Actions

Work Header

Ghost of You

Summary:

Limbo, a definição de um estado que é indefinido, negligenciado ou esquecido. Aquele homem estava perdido e se fosse ficar pela terra por mais um tempo, ajudaria essa alma a se encontrar.
— Como você morreu?
— Eu não sei.

(INSPIRADO NA MÚSICA: Ghost of You - 5SOS)

Notes:

Esta história se passa em um universo alternativo dos
personagens de QSMP, mais especificamente o casal Guapoduo.
Tudo escrito aqui são sobre personagens, não os streamers!
Os “q!” foram retirados de frente dos nomes apenas por estética.

Existirão cenas sensíveis!
Se você não está acostumado com: temas psicológicos, temas relacionados à morte num grande geral, linguagem imprópria, violência e sangue, peço encarecidamente que não leia, ou tome cuidado! Esta história não é recomendada para menores de dezesseis anos.

Para perguntas, feedbacks, etc: drawshine (ccat).
Para novidades: @sininholissesun no Twitter!

Artes e histórias criadas por Sun (@drawshine)

Chapter Text

┈┈┈┈┈

1┊“And no one could feel your hurt”

┈┈┈┈┈

O que um jovem programador com seus vinte e seis anos poderia querer? Cellbit morava em uma casa bem afeiçoada em uma das ruas mais tranquilas da cidade de São Paulo, ganhando bem com o emprego home office que almejou por muito tempo. Ser obrigado a estar atendendo clientes ou qualquer coisa envolvendo humanas o deixava ligeiramente atônito, portanto, escolheu fazer sistemas, em uma linguagem específica que as empresas estavam procurando no momento. Foi efetivado não muito depois de ser estagiário por lá, sempre entregando o melhor de si em tempos recordes e da maneira mais polida que conseguisse, com seus códigos entre parênteses e pontos com vírgulas. Graças a isso o dinheiro rendeu bastante e trouxe muitas coisas boas ao decorrer dos anos, principalmente bens materiais como o local em que estava. Seu setup era de última geração, com diversos leds espalhados pelas paredes que antes eram um tom de gelo. Amava tudo isso e ainda mais por poder teclar sem parar do conforto de sua cadeira, eventualmente tendo que aparecer em reuniões com sua equipe durante as manhãs, o que não era muito problema. Seus chefes o adoravam e viam seu constante crescimento, portanto, confiavam nele o suficiente para deixá-lo em seu próprio mundo. 

Era um homem alto, de cabelos loiros exceto por uma boa quantidade de fios brancos que tomavam grande parte das mechas, praticamente metade. Barba rala, mas bem cuidada e sem falhas. Os olhos azuis, numa tonalidade fraca, beirando ao cinza, como um tempo nublado antes de despencar a chuva. Não muito corpulento, mas os ombros largos se faziam mais presentes na silhueta. Piercings pelas orelhas adornavam a pele bem clara. Seria um ser perfeito se não fosse pelas cicatrizes que manchavam a sua pele, ainda mais porque elas ainda eram bem recentes e estavam no processo de cura. Os braços estavam lotados de machucados na horizontal que antes eram mais profundos e foram sarando. Na face uma queimadura leve na parte esquerda, mas o suficiente para deixar a região vermelha, que escorria até parte das costas. Sempre que se via no espelho lembrava delas, não apenas pela obviedade, mas também dos motivos que o levou a tê-las e com isso acarretou diversos tipos de insegurança por não ser mais um cara normal e bonito como costumava ser. Não era vergonha de seu corpo, muito menos as escondia quando estava sozinho, só era extremamente desconfortável quando saia na rua sem seus casacos e moletons cobrindo o que conseguia, pois as pessoas olhavam diretamente para elas, se perguntando o porquê de existirem. Observando-o com pena, como sanguessugas almejando uma boa fofoca da qual falar em sua roda de amigos.

