Work Text:
As rosas descem rasgando pela garganta de Chifuyu, o macio das pétalas abre caminho para a ardência dos espinhos, quando uma flor desce totalmente rumo a privada, outra a acompanha logo atrás. Depois de três, Chifuyu tem certeza de que vai desmaiar ali mesmo, rodeado pelo cheiro enjoativo de flores e sangue.
No limite, com os membros bambos, a visão turva e prestes a se deixar apagar, apenas para não ter que sentir mais o gosto amargo na ponta da língua, Chifuyu ouve três batidas soarem na porta do banheiro.
— Chifuyu, tá tudo bem aí dentro? — a voz preocupada de Kazutora chega aos ouvidos dele.
Uma onda atravessa Chifuyu, ele não pode deixar Kazutora ver nada disso.
Tirando forças do desespero, ele enfia os dedos na boca, tentando alcançar as últimas pétalas despontando pela garganta, puxa com tudo a última rosa de lá. Os espinhos rasgando conforme saem com violência.
A rosa ensanguentada vai parar junto com as outras na privada.
— Tudo bem… eu acho que comi alguma coisa estragada ontem a noite — responde Chifuyu. Em um fio de voz rouca, forçada ao máximo para chegar do outro lado da porta.
— Você precisa de alguma coisa? Eu peço pro Baji ir na farmácia rapidinho — oferece Kazutora.
— Não precisa, eu já, já vou estar melhor — mente Chifuyu.
Ele dá descarga e vai ao lavatório limpar o rosto e as mãos, sangue escorre pela boca dele.
Essa é a parte chata, ele tem de limpar tudo, ter certeza de que não sobrou nenhum vestígio da sua crise. Infelizmente, jogar as rosas fora e lavar o sangue não é o suficiente; ele precisa controlar a tremedeira no corpo, fingir que os calafrios não estão dando choque em suas terminações nervosas, e disfarçar o cheiro nauseantes saindo da boca dele, por isso ele aprendeu a levar essência de café sempre com ele.
Café toma o cheiro de qualquer outra coisa, até mesmo sangue.
Kazutora ainda está na porta quando Chifuyu a abre.
— Meu deus, você parece péssimo.
— Obrigada pela parte que me toca — responde Chifuyu, tentando ser sarcástico, mas não lhe resta energias para isso. Falar doi, se mexer doi, manter os olhos abertos doi…
— Chifuyu.
A voz rígida a qual Kazutora quase nunca usa surpreende ele. Ao levantar o olhar, Chifuyu pesca a expressão séria de Kazutora o encarando com aqueles olhos de tigre, grandes, afiados e predatórios.
— O que tá acontecendo com você? E não vem me dizer que "nada" porque você tá parecendo uma folha de papel de tão magro e branco.
Chifuyu não consegue responder, não só porque a garganta dele dói como o inferno, mas por que ele realmente não tem uma resposta para aquilo; ele não pode simplesmente dizer: "desculpa, é que eu sou perdidamente apaixonado pelo seu marido, e acabei ficando doente por causa disso, esqueci de avisar". Chifuyu é um idiota. Deveria ter pensado em uma desculpa para quando um momento como esse chegasse, ter escondido Hanahaki por dois anos foi um feito e tanto, mas era óbvio que um momento como esses iria chegar mais cedo ou mais tarde.
Baji pode ser fácil de enganar, Kazutora não, ele é muito mais atento sobre essas coisas.
— Escuta, eu sei que você pode pensar que eu e o Baji somos idiotas — diante do silêncio de Chifuyu, Kazutora não viu outra alternativa a não ser continuar a falar. — Mas a gente sabe o quanto cuidar da parte administrativa do Pet Shop pode ser estressante. Principalmente nessas épocas que o movimento tá baixo. Você pode pedir nossa ajuda, ok? A gente tá aqui pro que você precisar.
Lágrimas se acumulam atrás dos olhos de Chifuyu, acompanhado por um leve tremular de lábios. Felizmente, ele tinha se tornado muito bom em esconder emoções e as engole tão rápido quanto surgem.
— Você tem razão… — Chifuyu dá o melhor sorriso ao seu alcance. — Eu ando muito estressado, vou tirar o resto do dia de folga, tudo bem?
— Claro! Não se preocupa com nada, eu e o Baji vamos cuidar de tudo.
[•••]
Chifuyu liga para Takemichi.
Ele já tinha adiado a morte por mais tempo do que achou ser possível, e agora ela está batendo na porta; sem muito o que fazer, só lhe resta saber quanto tempo de vida ele ainda tem. Para isso, ele precisa de um acompanhante para ir ao hospital, alguém confiável para apoia-lo.
