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Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-02-28
Updated:
2025-11-29
Words:
66,501
Chapters:
29/?
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4
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1,363

O Despertar dos Dragões (Anakin Skywalker – Targaryen AU)

Summary:

Anakin Targaryen é o príncipe herdeiro do Trono de Ferro, ele vê seu futuro como garantido desde seu nascimento e apesar de toda a pressão da coroa para ser um bom rei um dia, ele sabe que está pronto para seu destino.
Porém a vida do príncipe de Pedra do Dragão tem uma grande reviravolta quando um possível pretendente ao trono surge do outro lado do mar Estreito e uma nova guerra tão perigosa quanto a Dança dos Dragões surge no horizonte, ameaçando a paz recém conquistada nos Sete Reinos.
Além das decisões que ele precisa tomar para proteger sua posição, Anakin também precisa enfrentar uma nova etapa em sua vida: seu casamento com Zenah Targaryen, a pessoa que ele mais ama no mundo, mas simplesmente não consegue dizer isso a ela.

Notes:

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Boa leitura!

Chapter 1: Prólogo

Chapter Text

O Dragão Soturno, A Fé e os Frutos

Após a Dança dos Dragões, a guerra civil entre as facções dos pretos e dos verdes na tentativa de coroar um dos irmãos Targaryen como rei ou rainha, os Sete Reinos entraram em um período de falsa paz como assim ficou conhecido. As batalhas haviam acabado, os dragões não atacavam mais uns aos outros, mas ainda havia no ar a sensação de medo, de uma história não finalizada de fato.

Rhaenyra Targaryen tinha aparentemente vencido o conflito e sido coroada rainha, sendo então a primeira mulher a se sentar no Trono de Ferro. Os pretos comemoravam a vitória e planejavam seus próximos passos na reconstrução e afirmação de seu poder ao longo de Westeros, além é claro, de conquistar mais apoio à Rhaenyra entre aqueles que na guerra ficaram a favor dos verdes, no entanto, os planos do novo governo não tiveram tempo de ser postos em prática. Pouco depois de ser coroada rainha, Rhaenyra foi encontrada morta em seus aposentos.

A rainha tinha sido envenenada e logo as suspeitas caíram sobre seu irmão, o moribundo Aegon, que após perder a guerra ficou recluso no castelo de Pedra do Dragão. Quando soube da morte da irmã, Aegon se preparou para retomar o poder para si, os verdes se animaram e aos poucos foram ressurgindo, mas eles também não tiveram muito tempo para celebrar ou preparar seus planos. Aegon foi encontrado morto em sua cama em uma manhã. Ele também tinha sido envenenado.

Logo rumores sobre o autor das mortes dos irmãos Targaryen se espalharam pelo reino, acreditava-se que o mandante era Corlys Velaryon, homem que perdera muita coisa durante a Dança dos Dragões e só desejava que Westeros enfim pudesse respirar em paz sem a sufocante sensação de que a qualquer momento os dragões lutariam outra vez, mas era uma suspeita questionável, ao menos por parte do assassinato de Rhaenyra.

Corlys esteve ao lado da rainha ao longo de toda a guerra e tinha assumido uma posição no Pequeno Conselho quando ela foi coroada, por que ele poria tudo isso em risco? Mas quanto a Aegon, as suspeitas faziam certo sentido, Corlys tinha estado contra ele, além de que, para os pretos, nem tudo estava perdido. Tirando Aegon do caminho eles ainda tinham um pretendente ao trono, o filho sobrevivente de Rhaenyra, o também Aegon.

E justamente após a morte de Aegon II o filho de Rhaenyra foi rapidamente coroado, mas ele era apenas um garoto de 10 anos traumatizado pela guerra, seus pais e quase todos os seus irmãos haviam falecido ao longo do conflito e agora ele estava praticamente sozinho com o peso do mundo nas costas, foi acordado que enquanto o príncipe não atingisse os 16 anos o reino seria governado pelo Pequeno Conselho e a nova Mão do Rei, Cregan Stark.

Numa tentativa de acabar de vez com qualquer levante, o agora rei Aegon III se casou com sua prima, a filha sobrevivente de Aegon II e Helaena, a jovem princesa Jaehaera, outra criança traumatizada pela guerra. Ela presenciou a morte de seu irmão gêmeo, a perda do mais novo, e o suicídio da mãe, após a morte do pai ela se viu praticamente sozinha, já que sua vó, a parente mais próxima da princesa, estava trancada em seus aposentos na Fortaleza Vermelha, como punição por seus crimes na guerra.

Apesar de tudo parecia que enfim o período de batalhas seria deixado para trás, ao longo dos quatro anos que vieram depois o reino se restabeleceu, e junto do reino, também os dragões. Os sobreviventes da guerra se recuperaram, e novos nasceram em Pedra do Dragão, Cregan e Corlys tentaram incentivar Aegon ter um novo dragão como era comum de muitos reis e rainhas Targaryen, mas as tentativas foram em vão, Aegon tinha uma verdadeira aversão a ideia e um medo muito grande daquelas criaturas, e Jaehaera parecia segui-lo nessa ideia, o casal nunca montou ou voou em dragões durante todo o seu reinado.

Não foi o interesse por dragões que a Mão e o Senhor das Marés tentaram despertar em Aegon e Jaehaera que os animou, o casal sempre tão quieto e depressivo parecia não ter interesse por absolutamente nada, o que preocupava ambos, faltando apenas um ano para que Aegon assumisse de fato o governo, Cregan Stark propôs uma série de ideias para o rei e sua esposa de coisas que eles poderiam gostar e praticar, era uma tentativa de afastar a melancolia que os seguiam, mas nada funcionava. Eles não gostavam de bobos da corte, nem de teatro, nem de velejar, e o rei não era interessado por torneios. Nada.

A falta de interesse de Aegon e Jaehaera pela vida preocupava e muito a corte, Cregan temia que ele viesse a se tornar um rei fraco, tudo o que eles não precisavam agora que o reino estava se reconstruindo das rusgas da guerra, e da mesma maneira eles não queriam uma rainha melancólica, era de conhecimento de todos que Alicent Hightower às vezes chamava a neta para visitá-la e nessas visitas tentava manipular a garota para matar Aegon enquanto ele dormia e tomar o trono para si logo em seguida. Depois que Rhaenyra conseguiu se tornar rainha ela acreditava que Jaehaera também poderia. Cregan Stark e Corlys Velaryon tinham medo, uma única falha poderia levá-los de volta aos períodos sombrios da guerra, principalmente se tratando do futuro rei e rainha.

Foi por isso que um dia, em uma última tentativa desesperada, Corlys levou os dois até Pedra do Dragão e passou o dia contando ao casal a história das casas Velaryon e Targaryen e seu surgimento em Valíria, ele levou os dois até a biblioteca do castelo e os mostrou antigos livros com a história do império valiriano que sobreviveram a perdição, foi a primeira vez em que Corlys viu um pouco de brilho no olhar de Aegon, ele se interessou pelas histórias do império e principalmente pela mitologia valiriana, ele adorou ler sobre os deuses que um dia foram cultuados na Cidade Franca, e logo Jaehaera também se interessou, ambos passavam horas lendo os livros e fazendo perguntas aos meistres, foi uma surpresa, mas uma boa surpresa.

O rei sempre tão melancólico passou a demonstrar interesse pela história valiriana, o que o tornou um pouco menos triste, mas só um pouco menos, já que ele ainda era conhecido como O Dragão Soturno entre o povo. Acreditava-se que outro motivo que o fez ter um novo interesse pela vida foi a volta de seu irmão Viserys que todos pensavam estar morto, ele foi trazido de volta de Lys por Alyn Velaryon, sozinho, o príncipe nunca revelou muito de sua vida durante o período em que esteve desaparecido.

Quando Aegon completou seus 16 anos e assumiu plenamente os seus deveres de rei Cregan Stark deixou o posto de Mão e retornou para o Norte, ele sentia que seu dever tinha sido cumprido.

Com a saída do nortenho Aegon nomeou o irmão Viserys para o posto, e assim os dois assumiram o dever de governar Westeros e deixar para trás toda a guerra, Viserys, talvez por não ter presenciado certos acontecimentos, tinha uma visão diferente da vida em relação a seu irmão Aegon, que era sempre cauteloso e parecia ter verdadeiro repúdio a palavra guerra, era visível que ele faria o possível e o impossível para evitar um novo conflito, e isso se refletiria em seu jeito de governar e ensinar os filhos.

Em 143 d.C. o príncipe Viserys tomou a jovem Daenaera Velaryon como sua esposa, mas a notícia do casamento foi logo ofuscada quando naquele mesmo período a rainha Jaehaera dera a luz ao primeiro filho de Aegon III, um menino forte e saudável de olhos azuis e cabelo loiro ondulado. Dizem que o choro do bebê foi ouvido em toda a Fortaleza Vermelha, o que foi visto como um bom sinal.

Mas as celebrações do nascimento do bebê foram interrompidas quando o rei anunciou o nome de seu primogênito, todos esperavam que fosse escolhido um dos muitos nomes valirianos já utilizados antes, Jaehaerys, Baelor, Daemon, talvez Aegon novamente, por isso foi uma surpresa quando o rei anunciou que seu filho iria se chamar Anakin.

Anakin não era um nome que estava na lista, e a explicação do rei foi de que aquele nome pertencera a um dos antigos deuses valirianos que ele tanto admirava graças a Corlys Velaryon. Quando a notícia do nome chegou ao Alto Septão em Vilavelha ele não a recebeu bem, para o religioso aquilo era uma blasfêmia, um ataque contra a Fé dos Sete, como poderia um rei promulgar a fé dentre seu povo quando seu nome remetia a um deus valiriano? Um deus pagão? A fé não se opunha quando os dragões recebiam tais nomes, mas agora todos temeram qual poderia ser a reação do Alto Septão. Ele enviou uma longa carta ao rei que nunca foi lida por mais ninguém, porém acredita-se que a carta era um longo sermão onde ele fazia uma objeção ao nome Anakin e explicava a Aegon as razões pelas quais ele deveria reconsiderar a ideia, aquela carta enorme teve uma resposta curta, Aegon foi simples e direto ao ponto com o Alto Septão quando disse a ele que não mudaria de ideia. O nome da criança continuaria sendo Anakin. Ele relembrou a Doutrina do Excepcionalismo criada a tantos anos por Jaehaerys I e adicionou uma nova camada a ela: sendo os Targaryen diferente dos povos vindos dos Ândalos, eles podiam se dar o direito de certas excepcionalidades, não apenas no casamento entre parentes próximos, mas também na escolha dos nomes de seus filhos, Aegon finalizou dizendo que aqueles deuses tinham sucumbido com Valíria e que seus nomes agora eram apenas isso, nomes.

Foi a primeira vez que Aegon demonstrou determinação e até certa frieza durante todo o seu reinado, e pareceu fazer efeito, o Alto Septão não fez mais nenhuma objeção ao nome do príncipe e assim ocorreu também com os outros septões, tanto para com Anakin, tanto para com a criança que nascera um ano mais tarde.

Em 144 d.C. Jaehaera e Daenaera entraram em trabalho de parto, a rainha deu à luz a duas meninas, enquanto a esposa de Viserys teve um menino, Daeron.

As gêmeas da rainha nasceram muito diferentes uma da outra, a que nasceu primeiro parecia ser forte e saudável, enquanto a mais nova nasceu frágil e pequena, e mal chorava, todos acreditavam que infelizmente ela não viveria muito, tão qual foi a surpresa quando um dia depois do nascimento das gêmeas a mais velha, até então considerada a mais forte, morreu de repente, enquanto a mais fraquinha viveu e começou a se desenvolver. Aegon chamou a menina de Zenah, outro nome da mitologia valiriana, diferente de seu irmão mais velho Zenah tinha cabelos prateados e olhos violeta, Aegon sempre foi apegado a menina, ele a achava uma sobrevivente, uma lutadora, Zenah foi contra as expectativas de todos e viveu mais do que sua irmã.

Viserys e a esposa tiveram outro bebê em 146 d.C., outro menino desta vez chamado Daemon, em homenagem ao pai de Viserys. O casamento da Mão com a Velaryon parecia ter sido uma ótima escolha. Daenaera era alegre e divertida, toda a corte sabia que ela era a luz da Fortaleza Vermelha, o príncipe Viserys também tinha seu charme, Viserys adorava voar em seu dragão com a esposa e visitar os lugares próximos a Porto Real, o povo aos poucos esquecia o medo dos dragões adquirido na guerra quando a Mão voava com Heartfyre, um animal vermelho e preto que eclodiu do ovo que o príncipe conseguiu esconder consigo durante o período em que esteve desaparecido, aquele dragão se parecia com Meleys, um dos dragões que morrera na guerra.

Mas antes de falarmos sobre os dragões que morreram e os que sobreviveram, é importante citar o casamento do rei e da rainha.

Diferente de Viserys e Daenaera que viviam um eterno conto de fadas, a relação de Aegon e Jaehaera era algo difícil de entender, o casamento deles foi uma espécie de tratado para selar a paz em Westeros de uma vez por todas, mas era muito diferente do que os cantores falavam em suas canções por aí, contando a história de um casal de inimigos na guerra que se apaixonaram e deixaram o amor triunfar, primeiro que isso seria praticamente impossível, eles eram crianças durante a Dança dos Dragões, e nunca tiveram um convívio devido a estarem de lados diferentes do conflito. As canções não passavam disso, canções para fazer as garotas se emocionarem e sonharem com uma bela história de amor.

Jaehaera e Aegon aprenderam a conviver, eles não brigavam, não se odiavam, mas também não se amavam. Era uma relação de convívio, obrigação e talvez um certo respeito. Era sabido que Aegon não culpava Jaehaera pelos atos de seu pai, da mesma forma que ela não culpava o marido pelas atitudes de sua mãe como a avó queria até seu último dia de vida, Alicent Hightower nunca aceitou aquele casamento e morreu amargurada com suas próprias atitudes e o resultado delas.

Aegon não gostava de ser tocado e Jaehaera costumava acordar gritando no meio da noite nos primeiros anos de sua vida como rainha por causa de pesadelos, o casal demorou para consumar o casamento, e para muitos foi um grande milagre a chegada de Anakin e Zenah.

Apesar de Jaehaera quase sempre seguir os interesses de Aegon e até mesmo ler livros de Valíria com ele, fora esses pequenos momentos juntos o casal não tinha tanta afinidade, como a própria Jaehaera dissera uma vez para uma de suas damas de companhia, em outras circunstâncias talvez aquele casamento tivesse sido diferente, eles poderiam ter sido bons amigos, talvez um bom casal, mas eles estavam mais unidos pela dor do que pelo amor.

O rei se aproximava mais da esposa nos momentos em que ela estava grávida, ele sempre prestava apoio e era gentil, e foi muito solidário com ela no momento em que a filha deles morreu, um dos meistres relatou como Aegon abraçou a esposa enquanto ela chorava e soluçava e até tentou acalmá-la. Foi uma das primeiras vezes em que Aegon se deixou ser tocado. O rei ainda disse a esposa que eles acima de qualquer pessoa não mereciam passar por mais essa dor na vida, claramente se referindo a toda a dor que eles enfrentaram na guerra, muitos acreditavam que talvez depois dali o casal fosse se aproximar, porém bastou o tempo passar e as cicatrizes se curarem outra vez e tudo voltou ao que eram antes, uma relação educada, porém distante.

A Dança dos Dragões enfraqueceu a Casa Targaryen e quase extinguiu os dragões do mundo. Quase extinguiu. Aos poucos aquelas grandes criaturas foram se reerguendo durante o reinado de Aegon III, porém muitos dragões foram perdidos na guerra entre os irmãos.

Meleys, a Rainha Vermelha, morreu junto a sua montadora, a princesa Rhaenys Targaryen em uma luta violenta contra Sunfyre e Vhagar, falando no primeiro, o que um dia foi considerado o dragão mais bonito em Westeros também morreu, mas não em batalha, Sunfyre morreu em Pedra do Dragão em decorrência de seus ferimentos após ter participado de poucas batalhas. Ele não era um dragão experiente e muito menos Aegon era um bom cavaleiro, e por isso foi gravemente ferido em uma luta contra outro dragão, dizem que quando Sunfyre morreu Aegon II chorou muito.

Vermax, dragão do príncipe Jacaerys Velaryon, também morreu em batalha junto com seu montador, foi o mesmo caso da dragão da noiva do príncipe, Baela Targaryen, que sobreviveu a guerra mas perdeu sua dragão Bailalua, que morreu em uma batalha contra Sunfyre. Mas também foi a causa da morte deste.

Os últimos dragões a morrerem na guerra foram Tessarion, montaria do príncipe Daeron Targaryen, outro filho de Alicent e Viserys I, Fumaresia, montado por Addam Velaryon e os dragões Asaprata e Vermithor.

Mas da mesma forma que muitos dragões morreram, outros sobreviveram.

Syrax, dragão da rainha Rhaenyra, nunca tinha lutado durante a guerra e sobreviveu a ela, após a morte de sua montadora o dragão de escamas amarelas ficou no Fosso dos Dragões a espera de um novo montador, outro dragão que sobreviveu foi Dreamfyre, após a morte de Helaena Targaryen, sua montadora e mãe da rainha Jaehaera, a dragão também ficou no fosso, anos mais tarde ela foi reinvindicada por Zenah e voou pela primeira vez após anos acorrentada.

Esses dois outros dragões que sobreviveram foram os que mais chamaram a atenção e instigaram os comentários sobre como os dragões são realmente criaturas resilientes, se tratava de Caraxes e Vhagar, dragões que lutaram um contra o outro acima do Olho de Deus com seus montadores Daemon e Aemond. Ambos os cavaleiros morreram na batalha, porém o corpo de Daemon nunca foi encontrado, gerando diversas teorias de que de alguma forma ele pudesse ter sobrevivido também e desaparecido, mas são teorias que fazem pouco ou qualquer sentido, seria um impossível para uma pessoa sobreviver a uma queda do alto do céu para dentro do lago, mas não era o mesmo para os dragões.

Caraxes e Vhagar saíram muito feridos da luta, mas sobreviveram, Caraxes ainda teve forças de abrir as asas e voar depois que ele saiu de dentro do lago e se rastejou até a terra, Vhagar no entanto permaneceu vários dias com metade do corpo submerso na água e se alimentou do corpo de seu próprio montador junto da espada valiriana Irmã Negra que pertenceu a Daemon e estava agora atravessada no crânio de Aemond. A espada nunca foi recuperada.

Quando finalmente Vhagar teve forças ela deixou o lago e voou para Pedra do Dragão onde Caraxes já estava, a dragão não teve nenhum outro montador depois da guerra, já Caraxes mais tarde foi reivindicado por Anakin.

Tanto Aegon III quanto Jaehaera tiveram dragões, Tempestade e Morghul, o dragão do rei morreu no dia em que seu irmão Viserys desapareceu, já Morghul ainda estava vivo no Fosso dos Dragões, mas a rainha nunca o montou. Como já dito anteriormente, ela compartilhava da aversão a dragões do marido, ambos nunca visitaram o fosso e abominavam a presença de Dreamfyre e Caraxes na Fortaleza Vermelha, mas não podiam simplesmente expulsá-los e magoar os filhos que nada tinham haver com os traumas dos pais.

Aegon e Jaehaera tiveram um terceiro filho em 147 d.C. mas diferente dos irmãos, aquele bebê não recebeu um nome em homenagem a um deus valiriano, ele foi chamado de Baelon.

O motivo foi que no dia do nascimento do príncipe, Aegon estava fora de Porto Real, ele estava em comitiva em uma viagem até Winterfell pois tinha recebido notícias de que Cregan Stark estava doente, pelos anos de serviço de Cregan como Mão o rei se sentiu compelido a ir até lá já que pelas cartas, a situação era grave, no meio do caminho no entanto, Jaehaera, que tinha ficado devido a gravidez, deu à luz ao príncipe e não esperou pela volta do marido para nomear o bebê. Dizem que inicialmente Aegon não gostou nem um pouco daquele nome e quis mudá-lo, mas ele permitiu que o príncipe fosse chamado de Baelon por conta dos apelos da rainha, ela o avisou que eles já tinham desafiado o Alto Septão duas vezes com Anakin e Zenah, ela não queria fazer isso uma terceira vez, o rei, talvez depois de ponderar, ou por consideração a Jaehaera, compreendeu e aceitou.

Para provar isso, ele desistiu da viagem ao Norte e voltou, Cregan não morreu no final das contas então não houve nenhum problema, ao chegar de volta ao castelo o rei colocou no berço de Baelon um ovo de dragão de Syrax, mas logo depois em segredo ele rezou para que o ovo nunca chocasse, parece que de fato os deuses o perdoaram pelas afrontas anteriores e como presente ouviram suas preces, o ovo nunca chocou, mas anos mais tarde Baelon também reivindicou um dragão para si durante uma passagem a Pedra do Dragão.

O tempo se encarregou de cicatrizar as feridas e dar uma nova chance aos Targaryen depois da sangrenta batalha entre família que quase os levou a ruína, a Dança dos Dragões ficou para trás e todos queriam enxergar a paz vindo no horizonte, mas talvez aqueles não fossem os planos dos deuses…

Chapter 2: O Casamento das Jóias

Notes:

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Chapter Text

163 d.C.
32 anos depois da Dança dos Dragões.

A sala do trono tinha se tornado uma espécie de taverna para os mais ricos e ilustres convidados, ao menos na visão de Anakin. De um lado ele via os lordes das grandes casas se banqueteando e bebendo mais vinho do que podiam aguentar, do outro, ele via os convidados estrangeiros representando as Cidades Livres de Essos. Anakin sabia que aquilo era um evento e tanto, afinal de contas, era seu casamento.

Na mesa principal estava apenas a família real, seus pais estavam à sua direita, tão quietos e sérios como sempre, ao lado deles estavam seu tio Viserys e a esposa dele Daenaera, os dois riam e conversavam com outros convidados alegremente. Anakin sabia que eles logo iriam acabar deixando a mesa como havia feito Baelon, seu irmão mais novo, o príncipe estava perto de um membro da Casa Lannister e ambos cantavam alguma canção meio idiota.

Ao lado esquerdo de Anakin estava Zenah, sua irmã e noiva, para os Targaryen era algo tão comum que nem fazia diferença, mas desde a cerimônia Anakin se pegou pensando demais no fato de que agora ele estava casado com sua irmã mais nova, e também apenas na primeira parte, de que ele estava casado. Isso ainda era algo que ele estava digerindo, mas que não o fazia se sentir completamente incomodado.

Na verdade já não era sem tempo, o casamento para muitos estava sendo considerado tardio, Anakin tinha 20 anos e Zenah 19, com essa idade era esperado que eles já tivessem até filhos.

Foi seu pai quem adiou o casamento durante anos sem um motivo próprio para isso, desde que tinha 16 anos Anakin ouvia pela corte as fofocas de que o príncipe herdeiro e a princesa deveriam se casar logo antes que algo de errado acontecesse, sendo esse “algo de errado” se traduzindo como filhos bastardos. Mas o rei pareceu não se preocupar com essa ideia, e nem a rainha também, o casamento só veio acontecer agora, e a pessoa mais feliz era seu tio Viserys.

Anakin voltou a observar o tio rindo e tagarelando sem parar, ele era o oposto de seu pai, fazia piadas, adorava os dragões e muitas vezes no passado aceitou treinar com Anakin nos pátios do castelo. Viserys quem organizou o casamento com o objetivo de tornar aquele evento tão grandioso e memorável quanto o Casamento Dourado, ele não parava de repetir como Jaehaerys I sentiria inveja se visse o que ele preparou, o que para Anakin não fazia sentido, os noivos do Casamento Dourado foram Alyssa Velaryon e Rogar Baratheon, não Jaehaerys e Alysanne.

No fundo Anakin sabia que a Mão do rei mentia quando dizia que só queria dar a seus sobrinhos o melhor casamento possível, não, a verdade era outra, ele estava fazendo isso como forma de compensar seu próprio casamento com Daenaera. Anakin já tinha ouvido as histórias de como foi a cerimônia, seus pais deram aos noivos um evento simples sem muita pompa, e o evento acabou sendo praticamente interrompido quando o próprio Anakin decidiu que já era hora de nascer, mas Viserys nunca se conformou com a simplicidade como fazia o rei, ele queria ter tido mais, se não fosse agora, teria com certeza dado uma festa gigantesca no casamento de seus filhos, ele só aproveitou a ocasião e por ter conseguido a aprovação do irmão.

Anakin segurou sua taça de vinho e bebericou um gole, seu pai fez a mesma coisa praticamente ao mesmo tempo, mas claro, com sua usual falta de ânimo que já não era mais surpresa para o príncipe.

— Ouvi dizer que o senhor não vai permitir que ninguém entre no meu quarto mais tarde. — Anakin comentou em um tom fingido de desinteresse. — Por que vai quebrar os costumes?

O rei Aegon voltou seus olhos cansados para o rosto do filho, e Anakin desviou o olhar. Às vezes era um pouco angustiante olhar demais para aqueles olhos tão perdidos, havia algo ali que o deixava inquieto, mais do que inquieto, muitas vezes Anakin comparava aquele olhar à sensação de estar se afogando e não haver ninguém perto para te salvar.

— É por Zenah que decidi proibir qualquer cortejo ao quarto onde a noite de núpcias acontecerá, ela não se sentiria confortável. — O rei respondeu, só por seu tom de voz já era possível perceber que ele não estava muito à vontade na festa.

— Aprecio sua preocupação com ela, pai.

A resposta de Anakin não era uma brincadeira ou algum tipo de ciúmes, ele de fato achava bom que seu pai se preocupasse com Zenah, ao menos mostrava que ele pensava nos filhos de vez em quando e não só na própria amargura.

Como o rei não respondeu Anakin então voltou sua atenção para a noiva, Zenah estava quieta em sua cadeira e parecia distante em seus próprios pensamentos, ela estava usando um belo vestido de seda perfeitamente branco de causar inveja nas convidadas do casamento, foi proposital, como Anakin também percebeu. Foi idéia de Daenaera com a aprovação da rainha, sua tia queria que as outras mulheres do reino olhassem para Zenah e morressem de inveja da mulher mais sortuda de Westeros, uma princesa que um dia seria rainha, e que tinha vestidos tão bem cuidados que o branco jamais amarelava. Que piada, Anakin pensou, mas até para ele foi divertido.

No topo da cabeça de Zenah presa ao véu estava a sua coroa, era dourada e tinha o símbolo da casa Targaryen bem no meio, o dragão de três cabeças foi entalhado com rubis, a coroa, em especial os rubis, faziam um contraste com a cor branca e os olhos violetas da princesa, que Anakin nem percebeu estarem o encarando.

Zenah percebeu como seu agora marido estava a olhando quase fixamente, ela esperou para ver até onde ele iria antes de finalmente tomar a iniciativa de falar:

— Algo está errado?

Ele balançou a cabeça e desviou o olhar para o salão, os convidados estavam ainda cantando, agora ainda mais alto do que antes.

— Só estava pensando no casamento, serão sete dias de festa, que maravilha.

— Não entendi se você gostou ou se foi irônico, Anakin. — Zenah respondeu.

— Bem, eu não vejo motivo para sete dias de comemorações, mas estou animado para o torneio, então podemos considerar que eu estou… indeciso. — Ele puxou sua taça de vinho pela metade mas não a levou até os lábios. — E quanto a você? O que pensa do nosso casamento?

Zenah parou para pensar, logo a frente deles o anão bobo da corte começou a dançar em um ritmo trôpego, dois senhores e o príncipe Baelon dispararam para correr atrás dele e quase todo o salão começou a rir, a princesa precisou falar um pouco mais alto para ser ouvida:

— Não me sinto tão ansiosa, esse casamento deveria ter acontecido há muitos anos como nós bem sabemos, mas me dá uma sensação de um novo começo, como a chegada de uma nova estação.

— Interessante. — Anakin ignorou a perseguição acontecendo a sua frente e virou o corpo para olhar Zenah de frente. — E que estação seria essa? Outono, inverno, primavera ou verão?

Ao invés de responder a pergunta dele, Zenah também se virou para vê-lo de frente e sorriu de uma maneira tão surpresa que fez Anakin se assustar, por um segundo ele teve certeza de que ela iria começar a chorar ou coisa do tipo, mas não haviam lágrimas em seus olhos.

— É a primeira vez que você olha para mim em anos.

Ela disse ainda com aquele sorriso abobalhado, Anakin se afastou confuso.

— Nós vivemos aqui nesse castelo desde sempre, Zenah, eu te vejo todos os dias.

— Mas você nunca mais tinha me olhando, nunca mais tinha me visto de verdade como fazia quando éramos crianças e brincávamos juntos. Você sabia que eu estava ali, mas era como se ignorasse, agora, você me vê.

Houve uma nova gritaria quando alguém finalmente agarrou o bobo, Anakin aproveitou o momento para se distanciar um pouco, mas o que Zenah disse não saiu de sua cabeça.

— Não vai haver cortejo até o quarto, nosso pai fez isso por você. — Ele disse quando a gritaria terminou. — Seremos só nós dois.

Zenah aquiesceu e voltou a olhar para frente em silêncio, Anakin fingiu fazer o mesmo, mas ele não tinha interesse algum na nova caça ao bobo da corte.

 

Horas mais tarde, Anakin e Zenah foram deixados sozinhos no quarto dele, como prometido pelo rei ninguém entrou nos aposentos do príncipe para tirar as roupas deles e nem observar a consumação do casamento.

Anakin não tinha dito nada antes mas para ele a decisão do pai foi um grande alívio, ele passou o dia inteiro tenso só de pensar na ideia de algum daqueles bêbados lá dentro gritando coisas obscenas e principalmente, assistindo eles como um bando de pervertidos, os mesmos que depois estariam nos septos se passando de bons fiéis e seguidores dos bons costumes, era tão hilário quanto ridículo.

Mas se havia alguém ainda mais tenso ali essa pessoa era Zenah, como o próprio Anakin pôde perceber, ela não sabia o que fazer agora, seus dedos estavam agarrados ao véu mexendo no tecido repetidamente enquanto os seus olhos vagavam pelo quarto quase como se procurando alguma resposta, um guia do que fazer a seguir.

Anakin não era um imbecil e sabia muito bem que para ela a noite de núpcias era algo novo, um mundo novo, assim como para todas as garotas bem nascidas dos Sete Reinos.

— Eles podiam ter pelo menos te ajudado a tirar esse véu, não acha? — Ele disse tentando iniciar uma conversa. — Quer ajuda para tirar agora?

Ele fez menção de tocar o tecido mas rapidamente adicionou:

— Só ele, vai te ajudar a ficar mais à vontade.

Zenah ponderou e no final acabou aceitando, Anakin a ajudou a tirar o véu e junto dele a coroa, depois disso ela se sentou no pé da cama e logo Anakin estava ao lado dela, os dois encaravam a parede à frente deles em silêncio. O único som no quarto era o trepidar do fogo na lareira e os sons do mundo lá fora.

Após o que pareceu uma eternidade Zenah foi a primeira a abrir a boca:

— Se você prestar bem atenção consegue ouvir as pessoas se divertindo lá fora.

Era verdade, o som das vozes não era alto mas se prestasse bem atenção dava até para distinguir algumas palavras, Anakin riu quando alguém gritou um palavrão alto demais.

— São sete dias de festa, a partir do terceiro ninguém vai nem lembrar o que eles estão comemorando, mas ainda assim eles vão estar lá, bebendo e festejando. Não é assim todo dia.

— Isso é verdade. — Zenah concordou e até deu um risinho. — Sabe como estão chamando isso? De Casamento das Jóias, o sucessor do Casamento Dourado.

— E por que Casamento das Jóias?

— Porque o tio Viserys andou espalhando por aí que jóias valem mais do que ouro.

Anakin conseguia até imaginar o tio falando aquela frase para as pessoas ao seu redor, gesticulando dramaticamente e tentando fazer aquele nome parecer extraordinário, aquela imagem o fez rir.

— O que ele teria dito se fosse o casamento dele? Talvez iria ter chamado de Casamento dos Diamantes!

Ele conseguiu fazer Zenah rir um pouco e relaxar, seus ombros tensos finalmente se acalmaram, mas não completamente.
O silêncio ameaçou voltar a tomar conta do quarto, mas dessa vez Anakin não iria deixar, eles tinham muito o que conversar agora, principalmente a respeito do que deveria acontecer naquela noite, a consumação do casamento.

— Zenah, você sabe, nós dois devemos fazer isso. — Ele não estava sendo autoritário, ordenando que eles deitassem juntos, era apenas o óbvio. — Mas quero saber o que você acha disso.

— A minha opinião? Mas eu pensei que isso não fosse importar tanto.

— Como não, Zenah? Estamos falando de algo sério aqui, deixe de lado as obrigações e pense um pouco no que você quer, está bem? Eu não vou deitar com você a força!

A única coisa que Anakin não queria era forçar Zenah a se deitar com ele e tornar aquela experiência um pesadelo, ele estava pondo os sentimentos dela em primeiro lugar, acima até de sua própria vontade que até então ele nem tinha pensado tanto para tentar descobrir se ele queria aquilo ou não.

Zenah se pôs de pé e começou a andar em círculos na frente de Anakin, ao longo dos dias que antecederam o casamento ela foi brevemente instruída sobre a noite de núpcias e seus deveres para com seu marido, sua mãe foi uma das pessoas quem falou com ela.

Jaehaera apenas a instruiu a obedecer o que seu marido pedisse para ela fazer, não perguntou muito sobre como Zenah estava se sentindo e não deu a ela oportunidades de perguntar mais sobre como era se entregar a um homem. Zenah percebeu que talvez sua mãe também nunca tivesse tido essa oportunidade de fazer perguntas, mas não estava aberta para quebrar o ciclo, e isso a entristeceu, Zenah às vezes se fechava para a realidade nua e crua de que seus pais estavam juntos por obrigação, não por amor.

Ela parou de caminhar e se sentou outra vez antes de respirar fundo e dizer:

— Não sei se estou pronta, Anakin. — Ela admitiu. — Eu nunca fiz isso, mas ao mesmo tempo que tenho curiosidade eu não sei se estou preparada para dar um passo tão grande agora.

A princesa esperava uma reação negativa, era o que com certeza qualquer outro homem faria, mas a reação de Anakin foi diferente, ele sorriu e caiu de costas na cama com os braços abertos.

— Tudo bem.

— Sério?! — Zenah arregalou os olhos. — Tudo bem mesmo? Você não vai ficar chateado? E nem vai sair correndo para um daqueles bordéis, não é?

— Zenah, pelo que me toma? — O príncipe se sentou forçando uma falsa reação de decepção. — Acha que eu iria sair correndo daqui e ir atrás de outra mulher? Eu não sou um pervertido!

— Me desculpe, não foi o que eu quis dizer, mas de qualquer forma eu fico grata por saber que você não está pensando em ir a um desses lugares.

Foi um alívio tão grande que Zenah mal conseguiu conter, apesar de tudo ela não suportaria ser traída, os comentários, as amantes, tudo isso iria deixá-la arruinada.

Mas agora não era hora para alívios, havia um novo problema para ser resolvido, se eles não fariam nada naquela noite isso significa que o casamento não vai ser consumado, e sem consumação…

Anakin já tinha entendido o que estava se passando na cabecinha de sua esposa, mas ele estava muito mais tranquilo quanto a isso.

— Vamos mentir para todo mundo sobre essa noite, se alguém perguntar vamos dizer que correu tudo bem e que houve consumação.

— Mentir? Mas amanhã com certeza todos vão querer saber como foi, a tia Daenaera vai me encher de perguntas e querer saber todos os detalhes!

— E o tio Viserys vai fazer o mesmo comigo, mas é muito simples, Zenah. A gente não entra em detalhes e diz que correu tudo bem, ponto final.

Zenah percebeu que ele tinha um ponto e que poderia funcionar se eles apenas se atentassem aos detalhes.

— Temos que combinar a mesma história Anakin, para garantir que não haverão inconsistências, no primeiro deslize é onde eles vão achar a mentira e aí vamos ter problemas.

— Não sei o porquê teremos problemas, veja nossos pais, todo mundo sabe que demorou anos até que eles consumassem o casamento, nossos nascimentos nem eram esperados! — Anakin tinha os argumentos prontos para enfrentar quem descobrisse a mentira, mas ele sabia que a corte acharia alguma maneira de dizer que eles estavam errados, e ele até sabia qual. — Mas de qualquer forma, mesmo que alguém suspeite que estamos mentindo, como eles vão ter certeza? É a nossa palavra contra a deles, ninguém vai te mandar abrir as pernas e verificar se você ainda é virgem.

— Você precisa mesmo ser tão vulgar?!

Zenah bufou e se levantou da cama, Anakin apenas começou a rir e jogou as mãos para o alto em defesa própria.

— Perdão, Zenah. Mas eu só disse a verdade.

Depois disso ele também se levantou e foi em direção a Zenah, os dois ficaram frente a frente, ela ainda tinha uma cara zangada, já ele um sorriso brincalhão.

— Não fica brava comigo, vamos, não faz assim.

— Eu vou dormir, Anakin, está tarde e tivemos um dia longo!

Quando a princesa se afastou Anakin a chamou, ele queria continuar provocando ela, mas sem nem se dar conta, ele a chamou por um apelido que ele não usava a anos:

— Zeninha! Espera um pouco…

— Espera, Zeninha? — Ela ficou boquiaberta por um instante e só então Anakin percebeu o que tinha feito. — Você me chamou de Zeninha, como fazia quando éramos crianças…

Ela sorriu da mesma maneira que fez durante o jantar, Anakin pela primeira vez em muito tempo se viu sem palavras, ele gaguejou e pigarrou até que ele desistiu de tentar achar uma justificativa e apenas deu as costas.

— Acho que você está certa, vamos dormir, Zenah.

O quarto de Anakin tinha uma latrina privativa e ele se trancou lá dentro em busca de um momento sozinho. O príncipe tomou fôlego e resmungou, aquele apelido escapou por entre seus lábios, ele não pretendia chamá-la daquele jeito, não, isso era um nome que ficou no passado, na infância deles.

Mas uma parte dele sentiu uma certa nostalgia e até felicidade, Zeninha, a quanto tempo ele não a chamava assim.

Anakin se pegou sorrindo sozinho quando uma memória do passado veio a sua mente, um dos muitos dias em que ele e a irmã costumavam brincar pela Fortaleza Vermelha sem se preocupar com obrigações reais, casamento, nada além de seus brinquedos, eram dias alegres cheios de risadas e pregações de peças nos meistres e outros membros da corte também, é claro.

A vida infelizmente afastou os dois, Anakin e Zenah foram crescendo e os deveres reais os chamando, ele se lembrava exatamente de quando o afastamento foi definitivo, quando ele começou a treinar suas artes marciais e recebeu uma espada valiriana, e Zenah ao mesmo tempo começou suas aulas mais intensivas de etiqueta e a como se comportar na corte, depois eles reivindicaram seus próprios dragões como planejavam desde a infância, mas sem cumprir uma das promessas bobas daquela época: voarem juntos um dia.

No início Anakin estava relutante com o casamento, mas agora pensando um pouco mais no passado ele até conseguia ver um lado positivo nisso tudo, e era ela, Zeninha.

Chapter 3: Aegon e Rhaenys parte 1

Notes:

Boa leitura!

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O sexto dia de celebrações começava, e para esse dia Anakin tinha uma animação redobrada, pois era o dia do início do torneio que ele mesmo iria participar.

Anakin sempre gostou dos torneios, mas não somente de assistir, ele gostava de participar e sempre que podia estava nas arenas com sua espada ou lança. Anakin gostava mais de lutas com espadas, mas também participava das justas, como era o caso daquele dia.

Seria um torneio amigável, ou seja, era esperado que não houvesse nenhum acidente grave ou mortes, mas essa era a parte interessante dos torneios. Eles eram imprevisíveis. E na maior parte das vezes inesquecíveis.

Logo cedo Anakin estava no pavilhão destinado aos Targaryen na área do torneio, junto dele estavam seus primos, os príncipes Daeron e Daemon. Baelon, seu irmão mais novo, também estava ali, ele era o escudeiro de Anakin.

Daeron era o mais velho dos filhos de Viserys, um príncipe alto de cabelos cacheados cor de prata na altura dos ombros, seus olhos eram de um púrpura escuro, quase azulado, ele era um homem educado, de boa índole, generoso e aventureiro. Apesar de ser um Targaryen ele era muito mais voltado à família materna, os Velaryon, Daeron não escolheu ter um dragão, mas um barco, ele herdou nada mais nada menos do que o barco que pertencia a Corlys Velaryon e com ele já tinha viajado para vários lugares.

Ele na verdade não iria participar do torneio naquele dia, isso porque estava machucado, cerca de alguns meses atrás Daeron enfrentou uma tempestade no mar em uma viagem entre Porto Real e Volantis, as ondas violentas não conseguiram jogá-lo na água, mas em suas tentativas de manter o barco na direção certa ele quebrou dois dedos da mão direita, a que usava para manejar a espada.

Seu irmão Daemon no entanto iria participar, este era o contrário do irmão mais velho, Daemon era mais forte e mais alto, seus cabelos prateados eram sempre cortados bem curtos e seus olhos eram ainda mais escuros que o do irmão, enquanto Daeron era gentil e sociável ele era reservado, tinha um temperamento difícil e era conhecido por ser egoísta, mas quando lutava era um cavaleiro excepcional.

Tanto Anakin quanto seu primo estavam se preparando para mais tarde, Daeron só apareceu para dar um apoio aos dois.

— E então Anakin, como se sente hoje? — Daeron perguntou e lhe deu um tapinha no ombro. — Bem-vindo ao mundo dos casados.

— Que gentileza da sua parte, Daeron, mas suas boas vindas estão um pouco atrasadas, o casamento foi ontem.

Daeron tinha se casado quase dois anos antes com Lady Lauren Lannister, uma união estratégica pensada por Viserys para fortalecer a frota marítima da casa Velaryon unindo-a à frota dos Lannister.

O príncipe Daeron deu uma gargalhada e bateu novamente no ombro de Anakin antes de puxar o elmo do príncipe e o analisar.

— Peço desculpas, ontem eu me deixei levar pelo vinho na festa e não consegui te dar as felicitações adequadas. E quanto a você, Daemon? Eu não lembro de ter visto você depois da cerimônia.

Daemon estava se preparando em silêncio pois não queria participar da conversa, mas quando seu nome foi trazido à tona ele se retesou, a armadura negra com o símbolo dos Targaryen dele era exuberante e até mesmo amedrontadora, isso somado a cara de Daemon que estava sempre fechada em uma carranca tornava a aparência dele pouco convidativa.

Ele colocou a última parte de sua armadura, o elmo com um penacho vermelho no topo e desembainhou a espada.

— Eu estava indisposto depois da cerimônia e não participei da festa no salão. — Daemon respondeu, seus olhos analisavam o estado da lâmina de sua espada. — E aquela bebedeira não é exatamente o que eu gosto de fazer para celebrar.

— Até mesmo meu pai estava lá, e ele sim odeia festas.

Anakin retrucou, Daemon e ele apesar de serem primos não se davam bem desde que Anakin se entendia por gente e Daeron sabia muito bem disso, muitas vezes foi ele quem interveio para apaziguar a situação como fez agora, ele se pôs entre os primos e devolveu a Anakin seu elmo.

— Aqui Anakin, boa sorte mais tarde. Para você também, irmão.
Ele deixou os dois a sós com os escudeiros, nem Anakin nem Daemon trocaram alguma palavra depois disso.

 

Anakin só precisaria entrar na arena mais tarde, mas ele não iria perder a chance de assistir as competições anteriores e aprender como cada oponente se comporta para quando chegasse a vez dele.

Ele não estava no camarote real junto de sua família, mas vez ou outra seus olhos vagavam para lá onde ele encontrava os rostos de seus pais, seus tios e ela, Zenah.

Por ter saído tão cedo do quarto, Anakin não teve oportunidade de conversar com sua agora esposa, mas eles já estavam usando da mentira de que a consumação tinha acontecido. Como combinado com ela, Anakin não entrou em detalhes, só disse que tudo tinha corrido bem o que satisfazia a curiosidade da maioria, no entanto sempre tinha um ou outro querendo saber mais detalhes, e Anakin sempre respondia a mesma coisa, que os detalhes pertenciam somente a ele e Zenah e mais ninguém.

Em dado momento os olhos do casal se encontraram, Zenah esboçou surpresa ao perceber que ele estava ali o tempo todo, então Anakin então acenou para ela antes de dar as costas e desaparecer, em partes porque já estava quase na hora dele entrar na arena, e também porque não queria que Zenah o visse sorrindo como ele estava fazendo agora.

O primeiro oponente de Anakin naquele dia era um cavaleiro da Casa Arryn, os dois foram apresentados pelo mestre dos jogos logo antes de entrarem na arena de combate, os estandartes dos Targaryen e dos Arryn balançava ao vento enquanto a multidão gritava em êxtase. Anakin era conhecido por ser um dos cavaleiros mais excepcionais de sua época e era sempre uma alegria para o povo comum assisti-lo montar em seu cavalo e derrotar cavaleiros um depois do outro, foram poucas as vezes em que ele perdeu um duelo, e para Anakin, isso era uma vitória pessoal.

Anakin ajustou seu escudo e a lança, depois guiou o cavalo até a posição correta, o cavaleiro Arryn, um rapaz novo chamado Edgar, nunca tinha enfrentado o príncipe antes, Anakin no entanto tinha se preparado, como ele sempre fazia.

Antes de qualquer duelo não importa como fosse, com espadas, lanças, a cavalo ou a pé ele sempre tentava descobrir informações sobre o estilo de luta de seu adversário e principalmente, quais eram seus pontos fracos. Claro que muitos outros cavaleiros faziam isso e não era lá a estratégia mais inovadora do mundo. Mas funcionava, e isso era o que importava.

Ele soube que Edgar Arryn era bom com um machado, mas estava ainda se aventurando nas justas, Edgar teve algumas vitórias e derrotas em campo, mas apesar de tudo ele era corajoso e não tinha medo de errar. Anakin pensou que isso o tornava um cavaleiro honesto e honrado, ele gostaria de trocar algumas palavras com o colega quando tivesse o derrotado.

Ambos os cavaleiros ergueram as lanças as posicionando e foi quando a multidão gritou em coro, o motivo era o pedaço de tecido branco amarrado na lança de Anakin, que Zenah reconheceu imediatamente como sendo parte do seu véu do vestido de casamento. Ela ficou boquiaberta e surpresa, o que deixou Anakin feliz da vida, ele sabia o que estava se passando na cabecinha dela agora, como ele pegou aquele pedaço do véu? Foi simples na verdade, pouco antes de sair do quarto naquela manhã ele cortou um pedacinho do tecido branco e o escondeu no bolso, Anakin sabia que as pessoas iriam amar aquela cena, o favor da princesa para seu novo marido.

Claro, eles só não precisavam saber que aquilo também era uma surpresa para ela.

Quando o arauto deu o sinal Anakin puxou as rédeas e seu cavalo disparou, Edgar Arryn fez o mesmo com seu animal, mas seus reflexos não foram tão ágeis quanto o de Anakin pois seu cavalo começou a correr um pouco depois, era uma diferença mínima que talvez nem todos fossem perceber, porém Anakin percebeu perfeitamente.

A mão que segurava a lança apertou os dedos com mais firmeza, Anakin mirou no centro do escudo de Arryn porém no último instante ele jogou o corpo para frente e mudou o ângulo de sua lança, ela acertou o canto esquerdo do escudo de Arryn. A estratégia de Anakin de se inclinar para frente foi uma maneira de minimizar o impacto da lança inimiga, e funcionou, Edgar perdeu a concentração e quando entendeu o que o príncipe faria já era tarde, ele se desequilibrou e caiu de costas no chão levantando uma nuvem de poeira.

O grito das arquibancadas foi como um beijo no ego de Anakin, ele amava lutar mas adorava ainda mais aquela parte, onde todos torciam por ele.

Mas havia uma pessoa em específico que ele desejava mesmo que inconscientemente estivesse torcendo por ele, e essa pessoa era Zenah. Anakin puxou as rédeas do cavalo e fez o animal dar a volta pela arena até parar em frente ao camarote real, seu pai fez um aceno de aprovação com a cabeça, era um gesto simples, mas Anakin já estava acostumado com isso e não se importava mais. Ele queria mesmo era ver a reação de Zenah.

O príncipe apontou para o pedaço de véu em sua lança, naquele instante seu elmo cobria quase todo o seu rosto, e por isso ele sorriu sabendo que Zenah não o veria. Anakin não tinha certeza se estava imaginando coisas ou se era verdade, mas ele acreditou ter ouvido Zenah murmurar algo como “toma cuidado” para ele. Anakin decidiu acreditar que ela realmente disse aquilo.

Ele deixou a arena para aguardar as próximas lutas no seu pavilhão, naquele dia Anakin ainda teria que lutar contra mais dois oponentes, ele até pensou em aguardar para ver quem seriam seus próximos adversários, mas seu corpo pedia por um breve descanso e Anakin sabia muito bem que manter o corpo em plenas condições era uma das partes mais importantes para vencer.

O príncipe Baelon foi tomar conta do cavalo de Anakin e o deixou sozinho ali, por sorte ou não Daemon estava na arena já que seria um dos próximos a lutar, por isso Anakin ficou com a tenda só para si.

Ele retirou o elmo e jogou um pouco de água no cabelo e rosto, foi então que Anakin percebeu que alguém havia entrado, pensando se tratar de Baelon ele não deu muita importância, até que ouviu aquela voz, que com certeza não era de seu irmão mais novo:

— Você sempre vai bem nos torneios.