Cerca de cinco meses atrás um acidente muito terrível ocorreu com ele e mais meia dúzia de pessoas. Um incêndio repentino e sem avisos prévios foi motivo de alarde no centro da cidade. O restaurante no qual estava almoçando e que sempre ia enquanto ainda trabalhava remotamente teve uma falha no gás da cozinha. A chapa explodiu e fez com que os botijões de estoque e os que já eram ligados aos fogões fossem aos ares. Os cozinheiros morreram na hora. O fogo se alastrou rapidamente, afinal a estrutura ao redor era rústica e continha muita madeira. Apesar de muito bonito, naquela situação virou um inferno na Terra. As pessoas que estavam com as mesas mais próximas foram as primeiras a se ferir e Cellbit, azarado do jeito que sempre se denominou, estava na segunda leva e, mesmo que tenha sido mais fraco, ainda assim tomou as consequências. Os bombeiros não demoraram muito para chegar e apaziguar tudo, notando que as mangueiras não foram trocadas por negligência dos donos, que normalmente deveriam fazer isso de vez em quando. Já os médicos do pronto socorro tiveram até dificuldade para trabalhar em cima dos corpos queimados. Alguns ficaram irreconhecíveis e tiveram de ser levados para a UTI, outros apenas tiveram machucados leves que foram tratados até que bem rápido. 

O loiro, logicamente, teve traumas do acidente com todas aquelas cicatrizes terríveis. Sentia tristeza por ter perdido grande parte de sua “beleza” natural; não que se achasse a coisa mais linda do mundo, mas não esperava que a contragosto suas rotinas de skincare pela manhã deveriam ser outras, já que a queimadura necessitaria de cuidado especial com hidratação depois de um tempo. Sentia remorso por ter perdido uma parte sua no horário de almoço, quando poderia ter sido evitada com uma simples manutenção. Mas acima de tudo, se sentia apático. Uma mistura de sensações enquanto processava aquela informação tenebrosa. Os noticiários rolavam nas pequenas televisões perto das divisórias das macas, uma imagem aérea do local sendo tomado pelas chamas e apaziguado pela água dos bombeiros. Olhava aquilo com uma expressão amena, quase como se não tivesse acontecido nada. Sempre foi sangue frio para esse tipo de situação, sempre via muitos vídeos na internet sobre casos criminais e tinha estômago para o assunto. Ademais, era um adorador de filmes de terror, tal qual como jogos, não sendo difícil de engolir pessoas jogadas às traças a sua frente, apesar de que, no fundo, ainda existia uma faísca de uma sensação chamada: medo. Não sabia como seria dali para frente, principalmente os julgamentos que fariam por suas manchas no corpo e tinha certeza que elas ficariam horríveis mais tarde. O medo de tudo mudar; do tratamento, de sentirem pena dele pelo acidente, pelas cicatrizes. Não queria que sentissem pena dele, não era digno disso, muito mais porque foi uma das vítimas “leves”. Haviam mais pessoas pelas quais se preocupar com isso, ele só queria realmente voltar para seu computador, colocar uma música alta como sempre fazia no headset e jogar alguma coisa fora do horário de trabalho. Era um cara simples, poxa, não queria os holofotes, não queria ninguém perguntando o que aconteceu e o olhando com carinha de cachorro abandonado. Só queria esquecer disso e fingir que era um borrão de seu passado.

Mas a vida não era bem assim, no final das contas.

Quando foi encaminhado para o hospital mais próximo, fizeram seus curativos e algumas outras vítimas ainda chegavam em macas e respiradores. Ficou em repouso e observação enquanto acompanhava jovens moças e alguns rapazes sendo levados às pressas para salas de cirurgia e tendo as vidas mudadas por um erro de outro alguém enquanto simplesmente comiam seu prato favorito. Era injusto e nunca deixou de os culpar por isso. Apesar de querer buscar por justiça, não tinha muitas forças para lutar contra, só torcia para que ficasse bem e deixaria essa batalha para outro que sofreu mais com a ocorrência. Porém, uma das enfermeiras lhe chamou a atenção naquela tarde, lhe fazendo uma pergunta que feriria para sempre seu futuro.

— O senhor é compatível com um de nossos pacientes que acabou de chegar do ocorrido. — Ela falava meio nervosa e eufórica. Todos estavam com a adrenalina no alto e não poderia negar aquilo, não a culpava também. — Ele precisa urgentemente de uma doação de pulmão, o senhor estaria disposto? Seu relatório não demonstra nenhum tipo de alteração e está em perfeito estado. — O que poderia perder, não é mesmo? Viu um vislumbre de sua existência passando na frente de seus olhos mais cedo. Ele tinha a chance de salvar alguém e isso era o mínimo que poderia fazer, visto que os donos daquele restaurante podre não colocariam as caras a tapa nem que fossem obrigados. Não mexeriam um músculo ou dariam uma nota de seu dinheiro para o caos que criaram. Nada doía mais, acostumou-se com essa sensação ardida em dia pele. Estava cansado de sentir.