— Dez ou doze dias em casa se você tiver sorte, vinte dias se você concordar em se internar no hospital e ser entubado. Por experiência, eu não recomendo se internar. É mais confortável passar esse tempo em casa, com seus entes queridos — Explica o médico.
— A cirurgia ainda é uma opção? — pergunta Takemichi, sentado ao lado de Chifuyu.
Hanahaki ou doença do amor, como é conhecida, começa nos pulmões e cresce até chegar ao coração. A pessoa afetada por um amor não correspondido começa a tossir pétalas da flor favorita do alvo de afeto, daí em diante as flores vão crescendo até fincarem sua raiz no coração. Ninguém sabe sua origem e só há dois remédios conhecidos: esse amor ser correspondido ou uma cirurgia que remove as raízes dos pulmões. Por algum motivo ainda não explicado, retirar as raízes também leva junto todas as memórias relacionadas à pessoa amada. É uma calamidade tão rara — e estranha — que a maior das pessoas acha ser uma história para dormir, algumas sequer sabem da existência dela.
Chifuyu também era cético sobre a existência da doença, até tossir duas pétalas de rosas cor-de-rosa, um dia depois de descobrir que essas eram as favoritas de Baji.
— Sim, até o último momento, na verdade — responde o médico. — Sempre e quando o Sr. Matsuno estiver disposto a fazer isso.
— Eu não vou fazer cirurgia nenhuma — responde ele, irredutível.
— Mas, Chifuyu, você vai morrer! — Lágrimas se juntam nos olhos de Takemichi, ele parece a um fio de perder a cordura.
O médico suspira.
— Se me permite perguntar, Sr. Matsuno, essa pessoa, por quem você é apaixonado, o pivô do seu Hanahaki, é alguém presente na sua vida?
— Sim…— responde Chifuyu, incomodado com a pergunta.
— É alguém que te guarda algum apreço? Mesmo que não seja romântico? — o médico continua questionando.
— Sim. — Chifuyu não precisa pensar sobre isso. É óbvio que Baji o ama, mesmo não sendo da forma que ele queria e precisava.
— Então, o senhor não acha que essa pessoa iria preferir te ver vivo, mesmo não se lembrando dela, do que sacrificando a vida dessa forma?
Chifuyu tosse, apenas algumas pétalas saem. No consultório sempre tem um lixinho ao lado da cadeira do paciente, dessa vez, quando ele olha rapidamente para jogar as pétalas fora, ele pode ver o fundo do lixo forrado de violetas. Provavelmente, foi o paciente anterior que as vomitou lá.
O médico de aparência exasperada é um especialista em Hanahaki, foi ele quem ajudou Chifuyu a viver tanto tempo com essa doença que costuma matar em semanas. Era um tratamento novo e experimental, e por ser uma doença tão difícil de ocorrer, poucos profissionais tinham interesse em pesquisar sobre o assunto. Chifuyu teve sorte de achar esse pesquisador precisando de voluntários em Tokyo. Provavelmente no futuro, será possível viver muito mais com o Hanahaki, ou até mesmo curar a doença com outros métodos além da cirurgia. Porém, por enquanto, esse médico continua vendo todo dia pessoas como ele tomarem decisões idiotas em nome de um amor estupido.
— Eu sei que sim. Mas não é isso que eu quero.
É egoísta, ele sabe. Preferir morrer a esquecer Baji. Chifuyu diz a si mesmo que se doou tanto a Baji, Takemichi e os outros amigos durante a vida inteira, que agora ele tem o direito de ser egoísta.
O médico lança um olhar de piedade a Takemichi — que a essa altura já chora como um bebê — transmitido um "eu tentei".
[•••]
Entrar no petshop traz sempre uma sensação satisfatória. Desde a fachada que Chifuyu escolheu com os animaizinhos na vitrine, até os sacos de ração empilhados no depósito atrás da loja, o lembram de ter construído tudo isso com amigos que ama do fundo do coração. Não tem como olhar para aquele cenário da vida dele e não se sentir feliz. É a última vez que ele faz isso, então ele se deu um tempo para parar e observar.
Ele fica uns bons vinte minutos parado lá fora antes de ser abordado por Baji.
— Chifuyu! Eu não achei que você vinha hoje.
E Keisuke sorri para Chifuyu. Com aquele sorriso que só ele tem. Aquele sorriso que derrotava qualquer tentativa de Chifuyu de não amar Baji.
Às vezes Chifuyu brinca consigo mesmo de que se Baji fosse um pouquinho mais feio, só um pouco, ele poderia considerar esquecer todos os sorrisos que já recebeu dele.
