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the past is something he could see (but not touch)

Summary:

“Satoru?” Suguru questiona, seu tom indo de leve e humorado para preocupado em apenas um instante. Satoru continuou calado, seus lábios entreabertos, todo seu corpo congelado enquanto sua mente só conseguia repetir freneticamente:

Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou...

O Infinito deveria estar ativado, o Infinito está sempre ativado, afastando tudo e todos de Satoru. Mas o toque fantasma dos dedos de Suguru ainda queimava na sua bochecha, como se ele não tivesse apenas encostado brevemente e sim marcado com ferro quente. Talvez ele tenha o marcado sim, porque Satoru acha que nunca vai conseguir se livrar da sensação do toque de Suguru em sua pele.

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“Qualquer coisa que se aproxima do infinito desacelera e nunca alcança o usuário”. Esse é um dos conceitos básicos da técnica do Infinito de Satoru. Ele nasceu para ser o mais forte, não para ser tocado. Talvez por isso tudo ruiu quando Suguru passou pelo Infinito de Satoru.

Como algo enraizado dolorosamente há dezesseis anos dentro da sua mente e do seu corpo poderia se desfazer com apenas um toque?

Chapter 1: Parte I

Notes:

O Gojo é um personagem tão interessante pra mim, essa fic é quase um estudo de caso. Tudo sobre a personalidade dele, as técnicas, o passado, etc, material abundante para explorar ele e as relações dele. Em particular, a relação dele com Suguru e mais particular ainda, minha fascinação com o Infinito e o fato dos dois andarem pendurados um no outro ao longo de toda adolescência.

Junte tudo isso e temos aqui uma fanfic puramente auto indulgente porque minha tag favorito é #protective geto suguru e #hurt/comfort e eu precisava me afundar nisso. Ao mesmo tempo que não consegui não cair em angústia e decidi terminar essa análise indo até o fim da relação canônica deles. Mas vai ter muito conforto até lá prometo. Arrghhh, enfim, vai ser dividido só em 2 partes porque estava ficando grande demais e decidi postar só para criar vergonha na cara de terminar a segunda parte.

E as frases dos inícios dos capítulos são da grande obra prima In the Mood For love.

Boa leitura!

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

Parte I

“That era has passed. Nothing that belongs to it exist anymore.”

 

Satoru não lembra quando criou consciência da própria importância. Parece algo inerente a sua existência, um fato inquestionável, como respirar ou beber água. Ele era o feiticeiro mais poderoso, o único do Clã Gojo a nascer com o Ilimitado e os Seis Olhos em quatrocentos anos. Ele alterou a balança de poder do mundo Jujutsu apenas por nascer. Todos queriam conhecer ele. Muitos queriam ele morto. Ele era temido e respeitado antes mesmo de aprender a dizer as suas primeiras palavras.

Satoru também não conseguia dizer quando entendeu que não era uma pessoa. Pelo menos, não uma pessoa normal. Ele era mais importante. Ele era uma arma. Algo que as pessoas ao seu redor almejam ter controle sobre, porque sabem quão estimado é o poder que aquilo tem.

Aprender a usar uma técnica milenar antes de conseguir caminhar em linha reta foi toda a infância de Satoru. Ele conheceu pessoas importantes, cujo os nomes não lembra, ele também sofreu o quinto atentado contra sua vida antes mesmo do seu aniversário de três anos. Ele também teve pessoas penteando seus cabelos, passando suas roupas, o levando para passeios e o servindo das comidas mais caras, tudo como sua vida normal cotidiana, até atingir sua adolescência.

Então, Gojo Satoru sabia da sua importância, nasceu sabendo dela. Outro fato fundamental da sua existência era que, por causa da sua importância, ele deveria ser intocável.

“Qualquer coisa que se aproxima do infinito desacelera e nunca alcança o usuário”. Esse é um dos conceitos básicos da técnica do Infinito de Satoru. Um dos motivos pelo qual ele era tão temido e tão superior a todas as outras pessoas.

Era também o motivo pelo qual ele não sabia realmente o que era ser tocado.

Sim, Satoru já foi tocado, várias vezes, por várias pessoas diferentes. Ele já foi carregado quando era bebê, mas não tem lembranças disso. O que ele lembra é ser cuidado, arrumado e disciplinado. Lembra mais ainda de ser agarrado pelos pulsos, empurrado e subjugado. Mas eram toques rápidos, com objetivos claros e uma utilidade direta para sua educação. Ele não sabia na prática o que eram toques casuais, pelo menos não até chegar no Colégio Jujutsu.

