Chapter Text
Shanks caminhava em silêncio pela rua de terra da Vila Foosha, as botas pesadas marcando o ritmo lento que sua tripulação acompanhava. Diferente de outros dias, não havia risadas espalhafatosas, músicas improvisadas nem discussões barulhentas entre eles. O ar parecia denso, quase pesado demais, e cada um carregava no semblante a mesma sombra de preocupação.
A ausência de Uta já deixava todos abalados, mas as palavras de Luffy na noite anterior ainda ecoavam em suas cabeças como uma ferida aberta:
“Todos vocês são péssimos.”
“Estou farto de vocês.”
Shanks apertava os punhos dentro dos bolsos do casaco, sem conseguir tirar a lembrança do rosto zangado do garoto. Ele sempre soube que tinham criado laços com Luffy mais fortes do que deviam, mas não podia evitar. Nenhum deles podia. O moleque tinha se infiltrado nos corações daqueles piratas de uma forma que ninguém previu. E agora, vê-lo tão magoado… doía mais do que gostariam de admitir.
Mais à frente, virando a esquina estreita que levava à praça, eles avistaram Makino. Ela carregava um cesto de frutas nas mãos, mas seu olhar estava perdido, ansioso, como se procurasse alguém a cada passo.
Shanks endireitou a postura e, mesmo com um sorriso pequeno e contido, chamou:
“Makino! Bom dia.”
Ela se virou de imediato. O alívio estampado em seu rosto foi visível.
“Capitão! Pessoal! Que bom que encontrei vocês.”
Lucky Roo ajeitou o chapéu na cabeça, percebendo a tensão na voz dela.
“O que houve, Makino?”
“Vocês… algum de vocês viu o Luffy?” perguntou ela, a preocupação evidente.
Shanks arqueou uma sobrancelha.
“O âncora ainda não apareceu?”
Makino suspirou e balançou a cabeça.
“Não. Estou procurando ele a manhã toda. Já passei por todos os lugares que ele costuma ficar, mas não encontrei.”
O capitão esfregou a nuca, o olhar se perdendo por um instante.
“Ele deve estar se escondendo. Ainda deve estar chateado conosco.”
Makino mordeu o lábio inferior, insegura.
“Talvez… mas conheço o Luffy. Ele não é de se esconder por tanto tempo.”
Yassop, que vinha mais atrás, se adiantou e coçou o queixo.
“Será que ele não voltou pro seu bar a essa hora?”
Makino apertou mais o cesto nos braços.
“Não sei. Ainda não olhei lá. Saí cedo e comecei a procurar direto pela vila.”
Beckman, com o cigarro preso entre os lábios, soltou uma nuvem de fumaça que se dissipou lentamente.
“Então vamos fazer o seguinte: vamos até o bar. Se o garoto estiver lá, ótimo. Se não, nos separamos e vasculhamos cada canto da ilha.”
Shanks assentiu.
“Concordo. O Luffy não sairia da vila sem deixar rastro.”
Lucky Roo resmungou, meio aflito:
“Tomara que não tenha ido aprontar sozinho. Da última vez quase se meteu em encrenca com aqueles idiotas da vila vizinha.”
“Ele é teimoso demais pra não se enfiar em problema” completou Yassop, tentando soar leve, mas a preocupação escapava na voz.
Makino olhou para eles, séria.
“Vocês… ele ainda está bravo com o que aconteceu, não é?”
O silêncio caiu sobre o grupo por alguns segundos. Shanks respirou fundo.
“Está.” A palavra soou pesada. “Mas isso é algo que vamos resolver. Só precisamos encontrá-lo primeiro.”
Beckman ajeitou o rifle no ombro e começou a andar.
“Então vamos. Cada minuto perdido é um minuto a mais de incerteza.”
Shanks lançou um último olhar para Makino, oferecendo-lhe um sorriso tranquilizador, ainda que discreto.
“Vamos achar o Luffy. Eu prometo.”
