Chapter Text
— Por hoje é só. — O professor Park ajeitou os óculos e, ao conferir o relógio em seu pulso esquerdo, notou que já passavam das seis da tarde. — Não se esqueçam de enviar seus relatórios para o meu e-mail. Preciso de todos antes da próxima nota, ou vocês ficarão sem os pontos da prova final.
Os alunos assentiram em uníssono enquanto guardavam seus materiais; ainda tinham outra aula antes de serem dispensados. Após as aulas, era comum algumas alunas se aproximarem da mesa de Chanyeol com dúvidas que ele sabia serem apenas pretexto para flertes. Desviava desses avanços com uma determinação quase desesperada, como o diabo fugindo da cruz.
Professor de psicologia forense na Faculdade Nacional de Seul, Park Chanyeol era um dos docentes mais jovens da universidade, com trinta e cinco anos, mesma idade de seus amigos Doh Kyungsoo, que lecionava Direito Penal, e Oh Sehun, professor de Direito Civil. Eram companheiros de longa data, tanto no trabalho quanto fora dele.
Além de jovem, Chanyeol era também considerado um dos professores mais atraentes, o que muitas vezes surpreendia os alunos, acostumados com professores mais velhos e carrancudos. Naturalmente, sua presença chamava atenção, especialmente entre os estudantes do curso onde dava aula. Entretanto, nunca deixava se levar pelos elogios que recebia, estava ali apenas para dar aula, nada mais além daquilo.
Quando as últimas alunas se despediram, Chanyeol voltou o olhar para a porta, onde Kyungsoo o encarava com um sorriso sugestivo, segurando três ingressos dourados como se fossem maços de dinheiro. Chanyeol reconheceu imediatamente aqueles bilhetes e arqueou as sobrancelhas, numa pergunta muda.
— Nem comece a me questionar. — Kyungsoo abriu um sorriso mais largo enquanto deixava a porta e caminhava até a mesa de Chanyeol. — Consegui esses três ingressos a um preço excelente: um pra mim, um pro Sehun e outro pra você.
— De novo, Kyungsoo? — Chanyeol suspirou, desviando o olhar para o celular que segurava.
— "De novo" nada, Chanyeol. — Kyungsoo colocou as mãos na cintura, indignado com mais uma recusa do amigo. — Já falei que o Moulin Rouge é incrível! Até o Sehun aceitou ir. Você sabe a humilhação que eu passei para conseguir esses ingressos por um preço melhor? — Chanyeol revirou os olhos, mas Kyungsoo insistiu. — Só desta vez, vai! Se você não gostar, prometo que nunca mais te incomodo com isso.
O Moulin Rouge era um teatro burlesco sofisticado, bem no centro de Gangnam. Chanyeol nunca entendeu como Kyungsoo tinha descoberto o lugar, mas sabia que todo fim de semana ele estava lá, especialmente para ver as performances de seu dançarino favorito, Kim Jongin, um dos principais nomes do boylesque. Embora desconhecesse muitos detalhes sobre essa obsessão, Chanyeol sabia o básico, pois sua mente quase desligava cada vez que Kyungsoo começava a falar desse teatro luxuoso.
— E o que eu ganho com isso? — Chanyeol perguntou, vendo o sorriso sugestivo surgir nos lábios do professor Doh, o que lhe causou um ligeiro desconforto.
— Homens bonitos dançando. Só tente não olhar pro Jongin, ele é meu! — Kyungsoo apontou o dedo em direção ao rosto do amigo, que arqueou as sobrancelhas. — Vamos lá! Deixe de ser ranzinza! Juro que você vai gostar. Não é nada do que você está imaginando. São apenas artistas se apresentando e um monte de gente endinheirada na plateia.
Chanyeol suspirou fundo e finalmente assentiu com a cabeça, dando-se por vencido. Sabia que Kyungsoo não o deixaria em paz até que aceitasse aquele convite insistente. Seus planos para o fim de semana incluíam corrigir uma pilha de trabalhos dos alunos, passar mais tempo na academia e, talvez, finalmente terminar o livro que há meses adiava. E já sabia que seria obrigado a dormir tarde novamente, fazendo sua rotina ser colocada de lado outra vez.
— Mas o jantar é por sua conta — disse Chanyeol, levantando-se da cadeira e vendo Kyungsoo suspirar aliviado e comemorar como se tivesse ganhado na loteria.
[...]
