Work Text:
Havia virado coisa nossa deixar nossos dedos se tocarem quando sentávamos perto. Sabemos que todos viam, mas ainda faltava coragem para dizer algo. Faltava aqueles segundos de coragem para pular e mudar tudo.
Éramos amigos há tanto tempo.
Conforme crescemos, a briga de criança deu espaço para os sentimentos que sempre estiveram ali.
Não quero mais ser o dono da rua e ela não me dá mais coelhadas, a gente entrou em um momento diferente.
Estamos com dezesseis anos e eu não acho garotas nojentas. Eu olho para a Mônica e vejo a bela mulher que ela vai se tornar. E eu espero me tornar o homem que ela merece. O homem que ela queria ao lado dela.
Meu coração bate ligeiramente apertado
Ligeiramente machucado
Caiu tão fundo nessa emoção
Primeira vez que o amor bateu de frente comigo
Antes era só um amigo
Agora mudou tudo de vez
Desde que o Cebolinha tocou a minha mão daquele jeito, parece que algo mudou. Engraçado como foi naquele momento que eu percebi que já não me irrito mais com as brincadeiras dele como antes.
Agora estamos aqui. Ele bateu na minha porta e me convidou pra dar uma volta. Nossas mãos se tocam do mesmo jeito sempre que estamos lado a lado, caminhando pela rua. Já passamos pela casa da Magali, do Cascão… Eles parecem estar em casa, mas não paramos para chamá-los.
— Eu pensei que íamos tomar um sorvete com a turma. Perdi algo? — Eu perguntei, curiosa, já que aquele não parecia ser um passeio normal de fim de tarde.
— Eu pensei em hoje ser só nós dois… Tem problema? — Tive certeza que não era um passeio qualquer quando ele soou tímido e inseguro, não o moleque petulante de sempre.
Será que você sente
Tudo o que eu sinto por você?
Será que é amor?
Tá tão difícil de esconder
Ela estava esperando um passeio de turma. Mas pela primeira vez, eu senti coragem pra arriscar um pouco mais. Estarmos apenas eu e ela, era algo raro. No clubinho, sempre tinha muita gente e curtimos muito nossas infâncias lá. Na escola, sempre estava cheio de gente.
Mas eu queria tomar um sorvete com ela. Queria passar esse tempo com ela, aproveitando o dia quente e sossegado do bairro. Era sábado à tarde. Em breve, seríamos formandos. Quanto tempo eu ainda tinha antes da faculdade começar a sugar nossas vidas?
— Não tem problema — Ela parecia tranquila, talvez tivesse notado meu tom meio tímido.
A sorveteria tinha alguns conhecidos, por sorte, Cascão e Magali não estavam ali. Eu adoro meus amigos, mas era um dia que queria estar com a Mônica e se eles estivessem por perto, todo meu plano iria por água abaixo.
— Já sabe qual sabor vai querer? — Eu não sabia do que falar e o Titi havia me dito que ficar tagarelando sobre o tempo com garotas era a pior furada que havia.
— Acho que morango — Ela respondeu casualmente. Por que ela tinha que estar tranquila e eu aqui, suando e perto de um ataque do coração?
— Duas casquinhas de morango — Eu pedi e entreguei o dinheiro para a moça da sorveteria. Mônica me olhou curiosa, eu nunca havia tomado a iniciativa de pagar o sorvete para uma garota.
— Obrigada — Ela agradeceu quando a atendente entregou a ela e então, ela olhou para mim.
Oh-oh, olha o que o amor te faz
Te deixa sem saber como agir
Oh-oh, quando ele te pegar
Não tem pra onde você fugir
Oh-oh, olha o que o amor me faz
Fiquei tão boba, fiquei assim
Oh-oh, nada será capaz
De apagar esse amor em mim
Tudo bem, o Cebolinha tava agindo meio esquisito, era um pouco estranho. Mas de alguma forma ele todo envergonhado e vermelho ficava ainda mais bonitinho. Essa é uma das coisas que eu notei. Quando ele deixou de ser tão irritante e de vez em quando é até capaz de ser gentil, o sorriso dele forma covinhas, deixa ele fofo. É bonitinho. Mas não sei se é o tipo de coisa que eu poderia dizer em voz alta.
Nós caminhamos mais um pouco pela rua, em direção ao parque, tomando nossos sorvetes e eu começo a achar legal não ter mais ninguém com a gente. É raro ficarmos sozinhos e nunca foi de forma intencional.
— Então, eu ainda tô curiosa. Você não respondeu se eu perdi alguma coisa… — Falei quando passamos pela entrada do parque — Não que eu esteja reclamando. Achei legal você me chamar pra tomar sorvete. Mas é uma ocasião especial?
Ainda sem falar nada ele simplesmente segurou a minha mão livre com a dele, firme. Pela primeira vez intencional, e eu quase congelei por um segundo. Mas ele balançou a cabeça me mostrando um banco vago e me levou até lá pela mão, fazendo meus pés se moverem do lugar, ou quem sabe quanto tempo eu teria ficado parada ali olhando para nossas mãos unidas.
Dei uma olhada rápida em volta e o lugar parecia quase vazio, a não ser por duas ou três crianças brincando longe. Era um milagre para um sábado, mas eu não ia questionar. A turma dos meninos talvez estivesse no campinho de futebol…
Mas a voz do Cebolinha cortou meus pensamentos.
