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A Carne Que Respira | Labiar (Hexatombe)

Summary:

Aguiar volta coberto de sangue, tentando esconder as feridas. Mas Labirinto vê tudo e vai “cuidar” dele do único jeito que Aguiar jura que detesta, enquanto treme e por mais.

Work Text:

A madrugada tinha um silêncio que só cidades pequenas tinham. Pesado, úmido, cheio de ecos que não vinham de lugar nenhum. Aguiar caminhava pelo asfalto vazio com seus cachorros, retornando de uma caçada sangrenta, como sempre fazia. A camisa estava rasgada em três pontos, escura de sangue seco, e havia uma trilha fina, recente, descendo pela lateral do abdômen.

Ele ignorava a dor como sempre fazia. Dor era familiar, previsível, quase reconfortante. Vulnerabilidade não. Não foi treinado pra isso.

O vento frio cortava-lhe a pele e endurecia o sangue em sua máscara, mas não era isso que incomodava Aguiar, era a certeza de que Labirinto estaria esperando. E se o visse nesse estado…

Labirinto sempre fazia questão de cuidar dele. Aguiar odiava ser tocado assim de forma tão… gentil.

Como se Labirinto soubesse onde lhe doía mais. Como se sentisse quando Aguiar precisava ser cuidado.

Aguiar odiava esse pensamento. Esse sentimento de parecer vulnerável. Transformava qualquer coisa simples em algo que pulsava diferente. Então voltou para o acampamento. Dengosa e Princesa ainda estavam agitadas, quase pulando em Aguiar. Ele não queria as deixar no canil, mas abriu a portinha de metal para elas entrarem.

A madeira do piso rangia ao por suas botas sujas de lama e sangue. Aguiar empurrou a porta pesada com o ombro, abrindo-a, e a penumbra do interior o recebeu com aquele cheiro suave de ervas queimadas e metal limpo. O cheiro de Labirinto. O tipo de aroma que grudava em suas narinas. Viciante.

O outro já estava ali, parado na penumbra da sala, quase imóvel, como se tivesse brotado da sombra mais escura. Achado, com seus pés, descalços e ensanguentados firmes no chão, ele pintava mais labirintos com as pontas de seus dedos sujos de sangue.

Labirinto sempre tinha aquele jeito silencioso de observar. Nem julgamento, nem pena, só uma calma, uma frieza que deixava Aguiar desconfortável, como se o enxergasse demais.
Ele entrou e fechou a porta atrás de si, respirando fundo, arrastando seu machado pesado e sujo pelo chão, tentando parecer inteiro. Mas Labirinto já estava ali. Agora de pé, parado no meio da sala, como uma sombra que ganhava forma. Os olhos mortos, quase translúcidos na pouca luz. O rosto sem expressão evidente, mas atento demais. Sempre atento demais.

Havia algo na presença dele que fazia até o ar desacelerar.

Não era medo.
Era outra coisa, pior.
Algo que ele passava noites tentando ignorar.

Labirinto não disse nada no começo. Só o olhou. O tipo de olhar que atravessava a postura durona e chegava direto no lugar onde Aguiar guardava tudo que não queria que ninguém tocasse.

Silêncio. Pesado. Esperando.

Aguiar respirou fundo, encontrou a voz e fez o que sempre fazia. Mentir.

— Tô inteiro. Não precisa olhar assim.

Mas o olhar de Labirinto não mudou. Escuro, fixo, impenetrável. Era como ser observado por alguma coisa que não precisava piscar para existir. Aguiar sentiu a espinha endurecer — do jeito que sempre sentia quando percebia que aquela noite, aquela, não seria como as outras.

— Você chegou tarde. — A voz saiu baixa, arrastada… morta. E ainda assim havia nela um fio de calor subterrâneo, algo que tocava direto no nervo exposto de Aguiar.

— Tive trabalho. — Ele tirou a máscara suja de sangue com um gesto seco, quase agressivo.

Tentou passar. Tentou. Mas Labirinto o interceptou com facilidade, como se já soubesse onde ele iria antes mesmo de Aguiar pensar.

O mais alto inclinou a cabeça devagar demais, o suficiente para deixar claro que estava observando — não só o mancar, mas tudo. Cada detalhe.

— Você está machucado. — disse com uma suavidade que roçava o indecente, uma seda fria escorrendo pela espinha.

— Tô bem. — mentiu sem o menor esforço.

Labirinto deu um passo. Apenas um. Mas o ar entre eles mudou como se uma porta tivesse sido fechada às costas de Aguiar. A presença dele era um calor distante, um peso no peito, e aquele olhar… aquele olhar parecia deslizar por sua pele como uma mão invisível.

— Não está. — murmurou.

E tocou seu rosto.

