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Ele não conseguia respirar.
Os seus pulmões estavam queimando, queimando tudo em seu caminho e devorando qualquer pensamento lógico que ele podia ter, tudo queimava, seus músculos, sua carne, seu sangue e ele não conseguia sentir nada além disso.
No começo ele sabia que tinha tentado contar os segundos, tinha chegado a algum número, mas logo eles pararam de ter significado e se perderam junto com ele na imensidão azul e dolorida, mesmo que tentasse, como se aquilo fosse o salvar de afundar cada vez mais fundo, ele não conseguia retomar a contagem, ele começava de novo e de novo, mas eles rapidamente se perdiam em sua mente.
Toda vez que seu corpo tentava puxar ar desesperadamente, se recusando a aceitar a escuridão que lentamente se arrastava em sua visão uma nova explosão de dor se espalhava em sua garganta que ardia como fogo, como se estivesse engolindo brasas quentes, pela garganta e pelo nariz, tudo se acumulava em seu peito, a água que um dia fora refrescante agora o consumia por dentro e por fora, tudo ardia e tudo que ele sentia era a dor, uma dor como nunca tinha sentido antes, diferente do que ele conhecia, nada se comparava aquilo, por mais que ele tentasse mas tudo em sua mente era a dor.
Dor
Dor
Dor
Dor
Embora fosse uma dor que o acompanhava desde a infância, ele não tinha certeza quando começou ou como, mas ele sabia que sempre estivera ali, mas essa era diferente, essa o consumia, levava tudo que ele já tinha sentido e já foi, deixava apenas o desespero de tentar se salvar mas não conseguir, ele não sentia seus braços nem pernas, seu corpo não parecia pertencer a si, mesmo assim ele era teimoso como ele, tentando puxar ar para seus pulmões, se mover para longe daquilo, longe da dor, mas sempre se queimando novamente com mais água, mais azul.
Ele não conseguia ouvir nada, nada além dos próximos batimentos do seu coração desesperado e seus soluços desesperados e afogados.
Tudo que ele conseguir ver, nos poucos segundos que seus olhos ficavam abertos, lutando contra o instinto desesperador de se esconder daquilo que o matava lentamente, tudo que o cercava o azul, o escuro e profundo azul, sem fim e sem início, aquele que o fazia se perder em si mesmo, o azul que o consumia e pressionava dentro de seus órgãos, de seus músculos mas também do lado de fora, em sua pele, seus membros, o azul que o sufocava quase tanto quanto a água ao seu redor, um azul tão escuro que quase se transformava em preto, em escuridão, o azul que ele gira levar tantas pessoas antes de si, o que fazia ele querer gritar, correr, respirar, mas não tinha ar suficiente pra isso, não tinha o suficiente dele para isso.
Tudo que ele conseguia ver era o azul cada vez mais escuro, cada vez mais profundo.
Azul
Azul
Azul
Azul
Azul
Mas aí ele viu o vermelho.
Aguiar viu uma mancha de vermelho em meio ao azul, ele estendeu a mão em direção a ela, mesmo sem entender, como um pecador alcançando sua salvação, ele segurou o vermelho, surpreso quando sentiu algo apertando de volta, algo firme, ele sentiu dor então, mas era diferente, a dor em sua mão, o vermelho quente que começou a escorrer dela fez sua mente voltar, mesmo que pouco.
Ele piscou algumas vezes, distantemente sentido algo molhado escorrendo em seu rosto, a névoa que ele nem havia percebido que ocupava sua mente se dissipando lentamente. Aguiar ainda ouvia seu coração desesperado em seu peito que ainda queimava, ouvia sua respiração acelerada e caótica, mas ele também ouviu um murmúrio, uma voz aguda mas abafada que perfurava a barreira que sua mente havia criado.
Seus olhos estavam focados no vermelho bem na frente, próximo ao chão, uma de suas mãos unida a outra, ambas manchadas de vermelho, vermelho líquido e quente que ainda escorria e pingava lentamente no chão, seus dedos estremeceram involuntariamente e a dor queimou em sua mão e se espalhou por todo seu braço, Aguiar inspirou profundamente por reflexo, seus pulmões que imploravam por ar agradeceram e a névoa se dissipou ainda mais.
“Aguiar? Ei! Ei, ei, ei! Aguiar, aí porra, não ousa sumir de novo- Ei! Aguiar!”
As mãos ficaram mais focadas, ele viu a mão tatuada com textos também coberta de sangue que segurava a sua firmemente, a ardência mesmo que leve, ainda presente ali, Aguiar tentou puxar novamente mais ar para seus pulmões, mas ele sentiu tudo queimar de novo, sua garganta, seus pulmões, seus músculos, sua visão ficou embaçada e tudo estava ficando azul
Azul
Azul-
“Aguiar! Aguiar, olha pra mim. Olha pra mim porra!”
A mão que estava segurando a sua instantes antes agora segurava seu rosto mesmo escorregadia com sangue ela era firme e segurava com força, o obrigando a olhar para cima, encarar um olho esbranquiçado e um vermelho, as sobrancelhas franzidas em sua testa, a franja caindo na frente do vermelho, a boca curvada em uma expressão irritada, concentrada, talvez preocupada.