Makino assentiu, confiante nas palavras dele, e os acompanhou. O grupo seguiu rumo ao Party’s Bar, em silêncio, cada um perdido em seus pensamentos, mas unidos na mesma certeza: eles não descansariam enquanto não encontrassem o garoto.
O grupo finalmente alcançou a entrada do Party’s Bar. O silêncio pesado que os acompanhava desde cedo foi quebrado assim que empurraram a porta: um estrondo ecoou lá de dentro, seguido pelo som de algo caindo no chão e garrafas rolando.
Shanks ergueu a voz, firme mas sem agressividade:
“Quem está aí?”
O barulho cessou de imediato. Nenhuma resposta veio. Apenas o ranger suave da madeira, como se o lugar tivesse parado para ouvir também.
Makino deu um passo à frente, a expressão aflita.
“Luffy? É você?”
Nada.
Ela e Shanks caminharam juntos até o balcão, atentos. Ao se inclinarem, a cena se revelou: Luffy estava agachado atrás do balcão, enchendo às pressas uma sacola com frutas, pães e pedaços de carne defumada. O garoto ergueu os olhos, surpreso, mas não parou.
Shanks tentou forçar um sorriso leve.
“Aí está você, âncora. Makino tem te procurado a manhã toda, sabia?”
Makino franziu o cenho ao notar a sacola.
“Luffy, se você está com fome é só pedir que eu preparo algo pra você, não precisa—”
Ela não terminou. O garoto agarrou a sacola com força e saiu correndo, passando pelas pernas deles num instante, tão ágil que nem os mais atentos conseguiram segurá-lo.
“Luffy!” Makino gritou.
“Luffy!” Shanks ecoou, já correndo atrás dele.
Toda a tripulação se lançou para fora, seguindo os passos apressados do garoto. As perninhas de Luffy mal tocavam o chão, mas ele corria com uma determinação quase desesperada.
Ele olhou para trás e viu todos se aproximando. O coração acelerou, e ele aumentou ainda mais o ritmo.
Ao chegar no cais, seus olhos vasculharam o local até encontrarem um pequeno bote amarrado a uma estaca de madeira. Sem hesitar, jogou a sacola para dentro e subiu logo em seguida.
Suas mãos pequenas lutaram para desamarrar a corda grossa, mas o nó não cedia. Sem pensar duas vezes, Luffy levou o nó à boca, tentando desfazê-lo com os dentes. Foi quando sentiu mãos fortes segurando-o pela cintura.
“Peguei você”, disse a voz calma mas firme de Shanks.
“Não! Me solta!” Luffy gritou, se debatendo como um peixe fora d’água. “Me solta!”
O capitão o ergueu no ar, mantendo-o seguro.
“E o que você está tentando fazer, Luffy? Roubando comida da Makino e tentando roubar um bote?”
Luffy se debatia, o rosto vermelho de esforço.
“Me solta! Eu vou atrás da Uta!”
As palavras bateram neles como um trovão. Todos pararam. Até Beckman tirou o cigarro da boca.
“Quê?” Yassop murmurou, atônito.
“Se você não quer me dizer onde ela está, então tá!” Luffy berrou. “Eu vou encontrar ela eu mesmo!”
Shanks fechou a expressão, os olhos se estreitando.
“Luffy…”
Beckman interveio, com um tom grave mas sem dureza.
“Já dissemos, garoto. Uta ficou para trás para seguir o sonho de ser cantora.”
“É mentira!” Luffy gritou, os olhos marejados. “Ela amava vocês! Amava você, Shanks! Ela jamais te deixaria! Ela prometeu que a gente se veria de novo!”
Shanks aproximou o garoto do próprio rosto, sério.
“E como você planejava encontrar ela, hein? Ia simplesmente boiar nesse bote por aí, à deriva, sem saber pra onde ir? Você poderia acabar morto!”
“E o que te importa?!” Luffy explodiu, o grito atravessando todos como uma lâmina. “Daqui a algum tempo vocês vão embora de vez e me deixar que nem deixaram ela!”