Meu coração bate ligeiramente apertado
Ligeiramente machucado
Caiu tão fundo nessa emoção
Primeira vez que o amor bateu de frente comigo
Antes era só um amigo
Agora mudou tudo de vez
Eu olhei para nossas mãos unidas. Havíamos chegado tão longe agora, não em termos de caminhada. Mas em nossa amizade.
Eu sorri, notando que ela olhou em volta e havia prestado atenção em nossas mãos também.
Monica sempre queria respostas, e eu sabia que ela perceberia que havia algo naquele convite, naquele sorvete. Eu torci por isso, se for ser bem honesto.
Eu olhei em volta também. Sabia que os meninos estavam no campinho jogando contra a turma da rua de baixo. E que algumas meninas haviam combinado um dia de salão.
Eu cheguei na casa da Mônica um pouco antes das meninas chamarem ela. Esse era meu plano infalível: um dia que não tivesse ninguém pra atrapalhar.
— É parte de um plano infalível — eu confessei a fazendo rir. O riso da Mônica fez as borboletas no meu estômago voarem. Era agora a hora.
— E esse plano termina com o Sansão com as orelhas amarradas, você sendo o dono da rua ou apenas me engordando mais? — Ela parecia brincalhona e eu corei.
— Termina comigo te falando que eu gosto de você — E tudo que eu esperava era que ela entendesse, mas faltava um detalhe importante que parecia colado na minha garganta. Eu respirei fundo, só faltava isso — como mais que um amigo — SAIUUUUU. E agora ela tá me olhando sem dizer nada.
Será que você sente
Tudo o que eu sinto por você?
Será que é amor?
Tá tão difícil de esconder
Tudo bem, eu achei que esse garoto nunca ia ter coragem de dizer isso em voz alta.
— Uau! — Saiu num suspiro alto e eu sorri que nem boba, incrédula. Se eu pensar bem, eu deveria imaginar. Pro Cebolinha nunca faltou coragem, mesmo quando era para executar as ideias mais estúpidas. Tem como eu não dar o devido crédito pra ele agora?
Cebolinha deu o salto. Tudo que eu tenho que fazer é reunir minha coragem, saltar junto e retribuir. Vamos, Mônica, você consegue! Não pode ser mais difícil do que acertar um coelho a metros de distância.
E quando eu percebi, já não havia distância nenhuma entre a gente. Só faltava mesmo tocar meus lábios com os dele. Já estava quase lá e ele me olhava com os olhos arregalados de surpresa. Eu sorri com a sua cara de bobo e continuei. Primeiro o beijo e depois lidamos com isso. Fechei o olho e mergulhei.
Foi macio como algodão-doce. E também, incrível. Meu primeiro beijo. Me dei conta enquanto ele movia os lábios sobre os meus, devagar. Foi bem melhor do que eu imaginava ou o que as outras garotas contavam. Ali eu sabia que a gente tinha mudado o status do que éramos, mesmo sem saber o que viria depois.
Quando o ar faltou eu precisei me afastar e respirar fundo, mas não tive coragem de abrir os olhos ainda. Embora eu sentir que ele apoiou a testa na minha e fez um carinho na minha bochecha com os dedos tenha me encorajado um pouco, mas não o suficiente.
Como a gente encara um amigo de infância depois de beijar ele?
Oh-oh, olha o que o amor te faz
Te deixa sem saber como agir
Oh-oh, quando ele te pegar
Não tem pra onde você fugir
Oh-oh, olha o que o amor me faz
Fiquei tão boba, fiquei assim
Oh-oh, nada será capaz
De apagar esse amor em mim
ELA ME BEIJOU. MÔNICA ME BEIJOU. Minha mente estava explodindo, enquanto os lábios dela beijaram os meus. E foi incrível. Foi melhor do que eu esperava. Eu estava com medo de ser desajeitado ou dela não curtir. Mas agora, sentindo ela ofegante enquanto mantenho meu rosto perto do rosto dela e sinto a sua respiração, eu sei que ela curtiu.
Meu braço ainda a envolve, assim como os dela estão no meu pescoço. Eu abri os olhos e vi que ela mantinha os dela bem fechados. Um carinho suave no rosto dela foi natural. Estamos juntos e aquilo havia mudado tudo.
— Foi meu primeiro beijo — Eu sussurrei — devo falar obrigado?
Ouvi o riso dela. Eu era meio bobo ainda, mas isso a fez me olhar. E a Mônica sorria, um pouco corada, como eu.
— Foi um bom beijo — Ela falou, tímida.
— Então… — Eu precisava ter certeza — isso quer dizer que você também gosta de mim? — E eu percebi o quanto aquilo era idiota de dizer, quando me ouvi falando. Óbvio. Ela me deu um beijo, talvez o primeiro beijo ela e eu pergunto isso? Eu queria me bater agora. Porém, a Mônica riu e balançou a cabeça, assentindo.
— E isso significa que eu posso te beijar de novo? — Foi bom, quem pode me culpar?
Ela riu.
E dessa vez, eu tomei a iniciativa, a beijando outra vez. Meu plano infalível foi infalível pela primeira vez, deu certo.
FIM