Às sete horas da noite, em ponto marcado no relógio, Baekhyun chegou ao lugar que trabalhava como todos os dias de praxe da semana.
Com a mochila nas costas, passou pela entrada com o acesso permitido no salão principal, cumprimentando amigavelmente alguns funcionários conhecidos que já faziam a arrumação e organização do local para a eventual abertura. Em passos decorados de cor e salteado, caminhou até a passagem que dava ao corredor largo cheio de portas brancas, entrando na primeira que possuía três estrelas douradas com glitter grudadas na porta. Rapidamente foi acolhido pela atmosfera que aquela sala possuía sempre que entrava ali. O camarim.
Em uma mistura de tons quentes de vermelho e frios de preto, o ambiente era bastante espaçoso. O lugar estava cheio de móveis e objetos por onde quer que olhasse. Havia penteadeiras envernizadas com grandes espelhos retangulares, posta sobre esta, maquiagens, cabeças de manequins com chapéus, plumas para a cabeça, colares de pérolas e os mais variados tipos de itens de beleza. Ao redor, dispostos pela sala, cabideiros com inúmeras peças de roupas organizadas separadamente. Corsets, meias-calças, casacos com penas e pelos artificiais, luvas de renda, gravatas e robes de cetim. Uma verdadeira infinidade. Tudo isso somado à iluminação que era feita principalmente pelas pequenas luzes amareladas nos espelhos, davam um ar fascinante e envolvente ao camarim.
E não poderia ser diferente, pois afinal, se tratava de um camarim fora do convencional.
Sua presença foi notada por um dos indivíduos presentes no lugar assim que entrou no recinto. Jongin sorriu ao vê-lo pelo reflexo do espelho, sentado na cadeira de uma das penteadeiras.
— Chegou nossa estrela principal! — Jongin saudou. Estava sem roupa da cintura para cima, deixando à mostra a pele naturalmente amorenada que possuía. No rosto, traços de maquiagem nos olhos indicavam que o dançarino já estava se arrumando antes de chegar.
Revirou os olhos com a fala, sorrindo com o gracejo. — A aula acabou minutos mais cedo, consegui pegar o ônibus no horário certo hoje. — explicou, deixando a mochila que carregava no sofá de tamanho mediano no canto da parede, indo até ao banheiro que existia no local. Além de ser usado para necessidades fisiológicas, o cômodo servia também para tirar a roupa que chegava no corpo, já que aquela não seria utilizada de fato.
Quando voltou do banheiro, já trajava um robe de seda vermelho que ia até a altura dos joelhos. Tendo guardado suas peças de roupa na mochila, foi direto para uma das penteadeiras onde sentou confortavelmente na cadeira de material acolchoado. Com a pele já devidamente limpa e preparada, começou as etapas de processo da sua maquiagem.
— Como foi a aula hoje? — A voz de Jongin tornou a ser ouvida, puxando conversa, mas sem olhá-lo, concentrado em continuar a se preparar.
— Normal, tivemos um trabalho de encenação hoje. Já estamos quase finalizando o semestre. — Também encarava o espelho quando respondeu, terminando de hidratar a pele.
— Tenho uma novidade para contar — Jongin falou com uma voz animada, um sorrisinho pintando os lábios grossos.
— O quê? — Voltou os olhos para encarar o outro, subitamente curioso.
— Kyungsoo vem aqui hoje.
— E qual é a novidade nisso? — A expressão contrariada evidenciou o tom zombeteiro das suas palavras, uma vez que a presença do dito homem era uma das mais frequentes no local onde trabalhavam. Kyungsoo, um cliente que ia praticamente todos os finais de semana para ver Jongin, e até onde sabia, eles possuíam um tipo de relacionamento bem íntimo. Jongin dizia que não, mas era evidente o quanto gostava do outro.
— Me deixa terminar de contar. — Jongin revirou levemente os olhos pela provocação. — Kyungsoo convidou amigos para vir com ele.
— Hmm, clientes novos? — Se sentiu mais interessado com a informação. Adorava quando recebiam pessoas novas na casa. — Quem são?
— Colegas de trabalho do Kyungsoo. Ele está bem contente já que finalmente está conseguindo trazer um deles aqui.
— Finalmente? Como assim? — Baekhyun arqueou uma das sobrancelhas, contrariado. O pincel que levava ao rosto parando no ar, pressentindo o que Jongin iria dizer.
