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Psyche

Summary:

Kyungsoo sempre esteve no meio de uma linha fina que separava ser bom e ruim; o policial não acreditava que havia algo pelo que lutar, não quando todas suas esperanças morreram com a Segunda Guerra. Não quando o Japão era tomado pela máfia e ele não podia lutar a favor de suas poucas crenças, mas Jongin de repente apareceu, e ele sabia que o Kim era uma borboleta indo em direção à chama, e faria de tudo para que suas asas não virassem pó.

Work Text:

Tóquio, 1952.

Havia algo ímpar na maneira como as pessoas passavam apressadas pelas ruas, deixando pegadas úmidas nas calçadas devido às poças. Kyungsoo inclinou o pescoço para olhar por trás do chapéu, vendo alguns adolescentes andando pelas ruas carregando cartazes. Ele suspirou antes de colocar o fumo nos lábios rachados e puxar, sentindo o gosto amargo que significava que o charuto estava chegando ao final; ele sabia o que estava prestes a acontecer, e por mais que concordasse com o movimento, desejava que não fosse ele a lidar com as consequências de um acordo político. 

Do Kyungsoo sempre pensou que, dentro desse universo vasto, ele era apenas poeira estelar. Um grão. Resto de outras galáxias. Pouco a pouco, o país se recuperava da guerra, e quem era ele para julgar todos aqueles homens que agora carregavam tatuagens mal acabadas na pele como um acordo de vida? 

O charuto no final foi deixado para queimar sozinho. Ele tirou as poucas cinzas que havia caído em seu casaco e entrou dentro da delegacia, vendo um cara que parecia estar bêbado sentado conversando com um dos policiais. Era provavelmente um americano, o que era muito comum atualmente devido às tropas que haviam se alojado no Japão depois do acordo de segurança.

O frio ainda presente em Tóquio no final de janeiro, parecia que a chuva não iria embora tão cedo. Ele estremeceu quando uma rajada de vento entrou pela janela, e antes de fechar olhou para o céu. Escuro. Nublado. Como se os céus chorassem por cada vida que havia sido perdida na guerra. Por cada pessoa que perdeu quem amava, por cada mãe que perdeu o filho, e por cada criança que perdeu tudo.

Era injusto, ele pensava. Todas essas dúvidas sobre o que era justo o fazia desacreditar em suas fés antigas.

Kyungsoo sentou-se em sua cadeira e aquele outdoor visto da janela sempre lhe fazia se perguntar se a felicidade transmitida por aquele olhar era real. Era nítida a imagem de família perfeita que os Kim tentavam passar, como aquelas propagandas de margarina. Sorrisos brancos, dentes alinhados, e uma harmonia familiar que Kyungsoo não acreditava ser real.

Ele não havia se arrependido do acordo que deixou suas mãos rubras. Não era da sua conta, afinal. Por fim, ele fechou a janela quando voltou a chover, e pegou a pilha de papéis para ler os depoimentos de testemunhas de alguns casos. Era ridícula a maneira como pequenos delitos causados pelos Yakuzas haviam aumentado desde que eles começaram a aceitar ex-soldados; eles pareciam fugir completamente da linha, e não era surpresa para Kyungsoo vê-los na delegacia com um dedo a menos há cada semana. 

Seu corpo deu um pequeno salto quando uma pasta foi colocada em sua mesa, estando tão absorto no trabalho, Kyungsoo não percebeu Baekhyun se aproximando, mas não era incomum aquele homem mover-se como um fantasma e aparecer de repente. Havia algo no jeito como Baekhyun conseguia ser quieto que era assustador até mesmo para Kyungsoo; o homem mais velho estava com uma barba rala para fazer, e suas olheiras eram evidentes. Ele bagunçou os cabelos negros antes de soltar um suspiro, parecendo frustado.

“Eu sei que você está até o pescoço de casos, mas pode dar uma olhada nessa porcaria? Eu estou cansado demais para conseguir encontrar um caminho… Parece que estou andando em círculos”, Baekhyun disse baixinho, puxando uma cadeira para se sentar ao lado de Kyungsoo. Ele abriu a pasta amarela que estava na mesa e havia fotos de uma mulher que não parecia ter mais de vinte anos.

“Park Jihyo”, Kyungsoo sussurrou, vendo a ficha preenchida às pressas por Baekhyun. “Eu conheço esse rosto de algum lugar”, disse pensativo, tentando fazer seu cérebro puxar a memória de onde a havia visto, e mesmo depois de minutos, nada veio.

“Ela esteve aqui há alguns meses, literalmente arrastada por um americano que dizia que ela havia destruído sua família”, Baekhyun riu sem humor. “O filho da puta contrata uma garota de programa e a culpa por destruir sua família? Eu deveria ter dado um soco nele”, o homem disse bufando, e empurrou um papel que falava sobre o caso de Jihyo. Ele passou os olhos rapidamente e assentiu. “Sua mãe disse que ela não volta para casa há três dias, enquanto seu pai diz que ela é uma vagabunda e deve ter fugido com algum estrangeiro rico… E isso não faz sentido, porque, por mais que eu saiba que tem muita gente voltando para a Coreia do Sul, eu sei que não seria o caso de Jihyo, porque quando conversamos da última vez, ela me disse que estava fazendo isso para pagar as dívidas da família… Eu não acho que ela faria isso tudo para abandoná-los depois. Eu sinto que existe algo nisso”, Baekhyun jogou-se contra a cadeira, e ficou alguns segundos olhando para o teto antes de ouvir a voz de Kyungsoo.

“O problema é que você sempre acha que conhece as pessoas, Byun”, o mais novo sussurrou de maneira formal, o que fez Baekhyun revirar os olhos.

“E você apenas espera que todas as pessoas tenham um lado ruim.”

“Todas pessoas têm, ela tem, você tem, e eu tenho, mas somos ensinados desde crianças a não deixá-lo sair. Nós apenas controlamos ele”, Kyungsoo deu de ombros, juntando todos os documentos sobre o caso de Jihyo, colocando-os na pasta em seguida. “Podemos dar uma olhada nisso, mas não tenha muitas esperanças, às vezes fazemos coisas estúpidas pela esperança de uma vida melhor e dinheiro no bolso.”

Baekhyun apenas assentiu, sabendo que não adiantaria discutir com Kyungsoo enquanto o homem usava antolhos feitos de ignorância. Kyungsoo levantou-se e foi pegar um café enquanto lia o depoimento da mãe de Jihyo. Realmente, parecia um beco sem saída, não seria fácil resolver aquele caso. Não era a primeira garota de programa que havia sido dada como desaparecida, mas as outras realmente fugiram para outro país, e Kyungsoo queria acreditar que a máfia local não estava envolvida.