Anakin se virou e lá estava ela, Zenah, a princesa estava parada logo na entrada da tenda, as mãos unidas sob o colo e aqueles olhos violeta sempre tranquilos o encarando. Naquele dia Zenah estava usando um vestido vermelho sangue com detalhes em dourado nas mangas e na barra da saia, os cabelos prateados lisos estavam soltos caindo por seus ombros, no topo da cabeça da princesa estava a mesma coroa do dia anterior com o dragão de três cabeças.

Anakin não esperava ver Zenah ali, era esperado que ela ficasse no camarote real durante todo o evento, mas foi interessante pensar que ela escapou de lá e veio até aqui só para vê-lo, ele não pôde deixar de comentar:

— Veio até aqui ver como está seu novo marido?

Zenah bufou e foi na direção dele, de repente ela estava lhe entregando algo, um lenço.

— Se você queria um favor meu deveria ter pedido. — Ela colocou o lenço na palma da mão dele e deu um passo atrás. — Aqui, agora está certo.

Anakin segurou aquele tecido e sorriu, ele não acreditava que Zenah tinha vindo até ali só por conta da brincadeira que ele fez antes.

— Obrigado, minha senhora. Seu favor será muito honrado hoje.

Zenah por um instante hesitou, parecia que ela tinha algo a dizer mas não sabia se deveria fazê-lo, mas no final das contas algo a convenceu e ela abriu a boca:

— Hoje quando acordei eu tive uma lembrança da nossa infância. Eu me lembrei de quando nós dois brincávamos pelas passagens secretas da fortaleza e fingíamos ser Aegon o Conquistador e a Rainha Rhaenys.

Dessa brincadeira Anakin se lembrava bem, eles passavam horas correndo pelas passagens secretas enquanto recriavam toda a conquista de Aegon, ele claro, era o conquistador. Na época eles tinham o costume de levar os cachorros e gatos que andavam pelo castelo e fingir que eles eram Balerion e Meraxes, enquanto Zenah era Rhaenys.

Anakin se sentiu nostálgico de repente, aquelas eram memórias que ele jamais esqueceria.

— Você sempre escolhia ser a Rhaenys, e eu ficava bravo com você. — Ele disse, sua mente ainda estava distante no mundo das lembranças.

— Sim, porque você queria que eu fingisse ser a Visenya, e eu nunca aceitava, daí brigávamos, no fim você aceitava que eu seria a Rhaenys e então saíamos para brincar. — Zenah puxou os lábios num sorriso sem mostrar os dentes. — Por que você sempre queria que eu fosse a Visenya e não Rhaenys? Você sabe, eu sempre dizia que não queria ser mãe do Maegor.

— Isso é verdade, mas eu já te expliquei os motivos, a Visenya era melhor. Ela era uma guerreira, tinha uma espada valiriana, e montou a Vhagar! Maegor é só um detalhe da vida dela.

— Um grande detalhe da vida dela. Visenya pode mesmo ter sido tudo isso, mas era a Rhaenys quem Aegon realmente amava.

Zenah deixou o pavilhão logo depois de dizer aquelas palavras, Anakin não tentou impedir e nem foi atrás, ele ficou ali parado pensando no verdadeiro motivo que o fazia sempre querer que ela fingisse ser Visenya e não Rhaenys nas brincadeiras, um motivo que ele nunca contou a ela: ele queria que ela fingisse ser a outra rainha de Aegon porque odiava quando eles chegavam na parte da morte de Rhaenys. Ele odiava, mesmo que fosse de brincadeira, ver Zenah morrendo.

Baelon voltou de repente chamando por Anakin, ele queria perguntar se deveria fazer alguns ajustes na cela do cavalo, o príncipe então voltou para a realidade do torneio, ao menos por enquanto.

 

Mais tarde naquele dia Anakin estava de volta a arena, seu segundo oponente do dia era um cavaleiro mais velho vindo de Vilavelha, um Hightower.

Sempre que via um Hightower, Anakin tinha sentimentos ambíguos, por um lado ele pensava em como possuía certa ligação com aquela casa, afinal de contas, Alicent Hightower era sua bisavó, por outro, ele sentia repulsa, a sede de poder dos Hightower foi um dos fatores que contribuiu para o início da Dança dos Dragões. Eles ficaram do lado dos verdes, do lado perdedor, e até hoje a Casa Hightower tentava se reerguer e deixar o passado da guerra para trás.

Manfred Hightower, aquele era o nome do oponente de Anakin, ele era um cavaleiro habilidoso como o príncipe já tinha sido informado, mas era um homem mais velho, seu corpo já não tinha mais a destreza e agilidade da juventude, no entanto, tinha a experiência para contrabalancear. Era uma batalha onde não bastava apenas contar com a jovialidade como aliada, Anakin sabia que ele iria precisar de muito mais do que isso se quisesse ganhar.

Ao sinal do arauto ele fez o cavalo disparar, novamente ele conseguiu ter a vantagem dos reflexos mais rápidos, mas não podia se dar ao luxo de apenas repetir a estratégia usada com Edgar Arryn, não, dessa vez Anakin faria diferente.

Ele segurou a lança com firmeza e esperou o momento certo para atacar Manfred batendo a lança bem no centro de seu escudo, usando da força de seu corpo Anakin empurrou a lança ainda mais forte e assim fez o outro cavaleiro cair. Manfred no entanto não se deu por vencido, ele levantou do meio da poeira e sacou sua espada, Anakin imediatamente desmontou do cavalo e também puxou a sua, ele já esperava que aquele combate chegaria a essa parte.

Os dois cavaleiros entraram em confronto, aço contra aço, Anakin era estratégico, ágio e até um pouco violento na sua maneira de lutar, Manfred era habilidoso mas não mais tão ágil como deveria ter sido anos atrás, o combate foi bom, Anakin admitia, mas o Hightower não foi páreo para o príncipe.

Anakin o atacou e percebeu como o cavaleiro Hightower perdeu o equilíbrio por uma fração de tempo, o príncipe não perdeu a oportunidade, ele repetiu o ataque e desarmou Manfred, enfim ele se rendeu.

Com mais um combate vencido Anakin ouviu o povo comemorar, agora só faltava mais um e ele se achava pronto para o que viesse, depois de duas vitórias o príncipe começou a se sentir invencível. Para muitos aquele poderia ser considerado um de seus defeitos, como seu próprio pai já tinha lhe dito uma vez, ele tinha muito de seu avô Daemon quando se tratava das artes de combate, mas claro, Aegon não via aquilo com bons olhos. Ele muitas vezes dizia que Anakin deixava seu ego falar mais alto a cada cavaleiro que ele empurrava contra a poeira.

Quando as arquibancadas pararam de gritar, foi anunciado quem seria o próximo cavaleiro a entrar e que enfrentaria Anakin, o segundo melhor daquele dia, Daemon Targaryen.

A ideia de ver dragão contra dragão animou o povo, que ironia, Anakin pensou, vejam só a Dança dos Dragões.

Daemon surgiu em seu cavalo, ele veio marchando lentamente até a arena e passou bem ao lado de Anakin, momento em que ele aproveitou para falar com o primo:

— Você não sairá invicto hoje.

— Veremos, Daemon.

Anakin montou no cavalo, segurou firme as rédeas e esperou Baelon lhe entregar uma nova lança, então os primos ficaram frente a frente.

Zenah olhou primeiro para Anakin e depois para Daemon, seu coração palpitava ainda mais rápido do que na justa anterior, apesar de saber que seu marido era bom ela estava preocupada, afinal de contas, Daemon podia ser bem traiçoeiro.

Ela uniu as mãos, fechou os olhos e prendeu a respiração quando o arauto deu o sinal, tudo o que ela ouviu foi o trotar dos cavalos e de repente o estrondo.

Chapter 4: Aegon e Rhaenys parte 2

Notes:

Curiosidade: O nome Zenah é uma homenagem/foi baseado no sobrenome de Ayrton Senna.

Boa leitura!

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O estrondo foi o barulho das lanças quebrando contra os escudos, ambos se acertaram quase ao mesmo tempo. Daemon foi o primeiro a ser desmontado, mas Anakin não conseguiu manter o equilíbrio e caiu também.

Uma vez no chão tudo o que Anakin viu foi a poeira, mas ele não podia se dar por vencido assim, então rapidamente ele se pôs de pé e puxou sua espada, Daemon já estava fazendo o mesmo.

Anakin começou o ataque, a lâmina de sua espada bateu contra a de seu primo num estalo. Eles ficaram cara a cara cerrando os dentes debaixo dos elmos.

— Seu ego é grande demais, primo. — Daemon disse entredentes na antiga língua valiriana. — Torna a queda mais prazerosa de assistir.

— Dragões não caem, Daemon.

Anakin o empurrou e atacou outra vez, ele sabia que seu primo era furtivo e muitas vezes trapaceiro, então ele não queria dar-lhe tempo de pensar em meios sujos de vencer. Não contra ele.

A luta travada foi ficando cada vez mais intensa e perigosa, naquele momento parecia que ambos se esqueceram de que o torneio deveria ser limpo, sem mortes ou ferimentos graves. Algo previsível para quem conhecia Anakin e Daemon, primos que nunca se deram bem dentro e fora das arenas de torneios, mas que dentro destas achavam caminhos para liberar toda a raiva reprimida.

Zenah não estava gostando do ritmo que as coisas estavam tomando, seus olhos se moviam de um lado para o outro a cada novo golpe e defesa, seu coração estava cada vez mais apertado.

— Talvez seja melhor interromper a luta. — Ela disse ao pai. — Eles vão acabar se matando!

— Você sabe que seu irmão não gostaria que eu interferisse, Zenah. — Aegon respondeu, ele também parecia preocupado com o que estava vendo. — Dessa vez, não posso te ajudar, minha filha.

Ela cerrou os punhos e manteve os olhos vidrados na batalha, naquele momento parecia que Daemon e Anakin tinham se esquecido de que aquilo era apenas um torneio, não uma guerra, e ela não tinha o que fazer para pará-los.

O ar estava pesado e tenso, a luz laranja do final da tarde caia sobre os cavaleiros na arena reluzindo suas armaduras e espadas enquanto eles se digladiavam como dois leões, não, Zenah repreendeu sua própria comparação, como dois dragões selvagens. Porém eles não eram dragões, eram pessoas, eram primos, o sangue não devia falar mais alto? Ela novamente se repreendeu, o mundo já tinha visto que não, o sangue não falava mais alto.

Anakin se lançou para cima de Daemon e urrou quando sua espada se chocou contra a dele outra vez, por baixo daquela armadura pesada ele só sentia o gosto de seu próprio suor e ódio, Daemon era de fato excepcional, mas não iria ganhar dele. Anakin jamais permitiria algo assim.

A batalha prosseguiu sem que um vencedor pudesse ser apontado, até que Daemon perdeu a espada após um ataque do primo e Anakin não deixou aquela oportunidade passar, ele atacou novamente e empurrou Daemon o fazendo cair contra o solo. O povo gritou em celebração, Anakin tinha vencido.

O príncipe herdeiro levantou o elmo para respirar melhor e foi caminhando na direção de Daemon para lhe estender a mão e o ajudar a levantar, foi quando o lado traiçoeiro de seu primo apareceu, ele tentou sacar uma adaga escondida em sua armadura e atacar Anakin, mas o príncipe não foi pego de surpresa. Ele chutou a mão de Daemon quando esta se ergueu com a arma e o desarmou pela segunda vez, mas agora Anakin não foi tão gentil, ele colocou a lâmina de sua própria espada contra o pescoço do primo e disse:

— Renda-se ou eu espero que Viserys me perdoe, porque vou matar você.

Ele tinha um fogo nos olhos, uma mistura da ira pelo ataque sujo que sofrera e seus próprios instintos de batalha, Daemon percebeu aquele fogo e sabia que Anakin estava falando sério, então ele se rendeu cerrando os punhos e os dentes de ódio, perder já era uma vergonha, mas perder para Anakin era ainda mais. Daemon jamais admitiria em voz alta, mas ele odiava o príncipe herdeiro com todas as suas forças, ele o invejava, e se pudesse tomaria seu lugar.

Finalmente Aegon se levantou e anunciou que a batalha estava encerrada, Anakin foi declarado como o vencedor do embate mas ele não comemorou tanto como o povo fazia nas arquibancadas, a luta com Daemon tinha deixado um sabor agridoce, como costumava ser em todas as vezes que eles se enfrentavam treinando nos pátios da fortaleza.

 

A noite caiu em Porto Real e os torneios terminaram por enquanto, toda a família real voltou para a Fortaleza Vermelha onde houve outro jantar para os convidados, mas o casal homenageado do evento não estava presente naquela noite.

Zenah estava em seus aposentos, as criadas tinham a ajudado a trocar o vestido vermelho por uma camisola branca e a deixado ali sozinha, ela estava escovando os cabelos quando ouviu as portas de seu quarto abrirem e de repente Anakin estava entrando.

— Anakin? — Ela exclamou. — O que você está fazendo aqui? Como entrou sem ser anunciado?

Anakin estava cansado depois daquele longo dia na arena, ele passou por Zenah e foi caminhando em direção a latrina privativa que só agora ele havia reparado que a irmã também tinha, para ele foi um alívio.

— Eu não preciso ser anunciado quando vou entrar em meu próprio quarto, não acha?

A resposta de Anakin deixou Zenah confusa, aquele era o quarto dela, não dele.

— O que? Você bateu a cabeça com força demais quando caiu? Esse aqui é o meu quarto!

— Pelo visto ninguém te falou nada, não é? — Anakin colocou o elmo em uma mesa no canto e começou a retirar sua armadura sozinho. — Tio Viserys teve uma conversa com nossos pais e os convenceu de que seria melhor se nós passássemos a dormir juntos todos os dias.

— O que?!

Zenah não sabia de absolutamente nada daquela conversa, e isso a deixou bem frustrada. Seus pais tinham a deixado no escuro para uma mudança tão importante como aquelas, se antes ninguém contou nada agora ela iria fazer o possível para descobrir todos os detalhes:

— E qual o motivo dessa decisão? — Ela perguntou.

— Acho que você sabe bem qual é o motivo, Zenah.

Sim, ela sabia bem qual era o motivo daquela decisão. A princesa suspirou e colocou a escova de volta na penteadeira.

— Bebês… — Ela murmurou irritada.

— Sim, eles acham que a gente tem que correr atrás do tempo perdido e ter filhos o mais depressa possível.

— Eles fazem parecer que é culpa nossa, eles que adiaram esse casamento por anos! E agora querem que a gente lide com isso? Nosso… nosso casamento nem foi consumado ainda!

Zenah sussurrou a última parte para garantir que ninguém mais fosse ouvir, mesmo sabendo que era improvável.

Anakin sabia de tudo isso, o casamento foi adiado por anos por decisão de seu pai, mas infelizmente agora eles queriam que o novo casal corresse atrás do tempo perdido e Zenah aparecesse grávida o mais depressa possível. O problema é que o casamento nem sequer foi consumado, e Anakin não sabia quando seria, e ele não tinha pressa alguma de fazer isso só para engravidar a esposa.

O príncipe terminou de tirar sua armadura e se sentou ao pé da cama de Zenah somente com as roupas que ele estava usando por baixo, seu corpo estava exausto e implorando por um descanso depois daquele longo dia.

— Não há nada que a gente possa fazer, Zenah, eles tomaram a decisão e agora só cabe a nós aceitar.

Anakin até tentou argumentar com seus pais, mas foi em vão, eles não deram ouvidos a ele e se mantiveram firmes na sua decisão de fazê-los dormir na mesma cama, claro, Viserys e Daenaera foram bem persuasivos, e seus pais concordavam com tudo o que eles diziam.

Depois de retirar sua camisa de linho, Anakin a atirou para o canto, foi então que Zenah percebeu que ele tinha ganhado alguns hematomas depois das justas daquele dia, a maior mancha estava nas costas dele.

— Você está bem? — Ela se levantou e foi em direção ao marido. — Olha só para você…

— Faz parte, não estou me sentindo mal.

Zenah não se deu por satisfeita com aquela resposta, ela acreditava que Anakin estava apenas minimizando a dor para não preocupar ninguém, então ela tocou as costas dele com todo cuidado para não machucá-lo, o hematoma não era tão grande mas ainda assim ela ficou preocupada.

— Olha só isso, eu vou chamar o Grande Meistre para dar uma olhada em você.

Zenah estava prestes a sair quando Anakin a segurou pelo braço.

— Ei, quanta preocupação! Zeninha, eu tô bem, você não precisa se preocupar tanto assim.

E lá estava ele usando aquele apelido outra vez, Zenah tocou as costas dele novamente mas seus olhos estavam fixos no chão, aquele apelido a fazia sentir coisas estranhas.

— Suas costas dizem outra coisa, Anakin.

— Zeninha…

— Não fique me chamando assim!

Ela se afastou bruscamente e foi parar do outro lado do quarto em frente a janela, de lá ela conseguia ver o jardim do castelo, uma das suas partes favoritas daquele lugar desde sempre.

— Por que não posso te chamar assim? Você gostava desse apelido quando éramos crianças.

Anakin tombou a cabeça para o lado, era interessante chamar Zenah por aquele apelido, ele gostava das reações que ela tinha, a princesa no entanto parecia irritada. Ou ao menos estava fingindo. No fundo ela não sabia dizer exatamente o que aquele apelido a fazia sentir, era como se a palavra estivesse ali na ponta da língua mas Zenah simplesmente não soubesse como dizê-la em voz alta.

— Diziam que Aegon se casou com Visenya por obrigação e com Rhaenys por desejo. — Zenah disse sem olhar para Anakin, mas sabia que ele estava prestando atenção. — E era com ela que ele passava a maior parte das noites, não com Visenya. Rhaenys foi a primeira a lhe dar um filho, Aenys I, e provavelmente teria lhe dado outros filhos se não fosse aquela tragédia em Dorne, já parou para pensar nisso?

Ela se debruçou sobre a janela depois de falar, fechou os olhos e deixou a brisa suave tocar seu rosto, aquela sensação sempre lhe trazia paz.

— Você é muito sonhadora às vezes, Zenah, sempre foi dada às histórias de amor. Eu lembro de quando éramos crianças, você adorava ouvir a história de Jaehaerys e Alysanne, e odiava quando eu nunca queria brincar de fingir ser ele. — Anakin disse.

— E até hoje não entendo o porquê você nunca quis! Era tão legal quanto a época da conquista!

Zenah rebateu em um tom frustrado, o mesmo que ela usava no passado quando ele recusava a brincadeira, Anakin sentiu nostalgia, mas a deixou de lado para responder:

— Claro que não! Na época da conquista tivemos as batalhas, o início dos Sete Reinos unidos, o reinado de Jaehaerys foi um período de paz, o que nós iríamos fazer? Fingir que estávamos brigando por causa da princesa Saera? Seria sem graça!

Zenah respirou fundo e decidiu finalmente contar algo a Anakin, algo que ela manteve só para si por muito tempo:

— Eu às vezes queria brincar de ser a Alysanne para poder imaginar como seria o dia em que seríamos casados e teríamos a nossa família.

Aquela era a mais pura verdade, Zenah e Anakin sempre souberam que um dia iriam se casar e só estavam esperando pelo momento, mas ela passava seu tempo sonhando em como seria ter filhos com ele, como seria ser esposa e a rainha dele, e no fundo, ela queria que seu casamento fosse como o de Jaehaerys e Alysanne.

Os olhos de Anakin se arregalaram e seu queixo caiu, era um daqueles raros momentos em que não se sabe o que dizer, ele não imaginava que sua esposa estivesse imaginando o futuro deles juntos desde tão cedo. Ele se levantou da cama e foi em direção a ela bem quando Zenah se virou, os dois ficaram cara a cara em silêncio até que Anakin tocou o rosto dela e ficou surpreso quando ela não o afastou, vendo isso como um sinal positivo ele deixou que sua mão ficasse ali por mais tempo.

— Sabe que às vezes eu até vejo um pouco de Rhaenys e Alysanne em você? Sempre que a gente brincava e você fingia estar montando em um Meraxes imaginário eu podia ver a rainha Rhaenys ali. — Anakin sorriu para ela. — Acho que você tinha razão quando não queria fingir ser a Visenya, você não é nada igual a ela.

— E isso é bom ou ruim?

Em vez de lhe dar uma resposta, Anakin se inclinou e beijou a testa de Zenah, foi um gesto carinhoso e surpreendente até para ele.

— Você é uma sonhadora, Zenah, eu queria que a vida fosse tão doce quanto nos seus sonhos.

Ele se afastou dando espaço para que Zenah pudesse sair ou ficar brava com ele se assim quisesse, mas ela não fez nada disso, pelo contrário, Zenah apenas piscou algumas vezes como se quisesse recobrar a consciência e aí sim ela se afastou, mas sem esbravejar nem nada.

— Que lado da cama você vai querer? — Ela perguntou já distante dele.

— Você é a dona da cama então acho que é certo te deixar escolher aonde eu posso dormir, não?

Zenah revirou os olhos e no final das contas apontou para o lado direito.

— A partir de hoje esse é o seu lado, está bem?

— Claro, mas quem sabe uma noite dessas a gente não dorme bem juntinhos um do outro?

— Anakin!

Ela finalmente bufou e Anakin caiu na gargalhada.

 

Naquela noite Anakin sonhou que voava nas costas de Balerion, o dragão era tão grande que sua sombra encobria cidades inteiras e seu rugido era ouvido por quilômetros de distância, mas ele era uma criatura formidável. Logo atrás dele vinha um segundo dragão, Meraxes, e nas costas dele estava Zenah.

Os dois dragões pousaram em um campo aberto onde o casal saiu correndo. À medida que a princesa se distanciava, Anakin tentava trazê-la de volta para si. Ele esticava as mãos e agarrava o vazio em vão, até que finalmente ele pôs os braços na cintura de Zenah e a puxou contra si, os dois pararam de correr e Anakin continuou a abraçando, de repente ele pôde ouvir tudo o que ela tinha lhe dito antes quando estavam acordados: Aegon se casou com Visenya por obrigação e com Rhaenys por desejo.

Ele se sentiu como Aegon e via Zenah como Rhaenys, e por isso ele a beijou.

Quando acordou Anakin viu Zenah ainda adormecida ao seu lado, estava escuro lá fora o que o fez perceber que só haviam se passado algumas poucas horas desde que ele caiu na nova cama e adormeceu, Anakin tocou o rosto da esposa com cuidado para evitar acordá-la e depois sussurrou:

— Minha Rhaenys… minha Alysanne.

Chapter 5: Um Passo de Cada Vez

Notes:

Boa leitura!

Chapter Text

Na manhã seguinte a corte e os convidados seguiram para a Mata de Rei onde haveria uma caçada, fazia parte da programação dos eventos do casamento. Anakin, Zenah e seus pais estavam na mesma carruagem a caminho do local onde o pavilhão havia sido montado, sendo escoltados pela guarda real.

O silêncio dentro da carruagem era um pouco desconfortável na opinião de Zenah e tornava o caminho mais longo do que realmente era. Mas não era uma novidade. Seus pais usualmente viajavam em silêncio, quase como se o ato de falar fosse difícil demais para eles.

Zenah remexia no tecido de seu vestido várias vezes enquanto observava a paisagem da floresta lá fora, ela queria achar alguma coisa para falar sobre mas nada lhe vinha à cabeça, e na maior parte das vezes seus pais não iriam se interessar pelo assunto.

Ela na verdade não queria estar naquela carruagem, pouco antes deles partirem Zenah tentou pedir permissão ao rei para ir com seu dragão, Dreamfyre, mas Aegon negou dizendo que um dragão tão grande como aquele só iria assustar os animais da floresta e atrapalhar a caçada. No entanto Zenah sabia que mesmo que Dreamfyre fosse do tamanho de um gato seu pai não permitiria a presença dela ali.

O caminho para a Mata de Rei estava especialmente desconfortável hoje, a carruagem chacoalhava e as rodas iam de encontro com pequenas rochas mais vezes do que o normal, Anakin já estava ficando incomodado.

— O que aconteceu com essa estrada hoje? Deve ser a milésima vez que eu vejo a Zenah se segurando para não cair! — Ele comentou irritado, enfim quebrando aquele silêncio.

— Teve uma chuva forte alguns dias atrás, com muita ventania — A rainha Jaehaera disse. — Soube que algumas árvores caíram.

— Poderíamos ter evitado esse transtorno vindo com nossos dragões.

Anakin bufou, ele também queria ter trazido Caraxes, e também foi impedido por seu pai.

— Eu volto a dizer, dragões só iriam atrapalhar a caçada, os animais ficariam assustados demais e iriam escapar.

Foi Aegon quem disse, ele estava sentado ao lado da esposa, à frente deles estavam os três filhos.

Parecia que o silêncio voltaria a tomar conta do interior da carruagem quando Baelon abriu um sorriso de canto:

— Mas teria sido interessante caçar com nossos dragões…

— Vocês poriam fogo na floresta por imprudência e teríamos um desastre. — A resposta do rei foi seca e levemente irritada. — Sem mais.

Baelon baixou a cabeça após ter sido repreendido pelo pai, então Zenah tocou o braço dele de uma maneira a tentar confortar o irmão mais novo, Anakin não fez nada, mas ele quase pensou em rebater o pai. O que não seria nada bom. Eles estavam a caminho de uma celebração e brigar logo no início só faria mal a todos eles, mas não quer dizer que a raiva diminuísse.

A rainha Jaehaera olhou os rostos de cada um de seus filhos, a carranca de Anakin, a expressão perdida de Zenah, e a vergonha de Baelon, ela não gostava de vê-los daquele jeito apesar de tudo.

— Vai ser um dia divertido, meus filhos. Anakin, Baelon, vocês vão poder caçar um pouco e Zenah e eu ficaremos com as outras damas da corte.

— Não vou poder entrar na floresta, mãe? — Zenah perguntou.

— É mais recomendado que você fique e faça companhia às senhoras, como princesa e futura rainha é seu dever ser uma boa anfitriã.

A rainha foi enfática, algo que Zenah já estava acostumada. Desde sempre a princesa ouvia a mãe falar sobre o dever como se aquilo fosse a coisa mais importante da vida de uma rainha, uma herança que ela herdou de sua avó, Alicent Hightower.

A rainha Alicent implantou na cabeça da neta que ela deveria se entregar a coroa de corpo e alma, mesmo que para isso precisasse se anular. Mas Zenah não concordava com aquela visão. Porém, o que ela poderia fazer afinal? Sua mãe era a rainha, ela era apenas a futura rainha. Era como se elas fossem uma roseira, Jaehaera era uma rosa já crescida e bem cuidada, enquanto Zenah era apenas um botão de rosa esperando para seu dia de florescer e quem sabe ver as coisas pelo ângulo da rosa mais velha.

Anakin olhou para Zenah pelo canto do olho, era curioso como ele sempre conseguia saber quando sua esposa estava pensativa ou perdida nas próprias metáforas, um costume que Zenah tinha desde a infância e ele já tinha aprendido a notar. De certa forma ele achava a personalidade pensativa de Zenah uma graça, mas sempre se perguntava o que se passava na cabeça dela, às vezes Anakin queria entrar ali e entendê-la como mais ninguém faria, ter um gostinho do que era sua esposa além do que ela queria mostrar aos outros, além do que ela queria lhe mostrar.

Um novo solavanco dentro da carruagem fez o príncipe resmungar, ele só desejava que aquele trajeto terminasse logo, ou ele iria preferir descer e seguir a pé.

— Vocês acreditam que já produziram um herdeiro?

Foi Jaehaera quem perguntou de repente, Zenah se manteve surpreendentemente calma, Anakin no então sorriu de orelha a orelha e cruzou as pernas:

— Com certeza! Acredito que logo logo teremos um príncipe ou princesa correndo por aí!

Zenah se segurou para não arquear a sobrancelha e questionar do que Anakin estava falando, eles só teriam um herdeiro com um milagre divino já que até então eles nunca dormiram juntos, e agora Anakin estava mentindo para seus pais.

— Essa é uma boa notícia, meu filho. — Jaehaera tentou esboçar um sorriso, mas ele não chegou aos seus olhos. — Um menino seria o ideal.

— É claro, quem sabe não temos um menino e o batizamos de Aegon? Um nome tão original para um rei em Westeros!

Anakin foi irônico propositalmente, às vezes ele gostava de fazer isso, provocar seus pais e tentar de alguma forma arrancar um resquício de sentimento deles, mas não adiantou. O rei Aegon apenas aquiesceu, e Jaehaera baixou o olhar.
Zenah finalmente olhou para Anakin como se quisesse perguntar a ele o que foi aquilo, mas agora não era a hora para isso, então ela foi forçada a se calar e esperar.

 

Na Mata de Rei a família real foi recebida com alegria, em especial os recém casados, Zenah e Anakin andaram pela multidão recebendo aplausos e assobios dos lordes e também dos funcionários. O povo comum estava muito feliz com aquele casamento, já que eles adoravam os filhos do rei Aegon mais do que ele próprio e a rainha Jaehaera.

Anakin e Baelon passaram as primeiras horas caçando na floresta junto de alguns lordes, eles encontraram javalis, alguns gansos e Anakin até matou um cervo, todos os animais abatidos foram trazidos para o acampamento onde seriam preparados para o jantar. O rei Aegon não participou de nenhuma caçada com os filhos. Ele nunca participou de caçada nenhuma na verdade, como de costume Aegon se alojou na tenda designada para a família real e lá permaneceu com lordes e serviçais o rodeando, não que ele se interessasse mais por conversas do que na brutalidade da caça, ele apenas não tinha interesse por nada do que acontecia ali, e entre as opções disponíveis escolhia a que em sua visão era a menos pior.

Enquanto o rei se forçava a prestar atenção em uma conversa fiada de Lorde Francis Tully, Anakin apareceu, ele e Baelon tinham acabado de voltar da floresta após caçar o cervo e decidiram fazer uma pausa para descanso. O príncipe herdeiro foi caminhando entre as pessoas até chegar aonde sua mãe e esposa estavam, o rei a essa altura nem sequer ouvia o que o Tully dizia, ele estava prestando atenção no filho.

A sombra de Anakin encobriu Zenah e anunciou sua presença ali, a princesa levantou a cabeça e lá estava seu marido.

— Anakin? Já voltou da caçada?

— Você é sempre tão casual com o seu marido, vossa graça?

Perguntou Melba, uma mulher de idade próxima a da rainha, ela era esposa de lorde Andrew Redwyne da Árvore e ambos tinham vindo representando sua casa para assistir o casamento.

Anakin não gostou daquele comentário, suas mãos atrás das costas se fecharam até os nós dos dedos ficarem brancos, mas ele se conteve para não ser rude.

— Anakin e eu fomos próximos desde a nossa infância, a casualidade se tornou um hábito entre nós. — Disse Zenah a mulher com toda a educação do mundo.

— Além de que somos marido e mulher. — Anakin acrescentou. — Não há necessidade de formalidade entre nós, há?

Ignorando completamente a existência de Melba, Anakin girou nos calcanhares e pôs os olhos em Zenah.

— Venha comigo.

Ele disse sem dar grandes explicações, o que deixou a princesa confusa.

— Para onde?

— Venha, sei que você vai gostar.

Ele estendeu a mão para ela e Zenah fez menção de tocá-la e foi então que a rainha interveio:

— Zenah precisa ficar e continuar a fazer companhia para as senhoras, Anakin.

A princesa se retraiu, por um lado ela sabia que devia ficar e continuar sendo uma boa anfitriã como era esperado, mas sinceramente, ela queria sair um pouco. Zenah desejava ir na floresta lá fora, ver os animais, as flores, tudo, mas como dizer isso a mãe sem ser repreendida?

Anakin sabia muito bem que Zenah iria acatar a decisão da mãe deles, e por isso mesmo ele agiu, o príncipe segurou a mão da esposa firmemente e disse:

— Zenah, isso não é algo que eu goste de fazer ou que irei fazer com frequência, mas se é a única forma de vencer nossa mãe então que seja: vamos, eu sou seu marido e não estou pedindo, estou mandando.

Jaehaera não gostou de ser contrariada, ela estava prestes a falar quando Aegon apareceu por detrás dela, o rei tocou os ombros da esposa e somente com aquele gesto a rainha ficou calada.

Zenah imediatamente se pôs de pé e seguiu Anakin para fora da tenda, ao sair o cheiro de fumaça da fogueira e carne sendo assada invadiram suas narinas, aquilo abriu seu apetite, mas a princesa tinha outras prioridades antes de ir comer, ela queria sair e se divertir.

— Foi como usar dever contra dever. — A princesa disse enquanto ela e o marido caminhavam. — Mas nunca mais repita isso.

— Eu já disse que não vou fazer isso, Zeninha. Não quero mandar em você.

A princesa suspirou, algo lhe dizia para confiar nele.

— Obrigada.

Ela sussurrou, Anakin não sabia se ela estava agradecendo por ele afirmar que não iria mandar nela ou se foi por tê-la tirado de lá.

 

Anakin levou a esposa para a floresta a cavalo, Zenah queria ir em sua própria montaria, mas o príncipe insistiu tanto para que eles fossem juntos que ela aceitou. Agora estavam ambos na trilha e Anakin guiava seu cavalo sem pressa alguma de voltar.

— Estamos indo a algum lugar específico? — Zenah perguntou depois deles estarem a certo tempo andando, ela olhava ao seu redor e tudo o que podia ver era o verde das árvores e arbustos, o ar cheirava a pinho e carvalho. — Ou você só está nos levando sem rumo certo?

— Acertou em cheio, não sei exatamente para onde estamos indo, não parece interessante? Sair andando e ver aonde a vida vai nos levar.

— Mas o pessoal vai ficar preocupado com a nossa demora…

— Zenah, eu tenho certeza de que eles pensam que estamos em alguma moita por aí transando.

— Anakin! — Zenah franziu o cenho e bateu no ombro dele. — É claro que não!

O príncipe começou a rir, ele estava ciente de que Zenah não era ingênua e sabia que sim, aquele era o pensamento mais provável de seus pais e do restante das pessoas no acampamento, ela só preferia negar devido a natureza do pensamento.

— Zeninha, as pessoas pensam em sexo, pensam muito em sexo. E o que eles acham que um casal jovem faria sozinho na floresta?

Ela não respondeu a pergunta dele porque não queria lhe dar o gostinho de estar certo.

Anakin fez o cavalo parar de repente e desceu, depois ele ajudou Zenah a fazer o mesmo, os dois estavam no meio da floresta já bem afastados do acampamento. Antes ela ainda conseguia ouvir o som dos latidos dos cachorros e as vozes abafadas das pessoas, agora tudo o que eles ouviam era o piar dos pássaros e o farfalhar das folhas. Zenah olhou ao seu redor, não tinha nada ali que indicasse o porquê Anakin veio até aqui e a trouxe junto.

— O que viemos fazer aqui?

— Você já vai ver.

Ele estendeu a mão e segurou a dela, depois Anakin a levou por entre os arbustos até que eles chegaram à beira de um penhasco, ali o vento parecia estar mais forte mas a vista era de tirar o fôlego.

O príncipe apontou para a esquerda, a direção onde eles podiam ver Porto Real e a Fortaleza Vermelha no topo da colina de Aegon, o grande castelo parecia tão pequeno dali, como se eles pudessem pôr na mão e segurar, Zenah ficou impressionada com aquela vista, ela caminhou cuidadosamente até mais perto da borda e sorriu maravilhada.

— Que lindo, a gente consegue ver quase tudo daqui.

— Sim, quase tudo, Porto Real, a Baía da Água Negra, nossa casa. — Anakin parou ao lado dela e cruzou os braços. — Se estivéssemos com nossos dragões poderíamos ver ainda mais, teríamos ido até Ponta Tempestade e voltado.

— Infelizmente não pudemos trazê-los, mas quem sabe um dia?

Eles continuaram observando a vista por algum tempo em silêncio, logo depois o casal se sentou em um tronco de árvore caído perto dali de onde eles ainda conseguiam ver a vista, Zenah, como de costume, estava distante, distraída com a paisagem. Anakin no entanto não prestava mais atenção na Fortaleza Vermelha ou em qualquer coisa ao redor, ele só tinha olhos para a esposa.

— Zenah…

Anakin estava prestes a dizer algo quando o vento trouxe os sons do acampamento, o barulho dos latidos dos cachorros e agora um novo som, uma música sendo tocada. Era quase impossível distinguir o que estava sendo cantado to, mas o príncipe teve uma ideia.

Ele se pôs de pé e estendeu a mão para Zenah, quando ela ficou de pé Anakin a puxou para perto e simplesmente começou a dançar com ela.

— O que é isso, Anakin? — Zenah perguntou, ela não tinha entendido o porquê eles começaram a dançar de repente no meio da floresta.

— Me deu vontade de dançar, só isso — Ele deu de ombros. —, então vamos dançar juntos, um passo de cada vez.

A princesa não entendeu, mas continuou dançando com Anakin, os dois giravam e giravam de um lado para o outro, até que era divertido.

— Um passo de cada vez.

Zenah repetiu, à medida que eles continuavam dançando, ambos ficaram mais soltos, mais alegres. Eles riram e rodopiaram até perder a noção de tudo ao redor e esquecer completamente sobre a floresta, a caçada, tudo.

Em meio às risadas, Anakin segurou Zenah pela cintura e a levantou antes de começar a girar com ela nos braços. Ambos sorriam um para o outro. Quando ele pôs a esposa no chão outra vez eles estavam cara a cara rindo feito crianças. De repente Anakin se pegou encarando Zenah por tempo demais.

— Até que foi divertido esse negócio de um passo de cada vez.— A princesa admitiu.

— Sim, é bem divertido, não é? Seguindo esse ritmo assim sem regras, deveres, somente o nosso próprio desejo…

Zenah balançou a cabeça concordando, Anakin não tinha soltado a cintura dela ainda, na verdade ele foi chegando cada vez mais perto, seus dedos traçaram a cintura dela lentamente, quase em um toque imperceptível.

— Só a nossa própria vontade e mais nada.

Ele murmurou, seus lábios pairando a um fio de distância dos dela, os dois então olharam nos olhos um do outro e roçaram os narizes. Por um momento houve uma pequena hesitação, como se algo estivesse os segurando, mas não demorou muito e as amarras invisíveis se revelaram inexistentes. E então Anakin a beijou nos lábios. E Zenah correspondeu.

O beijo não durou muito, mas para Anakin foi tão bom, mais do que ele imaginava que seria, o toque dos lábios da princesa era macio e gentil como uma flor. Quando os dois se separaram, Zenah deu um passo atrás boquiaberta, seu coração estava martelando em seu peito e qualquer linha de raciocínio desapareceu de sua mente.

— O que foi isso?

Ela murmurou ainda em choque, Anakin pensou em responder de forma irônica, só para provocá-la, mas por alguma razão, talvez os sentimentos que aquele beijo despertou nele, Anakin ignorou aquela vontade e simplesmente a beijou de novo com mais vontade do que antes, e Zenah correspondeu da mesma maneira. O vento gelado a fez estremecer e aproximar seu corpo do de Anakin, quando eles se separaram outra vez Zenah não se afastou.

Anakin tocou o rosto dela e lentamente desenhou o contorno de sua bochecha corada, tudo isso enquanto sorria.

— Um passo de cada vez, entendeu? — Ele sussurrou para ela, Zenah observou a mão dele dedilhando seu rosto e no final ela também sorriu mesmo estando ainda surpresa. — A cada dia vamos descobrir algo novo, sem a menor pressa para isso, entende? Como na dança que fizemos agora, onde fomos seguindo lentamente até estarmos rindo à toa, o que você acha?

Era uma proposta que Zenah sinceramente não estava esperando, e que talvez antes ela teria ficado um pouco receosa de aceitar, mas agora depois daqueles beijos ela sabia muito bem qual seria sua resposta.

 

Os dois voltaram para o acampamento onde receberam olhares maliciosos de todos, sim, todo mundo ali pensava que eles tinham fugido para dentro da floresta para terem um momento de intimidade. Zenah ignorou os olhares e seguiu de volta para a tenda maior onde seus pais e os nobres estavam, Anakin veio logo atrás, ele era o motivo de todos aqueles sorrisos e os pensamentos impróprios, o motivo? O sorriso idiota estampado no rosto do príncipe.

Chapter 6: Mil Beijos e Mais

Notes:

Boa leitura!

Chapter Text

Era enfim o último dia das festividades do casamento de Anakin e Zenah, depois de sete dias regados a vinho, dança, lutas e caçadas a rotina finalmente voltaria ao normal depois daquela última noite.

Para encerrar a celebração houve uma encenação de uma batalha naval na Baía da Água Negra logo no começo da tarde, mas enquanto todos estavam assistindo ao espetáculo na água e Daeron se laumiriava por não poder participar devido aos dedos quebrados, o casal que foi celebrado a semana inteira estava longe dali, sem assistir a nada do que acontecia.

Anakin levou Zenah até o quarto deles quando ninguém estava olhando e lá trancou as portas para que não fossem interrompidos, imediatamente ele agarrou Zenah pela cintura e a beijou nos lábios como um homem sedento diante de um jarro de água.

Desde aquele dia da caçada, quando ambos se beijaram pela primeira vez, Anakin e Zenah trocavam beijos quase a todo momento, era sempre assim, quando eles se viam sozinhos em algum lugar a vontade de tentar de novo aparecia e aí logo eles estavam feito dois jovens que recém descobriram mais do amor e dos desejos.

Anakin se entregava aos beijos como se precisasse deles para viver, Zenah no entanto ainda era cautelosa, e ele conseguia sentir isso. Como se uma parte dela ainda impedisse que ela se entregasse por inteiro aos sentimentos que floresciam entre eles.

Quando o príncipe se afastou de Zenah em busca de ar ele segurou o rosto dela entre as mãos e cobriu seus lábios de beijos suaves.

— O que foi, Zenah? — Ele disse quando sentiu novamente ela hesitar. — Somos casados, uma hora ou outra isso poderia acontecer, e no nosso caso aconteceu até que bem rápido.

Anakin sorriu e a beijou outra vez, Zenah segurou seus ombros mas não o afastou, ela não queria de jeito nenhum que o beijo acabasse, mas ainda assim ela se sentia um pouco confusa e preocupada.

— Talvez devêssemos voltar, eles vão dar por nossa falta.

— Ninguém vai perceber a nossa falta até a hora em que a gente precisar aparecer com Dreamfyre e Caraxes, estão todos ocupados demais assistindo os barcos, Zeninha.

Como se para provar seu ponto Anakin a segurou pela mão e a puxou até a janela onde eles puderam ouvir os sons das pessoas gritando e a encenação da batalha na água.

— Vê? Ninguém vai vir atrás de nós, além do mais, mesmo que eles percebessem que não estamos lá você já sabe o que eles pensariam que viemos fazer.

— Não é possível que eles caiam nessa história para sempre, Anakin.

— Como não? Zeninha… — Ele abriu um largo sorriso malicioso. — Eles vão pensar que somos como dois coelhos no cio.
Zenah respirou fundo e resmungou depois de ouvir aquela comparação.

— Anakin, nós não somos dois coelhos no cio! Não faça esse tipo de comparação tão… tão… tão feia!

Ele caiu na gargalhada, mesmo quando Zenah parecia estar brava ela não conseguia parecer assustadora, só uma garotinha raivosa porque seu brinquedo favorito lhe foi negado.

— Mil perdões, vossa alteza, não sou exatamente o melhor com as palavras, me deixe compensar meu jeito vulgar, está bem?

Ele a puxou e colou seus lábios aos dela em um novo beijo, mesmo ainda brava, Zenah retribuiu o beijo, e retribuiu o outro. O outro. E o outro.

Anakin segurou Zenah pela cintura e a levantou do chão, os cabelos prateados da princesa caíram sobre o rosto e ombros dele, mas Anakin não se importava, na verdade ele amava o cheiro e a textura dos cabelos de Zenah, só não tinha dito isso a ela ainda.

Naquele dia Zenah estava usando um vestido azul escuro com alças caídas nos ombros que deixavam sua clavícula e ombros à mostra, já Anakin usava uma túnica preta simples, uma roupa do dia a dia, porém sua espada valiriana na cintura. Quando ele separou seus lábios dos dela o príncipe imediatamente começou a espalhar beijos pelo ombro da esposa, Zenah ficou surpresa com o ato.

— Anakin, eu não sei…

— Você quer que eu pare? — Ele levantou o olhar para o rosto corado de Zenah e ficou surpreso quando ela balançou a cabeça de um lado para o outro. — Tem certeza de que quer que eu continue?

— Eu… — Ela hesitou por um instante mas depois respirou fundo. — sim tenho.

Então ele voltou a beijar a pele dos ombros de Zenah lentamente, ela estava cheirando a flores, um aroma suave mas que Anakin estava começando a gostar.

Zenah colocou os braços ao redor do corpo dele quase o puxando contra si involuntariamente, aquela parte dela que estava confusa ainda tentava se fazer presente, mas a outra parte dela, aquela que amava os beijos de Anakin, não queria pôr um fim no momento deles.

— Zenah… vem comigo.

Ele estava prestes a puxá-la para a cama, mas foi então que Zenah se afastou e arregalou os olhos.

— O que? Por quê?

— Você não quer? — Anakin franziu o cenho. — Eu pensei que você também quisesse, perdão eu…

— Eu quero. — Zenah o interrompeu. — Mas ao mesmo tempo não, eu não sei explicar… acho que estou com medo, Anakin.

Zenah não queria dizer a ele que ao mesmo tempo que ela queria dar esse passo com seu marido ela também se sentia assustada, esse foi o motivo que ela negou na noite de núpcias e que ainda a fazia ficar confusa agora. Talvez Anakin fosse ficar bravo, ela pensou, talvez ele fosse se irritar de tanto esperar e apenas ir se aliviar em algum dos bordéis imundos da Baixada das Pulgas, era o que muitos nobres faziam e infelizmente ninguém dizia nada a respeito. Essa situação era normalizada, encorajada, mas isso não mudava a forma como Zenah pensava sobre o assunto. A simples ideia de ser traída lhe causava um aperto no peito, não, não por Anakin. Ela não suportaria.

O príncipe não ficou bravo, ele não gritou, não a forçou, na verdade ele apenas a abraçou cuidadosamente. Zenah não soube como reagir.

— Você precisa confiar mais em mim quando eu te digo que não vou sair a procura da primeira puta que eu ver pela frente, Zenah. Nós nos conhecemos desde sempre, me diga, como esposa e irmã, você acha que eu seria capaz disso?

A resposta correta era apenas uma, e Zenah já sabia qual, por isso ela o abraçou de volta e escondeu o rosto no pescoço dele.

— Não, você não me faria sofrer desse jeito.

— Nunca, nem em mil anos. — Anakin apertou os braços ao redor dela e sorriu. — Sua boba.

— Não sou!

— Ah sim, você é!

Eles riram e Anakin a levantou nos braços outra vez, ele gostava de fazer isso só para provocá-la e mostrar como ele era mais alto, mas também porque gostava de segurá-la assim tão perto.

— Não temos pressa de nada Zenah, lembra? Um passo de cada vez.

Zenah então o olhou nos olhos, uma ideia tinha se passado por sua cabeça.

— Podemos tentar algum passo, mesmo que não seja o grande passo hoje…

Anakin arqueou uma sobrancelha, por um segundo ele não acreditou ter ouvido mesmo aquilo saindo da boca de Zenah.

— Você tem certeza disso?

Ele perguntou só para confirmar que não tinha imaginado coisas, e ela aquiesceu.

Então ele sorriu para a esposa, pois já sabia exatamente o que eles poderiam fazer.

 

Enquanto os olhos de Porto Real estavam voltados para as águas, Anakin levou Zenah até a cama com dossel que outrora pertencia somente a princesa, e agora a ambos, ele puxou as cortinas mesmo sabendo que de nada adiantaria já que o tecido não os separava do restante do quarto, ele era transparente e por isso permitia que qualquer um visse tudo, mas se esconder nem era o objetivo de fato, o ato da separação era mais simbólico do que ao pé da letra.

Anakin viu Zenah se remexer em uma mistura de inquietação e curiosidade, ele então se aproximou da princesa e sorriu.

— O nosso primeiro pequeno passo hoje será…

E então ele atacou Zenah com cócegas, ela foi pega de surpresa mas começou a rir e se remexer tentando fazê-lo parar, Anakin só se afastou quando teve certeza de que a esposa estava muito mais calma do que antes.

— Ei! O que foi isso? Cócegas? Eu não entendi.

— Eu só queria te deixar mais tranquila, e consegui, não é? — Anakin sorriu, foi engraçado fazer cócegas nela, o fez lembrar de quantas vezes ele fez isso durante a infância deles. — Agora vamos falar sério, está bem? O próximo pequeno passo que vamos dar hoje vai ser importante, muito importante.

Anakin nunca foi o melhor com palavras, tanto que era por isso que muitas vezes ele ia direto ao ponto e soava vulgar aos olhos de Zenah. Se dependesse dele a explicação do que ambos fariam agora seria simples e direta, mas se tratando de uma pessoa como Zenah ele decidiu tentar usar seu conhecimento de anos estudando com os meistres e abordar o assunto com ela com sutileza:

— Você sabe, quando tocamos certos lugares em nossos corpos nós sentimos uma sensação boa, muito boa, chamamos isso de prazer. — Ele disse quase soando até meio idiota. — E é por isso que usamos essas regiões para estimular não só a nós mesmos, mas o parceiro também.

— Anakin, você não precisa me explicar como se eu fosse algum tipo de ignorante analfabeta. — Zenah parecia incomodada com o tom da explicação. — Mas claro, não seja vulgar.