— Pelo o que o Soo já me falou, esse amigo dele sempre se manteve bem relutante em aceitar os convites que ele fazia, recusando todos. Aparentemente o cara não curte esse tipo de lugar em que trabalhamos, de dançarinos e tudo mais.
A simples fala foi o suficiente para fazer Baekhyun fechar a expressão como acontecia todas as vezes que escutava aquele tipo de coisa. Byun Baekhyun trabalhava no Moulin Rouge, um teatro burlesco no qual era realizado apresentações de danças e espetáculos teatrais. Como estudante do curso de artes cênicas, Baekhyun adorava tudo relacionado às expressões do corpo, quando criança sempre gostou de imitar o que via nos filmes, de interpretar ser uma pessoa diferente nas brincadeiras, mesmo pequeno já demonstrava o que queria ser, muito desenvolto nos gestos.
Entretanto, foi no burlesco que realmente conheceu o que amava, mais especificamente a dança. Toda a arte rica em elementos exóticos, os figurinos extravagantes, as coreografias e espetáculos que poderiam ser mais sensuais ou como usavam os corpos para encenar algo de teor cômico, porque diferente do que muitos pensavam, o burlesco não era uma espécie de striptease, apesar disso também ser uma parte que poderia acontecer nas performances. Burlesco era uma arte para impressionar a quem assistia, uma expressão artística tão única e bonita, é por isso que se revoltava com o tipo de pensamento que o amigo de Kyungsoo poderia ter. Como eram julgados sem ao menos terem conhecimento do que realmente faziam porque sempre associavam aquele lugar à prostituição, embora fosse apenas um teatro comum.
Quando descobriu que existia um tipo de teatro assim onde morava, ficou eufórico porque àquela altura do campeonato já sabia o que queria fazer. Conseguiu o emprego após passar pelos testes que eram realizados em uma espécie de fase eliminatória, a proprietária e responsável pelo lugar, apesar de alguém simpática, era bastante rígida quanto ao tipo de pessoa que escolhia para trabalhar no teatro. Felizmente, com bastante empenho e após passar dias estudando, ensaiando e aprendendo sobre a dança burlesca, conseguiu passar e era oficialmente um dos dançarinos do Moulin Rouge há cerca de um ano. Baekhyun amava o que fazia, de estar em cima dos palcos, dos figurinos, de tudo que aprendeu durante todo esse tempo.
— Conheço bem essa cara, é a cara que você sempre faz quando não gosta de alguma coisa. — Jongin apontou. Se conheciam o suficiente para saber quando uma expressão facial significava outra coisa.
Baekhyun e Jongin se conheceram nos testes de aprovação que Baekhyun fez. Kim Jongin era dançarino do Moulin Rouge um ano a mais que o Byun e foi um dos primeiros que o acolheu e procurou ajudá-lo com qualquer dificuldade que pudesse ter no ambiente novo. Jongin dançava como ninguém, era incrível o que ele fazia com o corpo, mas igualmente era uma pessoa simpática e de riso fácil. Não foi difícil para que virassem amigos do tipo confidentes que contam tudo ao outro. Sem dúvida, uma das melhores coisas que aquele emprego trouxe para si.
— Você sabe o que eu acho de pessoas com esse tipo de achismo.
— E é por isso mesmo que isso deveria te animar ainda mais para o show dessa noite, sabe. Se bem te conheço, você não é do tipo que deixa as coisas passarem batido. — Jogou no ar como quem não queria nada, escondendo as intenções por trás das próprias palavras. — Sério Baek, você tem que ver como o Kyungsoo fala desse amigo dele, de como esse homem é difícil de convencer a agradar. Não sei qual o milagre pra ele vir aqui hoje!
Aconteceu automaticamente. Ouvir Jongin falando daquele homem atiçou algo em Baekhyun sem ao menos se dar conta e de repente, agora, precisasse de alguma forma provar ao contrário, mesmo que não tivesse a obrigação de fazê-lo. Não era do tipo ego inflado, mas era orgulhoso o suficiente das suas habilidades e do trabalho que realizava, não deixaria um desconhecido sair dali sem ter a plena certeza disso.
— Eu também conheço esse sorriso. — Jongin observou enquanto via como a fisionomia no rosto de Baekhyun havia mudado. A expressão desgostosa dando lugar a uma um tanto divertida, foi então que soube, Baekhyun já tinha algo em mente.
— Jongin — Chamou, voltando a se maquiar e olhar para o espelho. Um sorriso pretensioso no canto dos lábios. — O show de hoje vai ser mais do que especial.