O dia transcorreu sem casos graves, apenas alguns jovens vândalos sendo detidos por realizarem manifestações contra os Estados Unidos, o que era comum no estado atual do país. 

Ele encarou o céu ainda chuvoso quando saiu da delegacia, e abriu o guarda-chuva preto antes de acender um charuto novo, andando calmamente pelas ruas movimentadas de Tóquio, e todo lugar que ele olhava o rosto daquele modelo estava estampado. Claro, como poderia não estar. Os Kim eram donos da maior empresa de entretenimento do país, a Kingstar Entertainment. Ele havia perdido as contas de quantos outdoors estavam espalhados pela cidade carregando o nome da empresa; e aquele Kim Jongin era um modelo novato que atingiu o apogeu logo em sua estreia, tendo filas de empresas implorando para ele ser o garoto propaganda. 

E ele era o filho mais novo de Joheyon Kim; não poderia ser diferente.

Kyungsoo sentia que ele era apenas uma borboleta dançando em volta de uma fogueira; sendo atraído pelas chamas bonitas que, no final, fariam suas asas virarem pó. Era assim que era a fama, e na época ele não sabia que deveria ter feito o possível e impossível para apagá-las.

Quando abriu a porta do apartamento pequeno em que morava, o gato preto enroscou-se em suas pernas, lhe fazendo sorrir pela primeira vez no dia. O gato esticou os braços em direção a Kyungsoo para que ele pudesse pegá-lo. O gato esfregou-se em si, e ele riu, colocando Fígaro no chão para que pudesse encher seu pote de ração. Kyungsoo gostava da monotonia. Sempre tentava fazer a mesma rotina todos os dias, gostando de, ao menos fora da delegacia, ter tudo sobre suas mãos. 

Naquela noite não foi diferente. Ele ligou o rádio velho, ouvindo as novelas japonesas enquanto comia seu jantar, e depois que terminou, tomou um banho quente e foi dormir. Ele sempre se sentia apático, e julgava ser porque não conseguia encontrar felicidade nas coisas da vida depois de tudo o que viu. 

Igual ao dia anterior, Kyungsoo fumou seu charuto antes do trabalho. Era uma manhã particularmente fria, talvez mais que a anterior, e a delegacia estava quieta quando ele entrou. Ele sentou-se e abriu a janela perto de seu cubículo, vendo Kim Jongin sorrir para si como todos os outros dias. Seria estranho se aquele outdoor fosse substituído, depois de levar meses para se acostumar. Kyungsoo estava guardando algumas pastas da sala de arquivo quando Baekhyun entrou igual à um furacão, e antes que Kyungsoo pudesse perguntar, o homem agachou em sua frente e tampou o rosto com as mãos, e o mais novo podia jurar que ouviu um choro angustiado sendo abafado por suas mãos grandes. Ele ficou alguns minutos assim, deixando Kyungsoo congelado no lugar. Ele não sabia consolar as pessoas, então ele apenas esperou que Baekhyun estivesse controlado o suficiente para contar o que havia acontecido.

“Park Jihyo foi encontrada”, ele sussurrou depois de tirar as mãos do rosto, e Kyungsoo queria apenas assentir e dizer “isso é bom”, mas Baekhyun o cortou. "Alguns manifestantes estavam fugindo da polícia de madrugada quando encontraram seu corpo em um beco estreito, próximo à Kingstar Entertainment. O lugar é de difícil acesso, por conter muito entulho. Foi levado para o legista, mas… Ela levou duas facadas no abdômen, Kyungsoo. Quem faria uma coisa dessa?”

 “Isso é uma droga”, ele sussurrou. Talvez Baekhyun estivesse certo quanto a Kyungsoo sempre esperar o pior das pessoas.

“A mãe e o irmão mais velho foram fazer o reconhecimento”, Baekhyun disse se recompondo. “Eu vou tomar o depoimento da família, e você vai até a casa de prostituição. Tente reunir o máximo de informação possível. Vou conseguir um mandato”, Kyungsoo concordou, e então Baekhyun suspirou fundo e saiu da sala de arquivos, deixando-o para trás com seus fantasmas.

Kyungsoo no fundo sentia que tinha que fazer alguma coisa, mas suas mãos estavam amarradas, e sua têmpora latejando dizia que ele teria muitos problemas dali em diante.

Um pouco mais tarde Baekhyun chegou com um mandado judicial, e com o documento em mãos eles foram até a casa de prostituição principal. Enquanto ele passava pelas ruas, via garotas sendo exibidas na vitrine, como um produto, e todas acenavam para si com um sorriso no rosto, mesmo que suas expressões fossem vazias.

A casa principal ainda não estava aberta, então ele bateu na porta e uma mulher de um pouco mais de quarenta anos atendeu, lhe encarando de maneira curiosa, e quando viu o nome preso em seu peito, ela mudou sua expressão. Parecia temerosa, e Kyungsoo tirou sua identificação do bolso para mostrá-la.

“Olá, senhora. Eu sou Do Kyungsoo, e estamos aqui para investigar a morte de Park Jihyo”, ele disse, vendo-a arregalar os olhos.

“Ela morreu?”, a mulher perguntou parecendo horrorizada, e deu espaço para Kyungsoo entrar depois dele assentir. Era a primeira vez que ele entrava no local, e as luzes vermelhas já estavam todas acesas, e havia muita gente transitando para lá e para cá, e levou-o até um escritório, e depois que Kyungsoo entrou, ela se sentou e soltou um suspiro baixo. 

“Você pode me dizer qual foi a última vez que viu Park Jihyo?”, Kyungsoo perguntou, pegando um bloco de notas e uma caneta, esperando para anotar tudo o que a mulher dizia. 

“Ela veio trabalhar há quatro dias, e depois de dois clientes ela me disse que ia para casa”, Kyungsoo concordou, mantendo seu semblante frio.

“E você notou algo de diferente neste dia? Ela comentou sobre alguém estar perseguindo ou incomodando ela de outra forma?”

“Não... Ela parecia a mesma de sempre… Ela era uma boa garota, Sr. Do, apesar de tudo. O pai abandonou a família para ficar com outra mulher, e desde então ela tem tentado sustentá-los. Seu irmão mais velho perdeu os movimentos de uma das pernas, e tem sequelas da guerra, não consegue fazer muita coisa, então ela estava tentando de todos os jeitos pagar as dívidas”, Kyungsoo assentiu.