“Isso, continua me olhando, sou eu, sou eu, olha pra mim.”
Aguiar obedeceu, ele sentiu sua própria respiração ficar mais lenta, seus olhos nunca deixando os do outro, ele viu sua própria mão trêmula e manchada de sangue no rosto na sua frente antes de sentir, empurrando os fios de cabelo para trás e deixando sua visão livre para o vermelho onde um dia estava seu olho. Seus dedos roçaram a pele e o sangue fresco que ainda escorria da sua própria mão manchou a pele de Henri.
Os olhos do outro se arregalaram levemente pelo ato, a mão de Henri soltou o rosto do mais alto e segurou novamente a mão machucada dele, a afastando levemente do próprio rosto e a apertando de leve, parecia que ele sabia que a dor ajudava.
“Aguiar. Ei, ei, eu tô aqui, mas você precisa me falar o que houve? O que aconteceu?”
Ele sentiu sua própria boca se abrir e se fechar algumas vezes, o eco de um grito que ele não lembrava ainda preso em sua garganta que ainda parecia queimar.
“Sair, Sair... de perto da água, por favor, por- por favor”
Sua voz estava rouca, parecia estranha para si mesmo, quase não passando de um suspiro quebrado saindo de seus lábios.
Implorar, ele nem se lembrava que era capaz de fazer isso, ele sentia a queimação em sua garganta, em seu ser, depois de falar aquilo, como se fosse errado, como se ele fosse um erro, mas antes que pudesse se arrepender mais Henri apertou sua mão de novo, mais líquido vermelho pingando e o trazendo de volta, ele levantou sua cabeça de onde nem percebeu que havia abaixado e olhou para Henri de novo, o outro já se movimentando para se mover.
“Longe da água, ok, ok.”
Henri respondeu mas sem confiança alguma em sua voz, ele estava perdido e não fazia ideia do que estava fazendo, em alguns segundos Aguiar passou de estar calmamente olhando para a água do lado pra ofegante gritando nomes desconhecidos e vendo algo que não estava ali. Henri chegou ao seu lado rápido mas não importava o quanto chamasse suas palavras não pareciam chegar ao delegado, quando as pernas dele pararam de sustentar seu peso e ele caiu de joelhos no chão, suas mãos segurando a terra com mais força do que deveria ser possível.
Foi nesse momento Henri começou a ficar levemente desesperado, a respiração do Aguiar estava cada vez mais desesperada, seus olhos embaçados e distantes.
Então o ocultista fez a primeira coisa que veio em sua mente, algo que ajudava ele e o conectou com a realidade no primeiro momento que veio ao mundo. Ele fez sangue. Sem qualquer hesitação que uma pessoa normal ele mordeu a própria mão, seus dentes fincando na pele tatuada quebrando a pele e fazendo o sangue se espalhar em sua boca e escorrer pelo seu pulso, a dor e o gosto o fizeram rir apesar da situação, o cheiro metálico rapidamente preenchendo o ar e fazendo uma calmaria quase paranormal tomar conta dele mesmo, ele olhou para Aguiar com expectativa, o sorriso quase maníaco ainda em seu rosto, ele balançou a mão machucada na frente do rosto do outro.
“Ei, ei! Aguiar olha, olha! É sangue! Meu sangue! Não é bonito? Ei, Aguiar-”
Mas os olhos do homem continuavam olhando para o nada, Henri teve a leve impressão que os dedos da mão do outro no chão haviam se movido, mas quando olhou eles pareciam na mesma posição, segurando a terra até que os nós de seus dedos ficassem brancos.
"Mas que porra- Merda!"
Então Henri fez a segunda coisa que veio à sua mente. Ele sacou sua adaga e fincou na mão do Aguiar que estava no chão, atravessando a pele e o músculo, a terra e o cascalho sendo lentamente manchadas pelo sangue que escorria do corte aberto, por um segundo o ocultista achou que não tinha funcionado, mas aí os dedos da mão ferida dele estremeceram e soltaram a terra, lentamente o braço trêmulo se levantou do chão, lento de mais, Henri agarrou a mão e a apertou na sua própria, o sangue se misturou entre as suas e ele as levou para perto a linha de visão da cabeça abaixada do policial, foi aí que seu plano começou a funcionar e os olhos de Aguiar lentamente retornaram da névoa.
Agora, ele estava tentando levantar um homem de 1,80 que olhava somente para o próprio sangue em sua mão, apertando os dedos e fazendo mais líquido pingar no chão, deixando um rastro de gotas na terra. O vermelho que Henri tinha certeza que manchada seu rosto agora, ele sentia o líquido começando a secar em sua bochecha, quase um espelho do sangue na mandíbula do Aguiar.
Ele passou o braço de Aguiar por cima do seu ombro, os dedos ensanguentados de Henri segurando firme na camiseta de Aguiar enquanto os dois levantaram e deram passos lentos na terra, Henri segurando boa parte do peso do outro que estava tentando se manter de pé mas tropeçando nos próprios pés.
