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Peace-Colour Blush

Summary:

"O Destino tem um senso de humor duvidoso" é o que Ryou Akiyama sempre diz, e não é diferente nesse romance de verão dinamicamente lento que aconteceu semana passada, onde o que ele queria era apenas juntar alguns trocados parar viajar. Mas talvez o destino da viagem não seja exatamente o que ele planejou, e isso ele só vai descobrir se ele sobreviver esse mundo glamuroso de modelo.

[ DIGIMON TAMERS RYOU X RUKI ]

Chapter 1: Primer de Desprezo.

Chapter Text

01. Primer de Desprezo, excelente para poros.

 

- Então você quer que eu entre numa agência de modelos mega famosa que por um acaso é a favorita da Shiseido para ser modelo... É isso mesmo, pai? - falei, enquanto comia arroz com meus hashis preto, embalsamado pela gordura do peixe frito. A tarde era quente, típica de Julho e começo de férias de verão, perfeita para um peixe frito em casa.

 

Meu nome é Ryou Akiyama. Sou filho de Eiichi Akiyama, um aclamado fotógrafo no meio artístico. Tenho 28 anos e atualmente trabalho como professor de Inglês em uma escola em Ozu, Kumamoto e faço alguns bicos como enche-linguiça como um rostinho bonitinho promovendo qualquer coisa em revistas de Okinawa. E no momento eu estava contemplando o primeiro dia das férias de verão em casa, com meu pai, o que era uma raridade dado que o homem nunca fica em casa. Ele havia chegado de viagem há pouco, pois tinha uma reunião importante em Yokohama.

 

- Isso. A Donna Models pediu um “típico, porém lindo" japonês, e eles me intimaram para te chamar. - Meu pai passou a mão pelos cabelos, parte deles grisalho nos lados.  – Outro comercial, mas dessa vez vai ser com outra modelo junto.

- Ah, eu sabia que sair naquela revista de frescura de mulher iria me dar problema... - suspirei. Lembrei automaticamente que tive problemas com as minhas alunas depois de uma edição qualquer da Otona Sweet* ter meu rosto enquanto publicava qualquer coisa sobre os melhores perfumes que homens gostam nesse verão.
- Não diga problema, o cachê foi excelente.
- Fato. - Engoli a comida

 

Ficamos em silêncio. Me recordei que a Donna, além de ser a queridinha das marcas de maquiagem, também emprega uma amiga minha. Como posso esquecer da ilustre Jun Motomiya, que fareja talento, beleza e casais no hype? Irmã de Daisuke, um excelente chefe tradicional especializado em ramens; eu não a via muito, mas era sempre uma pessoa muito querida, apesar de ser uma completa lunática quando se falava em conselho amoroso. Eu sei que meu pai trabalhava com eles regularmente, era o principal motivo dele ir a capital uma vez ao mês e passar uma semana lá. Não minto, às vezes eu não consigo imaginar o que levou uma enfermeira a ir trabalhar no ramo de moda, mas também não é como se eu fosse fazer algo sobre, já que ela estava feliz com a carreira (ou pelo menos é o que ela diz). 

 

- Esse trabalho aí... Quem vai ser a modelo com quem vou trabalhar?
- Não decidiram ainda, ainda estão selecionando, mas até onde a Motomiya me falou, eles pediram duas modelos que estavam de bobeira fora do país para voltarem.
- Quantos dias?
- Só uma semaninha. Mas, se tudo der certo eles cogitam em te fazer permanente.
- Sem essa. - Eu ri. - Meus alunos ficariam malucos, nem sei o que o Nobunaga falaria se eu pedisse as contas.
- De fato. De professor numa escola pública de um lugar quase inóspito a um modelo internacional. Isso daria o que falar, mas eu sei que a sua mãe ficaria muito orgulhosa.

 

Meu pai, assim como minha adorável mãe, queria que eu fosse do ramo da moda. Sempre fui uma criança linda, segundo o que eles me diziam, não havia uma que não se apaixonasse pelo meu sorriso torto ou pelos meus olhos ou a pele de Okinawa que herdei. Obviamente eu ignorava tudo isso, me sinto melhor ensinando inglês para adolescentes, eu genuinamente acredito que saber inglês vai fazer deles melhores aventureiros nesse mundão, mas isso nunca impediu meu pai de vira-e-mexe me botar em furadas assim, sendo a última no meio do inverno... E eu há via jurado que não iria fazer mais isso. Se não trazem o homem à montanha, eles levam a montanha ao homem, pelo visto.

 

- Certo, eu vou. É verão mesmo, as aulas acabaram ontem... - terminei de comer. - Mas me prometa que esse vai ser o último ensaio, não me coloca em mais nada depois disso!
- Fechado. - Meu pai sorriu, as linhas de expressão marcadas com alegria.

Nesse momento o celular tocou, ambos olhamos para ler o identificador, e era Jun Motomiya.

 

- E falando no diabo... E ai, Motomiya! - ele colocou na função viva voz e deixou o celular no meio da mesa.
- Eiichi-san! E ai? Derretendo em Kumamoto? - ela riu, franca.
- Nada, tá sossegado, muitos anos aqui e já me acostumei. Escuta, eu falei com o Ryou.
- E ai? - ela aparentou estar apreensiva.
- Fala pra Rumiko que a Shiseido vai ter o Japonês Tipicamente Lindo que ela queria pro refresh do catálogo.
- KYUSHU SEJA SAGRADA! Eu te amo, Eiichi-san! Wooooow! - ela gritou de felicidade, até mesmo do telefone estava alto demais.
- Hey Jun! – exclamei, achei melhor deixar ela saber que eu estava presente na conversa.
- Ah você estava ouvindo?
- Falando de mim e não quer que eu escute? - dei uma risadinha, e ela riu.
- Eu já ouvi essa frase na boca de outra pessoa mais cedo! Mas enfim, que foi?
- Como que vai ser? – perguntei, vai que ela tenha mais algum detalhe que meu pai não tenha.
- Eu ainda não sei com quem, mas é uma série de fotos para atualizar as brochuras deles. É um trabalho bem grande, mas rapidinho porque eles sabem bem o que eles querem.
- Tem alguma previsão de quem vai ser?
- Hm... - ela pensou. - Chi, pega a agenda para mim, por favor? - ouvi um "aqui, Motomiya-senpai” e o folhear de algumas páginas. - Nenhuma, mas pelo grau da Shiseido vai ser uma das tops. Se não me engano a Chi chamou duas modelos... – Jun afastou o telefone, mas ainda dava para ouvir ela perguntando a Chi se havia mais alguma notícia, no qual ela negou.
- E o Japão têm alguma top?! – questionei. Não é por mal, não acompanho muito revista de moda feminina.
- Que merda de pergunta é essa, Ryou? É CLARO QUE A GENTE TEM! - Ela bradou - Enlouqueceu, homem? Pelo menos umas vinte!
- Já que você diz...
- Uma das grandes tops é a Rumiko.
- Rumiko, Rumiko... - tentei pescar algo que atendesse a esse nome, e num lampejo veio - Rumiko Makino?
- Sim, ela mesma!
- Mas ela está meio... Velha, não?
- Ela nem têm quarenta e seis anos, abaixa o taco ai. - ela intimou.