“Eu sei que isso é confidencial, mas eu preciso do nome dos últimos clientes dela antes do sumiço”, a mulher mordeu o lábio inferior e olhou para o chão, sem saber o que fazer.

“Eu sinto muito, mas eu não posso”, ela sussurrou, olhando para os lados. “Eu realmente não posso,  por favor, entenda”, ela suplicou ainda no mesmo tom. 

“Eu preciso dos nomes, senhora. Essa é uma parte importante da investigação, e se por um acaso se recusar, teremos que fechar todas as casas para investigar e verificar cliente por cliente. Acho que não queremos isso, não é?”, ele sussurrou ainda mantendo a calma. “E não se preocupe caso seja alguém que possa te oferecer perigo, se for o caso, podemos te colocar no programa de proteção à testemunha, tudo bem?”, a mulher, ainda bastante apreensiva, assentiu.

“Joheyon Kim”, ela sussurrou, olhando para os lados para ter certeza de que estavam sozinhos. “Ele foi o último cliente dela… Por favor, não coloque o meu nome na investigação, se o gerente souber que eu disse algo sobre um cliente VIP… Eles…”

“Eles vão se livrar de você”, ele completou, rindo sem humor. “Por que eu não estou surpreso? Merda, isso torna as coisas mais difíceis… Ele é um cliente regular aqui?”

“Sim. Ele normalmente aparece nas sextas-feiras, e sempre leva uma das nossas garotas para casa. Às vezes um dos garotos também”, Kyungsoo assentiu. “Você acha que ele pode ter matado Jihyo?”

“Por quê? Você acha que ele tinha algum motivo para isso?”, Kyungsoo inclinou o chapéu que usava para olhar nos olhos da mulher, e ela apenas negou com a cabeça. 

“Jihyo nunca me falou sobre seus clientes, ela sempre foi muito reservada quanto a isso.”

“Vocês têm algum vestiário aqui? Com armários ou coisas do tipo?”

“Sim, você pode me seguir”, a japonesa se levantou e caminhou até um vestiário, onde havia várias garotas se trocando, e elas pararam o que estavam fazendo para olhar para Kyungsoo, com curiosidade no olhar. “Apenas continuem o que estavam fazendo”, elas assentiram e voltaram a trocar as roupas, enquanto a mulher levava Kyungsoo até o final do vestiário. Ela parou em frente a um armário com alguns adesivos da Hello Kitty colados e procurou uma chave no molho que estava em seu bolso, e depois de alguns segundos conseguiu abrir, e se afastou para que o policial pudesse olhar.

Havia um pouco de maquiagem, perfumes, roupas íntimas dobradas, tudo parecia tão organizado. Havia um envelope branco e Kyungsoo puxou uma luva do bolso antes de tocar nas coisas. Haviam várias cartas no envelope, um pouco de dinheiro também, mas o que lhe chamou a atenção foi um contrato assinado com a Kingstar Entertainment, o que lhe fez franzir o cenho. No contrato dizia que Jihyo estava sendo contratada para ser modelo, mas então por que ela ainda estava fazendo programa sendo que o contrato foi assinado há dois anos?

“Isso não faz sentido”, ele disse, continuando a mexer em todos os papéis, e as cartas estavam em coreano, e todas escritas em primeira pessoa, como se Jihyo estivesse contando algo para alguém. Kyungsoo embalou tudo em sacos plásticos, sabendo que poderia chegar a algum lugar com aquilo.

“Senhora Yamato”, uma garota entrou no vestiário chorando, chamando pela mulher que esperava Kyungsoo revirar o armário. “É verdade que Jihyo foi assassinada?”, ela perguntou com lágrimas nos olhos, e logo o vestiário virou um mercado de peixe, com todas as garotas fazendo perguntas ao mesmo tempo. Enquanto todas as garotas falavam, uma se aproximou de Kyungsoo e deixou um papel amassado em sua mão, colocando o dedo nos lábios pedindo para ele não dizer nada, e mesmo estranhando tal situação, ele não disse nada, apenas fez mais algumas perguntas simples às garotas que estavam ali, mas nenhuma parecia saber de nada.

Quando ele saiu, passou a mão pelo rosto e suspirou fundo, sentindo sua cabeça começar a doer. Quando ele chegou na delegacia, colocou tudo que havia pego do armário de Jihyo para ser analisado, e decidiu que leria as cartas no dia seguinte. Ele se sentia mentalmente exausto pelo dia movimentado, já que normalmente os casos que resolvia eram calmos.

Kyungsoo chegou em casa naquele dia com os olhos pesados e nem mesmo Fígaro conseguiu tirar aquela sensação esquisita de seu peito. Quando foi tomar banho, ao tirar a roupa, um pedaço de papel amassado caiu, então ele se lembrou da garota. O policial desdobrou o papel e leu.

"Kim Jongin veio procurar Park Jihyo depois que Johyeon a levou embora. 

Procure por ele. Não diga que eu lhe contei."

 Kyungsoo tentou entender o que estava acontecendo. Pelo que ele sabia, Kim Jongin nunca teve nada a ver com eles. Por que ele estava dentro daquela situação? Agora ele entendia o que Baekhyun quis dizer com a sensação de estar correndo em círculos sem chegar a lugar algum. Ele sentou-se no vaso sanitário e ficou pensando por alguns minutos, e ele simplesmente não conseguia fazer nenhuma ligação entre Jihyo e aquelas pessoas, ou com o contrato de modelo.

E o Kim sorrindo para si no outdoor que ele via de sua janela não o ajudava.

Ele se sentia a borboleta correndo em direção ao fogo agora.

Quando a manhã chegou, ele ainda não havia conseguido dormir, e tomou um pouco mais de café que o recomendado, fumou antes de entrar na delegacia e encontrou Baekhyun encostado em sua mesa, parecendo concentrado enquanto lia algo. Kyungsoo deixou sua xícara de café sobre a mesa e tirou o casaco grosso, pendurando na cadeira antes de se sentar, percebendo só então que o Byun estava lendo as cartas de Park Jihyo. 

“Todas as cartas dela são pedidos de desculpas. À mãe, ao irmão, ao pai… Mesmo que aquele filho da puta não valha nada… Não tem uma carta onde ela não diga que sente muito por fazer o que faz, mas explica que é a única opção para continuar trazendo comida para casa… Ela diz que nunca quis desonrar a família... Isso é tão fodidamente triste, Kyungsoo”, Baekhyun suspirou, jogando as cartas de volta onde estavam. “Você conseguiu alguma coisa?”