Não pensou duas vezes em aceitar a proposta, apesar de saber que por restrição médica não poderia saber o destinatário de seu pulmão; se alguém pudesse respirar e viver mais um pouco era o suficiente para ele. Nunca se importou muito com os outros ou se denominava um herói, salvador, seja o que for. Só não queria viver com a culpa de que poderia ter feito algo, de que poderia ter dito que sim naquele dia e não ter o feito de fato. Ademais, encontrou uma resposta para o medo sobre pena: ser substituída por compaixão e também pensamentos gratificação pelo ato bonito que estava prestes a cometer. Afinal, era louvável e a sensação dessa maldita pena o corroía, então, melhor que encontrasse uma alternativa rápida de como tirar isso de suas costas. Agora a oportunidade estava à frente de seus olhos. Nunca teve muitos amigos a qual disponibilizaria sua vida ou literalmente uma parte sua, espelhar isso em um desconhecido era loucura. Teve de colocar na balança dois pesos muito grandes: o de manter um órgão e ser lembrado como uma alma destruída pelo fogo ou de entrar naquele consultório e se desfazer de um pedaço de si mesmo para se livrar de certas denominações. Logicamente a parte mais moral e ética que venceram dentro de sua cabeça.

Antes de entrar na sala branca para a transferência do pulmão, pensou que agora tudo seria diferente. Teve certeza que viveria ao máximo. Ter a experiência da morte não era muito elegante, muito menos saborosa; era vazio, escuro e doloroso, além de muito solitário. Alguma pessoa poderia estar passando pelo mesmo sentimento desgostoso, ou até pior, quem sabe. A morte em si não é a coisa mais absurda que se pode ocorrer e, na realidade, é até mais fácil. Sofrer em vida, definhar até encontrar o fim, ser corroído por machucados incuráveis para então ir desta para uma melhor. Tantas opções tortuosas. Não poderia deixar que afetasse outrem e faria isso pelos seus próprios ideais, ou os que escolheu ter depois do acidente.

Poderia ser um homem quieto, jovem e com hiper focos específicos, mas se não tomasse a decisão certa se consideraria um assassino, coisa que não era. E para ele, naquele segundo, nem precisava de dois pulmões para respirar mesmo. O que tem demais, não é? Sempre viu diversos homens jogando a saúde fora, bebendo que nem condenados e fumando até a fumaça ser tanta que os sufocava. Não merecia o título de valente ou protagonista, mas certamente não era um coitado e não seria lembrado por isso, nem que tivesse morrido naquele acidente.

Pelo menos alguém teria uma segunda chance e estaria de braços abertos para dar essa oportunidade para quem quer que fosse.

〚...〛

Adorava morar sozinho e a sua companhia sempre foi muito gostosa. Não tinha os pais por perto, nem um par romântico pelo qual pudesse dividir. Ele, que por si não gostava do sexo oposto, nunca teve namoradinhos para comparecer na residência. Para alguns isso poderia ser melancólico, mas para ele sempre foi motivo de festa. Sentia-se privilegiado por se conhecer o suficiente e gostar de fazer tudo do seu jeito, no seu tempo, quando quisesse; exceto por um fato peculiar e certamente muito estranho que o assombrava todos os dias, literalmente.

Cerca de três dias após o acidente, enquanto estava já de recuperação em sua casa, algo bizarro ocorreu durante aquela madrugada fria. Era inverno, mas as suas janelas não costumavam bater contra as dobradiças daquele jeito, fazendo um som estrondoso. As panelas nos armários não deveriam sair de dentro deles de forma comum. Os utensílios da cozinha, que viviam pendurados em um palete de madeira acima do fogão, não balançavam ou produziam uma melodia no meio da noite. Ainda completamente enfaixado e cheio de gases desceu as escadas de mármore, sorrateiro, observando qualquer tipo de intruso. Teve de tomar cuidado com a movimentação por conta da dor da cirurgia que se manteve, os analgésicos estavam o ajudando com isso. No começo achou que fosse um ladrão, alguém tentando roubar suas coisas, por mais que sempre trancou tudo muito bem e o alarme de movimento funcionava em perfeitas condições. Não era de acreditar em fantasmas, aparições e essas coisas que só se viam em filmes ou em vídeos no YouTube se comunicando com esses tais espíritos. Porém, ele também não esperava que essa utopia cairia por terra no exato segundo que colocou seus olhos sobre ele.  