[...]
Chanyeol queria mais que tudo inventar uma desculpa para ir direto para casa, mas já era tarde demais: Kyungsoo havia insistido em pagar o jantar, e agora, cada um seguia para seus respectivos carros para ir ao tão comentado teatro burlesco. Diferente dele, Sehun e Kyungsoo estavam visivelmente animados, comentando sobre o show enquanto se despediam no estacionamento do restaurante.
Quando o sinal fechou, Chanyeol olhou mais uma vez para o relógio: já eram quase nove da noite. Se estivesse em casa, estaria quase terminando de corrigir a pilha de trabalhos que o aguardava. Soltou um suspiro, torcendo para que o lugar fosse realmente tão especial quanto Kyungsoo dizia, ou sentia que todo o seu esforço de fugir dessa "experiência cultural" teria sido em vão.
Seu celular estava posicionado no suporte, com o GPS ativo e o endereço do Moulin Rouge piscando na tela. Seguiu as direções, atravessando as ruas movimentadas do centro de Gangnam, até que as avenidas largas começaram a dar lugar a ruas menores, onde a iluminação era mais amena e o tráfego, menos intenso. Logo, um letreiro com letras em neon, vermelho e dourado apareceu à frente, destacando-se contra a escuridão da noite. “Moulin Rouge” brilhava sobre uma entrada em forma de arco, envolta por cortinas vermelhas e molduras douradas.
Ele estacionou e desceu do carro, observando a fachada enquanto Kyungsoo e Sehun se aproximavam, claramente ansiosos.
— Vai valer a pena, prometo — Kyungsoo disse, vendo o olhar cético de Chanyeol, que nada respondeu.
Kyungsoo foi até o segurança, entregando os três ingressos com tons vermelhos e dourados. O homem apenas sorriu gentil, provavelmente já conhecia aquele rosto por ser um cliente que estava por ali todos os finais de semana. Apenas deu espaço para que os três amigos entrassem, cumprimentando um por um.
Dentro do teatro, o ambiente estava envolto em uma penumbra charmosa, com tons quentes de vermelho escuro, preto e dourado, e o ar tinha o leve perfume de incenso e rosas. A música ambiente soava sedutora, criando uma atmosfera ao mesmo tempo elegante e provocante. Garçons trajados a rigor conduziam os visitantes para suas mesas, dispostas ao redor do palco, onde uma cortina pesada escondia o cenário principal.
Chanyeol não esperava encontrar tanta gente por ali, um público extremamente diversificado entre homens e mulheres, todos bem vestidos e ostentando seus acessórios mais caros. A parte da plateia era composta por poltronas espalhadas com pequenas mesas de centro onde podiam colocar suas bebidas e jogar conversa fora enquanto esperavam o espetáculo acontecer.
Assim que se sentaram, Chanyeol sentiu-se um pouco desconfortável no meio de tanta gente rica. Todos conversavam animadamente sobre o que viria a seguir, mas Chanyeol não esperava que seria tão rápido, como se apenas faltassem eles para o espetáculo ter início.
A música que estava tocando baixou de volume, as luzes da plateia se reduziram, e uma voz feminina anunciou o começo da noite. As cortinas se abriram devagar, revelando um grupo de dançarinas ao som de “I’m Coming Out” de Diana Ross. Não conseguiu esconder sua surpresa com a performance, era tudo muito extravagante e todas as dançarinas usavam maquiagem pesada. Por um momento, Chanyeol procurou por algum homem ali, principalmente por Jongin, quem nunca tinha visto antes, mas eram somente mulheres no palco.
A plateia se animava com a música dançante e soltavam elogios para as dançarinas que davam tudo de si durante a apresentação, dividindo as linhas da música. Não entregando apenas dança, mas vocais harmoniosos e uma bandeja de carisma. Elas pareciam conhecer todos que estavam ali, distribuíam sorrisos para cada rosto onde os olhares encontravam no meio daquele tanto de gente.
Chanyeol nunca teve muita ligação com aquele tipo de arte, então, para ele, tudo era surpreendentemente novo. Seus olhos vagavam pelo palco, meio perdidos, observando o cenário vibrante de mulheres em roupas sensuais, maquiagem marcante, e leques imensos de penas coloridas que se abriam e fechavam com precisão coreografada. Nunca em sua vida ele sequer pesquisara sobre o burlesco; tudo o que sabia vinha de comentários de Kyungsoo durante algum almoço ou jantar ocasional. Por isso, trazia consigo uma visão errônea, formada pela mistura de suposições e preconceitos, principalmente porque seu amigo mantinha um relacionamento com um dançarino.