 

Lembrar da Rumiko me fez lembrar de Ruki. E o que será que aquele demônio anda fazendo? A visão da menina de rabo de cavalo espetado e calça jeans e olhos de vidro colorido veio na cabeça como uma lembrança doce... Não a vejo pessoalmente desde aquele final de semana que os tamers vieram para Okinawa por mim e Minami, me pergunto o que ela estaria fazendo... Lembro vagamente que ela estava estudando TI em uma escola especializada em Arakawa e que continuava aquela menina teimosa de sempre, mas enfim...

A voz que parecia pertencer à Chi chamou por Jun e falou, sucinta, "Ah! Ela está a caminho, chega ainda hoje!". Jun vibrou.

- Ryou, eu vou indo, parece que acharam uma modelo para a campanha, então hora de fazer a papelada.
- Oh. Ok.
- E venha logo pra Tóquio! Eiichi-san, eu mandei as passagens para o seu email, tudo bem? – e desligou.

 

Ouvi o barulho da linha ecoar por um segundo antes que o barulho das cigarras substituíssem o barulho de fundo. Meu pai pegou o celular e conferiu o seu inbox – as passagens estavam lá e ele me mostrou – precisávamos estar no aeroporto de Kumamoto em 5 horas, o voo saía 6:30pm. Sendo uma da tarde, então era hora ir arrumar as malas.
Essa é a primeira vez que pagam para eu ir até eles, não vou mentir que isso é interessante e isso me intrigava. A curiosidade me fez sorrir, eu gosto de aventuras, e eu mal esperava para ver o que eu iria fazer nessa.

Olhando assim, mal sabia o que me esperava essa viagem, viu...

 

- Ah esse verão vai ser legal... - Me levantei da mesa e saí, cantarolando, enquanto meu pai agradecia às cinzas de minha mãe pelo destino ter realizado o sonho deles.

 

—oOo—

 

Enquanto fica essa burocracia para pegar um avião e despachar mala, vamos esclarecer uns pontinhos aqui, porque eu creio que você esteja um pouco perdido.


Eu sou um sobrevivente do incidente do D-Reaper em Shinjuku e uma das quatro crianças que usara uma carta vermelha pra lutar contra aquele agente e, depois de tanta coisa que passei nesses anos de cidadão protegido, eu decidi que queria ser professor – era a profissão mais estável que não envolvia politicagem e o governo me deixaria em paz, mas eu gostava de ensinar e tirei proveito do fato de eu ter estudado em uma escola americana e ser ¼ americano e foquei em ensinar língua inglesa. Eu poderia ensinar outras línguas, mas acredito que saber inglês é essencial e eu me assustei com o ensino atual de inglês nas escolas públicas. Decidi ensinar em Ozu porque minha família decidiu se mudar para Kumamoto quando meus pais decidiram se aposentar, e hoje em dia mora eu e meu pai na casa – minha mãe morreu há um ano. Eu gosto de cidade pequena, menos dor de cabeça e eu me acostumei com a vida quieta do interior.

Agora, você está se perguntando, “Akiyama-sensei, por que modelo?”, não é? Bem: por mais que eu goste de paz e cidade pequena eu sou um aventureiro nato e um dos meus hobbies é viajar. Durante as férias de verão eu intercalo duas viagens: uma internacional e uma nacional, antes das aulas voltarem, porque existe um torneio de motocross perto da minha casa em Misakino e eu odeio o barulhomas geralmente acontece nos últimos dias de agosto então na segunda seguinte eu preciso estar em casa para ir trabalhar. E esse ano eu pensei em duas viagens: Queria ir para a Alemanha, dizem que Frankfurt no verão é agradável, e a viagem nacional eu ainda não havia decidido, mas estava tentado a ir em Okinawa ou Hokkaido – ainda em debate. Infelizmente, por mais que seja nobre a profissão, professores não ganham muito bem então pra ter certeza de que eu estou sendo responsável, eu faço pequenas pontas em revistas e ganho alguns trocados que vão para meu fundo de viagem. Tomo muito cuidado porque eu sendo professor não posso me meter em publicidade errada, então todas as campanhas que eu fiz são voltadas para bem-estar e viagens. Lido com uma fangirl ou outra, mas nada demais, e o meu chefe na escola está ciente disso. 

Que ótimo, o embarque começou! Mas preciso falar mais uma coisa: essa é a primeira vez que eu volto em Tóquio em 15 anos. Eu poderia voltar a qualquer hora, mas a verdade é que voltar lá me partia o coração de muitas maneiras, sendo a principal o fato de que não pude estar perto dos amigos que eu fiz no Mundo Digital. Sim, tínhamos um grupo que conversávamos o tempo todo, e emails, e eles vieram para Okinawa me visitar uma vez mas depois que eu me formei na escola e comecei a minha vida adulta, a gente se distanciou bastante. Ainda converso muito com Hirokazu e recentemente me reconectei com Kenta além de vez em quando conversar com Takato pelo telefone, mas não é nada comparado como antigamente. Eu sei, eles me receberiam de braços abertos mas ainda assim dói bastante, sabe? Eu queria muito ser mais próximos deles, de Takato e Juri e...

Ela. Ruki Makino. Como que eu poderia esquecer a Digimon Queen...