Apesar (ou por causa) da criação restrita e diligente de Satoru, onde desde seu primeiro dia de vida ele foi criado em um mundo à parte, uma redoma personalizada, ele ainda sim não estava satisfeito. Mesmo sem saber como o mundo real funcionava, Satoru queria viver nele. O Clã Gojo era tudo que ele conhecia, assim como era tudo que o sufocava. Ser lembrado constantemente de quão importante teve o efeito colateral de tornar Satoru alguém arrogante, que achava que podia fazer qualquer coisa por causa do poder que tinha. E agora as pessoas do seu clã não conseguem mais reverter esse pensamento. Eles não podem falar todo dia para Satoru o quão superior ele é, só para depois esperarem que ele se contente em ser tratado como qualquer um.

É assim que Satoru acaba tendo sua cerimônia de Genpuku, tendo que declarar que ele, Gojo Satoru, e o Clã Gojo estavam em desacordo com o Clã Zenin, Clã Kamo e o Quartel General Jujutsu, algo que foi condicionado para que ele ganhasse permissão para ir para o Colégio Jujutsu. Tanto faz, se era o preço a pagar para sair dali, Satoru estava disposto a fazer.

Estar longe do Clã Gojo não era liberdade, Satoru podia estar a quilômetros de distância, mas ainda sim parecia mais como trocar uma jaula por uma coleira com um cordão bem longo. Mas era o mais próximo de liberdade que Satoru já havia experienciado.

Sem horário para dormir, sem uma dieta restrita, sem a necessidade de pré aprovação para cada pessoa com quem ele falava, sem ter que justificar e pedir autorização para cada coisa que ele fazia, sem ter que lidar diariamente com a velha guarda do Clã Gojo e, principalmente, sem as horas excessivas de treinamento e as sessões de “disciplina”.

É claro que, o mundo Jujutsu ainda era o mesmo, os mais velhos ainda deviam ser respeitados e reverenciados, por mais ultrapassados e preconceituosos que fossem. E, no caso de Satoru, por mais fracos que fossem quando se comparavam a ele. Agora Satoru também tinha que aprender a viver em um lugar que não era da sua família, ele tinha um quarto e não uma mansão à sua disposição. Assim como aulas onde ele não seria o único e também não receberia nenhum tratamento especial e personalizado. O que era só parcialmente verdade, mesmo longe do seu clã, ele ainda era o feiticeiro mais forte e, sendo assim, o mais importante. A reputação de Satoru sempre o precederia, para o bem ou para o mal.

Satoru manejou por sua nova vida em liberdade condicional como se estivesse em um dos jogos que ele gostava. Ele provava todos os doces que passavam pela sua frente, nunca recusava um passeio, não tinha pudor de usar suas técnicas como e quando quisesse e também não moderava suas palavras com quem quer que fosse. Uma piada ou comentário sarcástico estava sempre na ponta da sua língua, tanto porque essa era sua personalidade, mas também porque era um mecanismo para moderar sua ansiedade. Ele odiava ter tanto poder e, ao mesmo tempo, estar em desvantagem quando se tratava de coisas banais do mundo real.

A vida de Satoru era boa agora, ele tinha conhecido algumas pessoas no colégio Jujutsu que eram legais: Shoko, Suguru, Nanami, Haibara e Utahime. Ele gostava de passar tempo com eles tanto quanto gostava de irritá-los. Era uma interação diferente da que ele tinha no seu clã e isso era refrescante e excitante.

Talvez o mais interessante de tudo fosse Geto Suguru. Não foi amizade à primeira vista. Satoru e Suguru se encaram por alguns minutos quando se conheceram, Satoru lembra de ter dito algo irônico e Suguru ter revirado os olhos em resposta. Shoko sentou em uma mesa entre eles e Satoru só conseguia pensar na franja idiota de Suguru.

Uma missão juntos depois e Satoru e Suguru se tornaram melhores amigos.

Era engraçado relembrar o começo esquisito deles agora que eles se tonaram insuportavelmente inseparáveis (nas palavras de Shoko). Ela tinha um ponto porque Satoru e Suguru, de fato, não passaram um dia separados desde então. Eles tomavam café da manhã juntos, iam pra aula juntos, ficavam fazendo piadas até Yaga perder a paciência (normalmente culpa de Satoru que nunca sabia a hora de parar), depois iam almoçar juntos, treinar juntos e terminar o dia sentados na mesma cama, lado a lado, enquanto liam ou jogavam video game.

Satoru nunca teve uma relação tão próxima com alguém, não do jeito que tem com Suguru. Ele nunca gostou da companhia de alguém tanto quanto gosta da companhia de Suguru, também nunca se sentiu tão confortável quanto se sentia agora. Era estranho. Satoru adorava.