As mãos geladas, longas demais, percorreram a linha dura da mandíbula, afundaram de leve na barba crescida, seguiram as cicatrizes como quem lê um texto antigo. O sangue seco, a pele quente de suor, o pulsar furioso sob a superfície — Labirinto sentia tudo.

Aguiar franziu o cenho, irritado. Irritado porque doía, mas principalmente porque Labirinto percebia. Sempre percebia. E não desviava o olhar.

— Eu disse que tô bem. — rosnou, como se a postura pudesse apagar o fogo no flanco.
Labirinto não recuou. A calma dele era densa, impenetrável, quase física.

— Posso cuidar disso. — sussurrou, segurando agora as bochechas de Aguiar com mais firmeza.
Os dedos deslizaram até seu pescoço, contornando a curva tensa do músculo, sentindo o pulso que batia acelerado demais para alguém “bem”.

E Aguiar bufou e desviou o olhar, sentindo a raiva se misturar com algo muito pior: vergonha. O rosto esquentou sob o toque de Labirinto, um rubor rápido, traiçoeiro.

“Cuidar.”

A palavra ficou martelando na cabeça dele, arranhando o estômago, mexendo com coisas que ele não queria nomear.

— Não precisa. Eu me viro. — disse, mas a voz traiu. Saiu mansa demais. Quase tremida.

Labirinto viu. Observou o jeito como Aguiar segurava o próprio braço, o músculo rígido, disfarçando um tremor que deveria passar despercebido.

— Deixa eu ver. — repetiu, num sussurro que parecia tocar a pele antes mesmo de virar som.
O silêncio que veio depois era quente. Pesado. Um silêncio que apertava.

A espinha de Aguiar se arrepiou inteira. Sempre acontecia quando Labirinto usava aquela voz, baixa, sem pressa, sem peso… mas que entrava pelos poros, que descia pela nuca e ficava ali, parada no corpo dele como um dedo gelado.

Ele engoliu seco, tentando firmar o maxilar.

— Labirinto… — chamou, e o nome saiu errado. Saiu macio, vulnerável.

Labirinto avançou um passo. Só um. Mas foi o suficiente para que o frio natural do corpo dele tocasse o ar quente em volta de Aguiar, como se o cercasse sem encostar. Quase encostando. Quase.

— Seja bonzinho, Aguiar. — murmurou, com aquela mansidão perigosa que quebrava qualquer defesa.

Foi nesse instante que Aguiar sentiu o próprio corpo entregar o que a boca negava.
os ombros cedendo, a respiração encurtando, o peito abrindo mesmo contra a vontade. Ele tentou controlar, tentou, mas o corpo já respondia sozinho.

Ele odiava isso. Odiava o quanto cedia quando Labirinto chegava perto demais. O quanto seu coração disparava quando sentia o toque dele.

Labirinto ergueu a mão. Devagar. Uma mão pálida, longa, que parou a poucos centímetros da camisa rasgada de Aguiar. Não tocava. Apenas esperava.

Esperava um consentimento.
Esperava a entrega.

Só aquele quase-toque, só o ar se mexendo entre eles, já fazia o corte no flanco pulsar… e fazia outra parte do corpo despertar com um calor imediato, irritante, impossível de negar.

E Aguiar odiou mais ainda o fato de que, naquele instante, ele queria.
Queria demais ser tocado.

Labirinto o conduziu até o quarto sem encostar um dedo, mas a proximidade dele tinha peso, tinha direção, tinha um magnetismo que puxava Aguiar como se o corpo respondesse sozinho.
Aguiar seguiu contrariado, irritado… e carregando um cansaço que parecia grudado nos ossos.
A porta se fechou atrás deles. E o quarto ficou menor.

— Senta. — disse Labirinto, tão baixo que parecia uma ideia entrando na cabeça de Aguiar, não uma ordem.

Ele hesitou. O maxilar travou, os olhos esverdeados estreitaram, por um segundo, apenas um, parecia que ia desafiar. Mas a dor latejando e aquela estranha gravidade que Labirinto emanava quebraram qualquer resistência. Aguiar afundou na beira da cama, respirando pelo nariz, pesado, como um animal acuado e orgulhoso demais pra admitir.

Labirinto se ajoelhou diante dele.

O gesto, delicado demais para um corpo tão firme e magro, fez o estômago de Aguiar apertar. Então Labirinto ergueu a mão e começou a puxar a barra da camisa rasgada, com dedos lentos, cuidadosos.

Aguiar agarrou o tecido no mesmo instante.

— Eu faço isso.

— Não. — disse Labirinto, sem força, sem aumento de tom, mas com uma certeza que atravessava a pele.