Secretamente, ela é o motivo pelo qual eu não queria voltar à Tóquio depois de adulto: ela era, ou é, uma pessoa de gênio muito forte e independente... não, ela é teimosa pra caralho, e nunca entendi muito bem, mas o que a gente viveu quando mais novos foi um pouco demais. Sim, a gente conversava e até fomos em um evento juntos uma vez depois da partida dos digimons, mas tudo sempre foi muito escondido dos outros e ela arrumava um jeito de sempre me tratar mal, sabe? A ultima vez que eu a vi foi em uma operação secreta onde eu impedi ela de se matar e ela me agradeceu sendo extremamente rude comigo e até dizendo que me odiava,e naquele ponto ela já tinha me dado o fora e estava namorando o Jenrya. Eu sei, eu sei, complicado pra caralho e ainda estávamos à meio Pacífico de distância mas enfim. Estava planejando me encontrar com os Tamers, se eu tiver sorte, mas não sei se quero ver ela. Não sei como eu reagiria, mas com certeza eu sabia que iria colocar a minha raiva para fora e pedir para ela esclarecer o porquê dela me odiar tanto. Será que foi alguma coisa que eu fiz? Eu sei que é errado eu, um homem de 28 anos, nutrir um sentimento tão infantil, mas olha... A teimosia de Ruki Makino é lendária e eu não faço a menor ideia que rumo ela tomou depois daquele dia. 

... E assim eu aterrisso em Haneda com meu pai, isso umas nove da noite. Estava chovendo quando olhei pela janela do lobby onde você consegue os aviões taxiando e arremetendo com janelas imensas, sabe? especialmente aquelas janelas voltadas pra asa Internacional. Havia outro avião, da Etihad, onde os passageiros estavam desembarcando e ganhei um vislumbre de uma mulher ruiva, aquele ruivo que dava para ver de Wakkanai** de tão vibrante e bonito. Não estava perto o suficiente para ver o rosto, mas era difícil desviar o olhar dela. Meu pai me tirou do transe quando me puxou o braço, ele havia pegado as malas. “bora, Ryou, a Motomiya está esperando” ele disse enquanto me dala a minha mala e precisei de um instante para me recompor. Quando saímos pelo portão de desembarque doméstico havia duas mulheres, e uma delas começou a vibrar – aquela era Jun Motomiya. Ela era idêntica ao Daisuke, só que mais baixa e branca.

 

- Eu ainda não acredito que ele veio mesmo! É bom ver vocês, meninos! - Jun nos cumprimentava, mas a voz entregava que ela estava eufórica. - Quero que conheçam a Chi; ela é uma trainee para assumir um cargo de maquiadora-chefe.

 

Jun apontou para a segunda mulher, que parecia ter saído de uma revista de pin ups de 1950 – se não fosse pelo rosto obviamente japonês, ela poderia ser uma americana de Pearl Harbour vestida dos pés à cabeça em rockabilly. Não que ela não estivesse bonita – combinava com ela, mas era com certeza um apelo à originalidade dela, e a calça capri jeans com a blusa de alça listrada caiam muito bem com o cabelo claramente feito e o batom vermelho vivo.


- Chizuru Kawano, prazer. - E se curvou como uma japonesa comum e ofereceu o cartão de visitas dela. - Espero que possamos fazer um bom trabalho juntos.

Eu aceitei e comecei a ler.

- Ela vai trabalhar na maquiagem desta campanha. - Jun finalizou. – Se precisarem de qualquer coisa, é com ela!
- Eu sou Ryou Akiyama, filho do Eiichi. É um prazer te conhecer. - Retribui a formalidade, me sentindo mal pelo fato que estava de tênis, calça de linho e camiseta azul escuro e um boné velho. - Também espero que possamos trabalhar juntos e bem.

 

Chizuru Kawano, Chefe-em-treinamento, departamento de maquiagem, execução e styling da Donna. Ela é importante. Me senti extremamente despreparado porque não me ocorreu de que eu precisaria trazer o meu cartão de visita, mas ela sorriu e acenou como se não fosse necessário. A felicidade de Jun quebrou a tensão e ela grudou em meu braço e começou a nos guiar em direção aos taxis que esperavam do lado de fora do saguão da asa doméstica.


- Jun, diz ai, quem é a menina? - Meu pai perguntou.


Nessa hora um táxi passou e pulamos todos para dentro. Jun pediu ao motorista que nos levasse para o Wonder Tokyo, em Shibuya. A pinup foi na frente, e meu pai, Jun e eu nos apertamos no banco de trás.


- Olha, Eiichi-san, não faço a menor ideia. Tudo o que me foi passado é que ela acabou de voltar para o Japão, e pediu para a reunião ser amanhã durante a tarde para ela lidar com o JetLag. - Jun respondeu.
- O que eu ouvi é que ficaria entre a Matsukasa e a Makino. Ambas estavam fora e voltaram hoje para o Japão. - a Pinnup falou, ajeitando os óculos RayBan na cabeça - Eu não duvidaria nada se fosse a Rukitan.
- Fato, aquela campanha que ela fez pro site junto com as coreanas deu rios de dinheiro pra Shiseido ano passado - meu pai falou - se bem que a Matsucchan também rendeu horrores para a La Mer com aquela campanha de skin care na Malásia.

 

Não demorou para que as luzes da cidade grande me seduzissem e me levassem de volta à minha adolescência, onde eu vivia em hotéis por causa do jogo de digimon – isso é, até o incidente.


- E aí, Plantinha, qual prefere: a Rainha do Gelo ou a Flor de Primavera?


Eu estava absorto olhando pra paisagem que foi inevitável falar "hm?" quando me chamaram.

- Desculpa, eu estava distraído. Qual era a pergunta?
- Chi falou que o papel de modelo do job da Shiseido poderia ser ou da Makino ou da Matsukasa. Qual das duas você prefere?
- Sei lá. Falando por nome eu não lembro. -  e dei de ombros.
- Matsukasa foi a modelo da Revlon, daquele batom vermelho absurdo, e a Makino saiu na Runaway de Londres com o novo look de verão. - a pinnup falou.


Refleti por uma resposta melhor – minhas alunas eram vaidosas e vi muita revista na minha carreira de professor, mas nada que remetesse ao que me foi perguntado.

 

- Tanto faz. - e dei de ombros. – Continuo não sabendo quem são.

 

A pinup e meu pai suspiraram. Meu pai se inclinou e sussurrou em meu ouvido algo que me tirou do sério ali mesmo.