— Eu vim ver se vocês não queimaram a minha loja no dia em que eu não vim — provoca Chifuyu. Ele se vira para Keisuke e dá um sorriso amarelo.
— Hey! Tenha mais fé na gente — responde Keisuke, muito ofendido.
“Mas eu tenho.”
Eles saem da entrada da loja, e Chifuyu se apoia no balcão enquanto continuam a conversar:
— É bom ver vocês cuidando tão bem da loja. Eu avisar que vou passar uns dias afastado — explica Chifuyu. Ele para do lado do balcão enquanto Baji volta a olhar alguns papeis. Por sorte, a loja está vazia nesse horário.
— O que? Por que? — Baji desvia o olhar dos papeis e encara Chifuyu, incrédulo.
— Ordens médicas. São só umas férias curtas, uns dez dias — Chifuyu mente. — Enquanto isso eu espero que vocês cuidem bem daqui.
— O Tora me disse que você tava mal, mas eu não imaginei que fosse tanto assim… — Keisuke parece preocupado. Ele lança um olhar analisador por Chifuyu. — Você emagreceu mesmo…
— É… aliás, cadê o Kazutora? Eu queria ver ele antes de ir — Chifuyu tenta desviar do assunto, evitar mais perguntas como “o que o médico disse”, “isso é só estresse mesmo?”.
Por sorte, Keisuke se distrai fácil.
— Ele acabou de sair pra fazer umas entregas. Quer um café, a gente toma e espera ele voltar?
— Não, eu passei rapidinho só para avisar mesmo. — Ele não pode arriscar ter outra crise na frente de Keisuke.
Os dedos de Chifuyu coçam, é a última vez que ele iria ver o amor da vida dele. Tem tantas palavras presas em sua garganta , mas ele não pode dizer nenhuma. Chifuyu não quer que isso pareça uma despedida. Ele esconderia o Hanahaki até estar morto, e se tivesse sorte, Takemichi poderia inventar uma desculpa para depois disso. Sem pensar muito, ele dá um passo à frente e abraça Keisuke.
É o último momento deles, Chifuyu pode se aproveitar um pouco, ele tem esse direito. Os braços dele estão tão apertados ao redor de Keisuke que se fosse alguém menor teria quebrado.
— Chifuyu? Tá tudo bem? Você tá me esmagando. — Apesar da reclamação, Keisuke passa os braços em volta dele de forma gentil e carinhosa.
— Sim, é só que… — essa é a última vez que eu te abraço. — … o Kazutora me disse que se eu precisasse de um tempo vocês cuidariam de tudo aqui. Eu só fiquei um pouco emocionado.
— Hey, cara, esse lugar também é nosso, sabe? Confia na gente. Qualquer barra que você precisar segurar, a gente tá aqui pra segurar junto.
Chifuyu não esperava nenhuma resposta diferente dele. Deslizando as mãos dos braços aos ombros de Keisuke, Chifuyu se afasta para dar uma boa olhada no rosto dele, pela última vez.
— Falando confiante assim você até parece um homem crescido — brinca Chifuyu.
— Eu sou um homem crescido! — protesta Baji, ele entra na brincadeira e seus olhos estão fechados com um sorriso enorme no rosto.
Chifuyu ri. Ele sente uma coceira no pé da garganta.
Ah! Os momentos bons acabam rápido, e esse era seu lembrete de que essa deveria ser uma despedida curta.
— É hora de ir. Diz pro Kazutora que eu quero ver ele de novo — Chifuyu foi um pouco cruel consigo mesmo ao dizer isso, porque realmente quer ver o Kazutora de novo.
— Mas já? Porque você não fica e espera um pouco, ele já já chega.
— Sinto muito, mas não dá, eu preciso ir. — A coceira aumenta mais e mais, ele vai vomitar uma rosa a qualquer momento.
Angustiado, Chifuyu se aproxima de novo e deixa um beijo demorado na bochecha de Baji antes de ir embora, sem dar oportunidades para mais perguntas ou insistências.
[•••]
Takemichi é a pessoa da qual Chifuyu mais gosta, e a mais dolorosa de deixar.
Kazutora é um doce. Depois de toda a estranheza entre os dois passar eles se tornaram grandes amigos, e se Chifuyu iria levar algum arrependimento, é de não ter se despedido dele. Ainda assim, é sempre difícil olhar para ele sabendo que ele é tudo o que Chifuyu quis ser.
E Baji… Estar com Baji é um inferno e um paraíso. É o lugar favorito de Chifuyu, mas toda a aproximação o faz se rasgar por dentro. E quando está entre os dois… bom, ele se sente uma formiguinha.
