socar, seu idiota.

— Eu também. — Passou por ele, roubando seu café e sentando na poltrona. Cada momento passando como um flashback em sua cabeça — Eu também — Bebericou, com uma tulipa amarela no cabelo e o coração quentinho.

"Apesar da brisa das árvores
Se moverem tão graciosamente você é tudo que vejo
Enquanto o mundo continua girando
Você me abraça forte aqui, nesse instante"

 

Indo contra todas as expectativas, lá estava Harry no meio daquele pandemônio, ainda maior do que o outro e lotado. Era uma sorte – lê-se namorar o lutador finalista – que tivessem conseguido lugares vips, extremamente perto do ringue e mais afastado da multidão.

Faltava pouco para começar e ele não sabia o que fazer com todo aquele nervosismo e ansiedade.

— Eu vou comprar alguma coisa, vai querer o quê? — Gemma gritou sobre as vozes alteradas — Chá gelado?

— Foda-se o chá gelado, hoje eu preciso de álcool.

— Uh, ele bebe agora. Vou contar pra mamãe. — Brincou, não sem antes perguntar se ele ficaria bem. Ele ficaria sim.

Desde que conhecera Louis o mundo não parecia mais tão assustador e nem ele tão covarde. Harry começara a acreditar na sua força, que ele era mais do que um simples menino de vidro. Sua doença não podia comandar sua vida, não mais, nunca mais.

Gemma voltou com tanta coisa que era como se eles fossem passar dois anos em um bunker e não quarenta minutos vendo uma luta e vale acrescentar que eles já tinham jantado antes. Mesmo assim ele aceitou tudo e não parou de comer até Louis Tomlinson ser anunciado, como um titã ele surgiu do topo da arquibancada, causando um tumulto geral, todos vibraram com ele, do telão Harry o assistiu descer às pressas, golpeando o ar, a franja no olho e a bandeira sobre os ombros. Ele ficava bem de vermelho, mas o arco-íris era sua cor.

Harry lhe mandou um beijo a distância e ganhou uma piscadela maliciosa.

O juiz anunciou e a luta teve início.

Na visão de Harry foi um caos, tudo aquilo de socar, sangrar e grunhir o deixava agoniado. Ele sentia sempre como se fosse com ele e se tratando de Louis, era realmente como se fosse nele, quando Louis caiu e demorou para acordar ele quase chorou, não pelo medo dele perder, mas por ter se machucado gravemente, no entanto, havia algo de sobre humano naquele homem que parecia indestrutível e reagiu.

E lutou.

Lutou até vencer Liam Payne e ter um público de cinquenta mil pessoas vibrando. A comemoração foi imensa e quando ele ergueu o cinturão junto com a bandeira, o estardalhaço foi ainda maior e ele procurou, procurou por ele, mas só encontrou Gemma na frente e nenhum sinal dele.

Louis se esforçou pra encontrar por entre o mar de corpos. Ele não podia ter ido embora, era o seu talismã da sorte e ele tinha toda a razão, Harry estava lá, com seu chamativo sobretudo vermelho no topo da arquibancada, no mesmo lugar por onde Tomlinson havia entrado.

Louis saltou as cordas e correu pela arquibancada acima. Toda a sua equipe gritou por ele, o público, o juiz com seu ensurdecedor microfone, mas nada foi capaz de impedir que ele parasse diante de Harry com o rosto suado e sorridente.

O sorriso se perdeu quando encontrou o rosto choroso de Styles.

— O quê houve? Alguém te machucou? Está sentindo dor? — Quis saber, no nível máximo de namorado protetor, afagando suas bochechas vermelhas.

— Não é isso, é só que... Eu não consigo, não consigo assistir, é demais pra mim ver qualquer pessoa se machucando desse jeito, principalmente você. Não dá.

Louis deu um passo à frente, secando as lágrimas do rosto bonito e unindo suas testas.

— Tudo bem. Acabou. Essa foi minha última luta.

— Não, Louis, não precisa fazer isso...

— Harry, esse era o meu plano. Muitos lutadores tem se assumido, até o Payne, eu já fiz a minha parte, agora está na hora de fazer algo seguro, calmo e sereno e como eu estou desempregado agora queria saber se você precisa de um ajudante na floricultura.

— Mas você não entende nada de flores. — Fungou entre as lágrimas, sofrendo internamente pelos hematomas que macularam o rosto de Tomlinson naquele momento.

— Pode ser, mas eu sou apaixonado por elas. — Fez questão de olhar diretamente nos olhos dele ao dizer: — Completamente apaixonado.

— Eu também.

E não, isso não tinha nada a ver com flores.

Tomlinson se inclinou para um beijo, mas antes Harry o impediu com uma mão no seu peito.

— Que foi?

Sem dizer nada, limpou o sangue no canto da boca de Louis e o puxou pelo colar, selando seus lábios e o beijando apaixonadamente.

— Eu tenho tanta sorte. — Gemeu entre o beijo.

— Nós temos. — E Harry passou os braços por seu pescoço, o beijando sem medo algum porque até borboletas de vidro podem voar alto com um pouco de impulso.

"Sortudo, pois estou apaixonado pelo meu melhor amigo
Sortudo por ter estado onde estive
Sortudo por estar voltando pra casa novamente
Sortudo que estamos apaixonados de todas as formas
Sortudo por termos ficado onde ficamos
Sortudo por estar voltando pra casa novamente"

Notes:

Oioi, moranguinhos!
E quem disse que eu não sabia escrever fluffy, hein?
Nem só de sofrência eu manjo kkkk eu tenho essa one nos rascunhos há muito tempo e cheguei a conclusão de que era um pecado não concluir, virei a noite e tá aí. Eu amei e torço para que vocês também gostem. O ano está acabando, mas talvez eu ainda traga mais uma surpresinha pra fechar com chave de ouro esse 2019.
Fiquem ligados! :)