 

- Só lembrando que Makino é a sua amiguinha de anos atrás, tá?

 

Senti meu sangue esquentar quando entendi o que era. Me voltei para a janela e não tirei meus olhos de lá enquanto a conversa sobre a Donna rolava à solta entre eles. Eu sei que o destino tem um senso de humor duvidoso, mas não seria cruel a esse ponto, né? Mesmo quando chegamos no hotel e eu pude me jogar na cama, eu ainda estava com isso na cabeça; mas eu recusava deixar esse fantasma do meu passado roubar meu sono.

—oOo—


No dia seguinte, quinta-feira, por volta da uma da tarde, tive de ir à agência porque a reunião era presencial. A primeiro momento eu gostei do lugar, porque dava para ver o prédio do parlamento claramente do outro lado e experimentar um pouco da loucura da cidade grande da rua e era um prédio relativamente moderno. Meu pai me apresentou a alguns lugares e até me levou para conhecer o time de produção (que foi uma das introduções mais bizarras que tive na minha vida). A sala de reunião era minimalista, com uma mesa de madeira e algumas cadeiras muito confortáveis; uma janela para o lado de fora e um vidro fosco para a parede com a porta, então você poderia ver uma silhueta embaçada do pessoal passando por ali.

Jun, Chizuru (é, parei de chamar ela de pinup, ela me deixou a chamar pelo primeiro nome), meu pai e eu, junto com um homem da Shiseido, o responsável pela campanha, tivemos uma conversa prévia sobre para esclarecer alguns pontos sobre o que eles esperavam, onde a Donna poderia tomar liberdades, etc.

 

- Acho que agora falta a modelo feminina, não, Motomiya? - o agente perguntou.
- É... Creio que ela logo estará--

 

De repente ouvimos um barulho de salto de mulher, vinha de uma direção oposta e não pudemos ver a silhueta de quem era, e isso me deixou mais ansioso. A cada passo ficava mais forte, até que em pouco tempo a porta se abriu.

 

- Com licença.

 

De longe ela era a mulher mais linda e alta que eu já tive a honra de conhecer.
O corpo esbelto e alta, branca como um floco de neve, dedos finos decorados com dois anéis de ouro branco. E com eles carregava um café.

Ela usava um vestido preto, que ia abaixo do joelho, sem mangas e um dos lados tinha um pedaço de metal que dava um aspecto assimétrico. Ela tinha um colar fininho, quase um choker, da mesma cor que o metal, que realçava o busto e a clavícula. As curvas perfeitas que poderiam ser perfeitamente uma escultura que ganhou vida e saiu andando por aí – bombshell que chamam? Pela poderia ser uma modelo da Victoria Secrets, se já não fosse. Ela usava duas pulseiras fininhas também, mas que tinham brilhantes que faziam um barulhinho bem fraquinho de metal batendo.
Ela era alta, mas ainda usava um salto alto que lembro duas ex-namoradas minhas mencionarem sobre – Louboutin? Acho, tinha o fundo vermelho. Em pé ela é tão alta quanto eu, e eu tenho 1.91m de altura (o que é muito mais alto que um japonês médio). E ela perfumada, algo que não se vê no Japão. Ela tinha cheiro de lavanda e ylang-ylang e flor de laranjeira, mas extremamente cara e rara. O perfume dela inundou a sala gentilmente, como se fosse mágica que envolveu a todos ali.
Porém, o que me pegou de verdade foi o rosto dessa mulher: quem quer que esculpiu ela decidiu que era de bom tom achar diamantes roxos em algum lugar nesse mundo e colocar nos olhos dela; e quem fez a maquiagem dessa deidade cumpriu com êxito deixá-la com um rosto suave, mas marcante, onde os olhos eram a verdadeira joia da coroa, mas o resto era igualmente valioso. Ela tinha uma franja longa e alguns fios lhe caíam no rosto, mas o resto estava preso em um rabo de cavalo alto simples, mas perfeitamente feito. E o cabelo tinha exatamente a mesma cor daquele ruivo que eu vi ontem, que me deixou fascinado. Ela carregava uma bolsa preta e pequena - cabia o celular mais poucas coisas, mas também não importa; com uma mulher dessas você olhar para qualquer coisa era um crime contra o estado. A presença dessa mulher era insana, calculada milimetricamente para desconcertar e endoidecer qualquer um.

Eu disse que o destino tem o senso de humor duvidoso, não é? Porque eu soube, assim que meu cérebro terminou de processar essa mulher, que na minha frente era ninguém menos que Ruki Makino. Eu sabia que eu estava vermelho, de início porque eu estava chocado que um humano desses existe, mas a raiva não tardou em começar a se manifestar.

 

- Srta. Makino! - o agente exclamou. Senti emoção na voz dele.
- Peço que me perdoe pelo atraso. Ainda sofro com o JetLag. - ela se curvou.
- n-n-Não tem problema, entendemos seu lado, um voo da Romênia até aqui é bem cansativo. - o agente falou.

 

Os olhos dela se levantaram.
E cruzaram com os meus. Os dois diamantes brilharam com um ar de superioridade.
O rosto dela enrusbeceu de leve.
E eu me levantei da cadeira. Eu estava irado.

 

- POR QUE NINGUÉM ME DISSE QUE EU IRIA TRABALHAR COM ESTE MONSTRO? - bradei.

 

Todos olharam para mim, chocados com o meu grito.

 

- Ryou, se acalme, por favor, o que houve? Como assim, monstro? - Jun tentava me acalmar.
- Ryou, acalme-se! - meu pai ordenava.
- Não, deixa eu falar! Eu-

 

Olhei para o rosto dela. Eu estava esperando palavras grossas e frias, até mesmo insultos, saíssem da boca dela. Mas ela silenciou minha fúria quando andou até a mesa e abriu a bolsa e de lá puxou um cartão azul-escuro e entregou para o agente, em silêncio.

 

- Sei que estou abusando de sua boa vontade, mas gostaria de pedir que me ligasse para discutir sobre essa campanha em uma outra hora.
- Mas... Makino, eu preciso discutir isso com ambos...

 

Ela olhou para minha cara, que por mais que ela tentasse esconder, ela demonstrava nojo. Sentia meu sangue ferver. Meu pai e Jun me seguravam.
Ela voltou seus olhos para o agente e disse, com clareza.