“Sim, e estou indo falar com Johyeon Kim”, Baekhyun franziu o cenho. 

“Você não colocou nada disso no relatório da investigação.”

“Se eu tivesse feito, ela provavelmente já estaria arquivada, e você sabe disso. Ele manda em metade do país, não seria difícil para ele se livrar de nós.”

“Isso me soa como se você fosse um covarde.”

“Estou pouco me fodendo para o que você pensa, estou saindo”, Kyungsoo disse, pegando de volta seu casaco e tomou o último gole de café, sabendo que seria um dia estressante e que ele não teria paciência para lidar nem com metade dele.

Principalmente com um homem chamado Johyeon Kim.

O prédio da Kingstar Entertainment era estupidamente fácil de encontrar, porque era o prédio mais alto da cidade, e também mais luxuoso. Ao adentrar, os seguranças do prédio o pararam na porta, e bastou ele mostrar seu distintivo para que sua entrada fosse liberada. Havia algumas pessoas no saguão da empresa, que olharam para ele quando ele se aproximou do balcão. Andar com farda sempre chamava a atenção; a recepcionista japonesa o encarou antes de fazer uma reverência.

“Como posso te ajudar, senhor?”

“Quero falar com Johyeon Kim”, ele mostrou o distintivo e a recepcionista ligou para o escritório, e logo ela desligou o telefone.

“O senhor pode subir”, ele sussurrou um obrigado e foi em direção ao elevador, e merda, aquilo era tão familiar. Era um pouco menos sombrio à luz do dia, mas ainda assim fazia seu sangue correr mais rápido. A porta fez um barulho quando ele chegou ao último andar, e assim que abriu a porta um silêncio incômodo caiu. Naquele andar havia apenas o enorme escritório de Johyeon Kim, e nada mais. Seus sapatos fizeram barulho quando ele entrou no corredor, e nem precisou bater na porta para que ela fosse aberta por Johyeon Kim e mesmo depois de quase um ano, aquele homem parecia o mesmo.

“Eu não esperava te ver aqui tão cedo”, o homem sorriu. Por mais que Johyeon fosse coreano, ele tinha um sotaque forte, por estar vivendo no Japão há muitos anos.

“Eu não queria estar aqui”, Kyungsoo disse, curto e grosso. “Se você não fizesse merda, eu não precisaria pisar aqui, mas você não tá seguindo o combinado.”

“E por que você acha que eu matei a putinha?”, Johyeon disse sentando-se em sua cadeira.

“Me diz você. Você matou Park Jihyo?”

“Quem sabe…”

“Olha, Kim, quando você me procurou no ano passado, nós fizemos um acordo. Você não mataria nenhum cidadão de bem e eu fecharia os olhos para a máfia. Eu não quero os Yakuzas matando gente no meu território. Você dê um jeito de arrumar essa bagunça, entendeu?”, Kyungsoo apontou o dedo na cara do homem, que riu baixo. “Você sabe que tenho o suficiente para prejudicar sua empresa, não sabe? Então cumpra com o combinado, e resolva esse caso… E eu quero que você dê um jeito de ajudar financeiramente a família de Jihyo, mesmo que seja com um falso seguro de vida, ou seja lá o que você quiser inventar. Eu não quero voltar aqui, combinado?”

O homem mais velho revirou os olhos, mas acabou assentindo, e Kyungsoo saiu da sala com o mesmo barulho de sapato de antes, mas se sentindo mais leve sabendo que a família de Jihyo não ficaria desamparada, e antes que ele pudesse chegar ao elevador, viu uma figura encostada na parede, e o garoto batia o pé de maneira ansiosa enquanto mordia o lábio inferior. Kyungsoo ia passar reto por ele, mas assim que o garoto lhe viu, ele ficou de pé em sua frente.

“Oficial Do… Eu… Eu te vi subir… Podemos conversar?”, Kim Jongin perguntou, e Kyungsoo tentou adivinhar o que ele queria dizer, mas apenas assentiu, e sentiu sua mão ser puxada pelo garoto até o elevador, e mesmo que fosse incomum, ele não largou a mão de Kyungsoo até que eles estivessem em um andar mais baixo. Assim que as portas se abriram, ele puxou o policial até uma sala e trancou a porta depois que eles entraram.

“No que eu posso te ajudar?”, Kyungsoo perguntou sério, vendo Jongin olhar para si apreensivo.

“Jihyo… Ela… Ela morreu por minha causa”, aquilo definitivamente pegou Kyungsoo de surpresa. 

“Elabore.”

“Eu não estava pensando muito quando contei algumas coisas pra ela, e merda, por que Jihyo tinha que ter o coração tão bom? Ela não deveria ter tentando reverter essa situação, Sr. Do. Não é algo com o que qualquer pessoa possa lidar agora…”

“Do que você está falando, Sr. Kim?”

“Eu… Eu também não posso te envolver nisso”, Jongin disse com os olhos arregalados.

“Se você não ia me contar o que aconteceu, por que me chamou?”, Kyungsoo questionou e bufou. “Não é como se seu pai fosse mandar me matar.”

“Então… Você sabe? Você sabe que foi ele?”, Kyungsoo assentiu. “E por que você não faz nada?”

“E como você quer que a polícia vá contra os Yakuzas sendo que eles comandam o país, Sr. Kim?”

“Mas vocês são da polícia! Vocês deveriam fazer alguma coisa!”

“E você realmente acha que a polícia não trabalha com os Yakuzas? Você sabe o que está acontecendo no Japão, e se a polícia não se unir com a máfia, as tropas americanas tomam a cidade. Não podemos fazer muito, o máximo que eu posso fazer é ameaçar expor as coisas que a empresa do seu pai fez para a mídia e tentar acabar com a imagem familiar que ele tenta passar, e ainda assim não seria muito, mas é o que me mantém vivo, e ele não pode simplesmente matar um policial. Ao menos ele ainda não perdeu a cabeça ao ponto de fazer isso.”

“Ele faria”, Jongin sussurrou, e seus olhos ficaram úmidos enquanto ele olhava para o policial. “Ele faria. Ele não tem escrúpulos. Se ele sequer se importa com a família dele, você acha que ele vai se importar com você? Ele está jogando com você, e se você não tomar cuidado, vai acabar como Jihyo.”

“Eu não sou policial à toa, eu sei me cuidar, Sr. Kim”, Kyungsoo soltou um suspiro. “Eu não sei o que aconteceu entre você e seu pai, não é muito da minha conta dramas familiares, mas se você estiver se sentindo ameaçado, me procure. Eu não posso ir contra a máfia, mas eu sei lidar com seu pai.”