O príncipe suspirou e recalculou sua maneira de agir, então ele se aproximou de Zenah e ficou de joelhos na cama.

— Vamos fazer o seguinte então, Zenah… — Sem aviso prévio Anakin afastou sua espada e logo em seguida retirou sua túnica deixando que seu peitoral ficasse a mostra, ele viu como a esposa ficou sem reação. — Você já me viu assim antes.

— Por que está tirando suas roupas?

Foi o que Zenah conseguiu dizer, Anakin não deu a ela uma explicação de imediato, ele apenas se aproximou mais da princesa e tocou a saia de seu vestido.

— Você me deixaria ver você sem esse vestido?

Zenah arregalou os olhos, ela iria estapear Anakin pela ousadia da pergunta se ele não tivesse acrescentado rapidamente:

— Você não vai ficar nua, só com as roupas de baixo. Deixemos essa parte para um próximo passo.

Foi um alívio, tanto que Zenah suspirou, mas ao pensar em ficar apenas em trajes simples na frente de Anakin ela se sentiu um pouco preocupada em como poderia ser a reação dele, porém no final sua coragem falou mais alto e então ela aceitou.

Zenah tirou seu vestido com a ajuda de Anakin e logo ela estava apenas em suas anáguas e chemise de linho bordado, foi uma surpresa interessante para Anakin quando ele percebeu a delicadeza do tecido com algumas rendas bem trabalhadas e fitas ajustáveis, um pensamento indecente cruzou sua mente, puxar aquelas fitas uma a uma…

Mas ele se conteve, por Zenah ele sabia que deveria.

— Você já estava bonita com aquele vestido, agora está ainda mais. — Ele sorriu e tocou os ombros de Zenah carinhosamente. — Preparada?

— Não sei, você não me explicou exatamente o que nós vamos fazer!

Anakin sabia disso, ele não explicou e tinha um motivo, ele sabia que com palavras não iria conseguir mostrar a ela o quão bom seria, mas com ações sim.

— Você quer parar? — Ele perguntou. — Se quiser colocamos as roupas e fica tudo bem, não vou ficar chateado com você, eu prometo.

Zenah ficava mais surpresa a cada minuto, Anakin era tão cavalheiro com ela, tão gentil e paciente, ele se mostrava ser exatamente o contrário do marido que ela temia que ele fosse, e isso enchia seu coração de paz e felicidade.

— O que acontece se eu disser que quero continuar? — Ela perguntou.

— Então você me deixa colocar a mão entre as suas pernas.

Zenah riu achando que aquilo era apenas uma piada de Anakin, mas ao perceber como ele falava sério ela ficou vermelha.

— O que…

Anakin a olhava com um sorriso malicioso nos lábios, a reação dela foi a melhor de todas.

— Você quer isso, Zeninha?

Ele aguardou pacientemente pela resposta, torcendo desesperadamente para ouvir um sim.

— Eu quero, Anakin.

A resposta dela foi hesitante e disposta a continuar ao mesmo tempo, então Anakin deu um passo à frente, era hora de começar.

Ele esticou o braço direito e abriu a mão, ela pousou sobre a barriga de Zenah e depois lentamente foi descendo até seu ventre, a princesa acompanhava cada movimento com os olhos.

— Desse jeito você não vai sentir nada.

— Como assim? — Zenah perguntou.

— Você ainda está tensa, vamos resolver isso primeiro.

Ele a beijou nos lábios e abraçou seu corpo com o braço esquerdo, à medida que Zenah foi se perdendo no beijo de Anakin ele enfim deslizou sua mão ainda mais baixo até que enfim seus dedos estavam tocando Zenah exatamente onde ele queria. A princesa arqueou as costas e suas mãos anteriormente caídas ao lado do corpo agarraram os ombros de Anakin, ela ficou surpresa com a sensação que subiu por sua pele.

— O que… — Ela murmurou contra os lábios dele.

— Apenas feche os olhos e sinta, Zenah.

Ela lentamente obedeceu e fechou seus olhos, Anakin então viu aquilo como um sinal para continuar e assim ele fez, sua mão trabalhava lentamente, tocando Zenah exatamente naquele ponto onde ele sabia que ela sentiria algo novo, algo bom, o prazer. Ele não tinha a menor pressa, tudo o que ele queria agora era fazê-la se sentir bem.

Aos poucos Zenah foi deixando qualquer dúvida ou tensão de lado e foi se entregando aquela estranha nova sensação que Anakin estava lhe dando. Era de fato bom como ele tinha dito, mais do que apenas bom, ela não sabia expressar em palavras naquele instante e nem queria pensar demais, sua mente estava totalmente voltada para Anakin e o prazer que ele lhe dava.

Um suspiro e um gemido baixinho escaparam dos lábios dela, Anakin sorriu satisfeito e persistiu nos movimentos de seu dedo, lentamente ele introduziu mais um e aperfeiçoou os carinhos. O príncipe não estava tentando penetrá-la agora porque sabia que ainda não era o momento certo. Aquela pequena masturbação era apenas para dar a ela um gostinho do que poderia acontecer entre eles.

Os dois se beijaram e Anakin sentiu como Zenah estava quase lá, por isso ele agarrou uma das mãos dela e a desceu até sua própria virilha, por cima do tecido ele começou a esfregar a mão da esposa sobre seu membro ao mesmo tempo que ainda estava a tocando. Zenah aos poucos foi entendendo o que deveria fazer, então logo ele não precisou mais mover a mão dela e deixou que a princesa fizesse os movimentos sozinha.

No final Zenah arqueou as costas novamente e gemeu mais alto quando uma onda forte daquela nova sensação tomou conta, foi algo que ela nunca tinha sentido em toda a sua vida. Anakin sorria satisfeito por vê-la daquele jeito e saber que ele quem tinha feito Zenah atingir seu ápice pela primeira vez.

Ele teve que voltar a guiar a mão dela sobre sua virilha depois que ela chegou a seu limite e ficou um pouco fora do ar, quando teve certeza de que Zenah estava pelo menos um pouco mais “sóbria” ele enfiou a mão dela dentro de sua calça e a fez envolver seu membro, então ele a guiou nos movimentos para que ela aprendesse como deveria fazer para também lhe dar prazer, por sorte Zenah aprendia rápido, bem rápido.

Houveram mais beijos, mais suspiros e gemidos até que enfim Anakin também chegou ao ápice e se desfez na mão dela, lentamente então ele a fez deitar e depois saiu da cama, quando voltou Anakin estava segurando uma toalha limpa que ele usou para limpar a mão dela e a sua própria.

— Até que não fizéssemos tanta bagunça, não acha? — Anakin estava de costas para Zenah limpando seus dedos quando fez a pergunta, ao não ouvir a resposta dela ele se virou e encontrou a esposa sorrindo para ele. — Zenah?

— Foi tudo tão… incrível.

Ela sussurrou ainda com aquele doce sorriso nos lábios, lentamente Zenah se sentou na cama e engatinhou até Anakin para abraçá-lo por trás.

— Você gostou mesmo?

— Mais do que gostar, eu… eu amei. — Ela encostou sua testa contra o ombro do príncipe e fechou os olhos. — Você foi tão bom comigo.

— Você também foi perfeita comigo, Zenah.

Ele tocou a mão dela e a levou até seus lábios para depositar um beijo delicado entre os nós dos dedos da princesa. Depois os dois colocaram suas roupas de novo e se prepararam para voltar até o local onde todos ainda estavam assistindo ao espetáculo, ambos tentando esconder os sorrisos de cumplicidade depois daquela tarde tão boa juntos.

Chapter 7: O deus da guerra e dos caminhos

Notes:

Boa leitura!

Chapter Text

A rotina em Porto Real estava agora se preparando para voltar a normalidade, para a tristeza dos estalajadeiros, das prostitutas da Baixada das pulgas e dos mercadores. Mas para a Fortaleza Vermelha era um alívio.

Os lordes começaram a reunir seus homens para deixar a cidade, e ficou a cargo de Anakin e Zenah se despedir de cada convidado e expressar sua gratidão pela presença no casamento, a fim de garantir uma boa relação com cada canto dos Sete Reinos sempre. Porém àquela altura, horas depois de tantas despedidas, o casal estava agindo muito mais por obrigação do que por vontade própria. Os sorrisos eram muito mais forçados do que genuínos, e as despedidas eram palavras simples e educadas.

Anakin e Zenah caminharam em direção a lorde Julian Lannister e sua comitiva no pátio da Fortaleza Vermelha que já estava pronta para partir, como usual o casal abriu um sorriso educado para cumprimentar o senhor de Rochedo Casterly.

— Lorde Julian Lannister, foi uma grande honra para nós termos o senhor e sua família aqui durante a celebração do nosso casamento. — Anakin disse no melhor tom educado que conseguiu apesar do cansaço. — Esperamos que faça uma boa viagem de volta para casa e que retorne em breve.

Lorde Julian Lannister sorriu de volta para o príncipe e estendeu a mão para um último cumprimento.

— Foi um casamento como não víamos há muitos anos em Westeros, vossa graça. Que a Mãe os abençoe com muitos filhos!

— Que assim seja.

Anakin sorriu de volta e apertou a mão do lorde, ao mesmo tempo Zenah estava se despedindo da esposa de Julian, Lady Marion e as duas filhas do casal, Jonquil e Jocasta.

— Espero receber notícias em breve sobre sua primeira gravidez, vossa graça!

Lady Marion disse para ela sorrindo de maneira maternal, Marion era uma esposa devota e uma mulher muito gentil, Zenah tinha gostado dela. A princesa retribuiu o sorriso, pois apesar do cansaço ela queria se esforçar para ser educada com todos.

— Obrigada, Lady Marion, faça uma boa viagem.
Ela se afastou quando a família Lannister entrou em sua carruagem, depois disso os portões da fortaleza se abriram e eles partiram junto de seus cavaleiros, aquela tinha sido a última comitiva de convidados.

— E acabou — Anakin suspirou. —, finalmente! Eu não aguentava mais sorrir!

— Foi um longo dia, mas eu admito que vou sentir saudades, Porto Real estava muito mais animada ao longo desses últimos dias.

— Se você vai sentir saudades não quero nem pensar em como estão se sentindo algumas pessoas lá fora.

Ele deu meia volta e saiu caminhando de volta para o castelo, Zenah começou a segui-lo.

— Que pessoas, Anakin?

— Os mercadores, taberneiros, toda a Baixada das Pulgas. Você vai ver como a partir de agora vai haver um surto de mulheres grávidas pela cidade, vários bastardinhos brotando da lama.
— Anakin, isso soa até cruel!

Zenah o repreendeu, mas seu marido apenas riu despreocupado com suas próprias palavras.

— Mas é verdade, Zeninha! Aposto que temos no mínimo umas dez empregadas aqui com bastardos na barriga, imagine quantas mais devem ter do lado de fora dessas muralhas! A benção da Mãe caiu sobre todas!

— Se o Septão ouvir você falando assim ele vai te obrigar a ler A Estrela de Sete Pontas do começo ao fim!

Zenah revirou os olhos, apesar de tudo ela se divertia com esse jeito de Anakin.

 

O casal seguiu em direções opostas, Zenah foi para a biblioteca e até convidou Anakin para se juntar a ela, porém o príncipe tinha outro compromisso que ele não queria perder: a reunião do Pequeno Conselho.

Por ser o príncipe de Pedra do Dragão, Anakin tinha o dever de se inteirar de assuntos do reino para o dia em que ele se tornasse rei, por isso desde seus 14 anos ele começou a frequentar as reuniões do Pequeno Conselho e às vezes até a se intrometer nos assuntos tratados. Seu pai nunca se opôs às pequenas sugestões ou intromissões do príncipe, quem mais se incomodava às vezes era Viserys, que julgava o sobrinho como pouco apto ainda para ter uma ação tão participativa nas questões governamentais.

Quando Anakin chegou seu pai, seu tio e os membros do conselho já estavam reunidos, ele cumprimentou a todos se sentou e depois cruzou os braços, foi então que Viserys deu início a reunião:

— Que bom que você está aqui, Anakin. O motivo dessa reunião é justamente sobre você e Zenah.

A Mão tinha um ânimo preocupante na visão do príncipe, Viserys às vezes tinha ideias extravagantes demais e todas elas começam assim, com esse ânimo assustador.

— Zenah e eu? E eu posso saber por quê?

Anakin observou o rosto de cada um dos homens na sala na tentativa de descobrir alguma informação, mas não conseguiu nada.

— Queremos fazer uma turnê real onde você e Zenah irão passar com uma comitiva por algumas regiões dos Sete Reinos.

Explicou Viserys ao príncipe, uma turnê real, já fazia muito tempo que o povo não via um membro da família real fora da Fortaleza Vermelha ou Pedra do Dragão. Aegon III nunca realizou nenhuma desde que assumiu o trono. Ele raramente saía do castelo na verdade, mesmo com os esforços de Viserys em tentar convencê-lo de que uma visita às terras do reino seriam bem vistas, muitas vezes era a Mão quem organizava pequenas viagens, já que por ter um cargo tão importante ele não gostava de ficar afastado por muito tempo.

Anakin lembrava da última viagem que Viserys fez, na época ele tinha 17 anos. Seu tio levou a esposa Daenaera, alguns poucos cavaleiros e seu dragão Heartfyre até a Campina onde visitou os Tyrell em Jardim de Cima. Na época Daeron e Daemon ficaram na fortaleza à espera dos pais, isso até o dia em que Anakin e Daemon se atracaram em um dos pátios do castelo quando estavam treinando com espadas e tiveram um desentendimento, ao voltar da viagem Viserys e Daenaera descobriram que Daemon tinha ido para Derivamarca com um olho roxo e dois dentes quebrados.

Era claro que agora que Anakin e Zenah eram adultos Viserys iria usá-los para tentar tornar suas vontades em realidade, tal qual fez quando organizou todo o casamento, a turnê real seria o próximo grande passo de uma Mão do Rei que sempre foi podada por um rei desinteressado por tudo.

— E aonde exatamente essa turnê passaria? — Anakin perguntou sem muito ânimo, ele queria entender primeiro como tudo iria ocorrer.

— Por ser a primeira turnê depois de tantos anos, ela será um pouco mais simples em comparação àquelas dos tempos de Jaehaerys e Aegon I. Você e a princesa Zenah passarão por Lagoa da Donzela, Harrenhal, Donzelarrosa e Septo de Pedra, nessa ordem, depois tomarão o caminho de volta.

— De fato é uma turnê relativamente curta. Não vamos nem sequer visitar os Tully, a casa que comanda as Terras Fluviais.

— Eles certamente não ficarão ofendidos. — Viserys girou nos calcanhares e encarou o irmão, até então o rei Aegon não tinha dito nada. — Mas é claro, para começar os preparativos para uma turnê precisamos de autorização de meu irmão, o rei.

Viserys abriu um largo sorriso, mas o mesmo não aconteceu com Aegon, o rei parecia distante em pensamentos, Anakin viu de repente de onde tinha surgido o costume de Zenah de sempre se perder em sua própria mente.

O rei uniu as mãos no tampo da mesa e começou a falar como se o ato de dar sua opinião fosse quase um sacrifício:

— As turnês reais eram muito amadas pelo povo, isso não podemos negar. Se Anakin e Zenah estiverem mesmo dispostos a ir, terão a minha autorização.

A Mão do Rei estava vibrando por dentro, ter dois de seus planos atendidos por Aegon um em seguida do outro era muito mais do que ele esperava conseguir.

— E começar pelas Terras Fluviais me parece muito bom estrategicamente falando, foi um dos primeiros lugares que o rei Jaehaerys e a rainha Alysanne passaram quando iniciaram suas turnês. — Disse Ethan Plumm, o Mestre das leis.

— Concordo em partes, não podemos esquecer que foi durante a viagem para as Terras Fluviais que Alysanne foi atacada quando estava grávida de seu primogênito. — Relembrou Maxwell Manderly, o Mestre dos Sussurros.

Os membros do conselho iriam entrar em uma longa discussão quando Anakin ergueu a mão e tomou a atenção de todos para si:

— Sim, Anakin? — Viserys perguntou. — Alguma dúvida?

— Eu e minha esposa iremos nessa turnê real, mas não tão depressa assim quanto o senhor quer, tio Viserys. Zenah e eu mal nos casamos, passamos por uma longa semana agitada e tudo o que nós precisamos agora é de um pouco de paz e sossego, por tanto sim, eu concordo com essa turnê real, mas com início marcado para daqui alguns meses.

O príncipe soou firme, deixando que seu ponto de vista fosse claramente entendido por todos ali naquela sala, Aegon arqueou uma sobrancelha mas não disse nada, não por enquanto, ele sabia que ainda tinha mais por vir tanto por parte de Anakin quanto de seu irmão.

— Mas Anakin, daqui alguns meses tudo pode ser diferente, sua esposa por exemplo, pode estar grávida! — Viserys tentou argumentar, de repente sua alegria toda foi murchando.

— Se assim for iremos esperar até que Zenah esteja apta para viajar. O reino já teve um grande evento com o meu casamento, a volta das turnês reais é uma ótima ideia, uma das melhores já apresentadas por esse conselho, se assim posso dizer, mas neste momento ela não pode ser posta em prática.

Viserys ainda tentou argumentar e fazer o príncipe aceitar que a turnê fosse realizada o mais rápido possível, mas não conseguiu, no final até mesmo o Grande Meistre começou a entender as coisas pelo ponto de vista de Anakin, ou ao menos do ponto de vista que o príncipe queria passar a todos. Assim que aquela reunião teve fim e o conselho deixou Aegon e Anakin a sós, o rei que tinha dito poucas palavras até então apoiou o queixo nas mãos e encarou o filho:

— Essa sua teimosia é o que pode te levar a ruína Anakin, ou a glória.

— O que quer dizer, vossa graça? — O príncipe disse cinicamente, ele sabia exatamente o que estava fazendo e só aguardara a reação do pai.

— Não se faça de desentendido, Anakin, a ingenuidade não combina em nada com você.

O rei soltou um longo suspiro, ele começou a mexer nos anéis em seus dedos, principalmente em um específico, era um anel de ouro com o dragão de três cabeças, um presente que Cregan Stark deu a Aegon logo após ele assumir o trono.

Não era de hoje que Aegon vinha notando a maneira como seu filho agia, principalmente diante de sua presença, mas ele era muito mais de observar do que falar e justamente por isso passou tanto tempo apenas analisando o comportamento de seu filho.

Anakin deixou a postura relaxar e se cansou de apenas continuar tentando fazer aquele papel de ingênuo, seu pai tinha razão, aquilo não combinava em nada com ele.

— E o que foi que eu fiz, pai? Neguei uma das ideias malucas do tio Viserys? Você sabe melhor do que eu que se eu não tivesse dito não agora, isso só desencadearia uma série de outras ideias mirabolantes! Em menos de um ano eu não duvido que ele nos faria visitar o príncipe de Dorne com um frasco de veneno nos bolsos!

— Não seja exagerado, seu tio jamais planejaria o assassinato de alguém, mesmo que isso nos permitisse enfim conquistar Dorne de uma vez por todas.

— Percebe como todas as suas frases direcionadas a mim começam com “não”, pai? “Não seja exagerado, não se faça de desentendido”. Você sempre está tentando contrariar um comportamento meu a fim de me corrigir!

Anakin bufou, ele já estava cansado de sempre receber nãos de seu pai, de vê-lo torcer o nariz a cada vez que sua personalidade ia contra o jeito fraco de ver a vida que Aegon tinha, sim, na visão de Anakin aquilo era fraqueza, mas claro, ele jamais diria isso em voz alta.

Seu pai até podia ter sido um bom rei para um reino que se rastejava depois de uma guerra violenta, ele até pode ter sido a salvação da Casa Targaryen, mas para Anakin ele era também um homem que nunca soube enfrentar seus próprios traumas, e muitas vezes, se deixava ser guiado por eles ao invés da razão.

— O peixe morre pela boca, os dragões não. — Aegon recitou como se fosse um ditado popular. — A não ser quando se queimam com seu próprio fogo, mas isso é estupidez.

— O que quer dizer com isso?

— Você contrariou Viserys não porque queria acalmar as ideias de seu tio, mas para me afrontar. Você tem essa vontade de se fazer ser notado por mim que muitas vezes te devora por dentro e te faz tomar as atitudes mais impulsivas que na sua cabeça vão me fazer ver que você está ali através de sentimentos fortes como raiva e fúria. Mas eu tenho que te dizer, meu filho, você não precisa fazer nada disso para se provar. Eu sei que você está aí.

— Não, você não sabe. — Anakin rebateu imediatamente. — Nunca soube, você não sabe nada sobre mim, sobre Zenah ou Baelon. Você até pode ter um certo carinho e respeito pela minha irmã, esposa, tanto faz, mas é só isso. Sua forma de mostrar que Zenah é sua favorita é dando a ela uma migalha a mais do pão que reparte entre nós três, e eu às vezes me pergunto, ela teria uma irmã gêmea, se ela estivesse viva aqui hoje como seria? Você teria repartido esse pão de forma igual para todos nós? Teria ainda dado essa migalhinha a mais a Zenah? Ou simplesmente reduziria farelos à poeira?

O rei deixou que Anakin colocasse tudo para fora, sua expressão era vazia, o que apenas serviu para deixar o príncipe ainda mais irritado, ele se pôs de pé e saiu caminhando em círculos como se precisasse daquilo para liberar toda a raiva dentro de si, somente falar não adiantava mais.

— Você não nos odeia, não, isso eu tenho que admitir, mas também não nos ama, e quando um filho percebe que seu próprio pai não o ama é uma dor excruciante.

— Eu amo os meus filhos, Anakin.

O príncipe parou de caminhar, encarou o rei fundo nos olhos e se inclinou até cuspir as palavras na cara do próprio pai:

— Ama tanto que não consegue sequer dizer “eu amo você, Anakin, e seus irmãos também”. Eu estou bem na sua frente, pai, e ainda assim você fala como se seus filhos estivessem do outro lado do Mar Estreito!

Ele se afastou, as veias no seu pescoço estavam demarcadas, seu rosto era uma máscara de fúria, para Aegon III foi como ver um dragão enjaulado tentando a todo custo se soltar e escapar. Foi como ver a Dança dos Dragões personificada na sua frente.
Ele tocou o anel outra vez e o apertou até sentir o ouro frio ficar quente devido ao calor da sua pele, então murmurou em alto valiriano:

— Que não me falte a fé e a coragem para enfrentar meus inimigos, e que os deuses estejam comigo ao longo de cada dia nessa jornada. — Ele ergueu os olhos para ver o filho. — Anakin era o nome do deus da guerra, mas também dos caminhos na antiga Valíria, era a ele a quem se recorria quando se precisava achar o melhor caminho a seguir, principalmente em uma guerra. Quando escolhi esse nome para você, tentei ignorar a primeira parte, eu queria que você fosse sábio, que sempre soubesse que caminhos tomar em sua vida.

Anakin não disse nada ao pai, ele já sabia do significado de seu próprio nome e não precisava ser relembrado agora.

— Será mesmo que você está tomando o caminho certo, filho?
O olhar duro de Anakin se suavizou momentaneamente, como se ele fosse recuar, mas logo aquela pequena ponta de dúvida desapareceu.

— Somente eu posso saber essa resposta, vossa graça.
Ele se curvou e depois deu as costas ao rei para deixar a sala, quando saiu o príncipe bateu a porta em um estrondo. Aegon voltou a segurar o anel e repetir aquelas mesmas palavras de antes em alto valiriano:

— Que não me falte a fé e a coragem para enfrentar meus inimigos, e que os deuses estejam comigo ao longo de cada dia nessa jornada. Que não me falte a fé e a coragem para guiar meu filho, antes que ele se perca dentro de si mesmo.

Chapter 8: A Princesa e a Rainha

Notes:

Boa leitura!

Chapter Text

Zenah e Anakin deixaram Porto Real não por algum dos portões da cidade, mas sim voando.

Naquela manhã, um dia depois da discussão entre pai e filho, Anakin convidou sua esposa para realizar aquela promessa da infância de um dia voarem juntos em seus dragões e ela aceitou, então os dois montaram em Caraxes e Dreamfyre e saíram voando pelos céus. O povo lá embaixo olhava para cima maravilhado com os dragões azul e vermelho voando graciosamente lado a lado, às vezes eles até acenavam para as criaturas antes delas desaparecerem seguindo rumo ao oeste.

O casal guiou seus dragões para além de Porto Real, eles sobrevoaram alguns vilarejos e áreas próximas a capital até que Anakin fez menção de pousar, Zenah então segurou as rédeas e fez Dreamfyre descer também. O dragão dela era maior do que Caraxes e depois da morte de Vermithor e Asaprata se tornou o segundo maior e mais antigo dragão de Westeros, perdendo apenas para Vhagar ainda viva em Pedra do Dragão.

Caraxes não ficava muito atrás também, ele tinha crescido bastante nos últimos tempos e sua aparência singular era o que mais chamava a atenção, seu longo pescoço que poderia tê-lo tornado um dragão desengonçado pareceu não ter afetado em nada aquela criatura. Anakin o adorava. Desde sempre Caraxes foi sua primeira escolha como montaria, no dia em que ele o reivindicou para si foi um dos mais felizes de toda a sua existência.

Zenah desmontou Dreamfyre e Anakin fez o mesmo com seu dragão antes de ir em direção a esposa e colocar as mãos na cintura.

— Para onde você quer ir? — Ele perguntou. — Terras da Tempestade? Ir até o Vale?

— Que tal o Vale? Nós quase não vamos lá.

— Ótima ideia.

Quando Anakin se virou para montar em Caraxes outra vez ele viu como seu dragão estava agindo de maneira estranha, ele esfregava seu pescoço contra Dreamfyre e rosnava baixo, e a dragão azul não parecia incomodada.

— Caraxes? O que você está fazendo? — Anakin iria tentar separar os dois quando viu que Zenah estava rindo da situação toda. — O que foi?

— Não está vendo? Caraxes está tentando acasalar com a Dreamfyre!

Anakin arregalou os olhos, seu dragão, até onde ele sabia, não era lá um grande entusiasta do acasalamento, mas agora pelo visto estava pensando diferente.

— Caraxes, seu safadinho, então você vai ser papai é? — Ele sorriu e cruzou os braços. — Pois deixe isso para depois porque agora precisamos ir!

Quando os dragões enfim se afastaram cada um montou o seu e eles voaram novamente, desta vez seguindo rumo ao Vale de Arryn, passado algumas horas eles aterrissaram em um ponto nas Montanhas da Lua, a enorme cadeia montanhosa que separava o Vale do restante de Westeros por terra, mas para um dragão aquilo não era um obstáculo.

De lá de cima eles podiam ver os rios sinuosos que cortavam toda a região e alguns lagos de águas transparentes refletindo o céu, Zenah guiou sua dragão até próximo de um desses lagos enquanto Anakin ficou no alto da montanha, mas não por muito tempo, ele logo também fez Caraxes descer e aterrissar perto de Dreamfyre.

O casal desmontou e caminhou em direção a um dos lagos próximos a eles, Zenah se abaixou e encostou os dedos na água gelada para senti-la e Anakin logo repetiu o gesto para sentir a temperatura da água também, foi quando uma ideia cruzou sua mente e o fez sorrir.

— E se a gente entrasse na água?

— O que? — Zenah perguntou em choque. — Agora?

— Mas é claro, por que não? Só estamos nós aqui e os nossos dragões, e não acho que eles vão se importar, Dreamfyre e Caraxes estão ocupados demais… se conhecendo melhor.

Anakin sorriu de canto enquanto observava os dois dragões rolando pelo chão juntos, como dois cachorros brincando, a diferença é que estes dois cachorros eram gigantes e cuspiam fogo.

Zenah não passou muito tempo observando os dragões, ela ainda estava chocada com a ideia sugerida por Anakin, tomar banho juntos? Isso seria dar um passo muito além, ter uma nova intimidade entre o casal, uma intimidade que Zenah não sabia se estava pronta ou não.

— Mas você tem certeza de que devemos? — Ela perguntou hesitante, seus dedos ainda tocavam a água fria. — E se…

— Eu não vou te forçar a nada. — Anakin respondeu. — Mas se você quiser é só se juntar a mim.

Então ele se levantou e começou a se despir antes de entrar na água e sair nadando despreocupadamente ao redor do lago, os dragões ainda rolavam ao fundo, brincando sem parar. Zenah não conseguia tirar os olhos de Anakin.

Ele era bonito, muito bonito, e Zenah já sabia disso, mas vendo-o agora ali, sem nada para lhe cobrir, ela o achou tão… belo.

Anakin parou de nadar no meio do lago, ele sorria como uma raposa, astuto, safado, galanteador.

— E então, Zeninha? O que me diz?

Claro que Anakin não acreditava que Zenah fosse de fato entrar na água, ele só queria provocá-la um pouco mais, ele sabia muito bem que isso era sonhar demais e fugir da realidade onde eles estavam.

Mas de repente, enquanto estava de costas nadando Anakin ouviu um barulho, ele se virou e arregalou os olhos com o que viu: sua esposa estava de pé retirando suas roupas de montaria cautelosamente, ela se livrou das luvas, das botas, do casaco e foi pouco a pouco revelando mais e mais de sua pele pálida. Anakin ficou pasmo.

A princesa entrou na água completamente nua, parou em frente a Anakin e olhou para baixo se sentindo tímida, o príncipe ainda estava surpreso, chocado na verdade, aquela foi a primeira vez em que ele a viu assim, sem nenhuma barreira cobrindo sua pele que ele percebeu ser tão bonita quanto uma rosa.

Em meio a sua timidez Zenah se agarrou firmemente ao ímpeto de coragem que a fez entrar na água para se aproximar mais de Anakin e o abraçar, a pele dele era quente, a dela no entanto estava um pouco fria.

— Estou com um pouco de frio…

— Quer sair da água? — Anakin perguntou ainda atônito.

— Não. Eu acabei de entrar… Eu quero ficar.

Ela o abraçou ainda mais forte, então Anakin colocou os braços ao redor dela e a segurou como se ela fosse uma jóia, um diamante precioso demais, e para Anakin ela realmente era uma jóia.

Anakin usou a mão direita para começar a molhar as costas de Zenah, depois os ombros, seu colo e enfim seus cabelos prateados, logo após suas mãos tocaram o rosto dela e o acariciaram, os olhos de Zenah brilhavam como duas ametistas no sol, isso fez Anakin sorrir:

— Você é linda. — Ele murmurou em alto valiriano.

— Você também é.

Ela respondeu na mesma língua, Anakin a segurou pela cintura e começou a girar com Zenah lentamente na água, os dois foram rodopiavam juntos de maneira graciosa, bem diferente de seus dois dragões, mas por um lado exatamente iguais.

Zenah se inclinou para trás e sorriu quando sua cabeça tocou a água, Anakin admirou a vista daquela bela mulher em sua frente, ele não sabia como podia ser um homem tão sortudo, mas agradecia aos deuses pela existência dela, de sua Zenah.
Ele lentamente se inclinou até que seus lábios roçaram a pele macia do vale entre os seios pequenos de Zenah, ele beijou a pele dela com reverência, carinho e algo a mais. Algo que o fez se sentir bem, que o fez se sentir vivo.

Apesar da intimidade nada aconteceu ali naquele lago, após um tempo os dois botaram as roupas, montaram seus dragões e foram embora, mas para Zenah o momento tinha sido bom o suficiente exatamente assim, ela não mudaria nada.

 

A rainha Jaehaera era uma mulher discreta, não era dada a festas, não passava muito tempo se entretendo com cantores ou bobos da corte, ela não achava graça neles na verdade, mas tinha algo que ela fazia sempre e tinha para si como uma obrigação: as idas ao Septo.

Começou quando a rainha ainda era jovem e estava grávida de seu primeiro filho, ela visitava o septo regularmente acompanhada de sua pequena corte e antes de ir embora distribuía comida e roupas aos mais pobres, no início foram apenas alguns que receberam as doações da rainha, mas com o tempo a notícia se espalhou e toda vez que Jaehaera vinha ao septo uma fila se formava ao lado de fora. Às vezes nem tinham roupas e comida o suficiente para tanta gente, ela precisou começar a organizar aqueles eventos junto aos septões para que tudo corresse na mais perfeita ordem, como ela gostava.

Então logo o que se tornou um hábito sem pretensão virou um dever, Jaehaera se juntava aos septões e septãs para servir sopa e entregar roupas aos mais pobres no topo da Colina de Visenya pelo menos duas vezes por semana, vinham de todo tipo de gente até lá para comer ou simplesmente ver a rainha, crianças eram a maioria, trazidos na maior parte das vezes pelos próprios integrantes do septo já que os pais, quando elas tinham pais, não se preocupavam com isso. Depois das crianças as mulheres eram quem mais chegavam a rainha, às vezes elas faziam súplicas a Jaehaera o que lembrava as antigas reuniões organizadas pela rainha Alysanne onde ela ouvia as mulheres do reino e seus problemas, mas Alysanne no entanto era uma mulher carismática, generosa e muito bondosa, Jaehaera era bondosa com todos, era generosa, mas não conseguia manter longas conversas com as pessoas que vinham desesperadas lhe fazer pedidos.

Ela se sentia sufocada por aqueles olhos pedintes, aquelas mãos agarrando as suas firmemente como se dali fosse sair uma resposta, ela sabia que precisava de alguém para fazer essa parte do serviço.

Nos primeiros anos essa pessoa era uma das septãs que ela escolhia, a mulher quem ficava a cargo de ouvir os pedidos e depois repassá-los a Jaehaera, que depois os repassava a seu marido ou a Mão, mas havia alguns anos uma nova pessoa assumiu esse cargo: a princesa Zenah.

Quando sua filha completou o décimo quinto dia de seu nome, a rainha Jaehaera passou a levá-la consigo a esses eventos de caridade e torná-la a ouvidoria daqueles que precisavam de ajuda. Zenah nunca disse nada a respeito desse comportamento da mãe, se gostava, se não gostava, ela apenas estava lá a ajudando. Exceto naquele dia.

Jaehaera se preparava para ir ao Septo quando descobriu que sua filha não estava em casa, tinha saído com Anakin e não avisou para onde iria, por tanto, ela não poderia cumprir sua função hoje. Apesar de Zenah nunca ter lhe deixado na mão antes a rainha não gostou nem um pouco de ter ocorrido uma primeira vez, ao voltar para a Fortaleza Vermelha ela ordenou que Zenah fosse trazida até ela, assim, quando a princesa e seu marido voltaram do Vale a primeira coisa que ela ouviu foi:

— A rainha exige falar com vossa graça imediatamente.

Zenah só teve tempo de trocar as roupas úmidas e pentear os cabelos antes de ir até o solar da rainha onde encontrou sua mãe. A princesa estava usando um vestido lilás contrastando com seus olhos, o cabelo estava solto mas havia uma tiara simples no topo da cabeça, Jaehaera não gostava de vê-la desarrumada, termo que ela usava quando Zenah aparecia diante dela sem estar usando jóias ou vestidos que mostrassem sua posição como princesa e futura rainha de Westeros.

— Vossa graça. — Zenah disse antes de dois guardas fecharem as portas e as deixarem a sós. — Mãe.

Jaehaera estava sentada segurando uma xícara de chá nas mãos, ela apontou para a cadeira vazia à sua frente e esperou a filha se sentar:

— Onde esteve o dia inteiro, Zenah?

Ela perguntou antes de tomar um gole de seu chá, ao lado direito de Zenah havia uma mesa com outra xícara e um bule caso ela também quisesse tomar chá, mas no momento ela recusou.

— Eu estava com Anakin, fomos até o Vale de Arryn.

— Para?

— Não havia um motivo específico, só queríamos passar um tempo com nossos dragões e visitar o Vale, ver as maravilhas de lá.

Jaehaera meneou a cabeça lentamente e tomou um novo gole de seu chá antes de afastar a xícara a colocando de volta na mesa, ela começou a falar enquanto olhava para um ponto distante do rosto da filha:

— Você faltou a um compromisso hoje, Zenah. Eu estava no septo entregando comida e você não estava lá para me ajudar.
Zenah arregalou os olhos, só agora ela tinha se lembrado que a hoje era dia de fazer caridade, quando aceitou sair com Anakin ela se esqueceu completamente.

— Mil perdões mãe. Eu me esqueci completamente.

— Uma princesa não deve se esquecer de seus compromissos, ainda mais compromissos tão importantes como ajudar seu povo. — Jaehaera disse em um tom severo. — O povo confia em você, Zenah. Eles se abrem com você de uma maneira que nunca fariam comigo porque eles contam com a sua ajuda para formar uma ponte entre os problemas deles e a solução, não estando lá hoje você falhou não consigo, mas com as pessoas que te querem bem e te admiram!

Zenah abaixou a cabeça, ela se sentiu envergonhada mas ao mesmo tempo irritada, a verdade é que ela sabia que só era uma desculpa de sua mãe que não conseguia interagir com seus súditos e por isso a usava em seu lugar, mas é claro, Jaehaera jamais admitiria tal coisa.

— Esse erro não acontecerá outra vez, mãe. Eu te garanto.

— Levante a cabeça quando falar, uma princesa não abaixa a cabeça. Mude a postura, me encare nos olhos e repita o que você acabou de dizer.

Zenah levantou a cabeça e endireitou os ombros, ela respirou fundo e apertou as mãos sob o colo, elas tremiam de raiva reprimida.

— Esse erro não acontecerá outra vez, mãe. Eu te garanto. — Ela repetiu. — Peço licença para me retirar.

— Concedida, mas antes de ir só quero lhe lembrar minha filha, não estou sendo rude com você por maldade, só quero que se lembre que o dever vem acima de tudo. Tudo, Zenah. Compreende isso? Não queremos uma rainha que possa falhar, eu aprendi isso, e você precisa aprender também.

Então Jaehaera voltou a segurar sua xícara e Zenah se levantou, ela deixou a sala em silêncio.

Uma vez sozinha caminhando pelos corredores a princesa cerrou os punhos e respirou fundo, seu corpo foi se dobrando para frente, se contraindo, quase como se ela estivesse tentando reprimir alguma coisa de sair, e realmente estava, era a sua raiva. Zenah não era dada a explosões de raiva, não era como Anakin que dizia tudo o que vinha à sua mente doa a quem doer, mas às vezes ela queria ser assim.

Ela queria voltar naquele quarto e dizer como sua mãe estava errada, que ser uma pessoa, que existir e ter seus próprios desejos, escolhas e direitos não a impediria de ser uma boa rainha, que jogar um peso tão grande sob os ombros dela não era justo. Zenah queria dizer que ela era ainda apenas uma princesa, não a rainha, mas que quando o dia chegasse ela seria uma rainha muito melhor do que Jaehaera jamais foi.

Que ela um dia seria uma mãe melhor do que Jaehaera jamais foi.

Zenah lentamente esticou as costas e endireitou a postura, suas mãos também pararam de se fechar em punhos, ela inspirou, segurou o ar e depois expirou. Uma serviçal assistiu toda a cena em choque, quando Zenah notou a presença daquela mulher ali ela fez um gesto com a mão.

— Está tudo bem, vá, por favor.

A mulher praticamente correu para longe, Zenah tomou fôlego outra vez e voltou a caminhar, ela foi em direção a um dos pátios de treinamento, em momentos assim ela gostava de treinar com seu arco e flecha, isso sempre lhe fez bem.

A medida que ela atirava as flechas contra o alvo, acertando a maioria e errando algumas poucas, Zenah foi sentindo a tensão deixando seu corpo, as lembranças da conversa com a mãe foram sendo substituídas pelas memórias do dia no lago com seu marido, aquela parte tinha sido boa, tinha sido perfeita.

Ela atirou uma última flecha que acertou bem no meio do alvo, depois colocou o arco de volta no lugar e encarou a Fortaleza de Maegor ao seu redor, é hoje, ela pensou. E depois saiu andando.

Chapter 9: Meu Paraíso

Notes:

Boa leitura!

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Os cantores tinham começado a tocar aquela mesma música pela segunda vez a pedido de Daenaera porque era uma de suas canções favoritas, enquanto ela batia palmas no ritmo da música e Viserys a admirava como se sua esposa fosse a personificação da beleza o restante da família Targaryen reunida na mesa tentava se concentrar no jantar.

Os filhos de Viserys não estavam ali, Daeron tinha voltado para Derivamarca com sua esposa Lauren agora que os eventos do casamento de Anakin e Zenah tinham terminado, ele se sentia mais confortável vivendo lá do que no centro da corte. E sua esposa também. Daemon raramente jantava com a família, ele passava suas noites em bares e bordéis quando não estava treinando, e às vezes também sumia por longos dias em viagens sem sentido, ele ficava à caça de torneios aos quais ele pudesse participar. Ninguém dizia nada porque sabiam que era melhor assim, Daemon em um lugar e Anakin em outro.

Mas a família do rei estava toda ali na mesa reunida.

Jaehaera, Aegon e seus três filhos estavam jantando e quase que ignorando completamente a festinha a parte de Viserys e Daenaera, o rei comia seu pedaço de carne de pavão cortando pedacinho por pedacinho meticulosamente, sua esposa se voltava para as boas maneiras mesmo em um jantar familiar, postura correta, atitude correta.

O príncipe Baelon ao lado do irmão mais velho comia com pressa, ele parecia estar com muita fome, diferente de Anakin que não estava prestando tanta atenção na comida, mas sim em Zenah e seu olhar esquisito naquela noite.

Desde que se sentou em frente a Anakin na grande mesa da sala de jantar Zenah não tirava os olhos do marido, seu olhar lilás parecia de um roxo escuro por conta da luz das velas, o que só tornava aqueles dois olhos ainda mais intensos. Como se eles pudessem queimá-lo mais do que fogo de dragão.

Anakin não entendeu o motivo do olhar e nem se atreveu a perguntar ali na frente de todos, era melhor deixar para mais tarde quando ambos estivessem a sós no quarto, por enquanto ele só pensava se tinha feito alguma coisa errada. Será que Zenah se arrependeu do passeio até o Vale? A mãe deles tinha dito alguma coisa? Ele se lembrava que assim que seus dragões tocaram o chão do pátio do castelo Jaehaera convocou Zenah e depois disso a princesa passou longas horas treinando arco e flecha, uma habilidade que ela possuía e Anakin invejava.

Ele era bom com arco, mas não tanto quanto sua esposa. Zenah era ágil, quase nunca errava, atirava em alvos em movimento como se eles estivessem parados o tempo todo, ela era ainda mais gloriosa quando usava uma besta, Anakin teve o privilégio de vê-la treinar algumas vezes com ambas as armas, era lindo, mais do que lindo.

Os cantores pararam de cantar quando a música acabou, Viserys e Daenaera aplaudiram e depois a Mão os dispensou, finalmente houve um pouco de silêncio na sala, um silêncio desconfortável ao extremo, de um lado Anakin ainda estava com raiva do pai pela conversa do dia anterior, do outro havia Zenah e a rainha, Baelon estava no meio daquela confusão toda sem saber o que tinha acontecido.

O príncipe Baelon muitas vezes se frustrava, ele já tinha 16 anos, idade o suficiente para entender das coisas, mas quase sempre era deixado por último para saber das notícias. Seus pais brigavam com seus irmãos e ele descobria o porquê tempos depois quando a discussão já nem era mais tão importante assim, ele era jovem, um homem como ele gostava de dizer a quem quer que tentasse tratá-lo como criança, mas por ser o mais novo todos tentavam protegê-lo. Protegê-lo de que? Ele perguntava, nós mesmos, Anakin respondeu uma vez.

O irmão mais velho era seu grande modelo, Baelon seguia os passos de Anakin e concordava com tudo o que ele fazia pois para ele ninguém era tão incrível quanto o irmão, quando Baelon soube que Anakin e Zenah tinham saído com seus dragões ele chegou a ficar triste por não ter sido convidado, mas entendeu que aquele tinha sido um momento deles, do casal, mas na próxima vez ele iria junto de qualquer jeito. Baelon não sabia bem como dizer isso ao irmão, de que ele não queria ser apenas um mero escudeiro, mas também seu amigo.

Zenah também era uma presença importante em sua vida, Baelon adorava a irmã e geralmente era a ela quem ele recorria quando precisava de colo, mesmo Zenah sendo apenas três anos mais velha do que ele na maior parte das vezes a princesa conseguia ser muito mais compreensiva e carinhosa do que a própria mãe deles. A rainha Jaehaera e o rei eram muito distantes dos filhos, e cada um deles sentia esse afastamento de uma forma, inclusive Baelon.

Ele secretamente invejava o fato dos nomes de seus irmãos serem em homenagem a deuses valirianos enquanto o seu não, mas ele aprendeu a gostar de seu nome do mesmo jeito também graças a Anakin que uma vez disse ao jovem príncipe que o nome Baelon era bonito e forte, um nome que ele gostava.

Anakin começou a rir quando percebeu como Baelon estava devorando seu prato de maneira esfomeada, para o desgosto da rainha.

— A comida não vai fugir de você, Baelon. Ou talvez vai se você continuar a comer assim.

Somente os dois irmãos riram, o rei e a rainha continuaram a comer em silêncio, Zenah esboçou um sorriso, e logo depois seus olhos voltaram a encarar Anakin daquele jeito estranho de antes, a essa altura ele realmente precisava saber o que estava acontecendo.

 

Depois do jantar Anakin seguiu direto para o quarto a procura de Zenah, ele já tinha decidido que uma vez a sós com ela iria finalmente perguntar o que tinha acontecido, o porquê ela estava o encarando durante o jantar inteiro como se estivesse o dissecando.

Ele abriu a porta e encontrou o quarto quase completamente escuro, a pouca iluminação das velas não ajudava tanto a clarear o ambiente mas não o impediu de ver a silhueta de Zenah na cama deles, por detrás das cortinas do dossel.

Anakin caminhou em direção a ela, Zenah não tinha dito uma palavra mas sabia que seu marido estava ali.

— Zenah? Eu queria falar com você.

Anakin estava prestes a perguntar por que ela passou o jantar inteiro o encarando daquela forma, se ele tinha feito alguma coisa errada, até iria pedir desculpas apesar de não saber porquê estava se desculpando, mas tudo caiu por terra quando ele puxou as cortinas e viu Zenah sentada no meio da cama completamente nua.

Aquilo foi tão inesperado que Anakin quase caiu para trás, ele tropeçou e precisou se segurar na própria cama para não cair, de repente ele não sabia falar, não sabia andar, não sabia como agir.

Sim, ele a vira sem roupas antes, no dia anterior no lago, mas uma única vez numa situação onde ele teve que dar o primeiro passo, e onde Zenah estava tímida e quase sem coragem de encará-lo nos olhos. Mas aqui não, Zenah estava ali na cama deles e não havia um único resquício de timidez naquele olhar de ametista.

O primeiro passo de Anakin foi se aproximar da cama para ter certeza de que ele não estava vendo coisas, para comprovar que de fato Zenah estava ali o esperando, e sim, ela estava.

— Zenah? — Ele perguntou em choque. — O que você…?

A princesa foi até ele e o segurou pelo colarinho de sua usual túnica preta, Anakin se deixou ser puxado em direção a ela.

— Eu pensei muito antes de tomar essa decisão.

Ela sussurrou para ele, Zenah não estava nervosa, sua alma lhe dizia que a hora era agora e foi como se todos os seus sentimentos soubessem disso, não havia preocupação, medo ou ansiedade, apenas coragem e desejo.

— Que decisão, Zenah?

No fundo Anakin já sabia do que se tratava, mas queria ouvir só para ter certeza de que estava mesmo vivendo tudo isso, a resposta veio logo em seguida na voz doce e calma de sua adorada esposa:

— Eu quero me entregar a você como sua esposa.

O coração do príncipe bateu mais forte após aquelas palavras, seria um sonho? Ele quase acreditou que sim.

Lentamente ele esticou a mão e tocou no rosto da mulher a sua frente, ela era linda, com aquela pele pálida e macia ao toque, uma miragem, um paraíso, seu paraíso.

— Você tem certeza disso, Zenah? — Ele perguntou, de repente sua voz soou tão baixa quanto um sussurro. — Não precisamos fazer nada que você não queira.

— Mas eu quero, eu tenho total certeza do que eu quero. Eu nunca tive tanta certeza de algo em toda a minha vida como eu tenho agora, Anakin!

A convicção da princesa fez Anakin se surpreender outra vez, nunca antes ele se lembrava de tê-la visto assim, tão certa de alguma coisa, tão decidida.

— Eu quero ser a sua mulher. — Zenah disse com aquele mesmo olhar certeiro, aquela mesma voz firme. — Eu quero consumar o nosso casamento aqui e nesta noite.

Anakin segurou o rosto de Zenah entre as mãos, seus dedos longos quase encobriram as bochechas dela, então ele se aproximou lentamente e um sorriso cresceu em seu rosto:

— Não faz ideia do quanto eu esperei por esse momento, minha querida…

Seus lábios se uniram aos dela em um beijo inicialmente lento mas cheio de desejo, um desejo adormecido que finalmente pôde acordar, Zenah se agarrou ao pescoço do marido e ele deixou que suas mãos deslizassem em direção as costas dela. Ali seus dedos exploraram cada pedacinho, cada guardando na memória o quão perfeita ela era.

Eles caíram na cama, seus lábios ainda unidos pelo beijo e seus corpos pelo toque das mãos, Anakin foi ficando mais e mais destemido, determinado a conhecer mais do corpo de sua esposa, seus dedos traçaram os braços dela, o colo e logo sua mão direita estava encobrindo um dos seios de Zenah. Era pequeno, sua mão o cobria por inteiro, mas na opinião de Anakin era perfeito.