 

- Não gosto de trabalhar com pessoas que não sabem separar vida pessoal de vida profissional. Podemos marcar uma nova reunião quando ele aprender isso, até lá me deixo à sua disposição.

 

E com isso ela se curvou de novo e saiu. A porta bateu de leve.

 

- Yamaguchi, me dá um tempinho para conversar com Akiyama? - Jun disparou.
- Claro...
- Chi, chame a Makino de volta. - Jun ordenou enquanto me puxava para o corredor - pede para ela esperar nessa sala!

 

Chizuru saiu correndo, o mais veloz que os saltos lhe permitia. Jun me puxou para uma sala vazia ao lado, a luz acendeu quando entramos. Ela sequer fechou a porta.

- Meu amor, qual o seu problema? - Jun disparou, irritada.
- Mas Jun, você não entende, el-
- Ryou, entende isso: eu sei que tem uma história entre vocês, mas trabalho é trabalho! Seja profissional, inferno!

 

Mordi meus lábios, com raiva. Jun estava correta, isso foi bem infantil, mesmo.

 

- Se ela pudesse, você estaria morto e esquartejado, mas ela sabe que não pode recusar, e nem você!  Então tome rumo e cresce!


Não tive forças para rebater.

 

- ... Mas ninguém me falou que seria ela!
- Nem eu estava sabendo disso! - Jun disse e passou a mão no cabelo - Escuta: se você vai desistir a hora é agora. Ou vai ou racha, mas você nunca mais vai fazer isso!

 

Jun estava nervosa, mas quando ela falou essa frase seus olhos suplicaram para que eu ficasse e não arruinasse a carreira dela. Refleti por um instante, controlando meus sentimentos.

 

- Eu vou tentar meu melhor. - falei vagarosamente, enquanto lutava contra meu orgulho.
- Ótimo. Quer uma água ou pode voltar para a reunião?
- Posso voltar, não precisa.

 

Respirei fundo, enquanto ela me observava.

 

- Jun, mil desculpas, de verdade. – E me curvei, envergonhado.
- Contanto que você não faça mais isso, está tudo bem.
- Não vai mais acontecer. – falei, resoluto.

 

Ela sorriu e deu um tapinha no meu ombro.

 

- Não se preocupe, eu sei que ela é complicada de lidar com.

Quando voltei para a sala, me curvei pedindo desculpas. O demônio já estava sentado, com as pernas cruzadas e me fuzilando com o olhar indiferente. Empreguei tudo o que eu sabia de controle emocional que aprendi na terapia e no exército e me controlei, como prometi a Jun. Me sentei ao lado oposto ao dela e mirei no agente, tentando não ver ela. Mas mesmo eu não querendo, eu roubava soslaios dela, aquele rosto focado dela era irresistível.

Deixa-me dizer isso aqui: eu sei que ela me tira do sério. Ela me descarrilhou no torneio e por muito pouco eu não perdi, ela me descarrilhou quando lutamos contra o D-Reaper, ela me descarrilhou feio quando gravamos a mensagem, mas nem nos meus sonhos mais obscuros eu imaginaria que só a presença dela era o suficiente para me tirar do sério. Só que assim, eu estou em conflito porque na minha cabeça ela ainda era uma menina e se o destino fosse um pouco mais gentil, eu iria ver só isso: uma menina tomboy. Maaaas nãaaao, eu não sei o que aconteceu com aquela menina que ela simplesmente virou uma entidade com poderes satânicos de atração, mas eu sabia que tinha mais do que um sentimento poderoso para com ela e eu não gostava nem um pouco que ela causasse essa reação em mim – era maior que eu.

O projeto em si era só para atualizar as brochuras da Shiseido e sua linha de skin care; mas algumas fotos a gente precisaria fazer juntos, e isso me deu alguns faniquitos que não sabia o que dizer o que era, exatamente. Mas meus faniquitos se acalmavam quando eu pegava meus soslaios e via o rosto dela sério, tratando com tudo o maior profissionalismo. Talvez, Ryou, ela tenha mudado e se tornado mais social, sabe? Não seria tão ruim se, talvez, ela fosse mais agradável de estar perto. Eu até tentei participar da reunião, mas era bem claro que eu era apenas a carinha bonitinha e novata ali, Jun e Chizuru eram verdadeiras titãs na conversa, e claramente a Entidade Satânica Celta sabia do que estava fazendo; então apenas deixei que ela lidasse com tudo. Normalmente eu participava ativamente da reunião, mas ela foi mais dominante do que eu. Quando dei por mim, mais de três horas haviam se passado.

 

- Creio que seja isso, por hora. - Yamaguchi falou, juntando as mãos. - Ligo para vocês se houver mais algum extra.
- Fechado. - falou Makino. - Começaremos amanhã?
- Acho melhor não. Se não se importar de começarmos na segunda...
- Sem problemas para mim. - ela afirmou. Logo voltou o olhar para mim - Tudo bem para você, Akiyama? Ou quer começar amanhã?

 

É estranho ouvir ela falar meu nome tão claramente, acho que é a primeira vez que escuto ela dizendo o meu sobrenome.

 

- O que você achar melhor. Creio que tirar a sexta e o fim de semana para me organizar aqui em Tóquio seja melhor.
- Ok, então começaremos na segunda às nove. - finalizou Yamaguchi.

 

Nos despedimos do agente. Ele foi embora, enquanto Jun nos segurava na sala.

 

- Certo, crianças, alguma objeção, reclamação ou algum ão que eu tenha esquecido? - Jun declarou assim que a porta da sala se fechara atrás de Yamaguchi.
- Nada a declarar. - Ruki disparou.
- Um café agora seria divino. - E me espreguicei na cadeira. Ruki me olhou de canto de olho. - Eu tô quebrado.
- A pessoa nem aguenta uma viagem doméstica de poucas horas, imagina vir da Romênia e encarar JetLag e trabalhar ao mesmo tempo... - ela suspirou - que belo modelo você arrumou, Jun.

 

Ah, aí está: era isso que eu temia. Não, vozinha da cabeça de Ryou, ela não mudou nadinha.

 

- Viajar no tempo que é bom você nunca fez, né? E ainda-
- "E ainda sambei num deus do espaço-tempo com digimon emprestado" mi-mi-mi. - ela imitou minha voz - Quando você vai mudar esse seu discurso de viúvinha da WonderSwan, hein? - e me olhou com deboche.