Uma única palavra. Fria. Suave. Irrefutável. E Aguiar largou o tecido antes mesmo de perceber que obedecia.

Labirinto levantou a camisa, expondo o abdômen quente, marcado, pulsante. A luz fraca realçava cada contração involuntária, cada tremor que Aguiar tentava manter escondido. O peito dele tremia demais, contido demais, como se controlar a respiração fosse a última defesa que ainda lhe restava, e ele não conseguia se segurar.

Labirinto se aproximou mais um pouco. A respiração dele tocou a pele de Aguiar antes mesmo das mãos chegarem.

Fria. Um sopro que roçou a pele quente como um aviso.

O arrepio que percorreu o flanco de Aguiar foi imediato, um choque fino que desceu pela lombar e sumiu em algum lugar mais fundo.

— Aqui. — murmurou Labirinto, passando a ponta dos dedos pela lateral ferida do abdômen. O toque era leve, mas firme o bastante para fazer o corpo de Aguiar se arquear sem querer.

— Caralho… — escapou dele, baixo.

Labirinto ergueu o rosto um pouco, os olhos fixando nele com uma calma que ardia.

— Tá tudo bem. — disse, e havia tanta suavidade naquela voz, uma suavidade mansa, quase morta, absurdamente gentil, que algo dentro de Aguiar simplesmente… cedeu.

Ele odiava esse efeito.

Odiava o jeito que a voz de Labirinto parecia se infiltrar sob a pele. Odiava a maneira como sua respiração começava a mudar, como o ar parecia mais espesso, mais quente, preso entre eles.

Odiava, sobretudo, o quanto queria que aquelas mãos frias continuassem descendo.

Os dedos de Labirinto percorreram a pele de Aguiar devagar. Tão devagar que parecia que o toque pensava antes de agir. A pressão era leve, cheia de intenção. O tipo de toque que fazia a dor pulsar junto com outra coisa.

Quente, reprimida, vergonhosa, enterrada onde Aguiar jurava que ninguém alcançava. Até que Labirinto encontrou um pequeno espinho cravado na carne. Aguiar prendeu o ar com tanta força que o peito nem se moveu. A mandíbula dele virou pedra.

— Dói? — perguntou Labirinto.

— Não. — mentiu Aguiar, a voz mais alta, rouca, quase um grunhido.

Labirinto inclinou o rosto, observando-o com atenção cruelmente suave.

— Mentiroso. — disse.

Não era deboche. Não era acusação. Era apenas verdade, dita com uma calma tão limpa, tão serena, que queimou mais fundo que qualquer provocação.

Antes que Aguiar pudesse responder, Labirinto segurou o espinho entre duas unhas e puxou. O corpo inteiro de Aguiar arqueou como um arco tensionado. Um som escapou, meio suspiro, meio rosnado, meio algo que ele jamais permitiria se estivesse completamente consciente de si. Ele virou o rosto, cerrando os dentes, como se pudesse esconder o calor bruto que subia pelo peito, pelo pescoço, até a ponta das orelhas.

Labirinto assistiu tudo em silêncio. Cada microexpressão. E então tocou de novo, um deslizar lento do polegar sobre a ferida aberta. Quente. Suave. Intencional o bastante para fazer a pele de Aguiar se contrair como se fugisse… ou pedisse mais.

— Assim… também dói? — questionou, a voz baixa como um segredo.

Aguiar fechou os olhos por tempo demais. Longo demais. Porque o corpo respondeu antes da boca. Um estremecimento profundo, involuntário, quase um pedido que ele nunca admitiria.

— Labirinto… — murmurou. E o nome saiu rouco, arranhado, como se tivesse sido arrancado da garganta dele.

A mão de Labirinto deslizou até a cintura, pousando firme, mas com uma delicadeza que irritava. O polegar encontrou um ponto sensível, e pressionou.

O ar vacilou na garganta de Aguiar, cortado pela metade.

Ele abriu os olhos com raiva.
Raiva não do toque. De si mesmo.
Do quanto seu corpo cedia.
Do quanto aquela calma quase sobrenatural o desmontava por dentro.

— Eu… — tentou dizer. Mas a respiração quente demais, curta demais, exposta demais contraria qualquer palavra.

Labirinto então se aproximou. Ainda ajoelhado. Ainda sereno. O rosto dele ficou a centímetros da pele de Aguiar. A respiração fria tocou o abdômen quente, subindo numa onda lenta que fez os músculos tremerem.

— Sim? — sussurrou. — Eu estou aqui.

O silêncio que veio depois era denso, quente, quase palpável. Uma corda puxada entre os dois, amarrada no peito, na respiração, no espaço estreito entre suas peles.

Labirinto não se apressava.
Nunca se apressava.
E justamente por isso, Aguiar quebrava primeiro.