“Eu posso acabar como ela.”

“Você é filho dele.”

“Isso não o impediu de me vender antes, e tenho certeza que a partir do momento que eu não trouxer mais dinheiro para a empresa, ele vai se livrar de mim.”

“Se algo acontecer, venha até mim”, Kyungsoo tirou o bloco de notas do bolso e rabiscou seu endereço com pressa e o Kim fitou o papel por alguns segundos antes de pegar. “Eu posso ser um pouco mau caráter por ter feito um acordo sujo com o seu pai, mas eu fiz tentando proteger os cidadãos dessa cidade. No fundo eu ainda sou um policial que quer o bem do povo, nosso lema não é servir e proteger à toa, e você não parece ser uma pessoa ruim. Se acontecer algo, não exite em me procurar”, Jongin balançou a cabeça, e Kyungsoo gostou de ver um brilho fraco de esperança em seu olhar. “E você não matou Jihyo, a máfia fez isso, não é sua culpa. Não fique se martirizando por isso, tudo bem?”, o garoto não disse nada, e viu Kyungsoo sorrir fraco antes de deixar a sala, voltando a pegar aquele elevador horrível. 

Ele ficou pensando no que Jongin disse o resto do dia, e ele percebeu que tinha razão ao pensar que aquela felicidade na expressão de Jongin era ensaiada, e era tão triste ver um sorriso tão bonito não ser verdadeiro.

Quando Kyungsoo chegou na delegacia no dia seguinte, a mãe de Jihyo estava sentada na cadeira em frente sua mesa, e mesmo abatida ela parecia estar mais em paz do que nos dias anteriores. Ele deixou seu casaco antes de sentar-se na cadeira, e a mulher sorriu para si, e havia tanta dor naquele sorriso que ele se sentiu culpado. Como se ele fosse o culpado pela morte de Park Jihyo; ele soube como Jongin se sentia, ainda mais por saber que a garota havia sido morta porque tentou ir contra o silêncio sangrento da máfia.

“Obrigada, Sr. Do… O delegado disse que você estava investigando o caso da minha filha… Agora eu posso finalmente dormir em paz porque o assassino está preso”, a mulher disse com a voz embargada, e Kyungsoo engoliu seco para não deixar sua voz falhar. 

“Esse é o meu trabalho, Sra. Park. A senhora não precisa me agradecer”, ele disse baixinho, e sorriu pequeno quando a mulher pegou sua mão. “Eu tenho certeza que Jihyo está no céu cuidando da senhora, de cada passo. Você foi uma ótima mãe, tenho certeza disso.”

“Ela era uma garota tão boa, queria ter dado uma vida melhor para ela.”

“Ela foi muito feliz ao seu lado, eu tenho certeza”, a senhora sorriu em agradecimento e levantou-se, dando tchau para alguns policiais. Kyungsoo sentiu um calafrio na espinha quando viu Baekhyun lhe encarando de maneira séria, como se estivesse vendo o fundo da sua alma. Ele desviou o olhar, mas não adiantou muito. O policial mais velho se aproximou e apoiou a mão em sua mesa, chegando pertinho de si.

“Eu não sei o que você fez, mas eu tenho certeza de que aquele cara que confessou ter assassinado Park Jihyo não é o culpado. Eu não sei que tipo de contatos você tem, Kyungsoo, e mesmo que eu goste de você, eu vou te derrubar se eu souber que você está envolvido com quem matou Jihyo.”

“Eu resolvi o seu caso, não foi? Então pare de ser um babaca porque, caso contrário, você ainda estaria correndo em círculos igual a uma barata tonta.”

“Park Jihyo não vai descansar enquanto o culpado pela morte dela estiver por aí, e eu desejo que você carregue essa culpa nos ombros”, Baekhyun disse antes de voltar para sua mesa, e Kyungsoo suspirou fundo, sentindo a exaustão pesar em seus ombros. 

O que ele poderia fazer? Johyeon era um dos membros mais poderosos da Yakuza. Ele com certeza tinha poder o suficiente para travar qualquer investigação contra ele, e Kyungsoo sabia que a polícia nunca iria contra a máfia, seria uma briga onde ele iria lutar sozinho. Ele não era ninguém, e não tinha poder algum. Iria ter que conviver com aquela culpa até seus últimos dias.

Três semanas depois, dando sua última tragada antes de entrar em casa, ele viu Jongin parado nos degraus de sua casa. O garoto vestia apenas uma blusa sem mangas naquele frio, e parecia ter acabado de sair de uma sessão de fotos. Ele olhou para Kyungsoo e acenou, não conseguindo curvar seus lábios trêmulos em um sorriso falso.

“Por que você está aqui no tempo usando isso?”, o Do perguntou, e Jongin apenas deu de ombros.

 “Você me disse que poderia te procurar se eu me sentisse ameaçado…”

“Alguém te ameaçou?”, Kyungsoo se abaixou para ficar na altura de Jongin, tirando seu casaco grosso para colocar nos ombros do mais novo, que soltou um suspiro trêmulo ao sentir o tecido quente envolver seu corpo.

“Eu não quero ir para casa”, ele confessou. “Toda vez que olho para o meu pai eu vejo o fantasma de Jihyo perseguindo-o, me dizendo que ela morreu porque eu contei tudo a ela. Me dizendo que se eu tivesse chegado antes do meu pai naquele dia, ela estaria viva.”

“Quando você foi à casa de prostituição naquele dia, você sabia que seu pai iria matá-la?”

“Eu desconfiava… Ele nunca havia se interessado por Jihyo antes, e então eu ouvi ele perguntando a senhora Yamato se ela estaria presente naquela noite, e disse que queria alugar toda a noite dela. Eu sabia que não era para sexo, Sr. Do, e eu tentei, mas cheguei tarde demais”, Jongin confessou, deixando algumas lágrimas escapar.

“Mas você tentou, Sr. Kim, e eu tenho certeza que ela está agradecida por isso”, Kyungsoo olhou para Jongin, que ainda tinha lágrimas escorrendo por seu queixo. “Vamos entrar, está frio aqui fora”, Jongin concordou e levantou-se, seguindo Kyungsoo até a porta, e quando ele abriu, Fígaro olhou para os dois, desconfiado. Há muito tempo que Kyungsoo não trazia ninguém para casa, desde sua última namorada.