Em contrapartida, estar com Takemichi é fácil, não existe nenhum sentimento mal resolvido envolvendo eles. Apenas dois amigos com uma confiança inabalável. Chifuyu sabe que foi esse tipo de relação que o manteve vivo por tanto tempo, e é imensamente grato por isso. Quando um amor é lindo se torna doloroso, uma amizade simples pode se tornar um lar.
— Se você continuar vindo aqui assim, vai acabar sendo demitido — aponta Chifuyu.
Takemichi veio visitá-lo por três dias seguidos, ele chega pela manhã e só parte a noite.
— Eu pedi férias. E mesmo que eu fosse demitido, eu iria bater na porta do Baji e do Kazutora, pedindo emprego, e eles iam ter que me contratar já que isso é tudo culpa deles.
— Não diz isso Take… não é culpa deles… não é culpa de ninguém.
— Se você diz, Chifuyu…
Esses dias são preguiçosos, eles jogam, comem, leem mangás e contam piadas. Chifuyu fica o tempo todo com uma bacia ao lado dele, às vezes, quando começa uma crise de tosse, demora horas até tudo sair, e ele não quer passar os últimos momentos trancado no banheiro abraçado com a privada. Takemichi só pode assistir e confortá-lo enquanto o corpo dele se deteriora.
No quinto dia, com a cabeça deitada no colo de Takemichi, depois de quase vomitar as tripas juntos com as pétalas, eles tem o seguinte diálogo:
— Desculpa, eu não vou poder ser padrinho do seu bebê — começa Chifuyu.
— Tudo bem, o Mikey vai ficar muito feliz em tomar seu lugar — responde Takemichi forçando um sorriso.
— De quantos meses a Hina tá? — pergunta Chifuyu.
A garganta dele doi, e o gosto de sangue toma sua boca, mas ele quer conversar. Chifuyu não sabe quantas vezes mais iria poder conversar com Takemichi.
— Vinte e quatro semanas, segundo ela.
— Por que semanas, não meses?
— Não sei, os médicos tem uns termos estranhos — responde Takemichi, o rosto dele se contrai em uma expressão estranha de desgosto.
Não é segredo para ninguém que Takemichi anda perdido, sem saber o que fazer desde a descoberta do bebê. Chifuyu tem sido o ombro amigo dele durante todo esse tempo.
— Qual vai ser o nome dele? — continua perguntando Chifuyu. Depois do próprio casal e dos avós da criança, ele foi a pessoa mais animada com o anúncio da gravidez.
— Eu não sei ainda, todo dia a Hina muda de ideia. — Takemichi suspira. — Provavelmente a gente só vai decidir quando nascer.
— Ah, eu queria tá lá quando ele nascesse.
Takemichi fica em silêncio, com as palavras na ponta da língua. Ele não diz nada, mas Chifuyu sente no ar os pensamentos dele.
— Se eu fizesse a cirurgia eu poderia estar lá — Chifuyu coloca para fora as palavras que Takemichi se esforçou tanto para engolir. — Me desculpa.
— Você disse que não é culpa de ninguém, então você não tem o direito de continuar pedindo desculpas. — As palavras soam um pouco duras, mas Chifuyu consegue sentir Takemichi segurando as lágrimas, ele faz isso todo dia. Chifuyu se pergunta se é possível Takemichi morrer de desidratação antes do Hanahaki encontrar seu coração.
Um silêncio desconfortável cai sobre os dois.
— Eu sei que você me acha estúpido por não fazer a cirurgia, mas eu tenho um bom motivo pra não ter feito. É que, mesmo que eu esquecesse tudo sobre o Baji, no momento em que eu olhasse para ele de novo, eu iria me apaixonar. E no final, eu só ia ter que viver toda essa dor de novo.
Era incomum, porém às vezes a cirurgia de retirada de memórias não dava certo, o que acarretava na reincidência do Hanahaki, só que muito pior e mais doloroso, as poucas pessoas que passaram por isso relataram ser uma dor que não desejavam para ninguém.
No oitavo dia, Chifuyu para de falar. Takemichi avisa Hina que não vai mais voltar para casa por alguns dias, e passa a ficar vinte e quatro horas com Chifuyu.
No nono dia ele não consegue mais comer, apenas ingere líquidos.
E na madrugada do décimo segundo dia, Takemichi acorda com um som gutural, perturbador aos ouvidos dele. A cama de Chifuyu está cheia de sangue, pétalas se espalham por todos os lados. Chifuyu está lá, em meio a todo o caos, os olhos esbugalhados, inerte. E brotando de sua boca uma rosa cor-de-rosa perfeita pode ser vista. Ele já não respira mais.