A princesa arqueou as costas e suspirou, ela também estava ficando um pouquinho mais atrevida, quando eles pararam de se beijar ela começou a tentar tirar as roupas dele, os dois trataram de despi-lo com pressa até que enfim ele estava nu como ela. Zenah foi descendo o olhar do rosto dele até chegar lá embaixo, foi quando suas bochechas coraram, no dia do lago ela não tinha parado para prestar tanta atenção assim naquela parte específica de seu marido.

Ela não sabia se deveria tocar ou não, apesar de tudo ela ainda era apenas uma garota virgem que mal sabia o que fazer, ela se lembrava das coisas que eles fizeram antes, os toques um no outro quando ninguém mais estava olhando, mas naquele momento foi como se todo o aprendizado estivesse ali a um dedinho de distância, mas ainda assim inatingível.

Anakin segurou a mão dela e a pousou sobre seu próprio peito, de lá ele deixou que Zenah agisse como queria, ela então tocou o peitoral dele, depois o abdômen, parou um pouco acima da virilha, hesitando se devia ou não continuar, Anakin estava prestes a dizer a ela que estava tudo bem se ela quisesse ir somente até ali, mas então ele sentiu a mão dela continuar a descer até envolvê-lo entre seus dedos esguios. Ele soltou o ar lentamente e sorriu:

— Ah Zenah…

Ela começou a mover a mão devagar, para Anakin era quase tortura, mas a melhor tortura que ele já sentiu em toda a sua vida, ele arfou e deixou que Zenah continuasse pois sabia que seria bom para ela se soltar, para ela decidir também o que queria ou não fazer e como queria. Anakin já tinha tantas ideias do que fazer com ela assim que eles cruzassem a barreira da limitação e um mundo novo se abrisse para Zenah, tudo o que ele mostraria a ela, tudo o que ele faria com ela…

Só de imaginar ele foi ficando cada vez mais e mais excitado, sua voz soava mais rouca e seu corpo se aproximava mais e mais de chegar ao limite, Zenah estava movendo a mão cada vez mais rápido em seu pênis, ele sabia que logo acabaria se desfazendo na mão dela se eles continuassem, mas então ele a fez parar. Anakin segurou a mão dela para parar seus movimentos, foi como se seu próprio corpo tivesse gritado com ele “por que você a fez parar?” Mas era necessário.

— Eu não quero ainda, não assim.

— Por que? — Zenah perguntou. — Eu fiz algo errado?

— Você jamais faria algo errado, Zenah... — Então ele se debruçou ainda mais sobre Zenah e sem aviso prévio abocanhou seu seio esquerdo, o gemido surpreso da princesa foi perfeito para seus ouvidos, depois ele se afastou um pouco, o suficiente para conseguir falar e ser compreendido. — Eu não quero gozar assim, eu quero fazer isso quando estiver dentro de você.

Ele chupou os seios dela um após o outro a fazendo se contorcer embaixo dele, Zenah estava gostando cada vez mais desse tal de prazer desde a primeira vez que o experimentou, e uma grande parcela disso se dava graças a pessoa que estava ali com ela se deixando explorar e ser explorado, Anakin.

Zenah se sentia confiante e segura quando estava com ele, não havia o medo de errar, de sofrer, nada. Anakin a tratava como se ela fosse uma deusa, a sua deusa. Que ironia, ela pensou, veja de onde nossos nomes vieram.

Quando ele parou de brincar com os seios de Zenah foi para beijá-la outra vez, e em meio aquele beijo Anakin a segurou pelas pernas posicionando cada uma delas de um lado de sua cintura, ele nunca esteve tão próximo dela como agora, Zenah gemeu entre o beijo quando o sentiu perto de sua intimidade, ela sabia que era agora. Seu coração chegou a disparar e houve uma pontada de nervosismo, mas ela procurou respirar fundo e se manter calma, Zenah disse a si mesma que não havia para quê ter medo.

— Se você sentir alguma coisa, qualquer coisa que te incomodar você deve me falar imediatamente, tudo bem? — Anakin disse a ela. — Não importa o que seja. E então vamos parar. Eu não quero machucar você, Zenah.

— Você nunca me machucaria, Anakin… — Ela sorriu para ele e pôs as mãos sobre os ombros dele. — Eu estou pronta.

Anakin a beijou outra vez, a cada novo beijo, a cada novo toque ele sentia como o momento era certo para eles, como aquela noite pertencia a eles.

Ele se sentia feliz como nunca, ela se sentia adorada.

Anakin finalmente a penetrou e aquela sensação para ele foi a melhor de toda a sua vida, para Zenah no início foi um pouco desconfortável, mas não insuportavelmente ruim como muitas pessoas diziam a ela no passado. No fundo a princesa se sentiu aliviada, não eram todas que tinham a chance dela de escolher quando querem perder a virgindade, como e principalmente, de explorar o parceiro, de sentir prazer! O mundo ainda é muito injusto, mas em meio a essa injustiça Zenah quis se fazer presente, e assim ela iria.

O ato de amar foi ainda mais perfeito do que tudo o que eles fizeram antes, eles encontraram o ritmo perfeito, não muito lento mas também não muito rápido e assim Anakin se movia dentro dela sentindo e dando prazer, mas não apenas prazer, isso era o que se sentia quando se ia para uma Casa dos Travesseiros, aqui era diferente. Além do prazer havia algo mais forte, algo que Anakin estava começando a identificar mas ainda não queria nomear.

Zenah sentia a mesma coisa, quando ela viu sua testa colada a de Anakin e seus olhos fixos nos dele, ela viu um reflexo das mesmas sensações que ela estava experimentando agora, o prazer e o que ainda não podia ser denominado mas que os puxava para mais perto um do outro, que os fazia querer mais e mais. Ela cravou as unhas nos ombros do marido e chamou seu nome em meio aos gemidos e suspiros.

— Você é o meu paraíso… — Anakin sussurrou em alto valiriano, ele nem se deu conta de estar usando aquela língua agora.

— Você é a minha alma. — Zenah respondeu, também sem se dar conta de ter usado o alto valiriano. — Eu sou sua Anakin, sua mulher, sua princesa, sua rainha.

— Você é a minha vida. Se você é a minha princesa, então eu sou o seu príncipe, se você é a minha rainha então eu sou o seu rei.

Eles sorriram um para o outro, os movimentos de Anakin estavam se tornando mais erráticos, o corpo de Zenah começou a se contrair ao redor dele.

— Fica comigo, fica. — Zenah murmurou em uma voz sôfrega pouco antes de seu corpo ser atingido por uma forte onda de prazer, ela se agarrou a Anakin cravando suas unhas na carne das costas dele, suas pernas também se apertaram contra a cintura dele.

— Eu não vou a lugar nenhum, meu amor.

Anakin respondeu antes de aumentar a velocidade de suas estocadas até que finalmente ele veio e se desfez dentro dela após se enterrar até a base, seu corpo colapsou sobre o de Zenah, ambos respiravam ofegantes e estavam cobertos pelo suor. Lentamente o príncipe levantou a cabeça para poder vê-la, Zenah era uma bagunça de prazer e beleza.

— É muito cedo para te perguntar se você gostou?

Ele perguntou ainda ofegante, a princesa sorriu para Anakin e abriu os olhos para poder vê-lo, e então ela respondeu:

— Foi perfeito.

Os dois se deitaram na cama para descansar, algum tempo depois eles fizeram sexo uma segunda, só então após isso eles pararam e foram descansar, naquela noite eles dormiram abraçados um ao outro e completamente nus embaixo das cobertas.

Chapter 10: O Passado e o Futuro

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Eles caíram na cama com a respiração acelerada e o suor escorrendo, naquela bela manhã de céu azul e brisa suave a corte estava ocupada com a rotina de sempre, já Anakin e Zenah estavam a manhã inteira na cama, nus, transando.

Zenah odiava aquela palavra, suportava um pouco mais “fazer sexo” mas geralmente ela se referia a isso como “fazer amor”, o que Anakin achava bobo demais. Ele chamava de sexo, tentava evitar a palavra transar já que sua esposa odiava, e nem sequer pensava em usar a palavra fuder, a não ser que ele quisesse lidar com a ira de Zenah.

Anakin puxou os cabelos para trás, depois se apoiou no cotovelo e encarou a mulher ao seu lado, Zenah sorriu para ele e quando estava prestes a beijá-lo alguém bateu na porta e o casal enfim se lembrou que eles estavam em um castelo, que já era dia e que eles não poderiam sumir para sempre para ficarem juntos na cama.

— Merda! — Anakin resmungou.

— Anakin, não xingue!

— Você quer que eu receba com flores a pessoa que decidiu nos incomodar justo agora?!

Ele se levantou da cama e resmungou o tempo inteiro em que colocava suas roupas, Zenah também não gostou de ser interrompida, mas ela não reclamou enquanto colocava um vestido e tentava dar um jeito no cabelo, ela nunca reclamava de nada.

Houve outra batida na porta antes de Anakin finalmente abri-la, foi uma surpresa para ele, e uma surpresa nada agradável quando o príncipe descobriu que a pessoa do lado de fora era Baelon. Só teria sido pior se fosse seu pai ou o tio. Anakin cruzou os braços na frente do peito enquanto media o irmão de cima a baixo tentando seu melhor para não esboçar o quanto ele não havia gostado de ser interrompido justamente agora.

— Baelon?

— Olá irmão, espero não estar atrapalhando nada.

A voz de Baelon soava tão genuinamente feliz que Anakin não teve coragem de mandá-lo dar meia volta e desaparecer antes que levasse um soco na cara e um chute nas bolas.

— Posso saber o que deseja, irmão?

— Claro. Eu estive pensando, como já devem ter reparado o dia está lindo lá fora, por isso eu pensei que seria uma ótima ideia visitar Pedra do Dragão!

Zenah enfim apareceu na porta bem a tempo de ouvir aquele convite inusitado, ela parou ao lado de seu marido e arqueou a sobrancelha direita:

— Pedra do Dragão? Mas nosso pai nos daria autorização para ir até lá assim de repente?

Talvez fosse apenas a idéia de visitar Pedra do Dragão, a antiga casa dos Targaryen antes da conquista dos Sete Reinos e depois da queda de Valíria, ou talvez fosse apenas a vontade de irritar o rei já que a memória da discussão ainda estava bem fresca na mente de Anakin mesmo quase uma semana depois. Qual dessas opções era a resposta correta ninguém sabe ao certo, mas Anakin concordou em ir para a ilha, e uma vez que ele disse sim Zenah fez o mesmo.

Caraxes, Dreamfyre e o dragão de Baelon, Trovoada, deixaram a Fortaleza Vermelha juntos e tomaram os céus. Logo os três dragões estavam cruzando a Baía da Água Negra indo em direção a Pedra do Dragão, Caraxes e Trovoada estavam apostando para ver quem voava mais rápido, um costume de Anakin e Baelon todas as vezes em que eles voavam juntos, Dreamfyre e Zenah vinham logo atrás calmamente e apenas apreciando a vista.

Para a princesa a melhor parte de voar era essa, observar o mundo lá embaixo, o céu ao seu redor, as belezas de Westeros. Ela queria poder gravar tudo aquilo na memória pelo resto da vida.

A ilha logo se tornou visível no horizonte, além do imponente Monte Dragão a primeira coisa que chamou a atenção de Zenah com certeza foi o castelo de sua família surgindo por entre a névoa como um dragão de pedra gigantesco, sempre que vinha a ilha o castelo era a primeira coisa que a princesa colocava os olhos, e ela sempre tinha aquela mesma sensação de insignificância e deslumbre ao mesmo tempo. Insignificância porque de repente sua existência comparada àquele castelo não era nada, deslumbre porque para ela o lugar era lindo, muito mais do que apenas lindo, era perfeito.

Caraxes e Trovoada rugiram e depois desceram para voar bem rente a água do mar, Zenah no entanto continuou lá no alto completamente distraída da competição entre seus irmãos, ela de repente se pegou pensando como aquela ilha era o último resquício do que os Targaryen poderiam chamar de casa, era a representação, mesmo que simplória, do que um dia fora Valíria e toda a sua glória, do que um dia foi o mundo que lhes pertenceu e foi embora sem levá-los junto.

Os Targaryen eram como órfãos de pai e de mãe que se agarraram às terras de Westeros para se sentir de alguma forma parte de um mundo outra vez. Zenah se sentia parte de Westeros, isso ela não poderia negar, mas somente ali em Pedra do Dragão ela entendia o que era de fato sua casa, e não era Porto Real ou qualquer lugar dos Sete Reinos. Era uma terra onde ela jamais poderia chegar.

Ela segurou as rédeas de Dreamfyre e enfim desceu, as grandes patas da dragão azul claro tocaram a água salgada. Zenah enxugou suas lágrimas que ela nem percebeu estarem caindo e depois sorriu, casa, ela pensou, que casa?

Eles pousaram dentro dos muros do castelo e desmontaram, Baelon ria eufórico pois seu dragão foi o primeiro a tocar o chão.

— Está vendo? Trovoada vai ser ainda mais rápido do que Caraxes!

Ele disse todo orgulhoso de seu dragão, o pequeno Trovoada, um animal de escamas cinza-azuladas muito menor em comparação a Caraxes e Dreamfyre. Ele saiu de um dos ovos de Syrax cerca de dois anos antes do nascimento de Baelon, um dia toda a família real veio à Pedra do Dragão passar uma temporada de verão, na época Baelon tinha 12 anos e ainda não possuía um dragão, mas a conexão com Trovoada foi instantânea, quando eles voltaram para Porto Real o príncipe o trouxe consigo.

Anakin apenas revirou os olhos e acariciou o pescoço de sua montaria como se quisesse dizer que Caraxes podia agora descansar.

— É o que veremos, Baelon. Caraxes foi muito mais rápido do que o seu dragão quase que o caminho inteiro!

— Só por um trecho do caminho você quis dizer, além do mais Caraxes já está ficando velho, logo o Trovoada supera ele!

Zenah quase riu com aquela cena ridícula, dois irmãos brigando para saber quem voou mais rápido, chegava a ser engraçado de certa forma.

— Caraxes ainda está em boa forma. — Zenah disse se intrometendo na conversa. — Ele e Dreamfyre fazem parte do grupo dos dragões mais velhos de Westeros junto com Vhagar, mas estão muito bem se formos analisar, Dreamfyre nunca me deixou na mão.

— É, isso não posso negar, irmã. — Baelon admitiu ao final. — Mas qualquer dragão está em melhores condições do que a Vhagar, ela está velha, quase tão velha quanto Balerion antes de morrer.

— Não está quase tão velha, ela está mais velha do que o Balerion! — Anakin o corrigiu. — Vhagar conseguiu viver mais do que ele mesmo depois de quase ter morrido no Olho de Deus, eu sempre fico surpreso ao pensar nisso, já era para aquela velharia ter morrido há muito tempo, mas é como dizem por aí, vaso ruim não quebra.

Os três irmãos entraram no castelo ainda conversando sobre Vhagar e sua velhice, de fato era uma surpresa ela ainda estar viva levando em conta que Balerion, o maior dragão já conhecido em Westeros, não viveu tanto quanto ela mesmo não tendo sido quase mortalmente ferido em uma briga. Mas a verdade é que depois da Perdição de Valíria pouca se sabia sobre os dragões e suas capacidades, grande parte do conhecimento um dia adquirido está agora soterrado sob os escombros da Cidade Franca, ali em Pedra do Dragão eles até tinham alguns escritos antigos documentando informações importantes sobre aquelas criaturas, mas todos aqueles papéis eram apenas fragmentos de um conhecimento a muito perdido.

O fato é que Vhagar estava viva, cansada e lenta, mas muito viva, acreditava-se também que agora ela estava ainda maior do que o Terror Negro já fora quando ainda estava vivo, mas não havia como medir ou fazer comparações, a maioria das pessoas que viu Balerion em seus dias de glória não estavam mais presentes para contar seu testemunho.

Mesmo após a viagem os três irmãos não quiseram parar para descansar, eles passaram pouco tempo no salão com a grande mesa entalhada na forma do continente de Westeros analisando os ricos detalhes do entalhe antes de Baelon sugerir que eles fossem lá fora cavalgar e ver a ilha, ideia acatada por todos. Assim três cavalos foram selados e eles partiram em direção a vila de pescadores perto do castelo sendo seguidos por dois membros da guarda, Anakin até tentou convencer os dois cavaleiros a não irem, dizendo que ele e Baelon tinham capacidade suficiente para se protegerem e cuidarem de Zenah também, mas claro, ele não foi ouvido. Aquela era sua fortaleza em certo ponto de vista, afinal de contas, ele era o príncipe de Pedra do Dragão! Mas mesmo assim sua autoridade não foi tão respeitada, “é nossa obrigação protegê-los vossa graça” um dos homens disse, Anakin bufou e saiu trotando em seu cavalo.

A vila era ainda exatamente como eles se lembravam, cheirando a peixe e brisa do mar, era muito simples em comparação às grandes cidades de Westeros, mas tinha lá seu charme e organização. As pessoas se curvavam quando viam os filhos do rei passando pelas ruas em seus belos corcéis, bem diferente dos cavalos magros e pulguentos que eles tinham, os meninos mais jovens, muitos de idade próxima a Baelon, admiravam a espada valiriana de Anakin. Muitos ali provavelmente tinham sonhos de se tornarem grandes cavaleiros e portarem armaduras brilhantes e espadas lendárias, escrever seus nomes nos anais da história e ter castelos enormes, mil donzelas suspirando apaixonadas e lendas sobre seus grandes feitos. Acabariam todos do mesmo jeito que os pais, pescando e tendo uma dúzia de filhos para criar e sonhar também.

As meninas, claro, suspiravam com a beleza dos príncipes, mas admiravam a princesa. Zenah estava usando roupas simples de montaria ainda cheirando a dragão, mas até suas roupas mais simples se tornavam extravagantes em comparação aos vestidos que aquelas garotas usavam, sujos e fedendo a peixe. Zenah passou os olhos por diversas moças de olhos arregalados e queixo caído, uma delas, uma garota mais jovem do que ela, estava visivelmente grávida. Zenah pôs os olhos naquela barriga inchada e de repente parou seu cavalo.

— Quando vai nascer?

Ela perguntou a mãe da criança, a menina quase não acreditou que a princesa e futura rainha estava falando com ela, foi preciso que uma outra garota ao lado dela a cutucasse para que ela encontrasse sua voz:

— A-Ainda faltam 4 lu-lu-lunações, vossa graça.

Zenah balançou a cabeça, Anakin e Baelon estavam mais a frente e também tinham parado para esperá-la, os dois guardas do castelo estavam logo atrás da princesa vigiando toda a cena.

— Espero que tenha uma boa hora, o que acha que será?

— Um peixe — Todos ao redor caíram na gargalhada, a menina corou e se encolheu. —Quero dizer, um… um…

— Um…?

— O bebê é seu parente, vossa graça! — Uma voz gritou ao fundo. — O príncipe Daemon quem plantou a semente nela!

Zenah franziu o cenho e ergueu o olhar tentando encontrar a pessoa que disse aquilo, mas não conseguiu.

— Daemon? O príncipe Daemon, meu primo?

Anakin e Baelon se entreolharam antes do príncipe herdeiro puxar as rédeas de seu cavalo e o fazer voltar para junto de Zenah.

— Como tem tanta certeza, pessoa desconhecida? Se sabe de algo ao menos deveria mostrar seu rosto, não se esconda na multidão. — Anakin o desafiou e logo em seguida um homem baixinho se espremeu entre a multidão até chegar na frente do casal. — Aí está você, qual seu nome?

— Maegor Waters, vossa graça. E eu sei do que estou falando, não só eu como todos aqui, o príncipe Daemon gosta de vir à ilha e desfrutar das nossas belas garoupinhas!

O homem sorriu com malícia e gargalhou, alguns outros homens o copiaram naquele gesto, rindo em uma camaradagem nojenta.

— Mais respeito na frente de minha esposa e das outras mulheres aqui presentes, a não ser que prefira perder a língua! — A voz de Anakin soou dura e fria como o gelo da Muralha. — Se isso for verdade ou não ninguém aqui tem como provar, a não ser a mãe da criança, que até o momento não se pronunciou a respeito.

Os olhos de todos se voltaram para a garota supostamente mãe de um bastardo de Daemon, a menina provavelmente também era uma bastarda, já que possuía cabelos claros quase iguais aos de Zenah. Ela não era filha do rei, Anakin sabia que seu pai não era infiel, não por amor à rainha, mas por não possuir nenhum tipo de vontade em sair por aí visitando bordéis, Viserys? Improvável, ele era apaixonado demais por Daenaera para sequer cogitar se deitar com outra mulher, então provavelmente devia ser de algum Velaryon ou talvez Celtigar, não havia como saber.

— Pois então mulher, quem é o pai desse filho que você espera?

A garota corou violentamente, depois encarou os próprios pés evitando o olhar firme de Anakin.

— O príncipe Daemon…

A resposta foi sussurrada mas ainda assim todos puderam ouvir, Anakin então voltou-se para Zenah trocando um olhar cúmplice com sua esposa, depois fez um gesto para um dos guardas que os acompanhavam:

— Sim, vossa graça?

— Certifiquem-se de que essa moça tem comida e condições para ter essa criança, e depois mandem o meistre enviar um corvo a Porto Real, para meu tio.

— O senhor deseja enviar uma carta a Mão do Rei?

— Sim, diga a meu tio que ele vai ser vovô.

Anakin fez o cavalo andar e saiu na frente, Baelon não tardou a acompanhá-lo, Zenah ainda lá atrás olhou a garota uma última vez e sorriu para ela:

— Volto a lhe dizer, tenha uma boa hora.

Então ela também puxou as rédeas e se juntou aos príncipes, eles cruzaram toda a vila antes de tomar a trilha de volta para o castelo. Dessa vez Anakin vinha ao lado de Zenah enquanto Baelon estava mais a frente, o sol se punha por detrás do Monte Dragão jogando luzes alaranjadas sobre as altas torres escuras em formato de dragões, fazendo parecer que aquelas rochas estavam vivas, que eram de fato dragões se erguendo para o céu. O vento estava começando a soprar gelado, logo a temperatura iria cair.

— O passado está bem diante de nós. — Anakin disse em alto valiriano. — E é esse castelo.

— Mas o futuro também está aqui. — Zenah respondeu, ela encarou o marido ao seu lado e sorriu. — Você.

Anakin balançou a cabeça de um lado para o outro e riu, um riso baixo que vibrou em seu peito.

— Nós.

O príncipe bateu com os calcanhares no cavalo e ele correu para o castelo, o vento soprou outra vez fazendo os cabelos de Zenah caírem em seu rosto, ela sorriu e os puxou para trás.

— Nós…

Mais tarde naquela noite Anakin e Zenah estavam a sós no quarto onde eles passariam as noites, sentados no chão em frente a lareira em formato de uma boca de um dragão cuspindo fogo, os dois estavam nus com somente um lençol fino cobrindo as pernas e as cinturas.

— Um bastardo de Daemon… — Zenah disse de repente, ela deitou sua cabeça no peito do marido e começou a pensar no assunto, ainda se lembrando do rosto daquela moça da vila.

— Não é uma surpresa, metade dessa ilha descende da bastardia e não é de hoje, lembra-se das Sementes durante a Dança?

— Claro que lembro, graças a dois deles perdemos Asaprata e Vermithor.

Anakin passou os dedos pelos cabelos da esposa sentindo a textura macia como seda.

— Por que quando chegamos nessa ilha falamos tanto sobre dragões? O assunto surge tão naturalmente, não concorda comigo, Zeninha?

— Isso é verdade. — Zenah fechou os olhos e suspirou. — Essa ilha parece nos incentivar a falar deles, dos nossos dragões.

— Nossos dragões, gosto disso, desse sentimento de exclusividade, “os nossos dragões”. — O príncipe sorriu orgulhoso e beijou o topo da cabeça de Zenah, seus olhos azuis observavam distraidamente o fogo da lareira. — Que tal irmos ao Monte Dragão amanhã ver os dragões selvagens?

— Me parece uma boa ideia, Baelon vai adorar ir com a gente.

— Eu estava pensando em um momento a sós…

Ele fez bico como uma criança mimada, mas sabia que Baelon iria de qualquer jeito, o momento a sós ficaria para depois, como agora, eles dois ali sozinhos naquele quarto…

— Zeninha… — Anakin esfregou o nariz pelas madeixas prateadas dela. — Minha querida…

Ele começou a beijar a lateral do rosto da princesa antes de deitá-la no chão, a lareira continuou a iluminar o quarto enquanto o casal se perdia nos braços um do outro.

Chapter 11: No Monte Dragão

Chapter Text

— Você está me dizendo que existe um dragão selvagem chamado Fantasma Azulado?

Zenah perguntou em choque antes de parar e se apoiar nas pedras, eles tinham passado a manhã inteira escalando o Monte Dragão e seus arredores, sozinhos, desta vez Anakin conseguiu convencer os guardas a não irem junto.

Anakin mais atrás parou e meneou a cabeça antes de passar as costas da mão na testa suada.

— Sim, o sucessor do Fantasma Cinzento, pelo menos é o que o povo da ilha diz.

— Eu já ouvi falar dele, dizem que ele é igual ao Fantasma Cinzento, mas azul, gosta de comer peixes, raramente aparece… — Baelon estava na frente deles ainda cheio de energia, ele escalava as pedras como se não fosse preciso fazer esforço nenhum. — Mas ele é bem jovem, disseram que pode ser filho da Dreamfyre.

— Baelon, mais cuidado. O Canibal ainda está a solta por aí!

Zenah advertiu e olhou ao redor, tudo o que ela viu foram pedras, verde e o céu perfeitamente azul sem nenhuma nuvem no horizonte. A vista de Pedra do Dragão nunca deixava de impressionar a princesa.

— Ele ainda está vivo? — Baelon arregalou os olhos. — Quantos anos ele tem?

— Ninguém sabe, mas pelo que eu sei ele já está aqui há muito tempo, talvez desde a época de Jaehaerys I, ou antes.

Anakin disse antes de voltar a caminhar, ele não queria deixar Baelon ir na frente se achando o mais rápido, era infantil, ele sabia disso, mas não podia evitar. Aquelas brincadeiras bobas entre ele e seu irmão mais novo eram divertidas.

— Antes? Impossível!

— Por que seria impossível, Baelon? Dreamfyre viveu todo o reinado de Jaehaerys. E o Caraxes também viu uma boa parte.

— Mas Anakin, tem pessoas que dizem que ele já estava aqui desde a época da conquista! Isso o tornaria o dragão mais velho do mundo!

Anakin revirou os olhos mas não conteve o riso com a expressão de choque do irmão, era engraçado ver como ele acreditava facilmente nesses boatos.

— Eu duvido muito, pescadores falam de mais!

Os três pararam a caminhada em um ponto do Monte Dragão onde eles viram uma caverna, na entrada havia ossos de animais espalhados e marcas escuras de queimado nas rochas retorcidas, sinais claros de que eles estavam em uma toca de dragão.

Muitos dragões quando não tinham um montador passavam a se esconder naquela montanha e ficarem livres até serem reivindicados de novo, foi o caso de Caraxes, quando Anakin quis tomá-lo para si teve que passar dias vagando pela ilha até encontrar a caverna que o wyrm de sangue tinha tomado para si. A parte que veio depois não foi tão difícil, Caraxes se mostrou aberto a ser domado outra vez, ou gostou de Anakin, ele não sabia ao certo.

Zenah deu um passo à frente com cautela, ao verificar que a caverna estava vazia ela tocou uma das paredes e olhou para o fundo escuro e fumegante, o Monte Dragão não era nada mais do que um vulcão. Talvez isso fosse o que atraísse os dragões a fazerem seus ninhos ali, a semelhança com Valíria e seus antigos vulcões que destruíram a Cidade Franca.

— Quem será que vive aqui? — A princesa perguntou enquanto deslizava sua mão pelas pedras na parede.

— O Canibal!!

Anakin disse antes de avançar e agarrar Zenah pela cintura, ela deu um grito assustada mas logo percebeu que se tratava apenas de uma brincadeira de seu marido.

— Anakin! Isso não tem graça!

Ela bateu na mão de Anakin que apenas a agarrou pela cintura grudando as costas dela contra seu peito, depois ele riu:

— Foi só uma brincadeirinha! Vai me dizer que não gostou?

Baelon riu do casal e depois avançou dentro da caverna, quando Zenah e Anakin perceberam que mais uma vez Baelon estava tomando a dianteira sozinho eles se apressaram em segui-lo.

— Espere por nós, Baelon! E não saia entrando em uma caverna assim! — Anakin disse.

— Mas a caverna está vazia, não tem nada…

Baelon parou de falar e de repente ele estava pálido como cera de vela, seu queixo caiu e seus olhos ficaram vidrados em algo atrás deles na saída da caverna, Zenah e Anakin ouviram um barulho e uma sombra os encobriu antes que eles pudessem perguntar o que estava acontecendo. A primeira coisa que Zenah pensou foi que o dono daquela toca tinha voltado, e Anakin também.

Ele agarrou o pulso de Zenah a puxou para trás de si antes de encarar o que estava tampando a luz, era de fato um dragão, mas não qualquer dragão: era Vhagar.

A boca de Vhagar mal cabia dentro da caverna, mas eles a reconheceram pelas escamas verdes apagadas e cheias de cicatrizes, Anakin apertou a mão ao redor do braço de Zenah e com a mão livre ele tateou a cintura até encontrar sua espada. Foi um ato de reflexo, mas um reflexo estupido. Do que adiantaria usar uma espada contra aquela criatura?

— O que ela quer? — Zenah sussurrou.

— Eu não faço ideia. Baelon, fica perto da gente! — Anakin então gritou em alto valiriano. — Vhagar! Recue!

A dragão não se moveu, ela apenas começou a rosnar baixo, o príncipe tentou novamente, mas dessa vez soando mais firme:

— Vhagar, me obedeça! Para trás agora!

Ela rosnou outra vez, o som foi ficando cada vez mais grave fazendo as pedras dentro da caverna tremerem. Anakin continuou a gritar e tentar fazer o dragão ir embora, mas não adiantou de nada. De repente Vhagar abriu a boca e todos viram um facho de luz laranja no fundo da garganta dela começar a crescer e foi quando Zenah teve certeza, ali seria o fim deles, para que lado eles iriam correr para escapar caso ela cuspisse fogo? Eles seriam soterrados pelas pedras derretidas na pior das hipóteses, cozidos vivos imediatamente na “melhor”.

— Anakin, ela não vai sair… — Zenah murmurou.

— Vhagar, não! Obedeça! Me obedeça sua idiota!

— Anakin! — Zenah gritou, a voz embargada. — Eu te amo…

Ele engasgou e no mesmo instante Vhagar escancarou ainda mais a bocarra cheia de dentes, os três fecharam os olhos esperando o pior. Vhagar rugiu. Rugiu tão alto que as paredes começaram a vibrar e pequenas rochas caíram, a reação de Anakin foi se jogar por cima de Zenah e gritar para Baelon se proteger, depois do rugido houve um barulho e por fim o silêncio, a luz voltou a entrar na caverna.

Anakin foi o primeiro a abrir os olhos e ver que Vhagar tinha ido embora, ele foi caminhando lentamente até a entrada da caverna e de lá conseguiu ver a dragão voando para longe, bem longe. Ele estreitou os olhos e teve a sensação de que tinha visto algo, alguém, nas costas dela. Não, ele pensou, era só impressão, só uma sombra talvez.

Ele se virou e viu Zenah puxando Baelon pelo braço, ambos estavam bem para o alívio de Anakin, ele foi na direção dos dois e primeiro checou Baelon para ter certeza de que seu irmão não tinha se machucado.

— Tudo bem com você?

— S-Sim… eu tô bem, Anakin.

Ele parecia em choque e não era para menos, Anakin deu um tapinha em seus ombros e tentou sorrir, era uma tentativa falha de dizer “ei, foi só um susto! Nós estamos bem!” Mas ele próprio estava sentindo o coração palpitar e a mente vagar a milhão depois do que tinha acabado de acontecer.

Zenah se sentou no chão, suas mãos estavam tremendo de um jeito que Anakin nunca viu antes, ele então se ajoelhou na frente dela e a segurou entre os braços, foi quando ela começou a chorar.

— Tá tudo bem. Tá tudo bem.

— Ela ia… Ela não te obedeceu…

— Shh… está tudo bem, Zenah.

Não havia mais como continuar o passeio, os três voltaram para o castelo em um silêncio mortal, lá foram recebidos pelo meistre Willard, que se assustou com a forma que os três irmãos chegaram abalados. Eles contaram o que aconteceu lá fora, e foi quando tudo começou.

O comportamento de Vhagar foi estranho, apesar de tudo ela era uma dragão muito pacífica, nunca tinha feito algo assim com ninguém antes, o meistre mandou chamar um dos homens responsáveis por tomar conta dos dragões e pediu que ele encontrasse Vhagar, o homem voltou horas depois sem notícias dela. A dragão tinha desaparecido.

Tudo bem, meistre Willard disse, ela deve ter ido caçar. Na manhã seguinte mais homens foram procurar a dragão e nada, pela tarde Anakin e Baelon se juntaram às buscas, a noite caiu e nenhum sinal de Vhagar, todos voltaram frustrados.

O meistre enviou um corvo a Porto Real contando o que tinha acontecido na ilha e Anakin não gostou nem um pouco, ele não queria que a notícia tivesse saído dali e chegado aos ouvidos de seu pai. Tudo bem, meistre Willard disse outra vez, o príncipe ainda está muito nervoso e o rei precisa saber o que está acontecendo aqui. Anakin quis esganar meistre Willard, ele odiava a forma como aquele homem estava lidando com toda a situação, com uma paciência e calma infinita, mesmo enquanto o príncipe esbravejava Willard não perdeu a compostura.

Eles passaram mais um dia tentando encontrar Vhagar e outra vez nenhum sinal dela, após quase dois dias do desaparecimento do dragão o clima de tensão estava começando a aumentar, como um animal tão grande poderia desaparecer assim de repente depois de quase ter matado os filhos do rei?

Anakin e Zenah estavam no quarto, com muita relutância o príncipe aceitou descansar e não sair noite afora com Caraxes caçando a outra dragão, mas ele não estava realmente descansando e sim andando de um lado para o outro como um animal enjaulado.

— Anakin? — Zenah sentada na cama o chamou. — Por favor, sente um pouco. Você está muito nervoso e eu vou acabar ficando também.

— Não consigo Zenah, eu não vou conseguir descansar enquanto não encontrar aquela velha! — Ele vociferou com ódio. — Eu não consigo entender o que foi aquilo, ela nos encontrou naquela caverna, mas como? E por que quis nos atacar de repente? Não estávamos no ninho dela, Zenah! Claramente ela não cabia ali dentro, então por que? Parece até que alguém a estava controlando!

— Impossível, Vhagar não tem um montador.

— Esse é o ponto! Então o que foi aquilo? Ela está ficando tão velha que não sabe mais o que faz? Se for assim, devemos sacrificá-la!

— Anakin! — Zenah se levantou e foi em direção ao marido, ela o segurou pelos ombros o forçando a parar de andar e respirar. — Não se mata um dragão! Já perdemos muitos na Dança, não podemos perder mais um assim sem motivos!

— Sem motivos?! Sem motivos, Zenah?! A essa altura o reino inteiro estaria chorando se aquela criatura tivesse feito o que ela pretendia fazer! — Ele pôs suas mãos sobre as dela e apertou. — Nós teríamos morrido! Morrido, Zenah! Teríamos sido queimados vivos, sentido a nossa carne derreter nos ossos, nossas roupas se fundindo a pele. Consegue imaginar a dor insuportável que sentiríamos? Consegue se imaginar queimando? Imaginar seu rosto e corpo se transfigurando completamente?!

— Pare com isso Anakin!

Zenah o empurrou e abraçou o próprio corpo, parecia que ela iria outra vez se contrair, tentar reprimir seus sentimentos, mas ela se controlou melhor daquela vez porque a situação exigia calma.

— Zenah, você disse algo que eu ainda não tive tempo de perguntar, mas agora que estamos aqui eu preciso saber.

Anakin mudou quase que completamente de assunto, quer dizer, ainda era algo relacionado ao que eles passaram no Monte Dragão, mas uma parte mais fácil de se falar e que não tinha saído da mente de Anakin desde aquele dia.

Ele deu um passo à frente e seu rosto se iluminou com a luz alaranjada vinda do fogo da lareira.

— Você disse que me amava.

Zenah arregalou os olhos, sim, ela tinha dito aquilo quando pensou que estava vivendo os últimos momentos de sua vida, ela desviou o olhar para o fogo e respirou fundo. Algo dentro dela disse que a hora de falar era agora, a princesa precisava fazer isso.

— Eu disse…

— E isso é verdade?

Ela o encarou outra vez quase incrédula por ouvir aquela pergunta, mas Zenah pôde ver como Anakin estava genuinamente esperançoso, como ele queria ouvir que sim, que aquilo não tinha sido apenas de momento, uma reação do medo. E não, não era uma fala de momento.

Zenah estendeu as mãos e tocou o rosto do marido, depois lentamente ela se aproximou até colar seus lábios aos dele em um beijo suave e doce como a brisa da manhã.

— Isso é verdade, Zenah? — Anakin perguntou após o beijo, sua voz soando quase desesperada agora. — Me diga, por favor…

— Eu te amo, Anakin.

Zenah disse outra vez como tinha feito naquela caverna dias atrás, Anakin não pensou duas vezes, entrelaçou seus dedos nos cabelos da esposa e a beijou, por um momento qualquer preocupação se dissipou e tudo o que ele sentiu foi paz, calmaria e amor.

— Zenah… — Ele murmurou contra os lábios dela. — Eu amo você.

Os dois se abraçaram em silêncio por um longo tempo, tudo o que podiam ouvir era o som da água do mar batendo contras rochas lá fora e o estalar da lenha queimando na boca do dragão, aquela lareira antes não significava nada para Anakin, era apenas um formato diferente, exótico e extravagante. Agora no entanto, toda vez que olhava para lá o príncipe se lembrava de Vhagar e isso lhe enchia de raiva.

Ele tinha que encontrar aquele dragão e entender o que tinha acontecido.

Chapter 12: Vinho e Chuva

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O céu tinha amanhecido coberto por nuvens de chuva acinzentadas tornando a atmosfera triste, úmida e fria. Vhagar ainda não tinha aparecido de volta à ilha então as buscas iriam tomar novas proporções.

Anakin quem tinha planejado como seria, Zenah e ele iriam montados em Dreamfyre e Caraxes até o Vale, um dos lugares mais próximos de Pedra do Dragão. Zenah tinha sugerido que talvez por algum motivo Vhagar poderia ter ido para lá, ninguém conseguia pensar em uma razão para ela ter ido até o Vale na verdade, mas àquela altura eles já estavam pensando em todas as possibilidades, até as mais malucas.

Os dois estavam no pátio quando Baelon apareceu em roupas de montaria, ele também iria procurar por Vhagar, mas não no Vale com os irmãos. Anakin o convenceu a sobrevoar Pedra do Dragão e Derivamarca pois ainda havia a possibilidade de que Vhagar estivesse por perto e simplesmente não foi vista por ninguém por algum motivo inexplicável, por isso Baelon deveria ficar e procurá-la por ali.

Ele montou em Trovoada e depois olhou para seus irmãos já em seus dragões também.

— Vamos encontrá-la! — Baelon gritou.

— Eu espero que sim. — Zenah respondeu. — Vamos ser otimistas.

Os três dragões saíram de Pedra do Dragão voando lado a lado, até que em certo trecho do caminho eles se dividiram, Dreamfyre e Caraxes seguiram rumo ao Vale de Arryn enquanto Trovoado tomou o caminho oposto em direção a Derivamarca.

 

Reencontrar as Montanhas da Lua não foi como Zenah imaginava, a última visita recente que tinha feito com Anakin ao lugar foi fantástica, a fez pensar que provavelmente as montanhas e lagos cristalinos daquela região pudessem se tornar o refúgio do casal para quando eles quisessem apenas ficar juntos sem ninguém por perto. Agora eles estavam ali não para buscar paz, mas sim um dragão.

Eles sobrevoaram as montanhas não uma mas três vezes, depois voaram mais baixo perto dos rios sinuosos, Zenah teve certeza de que vira o lago onde ela e Anakin se banharam em dado momento. Eles passaram por cima de vilarejos, cidades, deram a volta no Ninho da Águia, nada. Nenhum sinal de Vhagar em lugar nenhum.

Ali no Vale o céu também estava cheio de nuvens, mas vez ou outra um raio de sol aparecia, a tempestade que pretendia cair sobre Pedra do Dragão não tinha chegado até aqui. Metaforicamente. Literalmente.

Depois da terceira volta ao redor das montanhas o casal pousou perto de um rio para deixar os dragões descansarem um pouco e eles também, Anakin enfiou as mãos na água gelada e depois as esfregou contra o rosto, Zenah estava ao seu lado mas seus olhos vagavam por aquela paisagem silenciosa em busca de qualquer coisa estranha, qualquer ruído suspeito. Nada.

— Ela não está aqui. — Anakin disse depois de molhar o rosto e fazer o mesmo com os cabelos. — Se tivesse já teríamos encontrado.

— Será que deveríamos começar a perguntar às pessoas se alguém viu a Vhagar?

— Não quero que ninguém comece a suspeitar que perdemos um dragão, se isso chegar aos ouvidos das pessoas erradas estamos fudidos.

Zenah ou ignorou o palavrão ou apenas não ouviu, ela ainda estava olhando ao redor, provavelmente era a segunda opção.

— Depois da Dança os bastardos entenderam que eles também podem montar em dragões se assim quiserem, já imaginou o que isso significaria?

— Acha que algum bastardo tentaria domar Vhagar? — Zenah perguntou incrédula. — Anakin, nenhum deles seria louco o suficiente para fazer isso.

— Quero acreditar em você, Zenah. — O príncipe se pôs de pé e esticou os braços, depois de dar uma última olhada ao seu redor e concluir de fato que Vhagar não estava ali ele foi em direção a Zenah e tocou o rosto dela. — Vamos voltar para Pedra do Dragão?

— É uma boa ideia, talvez Baelon tenha tido mais sorte do que nós.

— Quem sabe? Talvez aquela velha tenha voltado para a ilha e a gente fique com cara de idiotas.

Ele montou em Caraxes e segurou as rédeas, no fundo Anakin queria chegar e se deparar com Vhagar dormindo, ouvir o idiota do meistre Willard dizer que ela tinha acabado de reaparecer e que tudo estava bem. Eles ririam, talvez fossem até fazer piadas de todo o acontecido no futuro, “se lembra de quando fomos ao Monte Dragão? Ah claro! Naquele dia em que Vhagar nos encurralou em uma caverna e tentou cuspir fogo, não é? Se lembra de como tivemos medo? Estávamos tremendo tanto! Eu quase caguei nas calças! Você devia ter visto sua cara, Zenah, foi hilário!”

Anakin conseguia se imaginar gargalhando até a barriga doer, conseguia ver Zenah e Baelon fazendo a mesma coisa.

“Se lembra de como ficamos dias procurando Vhagar e nenhum sinal dela? E aí ela reapareceu como se nada tivesse acontecido? Eu vivi os momentos mais estressantes da minha vida naquela época! Quase arranquei meus cabelos! Ha ha ha!”

Ele se via rindo mas dentro dele o único sentimento que crescia era a raiva.

“Foi tão engraçado! E tudo por causa daquela velha asquerosa! Tudo por causa de Vhagar. Velha. Imbecil. Idiota. Inútil. Louca. Puta. Desgraçada. Eu. Te. Odeio. Vhagar.”

Anakin esperou Zenah montar em Dreamfyre e dar o sinal para a dragão levantar voo, então ele fez o mesmo com Caraxes e os dois sobrevoaram o Vale indo de volta para Pedra do Dragão, as nuvens estavam mais escuras na região da ilha.

Um relâmpago reluziu por entre as nuvens seguido de um estrondo, um trovão, a água caia com força no pátio do castelo escuro, por entre algumas estátuas de dragão a chuva formava verdadeiras cachoeiras que escorriam pelas paredes até o chão, quando caiam pelos olhos das estátuas davam a impressão de que os dragões estavam chorando.

Trovoada desceu pelo céu e aterrissou todo molhado da chuva, o pequeno dragão abriu as asas e as balançou tentando tirar o excesso de água, príncipe Baelon completamente encharcado nem se importava mais, ele só queria entrar e trocar de roupa.

— Se cuida, garoto.

Ele disse ao seu dragão antes de dar as costas e caminhar até a parte coberta do pátio, ali ele percebeu que não estava sozinho, havia um homem no canto, ele estava encolhido dentro de uma capa molhada e segurava uma garrafa e uma caneca vazia na mão, e uma outra caneca cheia na outra. Baelon reconheceu o homem quase que de imediato, era aquele pescador de alguns dias atrás, Maegor Waters.

— Senhor? — Baelon o chamou. — Maegor Waters?

— Olá vossa graça, ainda se lembra do meu nome? Mas que honra!

O homem abriu um sorriso amarelado e indicou a caneca cheia que ele trazia na mão direita.

— Eu fiquei preso por causa da chuva depois que trouxe alguns peixes para vender, daí fiquei por aqui esperando e tomando um vinho.

Baelon desceu seus olhos para o líquido escuro na caneca velha, depois deu alguns passos na direção de Maegor, um trovão estrondou no céu outra vez.

— Não prefere entrar? Lá dentro é mais quente.

— Nah, besteira! Vinho barato é o melhor para se aquecer um corpo velho como o meu.

— O senhor tem um sotaque engraçado… — Baelon estreitou os olhos e desta vez encarou a garrafa na mão do pescador. — De onde é esse vinho?

— Não é de nenhum lugar que o senhor conheça, com isso quero dizer a Árvore ou Dorne, é vinho barato, como já lhe disse, mas é bom. Vossa graça aceita um pouco?

Baelon balançou a cabeça negando, mas depois de horas montado em Trovoada ele de fato estava morrendo de sede, um copo de vinho, não importa qual fosse, cairia muito bem agora.

— Tem certeza de que é bom?

— Mas é claro! Sou um pescador meu filho, posso lhe chamar de meu filho?

— Pode.

— Então, esse vinho aqui, para mim, é muito bom. Nós pescadores estamos acostumados a beber qualquer coisa, não importa o quê, quando achamos algo bom nós não mentimos, mas a opinião pessoal é o que importa.

— O senhor realmente fala de um jeito engraçado, tem certeza de que nasceu aqui?

Maegor encheu a caneca vazia com vinho e estendeu a mão para o príncipe, ele tinha um sorriso quase abobalhado no rosto. O príncipe Baelon olhou para aquele copo e a bebida e depois lentamente esticou a mão para pegar.

— Prove e diga por si mesmo, vossa graça.

O vinho desceu queimando pela garganta do jovem príncipe, era amargo, quase vinagre, mas Baelon estava com tanta sede que tomou um grande gole, ele franziu o nariz e resmungou.

— Ergh! Você me disse que era bom!

— E não é?

— Você precisa provar os vinhos da Árvore, esses sim são bons, eles tem vinhos de todos os tipos, tem até um vinho de amora, não é popular mas a minha irmã adora.

— Sério? Interessante, beba mais um pouco, fica mais gostoso depois do segundo gole.

Baelon deu de ombros e bebericou aquela bebida com gosto horrível, o pescador também levou seu copo até os lábios mas apenas fingiu beber. O príncipe nem percebeu. Depois disso ele devolveu seu copo a Maegor e limpou os lábios com as costas da mão.

— Muito obrigado pelo vinho senhor Waters.

— Não quer mais?

— Não, obrigado. O sabor é bem… exótico. Não agradou meu paladar.

O pescador começou a rir, um relâmpago fez o céu brilhar e logo um novo trovão, o mais alto até então, estourou e espalhou seu som por toda parte. Baelon ergueu a cabeça para olhar as nuvens de chuva que não pareciam dar trégua.

— Isso vai atrasar a viagem dos meus pais…

— Seus pais? Eles estão vindo para cá?

— Sim, meus pais e meus tios, vêm de Porto Real para cá, mas acho que só vão chegar amanhã a noite. — Baelon esfregou a mão na testa limpando algumas gotas de chuva. — Eu preciso mesmo ir e trocar de roupa.

— Claro vossa graça, não tomarei mais de seu tempo.

Maegor deu um passo atrás antes de Baelon se despedir e entrar no castelo, uma vez sozinho o pescador balançou seu copo de vinho cheio, encarou o líquido escuro e depois colocou a caneca na água da chuva, aos poucos o copo transbordou e o vinho se misturou a água até se diluir por completo. Depois o pescador abriu sua garrafa e derramou toda a bebida no chão até a última gota, foi quando ele sorriu satisfeito.

— Feito.

Ele deu um passo à frente se enfiando debaixo da chuva forte e saiu caminhando até os portões do castelo, ele cantarolava uma música obscena de Lys. Nem sequer se importava com a chuva.

Trovoada rosnou baixo quando Maegor passou por ele, como se não tivesse gostado daquele homem, mas o pescador nem se importou. Ele deixou o castelo ainda cantando, a chuva ficou mais forte, bem como o choro dos dragões…

 

Baelon trocou as roupas úmidas por roupas limpas, secou os cabelos e se serviu de um bom vinho dornês bem diferente daquela bebida horrível que o pescador lhe ofereceu, foi um gesto de bondade, Baelon não iria julgá-lo por isso, aquele homem lhe ofereceu uma caneca a fim de ajudá-lo a se esquentar, claro que Baelon se lembraria disso antes de julgar o sabor daquele vinho que lhe foi servido.