“Você tem um gato!”, Jongin disse surpreso e abaixou-se, dando sua mão para o gato cheirar, e mesmo desconfiado, Fígaro a cheirou por alguns segundos e logo se esfregou pedindo por carinho, fazendo Jongin abrir um sorriso, e diferente daquele visto no outdoor, era verdadeiro. Mostrava suas cores; e era incrível como Kyungsoo se sentia aquecido toda vez que via os lábios bonitos se curvarem daquela maneira.

“Seja um bom garoto, Fígaro”.

“Igual ao do Pinóquio!”, Jongin disse abraçando o gato. “Você é tão fofinho”, ele falou com a gato com a voz fina, como se estivesse falando com uma criança, o que fez Kyungsoo soltar um riso baixo enquanto tirava seu chapéu, o pendurando em um gancho atrás da porta. Jongin ficou lhe encarando enquanto ele tirava as roupas de frio e o sapato.

“O que foi?”, ele perguntou curioso, vendo que fazia alguns segundos que Jongin não tirava os olhos de si.

“Você é bonito”, Jongin elogiou, vendo as orelhas de Kyungsoo ficarem vermelhas. “Profissionalmente falando, claro”, comentou tímido. “Você seria um ótimo modelo.”

“Não tão bonito para isso”, ele sorriu sem jeito, e deixou um par de chinelos para que Jongin pudesse tirar os sapatos. O gato parecia bem acomodado nos braços de Jongin enquanto o mais velho colocava comida em seu pote de ração, e logo ele colocou água para esquentar. “Vou fazer um chá quente para você, não deveria ter ficado lá fora vestindo apenas uma regata, não quando está menos de cinco graus… Quer me contar o que aconteceu? Você apenas veio porque não queria ver seu pai ou teve outro motivo?”

“Eu sinceramente não quero olhar para o meu pai… E eu vim também porque queria te ver.”

“Me ver para?”, Kyungsoo questionou confuso, e Jongin soltou um suspiro.

“Te ver apenas, sem motivo… Você me traz uma sensação de segurança que eu não sinto desde que era criança e não sabia as coisas horríveis que meu pai fazia… Eu era tão feliz naquela época, eu realmente acreditava que ele me amava.”

“Quando eu era criança eu queria ser jogador de futebol”, Kyungsoo sorriu. “Eu lembro que meu pai sempre me levava para assistir alguns jogos de futebol do bairro e eu achava tão incrível.”

“E o que aconteceu?”

“Eu não tinha nenhum talento e minha visão era ruim demais para enxergar as traves”, ele riu. “Nós mudamos para o Japão no começo da invasão japonesa, minha mãe estava com medo de que a situação do país piorasse durante. Havia muita gente fugindo para outros países, como China e Estados Unidos, e o Japão foi a única opção financeira que tivemos.”

“E onde estão seus pais?”

“Meu pai foi para a guerra”, Kyungsoo sorriu pequeno. “E foi uma passagem só de ida.”

“Eu sinto muito, realmente…”

“Está tudo bem, faz alguns anos”, Jongin assentiu. “Depois disso eu consegui entrar para a academia policial japonesa. Minha mãe sempre teve o sonho de voltar para a Coreia do Sul, então eu mandei ela e meu irmão mais velho para lá, e eles estão vivendo bem por lá.”

“E por que você ficou?”

“Eu já tinha minha vida construída aqui, e ficando na academia eu podia mandar dinheiro para minha família”, Jongin assentiu e eles ficaram em silêncio por alguns segundos enquanto assistiam Fígaro comer. 

“Você é um bom homem, Sr. Do. Eu tive minhas dúvidas naquele dia, quando soube que você havia feito um trato com meu pai, mas eu acho que entendi… No fundo você apenas quer proteger as pessoas, e sabe que a melhor maneira é tornar-se amigo do seu inimigo.”

“É ridículo isso, eu sei. Estou apenas sendo covarde e não enfrentando-os de frente.”

“Eu acho inteligente, para ser sincero. Dentre as opções, você escolheu a mais segura para si, e acho que tudo bem”, Jongin deu de ombros. 

“Não está tudo bem, afinal, o assassino de Jihyo está vivendo confortavelmente como se nada tivesse acontecido, e eu penso que poderia ter prejudicado um pouco a vida dele se fosse mais corajoso.”

“Você tem sua família. Uma mãe para voltar. Você não deveria se arriscar tanto.”

“Eu sou policial, Sr. Kim, eu deveria me arriscar pelo povo, sim. É para isso que carrego esse distintivo. Minha vida não é tão valiosa.”

“Você é o filho de alguém, o irmão de alguém, o amigo de alguém, e provavelmente o amor da vida de alguém. Sua vida importa para todas essas pessoas”, Jongin sussurrou, e Kyungsoo lhe encarou por alguns segundos e logo ele ouviu a chaleira fazer barulho, dizendo que a água estava quente. Ele foi até o fogão e desligou a chama, pegando um sachê de chá e colocando em uma caneca enquanto despejava a água quente, e colocou dois cubos de açúcar antes de entrar para Jongin, que sorriu como agradecimento e assoprou o líquido quente antes de levar até os lábios para sorver um gole.

Ele soltou um suspiro satisfeito quando seu corpo começou a esquentar, se encolhendo mais dentro do casaco grande de Kyungsoo, que parecia em paz vendo-o bebendo chá.

“Você pode vir sempre que quiser me ver, aliás”, Kyungsoo confessou virando de costas para si enquanto começava a fazer o jantar, colocando arroz para cozinhar. Seus olhos se encontraram brevemente quando ele virou para ir até a geladeira pegar sobras de kimchi que havia feito há alguns dias.

“Você não pode ser assim”, Kyungsoo lhe fitou, com um baita de um ponto de interrogação no rosto. “Se você continuar me tratando bem assim, as chances de eu me apaixonar por você são enormes, então não seja assim.”

“E quem te falou que gosto de homens?”

“Não gosta?”, Jongin perguntou com os olhos arregalados. “Meu Deus, eu sinto muito! Eu devo ter lido errado, eu realmente pensei que voc-”, a risada de Kyungsoo fez Jongin parar de falar, e ele ficou confuso observando o outro rir. 

“Eu gosto de homens, Sr. Kim. Você não leu errado”, Jongin colocou a mão no peito e encostou na parede.

“Eu retiro o que disse sobre a parte de me apaixonar por você.”

“Então acho que vou ter que te ganhar pelo estômago.”

“Eu sou modelo, Sr. Do”, Jongin disse fazendo drama. “Tem dia que não posso comer mais do que uma maçã e uma barra de proteína.”

“Isso é brincadeira, não é?”