O soco veio repentino, pequeno mas cheio de fúria. Luffy acertou o rosto de Shanks. O capitão deu um passo para trás, mais abalado pelas palavras do que pela força do golpe.
Luffy pulou de volta para o bote, determinado.
“Eu não me importo se eu me machucar ou morrer! Ficar sozinho é pior do que isso! E a Uta está sozinha agora, então eu vou encontrar ela e nós vamos ficar juntos!”
De algum jeito, ele conseguiu soltar o nó da corda. Com um empurrão desajeitado, o bote começou a se afastar — mas não foi longe. Beckman, rápido como um raio, agarrou o menino pelos braços e o puxou de volta.
“Não!” Luffy gritou, se debatendo outra vez.
Foi então que a voz de Makino cortou o ar.
“Luffy, agora já chega!”
O garoto congelou. Virou o rosto na direção dela, ainda ofegante.
Makino se aproximou, firme, mas seus olhos estavam marejados.
“Eu entendo que você esteja chateado. Uta foi sua primeira e única amiga, e agora ela se foi. O capitão e os outros logo vão embora, e eu sei que você não quer que isso aconteça. Eu entendo. Você não quer ficar sozinho.”
Luffy desviou o olhar, mordendo os lábios com força.
“Mas você não pode se colocar em perigo assim”, continuou Makino. “Pense em como ficaríamos se algo acontecesse com você.”
O garoto baixou a cabeça, os punhos cerrados.
“E também, Luffy…” Makino respirou fundo, a voz trêmula mas convicta. “Independente de como você se sinta, isso não te dá o direito de ser cruel com eles. Você acha que eles não estão péssimos com a falta da Uta? Que eles não se importam? Ela era companheira deles, era filha do Shanks. Eles estão desolados.”
O silêncio caiu como um peso.
Luffy levantou o olhar, primeiro para Shanks, depois de volta para o mar. As lágrimas, que ele tentava conter, finalmente transbordaram. Seu corpo inteiro tremia.
“Uta… prometeu…” ele soluçou, a voz falhando.
E então chorou alto, sem segurar mais nada. Entre soluços desesperados, estendeu os braços para Makino. Beckman, ainda segurando-o, o entregou cuidadosamente a ela.
Makino o acolheu contra o peito, e Luffy enterrou o rosto em sua camisa, agarrando-a com força, como se fosse sua tabua de salvação.
Os Piratas do Ruivo ficaram em silêncio. Nenhum deles ousou dizer palavra. Apenas observaram, pesados de dor, os gritos e soluços do garoto que ecoavam pelo cais, carregando não só a perda da amiga, mas também o medo cruel de ser abandonado mais uma vez.
De volta ao Party’s Bar, o silêncio reinava. O ambiente, que normalmente era cheio de risadas, conversas e música, parecia engolido por um peso invisível. A tripulação espalhava-se pelas mesas, alguns apenas encarando os copos vazios, outros mexendo nas próprias mãos, inquietos.
Makino desceu devagar pela porta que dava para a escada do andar de cima. Seus passos eram silenciosos, mas todos levantaram os olhos para ela. Ao vê-la, compreenderam a resposta antes mesmo que dissesse qualquer palavra.
Ela foi até o balcão sem pressa, ajeitou algumas garrafas e serviu uma bebida a Shanks. Colocou o copo diante dele com cuidado, como se até o vidro pudesse quebrar caso fosse tratado com brusquidão.
Beckman, recostado na cadeira próxima, quebrou o silêncio com sua voz grave:
“Como ele está?”
Makino suspirou fundo, apoiando uma das mãos no balcão.
“Apagado.”
Beckman balançou a cabeça lentamente.
“Não é pra menos. Ele chorou até desmaiar.”
Shanks não disse nada. Apenas levou o copo à boca, tomando um gole curto. O chapéu de palha cobria parte de seu rosto, escondendo as linhas tensas de sua expressão.
Makino mordeu o lábio, olhando para cada um deles.