Ele tomou um gole de sua taça e de repente sentiu uma pontada estranha na barriga, Baelon parou e tocou seu abdômen quando a dor desapareceu.

— Que estranho…

O príncipe murmurou e depois tomou outro gole, houve outra pontada, dessa vez ainda mais forte, ele gritou. A dor não desapareceu.

Chapter 13: Baelon

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147 d.C.

— Força, vossa graça! Força! Só mais um pouco!

Uma das parteiras gritou, faltava muito pouco para aquele tormento terminar, Jaehaera repetia para si mesma que logo tudo ficaria bem, que a dor iria desaparecer e a criança nasceria. A cabeça já estava quase saindo, essa era a pior parte, depois que a cabeça passasse seria mais fácil. Foi assim das outras duas vezes, não seria diferente agora.

Ela esperou a contração vir, agarrou os lençóis da cama e empurrou com o que restava de suas forças, mais um pouco, mais um pouco, só mais um pouco… o quarto foi preenchido pelo choro do bebê quando este finalmente conheceu o mundo.

— É um menino!

Alguém gritou, Jaehaera nem soube dizer quem, ela fechou os olhos respirando ofegante e aliviada, acabou, ela pensou, nasceu.

A criança foi posta em seus braços, um menino gorducho com um tufo de cabelo prateado ainda sujo de sangue no topo da cabeça, ele se retorcia incomodado com aquele novo ambiente bem diferente da barriga de sua mãe, mas quando percebeu estar perto dela, ele abriu os olhos, e Jaehaera se impressionou. Eles eram de um lilás tão claro, quase branco! A rainha nunca viu nada assim antes.

Aegon não estava ali para conhecer a criança, tinha ido a uma viagem para o Norte visitar Cregan Stark já que diziam que ele estava muito doente, mas logo ele estaria de volta tão logo soubesse que o bebê nasceu.

A parteira mais experiente e que já tinha cuidado de Jaehaera em seus dois partos anteriores se aproximou dela e do bebê lentamente como se não quisesse perturbá-los, ela sorriu para o pequeno príncipe no peito da rainha e disse:

— É um lindo bebê, vossa graça. Como ele se chamará?

Jaehaera pensou por um momento enquanto observava seu filho que a essa altura já tinha parado de chorar e estava mais calmo, agora quase dormindo, ela já estava decidida, não importava como Aegon iria reagir a escolha dela. Ele nem sequer estava lá para questionar.

— Baelon. — Ela sussurrou cansada. — Baelon Targaryen.

As parteiras se entreolharam confusas, aquele seria o nome? Mas era tão diferente dos nomes usados anteriormente com as outras duas crianças…

— Baelon? — O grande meistre disse, ele tinha acabado de entrar no quarto para ver a criança e ouviu aquela parte da conversa. — Esse será o nome?

Jaehaera aquiesceu, o grande meistre caminhou em direção a cama e parou ao lado da parteira. Ambos se entreolharam e depois ele deu de ombros.

— Que assim seja.

O meistre enviou uma carta a Aegon e o rei voltou o mais rápido possível, ele chegou de volta a Fortaleza Vermelha poucos dias depois do nascimento de Baelon, Jaehaera ainda estava repousando mesmo já estando se sentindo completamente bem. Ela estava em seus aposentos quando Aegon apareceu, ele entrou no quarto ainda usando as roupas e capa de viagem, seus olhos pousaram primeiro na esposa deitada na cama em uma camisola branca comprida, depois no bebê dentro de um berço ao lado dela.

— Não o levaram para o berçário? — Foi a primeira coisa que ele disse.

— Eu pedi que o deixassem aqui pois sabia que você voltaria.

Jaehaera respondeu e lentamente se sentou na cama, ela esticou o braço direito e apontou para o bebê dormindo no berço. Baelon era calmo, não chorava tanto, mas não era como Zenah que parecia nem saber como chorar, e era diferente de Anakin, que parecia querer testar o limite de seus pulmões.

Aegon caminhou em direção aos dois, primeiro ele foi até a esposa e parou junto a cama como um cavaleiro em serviço.

— Você está se sentindo bem? — Ele estava genuinamente preocupado com Jaehaera, o último parto, o das gêmeas, tinha sido muito desgastante para ela. — É uma pena que eu não estava aqui.

— Eu estou bem, não se preocupe. E você não tem culpa de nada.

— Eu não devia ter querido ir ao Norte, Cregan não vai morrer, ele é forte, essas histórias são exagero.

Então ele se virou e tocou o berço antes de se debruçar para ver pela primeira vez o seu filho, ele era grande, maior do que Anakin era talvez.

— Ele tem quase o mesmo tamanho que Anakin tinha ao nascer, ou ainda mais. E é mais corado do que ele e Zenah também.

— Qualquer criança é mais corada do que Zenah. — Jaehaera resmungou, o rei lhe lançou um olhar de reprovação. — Eu não estou mentindo.

— Sabe que não gosto quando fala assim da Zenah, ela estar aqui viva é um milagre, um milagre do tipo que devemos agradecer.

Aegon quase tocou o rosto do filho enquanto falava, mas teve medo de acordar o bebê e por isso não o fez.

— Você é sempre tão sentimental quando se trata de Zenah, chego a me surpreender.

— Por que Baelon? — Ele perguntou ignorando o que Jaehaera estava falando.

— Não mude de assunto, Aegon.

— Não fuja da pergunta, Jaehaera. — O rei deixou o filho dormir e voltou para junto da esposa na cama. — Por que não escolheu um dos nomes da lista?

Antes da viagem eles tinham criado uma lista com possíveis nomes para o bebê caso fosse menino e caso fosse uma menina, nomes de antigos deuses valirianos, e todos foram ignorados em favor daquele nome, Baelon.

Jaehaera não se intimidou, ela já sabia que Aegon faria aquela pergunta assim que soubesse e já estava pronta para respondê-la. A rainha cruzou os braços e encostou a cabeça em um travesseiro antes de falar:

— Não acha que já irritamos demais a fé? Primeiro Anakin, depois Zenah, o Alto Septão está calado mas todos sabem que ele nunca aprovou nossas escolhas. Já fomos audaciosos demais por duas vezes, não quero pagar para ver uma terceira.

Aegon meneou a cabeça, era difícil dizer se foi concordando ou apenas pensando.

— Deixe que o nome seja esse, faça o Septão feliz e a fé também, é só o que eu te peço.

— Você acha que o Septão faria alguma coisa contra a gente?

— Não, mas e se? E se ele inflar o povo contra nós? As pessoas são movidas por seus princípios Aegon, por sua fé, convencê-los a acreditar que estamos cometendo blasfêmia não seria difícil. Já passamos por coisas demais, eu não quero ver nossa família terminar assim.

Sim, eles já tinham passado por coisas demais naquela vida, coisas que nenhuma pessoa deveria ter passado na vida, só eles entendiam seus traumas, suas dores, e compartilhavam entre si esse passado sombrio.

— Eu sei, você não precisa me lembrar…

Aegon abaixou a cabeça, seu olhar ficou sombrio de repente quando certas memórias lhe vieram à mente, coisas que ele preferia esquecer mas não conseguia. Seu pai, seus meio-irmãos, Visenya, Viserys, sua mãe. Cada um deles sofreu as consequências de uma forma diferente, uns pagaram preços mais altos do que outros, a vida.

Ele suspirou e balançou a cabeça como se aquele gesto pudesse fazê-lo esquecer pelo menos momentaneamente das memórias que o acompanhavam dia após dia, mesmo após tantos anos, era tão difícil esquecer.

— Baelon… por que esse nome?

— Me parecia bonito.

O rei riu daquela resposta simples, mas se deu por satisfeito.

— Ao menos poderia ter escolhido um nome melhor.

— Que nome seria melhor?

— Eu não sei, Jaehaerys? — Ele rapidamente se arrependeu de ter dito aquele nome. — Peço desculpas.

Jaehaera não disse nada, muitas vezes só de ouvir o nome de seu irmão sendo dito ela já se lembrava dele, Jaehaerys, às vezes ao se olhar no espelho ela se perguntava se eles ainda seriam parecidos, como ele estaria hoje. Tudo teria sido tão diferente.

Aegon voltou seu olhar para o berço outra vez, até que aquele bebê tinha cara de Baelon mesmo.

Ele deixou o quarto sem dizer nada e algum tempo depois voltou trazendo um ovo de dragão em mãos, Jaehaera nunca se esqueceria daquela cena, já que para ela ver Aegon segurando qualquer coisa relacionada a dragões parecia muito mais uma miragem do que realidade.

— O que significa isso?

Ela perguntou quando o viu colocando o ovo no berço do bebê, uma tradição Targaryen claro, mas uma tradição que Aegon não seguia, tanto que não fez isso com Anakin e nem Zenah.

— É para Baelon. — O rei respondeu. — Para provar que aceito o nome dele.

Ele posicionou o ovo perto do bebê e encarou aquela coisa que mais parecia uma pedra, gesto de aceitação? Sim, era verdade. Mas ele queria que aquele ovo não chocasse nunca.

Aegon deu as costas para o ovo e se voltou para Jaehaera, sua expressão sempre séria agora estava também relutante, ele tinha algo a dizer mas não sabia como.

— Jaehaera, acho que podemos concluir que você já cumpriu muito bem os seus deveres de esposa para comigo, me deu quatro filhos, três estão vivos e saudáveis, os herdeiros que eu precisava. — Ele fez uma breve pausa. — Já me dou por satisfeito assim, sei como a gravidez é um período difícil para você, não sinto que haja necessidade de te fazer passar por tudo isso de novo, concorda?

A rainha fez que sim, então houve outra breve pausa antes de Aegon acrescentar:

— Agora tudo o que peço é que continue cumprindo seus deveres de rainha, algo que você já faz muito bem, mas que também cumpra seus deveres de mãe.

Mais uma vez Jaehaera meneou a cabeça para cima e para baixo e disse:

— Fizemos o que tinha que ser feito, cumprimos o nosso dever e demos herdeiros para a coroa.

Ele concordou sem dizer uma palavra, foi quando Baelon acordou e começou a chorar provavelmente com fome.

— Vou pedir que a ama de leite venha aqui.

— Obrigada. — Jaehaera respondeu. — Peça que levem o berço para o berçário também, você já o conheceu, não há necessidade dele permanecer aqui.

Aegon concordou, girou nos calcanhares e saiu do quarto, Jaehaera então se pôs de pé e pegou o bebê nos braços tentando fazê-lo parar de chorar.

— Baelon, Baelon… — Ela murmurou. — O que será de você, Baelon?

 

163 d.C.

A tempestade tinha se tornado uma garoa quando Dreamfyre e Caraxes aterrissaram em Pedra do Dragão, Anakin e Zenah mal tinham botado os pés no chão quando um funcionário do castelo veio correndo na direção deles com péssimas notícias, Baelon não estava nada bem.

Eles correram para o quarto do príncipe e o encontraram na cama, pálido, suado e gemendo de dor, ao lado dele estava o meistre Willard e um septão, ambos tentavam achar uma maneira de aplacar o sofrimento do príncipe mas parecia não haver como. Zenah correu para junto do irmão e tocou a mão dele, estava gelada e úmida.

— Baelon? Baelon? O que aconteceu?! — Ela ergueu a cabeça e encarou Willard. — O que aconteceu com ele?!

Anakin também foi até o irmão, ele estava chocado com aquela cena, na última vez que viu Baelon ele estava bem, como de repente caiu de cama assim?

— Ele estava reclamando de algumas dores na barriga que foram ficando mais fortes, então veio a febre, convulsões e as dores pioraram. — meistre Willard explicou ao casal. — Foi tudo muito rápido, em questão de horas depois da primeira queixa ele já estava assim.

— O que?!

O rosto de Zenah empalideceu, quando ela ouviu a explicação de meistre Willard sua mente instantaneamente entendeu o que tinha acontecido: veneno.

Anakin percebeu como de repente os olhos dela tomaram um pânico muito forte, antes que ele pudesse perguntar o que era a princesa agarrou os ombros do velho Willard, o meistre tropeçou e quase caiu, até ele se assustou com a postura de Zenah.

— Vossa graça…?

— Ele comeu ou bebeu alguma coisa diferente? — Ela disse tão rápido que parecia que todas as palavras eram uma só. — Ele comeu ou bebeu alguma coisa diferente?!

— Ele me disse que bebeu vinho, vossa graça…

— Que vinho?!

— Não daqui, um vinho oferecido por um pescador, disse que…

Zenah largou os ombros de Willard e voltou para junto de Baelon, ele parecia nem perceber a presença dos irmãos ali.

— Baelon! A não, a não!

— Zenah, o que está acontecendo? — Anakin perguntou. — Por que você está agindo assim? Ele tem algo grave?

Zenah não respondeu, ela estava chorando muito e suas mãos começaram a tremer como naquele dia na caverna, mas agora foi tudo ainda mais estranho, sim Baelon estava doente, muito doente, mas a reação de Zenah era como se ela soubesse de algo que Anakin ainda não tinha compreendido.

— Veneno? — Anakin perguntou, ele juntou as peças daquele quebra cabeças maldito e não gostou nem um pouco do resultado. — É veneno? Zenah, me responda!

Zenah se atirou nos braços dele chorando e soluçando em desespero, Anakin ficou sem ação, ele lentamente envolveu seus braços ao redor dela mas seus olhos permaneceram no irmão naquela cama, ficando cada vez mais fraco. A resposta já tinha sido dada.

— Baelon, não…

Anakin murmurou sem acreditar.

Zenah passou todo o tempo ao lado de Baelon, não havia o que ser feito pela saúde do príncipe e ela sabia disso melhor do que ninguém, o que restou foi administrar doses de leite de papoula, para ao menos tornar o sofrimento dele menor.

Nunca antes a princesa se sentiu tão inútil, tão de mãos atadas, não havia um antídoto para o que estava matando o seu irmão, e pensar nisso a fazia morrer por dentro. Ela queria salvá-lo, mas não tinha como.

Baelon se foi antes do sol nascer, ele já estava desacordado havia tempo, induzido pelo leite de papoula, por isso morreu sem dizer nada a ninguém. Anakin observou o rosto do irmão agora finalmente tranquilo, bem diferente daquela máscara de agonia sem fim, ele se perguntou o que tinha se passado na mente daquele garoto antes de deixar este mundo. Ele pensou em algo importante? Alguém? Alguma coisa? Será que pensou nos irmãos? Nos pais? No seu dragão?

Eram perguntas que jamais seriam respondidas.

Anakin estava em um estado de dormência, nada fazia sentido, nada parecia certo. O septão cobriu o rosto do príncipe Baelon com um lençol branco, ao fundo Zenah soluçava sem que ninguém conseguisse acalmá-la.

A chuva parou, pela tarde o barco que trazia o casal real, a Mão e sua esposa atracou na ilha, eles foram recebidos pela notícia da morte de Baelon horas antes.

Aegon e Jaehaera foram imediatamente ver o corpo, lá ficaram a sós com Baelon coberto pelo lençol branco, por um momento ninguém disse nada porque não havia o que ser dito.

— O Estranho nos visitou outra vez. — Aegon finalmente falou, sua voz soava sem vida nenhuma.

Jaehaera tocou o rosto encoberto do filho, flashes de memória do rostinho de Baelon recém nascido e aqueles olhos lilases tão claros invadiram a sua mente. Ela sentiu aquela dor outra vez, a dor que já estava acostumada a sentir a tanto tempo. A mesma que Aegon também estava sentindo agora e sentiu durante uma vida inteira.

— Baelon, Baelon… — Ela murmurou. — Durma bem, meu filho.

Chapter 14: A Maldita

Notes:

Curiosidade: Inicialmente Zenah seria parte da Casa Lannister e prima de Anakin.

Chapter Text

Eles voltaram para Porto Real onde a cerimônia de cremação do corpo de Baelon aconteceria, a capital estava entristecida. Os sinos do septo tocaram anunciando a morte do príncipe para todos naquele dia. A cidade inteira compartilhava da dor dentro das muralhas da Fortaleza Vermelha.

O corpo foi preparado e toda a família real se reuniu junto com a corte, com eles haviam três dragões, Caraxes, Dreamfyre e ele, Trovoada. O pequeno dragão veio sozinho, seguindo o navio com o corpo de seu montador, ele passou o dia inteiro sobrevoando o castelo e muitos disseram que ele só queria se despedir também.

Foi acordado que Dreamfyre e Caraxes acenderiam a pira funerária após o comando de Anakin e Zenah, mas na hora em questão os planos mudaram, isso porque a princesa simplesmente não conseguia falar.

Zenah ainda estava muito abalada e chorava o tempo todo, nem Anakin conseguia consolá-la. A dor da perda de Baelon realmente tinha a atingido, bem como a todos, o próprio Anakin estava sentindo um vazio inexplicável, mas para Zenah era como se a dor tivesse sido ainda maior. Ele queria poder fazer alguma coisa por ela, mas não sabia o que.

Estavam todos no pátio em volta do corpo do príncipe Baelon, ali naquela pira o príncipe ainda parecia estar apenas dormindo, era como se a qualquer segundo ele fosse acordar e perguntar porque todos estavam chorando, mas ele não iria. Ele nunca mais iria acordar.

Anakin deu um passo à frente mas Zenah, que até então estava à sua direita, não se mexeu, ele a pegou pela mão e gentilmente a trouxe para perto.

— Vamos lá, Zenah. — Ele sussurrou. — Só diga uma palavra, vamos juntos, está bem?

Zenah tinha se acalmado de uma crise de choro horas antes, estava “bem” o suficiente para fazer o que lhe foi delegado, mas todos se enganaram. Ao ver o irmão ela começou a chorar outra vez e simplesmente não conseguiu dizer a palavra “dracarys”. Anakin continuou segurando a mão dela enquanto dizia sozinho:

— Caraxes, dracarys.

O dragão cuspiu fogo e então estava feito, enquanto o corpo de Baelon queimava Anakin abraçou Zenah e a trouxe para junto de si, as lágrimas dela molharam sua túnica mas ele não se importou, uma única lágrima também escorreu pelo rosto dele.

O rei e a rainha estavam também lado a lado, mas não se abraçaram e nem choraram. Aegon não tinha dito uma única palavra o dia inteiro e seu rosto pareceu ter envelhecido pelo menos 5 anos do dia para a noite. Jaehaera estava séria, controlada, seguindo o protocolo.

Os olhos dela lentamente se moveram do fogo para Zenah, ao ver a filha soluçando e chorando daquela forma na frente de toda a corte Jaehaera suspirou e seu olhar endureceu.

Assim que o funeral teve fim Jaehaera ordenou que Zenah fosse vê-la, Anakin que ficou ao lado da esposa outra vez tentando acalmá-la argumentou que não era a hora para isso, que Zenah precisava de um pouco de sossego, mas de nada adiantou. Então ele levou a esposa até a mãe deles no solar da rainha a contragosto.

Jaehaera estava em pé no meio da sala, ainda usava um vestido preto simples, o mesmo que usou durante a cerimônia, quando ela viu Zenah daquele jeito ainda chorosa e abalada seu semblante fechou. Anakin percebeu aquilo e não gostou nem um pouco.

— Mãe, o que deseja falar com Zenah?

Ele perguntou antes de ajudar a esposa a se sentar em uma cadeira.

— Por favor, nos deixe a sós, filho. Preciso falar com a sua irmã.

Anakin não queria sair, ele preferia ter ficado e ouvido toda a conversa, mas sabia que não poderia argumentar com sua mãe, então ele tocou o rosto de Zenah e acariciou suavemente a bochecha dela.

— Eu volto já.

Zenah balançou a cabeça lentamente como se dissesse sim, uma vez a sós com a filha Jaehaera mudou completamente, ela foi na direção da menina e a fez ficar de pé, depois esfregou o rosto da princesa com as mãos tentando secar as lágrimas dela de uma maneira pouco afetuosa. Zenah tentou empurrar as mãos dela mas não conseguiu.

— Mãe!

— Por que você estava chorando daquele jeito na frente de todo mundo?! — Jaehaera disse enquanto ainda tentava secar o rosto da filha puxando a pele das bochechas dela. — Mostrando sua vulnerabilidade na frente das pessoas! O que pensa que estava fazendo?!

Ela soltou o rosto de Zenah e esta quase caiu, uma vez livre das mãos da mãe a princesa tocou as bochechas doloridas e se afastou, Jaehaera nunca tinha agido assim com ela antes.

— Mãe…

— Parece que você não aprende nada do que eu te ensino! Você é uma princesa, Zenah! Você não pode se mostrar vulnerável para seus súditos, o que acha que eles vão pensar de você?! — Jaehaera estava quase gritando furiosa, logo ela que nunca perdia a compostura. — Maldita! Você faz tudo errado! Quanto mais eu tento te ensinar mais você erra! O seu povo está sofrendo agora e quando sofrerem outra vez vão correr até você para pedir consolo, como eles poderão contar com uma rainha fraca?!

— Era o funeral do meu irmão!

Zenah gritou, foi a primeira vez que ela levantou a voz com a mãe, depois de tanto tempo aguentando Jaehaera dizer como ela tinha deveres, como ela deveria ou não agir foi como se a princesa tivesse chegado ao limite e explodido.

Ela afastou as mãos do rosto, endireitou sua postura e caminhou na direção da mãe até estar cara a cara com ela. Jaehaera ficou surpresa com o grito da filha, ela franziu o cenho imediatamente.

— Não levante a voz para mim.

— Todos estavam chorando, todos estavam sofrendo assim como eu! Baelon era o meu irmão e eu o amava! Você já parou para se perguntar como eu estou me sentindo? Você nem sequer tentou consolar a mim ou Anakin! Você só pensa em deveres mesmo agora quando o seu filho está morto! — Zenah gritou entre soluços e lágrimas de raiva. — E você está aí agindo como sempre, nem sequer derramou uma única lágrima, é como se nem estivesse sentindo a perda dele!

Ouviu-se um estalo, tap! Alto e claro. Um tapa.

Jaehaera deu um tapa na cara de Zenah, como ela poderia sequer ousar dizer que a rainha não estava sofrendo? Ela era a mãe de Baelon, é claro que por dentro ela estava arrasada, mas por dentro, nunca por fora. Ela aprendeu a ser forte, aprendeu a ser uma fortaleza mesmo depois de tantas perdas, a única vez em que chorou na frente de uma pessoa foi quando a irmã gêmea de Zenah faleceu, e foi somente na frente de seu marido. O rei Aegon a acolheu naquele dia e a ajudou a se recuperar, mas Jaehaera nunca se perdoou por ter sido fraca mesmo que somente por um instante, ela era a rainha, e nesse cargo não há momentos de escape.

Zenah tocou o lado do rosto atingido pelo tapa, estava ardendo, um filete de sangue escorria no canto de seus lábios, um dos anéis que Jaehaera usava provavelmente fez um pequeno corte ali.

— Maldita! Você não devia ter sobrevivido! Maldita! — Jaehaera berrou. — Como a sua irmã se foi e você não? Ninguém acreditava que você sobreviveria no lugar dela! Maldita!

Para a surpresa da rainha, Zenah começou a rir, mas lágrimas ainda rolavam por seu rosto. Ela lentamente levantou a cabeça para ver a mãe enquanto suas gargalhadas se misturavam aos soluços do choro.

— Você desconta a sua dor em mim… você precisa descontar o seu luto em mim para não fazer isso na frente dos outros…

— Cala a boca!

Zenah de repente agarrou as mãos da mãe em um gesto desesperado.

— Me bate! Me bate! Ao menos uma vez na vida olha para mim e vê que eu estou aqui!

— Me solta, Zenah! Pare com isso imediatamente! Você ficou louca?!

Ela tentou se soltar mas não conseguiu, Zenah a segurou com força como se não quisesse deixá-la ir, como se tentasse fazer a mãe perceber o que ela era agora: uma menina desesperada, que só queria o colo da mãe, o afeto materno que nunca recebeu. Uma menina que estava vendo sua família perder um pedaço e não podia fazer nada para impedir, a garota que viu o irmão morrer e mesmo sabendo o que tinha acontecido com ele, envenenamento por lágrimas de Lys, não pôde impedir.

A mente de Zenah estava desesperada por um pouco de carinho, por um pouco de amor, não pelo amor romântico de Anakin que ela sabia que teria se assim quisesse, mas pelo amor materno. Ela precisava da mãe.

— Mamãe!

— Me solta, Zenah!

Jaehaera finalmente se desvencilhou dela, foi quando Anakin voltou e ouviu toda aquela gritaria, ele abriu as portas do solar e viu Zenah chorando, a rainha tentando fazê-la soltá-la e enfim conseguindo. Ele correu em direção a Zenah e a segurou nos braços.

— Zenah? O que aconteceu aqui? Por que sua boca está sangrando?

— Mãe! — Zenah soluçava e tremia dos pés à cabeça. — Mamãe!

Jaehaera olhou a filha de cima a baixo, seu olhar não suavizou, não encontrou compaixão ou sequer pena para dar à filha. Ela apenas deu as costas aos dois e se afastou.

— Saiam.

Ela ordenou seca. Anakin tirou Zenah dali o mais rápido possível.

De volta ao quarto Anakin ordenou que uma banheira com água quente fosse enchida, depois ele se despiu e ajudou Zenah a fazer o mesmo e os dois entraram na água. Por muito tempo Zenah não disse nada, ela não estava mais chorando, mas parecia envergonhada da cena que causou e ele presenciou.

— Como você está se sentindo? — Ela perguntou de repente. — Eu não te perguntei isso até agora, me desculpe.

— Está tudo bem. — Anakin respondeu. — Eu ainda não sei como estou me sentindo, mas estou preocupado com você, Zenah.

— Comigo?

Zenah, que estava deitada com as costas no peito dele, virou-se para poder vê-lo, Anakin realmente parecia preocupado com ela agora, e ela sabia que foi por causa da cena de antes.

A boca dela já tinha parado de sangrar, mas a bochecha da princesa ainda estava avermelhada e um pouco inchada, Anakin não tinha visto o tapa, mas quando soube não quis acreditar que algo assim tivesse acontecido.

— Zenah…

Ele tocou levemente o outro lado do rosto dela, Zenah fechou os olhos com aquele carinho e suspirou.

— Eu vou ficar bem, eu só… me descontrolei.

— Eu sei. — Anakin respondeu, tinha algo passando na cabeça dele, algo que ele queria perguntar a esposa mas sabia que agora não era a hora certa para isso. — Eu te amo.

— Eu também amo você.

Ela fechou os olhos e Anakin começou a acariciar os cabelos dela, ele decidiu esperar um pouco até que Zenah estivesse melhor para que enfim pudesse perguntá-la como ela já sabia que Baelon tinha sido envenenado com lágrimas de Lys.

Zenah descobriu qual era o veneno assim que o meistre listou os sintomas, ao passo que Anakin só sabia que era um veneno ela já sabia o nome e como ele agia e talvez por isso se desesperou tanto, lágrimas de Lys não tem antídoto. Mas como? Como ela poderia saber?

Chapter 15: O Segredo da Princesa

Chapter Text

A notícia de que o pescador que envenenou Baelon foi capturado chegou poucos dias depois. Felizmente antes de morrer o príncipe contou a meistre Willard o nome do homem, Maegor Waters, e então um grupo de cavaleiros da guarda de Pedra do Dragão começaram a procurá-lo, assim que foi encontrado uma carta foi enviada a Porto Real e a notícia não poderia ter sido melhor.

Anakin fez questão de insistir que iria até Pedra do Dragão ver o homem com seus próprios olhos e ajudar na escolta que o traria para a capital, inicialmente Viserys não queria permitir, mas acabou cedendo, era o assassino do irmão dele, a Mão disse, eu teria querido o mesmo.

De fato o príncipe precisava ir até lá, ele precisava encarar aquele homem nos olhos e entender porquê ele fez o que fez, graças a esse maldito o irmão dele estava morto. Um garoto que ainda tinha tanto a viver na vida.

Anakin estava se fazendo de forte na frente das pessoas, não da mesma maneira que sua mãe que simplesmente dava um jeito de esconder os próprios sentimentos no meio das entranhas e fingir que tudo estava bem, ou como seu pai que se tornou ainda mais apático e distante desde aquele dia. A Mão do Rei estava tendo um trabalho dobrado, Aegon ainda parecia se recusar a falar, e delegava quase tudo que podia ao irmão, que aceitava de bom grado entendendo que Aegon precisava desse momento para se recuperar.

O príncipe não estava apático ou fingindo que nada aconteceu, sim, ele escondeu seus sentimentos, mas para entendê-los e usá-los como um catalisador de toda a sua raiva no momento certo, o momento em que ele poria as mãos no assassino.

Ele estava se preparando para a viagem quando viu Zenah na varanda do quarto deles, ela já estava melhor, tinha parado com as crises de choro, mas a relação dela com Jaehaera estava péssima. Desde o funeral mãe e filha não se falavam, e ninguém fora Anakin sabia o motivo, mesmo sem se falar era como se elas tivessem combinado. Jaehaera não disse a ninguém que deu uma bofetada na cara da própria filha, e Zenah fingiu que tinha machucado o lábio em um acidente banal. Mentira. Tudo mentira.

A hora de fazer a pergunta que tanto rondava a mente do príncipe era agora, ele tinha esperado pacientemente que Zenah se recuperasse para enfim tomar a iniciativa e não poderia esperar mais nem um segundo.

O sol da manhã brilhava suavemente na varanda, as gaivotas piavam e o cheiro de água salgada vindo da Baía da Água Negra invadia as narinas de qualquer pessoa ali fora. Anakin parou ao lado da esposa e a observou pelo canto dos olhos.

Zenah estava calma, parecia pensativa, usava um vestido lilás claro, os cabelos estavam soltos, ela raramente os prendia.

— Zenah, podemos falar?

Ele perguntou quebrando o silêncio entre eles, a princesa deu um pulinho como quem toma um susto.

— Oh, você está aí. Claro, sobre o que seria?

Antes de mais nada Anakin estendeu a mão para segurar a dela e a trouxe de volta para dentro, lá a fez sentar em uma poltrona e depois se sentou em outra na frente dela, o assunto era importante demais para ser discutido assim numa varanda.

Zenah percebeu que tinha alguma coisa séria acontecendo, Anakin tinha estado inquieto havia vários dias, e parecia que hoje ele finalmente iria dizer a ela o por quê.

— Então?

— Zenah, eu quero te fazer uma pergunta, eu não sabia como fazê-la antes e sinto que ainda não sei, mas é importante, então seja sincera, está bem? — Ele até pensou em como dizer aquela pergunta de uma maneira mais leve, mas não havia como, quer dizer, deveria haver, mas Anakin não era lá o melhor com palavras. — Como você sabia que o veneno que matou Baelon era lágrimas de Lys?

A reação de Zenah foi franzir o cenho, ela não disse nada.

— Quando o meistre Willard começou a relatar os sintomas do nosso irmão você se desesperou, agarrou o velho e começou a gritar “o que ele bebeu ou comeu?!” Você nem sequer esperou que ele dissesse o que achava que estava acontecendo, você simplesmente já sabia. — Anakin uniu as mãos e se inclinou para frente. — Como? Como você já sabia?

Novamente houve silêncio como resposta, Anakin iria insistir, iria perguntar outra vez e quantas vezes fosse necessário até ter uma resposta, mas quando estava prestes a abrir a boca Zenah se levantou, deu a volta na poltrona que estava sentada antes e foi caminhando em direção a cama deles. Anakin a seguiu com os olhos intrigado com o que ela estava fazendo, Zenah iria fugir da pergunta? Não, ela não faria algo assim.

A princesa parou em frente a cama e se abaixou tocando a tapeçaria no chão, então a puxou pela ponta e Anakin viu o que parecia ser um compartimento secreto, algo que ele nunca tinha reparado antes.

Ele se levantou o mais depressa possível e correu para ver mais de perto, era um espaço entre as tábuas grande o bastante para caber um arco e algumas flechas, os pertences de arqueirismo de Zenah. Só então ele se deu conta de que nunca tinha visto de fato onde Zenah guardava aquelas coisas, ele sempre acreditou estarem no arsenal de armas da fortaleza, ou na área de prática. Anakin percebeu que estava enganado.

— O que… — Ele murmurou. — Zenah, o que é isso?

Zenah puxou duas flechas de dentro do esconderijo, uma delas como Anakin reparou tinha uma fita vermelha amarrada, a outra não. Ele fez menção de tocar aquela que era diferente, mas Zenah puxou o objeto para longe do alcance dele.

— Cuidado. — Ela disse. — Está envenenada.

— O que?!

A palavra envenenada fez a mente de Anakin disparar e um bilhão de pensamentos vieram de uma só vez, foi quando Zenah decidiu que era a hora de contar toda a verdade para ele, como ela já queria ter feito há muito tempo.

Ela pôs a flecha envenenada de lado e suspirou, era uma longa história, uma que seu marido tinha o direito de saber.

— Quando nos afastamos na adolescência eu passei a frequentar a biblioteca muitas vezes, eu tinha que estudar Alto Valiriano, história, geografia, você sabe. Os meistres me deixavam lá para estudar por horas e horas. Às vezes eu terminava meus estudos antes deles voltarem, e então eu começava a explorar a biblioteca…

“Uma vez eu encontrei uma coleção de livros falando sobre venenos, e fiquei interessada, enquanto ninguém estava por perto eu li tudo o que podia sobre criação de venenos, seus sintomas, eficácia, antídoto, tudo. E depois eu descobri como usá-los em lâminas.”

Zenah encarava a flecha enquanto falava, parecia que ela estava revivendo em sua memória cada momento da história que tinha dito até então.

— Eu adorava arqueirismo, então quando eu quis testar e descobrir se de fato era possível colocar veneno em uma arma eu usei aquela que eu sabia como manejar.

— Você usa flechas envenenadas… — Anakin disse incrédulo, como nunca antes ele percebeu isso?

Zenah fez que sim mas rapidamente explicou antes que ele a enchesse de perguntas piores:

— Eu nunca usei isso contra alguém. Apesar das flechas de fato estarem envenenadas eu nunca ataquei nenhuma pessoa com elas. Eu só… só queria poder dizer que sabia fazer isso, entende?

Anakin fez que sim, mas ainda assim ele estava assustado com a ideia de que ele estava esse tempo todo andando por cima de flechas envenenadas, de que Zenah, sua esposa, sabia como manuseá-las, como fazê-las. Era estranho, o deixava com uma sensação esquisita.

— Então foi por isso que você ficou tão abalada quando soube que Baelon tinha sido envenenado. — O príncipe disse. — Não é? Por que você já sabia o que estava acontecendo com ele.

— Sim, e eu não podia fazer nada para impedir. — Zenah se deixou desabar na cama antes de respirar fundo, seus olhos se encheram de lágrimas. — Consegue entender agora? Eu passei anos estudando esses venenos, aprendi como cada um deles agia, sua letalidade, tempo e cura, e quando meu irmão foi atacado eu não podia fazer nada para salvá-lo, não por ignorância. Não. Justamente pelo contrário. A ignorância nesse caso me teria sido uma benção!

Ela riu com amargura e levou a mão ao rosto para se controlar.

— Lágrimas de Lys são rápidas, muito rápidas. E não tem antídoto. — A princesa abaixou a mão e a deixou cair em seu colo. — Eu não podia ajudá-lo e isso me corrói por dentro. O meu irmão morreu e eu não pude fazer nada! Nada!

Zenah fechou os olhos e cerrou os punhos, ela conseguiu controlar suas emoções dessa vez impedindo que as lágrimas viessem, Anakin não queria vê-la daquele jeito, empurrando suas dores para o fundo de sua alma. Aquela situação toda tinha que chegar a um fim e ele faria chegar a um fim.

— Zenah, eu estou indo para Pedra do Dragão. O assassino foi encontrado.

Ao ouvir aquilo a princesa se pôs de pé, ela iria pedir para ir com ele, mas Anakin não deixou, algo lhe dizia que era melhor se ela ficasse ali.

Foi difícil mas no final ela aceitou, então ele a beijou nos lábios e deixou o quarto, enquanto ia em direção a seu dragão Anakin não conseguia parar de pensar no que tinha descoberto, aquelas flechas envenenadas escondidas debaixo das tábuas por todo esse tempo. O conhecimento de Zenah sobre os venenos.

Ele se deu conta de que Zenah, sua doce Zenah, não era uma garota indefesa, ela era forte, esperta e perigosa.

 

Caraxes pousou dentro do castelo de Pedra do Dragão, suas enormes garras rasparam contra o chão de pedra e até fizeram algumas faíscas tão perigosas quanto o olhar de seu montador.

Anakin não perdeu tempo, ele foi diretamente para onde o pescador estava e uma vez que pôs os olhos nele se lembrou de onde o nome Maegor Waters lhe parecia familiar, ele se lembrou daquela única vez em que viu aquele homem, um dia antes do ataque no Monte Dragão.

— Maegor Waters… — Ele sibilou, o pescador estava acorrentado com dois guardas postados ao lado dele por segurança, mas nenhum deles foi rápido o bastante para impedir quando o príncipe agarrou aquele homem bêbado pelo pescoço. — Verme! Eu devia te matar com as minhas próprias mãos e entregar seus restos para Caraxes comer, mas eu não seria tão cruel assim, não. Caraxes não merece comer algo tão podre quanto você!

Anakin o empurrou e o jogou para longe, Maegor bateu com as costas na parede antes de cair no chão, ele mal teve tempo de assimilar o que estava acontecendo. O príncipe quase avançou outra vez pronto para socar aquele pescador até a cara dele se tornar uma massa desfigurada, mas os guardas não permitiram, cada um agarrou Anakin de um lado e o contiveram.

— Acalme-se, vossa graça!

— Me acalmar?! Me acalmar?!

A última coisa que Anakin queria agora era ter calma, ele estava finalmente colocando toda a sua raiva para fora, todo o ódio que ele conteve ao longo daqueles dias e que guardou justamente para esse momento.

Ele iria acabar com Maegor Waters e fazê-lo sofrer assim como seu irmão sofreu, iria fazê-lo se arrepender de um dia ter feito mal ao príncipe, mas claro, ninguém permitiu. Eles precisavam daquele homem vivo se quisessem entender o que tinha acontecido naquele dia e o motivo.

Quando Anakin se acalmou finalmente ajudou os guardas a levarem Maegor Waters para o barco, o plano inicial era de que ele fosse levado nas costas de Caraxes, mas claro, todos ficaram com medo de que o príncipe atirasse aquele homem no mar no meio do caminho.

Chapter 16: Ódio, Força, Poder e Destruição

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O calabouço era escuro e fedia a mofo e excrementos, uma surpresa para Anakin que não se lembrava daquele cheiro. Durante toda a infância ele usou as passagens secretas da Fortaleza Vermelha com Zenah para vir até aqui e brincar escondido de seus pais e meistres. Naquela época parecia divertido estar nos calabouços. Mas agora o cheiro, o ambiente e a razão de sua vinda tornavam aquele momento pouco nostálgico e muito mais difícil de aceitar.

Maegor Waters não abriu a boca desde que chegou e foi trancafiado naquela sala, nem sob tortura, a essa altura já era óbvio que ele agiu a mando de alguém, mas quem? Ele não dizia. Parecia que iria guardar aquele segredo e levá-lo consigo para o túmulo, os interrogatórios seguiam sem nenhuma novidade dia após dia, noite após noite. Em uma dessas noites Anakin estava presente, ele sempre estava presente, e quase sempre completamente irritado com aquele homem que parecia estar brincando com eles. Foi por isso que um dia ele partiu para cima do pescador.

Anakin socou o nariz de Maegor com tanta força que quebrou, depois disso ele quase teve que jurar por todos os deuses existentes no mundo que se controlaria e não faria nada com o pescador outra vez e assim ele cumpriu. Nos dois dias seguintes o príncipe não tentou bater naquele pescador imundo, e teve um momento de felicidade quando numa tarde um serviçal veio correndo avisar que Maegor Waters por alguma razão tinha mudado de ideia, ele queria falar a verdade.

— A verdade e somente a verdade. — Ele disse quando Anakin, Viserys e até o Rei Aegon chegaram na cela, seu nariz estava torto, inchado, o que fazia sua voz soar diferente e não lhe permitia respirar tão bem.

— A verdade? E qual seria o motivo dessa súbita mudança? — Viserys vociferou. — Ao longo desses dias você não disse uma palavra!

O pescador tentou rir mas aquilo fazia seu nariz doer, então ele parou.

— É chegado a hora certa para dizer a verdade.

Ele repetiu, Anakin estava ansioso, pois precisava mais do que nunca saber a verdade e trazer um pouco de paz para seu próprio coração e o de Zenah, ele estava ali não só por si, mas por ela também.

— Pois muito bem. — A Mão do Rei cruzou os braços. — Vamos começar.

 

As revelações trazidas por aquele pescador, que nem sequer era um pescador, deixaram Anakin perturbado, assim que o interrogatório acabou ele exigiu explicações de seu pai e seu tio, que pareciam estranhos. Uma reunião com toda a família real foi marcada para aquela noite onde, de acordo com Rei Aegon, tudo seria esclarecido.

Todos os membros da Casa Targaryen estavam presentes na sala do Pequeno Conselho, a última pessoa a chegar foi Zenah, ela não justificou o atraso, apenas se sentou ao lado do marido e abaixou a cabeça. A reunião estava prestes a começar quando de repente algo que ninguém esperava aconteceu.

Um homem invadiu a sala de reuniões afobado, quase caindo sobre a mesa na frente de toda a família real, quando ele finalmente se recompôs anunciou para todos ali ouvirem em alto e bom som:

— Maegor Waters está morto!

Depois dali foi tudo muito rápido, Anakin e Viserys correram para as masmorras e lá encontraram o corpo do pescador estendido no chão, seu rosto estava contorcido de dor e havia uma pequena poça de sangue se formando na parte de trás de seu ombro esquerdo. Anakin foi o primeiro a se aproximar do corpo e tocá-lo cuidadosamente.

— O que aconteceu aqui?!

— Veneno, vossa graça. — Disse um dos homens que era responsável por vigiar Maegor. — De algum jeito alguém entrou aqui quando não estávamos de olho e o envenenou.

— O que quer dizer com “quando não estávamos de olho”? — Viserys perguntou furioso, como aqueles homens puderam permitir que alguém entrasse na cela e saisse sem ser notado? — Incompetentes!

— Mas vossa graça, a cela não foi aberta! De alguma forma a pessoa que entrou e saiu tinha as chaves, já que não precisou arrombar!

Enquanto Viserys gritava com o carcereiro e o homem tentava inutilmente tirar a culpa de si mesmo pela morte de Maegor, Anakin começou a analisar o ambiente ao seu redor.

A cela não possuía sinais de briga, e de fato, não parecia que alguém tinha entrado e muito menos saído de lá, um pensamento veio à mente do príncipe: a passagem secreta. Não. Somente ele e Zenah sabiam que essa cela era a saída de uma das passagens, somente o casal sabia por onde entrar e como chegar até aqui por todos aqueles túneis escuros e sinuosos atrás das paredes de pedra, então não, ninguém poderia ter usado elas…

Mas a negação caiu por terra quando Anakin viu no cantinho escuro uma fita vermelha, exatamente igual aquelas que ele viu antes amarradas nas flechas de sua esposa.

Anakin parou de respirar por um segundo e seu coração disparou, ele tentou agir normalmente enquanto seu tio ainda gritava atrás de si, mas por dentro ele estava em pânico, em estado de negação, Zenah? Não, impossível. Ela jamais faria algo desse tipo.

Uma vez que o corpo foi retirado e Viserys foi atrás com o restante das pessoas que vieram ver o acontecido, meistres, o septão, e dois membros da guarda real, Anakin abriu a passagem secreta e seguiu escuridão a dentro tateando as paredes frias e sujas, às vezes ele esbarrava em um rato ou alguma outra coisa esquecida ali há muito tempo.

Ele se lembrou do dia em que por acidente Zenah descobriu aquela passagem, eles eram duas crianças brincando quando ela esbarrou na parede e ela se mexeu, é claro que eles já tinham ouvido falar muitas vezes das histórias sobre as passagens secretas do rei Maegor e encontrar uma delas foi o início de uma série de aventuras. Anakin e Zenah passavam horas andando por caminhos sinuosos e descobrindo onde eles iriam parar, uma vez a princesa até tentou desenhar um mapa, mas Anakin não se lembrava o que aconteceu com ele.

Logo o príncipe estava em frente a uma outra porta que ele abriu lentamente até conseguir ver a claridade outra vez, Anakin tinha chegado ao quarto dela, sua esposa.

Por um momento ele pensou estar sozinho ali, mas logo Anakin a viu sentada em frente a sua penteadeira, estava imóvel, de costas para ele, mas com certeza notando sua presença ali.

Anakin deu um passo em direção a Zenah mas parou abruptamente quando reparou no que ela estava segurando em seu colo, uma flecha com a ponta afiada manchada por um líquido carmim escuro que estava pingando no chão, o príncipe logo voltou a se aproximar até estar parado atrás de Zenah. Seus olhos estavam fixos naquela flecha.

— O que aconteceu? — Ele perguntou hesitante, não sabendo se queria ouvir a resposta.

— Veneno de basilisco é sempre uma ótima opção — Zenah disse após um período de silêncio. — Nunca falha. Mas é preciso tomar cuidado ao mexer com ele.

— Zenah, o que aconteceu?

Anakin perguntou outra vez, agora ele estava sendo mais enfático e desesperado também, a princesa olhou para a flecha em seu colo antes de atirá-la longe. A arma caiu perto da lareira apagada.

— Você não poderia fazer isso, mas queria, queria muito que eu sei. — Ela se pôs de pé e girou nos calcanhares, seus olhos violeta estavam frios como o gelo. — Você quebrou o nariz dele, ameaçou entregá-lo para Caraxes, e me confessou ali naquela cama que queria estrangulá-lo com as próprias mãos!

— Ameaças não são ações, Zenah! Eu… eu de fato quebrei o nariz dele, mas em um momento de fúria! Mas isso não se compara a…

— Pare de agir feito eles!

Zenah gritou, foi uma das raras vezes em que Anakin a ouviu gritando daquele jeito, com tanta raiva e cansaço.

— Zenah…

— Não mente para mim agora! Você queria matá-lo, mas nunca poderia! Todos sabiam como você estava com ódio e teriam suspeitado no primeiro instante! — Lágrimas começaram a rolar pelas bochechas da princesa enquanto ela falava com pressa quase sem parar para tomar fôlego. — Ele matou o nosso irmão da forma mais cruel que podia e o que aconteceria com ele? Ele teria implorado para se juntar à Patrulha da Noite e nosso pai teria deixado, e sabe por quê? Porque mesmo com ódio, mesmo com muita raiva ele ainda insiste nessa ideia de evitar conflitos e de oferecer misericórdia porque é um covarde traumatizado!

Zenah caiu nos braços de Anakin e os segurou quase como se precisasse disso para encontrar um ponto de equilíbrio, Anakin não teve reação, ele apenas arregalou os olhos.

— Você não podia fazer nada, mas eu sim! Eu podia, Anakin! E eu fiz! Eu fiz isso para vingar nosso irmão, meu amor. Ninguém jamais irá suspeitar de mim, ninguém nunca vai saber o que aconteceu! — Ela o abraçou e afundou o rosto no peito dele. — Por favor, não me julgue, não você, por favor… por favor… eu só fiz isso por nós… por Baelon… por favor...

Enquanto ela soluçava, Anakin lentamente colocou os braços ao redor dela, ele ainda não tinha conseguido raciocinar que Zenah, sua esposa, tinha matado um homem.

Mas a pior parte era saber que nem tudo o que ela disse era absurdo, dentro de si Anakin sabia que existia uma parte, uma grande parte, que de fato queria matar Maegor, que nesse momento estava satisfeita e feliz em saber que aquele pescador estava morto.

Ele fechou os olhos e beijou o topo da cabeça dela, seus pensamentos estavam bagunçados, e Anakin não conseguia simplesmente reprimi-los.

— Zenah… — Ele murmurou. — Ele sofreu?

A princesa parou de soluçar e respirou fundo antes de responder que sim, Anakin então começou a acariciar os cabelos dela lentamente. Aquele sentimento de satisfação era tão errado, mas tão forte agora.

— Ódio vira força, força vira poder.

Anakin recitou um antigo trecho de um livro valiriano que ele leu uma vez, um dos poucos livros que ele já tinha lido na verdade, e que sabia que Zenah com certeza tinha lido também.

— E o poder vira destruição. — Ela completou confirmando que conhecia o trecho.

O casal se encarou antes de Anakin tomar os lábios dela em um beijo lento, quando se separaram ele segurou o rosto dela entre as mãos, sua expressão se tornou dura.

— Maegor fez o que fez a mando de uma outra pessoa, Zenah.

— E quem é essa pessoa? Onde ela está agora?

Anakin suspirou, ele voltou a se lembrar de quando Maegor Waters finalmente revelou a verdade horas antes.

— Alguém que tem muito mais ligações com a gente do que eu gostaria.

Ele disse com amargura e depois a abraçou novamente, a reunião familiar precisava acontecer o quanto antes o príncipe pensou, havia muito o que eles precisavam entender.

Chapter 17: Um lugar bem longe dali

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Aquela noite parecia que não teria fim, depois de conseguir fazer Zenah se acalmar e dormir o príncipe não teve a mesma sorte. Ele não pregou os olhos um segundo.

Ao que tudo indicava as investigações a respeito da morte de Maegor não iriam avançar, ninguém de fato estava preocupado em encontrar o assassino do assassino. E Anakin estava aliviado, assim Zenah estaria segura, ele não queria que ninguém soubesse da verdade.

Enquanto a princesa dormia na cama deles, Anakin estava escorado na parede, encarando as águas da Baía da Água Negra, àquela hora, pacíficas e vazias.