Um ser semelhante a uma pessoa, mas ainda assim sendo uma coisa. O corpo era de gente, uma estatura não tão mais baixa que ele próprio, entretanto toda sua aura continha um tom azulado e seu plasma tecnicamente brilhava, como se existisse uma energia ao seu redor. E aquilo tinha aparência de menino, com cabelos castanhos escuros, olhos na mesma cor, maquiado, mas não demais — lápis de olho no linha d'água e um puxado de sombra que cobria certa parte da pálpebra e abaixo dos orbes, vermelho — e uma faixa azul adornava sua cabeça, com alguns fios rebeldes saindo do aperto. A pele parecia clara, mas nem tanto, e as roupas eram comuns; uma camiseta preta com um símbolo de uma aranha em vermelho, luvas brancas que deixavam seus dedos à mostra, calças escuras e um casaco na tonalidade vinho amarrado na cintura. O que se destacava era um piercing preto no lado direito do lábio — spider fang. Não parecia ser tão mais novo que si próprio, claramente maior de idade apesar das vestes de super herói. Certamente não era um vislumbre feio, pelo que pode julgar no meio daquela loucura toda. 

Hola! — Ditou o garoto, abanando a destra. Pelo pouco que conhecia de línguas latinas, aquilo parecia espanhol. — ¡Soy Roier! — A criatura fantasmagórica se aproximou, estendendo a mão para Cellbit apertar. 

Seu pulmão, que ainda não havia se acostumado a respirar normalmente depois da cirurgia, parecia querer explodir de tanto que tentava puxar o ar. Estava hiperventilando. Era impossível algo assim existir de fato. Coçou os olhos e jurou que ele desapareceria, quem sabe se voltasse a dormir acordaria deste sonho bizarro. Mas para a sua surpresa isso não aconteceu, o tal Roier continuava lá, parado, com um sorriso terno no rosto mostrando suas covinhas. Toda a silhueta se assemelhava a uma fumaça, os traços dele dançavam uns nos outros, como um efeito especial vivo. Ou melhor, morto. Começou a rir e se taxar de louco. “É só um sonho! Eu não estou conversando com um fantasma, vai ficar tudo bem! Quando eu tocar na mão dele eu n-”, teve de se cortar quando finalmente aceitou o aperto de mãos, pois ele sentiu aquele espectro. Um arrepio passou por toda sua espinha, o congelando no lugar. Uma sensação tenebrosa entre o que era real e o que não, o que estava neste plano e o que estava no outro. Não era gosmento, muito menos gostoso. O toque era meio superficial, pois não havia o frio ou o quente que a pele produz. Também não conseguiria descrever precisamente, já que ele estava dentre todos os estados naturais. Se assemelhavam a uma nuvem, mas palpável. Um sentimento diferente, mas assustador.

¡Pendejo! Claro que isso não é um sonho. — Por algum motivo aquela coisa também sabia falar em português e Cellbit começou a suar frio enquanto mantinha-se petrificado no lugar, com um bolo enorme preso na garganta. Se surpreendeu ainda mais, dando um pulo de susto para trás quando o tal fantasma lhe deu um beliscão. Sério, a porra de um beliscão! Ali teve a certeza absoluta de que estava sim bem acordado e tinha a merda de um cara morto na sua casa. Deu indícios que começaria a gritar, abrindo a boca e deixando apenas o ar sair, mas foi parado pelas mãos de Roier cobrindo seus lábios e fazendo um sinal de silêncio. — ¡Callate lo sico, cabrón! — O loiro recebeu mais xingamentos dos quais não entendia nenhum deles enquanto peito ainda batucava numa intensidade insana e jurou que morreria junto.

— Você não é real! — Segurou o que eram os ombros do espectro, sacudindo-o e recebendo uma careta azeda como resposta. — Volte para seu mundo! — Cellbit começou a rezar em português, vendo que não funcionou de maneira nenhuma, tentou um espanhol e a criatura gargalhava com as palavras totalmente erradas e com um sotaque carregado. Para Roier era cômico, mas no fundo achou aquilo minimamente fofo

!Oye! Sou real sim. Não vê? Eu estou bem aqui. — Pegou o pulso do maior, com delicadeza e ele apenas observava aquilo com cautela, seguindo cada passo do fantasma, mas não retirando o toque de forma alguma. Não tinha forças o suficiente para afastá-lo e nem sabia se queria de fato naquele momento. Apesar do grande susto, sua curiosidade gritou bem alto dentro da própria cabeça. — Veja, bem aqui. — Deixou a palma de Cellbit parada acima do peito, estendida e este correspondeu prontamente, esperando a ideia do moreno se concretizar. Com a destra ele chegou perto dos dígitos alheios e humanos, esticados, como se fossem medir o tamanho das mãos. Tocou-o, levemente, tentando fazer com que ele entendesse que de alguma forma estava vivo , ou pelo menos que estava presente e não era coisa de sua imaginação. 