Inclinou Aguiar na cama, ficando por cima, ainda com o dedo ali, cutucando aquela ferida sangrenta que escorria e manchava os lençóis sentindo a carne quente abrindo. E Aguiar tremia, tremia a cada abrir, a cada escorrer de seu sangue. O cheiro ficando mais doce, mais denso. Quase vinho.

Pós sua mão livre nele, seus dedos, sempre frios, sempre leves, pairam sobre o abdômen machucado do homem, observando cada corte aberto. Aguiar tenta se enrijecer, o maxilar travado. O pecado dele sempre foi achar que podia esconder qualquer coisa daquele ser. Mas não conseguia, não quando era tocado tão deliciosamente por ele desse jeito. Labirinto sabia onde doía, e usava isso tão bem, que Aguiar só queria sentir mais.

Labirinto inclina a cabeça de um jeito lento, estranho, como se quisesse ouvir algo. E passa a ponta do dedo ao redor de outra ferida maior, uma linha irregular, avermelhada, ainda quente, desenhando a borda com uma paciência aterradora.

Um fiapo de sangue fresco escapa.

— Hm. — murmura Labirinto, voz baixa, quase sem vida, mas suave o suficiente pra parecer um afago. — Ainda responde ao toque…

Aguiar solta um sopro duro, quase um rosnar, tentando abafar a onda quente que corre pela espinha. Ele não deveria reagir assim. Não deveria tremer quando Labirinto aproxima o rosto, tão perto que o ar que ele exala roça a pele ferida.

— Só… examina — ele resmunga, tenso, como se estivesse sendo arrancado de dentro. — Tô bem.

Labirinto sorri pequeno. Quase humano. Quase.

Ele pressiona um pouco ao lado da ferida, apenas o suficiente para o corpo de Aguiar arquear sem querer. O gemido que escapa é curto, abafado contra os dentes, mas existe, e Labirinto o nota com toda a calma mórbida do mundo.

— Está mentindo, — diz ele, suave, firme, como um epitáfio declamado.

Seus dedos continuam mapeando as outras feridas, agora puxando suavemente a pele ao redor, provocando aquele ardor profundo que mistura dor e alívio num fio só. Aguiar fecha os olhos por um instante, respira trêmulo. Lacrimejando.

Ele não consegue esconder o tremor. Ou o jeito que seu quadril se move quase em resposta. Buscando de novo por mais contato.

— Não… — Aguiar tenta protestar, mas a voz falha. — Não fica… brincando com isso.
Labirinto ignora. Ou melhor, acolhe a fragilidade dele sem dizer que está fazendo isso, porra...

Aproxima o polegar da borda da ferida e pressiona milímetros mais forte, o suficiente para violar e abrir, o bastante para provocar uma explosão quente, quase elétrica, no corpo de Aguiar. O gemido que sai agora não é só dor. É uma entrega que ele tenta matar na garganta e falha miseravelmente.

Labirinto observa. Seus olhos escuros brilham com um tipo de curiosidade quieta, quase carinhosa.

— Assim. — diz ele, voz fina, lenta, carregada de um cuidado que parece um feitiço. — Respira. Me deixa ver como seu corpo responde.

Aguiar abre os olhos rápido, furioso consigo mesmo, com o coração batendo como se estivesse prestes a fugir.

— Você… tá fazendo de propósito… filho da puta…

— Estou cuidando de você, — corrige Labirinto, sem mudar de tom. — E você está pedindo mais, mesmo tentando negar.

Ele afunda o dedo mais uma vez na ferida, só um arranhar suave com a ponta da unha, e o corpo de Aguiar estremece, os músculos tensos sob a pele marcada, cada respiração mais pesada que a anterior. Os gemidos, a respiração quente de Aguiar, preenchiam o quarto, junto com o barulho quase irritante de molas naquela cama velha. Labirinto se aproxima ainda mais, quase tocando a boca na pele suada de Aguiar, e sussurra.

— Se quiser que eu pare… peça.

Aguiar não pede. Não consegue.

A respiração dele treme, o corpo vibra, e Labirinto continua explorando aquele limite da carne, com o mesmo carinho sereno.

Labirinto muda de postura.

Agora se inclina sobre Aguiar, uma mão apoiada na cama, a outra pairando sobre a cintura ferida. A luz baixa do quarto faz o sangue de Aguiar brilhar em rubi escuro. E Labirinto olha cada gota.

— Você perdeu mais do que achou que podia, — comenta num sussurro suave, quase um réquiem. — Seu corpo está cansado. E vulnerável.

Aguiar aperta os dentes. Ele não quer ouvir isso. Não quer admitir nada.

— Tô… tô bem — ele tenta. Mas a voz falha, e o corpo denuncia a mentira com um tremor involuntário.