Porque era incrível existir alguém como Geto Suguru, um feiticeiro de grau especial, assim como Satoru, mas mais honrado do que ele jamais seria. Suguru era alguém que, apesar do sarcasmo nato e mente afiada, sabia respeitar as pessoas ao seu redor e tinha uma paciência infinita. Características que faltavam em Satoru e que ele adorava tirar vantagem, porque se havia algo que Suguru precisava para lidar com Satoru era paciência. E talvez a melhor parte de tudo isso era como Suguru não parecia se esforçar para lidar com Satoru, não agia como se fosse um fardo ou um incômodo. Pelo contrário, Suguru conseguia acompanhar Satoru em tudo, desde suas técnicas, sua força, seu humor, seu raciocínio. Suguru sempre estava lá, bem ao lado de Satoru, com um sorriso preguiçoso e provocativo que combinava com o próprio sorriso de Satoru.

Era uma vida boa, tão boa que Satoru quase esqueceu dos fundamentos básicos e inerentes da sua própria existência.

.  .  .

Estava quente, talvez o dia mais quente do ano até agora. Era a primeira semana de primavera, a temperatura não deveria estar tão alta e, ainda sim, o sol queimava, o ar estava seco e a pequena brisa que circulava não fazia quase nada pelo calor que preenchia todos os ambientes.

Satoru não gostava de calor. Ele não gostava da sensação da própria pele tão quente, nem de como o suor eventualmente escorria pelas suas costas e pela sua testa. Sua boca estava seca, mesmo depois de litros de água. E o pior de tudo eram os seus olhos. Tudo estava claro demais, intenso demais e com as altas temperaturas adicionadas nessa equação, uma dor de cabeça era inevitável.

Essa soma de fatores resultava em Satoru mais sensível e defensivo do que o normal. Seu corpo e sua mente, por estarem em uma situação de desconforto, ficam automaticamente em estado de alerta. O Infinito mais afiado e forte, como se estivesse ativamente expelindo possíveis ameaças de forma constante. Satoru acaba ficando todo tenso, incapaz de relaxar, tanto mental quanto fisicamente. Isso também piorava seu humor, o que, em um efeito dominó, acaba se tornando então um problema de Suguru.

“Se você suspirar mais uma vez, vai desmaiar por falta de ar.” Suguru provoca calmamente, sem tirar os olhos do livro que tem nas mãos.

Satoru move os olhos até Suguru, que tem os cabelos pretos presos em um coque, apenas sua franja dançando na frente do seu rosto, que exibe bochechas levemente coradas por causa do calor. Ele veste uma camiseta de manga curta preta que contrasta com a branca de Satoru, a gola baixa deixando amostra o pescoço que contém a mais leve umidade por causa da fina camada de suor que cobre sua pele. Depois de alguns segundos absorvendo essa visão, Satoru continua encarando o rosto de Suguru enquanto solta um suspiro mais alto e longo do que o anterior.

Suguru fecha os olhos e dá um pequeno sorriso, então levanta o rosto e encara Satoru.

“Como você vai sobreviver no verão, se já está desse jeito agora?” questiona, a fala mansa e preguiçosa, que demonstra o carinho por Satoru, mas também o prazer maior que é irritá-lo.

“Eu não vou sobreviver, Suguru, é assim que será o verão.” Satoru resmunga tirando as costas da parede e se jogando na cama de Suguru dramaticamente enquanto fecha os olhos.

Na outra ponta da cama, apoiado confortavelmente na cabeceira, Suguru solta uma risada. Satoru ouve ele fechar o livro que tem nas mãos e levantar da cama, pelo sons de tecido se mexendo e suspiros, Satoru sabe que Suguru flexionou os braços para cima, se alongando.

“Vou pegar bebidas pra gente, quer seu refrigerante de melão?” Suguru pergunta, já se movendo para a porta do quarto.

“Você sabe que sim.” Satoru responde com a voz manhosa, apenas porque sabe que isso vai render olhos se revirando e um sorriso de Suguru.

“Já volto, tente não se mexer e acabar bagunçando meu quarto enquanto eu estou fora, como você sempre faz.”

Antes que Satoru possa retrucar, Suguru já fechou a porta. Satoru suspira em resignação e tira os óculos que ainda estava usando. Deixar os olhos expostos não ajudaria com a dor de cabeça, mas a armação começava a incomodar a pele já sensível de Satoru o suficiente para que ficar sem essa proteção se tornasse uma opção mais confortável. Satoru fecha os óculos e os deixa jogados no canto da cama de Suguru.

Talvez fosse a promessa de consumir um líquido gelado e refrescante, mas Satoru também sentia sua boca ainda mais seca. Tentando evitar suspirar mais uma vez, Satoru se concentra em ouvir os barulhos vindos do corredor, esperando ansiosamente o som dos passos de Suguru voltando. Para sua felicidade, ele não teve que esperar muito.

Suguru abre a porta do quarto e Satoru automaticamente senta na cama, os olhos ainda fechados e uma mão estendida, que prontamente é ocupada pelo peso de uma lata fria e levemente úmida.

Satoru não perde tempo em abrir o refrigerante e tomar um longo gole. O líquido gelado e doce preenche o todo o interior da sua boca e desce de forma prazerosa pela sua garganta, deixando uma sensação refrescante atravessar todo corpo de Satoru.