Sua mente estava revisitando os últimos momentos de vida de Maegor Waters de novo e de novo, Anakin sabia que deveria tentar dormir e se preparar para o amanhã, para a reunião familiar que foi interrompida antes mas agora aconteceria mesmo que um dragão incendiasse os Sete Reinos de ponta a ponta. Mas ele simplesmente não conseguia. Ele continuava lembrando de novo e de novo…

Horas antes…

Maegor Waters jurou dizer somente a verdade, mas Anakin não conseguia acreditar em uma só palavra que saiu da boca daquele homem, porque elas simplesmente não faziam sentido.

— Está dizendo que você de fato fez o que fez sob ordens de uma pessoa? E essa pessoa é… alguém que o Viserys conhece?

Anakin perguntou, agora que o acontecido era apenas uma memória ele conseguia analisar melhor cada parte daquele interrogatório, Maegor que revelou nem ser um pescador, mas sim um comerciante de Lys, estava tão sereno e calmo que chegava a irritar. Viserys estava agindo como um inquisidor, o rei Aegon era apenas uma figura física ali, ele não disse uma palavra.

— Sim, exatamente. — Maegor respondeu. — Perdoe-me vossa graça, mas o meu nariz…

— Que pessoa? — Viserys o interrompeu. — Qual o nome dela?

O homem que fingia ser pescador riu, parecia um grunhido de porco, ou talvez, Anakin pensou, fosse sua própria mente com ódio tentando desmoralizar ainda mais aquele homem.

— É o seu filho.

Quando aquele homem disse a palavra filho, Anakin automaticamente a associou a única pessoa que na visão dele poderia talvez ter a coragem e crueldade de ordenar algo assim: Daemon.

Príncipe Daeron jamais faria mal a Baelon e nem a ninguém de sua própria família, já Daemon, bem, Anakin o detestava e sabia como ele poderia ser traiçoeiro. Ele ainda não tinha esquecido do ataque covarde que Daemon tentou no torneio do seu casamento.

A fúria que subiu pelas entranhas de Anakin foi quase insuportável, ele queria ir atrás de Daemon imediatamente e socar a cara dele contra a parede, mas Aegon o impediu, foi a primeira vez que ele teve uma ação naquele circo todo. O rei agarrou o ombro de Anakin e o manteve no lugar.

— Não, Anakin.

O príncipe quis gritar com o pai, estamos falando do seu filho aqui e você não faz nada! Nada! Saia dessa apatia, pai! Por favor, faça alguma coisa rei!

Mas Anakin não disse nada, ele empurrou a mão do pai para longe como se o toque dele fosse repulsivo, venenoso.

Viserys se aproximou de Maegor, aquela acusação contra um de seus filhos o enfureceu ainda mais.

— Meu filho?! Como ousa levantar uma falsa acusação contra um dos meus filhos?!

Maegor grunhiu outra vez, um sorriso malicioso cresceu em seus lábios:

— Você é tão protetor com seus filhos, mas será que está pensando em todos os seus filhos?

Por algum motivo que Anakin não compreendeu, a Mão se afastou com uma expressão assustada, até mesmo confusa.

— O que você disse?

— Você sabe do que estou falando, vossa graça. Aquele que você deixou para trás em Lys a tantos anos atrás agora está voltando para reivindicar tudo aquilo que lhe pertence por direito!

Os irmãos Aegon e Viserys trocaram olhares e ali Anakin soube, tinha algo a mais naquela história que somente eles sabiam.

 

O barulho suave das ondas quebrando na costa trouxe o príncipe de volta para o momento presente, mas ele ainda pensava em como tentou arrancar informações de seu pai e tio e ninguém quis lhe dizer nada. Permaneceram insistindo que tudo seria esclarecido na reunião de família e agora ele teria que esperar até o amanhecer para entender quem era esse filho de Viserys.

Seria um bastardo? Em Lys? Por que ninguém nunca disse nada antes? O que aquele homem quis dizer com reivindicar o que lhe pertencia por direito? Por que? Por que? Eram tantas perguntas, Anakin sentia que seria consumido por elas.

Quando ele se virou foi pego de surpresa ao ver Zenah acordada, ela estava sentada na cama deles o encarando no escuro do quarto.

— Você não vem dormir? — Ela perguntou em um sussurro sonolento.

— Não consigo dormir.

Ele deixou a varanda e se deitou ao lado dela na cama, mas Anakin ainda estava completando desperto. A princesa tocou o peito dele e suspirou, ela tinha também perguntas a fazer, mas Anakin não sabia como respondê-las.

— O que você quis dizer com alguém que tem muitas ligações com a gente? — Anakin fechou os olhos e depois puxou Zenah para se deitar em seu peito, ela se aconchegou ali e continuou esperando por uma resposta. — Anakin?

— Quando foi que o tio Viserys voltou para Westeros?

A pergunta de Anakin pegou Zenah de surpresa, ela demorou alguns segundos para responder:

— Um ano antes de nosso pai completar 16 anos e assumir o trono plenamente.

— E 7 anos antes do meu nascimento… — Anakin abriu os olhos e encarou o teto acima deles. — 7 anos…

— Do que você está falando?

Anakin continuou olhando para o teto por um longo tempo, ele nunca tinha pensado muito na história da separação dos irmãos Aegon e Viserys e depois no reencontro, mas agora era diferente. Parecia que tinha muito mais coisas nessa história do que os irmãos deixaram transparecer.

Anakin soltou um longo suspiro, ele viu como Zenah estava ainda o encarando como quem não entendeu nada, e como ela poderia já que não lia mentes? O príncipe segurou uma mecha de cabelo dela entre os dedos e trouxe os fios até seu nariz, o cheiro de flores suaves o fazia se sentir melhor.

— Amanhã tudo vai ser explicado, Zenah… E eu espero entender tudo tanto quanto você.

 

No primeiro raiar do sol os Targaryen estavam reunidos, na ponta da mesa estavam Aegon e Viserys, ao lado esquerdo da Mão estava sua família, sua esposa Daenaera e seus filhos Daemon e Daeron — a esposa de Daeron ficou em Derivamarca, ela suspeitava estar grávida e, portanto, decidiu evitar qualquer viagem mesmo que curta —, ao lado direito do rei estavam a rainha e o casal Anakin e Zenah. Havia um lugar a mais daquele lado, um lugar vazio.

Aegon tocou o anel com o símbolo de sua casa em seu dedo e começou a girá-lo, ele estava nervoso, como Anakin pôde perceber, o que lhe fez ficar em alerta para o que quer que fosse revelado naquela reunião.

— Meu irmão Viserys têm algo muito importante para contar a vocês, e eu espero que todos aqui possam ouvi-lo sem julgamentos, ao menos antes de entenderem toda a história.

Anakin segurou a mão de Zenah e encarou seu tio, a Mão respirou fundo, seus olhos fixos no tampo da mesa pareciam na verdade estar vendo muito além do que madeira.

Ele via o sol, a água cristalina e as palmeiras de um lugar muito longe dali…

Chapter 18: Os Dias em Lys

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O céu e o mar eram de um azul tão bonito, às vezes parecia difícil distinguir onde acabava água e onde começava o ar, os cocos das palmeiras eram sempre doces, a brisa suave como um beijo, e o som das ondas quebrando na areia branquinha tornavam aquele lugar um paraíso na terra.

Mas nem mesmo um paraíso abençoado pelos deuses podia aplacar a tristeza do jovem príncipe Viserys Targaryen.

Dois anos antes ele se viu sendo separado de seu irmão Aegon e forçado a se esconder dos partidários Verdes que com certeza o matariam, nessa tentativa desesperada de sobrevivência ele se disfarçou e foi confundido com um tripulante, um tripulante novo demais, mas quem se importava com as histórias de plebeus? Viserys descobriu naquele instante que uma criança real e uma criança plebeia tinham tratamentos bem diferentes.

Ele foi levado para Essos, para Braavos, e lá sua identidade foi revelada acidentalmente quando um pirata bêbado tentou roubar a única coisa que ainda ligava Viserys a sua família: seu ovo de dragão. No meio da confusão o ovo chocou e um pequeno dragão saiu rastejando de dentro da casca para correr e se enroscar no braço de Viserys, a revelação de que ele era um Targaryen e filho de Rhaenyra atraiu a atenção de muitas pessoas e uma delas foi Lysandro Rogare.

Lysandro era um banqueiro de Lys que estava de passagem por Braavos quando soube da história do príncipe perdido que tinha sido encontrado na cidade, ele pagou uma quantia alta mas levou o garoto com ele para casa. Lysandro Rogare era um homem ambicioso, seu sangue de banqueiro sempre lhe disse quando havia a oportunidade de fazer um bom negócio e com Viserys não seria diferente.

Os planos dele eram bem simples no começo, Lysandro queria muito mais do que ser apenas um banqueiro poderoso, ele queria ser um lorde, um lorde com terras e vassalos tais quais aqueles de Westeros. Ele queria ser o Lorde de Lys e um suserano do Trono de Ferro. E que outra maneira de conseguir isso se não com uma bela moeda de troca? Aquele era o papel de Viserys na vida do banqueiro, tornar os sonhos dele realidade.

Ele só precisava esperar para ver quem venceria a Dança dos Dragões, esse passo era muito importante pois seria a partir daí que ele poderia começar a agir: Se Rhaenyra vencesse e se tornasse rainha, Lysandro levaria Viserys de volta para casa pessoalmente e mostraria a mãe dele como seu filho esteve todo esse tempo são e salvo em Lys, e claro, isso mereceria uma certa recompensa. Não que Lysandro estivesse fazendo aquilo por ambição, não, jamais. Ele só queria proteger um garoto indefeso e unir uma família.

Se Aegon II vencesse, Lysandro avisaria ao rei que um herdeiro de Rhaenyra estava vivendo em sua casa, alegaria ser leal a ele e pediria permissão para executá-lo. E claro, um serviço desses também exigiria certas recompensas, afinal de contas, ele estaria fazendo um favor a Aegon!

Mas logo Lysandro, um homem dado às ambições, começou a querer mais.

Talvez ele tenha ouvido o que seus bajuladores diziam, talvez fosse um desejo pessoal que ele nunca manifestou antes, mas um dia quando Viserys já era um jovem e seu dragão Heartfyre conseguia voar, mas era ainda pequeno demais para carregar seu dono, o lyseno anunciou o casamento entre sua filha Larra e o príncipe de Westeros.

Larra era uma bela garota de Lys, livre e feliz, Viserys e ela tinham uma relação respeitosa, mas claro que ele, como metade dos garotos daquela ilha, tinham afeição pela jovem. Tê-la como esposa até que fez bem ao príncipe, que vivia seus dias entristecido com saudades de casa e com medo das notícias que chegavam, alguns dias parecia que os Pretos estavam vencendo, noutros, os Verdes.

Viserys sempre tentou voltar para casa, mas nunca conseguiu, a vigia que Lysandro colocou sobre ele era forte e seu dragão era jovem demais para uma viagem muito longa, ele via o tempo passar e suas chances de fugir desaparecerem. Então ele se casou, Lysandro celebrou o casamento sem pensar nos gastos, sim, Viserys já tinha tido um casamento pomposo em sua vida. No primeiro momento o casamento era muito mais uma formalidade devido a diferença de idade entre o príncipe e sua esposa, a consumação só veio a acontecer anos depois.

Logo depois do casamento vieram notícias de Westeros: Rhaenyra era rainha! Lysandro começou a se preparar para dar os próximos passos em seu plano, mas tudo mudou na noite onde a vida dele teve fim.

Foi de repente, o banqueiro estava em seus aposentos quando reclamou de algumas dores de cabeça e sede e pediu que um empregado lhe trouxesse vinho, quando o homem chegou encontrou Lysandro caído no chão, sangue escorria por seus olhos, nariz, boca e orelhas. Todos suspeitaram rapidamente de lágrimas de Lys, mas elas não tinham esse efeito em suas vítimas, por tanto a causa da morte nunca foi confirmada.

Sem Lysandro, o filho mais velho dele, Lysaro, assumiu o controle dos negócios e da família. Diferente do pai, Lysaro não tinha tanta pressa assim para devolver Viserys, o que causou uma grande briga entre os cunhados, numa noite o príncipe o questionou sobre os planos de Lysandro, quando ele pretendia ir para Westeros, Lysaro apenas respondeu “em breve”. O príncipe ficou irado, ele não queria esperar nem mais um segundo. A discussão infelizmente não levou a nada, e ele ainda estava na ilha quando chegaram notícias de que sua mãe e seu tio morreram, e que agora seu irmão Aegon era o rei.

Alguns anos se passaram, faltava muito pouco para que Aegon em Westeros se tornasse rei de fato quando em Lys, Larra anunciou a todos que estava grávida e poucos meses depois veio a dar a luz a um menino gorducho de cabelos dourados e olhos violeta, em homenagem ao irmão Viserys o batizou de Aegon.

Até aquele momento como ainda não haviam notícias de uma gravidez vindas da rainha Jaehaera em Westeros começou-se uma história em Lys de que o herdeiro do reino havia nascido ali e era o pequeno Aegon de Larra e Viserys, logo até mesmo Lysaro dava ouvidos aquelas histórias e começou a chamar o bebê de “pequeno rei”, Viserys era o único contra a ideia, sempre deixando claro que os herdeiros seriam os filhos de seu irmão.

Numa noite ao tentar explicar o óbvio Viserys e o cunhado brigaram outra vez, a situação saiu do controle e os dois acabaram se atracando com socos e quase puxaram as espadas se não fosse pela interferência dos serviçais, o príncipe deixou o castelo e saiu para caminhar pela ilha na tentativa de se acalmar, foi quando esbarrou nele, Alyn Velaryon.

Alyn estava em Lys de passagem e foi pego de surpresa ao encontrar o príncipe Targaryen que todos pensavam estar morto bem ali em sua frente, e muito bem vivo. Alyn contou com mais detalhes como estavam as coisas em Westeros e de como Aegon era agora um garoto apático e ferido pelos traumas da guerra, aquilo feriu Viserys, ele precisava voltar para os Sete Reinos o mais depressa possível.

Então naquela longa noite Viserys outra vez se vestiu com trapos para se disfarçar e entrou no navio de Alyn Velaryon, seu dragão Heartfyre vinha logo acima deles voando, a fuga pareceu tão simples e rápida que Viserys quase não acreditou. Ele passou grande parte do caminho esperando pelo momento em que lysenos viriam e o levariam de volta, mas o momento não chegou. Após uma longa viagem Viserys viu outra vez ao longe no topo da Colina de Aegon o castelo de pedras vermelhas se erguendo. Casa. Sua casa.

Ele voltou e foi recebido com alegria, o reencontro com seu irmão Aegon foi importante, Viserys sentiu uma parte sua retornar, uma alegria que ele tinha perdido e nem sabia.

Mas ele voltou sozinho, sem Larra e o filho deles, e ninguém em Westeros sabia ou poderia saber da existência deles, na mesma noite em que chegou Viserys contou toda a história a seu irmão, incluindo sobre sua família em Lys. E explicou a ele o porquê não quis trazê-los.

Viserys sabia que Larra não tinha o menor desejo de conhecer a terra natal do marido, ela era muito feliz com a vida que levava em Lys, e seria crueldade separá-la do filho daquele jeito. Viserys sabia que eles estariam melhor naquela ilha, mesmo que sem eles. Aegon inicialmente não aprovou a atitude do irmão fazendo-o lembrar de como eles mesmos acabaram ficando sem os pais, mas Viserys argumentou que as situações eram bem diferentes. Na visão de Aegon não havia diferença alguma.

Mas no final das contas Aegon não conseguiu convencer o irmão a buscar sua esposa e seu filho, e ainda prometeu manter aquele segredo mesmo a contra gosto. Agora que Viserys estava de volta, o rei só queria que ele fosse feliz.

Jaehaera anunciou que estava grávida e tempos depois entrou em trabalho de parto, na mesma época em que Viserys se casou pela segunda vez, primeira para o povo westerosi, com a alegre lady Daenaera Velaryon. Quando seu sobrinho nasceu Viserys viu o menino, que foi chamado de futuro rei por um meistre, Viserys, agora a Mão do Rei, se lembrou de seu filho em Lys, do apelido que lhe foi dado.

“O que teria acontecido com ele?” O príncipe perguntou a si mesmo, acreditando que nunca saberia a resposta.

Chapter 19: A Ira de um Príncipe

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Anakin se sentia enojado. Quando Viserys terminou de contar aquela história toda sobre seu passado, floreando suas escolhas e fazendo quase parecer que abandonar sua esposa e filho era inevitável, Anakin viu a imagem que ele tinha de seu tio desmoronar. De um homem carismático, bom líder e marido apaixonado, Viserys passou para um covarde, mentiroso e manipulador.

Daenaera, que nunca soube daquela história toda, estava chorando copiosamente. Daemon e Daeron estavam estáticos, a revelação de que eles tinham um irmão mais velho os pegou de surpresa. Quem poderia imaginar? Anakin cerrou o punho e o bateu contra o tampo da mesa. O estrondo fez todos o encararem assustados.

— Covarde!

Ele sibilou a palavra antes de se levantar e deixar a sala, poucos minutos depois ele se viu no pátio do castelo, o plano de Anakin era pegar Caraxes e sair voando, só assim ele iria se acalmar.

Mas Zenah o seguiu até ali e pulou nas costas de Caraxes antes que o dragão pudesse levantar voo, quando Anakin percebeu a agarrou pelo braço e impediu que ela caísse.

— Zenah! O que diabos está fazendo?

Ele gritou após Zenah se sentar atrás dele na sela, Caraxes estava ganhando altitude e logo atrás dele de repente surgiu Dreamfyre, a dragão azul claro estava os seguindo e chegando cada vez mais perto.

— Vamos voltar Anakin, você não podia ter saído assim! — Zenah disse na tentativa de o convencer a voltar para a Fortaleza Vermelha, mas foi em vão. — Não seja cabeça dura justamente agora, Anakin!

— Agora não, Zenah! Eu não te pedi para me seguir, está bem?

O príncipe pensou que Zenah iria se calar e ficar zangada com ele por estar sendo irracional e até meio infantil agindo daquela maneira, bem, ele acertou em partes nas próximas atitudes da esposa. Zenah cruzou os braços e franziu o cenho, ela estava brava, mas ao invés de apenas ficar quieta ali e esperar para ver onde Anakin iria a princesa teve uma atitude que quase fez o coração dele parar.

Zenah jogou o corpo para a esquerda e caiu em pleno ar pegando Anakin de surpresa, ele gritou o nome dela e puxou as rédeas de Caraxes para fazê-lo descer o mais rápido possível e pegá-la, porém Dreamfyre foi mais rápida. Zenah caiu quase que perfeitamente nas costas de sua dragão, então ela se segurou na sela e se aprumou antes de puxar Dreamfyre pelas rédeas e a fazer subir.

Anakin e Zenah ficaram lado a lado, o príncipe ainda em completo choque por causa da cena de segundos antes sentiu que por um milagre não tinha desmaiado.

— Zenah! Você ficou louca?! O que você pensou que estava fazendo?!

— Te vejo lá embaixo!

Foi tudo o que a princesa respondeu antes de fazer sua dragão descer em direção ao solo, só restou a Anakin segui-la até lá enquanto seu coração martelava forte contra seu peito.

Uma vez que os dragões pousaram, Anakin desmontou e correu em direção a esposa, ele a puxou para seus braços em um abraço de puro alívio, mas depois veio a raiva.

— Tem ideia do que poderia ter acontecido com você, Zenah? Você… Céus, Zenah!

— Eu sabia o que estava fazendo, não tinha perigo nenhum nisso.

— O que? Então se jogar das costas de um dragão não é perigoso? E como assim você sabia o que estava fazendo? Não tinha como prever que Dreamfyre iria te resgatar a tempo!

— Tinha sim! — Rebateu a princesa. — Ela sabia que deveria fazer aquilo.

Anakin bufou como se tivesse escutado a coisa mais absurda possível.

— Ah claro, ela sabia exatamente que deveria te pegar antes que você caísse e virasse uma massa de sangue e carne! Ela é um dragão Zenah, não uma pessoa racional!

— Eu treinei ela para fazer isso!

— Treinou? Treinou?! E quando foi isso eu posso saber? Desde quando a minha esposa fica se jogando por ai e torcendo para que o dragão dela saiba a hora certa de pegá-la? Onde eu estava que nunca vi isso?!

— Você estava ocupado sendo preparado para o dia em que nosso pai morrer e a coroa for colocada na sua cabeça junto com cada grão de areia, pedra, gelo e folhas que estão neste lugar chamado Westeros, junto de cada alma de cada vida nascida e que ainda nascerá!

A voz de Zenah usualmente calma e controlada subiu um tom, Anakin imediatamente parou e de repente sua raiva e medo se transformaram em uma sensação de vazio, de pena, pena de si mesmo. Ele se sentiu idiota e quis rir da própria cara.

— Rei… Eu sou o futuro rei. — Ele disse com amargura. — Se eu não for morto por esse Aegon de Lys, você sabe o que ele quer Zenah, ele está nos avisando antes de vir e atacar. Ele quer o trono.

— O trono é seu por direito, nem mesmo Os Sete podem tirá-lo de você. — Zenah estendeu a mão e o tocou no ombro. — Ninguém pode, muito menos ele.

Anakin olhou para a mão da princesa em seu ombro, depois para o lugar ao redor deles, uma campina não muito distante de Porto Real. Ele via o campo de grama verde se estendendo e via também um dos portões da cidade, ele tinha quase certeza de que era o Portão do Dragão, um dos seus favoritos, ele adorava os dragões adornando aquelas velhas pedras, parecendo uma fera à espreita, de olho naqueles que entravam e saiam.

Agora ele se sentia uma dessas pessoas sendo observadas e intimidadas, só que por um idiota que se achava no direito de alguma coisa quando não tinha, não, ele não tinha direito a nada. Afinal de contas, o que ele era então? Um bastardo. Se Viserys não o assumiu publicamente em Westeros essa era a definição correta, bastardo. Um bastardo.

Nada mais do que um bastardo se achando pretendente ao Trono de Ferro.

Anakin sentiu a fúria voltar a subir por sua garganta como fogo de dragão, seus punhos se fecharam lentamente. Mesmo sem ter dito nada a esposa ela compreendeu cada pensamento na mente dele. Zenah se aproximou mais de seu marido e encostou seu nariz no ombro dele.

— Você é o rei, meu amor. — Ela sussurrou, sua voz dançou pela mente de Anakin como se para inflamar ainda mais o fogo dentro dele. — Quer mesmo deixar esse homem roubar o que te pertence?

— Não…

— Quer que a morte de nosso irmão seja somente um passo insignificante nos planos dele?

— Não…

Ele quase rosnou a palavra, mas ainda assim Zenah continuou:

— Você quer que os Sete Reinos o amem?

— Não! Não! Não! — Anakin se virou bruscamente, mas seus braços encontraram gentileza quando seguraram Zenah perto de si, frente a frente o príncipe queimava de ódio e Zenah congelava de frieza. — Eu vou destruí-lo antes que ele possa sequer pensar no que fazer a seguir, a coroa não cairá na cabeça de um bastardo, Zenah. Isso eu te prometo. O sangue dele vai pagar a dor que ele nos causou, a vida de Baelon, do nosso irmão!

A princesa segurou o rosto do marido entre as mãos antes de beijá-lo com amor e um carinho que não combinavam com o momento, mas acalmaram as chamas de ódio de Anakin.

— Meu amor…

Ela murmurou contra os lábios dele, Anakin a beijou outra vez com intensidade e um desejo imparável, ali mesmo no chão eles se entregaram à paixão e à luxúria.

Era um lugar arriscado, afinal de contas qualquer um poderia vê-los e o que seria da reputação do casal caso isso acontecesse? Nenhum deles se importava agora que estavam perdidos naquele desejo intenso.

Anakin a beijava como um homem sedento diante de um lago cristalino, e as águas daquele lago não só lhe traziam frescor, saciedade, mas também eram uma fonte de vida para ele.

E da mesma maneira as brasas do príncipe faziam Zenah se sentir quente, sentir que podia e queria se queimar. Os Targaryen eram cavaleiros de dragão, mas às vezes se assemelhavam tanto àquelas feras que era como se fossem de fato dragões. Com Anakin era assim que Zenah se sentia, era como se ele pudesse fazê-la se conectar com essa parte de seu sangue e a levar ao auge.

Era mais do que apenas desejo carnal, era amor, parceria e cumplicidade. Zenah entendia Anakin e da mesma forma ele compreendia a esposa de um jeito que ninguém mais poderia em toda Westeros e além.

E quando estavam assim nos braços um do outro eles tinham ainda mais certeza disso.

Anakin queria rasgar as roupas dela, mas também queria ser gentil e cuidadoso, essa junção de opostos às vezes o deixava louco. Zenah às vezes se sentia da mesma forma, tinha vontade de gritar o nome dele a cada vez que Anakin se afundava dentro dela, mas também queria impedir que o mundo os ouvisse, como se isso pudesse tornar o ato ainda mais íntimo. Somente deles.

E assim se seguiu, ele por cima, a amando, os cabelos prateados de Zenah caídos na grama verde como prata derretida, suas unhas cravadas sob as costas dele e aquela voz o chamando desesperadamente até o último segundo quando ambos explodiram juntos no pico de prazer.

O príncipe caiu sobre o corpo da princesa e fechou os olhos, respirações aceleradas e coração batendo forte. Ele não precisava de mais nada naquele instante. Nada além dela e seu amor.

 

Eles voltaram para o castelo ao cair da noite e se encontraram com o rei, Aegon os aguardava sentado no Trono de Ferro, ele queria saber onde seus filhos tinham ido depois que Anakin saiu daquele jeito tão revoltado. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, o monarca viu seu filho erguer uma mão pedindo permissão para falar, e Aegon concedeu:

— Eu quero sua permissão para ir até Lys encontrar com esse… homem. — Anakin não sabia como queria se referir ao primo que ele acabara de descobrir a existência. — Eu e Zenah partiremos ao amanhecer com nossos dragões e iremos para a ilha se assim o senhor permitir.

O silêncio que se seguiu a seguir foi incômodo, Aegon encarou ambos os filhos antes de se levantar e deixar a sala do trono dizendo simplesmente:

— Não.

As portas se fecharam em um baque, Anakin cerrou os punhos e resmungou irritado, mas Zenah não se deu por vencida tão facilmente.

— Eu vou tentar falar com ele.

Então ela saiu atrás do pai e Anakin ficou ali sozinho, os olhos fixos no Trono de Ferro a sua frente, sua mão direita se estendeu como que para tocar cuidadosamente uma das várias lâminas que compunham o trono, mas antes mesmo de sentir o metal frio o príncipe se afastou. Dentro dele algo lhe dizia que não era a hora.

Ainda não era a hora…

Chapter 20: Um Monólogo Sobre Tudo

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— Pai!

 

Apesar de ter ouvido Zenah o chamar, o rei Aegon não parou, ele continuou sua caminhada pelos corredores da Fortaleza de Maegor até chegar a seus aposentos. Já era a segunda vez que a princesa estava seguindo alguém naquele dia, ela já estava começando a se irritar com isso.

 

Enfim no solar do rei, Aegon parou e Zenah fez o mesmo, ela estava ali com um propósito e não queria e nem podia falhar.

 

— Pai? — Ela começou com uma aproximação cautelosa. — Meu pai, por favor, ao menos me escute…

 

E como uma pedra Aegon desabou em uma poltrona, levou a mão à têmpora e suspirou, de repente ele parecia um homem cansado de tudo.

 

Zenah se aproximou cautelosamente e tocou o ombro dele, mas Aegon não teve reação a princípio, o que não impediria a princesa de tentar.

 

O solar de Aegon era simples, mas também sombrio, as poltronas de cor púrpura desbotada faziam par com a mobília de madeira escura, uma escrivaninha cheia de pergaminhos amarelados e papéis em branco e uma estante de livros com as histórias de Valíria, dos Sete Reinos e alguns que Zenah nunca perguntou sobre o que eram.

 

As janelas eram estreitas, a luz quando entrava iluminava muito mal o ambiente, naquele instante um raio de luz da lua chegava até a princesa refletindo sobre seu cabelo pálido, Aegon enfim ergueu o olhar e viu a filha ainda ali parada junto a ele. Seu rosto se suavizou lentamente:

 

— Se vai ficar ao menos sente-se por favor, Zenah. Quando fica assim parece até um abutre esperando sua próxima refeição morrer.

 

— Suas comparações são sempre muito peculiares, pai.

 

A princesa respondeu antes de se sentar na poltrona oposta ao rei, Anakin odiava quando Aegon usava aquelas comparações estranhas, Zenah no entanto não se importava tanto assim.

 

— Sabe que não vou mudar de ideia, não é? — O rei disse. — Não há a menor chance de eu permitir que você e Anakin saiam desse castelo para uma aventura suicida, nem que para isso eu precise amarrar os dois ao pé da cama.

 

— Anakin daria um jeito de fugir…

 

— Sim, claro que ele daria um jeito de fugir, nem que para isso perdesse um braço! Aliás, não sei como ele ainda tem todos os membros do corpo, mas você é mais sensata, Zenah, sempre foi. Por que não tenta colocar um pouco de juízo na cabeça dele? Ao invés de estarem pensando nessas ideias descabidas vocês poderiam estar tentando produzir um herdeiro, por que não o convence a focar nessa tarefa?

 

Zenah balançou a cabeça de um lado para o outro, o rei entendeu que seu comentário foi infeliz.

 

— Não acho que esse seja o momento mais propício para uma gravidez meu pai, além de que assim o senhor me ofende.

 

— Não quero te ofender, minha filha, mas é sua tarefa produzir herdeiros para seu marido, como sua mãe fez, e essa é uma ótima coisa da qual vocês dois deveriam se ocupar agora, não com esse pequeno… incidente.

 

— Esse incidente… — Zenah engoliu as próprias palavras, não seria bom lembrar a ele que aquele pequeno “incidente” foi a causa da morte de Baelon, ela não queria tocar na ferida dele. — É curioso perceber como mesmo depois que minha avó se tornou rainha os homens em Westeros ainda vêem as mulheres como meras parideiras, o senhor poderia ter me aconselhado a apenas convencer Anakin a deixar o “incidente” de lado, sem nada para pôr no lugar, mas ao invés disso foi direto ao ponto que me torna mulher: o poder de criar vida.

 

Aegon se remexeu desconfortável, a maneira como Zenah pontuou tão bem aquilo de maneira clara e também fria lhe fez perceber que não estava lidando com uma criança.

 

— Sua avó, minha mãe, a primeira mulher a se sentar no Trono de Ferro como governante, mesmo que por pouco tempo… — Aegon observava o nada enquanto pensava na mãe, ele ainda lembrava perfeitamente do rosto dela. — Ela lutou para provar que poderia ser tão boa quanto os reis que vieram antes, contra todos aqueles que apoiaram seu avô, com quem compartilho o nome, Aegon II. Sabia que ele inicialmente não queria ser o rei? Quando meu avô morreu a rainha Alicent e seu pai Otto o encontraram em uma casa dos travesseiros, estava muito bêbado e mal entendeu o que eles disseram, mas assim que soube que o pai estava morto ele disse “então chamem Rhaenyra” mas no final eles o convenceram a usurpar a coroa. Enquanto ele era recebido pelo povo, minha mãe perdia sua única filha, Visenya.

 

Zenah sabia de toda a história, mas deixou que o pai lhe dissesse tudo como se aquela fosse a primeira vez ouvindo.

 

— A guerra entre irmãos quase destruiu nossa família.

 

— Está certa, sim, quase perdemos tudo, ou perdemos. No final de tudo éramos poucos os sobreviventes, toda noite um septão rezava na porta dos meus aposentos, pedindo a Mãe que um outro Targaryen não fosse levado também, não quando restavam tão poucos. — Aegon abriu um sorriso melancólico. — Eles só tiveram paz quando seu irmão nasceu, e aí logo em seguida você e sua irmã, e também os filhos de Viserys. Eles pensaram que a Casa Targaryen estava enfim se recuperando.

 

Houve um breve momento de silêncio onde ambos estavam pensando, então Zenah começou a falar:

 

— Minha avó foi a primeira a se sentar no trono, mas tudo poderia ter sido diferente se caso anos antes no Grande Conselho os homens tivessem escolhido a princesa Rhaenys.

 

Aegon murmurou alguma coisa e aquiesceu concordando.

 

— O Grande Conselho de 101, quando o destino de nossa família foi selado.

 

— Não acredito que tenha sido ali que o nosso destino foi definido, pai.

 

— Não? — O rei lançou um olhar curioso. — E quando pensa que foi?

 

Zenah cruzou as pernas, o movimento de seu corpo fez a luz se mover por entre seu cabelo e o refletir outra vez.

 

— No momento em que Viserys nomeou Rhaenyra como sua herdeira, mas logo depois permitiu que a discórdia crescesse dentro de sua própria corte. Ele permitiu a presença de pessoas como Otto Hightower, um homem cheio de ambições, e depois casou com a filha dele com quem teve três filhos homens que poderiam ser seus herdeiros de acordo com as “leis” de como a vida deve ser. Mas ele era o rei, ele era a lei. E poderia ter simplesmente sido mais enfático com as suas escolhas, no entanto ele preferiu ser omisso e quando morreu o fino fio que ainda ligava Rhaenyra a coroa foi cortado. — Ela fez uma pausa e depois acrescentou. — Se Rhaenyra era sua herdeira escolhida para assumir o trono ele deveria ter deixado isso claro, e lutado pelo direito dela desde o primeiro momento, mas não foi isso que ele fez e no final uma guerra sem sentido se iniciou.

 

Aegon estava encantado com o que ouvia vindo da boca da filha, ali naquele instante ele percebeu que Zenah era uma mulher inteligente e dentro de si um sentimento de orgulho cresceu, ao menos algo em sua vida tinha dado certo.

 

Ele estava prestes a falar quando Zenah completou seu raciocínio com a frase que mais chocou seu pai:

 

— E você pode estar seguindo o caminho da omissão, meu pai, quando se nega a fazer o que precisa ser feito.

 

Aegon que até tinha começado a relaxar seu semblante voltou a se fechar em sua ostra de indiferença e melancolia. Até sua postura mudou de novo, ele encolheu os ombros e abaixou a cabeça lentamente.

 

— O que precisa ser feito você diz?

 

— Sim, e estou falando de tomar alguma atitude a respeito desse homem de Lys que planeja roubar o trono de Anakin, mesmo isso não sendo de direito dele, o homem que planejou a morte de um de seus herdeiros e agora está provavelmente se regozijando e rindo de todos nós. — Zenah se inclinou para frente como quem queria pular no pescoço do rei, mas ela não iria fazer isso. — E não vamos esquecer que ele também roubou um dos nossos dragões, Vhagar.

 

O rei suspirou profundamente e passou a evitar os olhos da filha.

 

— Por que acha que estou sendo omisso ao não permitir que vocês dois se lancem em uma loucura como essas?

 

— Não me refiro à viagem, mas às suas atitudes em geral nos últimos dias, você descobriu quem mandou matar Baelon e ainda assim não fez nada a respeito!

 

— Eu não tive tempo, Zenah…

 

— Você não pretende fazer o que todos esperam que faça!

 

Silêncio. E então Aegon passou a encarar a luz do luar entrando pelas janelas, quase como se estivesse tentando ignorar a pressão que Zenah impunha sobre ele.

 

— Não pretendo afundar Westeros em uma nova guerra, não quando finalmente nos recuperamos da última.

 

— Não é uma guerra, é justiça!

 

— Justiça? — Aegon a encarou finalmente. — Sim, é justiça, mas a um preço alto demais pela paz e pela vida. Quantas pessoas não morreriam nessa empreitada? Atacamos Lys e eles atacarão de volta, e eles tem um dragão agora, mesmo não tendo uma força tão poderosa quanto nós em números um dragão muda tudo.

 

— Eles tem um dragão, nós temos mais. Percebe? Para todos os seus empecilhos há uma solução e somente você não aceita, pai. E isso tudo por conta dos seus próprios medos, mas saiba de uma coisa pai: o passado não representa o futuro.

 

Zenah se levantou pois a conversa teria seu fim ali, a princesa mediu o rei de cima a baixo procurando por qualquer indício de que ele estava mudando de ideia, de que entenderia o que ela quis dizer, mas isso não aconteceu. Então só restou a Zenah deixar o solar se sentindo triste pelo pai, apesar de tudo ela compreendia que os traumas do passado ainda o perseguiam, mas sabia também que como rei ele não poderia permitir que algo assim o influenciasse tanto, não justamente agora, mas o que fazer? Ela não queria forçá-lo a enfrentar essa dor se nem ele mesmo se sentia pronto para isso.

 

Ainda naquela madrugada Aegon fez algo incomum nos últimos anos, pediu que Jaehaera fosse até seus aposentos e lá se deitou com ela. Mesmo já não tendo mais as obrigações de produzir herdeiros, Aegon nunca se relacionou com nenhuma outra mulher além da esposa, e era sabido que Jaehaera também não tinha amantes, o que tornava tudo ainda mais confuso dentro daquele casamento sem amor e sem afeição.

 

O som das ondas vinha pela janela, Aegon estava deitado com o peito nu descoberto, seus pelos arrepiavam de frio a cada vez que um sopro gelado vinha de fora, mas ele não fez nenhuma menção de tentar se aquecer. Jaehaera estava ao lado dele, cabelos soltos, olhos vidrados no teto.

 

— Soube que teve uma longa conversa com Zenah hoje — A rainha disse. —, sobre o que falaram?

 

Aegon demorou a responder porque não queria tocar no assunto ainda, então no final resumiu toda a conversa:

 

— Foi um grande monólogo.

 

— Um monólogo? — Jaehaera franziu o cenho. — Sobre o que?

 

— Sobre tudo.

 

O rei fechou os olhos e um novo sopro de ar entrou no quarto, desta vez mais forte, ele finalmente puxou as cobertas sobre si e suspirou, agora ele preferia ficar ali, onde era quente e seguro. 

Chapter 21: A Hora do Lobo

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Ele sabia muito bem que o que estava fazendo era arriscado, perigoso até, mas Anakin nunca foi de se importar com o perigo e não começaria a fazer isso agora.

O casal fugiu naquela madrugada, na hora do lobo, quando tudo lá fora estava escuro e silencioso e as únicas criaturas acordadas eram os gatos e ratos caçando e fugindo um do outro respectivamente.

Eles fugiram como os ratos pelas passagens secretas, pegaram seus dragões e voaram noite a fora saindo da Fortaleza Vermelha e de Porto Real, no atual momento a capital não era mais que um conglomerado de luzes amarelas tão distante que mal se podia distinguir. Zenah se perguntava se já tinham dado falta deles e dos dragões, se já estavam vindo levá-los de volta, o plano de Anakin porém era continuar indo em frente, a conversa no quarto pouco antes da fuga foi curta e direto ao ponto:

“Eu vou na frente guiando o caminho e você logo atrás protegendo a retaguarda, se caso vir Daemon ou tio Viserys com seus dragões faça Dreamfyre cuspir fogo, e faça para valer. Se caso necessário vamos atacá-los juntos, mas uma coisa é certa Zenah, não vamos parar.”

Até o momento ela não tinha visto nenhum dragão além de Dreamfyre e Caraxes, o que era bom, apesar de tudo Zenah não queria botar dragão contra dragão, não contra Heartfyre e Crepúsculo especificamente.

Depois de muito tempo voando eles pararam em para um breve descanso, Anakin não queria demorar tempo demais em Westeros, ele temia que algum lorde a mando de seu pai os impedisse de continuar.

— Só precisamos seguir e chegar lá, Zenah. — Ele disse enquanto encarava o horizonte à frente deles, àquela hora o sol já tinha nascido e a manhã estava só começando. — Seguir e chegar lá.

Anakin queria pôr os olhos no bastardo e entender até onde iam suas ambições, e também o quanto de poder ele tinha em Lys se caso estivesse se preparando para algum ataque. O príncipe queria estar preparado para enfrentá-lo.

Zenah desmontou Dreamfyre antes de caminhar em direção ao marido, parada ao lado dele a princesa também encarou o horizonte pensativa, a ilha de Lys, ela já tinha ouvido falar muitas vezes antes daquele lugar, foi ali que sua ancestral Saera Targaryen se abrigou depois de fugir de Vilavelha e se tornou prostituta em um dos jardins dos prazeres. Sim, um dos lugares mais famosos de Lys. Zenah se sentia incomodada só de imaginar o que acontecia por trás das paredes daqueles lugares impuros.

Mas ela não estava indo lá para fiscalizar o funcionamento de uma casa de prazer, seu objetivo era outro, bem longe desses lugares. Ao menos ela esperava.

— Vamos, não temos tempo a perder. — Anakin disse, ele a segurou pela mão gentilmente a guiando de volta para os dragões. — Não acho que seja seguro fazer uma parada em Dorne.

— Você acha?

— Sim, pode ser que eles tentem nos atacar. Eu não sei, Dorne ainda não se curvou à coroa… — Anakin disse temeroso. — E eles já derrubaram um dragão antes, podem começar a se sentir gananciosos e tentarem derrubar mais dois.

— Eles não teriam essa audácia.

Anakin riu como quem queria acreditar na esposa, depois a guiou até Dreamfyre e a ajudou a subir nas costas da dragão azul.

— De qualquer forma prefiro não arriscar, além de que eu preferiria pagar com a minha própria vida do que deixá-los sequer chegar perto de você.

A princesa sorriu para ele e lhe mandou um beijo, então Anakin pegou Caraxes e eles partiram outra vez.

As areias de dorne reluziam no calor do sol quando eles passaram – a uma distância segura – por cima das dunas e dos vilarejos. Chegaram até a ver Lançassolar lá de cima, mas eles não pararam para visitar os dorneses, o assunto da insubmissão de Dorne já se estendia há muitos anos, e apesar de ser uma das grandes questões das quais os últimos reis Targaryen tiveram de lidar naquele momento não se tratava de uma questão muito mais real e perigosa do que aquela escondida em uma ilha paradisíaca.

Depois da areia veio o mar, o azul sem fim aparente e o cheiro de peixe e sal. Mas o mar teve fim sim, depois de uma imensidão de água salgada lá estava ela, Lys, eles finalmente haviam chegado.

A ilha veio surgindo pouco a pouco no horizonte até que eles conseguiram começar a ver palacetes, casas e barcos atracados, a cada vez que eles se aproximavam mais Zenah sentia seu estômago revirar de ansiedade e nervosismo.

— Chegamos…

A princesa murmurou, o vento trouxe o som de trombetas sendo tocadas, quase iguais aquelas de Porto Real que eram usadas justamente para sinalizar a aproximação de dragões. Anakin foi o primeiro a dizer em voz alta o que ambos pensaram:

— Eles sabem que estamos aqui.

Então ele apertou as rédeas e fez Caraxes descer para voar mais rente ao mar, Anakin não pensou em recuar nem por um segundo.

 

A cidade de Lys era protegida por muralhas altas, mas essa proteção obviamente não fazia efeito nenhum contra dragões, Caraxes e Dreamfyre sobrevoaram a cidade duas vezes, analisando se seria seguro ou não pousar, lá embaixo as pessoas esticavam o pescoço para olhar para cima e ver os dois dragões, crianças apontavam como se estivessem deslumbradas com a visão, mas não havia sinal de flechas prontas para disparar, nem mesmo os guardas das muralhas pareciam estar se preocupando com a chegada daquelas criaturas.

Então Anakin foi na frente, ele pousou no centro de uma praça e no ato a pata trazeira direita de Caraxes esmagou o que antes era uma fonte de água em formato de uma mulher jovem e nua.

Zenah por sua vez pousou no alto da muralha, os guardas se afastaram assim que Dreamfyre cravou as garras nas pedras e rugiu, Caraxes a imitou, mas seu som era muito mais esganiçado e estridente. Todos os lysenos estavam agora encarando o casal e suas bestas com uma mistura de medo, curiosidade e tensão.

O príncipe desmontou primeiro, passou o olhar por cada rosto na praça e depois disse alto para que fosse ouvido claramente:

— Onde está Aegon, o bastardo?

Mas ninguém respondeu.

Foi depois que um homem que se identificou como um mercador explicou que o tal Aegon que eles estavam procurando vivia na maior casa de Lys, um palacete digno de um príncipe, era ali o lar da Casa Rogare havia gerações, mas nos últimos anos a casa passou por várias reformas que a tornaram maior, mais bela e imponente. Não foi difícil achar o palácio do bastardo, apesar de Lys possuir diversas casas bonitas e grandes a dele era de fato a maior e a mais chamativa.

Anakin e Zenah foram até o palacete enquanto seus dragões voltaram ao céu, eles sobrevoavam a ilha em círculos outrora grandes, outrora pequenos, como se estivessem cercando suas vítimas e preparando o ataque, era essa a sensação que passava, no final os lysenos correram para suas casas e se esconderam, vez ou outra alguém botava a cabeça para fora da janela e espiava, mas lá fora só havia o silêncio e os dragões.

Para a surpresa de ambos o casal foi muito bem recebido, serviçais abriram as portas do palacete e os levaram por entre salas cheias de tapeçarias caras e um forte perfume de flores e ervas. Então eles se viram sentados em poltronas macias de uma sala luxuosa onde os móveis eram incrustados de jóias e folheados a ouro, um serviçal surgiu trazendo vinho e os serviu duas taças, Zenah imediatamente segurou a mão de Anakin e a apertou num gesto que dizia que ele não deveria beber aquele vinho, mas então o serviçal tirou um copo de sua túnica, encheu com o mesmo vinho servido ao casal e bebeu, logo depois o homem se prostrou no canto da sala, de um jeito que Anakin e Zenah ainda pudessem vê-lo ali.

Zenah encarou aquele homem pelo que pareceu uma eternidade e só então quando percebeu que nada tinha acontecido com ele segurou sua taça e a levou até os lábios para bebericar do vinho. O sabor estava um pouco ácido, aquele vinho tinha passado um pouco do ponto e se tornado quase vinagre, mas era o que eles tinham para beber no momento.

Anakin repetiu o gesto quando viu que Zenah estava bebendo, logo após isso as portas da sala foram abertas e uma figura distinta surgiu diante deles. Um homem alto com bochechas rechonchudas, pequenos olhos azuis esmagados entre as bochechas e sobrancelhas, era calvo, mas tinha ainda um pouco de cabelo claro e escasso nas laterais da cabeça. Sem sombra de dúvidas não era Aegon, aquele homem era claramente mais velho do que a idade que o bastardo teria agora.

O homem entrou e logo atrás dele vieram três serviçais trazendo uma cadeira ainda mais pomposa do que aquelas onde o casal Targaryen se sentava agora. Uma vez que a poltrona estava posicionada de frente para eles o homem se sentou, ouviu-se um estalo e um ranger vindos da cadeira adornada com leões feitos de ouro com olhos de rubi.

— Pertencia aos Lannister de Rochedo Casterly, mas meu pai comprou essa cadeira bem como outras bugigangas daquela família anos atrás, ele achava os leões dos Lannister magníficos! Até quis ter seu próprio leão aqui, sabiam? — O homem começou a dizer, sua voz não era agradável aos ouvidos, soava de maneira arrastada e oleosa como seus cabelos, ele falava na língua lysena, um dialeto Baixo Valiriano. — Mas foi desaconselhado por muitos, inclusive eu. A propósito, sou Lysaro Rogare, creio que saibam quem eu sou.

Sim, eles sabiam quem ele era graças ao relato de Viserys. Anakin meneou a cabeça, seu olhar era duro, mas por dentro ele estava ainda assimilando estar diante do homem que só ouvira falar nos relatos do tio.

— Sabemos, e creio que o senhor também saiba por que estamos aqui? — Anakin respondeu em Alto Valiriano, apesar de saber que provavelmente Lysaro entendia o Idioma Comum de Westeros e que ele mesmo podia se virar falando em Lysene, mas o príncipe simplesmente não queria usar a mesma língua que aquele homem.

— Claro que sei, na verdade esperávamos por uma visita há alguns dias, bem, na verdade há alguns anos! — Lysaro sorriu, aquele gesto fez seu rosto rejuvenescer alguns anos. — Não gosto de ser mensageiro de más notícias, mas devo dizer que perderam viagem, meu sobrinho não está em Lys.

Anakin quis bufar de ódio, seu corpo inteiro ficou tenso quando Lysaro disse que Aegon não estava na ilha.

— E onde ele está agora? — Ele perguntou com toda a calma que conseguiu reunir dentro de si apesar de seu tom não ter soado tão suave assim, Zenah pôs uma mão sobre a dele e a apertou. — Onde ele se escondeu?

— Ele não está escondido, não, saiu para uma visita oficial, nada demais. Como eu disse estávamos esperando por vocês, mas já que não nos mandaram nenhuma carta avisando sobre sua chegada, ele não poderia ficar esperando para sempre.

O tom de sarcasmo de Lysaro era irritante, Anakin se viu por um momento socando aquela cara gorda, mas claro, ele não fez isso.

Zenah abriu a boca, ela iria se pronunciar pela primeira vez na conversa, mas Lysaro a cortou:

— E infelizmente vocês não poderão ficar aqui como meus hóspedes e esperá-lo.

— Essa jamais foi nossa intenção, eu nunca dormiria sob o mesmo teto que um bastardo.

Anakin retrucou como se aquele palacete fosse o ambiente mais nojento em que ele já pisou, Lysaro franziu o cenho, mas se ficou realmente ofendido soube bem disfarçar. Zenah mais uma vez apertou a mão do marido antes de observar ao redor, o serviçal que trouxe vinho ainda estava no canto, os que trouxeram a cadeira mantinham-se de cabeça baixa e em silêncio. Nenhum deles portava armas como ela pôde perceber.