“Queria muito dizer que sim, mas a empresa controla quase todas as nossas refeições”, Jongin deu de ombros. “Não é algo tão absurdo.”

“Como não, Kim Jongin?”, Kyungsoo perguntou parecendo chocado. “Que ser humano consegue viver com o estômago vazio desse jeito? Toda vez que você vir me ver vou te fazer comer, e eu não quero ouvir um não, entendeu?”, ele apontou a colher de pau para Jongin, que tinha certa diversão no olhar, e o Kim apenas assentiu. “Hm… Mudando de assunto, a mãe da Park Jihyo foi até a delegacia hoje, me agradecer por ter conseguido resolver o caso, e isso apenas me fez sentir mais culpado ainda. Eu me sinto horrível por fazê-la acreditar que o assassino está pagando pela morte da filha dela.”

“Você não conhece Jihyo… Eu tenho certeza que se pudesse te pedir algo, pediria para você inventar qualquer coisa que pudesse deixar o coração de sua família em paz. Ela tem uma família incrível, tanto sua mãe quanto seu irmão mais velho, Park Chanyeol, são pessoas ótimas. Eu tenho certeza que ela não está te culpando por ter feito isso.”

“Eu queria muito acreditar nisso, mas eu vou levar essa culpa até o túmulo comigo”, Kyungsoo forçou um sorriso. “Eu estraguei o clima, não foi?”

“Estava rolando um clima? Eu disse que poderia me apaixonar por você, não que já havia começado”, Kyungsoo bufou antes de jogar um pano de prato em Jongin, que riu vendo-o se afastar. 

“Enquanto o arroz cozinha, eu vou tomar um banho rápido. Fique de olho no Fígaro porque às vezes ele tenta abrir a janela para fugir. Esse pirralho ingrato”, ele resmungou enquanto ia em direção ao banheiro em seu quarto. O apartamento de Kyungsoo não era grande, mas era muito mais aconchegante do que a enorme casa em que Jongin morava; o modelo pensou enquanto olhava para as fotos penduradas na parede. Kyungsoo parecia tão pequeno nelas, e era tão parecido com sua mãe que chegava a ser assustador.

Fígaro ficou quieto no sofá da sala enquanto Jongin ligava o rádio, ouvindo uma música calma tocar. Ele cantarolou a música em japonês enquanto se jogava no sofá, fazendo carinho na cabeça do gato, que estava prestes a dormir depois de ter comido.

Jongin sabia que seu pai sempre mandava alguém para seguir seus passos, e não demoraria muito para ele descobrir onde Jongin estava se escondendo, mas de alguma forma ele sentia que estava seguro; e naquela época, que Kyungsoo era invencível.

Quando Kyungsoo passou pela porta, viu Jongin cochilando junto do seu gato, e de alguma forma aquilo soava tão doméstico. Ele decidiu não acordar o modelo, já que ele parecia estar tão cansado, e foi até a cozinha para terminar o jantar. Depois de cozinhar o arroz e fazer alguns acompanhamentos coreanos, ele colocou dois pratos na mesa redonda que ficava entre a cozinha e a sala, e agachou-se no sofá, levando a mão até o ombro de Jongin.

“Sr. Kim?”, ele sussurrou, empurrando seu ombro de maneira delicada. “O jantar está pronto”, ele agradeceu por Jongin não ter o sono muito pesado. O Kim abriu os olhos e bocejou, ainda tentando entender onde estava, e o que estava fazendo ali.

“Sinto muito, eu acabei pegando no sono… Não pensei que estava tão cansado assim. Seu sofá é muito mais confortável que a minha cama.”

“Se quiser pode vir dormir aqui todos os dias, cobro barato o aluguel”, Kyungsoo sorriu, se sentando na cadeira e vendo Jongin se levantar para segui-lo.

“É uma proposta tentadora… Uau”, ele exclamou antes de se sentar, olhando para a comida. “Faz tanto tempo que não como comida coreana. Minha mãe nunca está em casa, e todas as cozinheiras são japonesas”, ele resmungou enquanto Kyungsoo colocava um pedaço de omelete de kimchi em sua tigela, e Jongin arregalou os olhos quando comeu. “Isso é incrível… Você não brincou quando disse que ia me conquistar pela barriga, porque eu poderia me casar com você agora.”

“Sem sequer uma aliança? Eu valho mais do que isso, vou ter que recusar”, Jongin riu, e ouvir aquela risada gostosa acabou se tornando rotina. Quando Kyungsoo disse a Jongin que ele gostava de seguir uma rotina fora da delegacia, ele não imaginou que o garoto fosse começar a lhe acompanhar do trabalho para casa todos os dias, dormindo em seu sofá algumas vezes quando estava muito tarde para ir para casa. Ele gostava da companhia de Jongin, e em menos de duas semanas eles já estavam falando confortavelmente um com o outro, e o flerte continuava em tons brincalhões, com Kyungsoo nunca sabendo se Jongin realmente estava falando sério.

Depois do caso de Jihyo, que havia tomado uma grande proporção na mídia, os Yakuzas desapareceram. Fazia semanas que nenhum deles eram presos por delitos idiotas e Kyungsoo agradecia por isso, porque isso significava que sua vida dentro da delegacia estava aos poucos voltando a ser controlada. Baekhyun nunca entendeu como uma pessoa que gostava tanto de manter tudo sob controle escolheu umas das profissões mais imprevisíveis de todas, porque ser policial é nunca saber se você ficará vivo até o final do dia. De repente você poderia participar de um tiroteio, ou uma bomba nuclear que foi desativada errada poderia explodir, ou até mesmo uma guerra entre gangues.

Era algo completamente imprevisível, e Kyungsoo sabia. Mas dizia que era para sua vida ter um equilíbrio entre o chato e o absurdo, e que ele gostava de sentir que estava sendo útil de alguma forma.

Naquela segunda-feira o dia havia amanhecido um pouco mais quente que os anteriores, significando que a primavera estava prestes a dar as caras. Kyungsoo se esticou ao sair da delegacia, finalmente um dia onde seu corpo não estava doendo por conta do frio intenso; ele sorriu quando viu Jongin vir em sua direção, mas o modelo estava com uma expressão fechada, e estava usando um enorme casaco, o que fez Kyungsoo franzir o cenho e se perguntar se ele estava febril.

“O que aconteceu? Você está doente?”, Kyungsoo levou a mão até sua testa. “Está normal.”