 

Ouch. Eu estava ensaiando minha resposta quando ela se levantou.

- Heyhey ei, pérai, onde você vai? Provoca e sai fora, agora é assim? - levantei e peguei a mão dela, que parou.

Ela me olhou no olho, indiferente. Mas corou.

- Diferente de você, eu tenho mais o que fazer. Me solte. - ela puxava de leve o braço.

Por algum motivo não a obedeci, apenas fiquei segurando o braço até eu me tocar que ela fazia mais força para se soltar. E então a soltei. Meu corpo não me obedecia, que estranho.

- Diabo de homem, qual o seu problema? Perdeu a alma em mim? - ela falava, revoltada.
- Não, é que... Sei lá. Só... - não sabia me explicar.
- Jun, além de amador ele ainda é louco! - ela falou, indignada - Da próxima vez que me trouxer esses lixos e os chamar de modelos eu me demito! - e saiu bufando.

 

Ela saiu e eu acordei do transe.

 

- Espera um pouco, ela me chamou de lixo e de louco? - perguntei, inocente, para as meninas.

Elas fizeram "sim" com a cabeça.
Me revoltei, mas fiquei na minha. Não estava valendo a pena ir atrás dela e despejar todos os argumentos nela... Ou ao menos tentar antes de ser pego por aquele olhar de diamante roxo.

 

- Acho que ela foi dar um pulinho na Toudai. - Chizuru falou, casualmente.
- Para fazer o quê, lá? - perguntei.
- Ela estava com uns trabalhos pra entregar, não, Chi? - Jun falou, enquanto recolhia os papéis da mesa.
- Estava. O AutoCAD dela foi para o pau e ela teve de fazer tudo de cabeça.
- Oi? - Falei, confuso. - O que seria Autogato?

 

Chizuru riu.

 

- AutoCAD é o pilar principal de um engenheiro, Akiyama-san. - ela respondeu. - Rukitan está no segundo ano de Engenharia Industrial.
- Ué? Ainda na faculdade? - Estranhei, mas logo emendei - Ah, verdade. Ela é mais nova que eu, é normal ela estar na primeira faculdade.
- Quem te disse que é a primeira faculdade dela, plantinha?? - Jun interviu, com uma das sobrancelhas levantada.

 

Saímos da sala.

 

- E não é? - perguntei.
- Não. Ruki é bacharel em Moda e Design.
- Como se ela só tem vinte e... E...
- Vinte e quatro, ela terminou a escola em Singapura um ano antes. - Chizuru falou.

 

Eu estava embasbacado.

 

- Mas por que diabos ela saiu de moda pra fazer engenharia? - falei, curioso.
- Rumiko é doutora em Bioquímica e bacharel de Artes Visuais. Seiko Hata, a avó da Makino, era mestre em Direito e pós-graduada em Teatro. Vai entender essa família. - meu pai matou a conversa.

 

Mas, mas...

 

- ... Como que ela concilia tudo isso? - falei, abismado.
- Pergunta para ela, ué. - meu pai e as meninas falaram em uníssono.

 

Olhei feio: não era essa a resposta que eu queria. E muito menos quero ir conversar com ela.

 

- Eu não consigo entender, não faz sentido...

 

Jun colocou um papelzinho no bolso da minha calça.

 

- Melhor esclarecer com ela. - Jun entrou no elevador. - Por hoje é só, falo contigo se tiver alguma novidade.

 

A porta do elevador fechou. Coloquei a mão no bolso e puxei o papel. Nela, se revelou ser o número de Ruki. Quando eu e meu pai saímos do prédio ele disse que ia ver um amigo dele, e logo me vi sozinho. Eu estava perturbado demais para aceitar aquilo tudo, simplesmente não faz sentido – o que aconteceu com aquela menina? Que tipo de contrato ela assinou para ser bonita desse jeito e ainda por cima inteligente?

Quando dei por mim eu já tinha discado o número no papel, eu precisava saber.

- Alô?
- Ah! ru-Ruki...
- Como foi que você conseguiu meu número, seu maníaco? - Ela falou, assustada.
- Jun que me deu. E pare de me chamar de maníaco, sua perdedora! - retruquei
- Ah, você pegou meu número só para me encher o saco, é? Que original.
- Não, não foi para te torrar a paciência. Foi para outra coisa.
- Então seja prático e diga logo.
- Chizuru falou que você ia pra Toudai entregar um trabalho e a conversa acabou chegando ao ponto de eu descobrir que você está fazendo a sua segunda faculdade. Como que você consegue?

 

Ela ficou calada por uns segundos.

 

- Gerenciamento de tempo eficiente. Por quê?
- Porque eu acho isso incrível. - Fui honesto.
- Deve achar mesmo, já que perdeu um ano de bobeira... - ela falou em tom sarcástico.

 

Mas ela não perde uma...

 

- Não me provoca, Ruki...
- E você pode fazer algo sem ter nenhuma pessoa para emprestar um digimon ou poderes?
- Pare com isso, Rukinha...
- Não me chama de “Rukinha” que você não é ninguém. – ela disse, séria.
- Que jeito de tratar seu amigo de infância, Rukinha, tão carinhosa. E olha que não conversamos há anos!
- E a culpa é de quem, mesmo, Sorriso Colgate? ***
- Sua?
- Até parece.
- Mas você está com peninha que passou anos sem conversar comigo? – debochei
- Eu fecharia um contrato com o capeta para não te ver de novo, sabia! – ela bradou.

 

Bem, pensei, “se a sua beleza não for um contrato por si só, não sei o que é”.
Enquanto eu estava pensando em uma resposta, ouvi o barulho do freio de mão de um carro.

 

- Hm... Cadê... – ouvi o barulho de algumas coisas sendo mexidas, como se ela estivesse procurando algo.
- Aconteceu algo?
- não... cara, cadê meu ID? – e mais barulho de algo sendo revirado até que parou. – Achei!
- Estava dirigindo?
- Sim.
- Isso é ilegal, sabia?
- Existe um sistema chamado Atendimento de Ligação no sistema de som do carro que me permite atender o telefone com o apertar de um botão no volante... Nada que tenha no barranco que você chama de Cidade.