Lysaro moveu uma mão e estalou os dedos, um dos serviçais da cadeira pareceu acordar de um transe com aquele gesto.

— Vinho. — O homem serviu Lysaro com a mesma garrafa que os Targaryen beberam. — Gostaram? Estamos tentando produzir nosso próprio vinho, mas ainda estamos ajustando alguns detalhes do sabor.

Ele tomou um longo gole e depois suspirou lentamente, o silêncio pareceu durar uma eternidade quando na verdade foram poucos segundos:

— A mãe dele morreu um mês depois que Viserys desapareceu da ilha, sim, no começo pensamos que ele estivesse desaparecido, como não vimos o dragão dele pensamos que Viserys tinha montado naquela coisa e voado, mas ele mesmo dizia que o dragão não estava pronto para carregá-lo nas costas, então eu pensava que eles tivessem caído no mar e morrido, e Larra também. Como eu disse ela morreu um mês depois que seu tio fugiu daqui, uma morte idiota, tropeçou na barra da própria saia e caiu escada abaixo.

Ele estalou a língua e passou o dedo pelo leão no final do braço direito da cadeira, contornando os traços do focinho e da juba.

— Eu então assumi a criação do meu sobrinho, já que meus outros irmãos e irmãs… estavam ocupados com as próprias coisas. Aí um dia eu recebo a notícia de que o príncipe perdido voltou para casa! E eu pensei, “Viserys está vivo? Então por que nunca voltou para buscar o filho?” — Outra pausa, ele estalou os dedos e mais uma vez sua taça foi enchida com vinho. — Eu mandei uma carta para ele contando que agora ele era viúvo, mas que o filho estava bem, e sabe o que eu recebi como resposta? Nada. Anos depois ele se casou de novo, e eu só conseguia pensar por que não trazer o filho para perto dele? Afinal de contas, ele era viúvo, ainda poderia ter se casado com… qual é mesmo o nome da nova esposa dele? Daenerys? Daenarys? Daenaera! Sim, ele podia ter desposado essa mulher e ainda assim ser pai, uma coisa não impede a outra, não é?

Nenhum dos dois respondeu nada, afinal de contas ambos sabiam que era verdade.

— Mas ele não o fez, e eu disse ao meu sobrinho bem assim: querido, veja, seu pai não liga para você, ele casou com outra mulher e agora tem outros filhos para cuidar, ele não precisa mais de você porque você é um bastardo.

Então ele apertou um dos rubis do olho do leão, a pedra caiu do lugar e parou aos pés de Anakin, mas ninguém fez menção de pegá-la.

— Sua família tratou meu sobrinho como se ele fosse o filho de alguma puta suja, alguma mulher de um dos nossos jardins de prazeres, mas ele era filho da minha irmã, uma dama, com sangue nobre. E vocês não deram a mínima porque ela não era um dragão como vocês, porque ele não era digno de ser um dragão, mas saibam de uma vez por todas: ele é!

— Não, não é! — Anakin rebateu. — Ele é um verme, um miserável que matou meu irmão por vingança! Baelon não tinha nada haver com essa história e pagou com a própria vida!

— Meu sobrinho também não tinha culpa de nada, mas quando você o chama de bastardo é com um desprezo e ódio tão grande que é como se ele fosse uma aberração.

— Está comparando as situações? — Zenah finalmente conseguiu falar. — Não temos culpa dos erros do meu tio, ele foi frio e um pai terrível para seu sobrinho, mas isso não dá a ele o direito de matar, de querer tomar para si algo que não o pertence!

— Quieta, mulherzinha. Eu permiti que você ficasse aqui por pura cortesia, mas não se meta nos assuntos dos homens!

Lysaro se arrependeu do instante que sibilou aquelas palavras, pois Anakin agarrou o rubi no chão e ao invés de colocá-lo de volta no olho do leão, ele enfiou a pedra bem fundo no olho esquerdo de Lysaro, o Rogare urrou de dor, mas ao tentar chamar os serviçais nenhum deles teve coragem de intervir, Anakin sacou sua espada e Zenah quebrou a garrafa de vinho na mesa, ela apontou o objeto na direção deles e esperou para ver quem seria o primeiro a tentar fazer alguma coisa.

— Idiota! Saiam! Saiam!! — Lysaro berrava.

— Da próxima vez respeite a minha mulher, seu filho da puta! — A voz de Anakin ganhou um tom ameaçador, como se cada palavra fosse pontuada por mais um segundo de agonia e dor para o lyseno. — E diga ao seu sobrinho que ele vai pagar pelo que fez, ouviu bem?!

— SAAAAAAIAAAAAM!!

O casal foi expulso do palacete e de Lys por Lysaro Rogare, então eles saíram, pegaram seus dragões e voaram, mas não para muito longe.

Quando a noite caiu Lysaro estava em sua cama, infelizmente seu olho esquerdo foi perdido. Depois de muito leite de papoula para amenizar a dor ele estava se sentindo um pouco melhor, até pediu que seus servos lhe trouxessem vinho e a melhor escrava do Jardim de Prazer de um de seus irmãos, só assim ele poderia relaxar e esquecer o ódio que sentia por aqueles Targaryen malditos.

Mas mal a mulher entrou no quarto e sentou no colo dele os dois ouviram um barulho alto lá fora e depois o silêncio, parecia um dragão pousando.

— Aegon voltou! — Lysaro empurrou a mulher para a cama e depois se levantou, ele caminhou com dificuldade até a varanda de seu quarto, mas ao olhar para fora ele não viu Vhagar. — Mas… que estranho.

E de repente ele sentiu algo cair no topo de sua cabeça, uma pedrinha pequena, quando ele levantou o olhar para ver o que tinha sido teve uma surpresa ao ver um enorme dragão vermelho abrindo a boca, Lysaro mal teve tempo de gritar antes de ser engolido por ele.

A mulher na cama viu tudo e gritou desesperada com aquela cena, então Caraxes colocou a cabeça dentro do quarto e cuspiu fogo, depois disso ele voou, e lá do alto junto de Dreamfyre os dois cuspiram fogo contra o palacete da Casa Rogare, transformando a belíssima casa em uma nova Harrenhal.

Chapter 22: Um Amigo Entre Inimigos parte 1

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As tapeçarias pegaram fogo e o ouro derreteu. Enquanto o Palacete Rogare queimava, guerreiros de Lys tentaram derrubar os dois dragões, mas foi em vão.

Anakin e Zenah eram habilidosos na cavalaria, e os dragões tinham anos de experiência a seu favor. Eles não sofreram um arranhãozinho sequer e no final Lys estava rendida a eles, depois de ver o que tinha acontecido com Lysaro e sua casa os cavaleiros pararam de atacar e mais ninguém quis se atrever a ir contra os Targaryen, afinal de contas ninguém em sã consciência iria querer despertar a ira das duas feras e seus donos contra si. Ouro era importante demais para ser derretido e perdido.

Então quando o fogo parou e Caraxes e Dreamfyre pousaram nos escombros do palacete, os homens mais influentes de Lys vieram pessoalmente ou mandaram representantes para acenar a bandeira branca da paz. Anakin e Zenah apesar de tudo não queriam pôr a ilha abaixo, então aceitaram aquela bajulação toda além dos presentes que vieram também: os irmãos de Lysaro.

Numa tentativa de mostrar que eles não queriam guerra, todos aqueles com uma ligação com os Rogare, seja por sangue ou outras razões, foram levados a casa queimada. E lá foi onde ficaram diante de Anakin e Zenah, quase como verdadeiras oferendas aos deuses furiosos.

Os destinos daquelas pessoas foram decididos pelo casal, aqueles que tinham ligação com os Rogare através de negócios ou dívidas foram perdoados e mandados embora, mas todo e qualquer membro da família foi assassinado. No começo foi Anakin usando sua espada quem decapitou um a um, mas logo ele cansou e prontamente um dos muitos bajuladores se prontificou a fazer o serviço, tanto para continuar lambendo as botas do príncipe, quanto para liberar a raiva que sentia pelos Rogare, que haviam acumulado inimigos ao longo dos anos. Aquilo foi quase como um presente para a maioria deles.

Anakin não se sentia inteiramente confortável com aquilo, a cada vez que a lâmina de sua espada descia ele sentia uma parte de si perguntando se estava fazendo o que era certo. Talvez estivesse outra parte dizia então, e evocava nas memórias dele a lembrança de Baelon agonizando em Pedra do Dragão por culpa deles.

E assim a espada desceu e desceu até que seus braços cansaram, mas seus olhos não, então ele passou a observar as outras espadas descendo e as cabeças rolando.

E lá atrás estava Zenah, diferente do marido ela não estava afim de ficar e assistir todo aquele espetáculo sangrento, e Anakin percebeu isso:

— Por que não está contente?

Ele perguntou, ao fundo eles ouviram o gorgolejar de outro Rogare antes de sua morte, Zenah observou a cabeça cair rolando e o sangue espirrando sobre o carrasco e sua lâmina, seus lábios se torceram.

— Às vezes a lucidez pode nos fazer sentir coisas humanas até mesmo por quem em teoria não merece.

Anakin arqueou uma sobrancelha e gargalhou com escárnio:

— Está com pena deles? É isso mesmo que eu estou vendo?

— Nem todos os Rogare estavam envolvidos na nossa trama, Anakin.

— Mas bastou alguns deles para que o mal fosse feito, por isso eles estão pagando assim. Erro de um, culpa de todos!

O príncipe franziu o cenho e cruzou os braços sentindo sua irritação irradiando para fora de si enquanto sua esposa ainda estava imóvel, feita de pedra.

— Anakin…

— Refresque a minha memória — Ele estalou os dedos no ar duas vezes. — Quem de nós dois derramou sangue primeiro?

Zenah não expressou abalo algum ao ser lembrada de seu crime, na verdade ela continuou impassível.

— Foi um momento de escape, mas eu nunca disse que me arrependi.

— Já sei, escape de lucidez é o que você vai tentar me dizer, não é? E sua lucidez voltou justo agora?! Meu amor, eu matei todos eles, e não só os homens, mas as mulheres e as crianças também! — Naquele ponto Anakin deixou a raiva falar mais alto. — Eles não merecem a nossa pena! Eles são como animais, e eu os matei como os animais que eles são!

A voz do príncipe ecoou pelos escombros no exato instante em que a lâmina desceu uma última vez, Zenah lentamente moveu os olhos lilases para o rosto do marido, foi como duas ametistas rolando até pararem o encarando. A explosão de Anakin foi forte, porém momentânea, e logo ele mesmo provavelmente se arrependeria de ter dito aquelas coisas a ela.

— Guardamos os nossos desejos obscuros por um motivo, Anakin. — Zenah disse e depois segurou a mão dele.— E mantemos a lucidez pela mesma razão.

Então ela beijou os nós dos dedos do marido antes de dar as costas e começar a caminhar em direção a saída.

— Aonde vai? — Anakin perguntou, sua voz soava rouca agora.

— Tentar descobrir onde estão os magísteres de Lys, é um pouco estranho eles não terem feito nada a nosso respeito, não?

Depois ela desapareceu por entre um arco semi obstruído por pedras derretidas, a saída provisória da casa. Anakin ficou ali parado por um instante, o carrasco anunciou que o serviço estava feito e perguntou no que mais ele poderia ser útil, então o príncipe ordenou que ele levasse os corpos para dar de comer a Caraxes e Dreamfyre.

Uma vez a sós ele se pegou sentindo arrependimento do que disse a Zenah e aquela amargura pós ódio era incômoda, ele detestava brigar com a esposa.

 

A princesa saiu andando à procura de um líder, mas não encontrou nenhum, e ainda se surpreendeu com a reação dos lysenos ao perguntar a eles onde estavam os magísteres. Eles trocavam olhares estranhos e abaixavam as cabeças, quase como se não quisessem falar, por fim ela se cansou daquele silêncio e ordenou que alguém, qualquer pessoa, lhe desse uma explicação. Foi quando enfim um lyseno disse que havia uma pessoa que poderia explicar tudo a princesa, um homem muito inteligente e que a ajudaria a entender a atual situação da ilha. Então ela foi ao encontro desse sábio.

Mas para a surpresa dela o tal sábio estava em condições estranhamente indistintas para alguém que supostamente tinha tanto conhecimento. Ele foi encontrado na residência de um dos irmãos de Lysaro Rogare, em uma masmorra.

Ele era um homem um pouco mais baixo do que Anakin mas ainda assim alto, Zenah costumava usar a altura do marido, que era muito alto, como régua para comparações. Tinha olhos claros, cabelo e barba de um loiro escuro, na luz fraca da manhã que começava parecia até ruivo, ele estava sentado em uma cama velha por detrás das grades, e seus olhos observavam atentamente a visitante e um cavaleiro que deveria estar cuidando da segurança da cidade, mas agora estava fazendo uma escolta pessoal.

— Uma Targaryen. — Ele disse calmamente, mas como uma observação. — A chegada de vocês mexeu bastante na rotina da ilha.

— Me disseram que você era um homem inteligente e que poderia me explicar melhor a situação atual de Lys. — Zenah uniu as mãos na frente do corpo. — Qual é seu nome?

O homem se pôs de pé e fez um gesto de reverência polido antes de responder:

— Meu nome é Obi-Wan Kenobi, vossa graça. No que posso ser útil?

Zenah meneou a cabeça e depois se aproximou das grades que os separavam. A princesa ficou surpresa que ele sabia a maneira certa de se referir a ela.

— Onde estão os magísteres de Lys?

— Foram destituídos, agora a ilha está sob um novo tipo de regime. — Como se adivinhasse o que a princesa estava prestes a perguntar ele se adiantou. — Vossa graça já sabe quem está no comando.

Zenah se deu conta de que a situação estava muito além do previsto, e sentiu até uma certa frustração consigo mesma, como ela não imaginou que isso teria acontecido?

— Suponho que você saiba de toda a história e poderá me explicar tudo em detalhes, correto?

Zenah perguntou e quando o tal Obi-Wan aquiesceu e se preparou para explicar o que parecia uma longa história ela ergueu a mão em um gesto de espera:

— Para que você não precise contar a mesma história duas vezes espere até estarmos diante do meu marido.

Então o cavaleiro abriu a porta da cela e deixou que Obi-Wan saísse, Zenah sabia que era uma atitude um tanto perigosa deixar que um homem que ela sequer conhecia andasse solto e tão próximo dela assim, mas algo lhe dizia para confiar nele.

— Vamos. — Ela disse, mas mal eles haviam dado alguns passos a princesa alertou. — Ao sairmos dessa casa você irá se deparar com dois dragões, o mais velho deles é a fêmea azul, Dreamfyre é o nome dela, e é a minha montaria. O mais novo, o vermelho, chama-se Caraxes, tem um pescoço facilmente reconhecível e é a montaria do meu marido. É o mais feroz também.

Tão mal eles saíram e a primeira coisa que Obi-Wan viu e prestou atenção não foi a luz do sol, que há muito ele via por uma pequena janela na masmorra, mas as duas criaturas enormes voando em círculos no céu. Ele já tinha visto um dragão antes, mas ainda ficava surpreso com eles. Zenah apontou para os dragões e disse:

— Eles são calmos na maior parte das vezes, especialmente Dreamfyre. Caraxes é… um pouco afoito. — Os dois começaram a planar cada vez mais baixo até aterrissarem no chão, o baque fez pequenos pedregulhos tremerem ao redor deles. Obi-Wan então se deu conta de que estava sendo guiado em direção às criaturas e essa percepção fez um arrepio correr por sua espinha. — E são muito leais a seus donos, eles não deixam que nada nem ninguém os machuque.

Logo Obi-Wan se viu andando entre Caraxes e Dreamfyre, os olhos dos dragões estavam fixos nele o fazendo se sentir pequeno como um rato, o vermelho deixou uma lufada de ar quente sair pelas narinas, foi o suficiente para Obi-Wan entender o aviso.

— Eu não tenho intenção de causar qualquer mal à senhora, vossa graça. — Ele disse encarando as costas da Targaryen caminhando a frente dele.

— Palavras são maleáveis e traiçoeiras, às vezes um leão usa o tom mais doce e gentil para persuadir o cervo antes de morder seu pescoço.

Ela parou de caminhar e ele fez o mesmo, a princesa então virou a cabeça para ver Obi-Wan por cima do ombro e acrescentou:

— Quer que confiemos em você? Então use essa chance com sabedoria.

Quando ela voltou a caminhar, Obi-Wan deu uma última olhada nos dragões e não soube diferenciar o olhar da princesa com o de sua montaria.

Chapter 23: Um Amigo Entre Inimigos parte 2

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O palacete estava quase irreconhecível, enquanto andava por corredores antes tão familiares por Obi-Wan ele se pegou tentando associar as paredes enegrecidas com as paredes que ele tinha na memória. Não batia. Era simplesmente como ver um lugar em que nunca esteve antes.

Eles atravessaram o arco semi obstruído e chegaram ao que costumava ser a sala preferida de Lysaro Rogare, onde ele recebia as visitas e expunha seus bens mais preciosos no intuito de causar inveja. Obi-Wan olhou ao redor procurando alguma referência de que a sala ainda era a mesma de antes, mas não havia.

No centro havia uma poça de sangue empapado no tapete, muito sangue, bem como respingos nas paredes e até no teto, o sangue ainda estava fresco, e o cheiro ferroso no ar fez o lugar parecer um matadouro.

A princesa Zenah parou ali, olhou ao redor como quem procurava algo ou alguém e não encontrou, então seguiu andando por corredores sujos deixando o cheiro de sangue para trás, agora eles voltavam ao cheiro de queimado, cinzas… e carne assada.

Enfim ela encontrou quem procurava, havia uma figura parada em uma varanda observando a cidade lá fora, o cavaleiro que os acompanhava fez Obi-Wan parar enquanto Zenah seguia em direção a Anakin.

— Tem uma coisa que você precisa saber. — Ela disse a poucos passos do marido.

Anakin tomou um susto ao ouvir a voz dela e se virou abruptamente, mas relaxou assim que viu o rosto da esposa. Parecia que ele iria pegá-la nos braços e pedir desculpas pela briga, ao mesmo tempo que tentava parecer imponente e firme. No final ele não pôde sequer pensar em como começar o pedido de desculpas porque percebeu o homem desconhecido ali parado.

— Um magíster? — Ele mediu o homem de cima a baixo.

— Não, eu o encontrei preso em uma das residências da Casa Rogare, me disseram que ele tem informações importantes para nós, e eu acredito que seja verdade. Precisamos ouvi-lo.

Anakin deu alguns passos em direção ao estranho até que eles estavam cara a cara.

— Qual é o seu nome? — O príncipe perguntou.

— Obi-Wan Kenobi, vossa graça. — Ele respondeu educadamente fazendo a mesma reverência que usou com Zenah antes.

Anakin o analisou outra vez antes de perguntar:

— Minha esposa disse que você estava preso. Posso saber o motivo?

— É uma longa história que logo o senhor saberá, não pretendo esconder nenhum detalhe dos senhores.

Anakin olhou Zenah por cima do ombro, logo depois fez um gesto com a mão e disse:

— Está bem, conte-nos o que sabe.

Eles deixaram a varanda e se acomodaram do lado de fora da casa, onde o cheiro estava mais livre da fumaça e sangue, mas não completamente, ali foi onde Dreamfyre e Caraxes se alimentaram pouco antes. Três cadeiras aparentemente sobreviventes do ataque foram trazidas e postas no pátio do palacete, duas lado a lado para o casal e uma logo à frente deles para Obi-Wan.

Anakin ainda analisava o estranho, mas decidiu deixá-lo falar primeiro e contar sua história antes de fazer perguntas ou tentar ele mesmo arrancar verdades.

— Eu não sou daqui. — Foi assim que Obi-Wan começou dizendo. — Nasci em algum lugar em Essos, mas nunca soube onde. Quando ainda era um bebê fui levado de casa em casa, de cidade em cidade. Sou parte de tudo e de nada.

Uma brisa do mar veio soprando calmamente enquanto ele falava, o cheiro de água salgada foi como um bálsamo, aplacando os outros odores fortes temporariamente.

— Ainda na infância aprendi a ler e escrever, depois quando tinha mais idade para tomar conta de mim eu mesmo saí viajando por Essos. No início ficava de favor na casa das pessoas em troca de comida e abrigo, e trabalhava escrevendo cartas ou ajudando na administração, comecei a fazer isso pouco antes de pedir abrigo a um gentil banqueiro que me ensinou o que sabia. Ele tinha perdido um filho da minha idade, e ficara delirante, quando eu cheguei em sua casa ele pensou que eu fosse o filho falecido e me tratou como tal, foi difícil conseguir ir embora de lá.

Anakin batia o pé no chão num ritmo frenético, ele queria ir logo ao que interessava, só não pediu para que Obi-Wan pulasse essa parte longa de sua história porque Zenah não deixou, ela lhe lançou um olhar bem claro a respeito disso.

— Um banqueiro você diz?

Zenah perguntou depois de lançar mais um olhar na direção do marido, Obi-Wan percebeu a inquietação do príncipe mas continuou sua história no mesmo ritmo:

— Sim, como eu dizia ele pensava que eu era seu filho, pelo que eu soube o menino tinha alguma doença estranha, sangrava demais sempre que se cortava, mesmo que fosse só um arranhão. Um dia ele caiu e cortou a perna, a ferida piorou até o ponto em que precisaram amputar a perna dele, uma má ideia, ele começou a sangrar e sangrar até morrer...

De repente o príncipe o interrompeu:

— Você vai direto ao ponto ou pretende me contar sua vida inteira?

Ele perguntou impaciente e mais uma vez Zenah lhe lançou um olhar e ele se calou. Após isso Obi-Wan retomou a narrativa, propositadamente ou não de onde tinha parado:

— O pobre pai, que também era viúvo, perdeu o juízo e se agarrou a mim como se eu realmente fosse filho dele. Sempre soube que uma parte dele, ainda são, sabia da verdade, só não conseguia mais tomar controle dele mesmo. — Ele fez uma rápida adição. — Mas eu quero deixar claro que não me aproveitei da situação para ter algum tipo de proveito, apesar de tudo eu tentei ir embora várias vezes, mas ele não deixou. Eu só consegui sair daquela casa quando o próprio banqueiro morreu, e o que aconteceu? Ele me deixou todo o seu dinheiro, mas eu não tinha interesse algum por administrar bancos em Essos, então vendi tudo, peguei o dinheiro e fui para Westeros.

Anakin ergueu uma sobrancelha ao ouvir o nome de sua casa ser mencionado, sua atenção voltando para a conversa imediatamente:

— Westeros? — Ele perguntou. — Onde?

— Passei por Dorne e fui até Lannisporto, mas nunca estive em Porto Real por falta de oportunidade. Enquanto estava nessas cidades eu voltei a oferecer meus serviços, agora para pequenas casas nobres. Veja bem, o banqueiro me permitiu estudar, e eu me aprofundei em história, filosofia e matemática, nesses meus serviços eu auxiliava pequenos senhores na tomada de decisões.

— Você era um conselheiro. — Zenah cruzou as pernas e se encostou na cadeira. — Isso era o que te fazia feliz?

— Na maior parte do tempo, sim. Mas em Westeros eu não fiz muita fama, os westerosi temem os que vêm de fora, então eu voltei para esse lado do mundo, aqui as pessoas me conheciam e me aceitavam, quando eu chegava a um lugar pelo menos alguém já tinha ouvido falar de mim. No entanto, isso talvez foi minha ruína…

Houve uma breve pausa quando Obi-Wan olhou ao seu redor, tanto Zenah quanto Anakin perceberam um certo rancor na expressão dele.

— Um dia recebi um convite de Lysaro Rogare para vir a Lys, ele disse que precisava da minha ajuda e que me pagaria tanto quanto eu quisesse. Eu nunca tinha vindo a Lys e talvez por isso me deixei aceitar o convite, assim que cheguei me encontrei com Lysaro e ele me explicou o porquê precisava de mim: ele tinha um sobrinho de 19 anos com muito ódio do pai… O nome do menino era Aegon.

Anakin franziu o cenho e involuntariamente suas mãos se fecharam em punhos, agora sim ele queria ouvir.

— Ele era um rapaz inteligente e obstinado, mas muito raivoso, que se ressentia de ter sido abandonado pelo pai e ganho a alcunha de bastardo. E claro, Lysaro ajudou a cultivar essa mágoa toda dentro dele, o resultado é que ele era um rapaz cruel, manipulado e idiota. Lysaro não conseguia mais o controlar sozinho e pensou que eu pudesse fazer alguma coisa por ele…

“Eu me aprofundei na história de Aegon, tentei conversar com ele sobre e saber até onde iam suas mágoas. As raízes eram bem profundas se querem saber, mas eu ainda acreditava que talvez pudesse fazer alguma coisa, e talvez eu pudesse se não fosse por Lysaro e sua constante manipulação em cima do garoto. Ele queria que Aegon fosse um rei, e mesmo sendo ele um bastardo que não seria herdeiro mesmo se fosse filho legítimo, Lysaro ainda o fez acreditar que ele podia burlar as regras apenas por ele ser Aegon, um filho ignorado, mas forte e inteligente.”

Anakin começou a bater o pé no chão outra vez enquanto Obi-Wan fazia seu relato, era a raiva ameaçando explodir, ele era o herdeiro, era ele quem um dia sentaria no trono de ferro, não esse Aegon!

— Ele sabia da minha existência? — O príncipe perguntou.

— Sim, sabia. Eu mesmo contei a ele em uma tentativa de o fazer enxergar a verdade, você é o filho mais velho do rei Aegon III, por tanto, é o herdeiro do trono, Príncipe de Pedra do Dragão. Logo depois de você na linha de sucessão vem sua esposa, e como vocês ainda não tem filhos logo em seguida viria seu irmão, Baelon. Aliás, meus pêsames.

— Você já sabe que ele…? — Zenah perguntou, a lembrança do acontecido fez sua voz falhar.

— Sim, todos nós aqui em Lys sabemos, e eu fiquei especialmente arrasado por saber que Aegon quem planejou esse ato cruel. Isso vai totalmente contra a tudo que tentei ensinar a ele.

Anakin apoiou os cotovelos nas coxas e se inclinou para frente na cadeira, o queixo apoiado nas mãos e o olhar fixo em Obi-Wan.

— E o que você ensinou a ele?

— Que ele deveria usar da sua inteligência para alguma coisa, alguma coisa boa e útil, eu sugeri que ele usasse de sua riqueza e influência aqui em Lys se tornando um magíster, pensei que eu poderia fazê-lo ver que aqui ele era importante, útil, e não um bastardo esquecido. Mas talvez eu estivesse sendo ingênuo demais para perceber como as minhas palavras o afetaram de verdade.

Ele pareceu envergonhado e até mesmo culpado por ter falhado com seu discípulo, ficou nítido para Zenah que ele carregava muita culpa por tudo que estava acontecendo agora.

— Ele de fato usou seu poder para tomar o controle, comprou magísteres e matou outros que se recusaram a votar para uma mudança na forma de governar a ilha, no final ele foi eleito o príncipe de Lys.

— Está me dizendo que Lys virou um principado? E como isso nunca foi informado a Westeros?! — Anakin perguntou.

— E desde quando ele é príncipe?

— Cerca de dois anos, ele escondeu a verdade estrategicamente porque precisava ganhar tempo para se preparar e expandir, Lys não é o único lugar que está sob o comando dele, Myr e Pentos também são governados por Aegon agora, esses dois lugares porém não oficialmente, é uma aliança, os líderes locais se aliaram a Aegon em troca de riqueza e acabar com as inimizades existentes.

Zenah se pôs de pé e começou a caminhar enquanto pensava nesse novo panorama da situação, Lys, Myr e Pentos juntos, juntos contra eles.

— Isso ainda não explica o porquê você estava preso. — Anakin perguntou enquanto observava Zenah caminhando em círculos. — O que aconteceu?

— Quando ele se proclamou príncipe eu me revoltei, disse que não era assim que ele conseguiria se sentir feliz, aquela ideia de juntar poder e depois roubar o trono de Westeros a força só o levaria a ruína, como eu esperava ele pensou que eu tinha ficado contra ele e me aprisionou.

A princesa se sentou novamente, inspirou e expirou deixando todo o ar sair de seus pulmões, ela fez isso mais duas vezes.

Obi-Wan entendeu que precisava tomar a atitude correta agora, e por isso decidiu arriscar:

— Eu quero me aliar a vocês.

— O que? E por quê? — Anakin franziu o cenho. — Como podemos ter certeza de que você não está só fingindo que estava preso? De que tudo isso é um plano?

— Eu não tenho como provar nada pois só tenho a minha palavra, mas se ela vale de alguma coisa então eu digo aqui e agora que não concordo com o que Aegon está fazendo e por isso quero pará-lo. E sei que é justamente por isso que vocês estão aqui. — Ele olhou para o casal, de um para o outro. — Me deixem ajudá-los, eu o conheço, sei seus pontos fracos e fortes, vocês não.

Houve um breve momento de silêncio, até que Anakin disse:

— Nos dê um momento para pensar.

Depois disso ele se levantou e pediu que Zenah o seguisse, os dois deixaram o pátio onde Obi-Wan permaneceu sentado, um cavaleiro estava parado não muito longe o vigiando.

Ele ignorou a presença do guarda e ergueu o olhar para o céu, dois anos, dois anos em que ele não pôde ver o céu daquele jeito, sentir o sol quente na cabeça. De repente ele sentiu até uma certa paz.

Chapter 24: 23- Perdão

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Obi-Wan estava observando Anakin treinando sozinho com sua espada no mesmo pátio onde eles tiveram aquela conversa tensa anteriormente. Ele ainda não tinha sido informado se o casal Targaryen aceitaria a ajuda dele ou não, mesmo após dois dias inteiros de espera.

Ele também percebeu que a relação entre Anakin e Zenah estava estranha, Obi-Wan não conhecia o casal, mas sabia dizer claramente que algo estava errado ali. Anakin passava a maior parte do tempo andando atrás da esposa com uma cara de cachorro sem dono, ao passo que ela não estava muito disposta a abraçar aquele pobre cãozinho perdido.

E quando ela não fazia isso o príncipe pegava a espada e saia para treinar sozinho, ele passava horas ali extravasando a frustração e murmurando algo em alto valiriano, língua que Obi-Wan conhecia.

Naquele dia Obi-Wan se aproximou do Targaryen enquanto ele balançava a espada e xingava o nada, ao perceber a presença do homem ali Anakin apontou a ponta de sua espada para ele.

— Saia, eu quero ficar sozinho.

Ele voltou a treinar, mas Obi-Wan não deu um passo sequer para longe.

— Se o senhor me permitir a intromissão…

— Não permito. Fora.

Anakin respondeu seco, e novamente Obi-Wan não saiu dali, o príncipe jogou a espada no chão e gritou:

— Pelos sete infernos! SAIA IMEDIATAMENTE!

Obi-Wan colocou os braços para trás e nem precisou dizer nada, o príncipe começou a desabafar sem nem se dar conta:

— Eu digo uma coisinha errada e ela me trata como se eu tivesse dito uma atrocidade! Inferno!

— O que foi que você disse? — Obi-Wan perguntou.

— Que eu mataria todos os Rogare porque eles não merecem viver!

Obi-Wan ficou um pouco perplexo de como ele tratou uma ameaça de assassinato como uma banalidade, só uma “coisinha errada”.

— E pelo visto ela não estava de acordo?

— Não gostou da forma como eu me expressei, ela acha que eu estava perdendo o controle e se tem uma coisa que a Zenah é obcecada? É por controle! — Ele pegou sua espada do chão e avançou contra um tronco de árvore queimado que fora posto ali ontem e servia como seu oponente. — Controle! Controle! Controle!

Ele golpeou a árvore três vezes e bufou.

— Mas eu não quero que ela fique com raiva de mim…

Então ele parou e baixou a espada, Obi-Wan esperou pois ele sabia que ainda tinha mais coisa que o príncipe queria botar para fora. E tinha mesmo, Anakin passou longos minutos reclamando de que não sabia o que fazer para mudar a sua própria situação, ele só queria esquecer tudo isso e deixar o acontecido para trás, já Zenah queria que ele fosse mais fundo naquilo por motivos que sim, ele sabia, apenas queria fingir não saber.

E Obi-Wan ouviu tudo, as vezes ele balançava a cabeça, mas não disse nada até que ele teve certeza de que deveria:

— Já tentou falar com ela sobre isso?

— Não. — O príncipe admitiu, o que não era surpresa.

— Se vossa graça falar com sua esposa talvez possa resolver essa crise rapidamente.

— E por que ela não pode simplesmente esquecer e seguir em frente?! — Anakin bufou e de repente ele estava pegando sua espada e uma outra de um cavaleiro que não fez objeção, o príncipe atirou a espada para Obi-Wan que a pegou no ar pelo cabo. — Sabe lutar?

— Claro, pratiquei por alguns anos no passado…

— Ótimo, então vamos!

Ele avançou sem mais e assim os dois começaram um combate no pátio, era ainda Anakin tentando extravasar a frustração mas agora com um oponente mais desafiador do que um tronco queimado. E um oponente bom. Obi-Wan se mostrou ser muito habilidoso, claro que no início ele teve problemas para acompanhar o ritmo do príncipe devido aos anos aprisionado, mas logo passou e eles estavam lutando quase que em pé de igualdade, porque Anakin ainda conseguia ser mais ágil e agressivo.

A luta seguiu com ambos atacando e se defendendo de maneira habilidosa, Anakin estava impressionado com Obi-Wan, no início ele acreditou que derrubaria aquele homem com um simples chute, mas não foi o que aconteceu, o príncipe estava tendo bastante trabalho.

— Acabou, vossa graça! — Obi-Wan disse ofegante. — Como pode ver, eu estou em terreno alto!

Obi-Wan tinha pulado em cima de escombros do palacete, blocos que desmoronaram, mas isso não pareceu amedrontar Anakin de maneira nenhuma.

— Mal me conhece e já subestima o meu poder?

Ele respondeu antes de se preparar segurando a espada com mais firmeza, Anakin iria avançar e pular quando de repente um pedregulho se moveu sob os pés de Obi-Wan e ele escorregou. Quando ele caiu no chão, Anakin foi até ele e o desarmou.

— Terreno alto você disse? — O príncipe riu mas depois ofereceu sua mão para ajudá-lo a levantar. — Vou ser misericordioso com você e assumir que empatamos, está bem?

Obi-Wan riu e aceitou a ajuda para se levantar antes de começar a tirar a poeira das pedras de suas roupas.

— Está bem, vamos fingir que foi assim mesmo.

Eles riram outra vez mas não demorou muito e Anakin ficou sério novamente e era óbvio que a razão ainda era sua esposa. Ele guardou sua espada na bainha e respirou fundo antes de começar a falar:

— Não adianta, mesmo que eu fique aqui lutando até desmaiar de exaustão essa sensação não vai embora! Eu preciso fazer alguma coisa ou vou enlouquecer! Mas o que eu faço?! — Ele se virou para Obi-Wan. — Falo com ela?

Obi-Wan cruzou os braços e o príncipe bufou, claro que a resposta era justamente essa.

— O diálogo é sempre a melhor opção, vossa graça. Diga a sua esposa o que tem te aborrecido.

Anakin parou em silêncio mas enfim bufou e disse:

— Me deseje sorte então.

E o príncipe deixou o lugar se preparando para conversar com Zenah, Obi-Wan ainda ficou ali um pouco mais, no fundo ele torcia por Anakin.

Anakin encontrou a esposa em uma das salas do palacete, ela estava debruçada sobre um mapa de Lys, uma atividade que a princesa vinha fazendo desde o dia anterior, ela acreditava que era importante conhecer a ilha perfeitamente.

— Zenah?

Ele a chamou depois de dar duas batidinhas na porta, a princesa não se assustou com a chegada do marido, ela se afastou do mapa e ergueu a cabeça para vê-lo.

— Sim?

Anakin se aproximou da mesa onde o mapa estava e fingiu olhá-lo como Zenah fazia antes, mas depois seus olhos se voltaram para os da esposa.

— Eu queria conversar com você, podemos? — Zenah fez que sim e esperou, Anakin tentou reunir seus pensamentos da melhor forma possível para falar o que estava o aborrecendo há dias. — Você está com raiva de mim.

— Não, não estou.

Anakin arqueou uma sobrancelha ao ouvir a resposta dela que para ele foi como negar o óbvio.

— Está sim, não negue isso agora.

— Mas eu não estou negando nada porque eu não estou com raiva de você.

— Está sim!

— Não estou!

Anakin iria rebater quando de repente ele parou e começou a rir, a princesa não entendeu por que ele estava rindo de repente.

— Anakin?

— Isso me lembrou de quando éramos crianças e brigávamos, lembra? Ficávamos exatamente assim, “sim!”, “não!”, “sim!”. — Anakin ainda ria. — E estamos fazendo a mesma coisa agora.

Zenah deu um risinho, ela finalmente tinha visto essas semelhanças e também achou engraçado.

— Acho que você tem razão, mas na maioria das vezes eu tinha razão.

— O que? Você? Claro que não!

— Claro que sim! Você sempre foi cabeça dura e não me dava ouvidos!

— Eu sou cabeça dura? Não sou não, você quem é!

— É você!

— Você!

E os dois começaram a rir ao perceber que estavam fazendo isso de novo, brigando feito duas crianças. Anakin até pôde se sentir mais leve, de uma maneira que ele não se sentia havia dois dias.

Mas quando as risadas cessaram, Anakin baixou o olhar para suas próprias mãos, ele não sabia como prosseguir mas então Zenah se aproximou e ele a viu por suas mãos sobre as dele.

— Eu não estou com raiva de você, eu juro que não estou, mas… — Ela fez uma pausa e respirou fundo. — Eu tenho medo.

— De mim?! — Por um segundo parecia que o príncipe iria cair para trás.

— Não, jamais! — Ela imediatamente tocou o rosto dele quando percebeu que ele estava assustado. — Eu tenho medo por você, Anakin. A maneira como você disse aquelas coisas foi perigosa.

Anakin não entendeu o que ela quis dizer com “foi perigosa”, para ele aquilo tudo era confuso demais.

— Por que seria perigoso, Zenah? Foram só palavras, isso não significa nada.

Para ele eram apenas palavras ditas no momento da raiva, mas para Zenah não. Ela o encarou nos olhos, não havia surpresa porque ela já sabia como ele pensava. Então calmamente ela disse:

— Às vezes podemos nos deixar levar por nossas emoções e pelas coisas que dizemos e assim seguir por caminhos perigosos demais. — Zenah apertou a mão dele como se quisesse fazer sua reflexão se grudar à mente dele. — Por isso precisamos tomar cuidado, nem sempre o que pensamos é o que queremos fazer, mas às vezes sem perceber tornamos esses pensamentos em realidade.

Houve um momento de silêncio até que Zenah se inclinou e beijou o marido, quando ela se afastou Anakin a puxou para um abraço e fechou os olhos. Zenah retribuiu o gesto colocando seus braços ao redor deles, e pela primeira vez o príncipe relaxou.

— Vou tomar cuidado, eu prometo. — Ele sussurrou em alto valiriano.

— Eu sei que vai.

E então eles permaneceram abraçados como se mais nada ao redor deles existisse.

Chapter 25: Longe Demais

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Anakin estava gargalhando alto como se alguém tivesse acabado de lhe contar uma piada e Obi-Wan franzia o cenho tentando entender aquele ataque de risos no príncipe. Enquanto isso, Zenah apenas esperava seu marido parar de rir.

Ela tinha acabado de ler uma carta enviada por seu pai o rei Aegon onde ele exigia que ambos voltassem para Porto Real imediatamente depois do ataque imprudente que eles realizaram naquela ilha. E a reação de Anakin foi rir daquela forma.

Quando finalmente ele se recompôs Zenah estendeu a mão o deixando pegar a carta, Anakin leu o conteúdo outra vez mesmo depois de sua esposa ter acabado de ler tudo em voz alta, ao final ele amassou o pergaminho e o jogou longe.

— Ele realmente acreditou que uma carta assim iria nos fazer mudar de ideia? — O príncipe revirou os olhos.

— Era o esperado dele, vamos pensar logicamente no que acabamos de fazer, Anakin. — Zenah disse. — Invadimos uma ilha fora dos territórios que pertencem a nós, tomamos o controle e exterminamos praticamente uma família inteira.

— Sim, eu entendo que o conselho deve ter sido o verdadeiro responsável por essa carta, mas me responda com sinceridade, minha querida: estamos em posição de voltar?

Não, claro que eles não estavam. A princesa sabia que eles tinham ido longe demais para simplesmente voltar para casa agora e agir como se nada tivesse acontecido. Na verdade Zenah pensava que eles não poderiam voltar desde muito antes, desde a morte de seu irmão.

Só restava agora ficar e seguir em frente até achar um fim para toda aquela bagunça, mesmo que fosse somente criar uma nova, pior e talvez mais terrível.

— Se me permitem a intromissão… — Disse Obi-Wan, a essa altura ele já tinha entendido sozinho que não seria mandado embora, o casal Targaryen o deixava ficar e participar de conversas, principalmente o príncipe Anakin. — Mas se a ideia é ficar, como vão prosseguir a partir daqui? Lys está praticamente sobre o controle de vocês, mas o silêncio de Aegon me preocupa, ele com certeza não está feliz com o que aconteceu aqui.

— Mas até agora não fez nada, é assim que ele quer se vingar? Que homenzinho patético em? — Anakin riu com escárnio, mas logo tentou se controlar ao ver o olhar de Zenah sobre si. — Enfim, quis dizer que a atitude dele é bem esquisita se pensarmos no que ele já fez e vem fazendo…

Zenah e Obi-Wan concordaram, então a princesa se levantou e pegou a carta amassada do chão, ela passou os olhos pelo conteúdo outra vez antes de suspirar.

— Devemos ficar atentos, às vezes Aegon pode já estar agindo e nós nem sabemos, e aqui nós estamos praticamente sozinhos, se formos pegos de surpresa as consequências podem ser bem ruins… — Ela olhou para baixo. — E não acho que podemos contar com a ajuda de nosso pai.

Foi naquele instante que eles ouviram trombetas tocando, as mesmas que soaram quando eles chegaram na ilha, junto disso Caraxes e Dreamfyre rugiram lá fora, isso só podia significar uma coisa…

— Um dragão está chegando. — Anakin disse enquanto ficava de pé, ele correu até Zenah. — Vamos montar nossos dragões e voar o mais alto possível, se virmos Vhagar vamos atacá-la juntos.

— Está bem.

A princesa segurou as mãos dele e as apertou, enquanto isso Obi-Wan foi até uma janela próxima da sala de leitura onde eles estavam, pelos vidros quebrados ele conseguiu ver o mar e o céu azul lá fora e se espantou:

— Acho que o rei realmente quer que vocês voltem para casa…

Quando Anakin e Zenah saíram eles de fato viram um dragão voando no céu, mas não era Vhagar, e logo abaixo dele na água vinha uma frota de navios, a maioria deles ostentando o dragão de três cabeças, o símbolo dos Targaryen.

Por um momento de fato parecia que o rei tinha mandado todos aqueles barcos para dar um jeito de trazê-los de volta, mas quando Anakin e Zenah viram o Serpente do Mar à frente deles sabiam que aquelas pessoas não estavam ali para isso.

 

Zenah e Anakin correram até o porto de Lys quando o primeiro barco atracou e o dragão pousou, do Serpente do Mar desceu Daeron e das costas de Crepúsculo, Daemon. Os dois filhos de Viserys vieram em direção aos primos ali esperando:

— Anakin, Zenah. — Daeron disse olhando de um para o outro. — Viemos em paz.

— Dependendo das suas definições de paz eu irei discordar. — Anakin pôs a mão no cabo da espada. — O que querem aqui? Se vieram nos levar, dêem meia volta e vão embora. Zenah e eu não temos a menor intenção de deixar essa ilha.

— Ei, calma lá, primo. — Daemon ergueu as mãos para cima. — Quer ao menos nos escutar ou já entrou areia demais nos seus ouvidos?

Anakin bufou e por um segundo pensou em responder com algo extremamente grosseiro, mas Daeron já sabendo da inimizade dos dois interviu:

— Não estamos aqui por ordens do rei, viemos por conta própria para ajudar.

Zenah e Anakin se encararam como quem duvidava daquela afirmação, mas o príncipe relaxou um pouco.

— Ajudar você diz?

— Sim, ajudar. Soubemos do que vocês fizeram aqui e sabemos que se caso haja uma retaliação vocês vão precisar de muito mais do que dois dragões, então eu reuni toda a frota Velaryon e viemos para cá, meus pais só descobriram quando era tarde demais. — Daeron explicou enquanto gesticulava apontando para os barcos atrás deles. — Com isso ao menos vocês terão uma chance de vencer esse… homem.

Daeron pareceu incomodado apenas por ter que se referir ao irmão bastardo, mas ele rapidamente se recuperou e deu um passo à frente.

— Vocês vão aceitar ou devemos dar meia volta? Eu ainda acho que a primeira opção é a melhor.

E de fato era, Zenah e Anakin não eram idiotas e sabiam disso. Por isso que o casal aceitou a oferta dos primos juntando mais forças para essa guerra que vinha se formando.

Naquele mesmo dia, bandeiras com o símbolo Targaryen foram hasteadas em diversos pontos de Lys, dando oficialmente a ilha o status de parte do território de Westeros, e ninguém fez nenhum protesto contra isso. Zenah se perguntava qual seria a reação de seu pai quando a notícia se espalhasse, ela conseguia imaginar perfeitamente na verdade.

Obi-Wan estava observando uma daquelas bandeiras enquanto os primos conversavam na mesma sala reunidos ao redor de uma mesa, eles tentavam presumir quais seriam os próximos passos de Aegon o bastardo, quando Obi-Wan finalmente se voltou para os Targaryen ele viu Anakin na ponta da mesa de pé e apontando para um dos mapas de Lys:

— Vamos reforçar a proteção do porto e dessa área para evitar ataques surpresas.

Ele dizia aos demais, Obi-Wan se aproximou da mesa para ver o mapa também, Daeron e Daemon não se incomodaram com a presença daquele estranho pois pouco antes ele foi introduzido a eles oficialmente como um aliado, sendo esta a primeira vez que Obi-Wan ouvia oficialmente do casal real que ele era um deles.

O príncipe apontou para o porto outra vez e fez um gesto circulando a área antes de explicar que todos os barcos que chegassem deveriam ser revistados, para garantir que nenhum enviado do bastardo pudesse entrar na ilha e conseguir informações ou atacá-los de surpresa, foi então que Zenah, até então calada e pensativa comentou:

— Ainda acho estranho como ele ainda não fez nada. — Ela olhou do marido para os primos. — A essa altura ele com certeza sabe do que aconteceu mas ainda assim está escondido, o tio dele está morto e ele não vai mesmo retaliar?

— Eu tenho para mim que ele entende que foi “olho por olho” — Obi-Wan disse. — Ele provavelmente está furioso, sei que está, mas também entende que a morte do tio foi uma consequência direta de seus atos.

— Então ele está aceitando passivamente que viemos e matamos a família dele? Ele não me parece ser alguém com tanto senso de justiça assim, não, eu errei, ele tem um senso de justiça, mas um completamente distorcido e egoísta!

Anakin disse antes de se sentar e começar a bater as pontas dos dedos na mesa.

— Ele deve estar tramando alguma coisa, esperando o momento certo. — Foi Daeron quem falou. — Provavelmente ele deve ter se forçado a esperar e ver o que aconteceria a seguir, ou melhor dizendo, calcular o tamanho do ataque que ele sofreu e os envolvidos.

Zenah rapidamente captou o pensamento de Daeron:

— Acha que ele estava tentando descobrir se Lys foi atacada pela coroa ou não?

— Exatamente. O que ele sabia? Dois dragões atearam fogo na ilha, mas esses dragões estavam acompanhados de um exército? Estavam exibindo estandartes com um dragão de três cabeças? Não. Então eu acho que ele agora já tem a sua resposta.

Depois de um breve momento de silêncio, Anakin se pôs de pé outra vez e colocou os braços para trás antes de começar a caminhar.

— Ele vai se sentir mais poderoso se souber que nosso pai não deu ordens para esse ataque, vai achar que ele é um covarde! E o pior? Ele é!

Ele rapidamente parou de andar e seus olhos encontraram os de sua esposa, numa troca silenciosa como se um lê-se o pensamento do outro ele suspirou e se afastou em direção a janela.

— Vamos mostrar que ele não é tão poderoso quanto pensa…

Chapter 26: Na Noite Escura

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Tudo começou de repente, numa noite de lua cheia com poucas nuvens, a brisa do mar era suave, as bandeiras Targaryen tremulavam pacificamente como já faziam há alguns dias desde que tinham sido hasteadas.

Até que no meio da noite Caraxes ficou repentinamente inquieto, muito inquieto, os lysenos não sabiam lidar com dragões e tinham muito medo daquelas criaturas, e foi por isso que eles foram correndo acordar Anakin. Este quando chegou aonde seu dragão estava não demorou muito para perceber o que estava acontecendo, então ele correu de volta para o quarto e acordou Zenah às pressas, ela ainda estava tentando entender o que era tudo aquilo quando ele disse:

— Caraxes está sentindo Vhagar, ele está vindo!

Então a correria começou, o casal acordou os primos e Obi-Wan e todos foram se preparar para o ataque, os marinheiros trazidos por Daeron reuniram outros homens de Lys e criaram um pequeno exército, foi quando Dreamfyre e Crepúsculo também se agitaram, o que significava que o bastardo estava cada vez mais perto.