“Por favor, eu peço que perdoem ele. O Luffy não queria dizer todas aquelas coisas. Ele estava apenas… chateado. Ele adora vocês.”
O silêncio se prolongou por alguns instantes, até Beckman responder com calma.
“Está tudo bem, Makino. Nós entendemos.”
Ela soltou o ar lentamente, como se estivesse carregando parte do peso do menino em seus ombros.
Foi então que Shanks quebrou seu silêncio.
“Makino.”
Ela se virou para ele.
“Sim?”
Shanks levantou um pouco o rosto, seus olhos ainda escondidos pela aba do chapéu.
“O Luffy, ele… onde está a família dele?”
Makino ficou em silêncio. O olhar dela vacilou, e todos os presentes prenderam a respiração, esperando.
“... Não sei”, disse por fim, em voz baixa.
Os olhos da tripulação se voltaram para ela, confusos.
Makino continuou, hesitante:
“Pelo que foi me dito, o pai do Luffy deixou ele com o avô. E foi o avô que o trouxe até aqui. Nunca ouvi nada sobre a mãe dele.”
Hongo franziu a testa, curioso.
“E onde está esse avô agora?”
Makino desviou o olhar, mexendo nervosamente nas garrafas atrás do balcão.
“Ele… nem sempre está por perto. O avô do Luffy é um fuzileiro naval, está sempre fora trabalhando. Às vezes aparece, fica por um tempo e… ‘treina’ o Luffy. Depois vai embora de novo.”
Yassop inclinou-se para frente, intrigado.
“Treino? Que tipo de treino?”
Makino suspirou, baixando o olhar para as próprias mãos.
“Ele joga o Luffy na floresta. Faz o menino lutar com animais selvagens… Uma vez ele amarrou vários balões no Luffy e o fez voar.”
O choque foi imediato. Lucky Roo arregalou os olhos, quase deixando cair o osso que roía distraidamente.
“Você tá brincando, né?” disse ele, incrédulo.
“Não”, respondeu Makino com firmeza, mesmo desconfortável. “Infelizmente não.”
Os piratas se entreolharam em silêncio. Alguns tinham raiva estampada nos rostos, outros apenas incredulidade.
Shanks, com a mão ainda no copo, apertou-o com mais força. O líquido balançou, mas ele manteve o gesto contido. Apenas uma palavra escapou, grave e carregada de sentimentos que ele não deixava transparecer.
“Entendo.”
Ninguém respondeu. O peso daquela revelação caiu sobre todos, misturado ao eco do choro de Luffy que ainda parecia pairar pelo ar.
Makino quebrou o silêncio, a voz embargada.
“Ele… ele só queria não se sentir sozinho. Por isso se apegou tanto à Uta. Por isso se apega tanto a vocês.”
Shanks fechou os olhos por um instante, respirando fundo. A tripulação do Ruivo, tão acostumada a perigos, batalhas e mares turbulentos, agora se via impotente diante da dor de um único garoto.
Era tarde da noite. A vila já estava silenciosa, apenas o som distante do mar e o vento balançando suavemente as janelas de madeira quebrava a quietude.
No quarto de Makino, Luffy finalmente abriu os olhos depois de dormir a tarde toda. Ele piscou algumas vezes, ainda sonolento, e olhou ao redor confuso. Reconheceu o lugar pelo cheiro suave de madeira e pelas flores que Makino sempre deixava num vaso no canto.
“O quarto da Makino…” murmurou, sua voz rouca pelo choro anterior.
Ele ficou alguns segundos deitado, tentando processar onde estava, até que seu olhar foi atraído pela janela. O luar entrava em feixes prateados, iluminando parte do quarto.
Com esforço, Luffy saiu da cama. Seus pés descalços tocaram o chão frio. Ele notou um banquinho próximo, provavelmente deixado ali por Makino alcançar a prateleira mais alta. Sem pensar muito, arrastou o banquinho até a janela, subiu nele e apoiou os braços na beira da madeira.