Quando Roier uniu-as, um choque estático atingiu ambas as silhuetas, percorrendo desde a ponta dos dedos que estavam juntos até os sapatos. Ambos se afastaram pelo susto e a sensação tenebrosa que era quase como colocar um garfo em uma tomada desencapada e isso levou os dois ao chão. Cellbit não sabia como aquilo aconteceu, mas tudo doía e a sua cabeça entrava em combustão com tanta informação sendo jogada sobre ele. O moreno se contorcia e algo estranho aconteceu mais uma vez naquela madrugada gelada. Seu corpo ficava mais aceso e em segundos dissipava um pouco, exatamente como uma fumaça. A opacidade de seu ser diminuía numa frequência que até parecia que ele desapareceria na frente de seus olhos e aumentava tanto que por um minuto pensou que ele seria feito de carne e osso. O fantasma resmungava dolorido e tudo dentro do loiro lhe dizia para abandonar sua casa, sair correndo e fingir que nada disso aconteceu. Tinha dinheiro para alugar outra coisa, então, que essa criatura ficasse com o que tinha, só não queria ter que lidar com uma aparição. 

— Você pode… sentir dor? — Questionou curioso, levantando-se aos poucos para não desenfaixar nenhum de seus curativos. Cellbit aproximou-se com uma das mãos estendidas ao espectro, tentando tocá-lo mais uma vez. Surpreendeu-se quando seus dedos passaram reto na silhueta, entrando dentro do que seria seu braço. Por incrível que possa parecer, não sentiu nada entre os dígitos, nem mesmo a sensação esquisita de uma nuvem sólida, apenas vazio, como se ele não existisse.

— Eu não sei… — Respondeu, começando aos poucos a voltar ao normal, brilhando azul e se tornando palpável mais uma vez. Apoiou o peso nas palmas atrás do tronco, sentando no chão. — Mas acho que sim? — Estava tão perdido quanto o loiro e isso era diferente de tudo que já viu na vida e olha que já viu muitas coisas.

— Como você morreu? — Roier o encarou com os olhos arregalados e o viu tremer um pouco de onde estava. Teve de se apoiar no mármore da bancada da cozinha para não cair novamente por conta da tontura repentina que o choque lhe trouxe.

Yo… — O garoto levantou da maneira mais esquisita de todas. Suas pernas não fizeram impulso para que estivesse de pé, ele simplesmente planou . Voou até o lado do maior, as solas do sapato não tocavam o chão e isso fez com que Cellbit engolisse em seco mais uma vez. Apesar de tudo, de toda a merda que aconteceu em muito pouco tempo, não estava mais preocupado com a presença em si e ela também não lhe dava mais medo, afinal, se assemelhava muito a um humano

Roier se apalpou algumas vezes, observou as próprias mãos, olhou-se de cima a baixo. Antes o sorriso que apareceu em seus lábios, que em vida poderiam ser rosados, agora se transformava em tristeza. A melancolia pós morte, a sensação de não existir o atingiu por completo. Ainda existiam as sensações, ainda existia as expressões em sua face, mas a única coisa mais importante que todas as outras não estava mais consigo. Um coração pulsante, quente, bombeando sangue e passando por cada veia ramificada de seu corpo vivo. O que mais machucava não era o fato de agora ser um espectro, uma existência utópica, algo inalcançável e inexplicável, mas sim que não se recordava de absolutamente nada antes de aparecer ali. 

Quando acordou encontrou-se na sala de um desconhecido, sem entender o que fazia naquele lugar. Não lembrava se era sua própria casa ou como chegou em um quarto tão colorido. As únicas coisas que ainda manteve consigo era a consciência sobre seu nome e poucos lapsos de seus gostos, principalmente sobre Homem-Aranha. Tinha certeza de sua idade e que falava espanhol nativo, além do português quase fluente. De resto, puxando de sua memória devastada pelo que se denominava limbo, nada restou. Se estava morto mesmo, não entendia as causas de o que o levou a bater as botas. 