Lambendo os lábios, Satoru abre os olhos e procura Suguru, pronto para agradecer, apenas para se deparar com Suguru já o observando com uma expressão estranha no rosto. Satoru abre os lábios para questionar se há algo em seu rosto, mas mais uma vez suas palavras morrem na boca quando de repente ele sente um toque em sua pele.

É quase imperceptível a princípio, apenas um leve roçar dos dedos de Suguru em sua testa enquanto ele empurra para o lado uma mecha dos cabelos de Satoru que descansava em sua testa levemente úmida de suor.

É um gesto pequeno e casual, tão rápido e normal que qualquer pessoa não teria sequer piscado. Porém, para Satoru, foi paralisante. Como se de repente seu peito tivesse congelado e um líquido frio, e agora nada doce, atravessasse toda sua corrente sanguínea.

Seu cérebro para de funcionar por um segundo, como um computador sobrecarregado que se desliga de repente.

“Que foi, Toru? A bebida congelou seu cérebro?” Suguru pergunta zombeteiro e então toca Satoru novamente, dessa vez pressionando um dedo em sua bochecha.

É simplesmente demais.

Satoru aperta inconscientemente a lata de refrigerante que tem nas mãos, o metal se amassa levemente sob seus dedos, mas o resto do seu corpo continua paralisado. Satoru sabe que deve estar com uma cara estranha, os olhos arregalados, a boca aberta, consegue sentir o pânico exalando de si próprio. Mas tudo parece distante. Seu coração começa a bater freneticamente e Satoru sabe que está a segundos de começar a tremer.

“Satoru?” Suguru questiona, seu tom indo de leve e humorado para preocupado em apenas um instante.

Satoru continuou calado, seus lábios entreabertos, todo seu corpo congelado enquanto sua mente só conseguia repetir freneticamente:

Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou, Suguru me tocou…

O Infinito deveria estar ativado, o Infinito está sempre ativado, afastando tudo e todos de Satoru. Mas o toque fantasma dos dedos de Suguru ainda queimava na sua bochecha, como se ele não tivesse apenas encostado brevemente e sim marcado com ferro quente. Talvez ele tenha o marcado sim, porque Satoru acha que nunca vai conseguir se livrar da sensação do toque de Suguru em sua pele.

 

Suguru tinha acabado de passar casualmente, sem qualquer dificuldade ou empecilho, pelo Infinito, não só isso, mas com toque gentil que Satoru não estava nem remotamente acostumado. E Suguru nem sabia o que tinha realmente feito. A percepção de tudo isso é avassaladora demais.

Em um movimento rápido e abrupto, Satoru levanta da cama. O que acaba sendo a coisa errada a se fazer, já que Suguru estava de pé na frente de Satoru, exatamente no espaço que Satoru pretendia ocupar.

Satoru imediatamente colide com Suguru e perde o equilíbrio. Ele teria caído de volta na cama e provavelmente batido a cabeça na parede, mas sua queda é interrompida por Suguru, que nem pisca ao passar o braço pela cintura de Satoru e segurá-lo no lugar.

O que é pior, muito pior. Bater a cabeça na parede parecia o paraíso comparado a sensação do corpo quente de Suguru apertando com força o corpo de Satoru. Pior ainda era ter que lidar com o quanto autoconsciente Satoru se sentia naquele momento. A compreensão de que seu Infinito ainda não estava funcionando era genuinamente aterrorizante.

“Que porra… Satoru? O que foi?” Suguru continua perguntando, a expressão de preocupação gritante tinha tomado todo o seu rosto.

Satoru sente muitas coisas ao mesmo tempo naquele momento.

Ele sente os olhos começarem a arder, lágrimas se formando e ameaçando deixar sua visão embaçada. Ele também sente os pulmões doendo, porque respirar não parecia algo que ele conseguia fazer.

Satoru quer correr, quer chorar, quer sumir da face da terra. Ele quer que o Infinito funcione. Ele quer que Suguru se afaste, mas não quer machucá-lo. As palavras presas na garganta ameaçavam sufocá-lo.

Satoru sente uma lágrima escorrendo pelo rosto,

Então, em mais um movimento abrupto, ele empurra Suguru com toda força.

Suguru perde o equilíbrio e xinga, enquanto Satoru quase cai para trás, mas consegue se recuperar o suficiente para correr para o canto do quarto, o mais longe que consegue da cama.

Satoru queria correr sem parar, se afastar o máximo que fosse fisicamente possível, porém suas pernas tremem e ele consegue chegar só até uma das paredes do quarto de Suguru, entre uma cômoda e uma mesa de estudos.

Satoru sabe que está hiperventilando audivelmente agora, ele quer fechar os olhos porque a quantidade de informações que está recebendo só confundem seu corpo e sua mente ainda mais, porém não ter os olhos abertos e nem o Infinito ativado ao mesmo tempo era algo aterrorizante.