Labirinto passa a ponta do dedo pela borda da ferida na cintura. Dentro, pressionando devagar, cruel na precisão. A sensibilidade da pele machucada faz o corpo de Aguiar arquear. Ele solta um gemido baixo, quente, que tenta engolir tarde demais. Labirinto inclina a cabeça, quase divertido, um sorriso pequeno e perigosamente sereno.

— Sente isso?

Antes que Aguiar responda, Labirinto pressiona mais forte justamente naquele ponto onde a pele é mais fina. Piorando a ferida, estimulando cada nervo vivo ao redor dela. Aguiar solta um gemido choroso. A respiração sai quebrada, trêmula, como se fosse um soluço.

— A-ai… Labirinto…

— Shhh. — o outro murmura, manso como um véu de luto. — Respira. Deixa eu ver até onde você aguenta.

A mão fria desliza da borda da ferida para o músculo lateral da cintura, afundando o dedo ali, apertando com força, uma massagem cruel, profunda, destinada a tirar reações. Aguiar engasga no próprio ar. A dor passa pela espinha como um choque doce, quente demais. O corpo dele treme inteiro.

E Labirinto se delicia.

Ele tira o dedo sujo de sangue, mergulhado em sua boca para provar. Saboreando pequenas crostas dos músculos dele.

— Hnn… ah… — Os olhos de Aguiar marejam sem perceber.

— Está chorando.

A voz dele não tem julgamento. Nem piedade. É pura constatação. Fria, bela, quase satisfeita. Aguiar vira o rosto para o lado, envergonhado, vulnerável como nunca permitiria.

— C-cala a boca…

Mas Labirinto pega o queixo dele com a mão suja de sangue, guiando seu rosto de volta.

— Olhe pra mim.

Aguiar olha. Ofegante. Rendido sem admitir.

Labirinto volta a pressionar a borda da ferida, com uma autoridade nova e profunda, que atravessa o corpo inteiro de Aguiar. Ao mesmo tempo, a outra mão sobe para as costelas, apertando pontos cheios de tensão, doloridos demais para ele ignorar. Aguiar solta um gemido aberto, desesperado, quente como febre.

— L-Labirinto… porra…

Labirinto dobra o dedo e passa cutuca mais forte, mais lento, raspando sangue seco da pele, revelando uma sensibilidade nova. O contraste de calor e dor faz Aguiar tremer como se estivesse à beira de algo.

— Seu corpo quer isso, — sussurra Labirinto, a voz roçando a orelha dele.
Aguiar segura o lençol com força, os dedos tremendo. O peito sobe e desce rápido, completamente entregue à sensação.

Ele tenta resistir. Mais uma vez.
Fracassa. Mais uma vez.

— E-eu… — ele começa, mas a voz quebra. Os olhos fecham forte. — …continua.

Labirinto para por um segundo. Um sorriso lento, nasce no canto dos lábios.

— Diz isso de novo, — ele pede, suave como veludo.

Aguiar abre os olhos, vermelhos, trêmulos, manhosos de dor e desejo misturados.

— P… por favor…continua.

Labirinto continua. Ele não pergunta mais nada. Nem precisa.

Ele aperta a cintura de Aguiar com uma força que parece impossível para mãos tão finas. Os dedos dele afundam nos músculos tensos, manipulando cada fibra com precisão quase cirúrgica, uma dor funda, quente, que sobe direto para o diafragma. O corpo de Aguiar desmonta na hora. A cama range. Os braços dele tremem tentando segurar o lençol. A respiração vira soluços curtos, quase latidos.

— Hah—… aaah… L-Labirinto…!

Labirinto mantém a pressão. Firme. Metódica. Implacável. A mão dele sobe um pouco, encontra um ponto onde o músculo está travado de tensão, e aperta ali com crueldade suave. Aguiar se dobra, a coluna arqueando como um animal ferido que busca o toque que o destrói.
Labirinto observa a reação com olhos vazios, brilhando um pouco na penumbra.

— Seu corpo está implorando tão bonito, — ele comenta.

Aguiar tenta falar, mas só sai um gemido rouco, arranhado. Quando consegue forçar palavras, elas saem partidas, sujas de desespero:

— Eu… eu n-não… aaah… não tô…

É mentira. E os dois sabem. Labirinto aproveita isso. Ele afunda o dedo na carne, só que dessa vez não é gentil. É frio, quase doloroso ao toque. Pressiona o dedo contra o sangue quente que continuava escorrendo.

O contraste brutal rasga um gemido da garganta de Aguiar.

— AAAh… porra…!

