Chapter Text
"Covarde."
Era só isso.
Uma única palavra.
Um simples cartão postal.
Nenhum remetente.
Você poderia dizer isso, exceto que…não, não era.
Pois, embora, à primeira vista, de fato o fosse, simbolicamente, Phileas, sabia que havia muito mais.
Para começar "covarde" não era uma palavra qualquer. Tirando o indício apontamento de que tal é geralmente usado como insulto ou indicação de um defeito, para ele, no entanto, o peso dessa palavra é muito além.
Porque para começar ela não tinha mais o peso de um insulto ou de um defeito porque de tão comumente usado para descrevê-lo simplesmente banalizou-se seu impacto (e isso por si só já significa alguma coisa). Tão tanto, que o próprio Fogg já havia perdido as contas de quantas vezes a ouvira. Não só isso, ele também perdera as contas de quantas vezes ele não a retrucava.
Porque, sim, Phileas Fogg era um covarde e reconhecia isso e era justamente por isso que ele era um covarde. Pois, este cavaleiro inglês estava bem ciente de cada falha sua, de cada problema, trauma que tinha e sabia exatamente como dissolvê-los, mas sua covardia o fazia simplesmente aceitá-las
Desse modo, Phileas, se acomodava com as piores situações possíveis. Uma delas o levou àquele cartão. Um cartão que podia não ter um remetente escrito, mas ele não precisava, pois reconheceria aquela caligrafia em qualquer lugar. Essa caligrafia pertencia a…
Não! Ele não pensaria nessa pessoa. Pensar nela o forçaria a enfrentar o fato de que ela foi a única que nunca o chamou de covarde. No entanto, agora que o fez, todas as emoções associadas a essa palavra o atormentavam e o magoaram profundamente. Portanto, pensar nessa pessoa seria pensar em todas as questões e sentimentos pendentes em relação a isso, exigindo dele uma coragem que ele julgava não ter.
E sendo o covarde da pior espécie que era, Fogg, fugia das situações que não queria mas sabia que precisaria enfrentar, que lhe exigiam coragem. Portanto, o seu modo de escapar disso era a rotina. As rotinas são úteis para organizar a vida e facilitar as atividades repetitivas, mas podem se tornar um problema se você se perder nelas e não viver a vida como pretendido. Esse era o caso de Phileas Fogg, que fugia da realidade sempre fazendo as mesmas coisas, da mesma forma e no mesmo horário, evitando ter tempo para ficar sozinho em sua mente ou para responder perguntas indesejadas das pessoas que se aproximavam dele.
Por isso, quando recebi o que pareceva ser um simples cartão postal, com uma única palavra e sem remetente ele prevaleceu ir para o lugar que sempre ia naquele horário e fingir que o cartão nunca existiu. O que segundo a rotina meticulosa de Phileas Fogg significa ir para o famigerado Clube da Reforma.