Ele precisava se acalmar, precisava ativar o Infinito de novo, precisava parar de agir como um idiota ansioso e assustado. Ele era Gojo Satoru, o feiticeiro mais poderoso…

Como o feiticeiro mais poderoso deixa alguém tocá-lo tão facilmente?

Suguru parece estar falando algo, mas Satoru não consegue ouvir, porém, quando o outro ameaça dar um passo em sua direção, Satoru levanta a mão entre eles. Suguru para imediatamente e olhe para a mão de Satoru com uma expressão interrogativa.

É então que Satoru percebe que na sua mão direita ainda reside a lata de refrigerante de melão, mas agora quase completamente amassada, o líquido escorrendo pelos lados e pingando no chão. Satoru é rápido em soltar a lata e posicionar sua mão de volta. Ele ia usar o Vermelho em Suguru? Ele não queria, mas estava assustado e sua mente tinha entrado em um modo de luta ou fuga.

Suguru continuava falando algo, seus lábios se mexiam e seus olhos ainda estavam presos em Satoru, mas ainda era difícil ouvir quando o barulho da hiperventilação e do pânico era tão alto.

Satoru tenta respirar fundo enquanto procura dentro da mente como ativar seu Infinito de volta. Não era algo que ele pensava em como fazer há muito tempo, ele só fazia. Já era inconsciente, algo constante atrás da sua mente, ou era para ser assim. Agora Satoru se via buscando em desespero dentro de si mesmo como ativar de volta o Infinito.

Visões dos treinamentos no Clã Gojo invadem a mente já caótica de Satoru. As vozes gritando para ele ser melhor, mãos apertando seus pulsos com força até ele conseguir usar a técnica como deveria, o sangue escorrendo dos lábios depois do impacto de um punho em seu rosto quando ele era lento demais para ativar o Infinito.

Satoru acha que vai desmaiar e tem quase certeza que parece fisicamente que vai desmaiar, porque Suguru arregala os olhos e dá mais um passo para frente.

“N-não…” Satoru consegue proferir com os lábios trêmulos. O som parece pegar Suguru de surpresa, porque ele para de andar de novo.

“Satoru?” A voz de Suguru parece desesperada, o que faz Satoru querer rir porque era ele que estava passando por uma situação desesperadora naquele momento. “Satoru, por favor, você precisa respirar.”

É mais fácil falar do que fazer. É o que Satoru pensa, mas é incapaz de proferir em voz alta. Mas, mesmo assim, ele tenta fazer o que foi sugerido. É Suguru ali, ele não vai machucá-lo, Satoru tem certeza disso. Então era seguro baixar a guarda e usar o resto de energia que ainda tinha para puxar com força o ar para dentro dos pulmões e então expirar. Inspirar e expirar. Era doloroso, parecia que a cada vez que Satoru tentava expirar calmamente, seus pulmões entravam em desespero, querendo mais ar no mesmo segundo, ansiando por voltar ao padrão de hiperventilação que ele estava antes.

“Isso, muito bem, você está indo bem, Satoru.” A voz de Suguru é gentil e paciente, um pouco condescendente, pela posição ainda afastada e as mãos na frente do corpo de forma apaziguadora, parecia mais que Suguru estava tentando acalmar um animal silvestre.

Satoru respira fundo uma última vez, os sons ao redor estavam voltando a fazer sentido e as informações que seus olhos recebiam estavam menos opressoras. Mas substituindo a falta de ar e confusão, havia uma dor de cabeça que começava a tomar seu crânio. Assim como uma dor em seu peito. Satoru leva a mão esquerda, que estava largada do lado do seu corpo, até o coração e começa a massagear nada delicadamente aquela área, como se conseguisse tirar o desconforto com as mãos.

Suguru observa cada movimento de Satoru com uma atenção desconcertante. Ele parece em conflito, como se quisesse fazer mil perguntas, se aproximar, mas também ainda visse Satoru como um animalzinho assustado, então os movimentos bruscos estão fora de questão.

“Certo, certo, hm… Como você está se sentindo?” Suguru questiona, o tom paternalista ainda presente. Satoru quer revirar os olhos com o tratamento, mas se controla.

“V-você… você me tocou!” Satoru é capaz de falar, não é uma resposta exatamente, mais para uma acusação, mas é a única coisa que Satoru consegue pensar no momento.

“Hm, sim? Eu… não podia?” Suguru pergunta, mas agora o  seu rosto adquire uma expressão neutra que parece forçada. Talvez o pior fosse isso, como Suguru continuava não tendo ideia nenhuma do que tinha feito. Como se não tivesse desarmado o feiticeiro mais poderoso da geração como se não fosse nada.