Quando estavam a alguns bons metros da água Henri parou e fez o caminho de Aguiar até o chão ser mais lento, ele mesmo se sentando ao lado do homem mais alto, um suspiro deixando seus lábios. De canto de olho ele percebe Aguiar o encarando por alguns segundos e depois desviando o olhar para sua mão novamente.
Henri levanta sua mão e coloca no ombro do Aguiar, apertando de leve.
“Fala, o que houve?”
Aguiar não olha para ele, mantendo seu olhar nas mãos unidas e manchadas de sangue entre suas pernas, seus músculos estão tensos e sua mandíbula fechada tão firmemente que parecia doer, ele engole o seco algumas vezes, hesitando antes de falar.
“Eu lembrei."
“Do que você lembrou?”
Então Aguiar olha pra ele, seus olhos se mantêm no rosto de Henri por longos segundos parecendo procurar algo, suas sobrancelhas franzidas. Quando ele não acha o que buscava seus ombros relaxam levemente, Henri sente os músculos se movendo embaixo da sua mão, ele fingiu não notar que o outro também se moveu levemente mais próximo de si.
“Da minha infância.”
A voz de Aguiar tenta se manter firme, mesmo sendo um sussurro, mas Henri consegue ouvir sua voz embargada, ele vê sua garganta se movendo mais algumas vezes e a respiração dele falhar, Henri aperta seu ombro novamente, sangue do seu próprio machucado quase sumindo na jaqueta vermelha, Aguiar fecha os olhos
“Lembra quando eu te falei que a gente era parecido?”
“Hein?”
“Eu cresci num inferno”
Os olhos de Henri se arregalaram de leve quando ele percebeu o que ele queria dizer e a sua mão perdeu a firmeza com que apertava o ombro de Aguiar, os olhos do outro se abrem novamente, mesmo não parecendo completamente ali.
“Meus pais. Eles...Eles- eu acho que eles usavam o medo de crianças pra... pra alimentar o outro lado, eu e minha irmã-”
Um nó tão grande se forma em sua garganta que ele quase sente que não consegue mais respirar, o aperto em seu peito aumentava e pressionava contra suas costelas e órgãos.
“Eu lembro de um dia, uma piscina que tinha, eu- Minha garganta- Dói”
Ele leva sua mão para a própria garganta, sentindo a queimação dentro de si, em sua carne, ele sente seus próprios dedos apertando a pele no seu pescoço, querendo rasgar e tirar aquilo de dentro de si, nem que fosse com as suas unhas e dentes.
“Eu cresci nessa merda, eu cresci nesse inferno, eles afogaram as empregadas pra, pra fazer um ritual, minha irmã- Eu não lembro, eu não- Essa é a última coisa que eu- Foi horrível, foi horrível, eu cresci com medo, eu fui usado pro medo, como instrumento”
As palavras derramavam de sua boca, ele sentia sua respiração ficando mais frenética novamente, a mão em sua garganta apertava e apertava, e tudo era dor, tudo era azul, tudo afundava, ele afundava na dor azul-
A mão de Henri cobre a sua, segurando firme, o vermelho dos dois se unindo de novo, ele lentamente a afasta do pescoço de Aguiar, mesmo que ele hesite soltar no começo, Henri mantém seu aperto firme, no fim Aguiar de deixa ser guiado, suas mãos se juntando no meio dos dois novamente, Aguiar olha o rosto de Henri, uma lágrima vermelha escorrendo pela sua bochecha.
“Realmente, a gente é... Bem parecido, eu sei o que é ser usado, eu sempre soube o que é ser usado”
Ele ri, embora isso faça mais lágrimas vermelhas escorrerem de seus olhos.
“Tá olha, é por isso que eu não quero- Tá olha-”
Ele é interrompido pelos braços musculosos de Aguiar o envolvendo, segurando seu tronco com força, Henri sorri o abraçando de volta, ele sente risada de surpresa borbulhando dentro de si mostrando dentes manchados de vermelhos com seu próprio sangue.
“Ei, Aguiar...”
Ele afasta o policial de si, apenas o suficiente para o olhar nos olhos, ele une suas mãos ensanguentadas novamente entre os dois, pela terceira vez naquele dia.
“A gente vai fazer eles pagarem, todos eles.”
Henri mantém seus olhos nos de Aguiar até que ele pudesse ver que ele falava sério, pudesse ver a promessa em seus olhos e a determinação neles. O sangue que havia escorrido dos seus olhos se misturava com o sangue no formato de mão que Aguiar havia deixado em sua bochecha.
O policial aperta a mão de Henri, a queimação boa se espalhando pelo braço de ambos, seu rosto um reflexo do outro, suas lágrimas se tornando vermelhas e espalhando a mancha de sangue do seu maxilar ao seu pescoço lentamente.
“Todos eles.”
Ele promete de volta. Uma promessa marcada pelo sangue.
O azul não tem início nem fim, mas tudo começa pelo vermelho.
Tudo. Começa. Pelo. Sangue.