Suspirei. Dá um tempo, Ruki…

- E aquele papo todo de "odiar pessoa que não sabe separar vida pessoal da profissional" hein? Enfiou onde?
- Nem eu nem você estamos na Donna, então eu posso te criticar à vontade.
- Fala como se eu fosse aguentar calado, né? - rebati.
- Piadas à parte, obrigada, viu?
- Pelo quê?
- Se preocupar em saber em como sou tão foda em cursar uma segunda faculdade.
- Eu te chamaria de louca. Mas de nada.

Eu sorri, ela me agradeceu – temos progresso, pelo visto, ela parece ser mais razoável do que imaginei. 

- Eu vou desligar, viu? Vou entrar no prédio, espero que a Prof. Minamoto esteja aí ainda. Não sei se ela vai deixar eu entregar meu trabalho adiantado.
- Como assim, adiantado?
- Eu pedi pra... Ora ora, você está querendo saber demais da minha vida, não? – Ela ironizou.
- Foi por isso que eu liguei, sua idiota.
- Eu diria 'que fofura' se não fosse um troglodita caipira quem nem você é.

 

Eu ri. Como pode ser tão linda, mas tirar tanto do sério?

 

- Ok, preciso ir, até! – e desligou.

Quando deixei o bip do fim da ligação ecoar em minha orelha por um momento, admiti uma verdade que eu não queria que saísse de meus olhos tão cedo: eu não gostava que eu estava vendo esperança nessa conversa. Ninguém em sua sã consciência veria algo numa situação dessa, onde ela claramente não quer nada comigo. Mas... de alguma forma... eu não estava realmente irritado com isso. Era quase como as coisas eram no passado, onde ela me deu exatas duas palavras me elogiando. A diferença era que, dessa vez, era fair game porque a diferença de idade não era... tão...

 

Por que eu estou pensando nisso?

 

Bônus: primer de desprezo, resistente ao suor.

Antes da primeira reunião de pauta, Eiichi achou interessante apresentar o seu filho aos colegas na Donna. Alguns de seus colegas sabiam, pela boca do povo, de que o fotógrafo tinha um filho e era viúvo, mas ele não era muito de mostrar as fotos da família já que ele era uma pessoa amigável que adorava brincar, mas era reservado. Ele tinha segundas intenções – como que o pessoal reagiria ao filho dele? No fundo, ele queria tirar um pouco do sossego dos colegas.

Ele sabia que uma da tarde os produtores da agência estariam na sala de edição, junto com o pessoal de social media e uns outros de maquiagem – a sala mais cheia do prédio durante a semana. Perfeito.

 

Ele bateu na porta e colocou a cabeça para dentro da sala.

 

- Licença...
- Ah, Akiyama-san! – parte do time de social media, Mimi Horie, acenou da mesa dela com um sorriso, já que ela estava mais perto da porta e o ouviu bater. – Boa tarde! Como vai?
- Tô bem, tô bem e você? Posso entrar?
- Pode, claro!

 

O homem entrou, mas mantendo a porta fechada o máximo possível. Isso era sinal de que ele estava aprontando algo. Nesse momento outras pessoas levantaram o olhar e perceberam o fotógrafo entrando e notaram em como ele queria manter algo uma surpresa.

 

- Boa tarde pessoal, como vão todos?

 

Uma onda de olás se seguiu quando todos pararam de digitar e olharam para ele, e uma outra pessoa baixou o volume do rádio, tocando afro jazz sem letra.

 

- Eu queria apresentar uma pessoa que vai trabalhar com a gente com a campanha da Shiseido, espero que não se importem! – ele anunciou para a sala.
- Eba, mais um modelo! – uma produtora do cabelo loiro platinado, Ayumi Mochizuki, celebrou.

 

Eiichi sorriu e abriu a porta. “Eu sinto muito, pessoal” ele pensou, sorrindo para si, antecipando a reação da sala e do crime que estava para cometer.

O que os produtores estavam esperando era, talvez, mais um carinha com rostinho bonitinho que poderia ser mais um host de Ginza que estava tudo bem e era mais uma quinta-feira, mas o que entrou na sala foi um homem ridiculamente alto e de terno azul intensamente escuro, quase preto. Ryou odiava gravatas e preferiu ir sem uma, mas ainda assim o visual estava profissional o suficiente... pelo menos na cabeça dele.

A visão coletiva da sala foi: uma estátua que poderia ser grega ou romana ou esculpida por Amaterasu, de 1.91m, que não tinha medo de mostrar que ele ia regularmente à academia para manter aquele corpo esbelto; mesmo com um terno que foi feito especialmente para ele, ele usava a linha entre o vulgar e o elegante como uma amarelinha e se mudar a fonte de luz as sombras te davam tudo o que sua mente perversa queira ver. A decisão de não usar gravata foi perdoada porque o primeiro botão da camisa estava aberto – provavelmente perdeu a batalha contra o peitoral dele – e havia uma corrente de prata fina adornando o pescoço dele que você só poderia ver em certos ângulos. E como você fala de pescoço sem se perder na pele perfeitamente bronzeada do indivíduo? Algumas pessoas da sala eram adeptas ao bronzeado e sabiam que a cor era natural de quem vivia do lado de fora, se aventurando em água ou floresta, mas não havia uma ruga sequer nele e isso inspirou as maquiadoras ali.

Mas o que importava mesmo era o rosto, e ali foi a perdição de todos: o cabelo castanho tinha algumas mechas mais claras, que pareciam que foram clareadas pelo sol mas que estava perfeitamente ondulado e no lugar, exceto por alguns fios rebeldes que lhe caiam no rosto. O que para muitos era um defeito, para ele era mais um detalhe: ele tinha leve sardas no rosto, algumas no nariz, o que mostrava que não havia nenhum pingo de maquiagem sequer naquela pele límpida. Ele tinha o rosto considerado perfeitamente masculino, com a mandíbula não tão agressivamente marcada, mas inegavelmente elegante e atraente; e o nariz que era perfeitamente proporcional ao rosto. Mas a verdadeira joia da coroa eram seus olhos: um intenso, mas gentil azul, que poderiam ser safiras ou lápis lazúli, mas eram preciosos e guardados com os longos cílios que esse homem tinha.