“Não! O Infinito não deveria deixar ninguém me tocar. O Infinito estava ativado, ele deveria estar ativado, deveria funcionar, você nem poderia, quer dizer, seria impossível, deveria ser impossível…” A enxurrada de palavras continua fluindo dos lábios de Satoru, um fluxo de pensamento em voz alta que soava desesperado. Satoru estava irritado, porque ele ficava irritado quando sentia medo e, nesse momento, Satoru estava com muito medo.

Talvez fosse a clara instabilidade mental e irritação em cada palavra de Satoru, ou finalmente Suguru entendendo exatamente o que ele fez, de qualquer jeito, Suguru arregala os olhos e abre a boca, mas não fala nada. Satoru continua:

“Eu não posso ser tocado, Suguru! Você sabe disso! E está calor, e você sabe que o calor me incomoda, então o Infinito fica mais forte ainda nesses dias, porque minha mente acha que eu estou em uma situação de desconforto, que ele traduz como perigo, ou sei lá. Não importa, o Infinito está sempre ativado, ele precisa estar sempre ativado, eu fui treinado pra isso desde que eu tinha sei lá três anos, eu trabalhei muito pra conseguir esse resultado, então, não, você não podia me tocar, isso deveria ser fisicamente impossível, eu devia ser o feiticeiro mais poderoso e…”

“Certo! Certo, Satoru, está… está tudo bem. Eu entendi.” Suguru interrompe o monólogo caótico de Satoru e dá um passo à frente. Automaticamente, Satoru dá um passo pra trás, mas ele já está no limite e ao invés de se afastar, consegue apenas prender as próprias costas na parede. “Satoru, eu não vou te machucar. Não vou te tocar também, está tudo bem, você está bem, você está seguro.”

E Satoru não sabe porquê, mas essas são as palavras que fazem ele quebrar um pouco. Seu peito se aperta e seus olhos voltam a arder.

“Não está… tudo bem” A voz de Satoru soa embargada, como se ele fosse começar a chorar a qualquer segundo, o que era totalmente humilhante. Satoru morde o lábio inferior com força e não deixa nenhuma lágrima escapar.

Satoru…” O jeito como Suguru diz o nome de Satoru é quase doloroso, porque é cheio de compaixão. Satoru quer gritar. “Você está seguro aqui, eu prometo, somos só você e eu. Não vou deixar nada acontecer com você.”

Satoru aperta o lábio com mais força.

“Posso me aproximar?”

Satoru quer dizer não, ele quer pedir para Suguru se afastar e deixar Satoru correr dali como se nada daquilo tivesse acontecido. Os olhos compreensivos, o tom compadecido, toda gentileza, Satoru não entende porque tudo aquilo é tão doloroso, mas dói em cada centímetro do seu corpo.

Mas outra parte de Satoru quer ficar aqui, quer que Suguru chegue o mais perto que fosse fisicamente possível. Porque Satoru está assustado e não quer ficar sozinho, ele não sabe o que está acontecendo, não sabe o que tem de errado com o Infinito e não quer ter que lidar com isso sem Suguru o protegendo.

Satoru balança a cabeça em concordância.

Suguru parece aliviado com a resposta, então calmamente, com um passo de cada vez, ele se aproxima de Satoru. Enquanto isso, Satoru coloca os dois braços para baixo e aperta com força os punhos, para se impedir de tentar fugir ou se espremer mais ainda contra a parede nas suas costas. Quando Suguru está a apenas alguns centímetros de distância de Satoru, ele para.

“Certo, tudo bem, okay. Como você está se sentindo?”

“Irritado.” A resposta rápida de Satoru faz Suguru soltar uma pequena risada, o som acalma um pouco a tensão de Satoru.

“Imagino, você está se sentindo vulnerável e…”

“Eu não estou me sentindo vulnerável, eu não sou vulnerável, eu sou o mais forte e…”

“Sim, Satoru, eu sei disso. Você é o mais forte.” Suguru tem um sorriso nos lábios e aquela indulgência na entonação que ele usa quando precisa lidar com Satoru sendo um pirralho. O tom que deixa claro que Suguru acha que Satoru está falando bobagens, mas vai fingir que está concordando só para Satoru calar a boca. Dessa vez, Satoru não consegue se impedir de revirar os olhos.

“Não seja condescendente.” Satoru adverte com petulância. Suguru só sorri ainda mais, como se tudo isso o divertisse muito.

“Não estou sendo condescendente, estou sendo compreensivo. Como você está se sentindo fisicamente?”

“Hm, eu…” Satoru para de falar e faz uma análise interna antes de continuar. “Me sinto desconfortável. Minha cabeça e meu peito doem, estou cansado, e eu… Eu não sei se consigo, hm… Se consigo usar…”

“Você não sabe se está conseguindo usar o Infinito?”