Seu olhar se voltou para o horizonte. As estrelas refletiam no mar tranquilo, e, ao longe, no porto, ele avistou a imponente silhueta do Red Force. O coração dele bateu mais rápido, mas um suspiro de alívio escapou de seus lábios.
“Ainda estão aqui…” disse baixinho.
Ficou encarando o navio por alguns minutos. As lembranças do dia mais cedo voltaram com força: as palavras que gritou, o soco em Shanks, a fuga desesperada. Seu estômago se revirou de culpa, e ele apertou a beira da janela com força.
“Eu… falei coisas horríveis…” sussurrou para si mesmo, o peso do arrependimento começando a crescer dentro de si.
Foi então que ouviu o rangido suave da porta do quarto se abrindo.
Luffy levou um susto, desequilibrou-se e caiu do banquinho de costas, soltando um pequeno gemido. Rapidamente se sentou, arregalando os olhos para a porta.
“Sh-Shanks?!”
Na entrada, o ruivo apoiava-se no batente, sorrindo de leve, como se já esperasse encontrá-lo ali.
“Ah, você está acordado. Que bom.”
Ele entrou no quarto com passos tranquilos. Luffy instintivamente se encolheu um pouco, desviando o olhar para o chão, como se não soubesse como encarar o capitão.
O silêncio tomou conta do quarto. O som distante das ondas batendo no cais parecia mais alto do que realmente era.
Finalmente, Luffy abriu a boca, hesitante:
“Shanks, eu—”
Mas foi interrompido pela voz calma e séria do ruivo.
“Luffy.”
O garoto ergueu os olhos de imediato.
Shanks o encarava fixamente, os olhos escuros e profundos como o mar noturno. Sua expressão era diferente da habitual. Não havia o sorriso zombeteiro, nem a leveza costumeira. Apenas seriedade.
“Eu vou te fazer uma pergunta importante. E você só pode dar uma resposta.”
Luffy engoliu em seco, confuso e um pouco nervoso.
“U-uma pergunta…?”
Shanks deu um passo mais perto.
“Você quer vir conosco?”
O silêncio foi absoluto. Os olhos de Luffy se arregalaram. Ele encarava Shanks sem conseguir acreditar no que tinha acabado de ouvir.
“O-o quê?” gaguejou, a mente a mil.
Shanks não desviou o olhar, firme.
“Qual é a sua resposta, Luffy?”
O coração do garoto disparou. O que Shanks estava dizendo? Por que agora? Depois de tudo o que tinha acontecido… depois de ter gritado com eles, depois de ter socado o próprio capitão… Por que Shanks estava oferecendo isso?
“Eu… eu não entendo…” balbuciou. “Você não tá bravo comigo? Eu disse coisas horríveis, eu—”
Shanks suspirou, mas seu tom continuou inabalável.
“Não é isso que estou perguntando, Luffy. Eu só quero saber a sua resposta.”
Luffy o encarava, tremendo, os olhos marejados.
“Você… você não me odeia?”
Shanks se aproximou mais, abaixando-se para ficar na altura do menino. Seu olhar se suavizou um pouco.
“Eu nunca poderia odiar você.”
As lágrimas que Luffy tentava segurar começaram a escorrer. Ele apertou as mãos contra o peito, como se tentasse segurar o coração que parecia querer explodir.
“Então… então… eu posso mesmo?”
Shanks manteve o olhar sério, mas com um calor escondido na voz.
“É então, Luffy? Qual a sua resposta?”
O garoto não conseguiu mais se conter. Em um impulso, correu até o ruivo e se atirou em seu pescoço, abraçando-o com toda a força que tinha.
“Eu quero! Eu quero ir com vocês! Por favor, me leva!”
Shanks o abraçou de volta, apertando-o contra si. O sorriso finalmente voltou a seus lábios, agora verdadeiro.
“Vou considerar isso um sim.”
Luffy chorava contra o ombro dele, mas dessa vez não era um choro de dor. Era um choro de alívio, de esperança.