O dedo gelado sobe devagar pelo abdômen, deixando a pele arrepiada, sensível, acesa. Labirinto volta a apertar com a outra mão ao redor da ferida, um aperto profundo, quase um aviso, como garras segurando sua carne. Aguiar perde o fôlego por um segundo inteiro. A visão dele até escurece nas bordas.

— Respira. — Labirinto ordena. — Não desmaie. Ainda não.

Aguiar obedece como um cachorro treinado.

Ofegante.
Gemendo.
Os olhos marejados.

Labirinto aproxima o rosto do dele, lento, predatório, e inala o ar quente que escapa da boca de Aguiar.

— Seu cheiro está delicioso assim.

Aguiar treme todo. Ele é grande, forte, resistente, mas agora se contorce como um animalzinho frágil, quebrado, pedindo mais.

Labirinto encosta a língua fria no pescoço dele. Lambe o suor. Sobe até a mandíbula. E então, devagar, lambe o sangue seco no canto da boca de Aguiar. A língua percorre a lágrima que escorre, recolhendo cada traço de sal.

— Tão fácil de ler. — murmura, quase num carinho. — Tão fácil de fazer tremer.

Aguiar solta um som que não é palavra. É puro instinto. Labirinto beija o rosto dele. Beijos frios, lentos, que queimam mais que a dor. Um na bochecha molhada. Um no canto da boca. Outro na boca inteira, suave demais para o estado de desespero de Aguiar. Quando afasta o rosto, ele segura o queixo de Aguiar com uma mão, forçando-o a manter contato visual.

— Fala pra mim o que você é.

Aguiar engole seco. O peito sobe agitado rápido demais. O corpo inteiro tremendo sob as mãos de Labirinto.

— Eu… eu…

Labirinto aperta a cintura dele outra vez, forte, profundo, fazendo cada nervo acender de dor e prazer misturados. Aguiar geme como se tivesse sido atingido.

— Eu sou… seu… — Ele fecha os olhos, vergonha e arrepio se misturando. — …seu cãozinho.

Labirinto sorri. É pequeno, frio, satisfeito. Um sorriso que parece uma bênção sombria. Ele se inclina até quase tocar a boca de Aguiar novamente.

— Então peça direito, — diz, num murmúrio suave, gelado, mortal. — Use a voz do meu cãozinho.
Aguiar abre os olhos, brilhantes de lágrimas, vermelho de tanto gemer, a boca entreaberta.

— P… por favor… me toca mais… me aperta mais… me usa… — E ele repete, rendido, sem vergonha nenhuma. — P-por favor… continua. Labirinto… por favor… continua…
E Labirinto continua. Mas dessa vez, devagar. Apreciando o sofrimento até o último fio de calor.

O tremor começou antes mesmo de Aguiar perceber. Primeiro leve, como um arrepio sobrevivendo na espinha. Depois mais fundo, mais denso, até tomar o corpo inteiro. O cheiro de sangue, o sangue dele, subia quente, doce demais. Labirinto aspirava, e os olhos dele escureciam ainda mais, famintos, atentos, hipnotizados. Ele se aproximou devagar, o corpo alto criando uma sombra que engoliu Aguiar inteiro. Uma sombra que pesava. Que protegia. Que ameaçava.

— Você tá tão… entregue… — murmurou Labirinto. A voz veio rouca, grave, um ronco satisfeito que vibrava no ar.

Aguiar respondeu com um rosnado baixo, que não tinha nada de defesa. Era dor virando desejo. Era vontade se contorcendo dentro do peito. Era o corpo dizendo o que a boca se recusava. A unha de Labirinto deslizou sobre a ferida do ombro dele. Primeiro um toque suave, quase um carinho tímido. Depois uma pressão lenta, crescente, empurrando a carne sensível até ela abrir de novo, ceder, sangrar.

Aguiar arfou alto. O som partiu dele como um gemido abortado, um choro engolido, um pedido malformado. As pernas fraquejaram. Ele buscou Labirinto com as mãos, agarrando a roupa dele com força desajeitada, feito um bicho ferido.

— Adorável… — sussurrou Labirinto, e havia crueldade e ternura misturadas no sorriso. — Você chora tão fácil quando alguém te toca onde dói.

Ele afundou o dedo de novo. Forte. Fundo o suficiente para atravessar qualquer defesa deixada.
Aguiar gemeu contra o peito frio dele, um som úmido, quebrado, que derreteu no ar enquanto o sangue escorria quente pela pele.

Labirinto inclinou a cabeça, observando cada espasmo. Aguiar não suportou. Nem quis suportar. Agarrou Labirinto pelo tronco com um braço só, puxando-o para perto com força demais, colando o peito ferido ao corpo gelado dele. E então mordeu.