A garganta de Satoru parece querer se fechar só com a ideia de proferir aquelas palavras. Porque se Satoru realmente falasse em voz alta que não estava conseguindo usar o Infinito, ele estaria admitindo o quão fraco ele era, o quão vulnerável ele estava naquele momento. E Gojo Satoru não pode demonstrar fraqueza, não pode apresentar uma fragilidade tão grande na frente de outras pessoas.

“Certo, tudo bem, vamos fazer assim: eu vou tocar no seu braço agora, para termos certeza se o seu Infinito não está ativado, pode ser?” Suguru propõe.

Satoru morde o interior da bochecha tentando aceitar aquela ideia. Nesse momento, Suguru é o mais racional deles, Satoru precisava confiar que ele sabia o melhor a fazer. Satoru solta a bochecha e respira fundo, concordando com a cabeça.

“Muito bem, vou tocar seu braço direito.”

Suguru move a própria mão para frente, se aproximando mais e mais de Satoru, que volta a prender a respiração inconscientemente. É como um filme de terror, todo o suspense que o movimento gera. Satoru não tem medo de Suguru machucá-lo propositalmente, mas temia ter que reconhecer a própria debilidade.

O toque de Suguru, como Satoru imaginava, é gentil. Os dedos de Suguru envolvem seu braço, pouco abaixo do ombro, delicadamente. É comedido, mas quente e determinado. O toque de pele contra pele parece queimar, mas não machuca nenhum um pouco, por mais que a pressão aumentasse, era como se ele estivesse segurando Satoru, dizendo com aquele contato que Suguru o tinha pego. Em algum momento, o polegar de Suguru começa a fazer círculos leves no braço de Satoru. É estranho. Satoru se sente seguro com o contato, o que é tão diferente de todas as outras vezes que as pessoas agarram seus braços nos antigos treinamentos.

O contraste das duas experiências sensoriais começa a sobrecarregar Satoru novamente, por mais que o toque de Suguru agora seja gentil, a mente de Satoru é preenchida de apertões, puxões e rosnados. Satoru sabe que logo vai ouvir como ele falhou, como ele é fraco, como ele deveria ser melhor, como…

“Você está indo muito bem, Satoru.” As palavras de Suguru arrastam Satoru para fora da própria mente. Olhos azuis se fixam em olhos violeta e por um momento o mundo parece parar. Satoru não registra nenhum som, nenhuma imagem, nenhuma energia amaldiçoada, nada que não seja Suguru.

O Infinito não estava funcionando, o toque sendo a prova clara que Satoru continuava vulnerável, que ele tinha falhado. Porém, não parecia ruim. Ser tocado não parecia errado. Não era o fim do mundo. Ou talvez fosse, porque Satoru ainda sentia que podia morrer a qualquer momento, não porque estivesse em perigo, mas justamente porque Satou experienciava um sentimento de segurança que nunca tinha sentido antes.

Mas Gojo Satoru não estava seguro sem o Infinito, ele não nasceu para ser tocado.

“Certo, hm, o Infinito não está funcionando.” Suguru constata e Satoru finalmente volta a respirar.

“Não brinca.” Satoru responde irônico, mesmo que seu tom de voz ainda soe sem fôlego. “Isso não é bom, eu não desativei o Infinito, você não deveria conseguir me tocar… assim.”

As palavras parecem estranhas ditas em voz alta, uma expressão esquisita cruza o rosto de Suguru por um segundo, rápido demais para Satoru desvendar o que significa, mas diferente o suficiente para despertar curiosidade.

“Sim.” Suguru encara a mão que segura o braço de Satoru, ele parece concentrado. “Você está bem quente, talvez o calor esteja realmente te fazendo mal. Temperaturas muito altas podem afetar o seu organismo e te deixar desidratado, com sensação de exaustão, até confusão mental e problemas respiratórios. Talvez isso tenha afetado o uso do Infinito também.”

Satoru quer retrucar e dizer que não está confuso mentalmente, que ele tinha bebido bastante água durante o dia todo e que, se a Satoru está tão quente no momento, é por causa do calor corporal de Suguru, que está sendo todo transportado para Sator através da mão que continua em seu braço. Mas havia um fator mais flagrante para contradizer a teoria de Suguru.

“Todo treinamento que eu tive foi especificamente com o objetivo de me preparar para usar o Infinito nas piores condições se fosse preciso. Eu já sofri queimaduras de segundo grau quando tinha oito anos e usei o Infinito logo depois. E você mesmo disse que hoje nem estava quente de verdade.” Satoru retruca enquanto revira os olhos.

“Você… você o quê?” Suguru parece chocado agora, com as sobrancelhas franzidas e um olhar que parece confuso e… irritado?