Obi-Wan tinha visto pela segunda vez aquelas criaturas percebendo a presença de um outro dragão e aquilo o deixava fascinado, ele que não tinha muita experiência com dragões de repente se pegou querendo saber tudo o que pudesse sobre.

Anakin percebeu esse fascínio quando surgiu em uma armadura e empunhando sua espada, ele iria montar em Caraxes e sobrevoar os arredores da ilha para tentar encontrar Vhagar ou alguma coisa suspeita. Foi quando ele encontrou Obi-Wan observando o grande dragão vermelho ainda inquieto.

— Por que ele foi o primeiro a perceber? — Obi-Wan perguntou curioso. — Os outros dois demoraram um pouco mais para ficar agitados assim…

— Tem um motivo específico: Vhagar. Há alguns anos atrás os dois lutaram, durante a Dança dos Dragões, foi uma das brigas mais violentas entre dois dragões e quase destruiu a vida de ambos, como a de seus montadores, meu avô Daemon e meu tio-avô Aemond. — Anakin parou e tocou o lado direito da cabeça de Caraxes como quem acariciava as suas escamas. — Depois disso Caraxes e Vhagar desenvolveram uma certa aversão a presença um do outro. Quando um está perto eles percebem com uma grande antecedência e ficam assim, querendo fugir.

O dragão bufou uma lufada de ar quente, a fumaça subiu pelo ar e desapareceu na escuridão, Obi-Wan meneou a cabeça lentamente, agora ele estava ainda mais intrigado e cheio de perguntas.

— Quando essa noite acabar me lembre de te fazer um interrogatório completo sobre dragões.

Anakin riu antes de subir na sela e segurar as rédeas para levantar voo.

— Claro, tentarei responder da melhor forma que puder.

E assim o príncipe estava pronto para levantar voo quando Zenah chegou empunhando seu arco e flechas nas costas.

— Anakin! — Ela parecia séria e muito decidida. — Eu vou com você.

E assim Zenah se virou e foi buscar Dreamfyre para voar também, Anakin não protestou porque sabia que não conseguiria fazê-la ficar, além de que ela sabia como se defender.

Obi-Wan continuou encarando Caraxes e seu bafo quente, por um impulso de curiosidade ele estendeu a mão tentando tocar a criatura, mas recuou receoso de que talvez ainda não fosse a hora.

— Tente, ele não vai te morder. — Anakin tinha um sorriso provocativo no rosto. — Bem, não posso garantir na verdade.

Foi então que Zenah e Dreamfyre apareceram já acima deles no céu, Anakin tratou logo de se apressar para seguir a esposa.

— Vou tomar conta de tudo por aqui. — Obi-Wan garantiu a ele.

Anakin assentiu, olhou para Obi-Wan uma última vez e depois fez seu dragão subir e seguir Dreamfyre no céu.

Enquanto lá embaixo a cidade se preparava para um possível ataque que ninguém sabia de onde viria no céu o casal Targaryen sondava a área ao redor de Lys. A luz do luar não parecia servir para clarear tão bem os horizontes da ilha, e não havia nenhum som diferente das ondas do mar e do vento frio.

Zenah puxou as rédeas de sua dragão e a fez voar em círculos maiores ao redor de Lys, foi então que ao rodear o lado norte ela viu algo se aproximando.

— Luzes!

Ela apontou para pequenos pontos luminosos no horizonte que cresciam cada vez mais, eram navios se aproximando, e estes não pertenciam a Westeros.

Anakin forçou os olhos e logo ele conseguiu avistar o que parecia ser um símbolo em uma das velas do navio, um dragão roxo em um fundo preto, ele estava em pé em duas patas cuspindo fogo e logo acima da cabeça dele havia uma coroa, a coroa de Aegon, o Conquistador.

Os olhos de Anakin se moveram acima dos navios e foi quando ele viu uma sombra escura crescendo, somente quando uma das nuvens que encobria a lua se afastou e a luz prateada caiu sobre aquela aparição eles viram não apenas navios de guerra se aproximando, mas Vhagar logo acima deles.

Um arrepio percorreu o corpo de Anakin, tudo aconteceu em um breve instante e no outro ele já estava sacando sua espada.

— Preparem os navios!

Ele gritou antes de fazer Caraxes descer o mais depressa possível para ditar ordens aos homens lá embaixo, Daeron assumiu o comando e coordenou a frota Targaryen-Velaryon a ir de encontro àqueles navios e impedi-los de chegar a Lys, Daemon montou nas costas de seu próprio dragão e também subiu aos céus.

Obi-Wan ficou na ilha, sua tarefa acabou sendo preparar os soldados que deveriam atacar caso a barreira falhasse e os navios chegassem perto demais, ele também iria comandar os arqueiros nas muralhas.

— Anakin! — Obi-Wan o chamou quando o viu passando bem próximo da muralha onde ele estava. — São navios de Myr! .

— Então aquele maldito estava reunindo forças para nos atacar! — O príncipe gritou em resposta, depois ele se juntou à esposa e ao primo. — Somos três contra um, mas cuidado, Vhagar é experiente.

— Mas o montador dela com certeza não. — Zenah disse. — Vamos ajudar os nossos barcos, podemos atear fogo na frota dele.

— Se conseguirmos passar por aquela velha primeiro. — Daemon estava segurando um escudo e naquele instante o fez com mais firmeza. — Mas eu cuido dela.

— Eu vou com você.

Ao ouvir Anakin dizer aquilo Daemon e o primo se encararam, parecia que pela primeira vez suas diferenças seriam deixadas de lado.

— Então eu cuido da frota.

Zenah não esperou outra sugestão, ela guiou Dreamfyre para que ela voasse à frente dos navios de Daeron e empunhou seu arco, colocando a primeira flecha envenenada na mira pronta para atirar quando chegasse a hora.

Só então Anakin percebeu que deveria tê-la dito para atacar Vhagar e usar suas flechas no bastardo, e por que ele não pensou nisso logo? Simples, ele não quis deixar Daemon atacar Vhagar sozinho e se vangloriar caso ele se saísse bem. Era um ato infantil claro, culpa de sua rixa com o primo que não iria desaparecer assim tão fácil, ainda mais em um momento como esse.

Os dois se olharam, naquele momento Vhagar estava perto o suficiente para ser distinguida, Anakin assentiu com a cabeça e Daemon o copiou, só depois disso eles avançaram em direção a ela.

Anakin foi pela esquerda e Daemon pela direita, foi a primeira vez que o príncipe via Vhagar desde aquele dia no Monte Dragão e a lembrança da caverna inundou sua mente. Ele segurou firme as rédeas de Caraxes que guinchou esganiçado, mais uma vez ele estava indo enfrentar Vhagar.

— Eu vou terminar o que meu avô começou… — O príncipe sussurrou e quando finalmente estava diante da criatura ele puxou todo o ar que poderia para seus pulmões e gritou. — Caraxes, dracarys!

O Wyrm de sangue cuspiu fogo o que deixou Vhagar furiosa e a fez rugir, por entre as chamas Anakin viu brevemente o homem sentado no dorso da dragão, Aegon, e ele sabia que o bastardo também estava o vendo.

Daemon fez Crepúsculo cuspir fogo também e depois os dois atraíram Vhagar para voar mais alto, mais longe do mar, dando espaço para Zenah começar a ajudar Daeron.

Quando a batalha na água começou ela usou Dreamfyre para queimar os navios inimigos e à medida que os barcos pegavam fogo a tripulação tentava se atirar no mar para escapar das chamas, era quando Zenah usava suas flechas e abatia um a um.

Daeron também estava fazendo um ótimo trabalho guiando e encorajando seus marujos a avançar e continuar lutando, estava sendo uma tarefa em conjunto fantástica:

— Daeron, você acha que consegue continuar a partir daqui?

Zenah perguntou depois de ter queimado quase metade da frota inimiga e deixar vários corpos boiando na água.

— Com certeza! Vá ajudá-los lá em cima, e boa sorte, prima!

— Para você também, primo!

Então ela deixou que ele e os demais se virassem a partir dali quando eles já estavam em vantagem e foi atrás de Vhagar e os outros.

Ela conseguia ver a briga entre os três dragões acima dela, os clarões das chamas, os rugidos altos como trovões, Vhagar estava em desvantagem bem como os navios restantes, mas ainda assim ela era Vhagar, dura na queda e resistente como uma rocha.

Zenah puxou uma de suas flechas da bolsa e se preparou, ao mesmo tempo ela fez Dreamfyre subir acima da outra dragão, lá do alto ela teve um vislumbre do montador nas costas dela.

— Vamos lá, Dreamfyre…

Então a dragão azul levou sua montadora para mais perto e quando elas estavam logo acima do bastardo Zenah pulou.

Ela não usou da oportunidade para atirar com o seu arco, na verdade ela caiu logo atrás do homem e o puxou pelo ombro, foi quando eles ficaram frente a frente e Zenah viu o rosto de Aegon pela primeira vez.

Ele era muito parecido com Viserys, mais do que Daeron e Daemon jamais seriam. Tinha o mesmo nariz proeminente, o olhar sério e os longos cabelos prateados caindo sobre seus ombros. Seus olhos, no entanto, eram de um azul cristalino.

Aegon não disse nada tomado pelo choque de ter sido pego de surpresa, e foi quando Zenah percebeu que deveria agir, ela que ainda segurava uma flecha a cravou no olho esquerdo dele.

Anakin foi pego de surpresa quando viu sua esposa chegar e mais ainda quando ela atacou. Quando ele a viu enfiar a flecha no olho de Aegon ele arregalou os olhos.

— Zenah, cuidado!

A princesa se desequilibrou e despencou lá do alto em queda livre, Anakin não pensou duas vezes antes de fazer Caraxes descer em direção a ela, já Daemon ficou para trás junto dos gritos de dor do bastardo e da própria Vhagar.

— Zenaaaah!

Anakin gritou, no último segundo Dreamfyre surgiu e mais uma vez impediu que sua montadora caísse para a morte certa, foi um alívio, mas Anakin jamais se acostumaria com esse truque idiota delas.

Os dois dragões estavam agora voando lado a lado, rente ao mar, antes de tudo Anakin deu uma olhada ao redor, a frota do bastardo já era, e Vhagar estava recuando, mas Daemon e Crepúsculo estavam a seguindo.

— Sete infernos!

Ele ouviu Zenah dizer e ao se voltar para ela Anakin a viu segurando ainda a mesma flecha que foi usada para ferir o bastardo, mas a princesa parecia com raiva daquele objeto.

— O que foi? — Ele perguntou.

Zenah mostrou a flecha a ele, nas costas dela ainda havia algumas poucas flechas, duas delas tinham uma fita vermelha, as envenenadas, outras duas não.

Inclusive aquela em sua mão.

A raiva a fazia querer chorar, como ela não percebeu isso antes de atacar o bastardo? Por um momento ela olhou para Vhagar e parecia que iria voar de novo até lá para tentar um novo ataque, mas Anakin não iria permitir isso.

— Não. — Ele disse. — Você já o machucou o suficiente e Daemon está lá.

Zenah ainda ficou relutante, ela queria mesmo voltar, mas no final não o fez.

 

Somente quando eles voltaram para Lys foi que se deram conta de que tinham conseguido proteger seu novo território, quando os barcos voltaram, todos comemorando a vitória surpreendente. Obi-Wan, que ainda estava no alto das muralhas, desceu e veio correndo cumprimentar Anakin e Zenah.

— Da próxima vez tentem não me deixar de fora da parte divertida, ficar como espectador não é algo que eu goste.

Ele deu um tapinha nos ombros do príncipe que mesmo exausto após aquela longa noite ainda sorriu com a piada dele.

— Claro, quem sabe na próxima você não venha nas costas de Caraxes comigo?

Obi-Wan olhou para o dragão que praticamente se jogou no chão tão exausto quanto seu cavaleiro e balançou a cabeça.

— Talvez eu encontre outra maneira de ajudar.

— Ou nem seja preciso, Zenah conseguiu ferir Aegon.

Quando Anakin apontou para a esposa 3 contou seu feito todos voltaram sua atenção para ela.

— Conseguiu? — Obi-Wan perguntou, ele estava segurando a respiração enquanto aguardava pela resposta.

— Sim, mas não o matei, acho que só o deixei cego de um olho…

— E desnorteado, vai ser uma ótima ajuda para Daemon acabar com ele de uma vez!

Foi só então que todos perceberam que Crepúsculo e Daemon não tinham voltado, todos olharam para cima quase ao mesmo tempo, mas não havia nenhum sinal dele.

— Daemon não voltou ainda!

Daeron correu para o topo de um posto de vigilância, ele foi o primeiro de muitos que passaram o resto da madrugada de vigia, à espera da volta do príncipe com boas novas. O dia clareou e ainda não havia nem sinal dele.

O sol já estava no meio do céu brilhando quando novamente Anakin foi chamado, dessa vez não porque seu dragão estava agitado, mas por algo que foi encontrado em uma praia.

Anakin, Zenah, Obi-Wan e Daeron foram ver do que se tratava, e foi Anakin quem viu primeiro um pedaço de madeira quebrado que tinha sido trazido pelas ondas, mas que não se tratava de um pedaço de navio. Quando ele puxou o objeto para longe da areia e o viu melhor o príncipe engasgou.

Era um pedaço de escudo, um escudo Targaryen idêntico ao de Daemon.

O escudo foi entregue a Daeron, que depois de um longo silêncio encarando o objeto se afastou, foi possível ver seus ombros tremendo quando ele começou a chorar.

— Meus pêsames…

Obi-Wan disse antes de deixar Anakin e Zenah a sós por um momento, o príncipe segurou a mão da esposa e finalmente olhou para ela. Zenah tinha começado a chorar também.

— Ele vai pagar, Zenah. — E então ele a puxou para um abraço. — Eu te prometo que vai.

Chapter 27: A Loucura Targaryen

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Já era a quinta tentativa de Viserys de tentar fazer as pazes com Daenaera, ele já tinha tentando usar declarações, uma carta de desculpas e presentes, tudo o que estava ao alcance de suas mãos e ainda assim nada funcionou.

Só de olhar para o marido Daenaera já começava a chorar, e depois de mais uma tentativa não foi diferente. Viserys pediu desculpas por seus atos no meio de um jantar com o irmão e a rainha, achando que pedir perdão na frente do rei poderia finalmente apaziguar as coisas entre eles, não funcionou.

Depois que a princesa saiu correndo e chorando, Viserys suspirou, a comida em seu prato, uma deliciosa carne de javali que ele amava, foi completamente esquecida.

— O que eu devo fazer? Ir pedir perdão ao Alto Septão? Aos Sete?!

Viserys perguntou em voz alta, mas não esperava uma resposta de fato, mas ainda assim ela veio através de Jaehaera:

— Quem sabe? Se eu fosse o Alto Septão te faria passar pela Caminhada da Vergonha.

Aegon pousou seu garfo na mesa e bufou, foi o único som ouvido após aquele comentário ácido.

— Isso seria ridículo, Jaehaera.

— Eu chamo de necessário, querido. Olhe ao nosso redor, a cada dia parece que essa mesa se torna grande demais para nós! — Jaehaera gesticulou ao redor, para as cadeiras vazias que antes tinham seus devidos ocupantes. — E você sabe exatamente porquê isso está acontecendo!

Foi a vez de Viserys rebater as acusações da cunhada, sua frustração de antes só serviu para aumentar sua raiva:

— Por mim essa história nunca teria vindo à tona, eu jamais faria algo para prejudicar a minha família!

— Você se sente chateado porque descobrimos que você tem um filho bastardo e não porque você abandonou um filho?!

Viserys se levantou bruscamente e bateu na mesa antes de gritar:

— Basta! Não aponte o dedo para mim, Jaehaera, você quer julgar as minhas atitudes? Nada disso estaria acontecendo agora se não fosse pelo seu pai e a corja dos Verdes que quase arruinaram a minha família! Se não fosse pelos Hightower tudo seria completamente diferente hoje!

As acusações desferidas contra Jaehaera fizeram Aegon finalmente reagir, ele franziu o cenho e estava prestes a falar dando fim aquela discussão sem sentido quando a rainha respondeu:

— Está dizendo que a culpa de você ter abandonado sua família é do meu pai, Viserys? Até onde eu saiba, nem ele e nem ninguém te obrigou a voltar sem seu filho e esposa!

— Mas se não fosse por eles eu não teria parado em Lys em primeiro lugar e meus irmãos não teriam morrido! Jacaerys, Visenya, Joffrey… — Ele se inclinou para frente e completou a lista de nomes. — E o Lucerys morto pelo seu tio.

— Não se esqueça que ele era seu tio também!

— Para mim ninguém que venha dos Hightower tem o meu sangue.

— Basta, Viserys!

Aegon vociferou, talvez aquela tenha sido a primeira vez desde sempre que tanto Viserys quanto Jaehaera o viram com raiva, imediatamente eles pararam de atacar um ao outro e se voltaram para o rei que parecia cansado, como se o peso de 100 anos estivesse em suas costas. Ele se levantou calmamente e respirou fundo, depois fez um gesto com a mão para que um serviçal se aproximasse.

— O jantar está encerrado.

E sem dizer mais nada Aegon deixou a sala, e logo Jaehaera e Viserys fizeram o mesmo.

Depois daquele jantar, se é que aquela briga de família podia ser chamada de jantar, Jaehaera foi atrás do marido, este estava em seu solar, local que ele vinha passando cada vez mais tempo desde que Anakin e Zenah fugiram. Em uma mesa havia uma série de cartas, e todas provavelmente estavam perguntando a mesma coisa, as notícias do que estava acontecendo em Lys estavam se espalhando pelos Sete Reinos de forma que Aegon não conseguia mais controlar. Ele preferiria que aquela situação toda fosse resolvida em segredo, mas a essa altura já tinha se conformado que seria impossível.

— Aegon. — Jaehaera o chamou. — Quero falar com você.

— Agora não, Jaehaera. — Ele estava diante das cartas, sua mão direita massageando as têmporas. — Por favor…

— Nós temos que fazer alguma coisa. — Ela decidiu ignorar o pedido dele. — Precisamos trazê-los de volta, todos eles, antes que seja tarde demais.

— Já é tarde demais.

Aegon suspirou derrotado antes de se sentar, até ficar em pé parecia cansativo demais para ele agora, Jaehaera então se aproximou.

— Talvez não seja. Talvez ainda possamos trazê-los de volta e acabar com essa loucura que vêm se abatendo sobre a nossa família outra vez.

— Outra vez você diz? Para mim essa loucura sempre esteve aqui, ela nunca foi embora. Desde a Dança, desde Maegor, desde a Conquista talvez, Jaehaera, nós sempre fomos loucos. Somos loucos por poder, ganância, sangue, luxúria, escolha uma opção e a resposta ainda será a mesma! Todos os Targaryen são loucos, alguns mais do que outros.

Depois de um longo silêncio Jaehaera se sentou e voltou a falar:

— Aposto que foi ela quem o convenceu a ir.

Aegon, que tinha abaixado a cabeça e fechado os olhos ao sentir uma forte dor de cabeça começar de repente se retesou e ergueu o olhar:

— O que disse?

— Que eu aposto que foi a Zenah quem convenceu Anakin a ir para Lys, ela quem deve ter o incentivado a fazer todas essas loucuras! Ele jamais teria tido tal coragem se não fosse pelas ideias dela!

Aegon encarou a esposa como se ela estivesse falando uma outra língua, não, como se ela fosse um ser de outro mundo que por um acaso caiu ali na frente dele. A ideia dela era tão sem cabimento que ele quase começou a chorar.

— Pare de odiar a sua própria filha. — Ele disse baixinho mas em um tom autoritário, o tom de um rei. — Pare de tratar a Zenah como se ela fosse uma aberração de uma vez por todas, você não é melhor do que ela.

E mais uma vez Jaehaera se assustou com o marido que nunca antes tinha falado com ela naquele tom.

— Eu não a odeio.

— Então o que? Você queria que a outra estivesse viva no lugar dela? Queria que Minah estivesse aqui? Ela não está, Jaehaera! Eu sei que dói, especialmente para você, mas você precisa aceitar que nós não temos controle da vida, se Zenah viveu e Minah não é porque tinha que ser assim!

A rainha não respondeu, ela apenas desviou o olhar para longe.

— O que aconteceu com você e com seu irmão Jaehaerys foi horrível, mas não pode se refletir na nossa filha. Ninguém te forçou a escolher quem viveria e quem morreria como fizeram com a sua mãe…

— Não toque nesse assunto, por favor…

— Eu farei isso quando você perceber o erro que está cometendo com Zenah!

— Ela era fraca! Ninguém acreditou que ela ficaria viva por mais do que uma noite! — Jaehaera gritou com ele. — Minah era saudável, era sadia e forte! Ninguém nunca conseguiu explicar o que aconteceu naquele dia!

Quando ela parou de gritar imediatamente fechou os olhos com força e impediu que as memórias voltassem a tona, Aegon por fim disse:

— Não era Jaehaerys, Jaehaera e Maelor que estavam naquele quarto, minha querida. Eram Zenah e Minah.

A voz dele voltou a ser calma como sempre, ele até mesmo tocou as mãos de sua esposa e as segurou:

— Essa é a sua loucura, a loucura do luto, da culpa. Jaehaera, você era só uma criança.

Por fim a rainha se levantou e afastou as mãos de Aegon das suas:

— Com licença, vou para os meus aposentos…

E então ela deixou a sala, uma vez a sós Aegon suspirou e só então se deu ao trabalho de ler as cartas em sua escrivaninha, todas eram perguntas de lordes nervosos acerca dos acontecimentos em Lys, até o Alto Septão enviou uma carta.

No entanto, Aegon não respondeu nenhuma.

Chapter 28: Dois Líderes

Chapter Text

Anakin chamou o primo Daeron para conversar com ele e Obi-Wan após dois dias de buscas fracassados, não havia nenhum sinal de Daemon ou de seu dragão em lugar algum.

— Quando Lucerys foi morto por Vhagar alguns dias depois os restos do dragão dele foram encontrados… — Disse um Daeron ainda muito abalado, ele tinha olheiras profundas. — Se nada foi encontrado até agora, talvez signifique que ele pode estar vivo.

— Sim, é uma possibilidade, vossa alteza. — Obi-Wan respondeu cuidadosamente, ele não queria dar falsas esperanças ao príncipe. — Ou talvez…

Anakin levantou a mão direita o impedindo de terminar a frase, era melhor que por agora eles não teorizassem as possíveis terríveis maneiras que Daemon e seu dragão poderiam ter sido mortos. Daeron ainda precisava de tempo para processar o acontecimento.

— Vamos continuar as buscas, Daeron. Mas eu quero te dizer também que se por algum acaso você quiser ir embora não ficaremos chateados com você, nesse momento ninguém mais tem tantas razões para partir quanto você.

Mas o príncipe negou, ele balançou a cabeça veementemente e até pareceu ganhar um pouco mais de vida outra vez.

— Eu vou ficar, essa guerra já era pessoal antes, agora se tornou ainda mais.

Então Anakin meneou a cabeça e olhou de canto para Obi-Wan, este também fez um aceno e cruzou os braços atrás das costas, foi então que Anakin prosseguiu:

— Bem, não posso negar que essa notícia me alivia e muito, Daeron. Sua força no comando das galés é impressionante, precisamos de alguém como você por aqui. — Ele sorriu de canto. — Não dá para usar fogo contra água.

Daeron pareceu rir também e depois daquela breve conversa ele deixou o recinto para voltar às buscas pelo irmão, uma vez a sós com Obi-Wan, Anakin respirou fundo e percorreu o olhar pela sala.

A reforma da casa dos Rogare estava em andamento, ainda não havia muita coisa pronta, mas ao menos a sala onde eles tinham reuniões, essa onde eles estavam agora, tinha uma aparência mais digna da realeza. As paredes ainda estavam chamuscadas, os móveis foram remendados às pressas, mas ainda assim servia.

No silêncio que se seguiu Obi-Wan percebeu o príncipe distante, ele parecia estar perdido em muitos pensamentos ao mesmo tempo.

— Eu imagino como essa situação está te afetando.

Ele disse depois de algum tempo, mas a reação de Anakin foi um suspiro.

— Eu já te contei que odiava o Daemon? — Anakin se voltou para Obi-Wan. — Nós nunca nos demos bem, na verdade éramos inimigos mortais, tivemos um duelo durante as festas do meu casamento onde no final quase tentamos matar um ao outro.

Obi-Wan ficou surpreso com aquela descoberta, bem, ele ainda conhecia muito pouco dos Targaryen para entender sobre seus laços de família.

— Eu não fazia ideia…

— Está tudo bem, mas essa é a verdade, nos odiávamos… — Mas ele logo acrescentou. — Porém isso não significa que eu goste de saber que ele morreu numa guerra que é minha.

Aquele era o motivo da frustração do príncipe, ele sabia que se uma guerra começasse muitas pessoas morreriam, mas isso não o isentaria de sentir culpa, ainda mais quando a morte era de alguém tão perto dele. Daemon era um idiota, um cretino egoísta, mas ainda assim era seu primo.

E agora ele provavelmente estava morto no estômago de uma dragão velha.

— Não se culpe Anakin, não foi você quem o levou para a morte.

Quando Obi-Wan disse aquilo, Anakin o encarou e levantou uma sobrancelha.

— A não? Obi-Wan, eu poderia tê-lo mandado ajudar o Daeron, mas não, eu não fiz isso! Eu sou o príncipe herdeiro aqui, a pessoa quem deveria dar as ordens, mas ainda assim eu falhei! — Ele riu com escárnio. — Que belo rei eu vou ser!

— Não acha que você está sendo duro demais consigo mesmo? Nós vencemos a batalha, e Aegon saiu ferido, mas por causa de um único erro você está agindo como se tudo tivesse sido perdido. Eu não quero dizer que você deve simplesmente ignorar a morte de seu primo, mas que você não pode se deixar derrotar assim.

Anakin ouviu tudo e no final ele sorriu, agora com mais leveza.

— Isso é algo que a Zenah me diria se ela não estivesse se sentindo culpada por ter errado a flecha. Ah… ela não se perdoa por isso.

E foi quando Obi-Wan tocou o ombro do príncipe como um amigo faria.

— Zenah sempre tenta te apoiar ao que pude perceber, e sempre sabe o que dizer quando você está mal, talvez agora seja o momento de fazer o mesmo por ela.

Isso era algo que já tinha se passado pela mente de Anakin e que ele planejava fazer ainda naquela noite, quando o príncipe explicou isso a Obi-Wan ele começou a rir.

— Qual é a graça?

— Você acaba de me dizer que se acha um líder ruim e veja só, está justamente agindo como um bom líder o dia todo, ouviu Daeron e deu a ele a opção de ir embora e agora já está se planejando para ajudar a sua esposa. Tem certeza de que você não é bom?

Anakin olhou para baixo e após alguns instantes disse:

— Duas pessoas liderando, duas pessoas em busca da mesma coisa, só o final de tudo que vai dizer quem de fato é o melhor.

 

Horas mais tarde, ao anoitecer Anakin se encontrou com Zenah no quarto, ela estava sentada organizando as novas flechas que ela preparou. Foi quando o príncipe se aproximou dela e tocou seu ombro, Zenah deu um pulinho de susto e levantou a cabeça, imediatamente ela sorriu.

— É você… — Ela deixou as flechas de lado e se levantou. — Como foi com Daeron?

— Ele vai ficar.

Zenah compartilhava do mesmo alívio que Anakin por saber que Daeron ficaria, mas ao pensar nele ela automaticamente pensou em Daemon e nas flechas.

Anakin rapidamente percebeu para onde os pensamentos dela a estavam levando, então ele tocou os cabelos dela e os acariciou com a mão direita.

— Zeninha… — Ele mordeu os lábios enquanto pensava no que dizer. — Você conseguiu ferir o bastardo, isso é o que importa de verdade, graças a você agora ele está debilitado.

— É eu sei, ele está cego de um olho, igual ao Aemond.

Só então o príncipe se deu conta dessa ironia do destino, ele sentiu até arrepios.

— Os deuses têm um senso de humor muito cruel às vezes.

No silêncio que se seguiu ele a beijou suavemente e continuou acariciando os cabelos dela.

— Não se culpe, por favor, já basta como eu estou me sentindo…

— Se eu tivesse pego a flecha correta tudo seria diferente agora, Anakin.

— Não, Zenah. — Ele a beijou outra vez. — Nada de “se eu…”, “se eu tivesse…”, isso não vai mudar o que aconteceu, só vai te machucar de novo, você não teve culpa pelo Baelon e não tem culpa por Daemon também.

Ele aproximou seu rosto do dela até suas testas estarem juntas, e aí fechou os olhos e deixou suas mãos subirem lentamente pelos braços de Zenah, por seu pescoço até chegarem a suas bochechas.

— Eu preciso de você inteira aqui, porque sem você eu não vou conseguir.

— Mas é claro que vai.

— Não, sem você eu não teria metade da força para lutar e acabar com o Aegon, você é o meu motivo de continuar, é o fogo, é a rocha, é… tudo.

Os dois se beijaram de novo com mais fervor e paixão, Zenah jogou seus braços ao redor do pescoço dele e se aproximou ainda mais, quase querendo se fundir a ele.

— Anakin… eu te amo.

Ao invés de responder com palavras, Anakin respondeu com mais beijos, ele a agarrou com as mãos e a trouxe consigo para a cama.

Eles caíram juntos no colchão em uma bagunça de braços, pernas e tecido. Anakin afastou os cabelos de Zenah do rosto dela para continuar a beijá-la, a adorá-la, e se pudesse ele faria isso para sempre.

Os dois começaram a tirar as roupas um do outro quase de maneira desesperada antes de Anakin puxá-la para o seu colo, suas mãos subiram pelas costas dela devagar, seus dedos traçando suavemente a coluna espinhal, depois os ombros, os braços, cada centímetro de pele.

E aí ele a segurou pela cintura e Zenah rapidamente entendeu o que ele queria agora, afinal, era o mesmo que ela…

Ela moveu os quadris e lentamente sentou sobre ele, a medida que Anakin a preenchia foi como se eles estivessem se conectando em um nível que ninguém mais poderia compreender além deles.

— Anakin…

Ela gemeu e aos poucos começou a se mover, Anakin apenas deitou a cabeça nos travesseiros e sorriu deixando que ela ditasse o ritmo agora.

— Você é perfeita… perfeita…

 

Em algum lugar bem longe daquele quarto em Lys, depois do mar e da noite escura…

Um grito irrompeu de um outro quarto, um homem estava sentado em uma cama afofada, com travesseiros e lençóis folhados a ouro combinando com o quarto igualmente luxuoso, outro homem cuidava do enfermo, um curandeiro.

— O senhor infelizmente perdeu completamente o seu olho, milorde. — O curandeiro parecia até ter medo de dar aquela notícia. — Eu sinto muito…

Ele continuou a tentar tratar o buraco onde antes ficava o olho esquerdo de Aegon, se a ferida infeccionar ele não tinha certeza de que poderia fazer muito pelo seu Senhor.

Aegon resmungou e gritou outra vez, a dor era excruciante e o fazia desejar a pena dos deuses, mas quando foi que eles tiveram pena dele?

— Já acabou? — Ele resmungou quando o curandeiro finalmente se afastou e passou a olhar para o rosto dele como se o analisasse. — Eu sei que estou horrível, agora se acabou saia!

Não foi preciso pedir duas vezes, o curandeiro deixou o quarto mais depressa do que um rato fugindo, finalmente a sós Aegon estendeu o braço e puxou um pequeno espelho deixado ali na cama antes. Ele finalmente teve coragem para ver como seu rosto ficou.

No lugar do seu olho havia um buraco escuro e fundo, era nojento e assustador, ao mesmo tempo que Aegon queria quebrar o espelho de tanto ódio ele queria gritar. Mas não adiantaria de nada perder a cabeça agora.

Ele afastou o espelho e se lembrou do rosto da mulher que fez aquilo, Zenah Targaryen, esposa de seu empecilho no caminho para o trono, a mulher que o pegou desprevenido e o acertou em cheio. Mas ao invés de raiva Aegon sentiu algo totalmente diferente.

Desejo.

Quando ele estava pesquisando sobre os filhos de Aegon III ele soube que Zenah era considerada uma moça muito bela, ele até ouviu dizer que a princesa era admirada por sua gentileza, educação e inteligência. E também que ela era uma mestra quando o assunto era arqueria, esse ponto por enquanto era o único que ele podia concordar pois viu em primeira mão.

Além é claro, do fato de que ele realmente a achou bonita.

Seus devaneios foram interrompidos quando dois homens chegaram, o primeiro a entrar foi o homem que ele colocou no comando de Myr, um filho bastardo de seu tio Lysaro Rogare que era especialmente burro, mas obedecia tudo que Aegon dizia, ele entendia bem de venenos e foi assim que matou todos os antigos magísteres de Myr e abriu caminho para Aegon dominar a cidade sem o derramamento de uma gota de sangue, e sem alardes que chamariam a atenção de Westeros. E claro, ele também ajudou no plano de envenenar o príncipe Baelon.

O outro homem que entrou na sala era novo no grupo, ainda havia uma certa desconfiança a respeito dele, mas Aegon sabia reconhecer um aliado quando precisava.

— Moredo, Daemon. — Aegon olhou de um para o outro. — O que querem?

— Viemos saber como você estava. — Moredo disse, sua voz era sibilante e escorregadia como um óleo. — Se sente melhor?

— O que você acha?

Ele encarou Moredo e este tremeu evitando encarar o buraco onde deveria ter um olho.

— O que podemos fazer por você? Deseja alguma coisa?

— Não preciso de nada, Moredo, só quero que você reorganize as tropas, recrute novos homens e entre em contato com Pentos, a nossa derrota foi humilhante.

Moredo concordou e saiu do quarto, foi então que Daemon e Aegon ficaram a sós.

— Eu te devo uma Daemon, se você não tivesse me ajudado eu provavelmente estaria morto agora.

Ele sorriu se lembrando do que tinha acontecido naquela noite, depois de ter seu olho perfurado Aegon levou Vhagar de volta à terra firme mais próxima enquanto era seguido por Daemon e seu dragão, assim que ele pousou e tentou desmontar ele quase tombou. Ali Aegon soube que iria morrer, ele estava perdendo muito sangue e logo não teria forças para continuar guiando Vhagar, e ele não era tão bom assim com alto valiriano para fazer a dragão obedecê-lo o tempo todo.

Foi quando Daemon chegou, ali Aegon teve certeza de que era seu fim, mas ao invés de dar cabo dele aquele homem que deveria ser seu inimigo o ajudou. E agora ele estava vivo.

Daemon apenas balançou a cabeça, para ele aquele gesto era uma troca de favores muito simples, e o próprio Aegon estava vendo isso agora.

— Daemon, quero que faça algo por mim.

— Dependendo do que for posso tentar.

— Não é nada perigoso, muito pelo contrário, você não terá de fazer esforço nenhum. — Um sorriso se abriu no rosto dele lentamente. — Só quero que você conte-me mais sobre Zenah…

Chapter 29: O Chamado

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Naquela mesma noite ainda Anakin estava dormindo um sono profundo depois de uma longa noite de amor, a brisa do mar vindo de fora era fresca, e, curiosamente, cheirava melhor do que a brisa do mar vinda da Baía da Água Negra em Porto Real. A sensação que Anakin tinha é de que ele poderia se acostumar rápido com a vida naquela ilha, o clima era fantástico, a cidade muito mais bem organizada e bonita…

E aí no meio de seu sono ele sentiu uma presença estranha e enquanto ainda estava acordando viu a sombra de um vulto passando por suas pálpebras ainda fechadas, quando o príncipe finalmente abriu os olhos se preparando para o pior a realidade se mostrou ainda mais assustadora do que ele imaginava.

Anakin percebeu que não estava mais em sua cama, nem em seu quarto, e Zenah havia desaparecido. Mas o pior era que ele nem sequer estava mais em Lys.

Onde quer que fosse que o príncipe estivesse era dia e o sol brilhava no meio do céu, a claridade foi tão forte que Anakin precisou levar a mão ao rosto para tentar encobrir os raios de sol e assim conseguir identificar aquele lugar. Seus olhos se estreitaram e ele olhou ao redor logo se dando conta de que estava sentado num chão feito de paralelepípedos negros, idênticos aqueles feitos de pedra negra no castelo de Pedra do Dragão. Não estava ventando mas o ar tinha também o mesmo cheiro que ele sentia na cidadela de sua família, enxofre, e um cheiro único que Anakin sempre pensou ser exalado pelas próprias pedras pois era algo que ele nunca sentiu em nenhum outro lugar de Westeros.

As coincidências não pararam por aí, no entanto, ao se levantar Anakin percebeu que o caminho na verdade se tratava de uma ponte, lá embaixo havia água, um rio que seguia sinuosamente a diante até dar de encontro ao mar. Quando ele teve uma visão panorâmica daquele lugar encontrou grandes construções com figuras esculpidas, figuras de dragões que pareciam estar o encarando. O príncipe deu um passo atrás, a sensação que ele teve foi de que Pedra do Dragão havia crescido e se tornado um continente!

O silêncio naquele lugar era tamanho que Anakin se assustou, nem a água lá embaixo emitia som enquanto corria para o mar. Nada. Ele começou a respirar ofegante como se quisesse ouvir sua própria respiração e dar fim ao vazio e por um momento funcionou, mas não adiantou de nada para acalmá-lo.

Seus pés começaram a caminhar e o príncipe saiu andando sem rumo em busca de alguém ou alguma coisa, felizmente ele não estava nu, o que também não fazia sentido já que em nenhum momento Anakin se lembrava de ter posto as roupas de volta antes de dormir. Ele logo se deu conta de que a sua espada não estava ali também, ninguém que ele conhecesse estava. Anakin começou a andar mais rápido.

— Oi! Tem alguém aí? — Ele gritou e sua voz ecoou por todo aquele lugar vazio, não houve resposta. — Alguém?!

Quando Anakin chegou ao final da ponte ele se viu dentro de uma torre, a sala era redonda, sem mobília e possuía janelas do teto ao chão por todos os lados. Quando o príncipe estava no centro da sala tudo escureceu como o anoitecer mais rápido já visto, mas justamente por ter sido tão depressa que não parecia natural, tomado pela curiosidade o príncipe se aproximou de uma das janelas e finalmente entendeu o motivo daquela escuridão toda.

Um dragão enorme estava voando no céu lá fora e sua sombra encobria tudo abaixo dele, a fera era tão grande que Anakin ficou paralisado, não apenas de choque, mas também por fascínio.

Nunca antes ele tinha visto um animal tão grande assim, e o único dragão de tamanho impressionante que ele já ouvira falar foi Balerion, que já tinha morrido há muito tempo atrás antes mesmo dele nascer. Essa criatura de agora certamente tinha o tamanho de Balerion se não fosse ainda maior, além das cores serem diferentes também, esse aqui tinha escamas púrpura como obsidiana, como os olhos dos Targaryen.

Anakin se viu hipnotizado por ele, enquanto a criatura parecia dançar no céu a cada movimento gracioso e ao mesmo tempo preciso seus olhos o seguiam de um lado para o outro. O príncipe estava sem palavras, aquele animal era a epítome dos dragões, o sonho de qualquer Targaryen como ele.

Mas de repente enquanto Anakin ainda observava o dragão que antes estava girando em círculos no céu desceu de uma vez só como se fosse desabar sobre o lugar e destruir tudo. O príncipe estava prestes a correr para se proteger quando viu o animal subir de novo até se tornar um ponto pequeno no céu azul, um azul parecido com seus próprios olhos.

Anakin mal teve tempo de respirar aliviado quando o dragão começou a descer de novo e dessa vez cuspindo fogo, as chamas eram lilases contrastando com o roxo escuro de suas escamas, e não só elas como o próprio dragão estavam vindo na direção do homem ali parado ainda em estado de transe. E foi quando de algum lugar distante mas ao mesmo tempo perto uma voz sussurrou:

— Corre!

E assim Anakin fez, ele saiu correndo pela mesma ponte de antes e a atravessou chegando até uma outra torre igual a primeira, mal ele entrou e ouviu o estrondo atrás de si, além da sensação de calor vinda do fogo que começou a percorrer a ponte como se quisesse chegar até ele e o consumir.

O dragão rugiu e seu som foi tão alto que as paredes tremeram, pedregulhos caíram do alto e Anakin pensou que ficaria surdo, ele correu outra vez quando viu uma abertura no chão e uma escadaria que descia para algum lugar, mesmo sem saber para onde ele não pensou duas vezes antes de correr o mais depressa que podia.

Ele ainda ouvia os rugidos e sentia o calor do fogo enquanto descia os degraus, a escada era uma grande espiral que parecia não ter fim nem levar a lugar nenhum e quanto mais fundo ele descia mais escuro e quente ficava como se ao invés de fugir do fogo ele estivesse indo diretamente para ele.

A voz voltou a sussurrar quando Anakin finalmente conseguiu ver o fim da escadaria e uma nova abertura que levava para fora, de onde a luz do sol surgia como uma salvação divina pronta para tirá-lo daquele inferno roxo.

— Esconda-se!

Anakin saiu e foi pego pelo clarão do sol outra vez, quando ele olhou para trás toda torre estava sendo consumida pelo fogo, bem como a ponte, e a outra torre? Tinha desmoronado.

O dragão estava voando de novo em círculos o caçando, quando ele viu Anakin lá embaixo curvou as asas e desceu pronto para atacar, e o príncipe que mal se recuperou da última corrida teve que começar uma outra, ele se esgueirou por entre paredes altas e estátuas para escapar enquanto a fera ainda o seguia rugindo e queimando tudo.

— Esconda-se, Anakin!

Quando a voz falou de novo e disse seu nome Anakin parou de correr, isso porque ele reconheceu a voz, era Zenah, ou parecia ser ela, mas o tom ainda era diferente de alguma maneira, mas era ela.

— Zenah?!

Ele olhou para trás e tudo o que viu foi a boca do dragão prestes a engoli-lo, mas antes que isso pudesse acontecer Anakin caiu. O chão sob seus pés simplesmente se abriu e desapareceu bem como a cidade ao redor com suas estátuas e torres.

Anakin estava caindo sem controle e ao seu redor não havia nada, só o céu, o sol brilhante e o dragão, seu coração parecia que iria explodir de tão rápido que estava batendo e sua mente estava em um turbilhão de pensamentos, foi Zenah quem falou com ele? O que estava acontecendo? Seria tudo aquilo um sonho?!

Foi quando ele viu o dragão de novo chegando cada vez mais perto, ele abriu a boca e novamente cuspiu uma bola de fogo que engoliu Anakin, ele cobriu o rosto para se proteger mesmo sabendo que era em vão e apenas esperou pelo pior.

Quando ele abriu os olhos de novo e viu as chamas ao seu redor, ele não sentiu o calor, a dor, nada, ele não sentia nada. Por um momento Anakin se perguntou se era assim que as pessoas se sentem ao morrer, e se era isso o que estava acontecendo com ele, mesmo ali naquela situação seus pensamentos se voltaram para Zenah, será que ela estava bem?

As chamas desapareceram sem causar nenhum dano a Anakin, ele saiu ileso mas continuou caindo, foi quando finalmente seus olhos viram o mundo logo abaixo dele. A terra estava tão distante que era impossível distinguir qualquer cidade, mas aquele formato era inconfundível para ele e para qualquer Targaryen que se preze.

Anakin arregalou os olhos e segurou o ar quando finalmente as peças se encaixaram, e em um sussurro quase sem som o nome do lugar veio à sua boca:

— Valíria…

Seu corpo caiu, mas não foi para a morte certa, quando ele estava prestes a se chocar contra o chão Anakin voltou para a sua cama no quarto em Lys. Ele acordou do sonho e se levantou bruscamente enquanto puxava o ar para seus pulmões, foi um milagre ele não ter gritado, mas da mesma forma ele acordou Zenah. Que se deparou com o marido suando, tremendo e olhando ao redor como se estivesse procurando alguma coisa.

— Anakin? — Ela imediatamente se sentou ao lado dele e tocou seu braço sentindo como a pele dele estava quente. — O que foi? O que houve?

Demorou um pouco até Anakin se dar conta de que estava de volta a Lys, em segurança e com Zenah bem ali ao seu lado, quando isso finalmente aconteceu ele a abraçou sem dizer uma palavra.

Nos dias que se seguiram Anakin ficou muito mais introspectivo, Zenah e Obi-Wan tentaram a todo custo fazê-lo falar o que tinha acontecido mas ele se recusava veementemente, e ao cair da noite ele se abraçava tão forte ao corpo de Zenah que era como se estivesse com medo. Ela o abraçava de volta é claro, e adormecia extremamente preocupada com ele.

Numa noite ela tentou perguntar de novo o que tinha acontecido para o deixar tão perturbado, e outra vez Anakin não quis responder.

— Eu vou te contar tudo Zenah, mas primeiro preciso entender o que foi que eu vi.

Ele disse à esposa que suspirou, não era essa a resposta que ela queria.

— Promete?

Anakin balançou a cabeça e a abraçou com força de novo.

— Prometo.

E assim ele fechou os olhos, dormir tinha se tornado difícil também devido a seu medo de voltar a aquele lugar apesar de que parte dele queria isso só para entender o que tinha acontecido, pois ele sabia que aquele sonho não foi apenas um pesadelo estranho, não, foi algo a mais.

E naquela noite parecia que as respostas viriam.

Quando ele adormeceu, Anakin acordou outra vez naquela ponte que não estava mais queimada e então se levantou calmamente, agora que sabia que estava em Valíria parte de seu medo tinha desaparecido. Mas se o dragão voltasse, bem, a história seria outra e toda aquela coragem desapareceria tão rápido quanto surgiu.

Ele desceu a mesma escadaria, passou pela mesma saída mas dessa vez andando tranquilamente, sempre a espera do momento em que o dragão iria aparecer pois ele sabia que a criatura viria, era tão óbvio para Anakin que ele só tentou se preparar para o encontro quando ele acontecesse.

— Cadê você agora? — Ele gritou para o nada. — Vamos, apareça! Não quer mais me caçar? O que foi? Desistiu?!

Ele não sabia se estava realmente gritando para o dragão ou algo além, mas a resposta veio, não em forma de uma fera furiosa, mas através daquela voz de novo:

— Você precisa vir…

Anakin se virou na direção de onde o som vinha, mas não viu nada além de palacetes e estátuas sem vida.

— Para onde eu devo ir? — Ele perguntou.

— Casa.

O som da voz veio de outra direção, ele se virou outra vez e novamente não viu nada.

— Não vou voltar para Westeros agora.

Depois de um momento de silêncio onde Anakin pensou que a conversa tinha acabado a voz falou de novo:

— Westeros não é nossa casa.

— Claro que é Zenah, esse lugar onde estamos agora desapareceu a muito tempo!

Então Anakin se virou e dessa vez ele viu uma pessoa, uma mulher jovem usando um vestido vermelho rubi e uma tiara de prata que tinha a forma de um dragão circulando a cabeça dela. Ela era idêntica a Zenah.

Quando o príncipe deu um passo mais perto, a figura se assustou e se encolheu atrás de uma parede nas sombras, mas continuou olhando para ele fixamente, pelos deuses, até o olhar era o mesmo!

— Zenah… O que você… — Ele deu outro passo em direção a ela. — Vem.

Sua mão se estendeu esperando que ela a segurasse, mas a figura de Zenah continuou onde estava completamente imóvel.

— Por que acha que eu sou a Zenah? — A mulher perguntou. — Você sabe que eu não sou ela.

Anakin estreitou os olhos, ela era idêntica a Zenah, falava como ela e tinha o mesmo olhar, os mesmos trejeitos, mas o que aquele sonhos malditos estavam fazendo com ele?!

— Quem é você e por que está usando a aparência da minha mulher?!

Seu tom era ríspido e raivoso, mas não assustou a figura, ela na verdade riu, e até o som da risada dela era o de Zenah.

— Você não me reconhece, irmão?

Foi então que a mulher caminhou adiante até que estava a poucos passos de distância do príncipe, quando ele deu uma olhada melhor nela começou a perceber que apesar de idêntica aquela garota tinha algumas diferenças, poucas mas tinha, e aí ele engasgou e pulou para trás.

Uma onda de choque subiu por seu peito e fechou sua garganta de um jeito que quase o deixou sem respirar, seus dedos tremeram e lágrimas começaram a rolar por seu rosto quando Anakin finalmente se deu conta de quem era aquela mulher, e ele só sentiu medo.

— Minah???

Ela sorriu ao ouvir seu nome e abriu seus braços, dois dragões filhotes de cor azul idênticos estavam enrolados como cobras tanto no braço esquerdo quanto no direito. As criaturinhas grunhiam e olhavam para o príncipe com curiosidade.

— Venha para casa, Anakin.

— A Zenah precisa saber disso!

— Não! — Minah gritou e os dois dragõezinhos se retesaram. — Ela não pode vir!

Anakin enxugou as lágrimas e cobriu a boca, como era possível que ele estivesse vendo alguém que morreu antes mesmo de se tornar uma adulta? O que quer que aqueles sonhos queriam com ele o fez sentir tanta raiva daquela crueldade que ele queria gritar e ao mesmo tempo continuar chorando.

— Ela é sua irmã gêmea!

— Eu sei disso melhor do que você. — Minah deu as costas a ele e saiu caminhando. — Minha doce irmã…

Anakin tentou impedi-la mas Minah desapareceu e logo em seguida ele acordou, a primeira coisa que o príncipe viu foi sua esposa dormindo ao seu lado numa paz que agora ele invejava, ele tocou o rosto dela com cuidado e acariciou suas bochechas enquanto chorava baixinho.