Mas agora, sentado ali, ele percebia estar completamente equivocado. Era arte. Pura expressão, carregada de elegância e impacto. Conhecia bem os princípios de Kyungsoo e sabia que seu amigo jamais o arrastaria para um lugar que não valesse a pena.
— É surpreendente, não é? — Chanyeol escutou a voz de Kyungsoo invadir sua audição, embora estivesse um pouco abafada por conta da música alta. — Ainda tem muita coisa por vir. — disse animado e esfregando uma mão na outra.
O garçom chegou, atraindo a atenção do professor, que apenas aceitou o copo de uísque e o segurou-o na mão esquerda, bebendo um pouco do álcool antes de voltar toda a sua atenção para a apresentação, sem nunca deixar a expressão surpresa de lado.
— Parece que alguém gostou mesmo — Sehun comentou risonho, arrancando uma risada de Kyungsoo.
O número das dançarinas terminou sob aplausos calorosos, e então as luzes começaram a reduzir novamente, deixando tudo silencioso e as cortinas se fecharam rapidamente. Era possível ouvir alguns cochichos, todos pareciam estar ansiosos para a próxima performance, mas Chanyeol estava perdido no meio daquela plateia que parecia saber todo o cronograma do Moulin Rouge, menos ele próprio.
— Nossa! Ele vai se apresentar mais cedo hoje? — Kyungsoo perguntou, tentando ouvir o que a plateia comentava.
— Quem? — Chanyeol indagou curioso, franzindo o cenho.
— O B.Cherry — respondeu como se fosse algum conhecido. — Ele é a estrela do Moulin Rouge.
Chanyeol se ajeitou na cadeira, notando a expectativa crescente ao redor. Em meio à penumbra, uma figura masculina surgiu no palco com um instrumental lento e sensual. Ele usava uma máscara nos olhos e vestia um robe preto de seda que brilhava sob a iluminação, caminhava com confiança, deixando o tecido deslizar suavemente sobre os ombros e cair ao chão, revelando um figurino muito mais surpreendente do que os anteriores.
Quase deixou passar despercebido o nome “B.Cherry” brilhando em letras garrafais com luzes neon, junto com uma cereja colorida ao lado, também neon no letreiro acima do palco.
Por estar tão concentrado, não notou o momento em que mais duas pessoas surgiram no palco e aproximaram-se do outro homem, se posicionando atrás deste, um de cada lado. Captou o momento em que dois grandes leques com plumas pretas foram levantados pelas duas figuras, e mais um foi erguido pelo primeiro homem que surgiu no palco, causando burburinhos ansiosos do público. O silêncio que cercava o local pela falta de um próximo movimento, só fazia a expectativa de todos ficar maior, incluindo Chanyeol que estava sendo tomado pela mesma sensação crescente que os demais. No entanto, antes que mais um pensamento chegasse a sua mente, ouviu de repente:
“É um mundo frio e louco
Que é furioso lá fora
Mas, querido, eu e todas as minhas garotas
Estamos trazendo no fogo
Mostrar um pouco de perna,
Tenho que dançar sobre você
É uma vida, é um estilo, é uma necessidade,
É Burlesque!”
A introdução da música soou pelo local, reverberado por um tom melodioso e grave que preencheu a audição dos presentes, estes ficando rapidamente animados. Chanyeol não conseguia distinguir quem havia cantando, pois a visão da silhueta das pessoas era coberta pelas plumas esvoaçantes que escondiam parte do corpo posicionado no centro do palco, frontalmente e aos lados também, como asas fechadas. Foi ao final do trecho, quando o ritmo da música ficou mais forte, dando espaço a uma melodia eletrizante ao som de saxofones, que as luzes oscilaram assim como as plumas pretas e então com uma batida retumbante, os leques grandes se afastaram de uma vez ao mesmo tempo que os holofotes acendiam completamente, deixando à mostra aquele a quem todos ansiavam para ver.