Mordeu com raiva. Com necessidade. Com a fome que nasce da dor. A pele fria de Labirinto cedeu sob os dentes. Fina, sensível, marcada por cicatrizes geométricas que pareciam mapas de um pesadelo esculpido na carne. O gosto veio amargo, metálico e estranho, quase morto, quase divino.

Labirinto riu. Um riso baixo, profundo, satisfeito até a medula. Ele inclinou o pescoço, oferecendo mais. Mais clavícula. Mais pele. Mais promessa.

— Vai… — murmurou, ofegante. — Marca. Marca do jeito que só você faz.
Aguiar obedeceu. Mordidas curtas, rápidas, ferozes, ardentes. Não era beijo. Não era gesto de afeto. Era selvagem.

Cada mordida arrancava de Labirinto um suspiro profundo, quase agradecido. Cada rosnado de Aguiar soava entre feral e suplicante. Cada choramingo vibrava quente contra aquela pele gelada. Labirinto segurou o rosto dele numa mão só, firme, possessivo. Levou o queixo de Aguiar para cima, expondo o rosto sujo de sangue. Os dedos ficaram vermelhos.

— Olha pra mim — ordenou, suave como uma promessa, firme como uma lâmina. — Quero ver seus olhos quando dói.

Aguiar olhou. Respirando em soluços. Os lábios vermelhos, cortados. As lágrimas brilhando, misturando dor, impulso e devoção bruta. O polegar de Labirinto passou pelo lábio inferior dele, abrindo o corte. O sangue brotou lento. Aguiar gemeu pequeno, submisso, incapaz de conter o próprio corpo.

— Assim… — murmurou Labirinto, encostando a testa na dele. — Bem assim, filhote.

E Aguiar caiu. No toque. Na dor. No desejo. No corpo frio que o segurava firme. Mordeu de novo, e de novo, rosnando baixinho enquanto as mãos apertavam com desespero, como se Labirinto fosse a única âncora que restava numa noite que tremia inteira. O sangue quente e o sangue frio se misturaram entre eles, uma liturgia íntima, profana, feita só para dois.

A respiração de Aguiar já vinha quebrada, quente, irregular, quando Labirinto retirou a blusa dele por completo. O tecido, pesado de sangue seco e sangue fresco, caiu no chão com um som abafado. A carne suada e quente de Aguiar se expôs ao ar gelado do quarto, e ao olhar de Labirinto, que era ainda mais frio que o ar.

O corpo de Aguiar estremeceu. Um tremor nítido, involuntário. Labirinto sorriu pequeno, satisfeito.

— Você treme por qualquer vento… — murmurou, aproximando o rosto. — Ou só por mim?
Aguiar não respondeu, não conseguia.

Labirinto passou os dedos pelo abdômen suado, seguindo o caminho do sangue que descia da ferida recente. O toque era lento, suave, intimidador de tão delicado. Aguiar tentou engolir o gemido, tentou mesmo, mas ele escapou da garganta quente, rouco, cheio de um tesão que ele não admitiria nem sob tortura.

Aquele som fez o sorriso de Labirinto crescer.

Devagar, numa fluidez quase ritual, ele tirou o próprio manto e o deixou cair. A pele pálida, fria, riscada por cicatrizes geométricas, labirintos esculpidos na carne, brilhou sob a pouca luz.
Aguiar arfou alto, quase um soluço. Havia vulnerabilidade demais nele, crua, aberta. Labirinto encostou o peito no dele, pele fria contra pele quente. Um choque elétrico que percorreu Aguiar da nuca até ventre. E então veio o roçar entre suas bocetas molhadas, lento, preciso, como se Labirinto estivesse marcando território no corpo dele. Entre os dois, o sangue escorria quente.

Aguiar agarrou a cintura dele num impulso desesperado, puxando-o contra si como se precisasse daquele toque para continuar vivo. Era força demais. Era fome demais. Labirinto levou a língua ao suor e ao sangue que escorria do queixo de Aguiar, subindo devagar até a têmpora. A língua fria desenhou um caminho que fez a espinha dele curvar para frente. E então Labirinto mordeu. Forte.

Aguiar soltou um som que era ao mesmo tempo gemido e choro, a perna cedendo meio centímetro. Ele agarrou Labirinto mais apertado.

— Você realmente gosta disso… — murmurou Labirinto contra a pele dele, ainda com os dentes marcados ali, ainda segurando o rosto de Aguiar. — Sempre foi meu cãozinho manhoso.

O rosto de Aguiar queimou. Mexendo os quadros para as lábias roçarem de novo e as carnes deslizarem apressadas. Labirinto voltou à ferida na cintura dele. A ponta da unha percorreu o contorno da carne aberta, lenta, provocando um arrepio tão violento que fez as coxas de Aguiar tremem.