Roier se encontrava no meio de tudo e ao mesmo tempo o que era o nada. Um vácuo iminente e desgostoso. Lembrava-se de estar flutuando dentro de um mar azul, mas ele também se assemelhava a um céu, cheio de estrelas ao redor, porém seus pulmões sentiam a água entrar e os inundar. Poucas bolhas saiam de sua boca e seus olhos piscavam pesados, como se estivesse prestes a pegar no sono. Seus movimentos corporais eram lentos, exatamente como quando estamos submersos. Não sentia frio, mas a solidão se agravava a cada segundo do que poderia chamar de existência. Se a morte fosse tão vazia assim, não desejaria-a para ninguém. 

Limbo: a definição de um estado que é indefinido, negligenciado ou até mesmo esquecido. Tudo dentro dele pode ser real ou irreal, depende do que restou da mente do sujeito. As almas ficam esperando para se tornarem algo maior, ir dessa para uma melhor, desaparecendo e indo para um lugar que não era compreendido pelos seres humanos em vida. Ou escolhem ficar, perambulando pela tal Terra que antes era o lar de seu eu vivo, procurando instintivamente por concluir seus feitos inacabados. Porém, Roier não sabia dizer e muito menos pensar o que faltava em si mesmo, mas por outro lado não gostaria de desistir e ir embora. Seu peito fantasmagórico ardia e clamava por algo, mas não sabia dizer o que. Isso era frustrante demais para si próprio. Por mais que tentasse, suas respostas eram sempre algo nulo, vazio, exatamente como a sensação que perdurava em seu estômago, tal qual seu coração, se é que ele ainda existia.

— Eu não sei. — Depois de um tempo pensando, teve a capacidade de poder responder o questionamento do outro, apesar de ser vago demais para ligar os pontos.

Cellbit não compreendia aquele estado que o moreno se encontrava, mas ao mesmo tempo sentia que ele não era de todo mal. Muito pelo contrário, ainda que conseguisse o tocar e de certa forma atingir seu plano e ser capaz de lhe dar beliscões ou petelecos, ele era inofensivo. Quando vemos histórias sobre fantasmas sempre pensamos em possessões, almas penadas e terríveis que fariam de tudo para perturbar os seres vivos, mas Roier não era assim, entretanto. Não parecia querer o machucar, muito menos atrapalhar sua existência. Mesmo com tudo que ocorreu, acostumou-se com aquela presença ao seu lado, não temendo o garoto que parecia cada vez mais confuso do que si próprio, tentando se entender de alguma forma. Queria compreender mais, pesquisar mais, conhecer ele ainda mais. São poucas pessoas e poucas vezes na vida também que alguém tem a capacidade e a sorte de receber uma alma perdida. Sempre viu em jogos como essas entidades tornavam-se malignas, como Fatal Frame ou até mesmo a série de Silent Hill. Roier não parecia virar um cara bombado com uma pirâmide na cabeça. Sua curiosidade investigativa atiçou ao notar que talvez ele estivesse no próprio jogo de mistério, dos quais ele gostava muito de visualizar e passar horas na frente do computador zerando. Ele estava além de qualquer artigo, vídeo, filme, jogo e seja lá o que for sobre fantasmas. Era apenas um homem jovem. Pode ser que seu eu não fosse normal, justamente pelo fato de não existir no plano terrestre, mas não era um monstro.

Aquele homem estava perdido em algum lugar deste vasto universo, ou em algo parecido com isso, e se fosse ficar pela Terra por mais um tempo, Cellbit ajudaria essa tal alma a se encontrar.

〚...〛

Depois de cinco meses se recuperando as cicatrizes já haviam sarado, mesmo que ainda tenha ficado bem feias. Queimaduras geralmente são muito difíceis de se lidar, ainda mais no quesito auto estima — que nunca foi muito o forte de Cellbit. Todos os dias tentava ao máximo se cuidar com tratamentos de pele que aprendeu com o tempo e gastou uma nota em produtos. Teve medo de se esquecer ou pular algum dia de sua rotina de skincare , mas isso não seria possível, não com Roier por perto. Aquele fantasminha camarada se manteve durante todo esse tempo morando com o loiro. O bom de ter um espectro de estimação era o fato de que ele não gastava com nada, nem comida ou água, nem mesmo energia por conta do chuveiro e nem sequer precisava de um lugar para dormir. Era quase um colega de quarto, daqueles que dividimos em período de faculdade para não ter despesas.