“Podemos apenas ir para a sua casa?”, o mais velho concordou, e eles caminharam em silêncio até o apartamento de Kyungsoo. Jongin estava estranhamente quieto e chegava a ser desconfortável respirar daquele jeito. Kyungsoo deu comida para Fígaro enquanto Jongin se sentava no sofá, ainda usando aquele casaco enorme. Quando o policial se aproximou, viu que os olhos do modelo estavam marejados, e ele ficou ainda mais preocupado.

“O que aconteceu?”, ele sussurrou, com medo da resposta. Jongin soltou uma respiração trêmula antes de tirar o casaco, e Kyungsoo conseguia ver as marcas roxas em seus braços, e o que parecia ser um enorme chupão em sua clavícula. “O que caralhos aconteceu com você, Jongin?”

“Lembra que eu te disse há alguns meses que mesmo eu sendo filho dele, ele não exitou em me vender? Era disso que eu estava falando, Kyungsoo”, Jongin disse com a voz embargada. “A maioria dos modelos que assinam o contrato são leigos, e acreditam que quando o contrato diz “seu corpo e sua imagem será nossa a partir de agora”, ele não quer apenas dizer isso. Significa que o nosso corpo é deles e eles podem usar como quiserem… Muitas modelos são obrigadas a se prostituírem. A Kingstar Entertainment nada mais é do que uma casa de prostuição VIP.”

“Era por isso que a Jihyo tinha um contrato assinado?”

“Sim, mas ela desistiu no meio do caminho…”

“Quem fez isso com você?”

“Um dos sócios da empresa… Ele ofereceu dinheiro e meu pai simplesmente me vendeu, Kyungsoo. Como uma boneca sexual… Como ele pode fazer isso com o próprio filho?”, Jongin continuou derramando lágrimas grossas. “Eu me sinto tão horrível… Eu já tomei três banhos e mesmo assim ainda sinto os lábios daquele filho da puta na minha pele… Eu sequer podia dizer não… Ele me amarrou tão forte que meus braços ficaram roxos.”

“Você não vai fazer mais isso”, Kyungsoo disse com firmeza.

“Como? Seria uma quebra de contrato… Eu não tenho dinheiro para pagar a multa. É muito dinheiro.”

“Há quanto tempo isso está acontecendo?”

“Desde o meu primeiro trabalho.”

“Merda, Jongin, você está lidando com isso há três anos? Que porra? Que tipo de filho da puta é seu pai? Ele é humano?”, ele disse com raiva. “Eu juro que vou socar a cara dele na próxima vez que eu o vir… Ninguém nunca mais vai colocar os lábios no seu corpo.”

“E se eu quiser?”

“O que?”, Kyungsoo perguntou confuso.

“E se eu quiser que você faça isso?”

“Você sempre brinca assim comigo, não é engraçado. Qualquer dia eu vou levar à sério.”

“Como um ser humano pode ser tão inteligente e tão lerdo ao mesmo tempo?”, Jongin disse bagunçando seu cabelo castanho. “Eu estou literalmente dizendo há três meses que eu gosto de você, e você pensou que eu estava flertando por brincadeira?”

“O que? Você gosta de mim?”, Kyungsoo perguntou com os olhos arregalados. “O que tem de bom em gostar de mim?”

“Você tem essa carranca que te deixa gostoso e toda vez que sorri vira a pessoa mais adorável do mundo. Você consegue me fazer querer te pegar no colo e sentar no seu colo em questão de segundos, pelo amor de Deus…”, Jongin suspirou. “Eu gosto de você, e eu quero que você seja meu namorado.”

“Eu aceito com uma condição. É algo extremamente importante, não vou poder namorar com você se você não concordar com isso.”

“O que? Você me deixou com medo agora?”, Jongin disse se endireitando no sofá, voltando a puxar o casaco no corpo. 

“Eu estive pesquisando, e descobri uma maneira de incriminar seu pai por todas as coisas que ele fez… Mas eu só posso tomar iniciativa se você disser que também quer isso.”

“Eu quero. Não preciso pensar muito para escolher. Quero que ele queime no fundo do inferno pelo que ele fez à Jihyo… Mas como você vai fazer isso?”

“Eu e Baekhyun passamos todos esses meses juntando provas, e conseguimos provar que seu pai parou várias investigações que continham o nome dele. Elas foram arquivadas do dia para a noite sem motivo algum, e todos os caras que foram presos nesses meses estão fazendo o trabalho sujo para o seu pai e sendo presos no lugar dele. Tem alguns que eu tenho certeza que podem testemunhar contra o filho da puta do seu pai.”

“E como vamos denunciar meu pai sendo que ele tem o poder de travar todas investigações?”

“Nós vamos fugir, bebê”, Kyungsoo sorriu. “E vou mandar todas provas e abrir um processo na interpol, mas para isso precisamos ir para a Áustria, porque podemos entrar no programa de proteção a testemunha… Eu sei que parece loucura, mas eu tenho quase certeza que dará certo… Mas se você achar que é algo idiota e não quiser vir, tudo bem, eu-”, Jongin interrompeu Kyungsoo enquanto segurava seu rosto.

“Eu vou. É claro que eu vou… Eu sei que você está fazendo isso não apenas por Jihyo, mas também pela minha liberdade. Como eu poderia dizer não?”, Jongin sorriu e deixou um beijo rápido nos lábios de Kyungsoo, sentindo suas orelhas ficarem quentes na hora. “Obrigado, principalmente por me amar.”

  “Sabe, Jongin, quando eu te conheci, eu te via dançar na fama. Todos os outdoors da cidade tinham o seu rosto, e pensava que você era uma borboleta correndo em direção ao fogo que é a fama. Eu pensava que talvez você fosse se queimar, e depois daquele dia na empresa, eu desejei poder apagar o fogo e impedir que suas asas virassem pó… Porque você era bonito demais para ser dissolvido em poeira.”

“Você conseguiu”, Jongin sorriu.

“Eu prometo nunca mais deixar ninguém colocar as mãos em você, e que vou te manter seguro até estarmos velhos, mal aguentando andar”, Kyungsoo disse levando a mão até a bochecha de Jongin, que deitou seu rosto na palma quente de Kyungsoo, em busca de carinho igual o Fígaro fazia, o que lhe fez rir.

E Kyungsoo, que nunca pensou que seria corajoso o suficiente, virou a máfia da cabeça para baixo quando a Interpol começou a investigar as ações criminosas do Yakuza. Era óbvio que a máfia era poderosa o suficiente para se safar, mas derrubar a Kingstar Entertainment foi uma das melhores sensações do mundo. 

Kyungsoo tinha Jongin, e isso era o suficiente para ele se sentir em casa em qualquer lugar do mundo.