— Aí… n-não… — a tentativa de protesto veio fraca, falhada, e se desfez quando Labirinto pressionou o dedo mais fundo.

O corpo de Aguiar arqueou inteiro. Labirinto deu um sorriso breve, quase inexistente, mas que carregava crueldade suficiente para incendiar o ar.

— Você diz “não” e ao mesmo tempo se oferece, — murmurou, voz baixa, mansa, gelada. — Decide-te, Aguiar.

A única resposta foi o corpo dele, puxando Labirinto pela cintura, colando, pressionando, pedindo. Sem esconder nada do que sentia. Labirinto sentiu o pulsar de Aguiar. E suspirou contra a orelha dele, satisfeito.

— Ah… então era isso que você queria que eu visse.

Os dedos deslizaram pelas costas de Aguiar até a nuca, puxando seus cabelos para trás. O rosto dele foi erguido, exposto.

— Agora peça direito.

Aguiar fechou os olhos com força. Tremeu. O peito subiu rápido demais.

— Labirinto…

Só o nome. Mas dito daquele jeito, quebrado, úmido, implorante. Era quase. Labirinto roçou a boca na dele. Apenas um toque de lábios. Quase um beijo.

— Mais alto, — ele sussurrou. E afundou a unha de novo na ferida profunda da cintura.

Aguiar arqueou com violência, a respiração rasgando o ar, o gemido escapando alto, puro, sem defesas.

— Por favor… continua…

O sorriso de Labirinto se abriu, satisfeito. Ele beijou o canto da boca dele, descendo a língua até o queixo ensanguentado.

— Assim, meu cãozinho. — A unha afundou mais uma vez — Eu continuo.

E o quarto se encheu de respirações descompassadas, de pele se encontrando, do cheiro espesso de sangue, suor e desejo. Cada movimento dos dois aumentava o ritmo, a febre, a fome. A própria escuridão parecia vibrar com eles.

O ar no quarto parecia vibrar, pesado demais, quente demais, quase sólido ao redor dos dois. Labirinto empurrou o corpo contra o de Aguiar com uma força que tirou o fôlego dos dois. O impacto arrancou um gemido bruto, urgente, sem qualquer tentativa de controle. Aguiar agarrou os ombros de Labirinto. Os dedos cravaram na pele fria, deixando marcas vermelhas instantâneas. Ele puxou o outro para baixo, encaixando os corpos com uma fome que era quase desespero.

E então veio o movimento bruto. Suas vaginas pressionando e arrastando uma na outra num atrito úmido que fez Aguiar gemer tão alto que parecia uma súplica presa na garganta. Labirinto gemeu junto, um som baixo, quebrado contra o pescoço dele, como se toda sua frieza habitual tivesse finalmente rachado.

As mãos de Labirinto deslizaram devagar corpo de Aguiar até a cintura, os dedos longos apertando, guiando o movimento dos quadris com um ritmo constante e firme, que só deixava espaço para mais desejo. O contato de seus clítoris esfregando um no outro arrancava respirações descontroladas dos dois, cada uma mais desesperada que a outra.

Aguiar tremia. Cada músculo dele vibrava de tensão e necessidade. Labirinto sentiu, e sorriu contra sua boca.

— Você fica tão bonito assim… — a voz dele saiu trêmula.

O beijo veio logo depois. Dentes batendo, respiração quente escapando entre as línguas, gemidos engolidos. Labirinto apertou o rosto dele com as duas mãos, puxando-o para mais perto.

O ritmo cresceu.
E cresceu.

Os corpos se moviam rápido, úmidos, furiosos, criando sons molhados que enchiam o quarto com uma cadência indecente. Cada vez que Labirinto descia o quadril, o atrito aumentava. Aguiar arqueou inteiro quando Labirinto acelerou o movimento, o peito contraído, a cabeça jogada para trás num abandono quase doloroso. Labirinto seguiu, pressionando a boca no pescoço dele, respirando forte contra a veia pulsante, o corpo dele tremendo como se estivesse à beira de explodir.

— Não para… — Aguiar pediu, com a voz quebrada e urgente, agarrando a cintura de Labirinto com força. — Não… por favor… eu tô quase… eu vou gozar…..

Labirinto mordeu o maxilar dele, arrastando a boca até a boca, os lábios se encontrando de novo num beijo enlouquecido.

— Goza pra mim… — sussurrou, e a voz dele, pela primeira vez, veio quente, viva. Humana.

O ritmo ficou mais pesado. Mais rápido. Mais desesperado. As bocas se chocavam entre gemidos, respirações ofegantes e beijos quebrados. O corpo de Aguiar tremia sem controle, como um arco tensionado demais. O de Labirinto tremia junto no mesmo ritmo, na mesma fome, na mesma queda inevitável.