Nunca se imaginou, pelo menos não naquele momento, convivendo com outra pessoa o seu espaço e costumes. Claro que desejava se casar, talvez ter filhos mais para frente, mas para isso primeiro deveria ter um namorado de fato. Não tinha amigos muito próximos dos quais gostaria de morar com e ter aquela criatura não foi bem uma escolha sua. Afinal, ele simplesmente apareceu por ali e decidiu ficar enquanto sua existência perdurava na linha tênue entre céu e inferno. No começo foi bem difícil se acostumar com as adversidades de uma entidade ou até mesmo dividir espaço com ele. Sempre viveu sozinho, trabalhava em casa e não tinha muito contato social no dia a dia, de repente foi inserido em uma dupla que nunca conheceu antes. 

Apesar de todos os contras, aprendeu a gostar de Roier. Ele estava se acostumando com seus “poderes” de fantasma — se é que isso pudesse ser chamado de poder. Estava mais para um certo tipo de dom. O espectro poderia mover coisas com sua aura, objetos não muito pesados sem ter que utilizar as mãos. Nem sempre poderia ser algo palpável de fato, mas também coisas como água e fogo, dando formas a eles e usando ao seu favor. Certa vez, enquanto Cellbit escovava os dentes, o moreno sem querer fez a torneira abrir e curvar o líquido para cima, atingindo o rosto do mais alto e molhando todo seu pijama. Também era capaz de movimentar estática de televisores e mexer na tecnologia por dentro do software . Isso era um problema dos grandes, pois várias vezes enquanto disputavam no vídeo-game ele trapaceava, deixando seu personagem majoritariamente forte e incapaz de perder. O loiro ficava bravo com essas coisas às vezes, mas eles se entendiam rapidamente. Ademais, o que mais faziam de fato era conversar sobre qualquer coisa. Cellbit amava contar histórias de sua vida e por mais que Roier não soubesse de sua própria, era gostoso colocar a nuca encostada no sofá da sala e ouvi-lo por horas, afinal o companheiro era muito quieto com outras pessoas quando estava nas reuniões de trabalho, mas consigo era um livro aberto. Gostava do fato de absorver aquilo e se sentir minimamente vivo, e agora poderia estar criando suas próprias experiências com ele, um presente já que foi lhe retirado as memórias de um passado. Por outras vezes lhe fazia agrados, conseguindo baixar jogos sem que o companheiro precisasse comprar, ou cuidava de seus machucados e lembrava-lhe dos horários certinhos dos remédios. Querendo ou não aquele espectro teve zelo de si muito melhor do que qualquer enfermeiro que pudesse respirar. Escrevia cartas para quando ele acordasse, colando na geladeira algo que não poderia esquecer do mercado. Virou muito fã de outros filmes de super herói, que particularmente o loiro não curtia muito, mas aprendeu a gostar por causa do outro. Eles tinham todo o tempo do mundo para aproveitar a presença ilustre — e por um lado espectral — que mantinham dentro daquela casa da qual dividiam. Dias plenos, outros mais difíceis, mas ainda assim bem mais coloridos do que costumavam ser quando Cellbit era sozinho.

Estava compreendendo aos poucos como conviver com o fantasma, principalmente pelo fato de que queria entender o que ele era . Não só isso como o motivo de ele estar ali e especificamente o fato de aparecer somente para ele em especial. Afinal, quando tinha de sair de casa, Roier era obrigado a ir com ele e nenhuma das outras pessoas conseguia vê-lo. Por certo tempo imaginou que fosse um fruto de sua cabeça conturbada e cheia de coisas de seu trabalho, mas quando foi à mercearia perto de sua casa na segunda passada, o caixa se borrou de medo de ver nas câmeras os sacos de arroz flutuando. Teve de inventar uma desculpa esfarrapada para o homem não fechar as portas e desistir de viver. 

Algo interessante sobre aquela entidade era a circunstância bizarra de que o garoto não poderia ir a uma distância muito grande do corpo de Cellbit. Em uma das noites que discutiram — Roier gostava de brincar com o companheiro, entrando dentro de seu torso enquanto estava intangível e deixando arrepios terríveis no homem —, o loiro gritou com o outro para que fosse embora de sua casa, que o deixasse em paz de uma vez pois não aguentava mais sentir aquele gelado no meio dos órgãos toda vez que pregava-lhe peças. E o moreno o fez, com os braços cruzados e a face abatida de quem não gostava de levar broncas, com um biquinho nos lábios. Porém, assim que estava no meio da rua, um pouco afastado e o dono dos olhos claros subiu as escadas para seu quarto, a silhueta azulada começou a desaparecer. Primeiro foram os dedos, ficando transparentes, depois subiu para os braços e Cellbit, e apenas ele, podia ouvir os gritos altos do parceiro lá de baixo.