O instrumental sensual da música prosseguiu, fazendo a plateia vibrar em agitação pelo início do próximo espetáculo da noite. Chanyeol conseguiu visualizar com mais nitidez, devido à iluminação do palco, os dançarinos que surgiam gradativamente através das cortinas conforme cada beat, ocupando espaço ao longo do palco. Eles vestiam calças de alfaiataria, o cós alto cobrindo até o umbigo, alguns com camisa social branca acompanhado de coletes abertos sobre os ombros, outros somente com o colete ou com o torso totalmente livre de roupas e apenas uma gravata ou gargantilha ao redor do pescoço. Os homens usavam também cartolas, além de maquiagem no rosto, tudo em uma paleta de cores frias e escuras.
— Aquele é o Jongin! Ali no canto esquerdo do palco. — Kyungsoo exclamou com animação, apontando para um dos dançarinos sobre a plataforma elevada. Os olhos praticamente brilhando em direção ao citado.
Chanyeol seguiu com o olhar para onde Kyungsoo apontava, vendo um homem de cabelos dourados, quase mel. Ele era alto, devia ser da mesma altura que Sehun, provavelmente, tinha peito desnudo e uma choker preta junto de luvas da mesma cor. Finalmente estava conhecendo o famoso dançarino boylesque no qual o amigo tanto vivia falando, conseguindo entender agora um pouco o fascínio que Kyungsoo possuía pelo homem. Jongin era muito bonito, se podia falar e dançava habilmente como se tivesse nascido fazendo aquilo. Não o culpava por ser quase um devoto ao loiro, já que os movimentos que o mesmo fazia eram alucinantes, mostrando uma flexibilidade incrível.
No entanto, sua vistoria ao outro não durou muito tempo, pois seu foco se voltou de fato à figura masculina na frente do palco, o homem que surgiu primeiro. Não havia percebido antes em razão da penumbra de outrora, mas a vestimenta daquele sujeito era totalmente diferente do restante dos dançarinos. O traje consistia em uma camisa branca com listras verticais pretas e botões prateados, no colarinho havia um laço grande cinza, brilhando em paetê, por cima de tudo um blazer social com pedrarias no recorte dos ombros e da frente. Luvas longas de renda adornavam suas mãos e os sapatos eram altos, tudo era muito luxuoso e extravagante. Contudo, o que chamava realmente atenção no figurino, era a máscara que ele usava nos olhos, preta com detalhes cintilantes e um punhado de penas em um dos cantos.
Por um instante, se perguntou porque o homem era o único a usar o adereço no rosto enquanto os outros mostravam a face abertamente, mas não se prolongou no mero pensamento quando a referida figura masculina começou a estalar os dedos em conjunto com os outros dançarinos, formando uma sonância única. E então com a voz de fundo puseram a dançar, cada um movendo-se à sua forma, conforme as batidas envolventes da melodia.
“Venho me segurando por bastante tempo
E finalmente é o momento certo
Adoro fazer as pessoas me observarem
Eles sabem que eu tenho as faíscas infalíveis do fogo, hey”
O boylesque mascarado cantou as linhas da canção Express de Christina Aguilera, a voz forte ecoando por todo o teatro, impressionando os espectadores com a potência vocálica, mesmo que a maioria já tivesse ouvido-o outras tantas vezes não deixava de ser impressionante. As mãos dele se moveram expressamente no ar, descendo em volta do pescoço para em seguida passar nas laterais do próprio corpo, jogando a cabeça para trás em um gesto insinuante. Os fios de cabelo eram de um tom castanho escuro, lisos e brilhavam arrumados de forma que a franja caísse no rosto.
Chanyeol não compreendia o porquê, mas sua atenção estava voltada direta e unicamente ao homem que, aparentemente, também era o vocalista. Não que os outros dançarinos não fossem igualmente talentosos, estava sendo uma experiência única presenciar de perto como era um número realizado por boylesques. Cada um deles era impressionante à sua própria maneira e davam tudo de si na performance, mas havia algo de diferente naquele desconhecido em específico, o jeito que ele se movia junto a voz forte e melodiosa fazia com que não desviasse os olhos minuciosos da figura de outrem.
“É uma paixão, uma emoção, é uma moda, Burlesque
Vai mexer com você, passando por você, Burlesque
Todas as senhoritas, coloquem os vestidos pra cima
Meninos, se joguem se quiserem
Você consegue me sentir, consegue sentir isso
É Burlesque”
— O B. Cherry é realmente impressionante — Sehun teceu o comentário por cima do som alto, tão focado em olhar para o palco quanto os outros clientes.
Constatou que ele se referia ao dito vocalista, Kyungsoo tinha comentado outrora sobre o mesmo ser a estrela do teatro e ao que tudo indicava era mesmo verdade, já que todos dali pareciam o conhecer. Kyungsoo concordou com um murmúrio abafado, ainda que olhasse somente para uma certa pessoa específica.