Aos que estavam perto da porta, conseguiram sentir uma coisa inerentemente diferente de todos os modelos japoneses que já passaram por ali: ele era adepto de usar perfume, e o que ele escolheu foi justamente o perfume de qualquer cafajeste, de acordo com o público feminino americano – Dior Sauvage. Não era forte, mas se você estava perto o suficiente para sentir então você estava muito perto do colo do próprio satanás e estava prestes a se atirar nos braços deste homem.

A sala inteira estava em silêncio, admirando o homem que acabara de entrar. Quanto mais você olhava, mais detalhe aparecia para contribuir para a beleza surreal desse ser divino. Buddha tinha seus favoritos, e eis um deles bem aqui na nossa frente.

 

- Este é Ryou Akiyama, meu filho. – Eiichi disse, quebrando o silêncio da sala.

 

O coro de “não fode” foi unânime e uníssono – como assim que ESSE era o filho de Eiichi Akiyama? O próprio filho era muito mais alto que o pai, tampouco Eiichi tinha olhos azuis apesar de que eles conseguiam ver a semelhança do nariz de Eiichi e Ryou mas a conta não estava batendo. Nas raras vezes que Eiichi falou do filho, eles imaginavam um adolescente de 14, talvez 15 anos, mas o homem que estava parado ali estava claramente nos seus vinte e tantos anos.

Ryou pigarreou. “Ah, lá vem”, Eiichi pensou. “Não vai sobrar um”.

 

- Muito prazer em conhecer vocês! Espero que possamos trabalhar bem juntos nessa campanha, conto com a sua ajuda! – ele se curvou, e quando se endireitou ele sorriu.

 

A voz mais grave e amanteigada, mas que havia um ar milimetricamente balanceado de malícia e inocência e só um pensamento impuro já destruiria tudo como se fosse um castelo de cartas, coisa que só um bom dublador conseguiria com anos de treino. Mas o sorriso... o sorriso deste homem era como uma brisa de verão refrescante, cativante e inigualável; o golpe de piedade perfeito. Uns soltaram um suspiro, outros tentavam controlar a respiração. Seiya Watanabe, de 23 anos e parte do time de produção se reajustou na cadeira, cruzando as pernas e ajeitando a camiseta, tentando cobrir o que quer que fosse que ele estava tentando esconder. Mari Toyota, de 35 anos, sentiu o corpo esquentar de uma maneira que não estava acostumada, e começou a usar a paleta de sombras como um abanador.

Ryou já estava familiarizado com a situação, era comum ser observado tão meticulosamente por outros quando estava se apresentando. Ele sempre foi popular e arrancava olhares e suspiros de qualquer um que cruzasse seu caminho – homem ou mulher, não importa. Mas o que ele mais detestava nisso era o fato de que eles não viam sua personalidade porque estavam ocupados demais vislumbrando a sua beleza. Mas até mesmo ele precisou admitir que as vinte e poucas pessoas naquela sala, consumindo-o com os olhos, foi sinistro.

 

- Bem-vindo ao time! – Naoki Wakayama de 29 anos, chefe do Social Media, falou, o primeiro a sair do transe. – Mal posso esperar para promover seu trabalho!

 

Isso fez Ryou sorrir ainda mais, o que encantou mais a sala.

Eiichi estava satisfeito com seu plano, foi exatamente como ele planejou. Ninguém percebeu que ele escaneou a sala e, ao encontrar seu alvo, deu uma piscadela como se sinalizasse a quem fosse cúmplice do plano que tudo foi bem. Sua cúmplice era Rumiko Makino, Chefe-Executiva de staff da Donna. Ela estava na sua sala, ao fundo, espiando detrás do vidro fosco que separava a sala do salão, vibrando silenciosamente com o que seu amigo de longa data havia feito. O cabelo loiro-escuro entregava gentilmente sua posição pela parede de vidro fosco, mas ninguém ali da sala além de Eiichi haviam percebido a presença dela – havia coisa mais importante que merecia a atenção coletiva.

Chizuru bateu na porta e entrou. Ela se assustou com a sala em transe, mas entendeu rapidamente que era por causa da nova aquisição da Donna. Ela bateu de leve no ombro de Eiichi e anunciou que o representante da Shiseido estava prestes a chegar.

 

- Opa, hora de ir. Obrigado, pessoal, desculpa atrapalhar a tarde de vocês! - Ele anunciou, alto, e continuou mais baixinho – Anda, Ryou.

 

Ryou se curvou e acenou para todos, e saiu da sala. A saída dele foi antecipada por todos porque assim o público pôde ver a parte traseira da estátua ambulante, e isso agradou todos ali dentro.  Eles esperaram exatos trinta segundos depois que a porta se fechou antes de alguém mandar Horie abrir a porta e se certificar de que a dupla não estava do lado de fora. Como se fosse mágica, as vozes das conversas começaram a aumentar. Muitos questionamentos, muitas dúvidas: como que um homem desse não foi agenciado antes? Há quanto tempo Eiichi escondia o filho assim? Você viu o tamanho das coxas dele? Que marca é aquele terno? Não, precisamos arrumar um contrato de verão seminu para ele, e agora, imagina as fotos? Alguém da maquiagem falou alto o suficiente “mas nem guindaste me tiraria de cima desse homem!”

 

- Naoki-kun, eu tenho muita pena de você. – Seu companheiro de mesa, Yuuta Morita, soltou.

 

Naoki baixou a cabeça, incrédulo, e riu de desespero. Ele rezava internamente que esse homem feito à mão também não fosse solteiro e bissexual, porque ele já tinha escândalo demais para apaziguar. Naoki percebeu que com ele não havia barreiras, ele arrastava olhares de ambos os lados (ele viu o que Watanabe fez e escutou o comentário de Toyota da maquiagem) e isso é perigoso. No mais, ele conseguia escutar os risinhos de Rumiko, já que a porta da sala dela era vizinha da mesa dele e estava aberta, e sabia que o que aconteceu aqui foi um pedido dela ao fotógrafo, “para animar o pessoal” provavelmente foi o argumento.


*= Otona Sweet é uma revista famosíssima voltada para mulheres entre 25-35 anos.

**= a cidade mais ao norte da ilha de Hokkaido.

***= o apelido que a Ruki deu ao Ryou, canonicamente, é “Sawayaka Kousen” ou ‘Brisa Refrescante’. Eu adaptei para “Sorriso Colgate” porque ela fala isso se referindo ao sorriso do Ryou.

 

A Donna é uma agência de modelos real, aliás.