— Cellbo! — Um apelidinho carinhoso que Roier lhe deu foi ouvido, a porta da frente sendo arregaçada pelos poderes fantasmagóricos, abrindo em um estrondo. — Cellbo… — O loiro bufou, mais uma vez descendo, batendo os pés bem fonte no chão por estar emburrado. Quando bateu os olhos no rosto do outro, surpreendeu-se ao ver lágrimas penduradas que tenderam a escorrer friamente. Naquele momento não teve certeza se eram reais, mas quando atingiram ao solo um plasma esquisito e bem azul brilharam. As gotas não eram espectrais, mas sim ectoplasma, deixando um rastro neon no piso de madeira. Arregalou as orbes imediatamente, suas mãos formigavam como nunca e seu pulmão funcional esmurrava suas costelas. Nunca viu algo como aquilo em sua vida, mas não o temia, muito pelo contrário… o que tinha medo era de seu estado, de como ele chorava, despedaçando em frente a si. Não pode aguentar mais um segundo, não queria o ver triste, não queria que ele ficasse assim, opaco. — Eu 'tô sumindo… Eu não quero sumir!

Correu para a presença alheia, fitando as palmas apagadas. Desesperou-se junto dele, segurando-o delicadamente pelo antebraço e estudando o que poderia ter feito isso. A “respiração” de Roier ficava descompensada e rápida. Temeu por sua “vida” pois não queria ser esquecido assim. Não queria ir embora brigado com o que era até agora o seu melhor amigo. Poucos segundos depois sua opacidade foi tomando cor novamente, voltando a tonalidade meio rosada e meio morta que acostumou-se a ver. 

— Eu ‘tô aqui, estou te vendo, você não vai sumir. — Tentou tranquilizá-lo, levando uma de suas mãos até o rosto do fantasma, retirando as lágrimas teimosas que mancharam seus polegares. Ele não se importava com isso, por mais esquisito que fosse. No final das contas, apegou-se a uma entidade que existia apenas para si. Teve medo, pela primeira vez, de perder um companheiro no qual dividiu a maior parte de seus dias e madrugadas divertidas que passavam juntos. Tudo poderia ter ido para o ralo e isso, no mínimo, era assustador. — Não vou deixar você sumir. — Ditou e recebeu um sorriso gracioso do moreno, entortando os lábios, completamente sem graça por conta de seu chilique.

Assim que Roier o abraçou, teve mais uma vez certeza de que ele era real e por um breve segundo sentiu um calor gostoso emanando de algo que era tecnicamente intocável. Seu pior pesadelo era deixar o mundo dos vivos e dar um fim a seu passado que nem sequer sabia do que se tratava; era devastador a possibilidade de se tornar um nada. E o moreno não poderia desaparecer, não enquanto não se recordasse de como morreu e do que ele era antes de tudo isso. Nunca iria admitir que também sentiria falta de Cellbit e de o acompanhar durante as semanas, aproveitar o tempo, jogar e conversar por horas sem cessar. Estar em um mundo onde o tempo não era presente era diferente, enquanto o outro homem tinha de contar os minutos para entrar em uma reunião do trabalho ou se preocupar em fazer coisas normais se um ser humano. 

Foi ali que ambos perceberam que estavam ligados de alguma forma e Roier não poderia ir para muito longe do corpo alheio. Por algum motivo que não entendiam de fato, mas devido aos testes no qual fizeram, com a permissão do fantasma, era evidente que caminhar acima de dez metros contra Cellbit o faziam desaparecer aos poucos. Nunca chegaram a passar de sumir com as pontas dos dedos. Aquilo não machucava a entidade, mas o deixava atônito com a possibilidade de desvanecer para o além. 

Prometeu ao garoto que nunca o deixaria ir e enquanto estivesse vivo e por perto Roier, o espectro, estaria vivo e continuaria vívido o suficiente para permanecer em seu mundo. Não importasse o que tivesse de fazer, não o perderia, mesmo que existissem desentendimentos, ressentimentos ou brigas idiotas. Era seu amigo que o assombrava, ajudava e sorria com ele.

Ninguém poderia sentir sua dor, mas Cellbit faria com que ela passasse e seria seu curativo, até que estivesse pronto para atingir o próximo plano.