O tal B.Cherry virou de costas e ondulou os quadris em sincronia com os dançarinos que acompanhavam o movimento, olhando com o tronco virado para frente. Pelo que conseguia entender, a canção se tratava sobre o estilo burlesco, de vê-lo como uma forma de empoderamento para a vida, de poder e autoafirmação. E era exatamente isso que os homens buscavam manifestar através da coreografia ousada, usando e abusando livremente da sensualidade para mostrar que todos podiam ser livres para se expressar do jeito que bem quisessem. O cenário parcialmente escuro, iluminado pelas luzes amareladas dos holofotes, dava um ar mais soturno ao ambiente, o que combinava com o número masculino.
Chanyeol se recostou na cadeira, deixando-se envolver pela atmosfera quase hipnótica do musical. Sentia um calor inesperado enquanto acompanhava cada detalhe dos movimentos do tal B.Cherry, a estrela do palco. Havia algo na presença do homem que ia além da dança ou da voz; ele comandava o palco com um magnetismo que Chanyeol jamais tinha visto em toda a sua vida. Mesmo que estivesse surpreso com a performance tão bem elaborada, sua expressão continuou a mesma.
A música prosseguia, e B.Cherry dominava cada passo com uma segurança que beirava o hipnotizante. A máscara negra cobria-lhe parcialmente o rosto, mas deixava entrever um sorriso enigmático e provocante que parecia dizer ao público que ele sabia exatamente o impacto que causava. Os movimentos dele eram calculados e sensuais, mas também carregados de uma intensidade que não havia no restante da coreografia. Chanyeol prendeu a respiração por um segundo, ciente de que era mais do que apenas uma apresentação. Aquele homem não se escondia atrás da arte, ele se revelava através dela, e isso o fazia se destacar.
As luzes diminuíram de intensidade, com um foco único sobre dançarino principal, que agora se aproximava da beira do palco. Ele estendeu a mão para frente, e Chanyeol sentiu como se aquele gesto fosse dirigido apenas a ele. Um arrepio correu-lhe pela espinha, surpreendendo-o. Com um último olhar sedutor lançado à plateia, o artista abriu um sorriso e, com o ritmo da música aumentando, voltou a caminhar, mas agora, descendo os degraus escuros enquanto era seguido pelos dançarinos que começavam a se espalhar pela plateia, dando continuidade a coreografia.
No entanto, o dançarino principal tinha outros planos para tornar sua noite ainda mais memorável. Com olhos felinos, percorreu a plateia até localizar Kyungsoo. Ao lado dele, estava um homem de expressão séria e postura rígida, os braços apoiados no encosto da poltrona. Era ele. Sem hesitar, o dançarino lançou um sorriso provocador e começou a caminhar em sua direção, passos lentos e muito bem calculados.
Uma de suas filosofias era clara: o cliente sempre precisava querer voltar, independentemente das circunstâncias. Se alguém não retornava, significava que seu trabalho não havia sido bom o suficiente. Ele estava determinado a garantir que aquele homem voltasse — não importava quanto tempo isso levasse.
— Eu provoco-os até o limite, eles vão gritar e gemer pedindo mais e por mais eles imploram, ah. Eu sei que é por mim que eles vêm, meu prazer vai fazê-los ficar de joelhos. — Ao ritmo da música, Baekhyun se aproximou do professor, seu olhar fixo e hipnótico cravado nos olhos negros de Chanyeol enquanto recitava os versos da canção diretamente para ele, fazendo questão de rebolar os quadris.
A confusão no rosto dele era evidente ao lhe fitar, mas aquilo só aumentou a excitação do dançarino quando parou a poucos passos de distância deste. Em um movimento rápido e sem dar tempo para outro raciocinar, Baekhyun acomodou-se no colo do homem, arrancando-lhe uma expressão ainda mais atônita. Os suspiros surpresos das pessoas no salão foram audíveis o suficiente para serem escutados, mas Chanyeol não ouviu nada, pois sua mente bloqueou qualquer ruído exterior.