E, naquela noite silenciosa da Vila Foosha, Shanks compreendeu de uma vez por todas: aquele garoto já era, em todos os sentidos, um dos seus.
O porto estava silencioso, iluminado apenas pelo reflexo da lua no mar. O vento carregava o cheiro salgado das ondas, misturado ao aroma da madeira úmida do cais.
Shanks caminhava com passos firmes, carregando Luffy nos braços. O garoto dormia profundamente, a respiração calma, o rosto tranquilo, como se todo o peso do dia tivesse desaparecido. Talvez fosse apenas o sono, talvez fosse o leve empurrão de Haki que o capitão usara para garantir que ele não ficasse acordado a noite inteira.
"Vai me agradecer depois, âncora…" murmurou Shanks em voz baixa, um meio sorriso surgindo em seus lábios. "E também fica mais fácil te carregar sem você pular feito um endiabrado."
Subiu pela rampa que levava ao convés do Red Force, o som de suas botas ecoando no silêncio da noite. Assim que seus pés tocaram a madeira do navio, uma voz conhecida ecoou na escuridão.
"Aí está você!"
De trás do mastro surgiu Beckman, a expressão carregada de preocupação e irritação. Ele caminhou até Shanks com passos longos e rápidos.
"Como é que você desaparece do nada e—"
A frase morreu em sua boca quando seus olhos se fixaram na cena diante dele. Luffy, adormecido, estava nos braços do capitão.
"…Luffy?" Beckman piscou, incrédulo. "O que? Por que você—"
Antes que pudesse terminar, Shanks falou num tom baixo, mas carregado de decisão:
"Vamos partir."
Ele passou direto pelo imediato, andando rumo ao interior do navio.
Beckman girou o corpo, acompanhando-o com os olhos, e sua voz subiu em protesto.
"O quê?! Shanks, a sua regra! Você mesmo disse que crianças não poderiam— nós não podemos levá-lo!"
Shanks parou no meio do caminho. Ainda de costas para Beckman, o silêncio que se seguiu foi pesado. Então, devagar, ele se virou.
Os olhos escuros do capitão estavam sérios, sem espaço para piadas ou hesitação. A intensidade daquele olhar fez até mesmo Beckman, que raramente se deixava abalar, hesitar por um instante.
"Eu disse: vamos partir."
A voz saiu firme, com um peso que não admitia discussão.
Beckman franziu o cenho, cruzando os braços. Queria argumentar, queria lembrar ao capitão de todos os riscos, das consequências, das próprias regras que ele mesmo havia imposto para proteger o garoto e a tripulação. Mas, diante daquele olhar, sabia que era inútil.
Um longo suspiro escapou de seus lábios. A derrota estampada em seus ombros, mas também o reconhecimento de que Shanks não mudaria de ideia.
"… Sim, capitão."
Shanks assentiu levemente, então voltou a andar, sumindo no corredor que levava a seus aposentos com Luffy ainda nos braços.
Beckman ficou parado por alguns segundos, observando a figura do capitão desaparecer. Coçou a nuca, bufando.
"Você realmente não facilita a minha vida, Shanks…"
Ele ergueu os olhos para o céu estrelado, um sorriso cansado surgindo em meio à frustração. Sabia que, a partir daquela noite, nada mais seria igual a bordo do Red Force.
Enquanto isso, Shanks entrou em seu quarto. Depositou Luffy com cuidado sobre a cama, ajeitou-lhe a cabeça no travesseiro e cobriu-o com um cobertor simples.
O garoto suspirou no sono, murmurando algo ininteligível. O ruivo ficou um instante em silêncio, observando-o. Seus olhos suavizaram-se, e ele deixou escapar um comentário quase para si mesmo:
"Você não tem ideia do quanto sua vida vai mudar a partir de agora, pirralho."
Virando-se, Shanks caminhou até a janela de sua cabine. Do lado de fora, o mar aguardava. O Red Force deixaria a Vila Foosha antes do amanhecer, e, agora, Luffy embarcava não como visitante…, mas como parte da tripulação.