A cada reação de Chanyeol, o sorriso de Baekhyun se alargava, alimentando uma euforia que crescia dentro de si. Lentamente, o dançarino deslizou o dedo indicador sobre o ombro esquerdo de Chanyeol, sentindo-o estremecer sob seu toque. Sabia que todas as atenções estavam voltadas para a cena que protagonizava, mas naquele momento, seus olhos só viam as orbes escuras de Chanyeol, cada reação detalhada enquanto seu dedo traçava um caminho cuidadoso até a pele sensível de seu pescoço. Sem aviso, Baekhyun enredou os dedos nos cabelos negros dele, puxando-os levemente para trás, arrancando mais uma expressão surpresa, além de um leve arfar.
Jamais. Nunca fazia esse tipo de coisa com alguém da plateia. Adorava interagir com os clientes do Moulin Rouge, mas evitava ultrapassar limites que pudessem comprometer sua identidade ou segurança. Principalmente com aquele homem, totalmente desconhecido, que estava visitando o Moulin Rouge pela primeira vez.
E, céus, não conseguia se arrepender por um segundo.
O amigo de Kyungsoo era incrivelmente bonito! Com vestes sociais e rosto másculo, o prazer de vê-lo desarmado e vulnerável, ali, rendido ao toque de Baekhyun no meio de tantas pessoas, era uma satisfação que elevava seu ego. Baekhyun notou o pomo de adão dele subir e descer nervosamente, uma entrega silenciosa àquele jogo. Ele tinha certeza: aquele homem voltaria, e não apenas uma vez, mas tantas quantas fossem possíveis.
Chanyeol sentia o coração bater acelerado como um louco dentro da caixa torácica, o peito subindo e descendo era um sinal claro do estado em que se encontrava. A mente em colapso impossibilitava-o de raciocinar como havia parado naquela situação, com um dançarino sobre seu colo e tendo o cabelo puxado por ele. Não fazia a menor ideia se aquele tipo de performance era normal no burlesco, pelo canto dos olhos podia ver os outros dançarinos interagindo com os clientes, sorrindo, fazendo graça, mas nada parecido com o que aquele B.Cherry estava fazendo consigo.
O corpo já transpirava sob as roupas fechadas, a respiração irregular, e para piorar nem ao menos sabia como reagir em resposta, os braços jogados ao redor da poltrona pareciam incapazes de se mexer, a expressão congelada em seu rosto certamente deixava explícita a confusão que acontecia na sua mente enquanto tinha o boylesque encarando-o fixamente nos olhos. Mesmo que ele estivesse usando máscara, tendo parte do rosto coberto, podia sentir o olhar ardente das íris desafiadoras em si através do adereço.
Antes de dizer qualquer palavra, Baekhyun virou o microfone para o lado, aproximando o rosto até que seus lábios roçassem de leve no lóbulo daquele homem.
— É você quem sempre se recusa a vir me ver? — murmurou ao ouvido direito de Chanyeol, cuja respiração acelerou enquanto o coração disparava dentro do peito. — Espero te ver mais vezes por aqui, querido.
Quando Chanyeol virou o rosto, ele se deu conta da proximidade dos dois, o leve toque da respiração de Baekhyun se chocando com a sua própria. Seu olhar se prendeu ao rosto encantador do dançarino, cujo mistério da máscara apenas acentuava a beleza delicada e intensa ao mesmo tempo. Chanyeol observou cada detalhe — o contorno suave dos lábios de Baekhyun, os traços finos e a expressão confiante que parecia desafiá-lo. O cheiro inebriante, doce, chegando ao seu nariz pela proximidade, cercando-o como uma névoa de torpor.
Baekhyun se aproximou ainda mais, os olhos passando dos dele para seus lábios, em um convite silencioso e tentador.
Antes que o desejo do professor se concretizasse, Baekhyun sorriu maliciosamente e as luzes se apagaram no mesmo instante. Chanyeol sentiu o peso do corpo do dançarino se esvair de seu colo, o calor dele desaparecendo em questão de segundos. Assim que as luzes avermelhadas retornaram, Baekhyun já havia sumido do palco, como se fosse apenas um delírio fugaz no meio do espetáculo. Em um instante, a ficha caiu, e Chanyeol sentiu uma mistura de frustração e desafio crescer dentro de si: ele havia sido envolvido em uma rede de provocações e seduções sem escapatória, como se Baekhyun tivesse deixado um rastro ardente ao seu redor, impossível de ignorar.
Deixar aquele homem escapar como areia entre os dedos? Isso não seria uma opção.
Chanyeol apertou os braços do assento, tentando se recompor, mas a ideia de nunca mais ver aquele sorriso provocador e sentir o toque dele tão de perto era algo que ele não podia suportar.