“Huh? Eu recebi treinamento para usar o meu Infinito? Você me conheceu já no meu auge, eu sei, pode parecer chocante que eu tive que praticar algo sendo tão bom em tudo, mas o Infinito é uma técnica como qualquer outra, então eu tive treinamento e aprendi a ativar ele em qualquer situação, por isso não faz sentido…”

“Satoru! Não é isso que eu… pelo amor de…” Suguru fecha os olhos e respira fundo, Satoru fica em silêncio apenas porque está confuso com a reação do amigo e com o rumo que a conversa está tomando.

O aperto no braço de Satoru se intensifica por um momento, não tão gentil quanto antes, provavelmente uma reação inconsciente de Suguru, já que ele parece irritado. É algo pequeno, uma reação completamente normal, Suguru provavelmente estaria apertando as mãos de frustração, mas como uma delas estava envolvendo o braço de Satoru, ele o apertou. Tranquilo. Satoru continuava seguro.

Porém, o corpo de Satoru não parece estar em acordo com seu raciocínio lógico nesse dia, porque assim que os dedos de Suguru aumentam a pressão em seu braço, Satoru volta a ficar tenso. É puro reflexo.

Satoru para de respirar, todos os músculos do corpo ficam tensos enquanto ele tenta dar um passo para trás e bate de novo na parede, uma das mãos levantando no mesmo segundo, seus lábios prontos para proferir a palavra ‘Vermelho’ para pelo menos tentar repelir a ameaça para longe. Mas não há uma ameaça ali, Satoru sabe disso. Ele consegue se conter a tempo, sua mão esquerda se aperta em um punho e seus dentes mordem seu lábio inferior com força.

Mas o estrago já estava parcialmente feito, Suguru agora encarava Satoru com um olhar assustado, surpreso e com algo que parecia mágoa.

“Satoru, eu…” Suguru olha para a mão que segura o braço de Satoru e finalmente solta, dando um passo para trás logo depois. “Sinto muito, eu não quis… Satoru, eu nunca te machucaria.”

E Satoru sabe disso, ele realmente sabe, Suguru nunca o machucaria de propósito. Então é doloroso sentir a dor no peito se intensificando enquanto seu corpo volta a tremer. É confuso, Satoru sabe que está bem, sabe que está seguro, mas não consegue parar de tentar ativar o Infinito. Os ombros de Satoru estão tensos, sua garganta parece estar fechada e os olhos voltam a arder. Ele só quer que o Infinito volte a funcionar e tudo acabe. Ele também quer que Suguru não tenha aquele olhar infeliz e que volte a segurar seu braço. Satoru está sobrecarregado.

Satoru não sente falta do antigo treinamento, mas pelo menos, quando seu Infinito caia, ele sabia que haveria dor imediatamente. Um puxão nos seus braços, um soco no seu rosto, uma faca tentando penetrar na sua pele. Um estímulo físico para ele associar a falta do Infinito ao perigo. Era ação e reação. Erro e consequência. Somar dois mais dois.

Agora, Satoru espera sentir aquela dor, mas não vêem. Não de forma imediata. O que parece pior, a ansiedade de estar desprotegido, de não saber quando, onde, como ele seria machucado, era cruel.

Mas o pior era que, uma parte de Satoru, uma parte que parecia grande demais, não queria que o Infinito levantasse, porque então Suguru o seguraria de novo, ele estaria perto, pele contra pele, e aquilo parecia… bom.

Porque agora o braço de Satoru, sem o toque de Suguru, parecia vazio. Parecia estranho, como se algo estivesse faltando, como se uma parte do corpo de Satoru tivesse simplesmente caído. Ou como se uma ferida tivesse sido aberta e estivesse lá exposta.

Satoru acha que estaria disposto a correr o risco de sentir dor, se pudesse ter a possibilidade de ser tocado por Suguru de novo.

Esse pensamento cruza a mente de Satoru tão repentinamente e o pega tão desprevenido que a visão dele fica totalmente preta por um segundo. Ou talvez isso fosse simplesmente uma reação à falta de oxigênio no cérebro.

Satoru usa a mão direita para apertar os olhos e a mão esquerda volta a massagear o próprio peito. Seus joelhos estão levemente flexionados e tremendo, ele usa toda força que resta para se manter de pé e voltar a respirar grandes lufadas de ar. Desmaiar ia ser a humilhação final para Satoru, então ele precisava se recompor imediatamente antes que acabasse sem dignidade abraçando o chão do quarto de Suguru.

“Satoru…” Suguru começa a chamar seu nome, mas Satoru levanta a mão esquerda para impedí-lo.

“N-não, eu…” Satoru tenta falar, mas se engasga e tosse. “P-porra… E-eu… Eu estou bem. Eu… só preciso… respirar e aí… eu vou… hm… quarto, é isso, eu vou respirar e aí… vou para o meu quarto…”

É extremamente doloroso tentar respirar fundo e falar, pior ainda quando a cabeça de Satoru parece prestes a explodir de dor e seu corpo estivesse lutando para controlar os tremores de exaustão.

“Sato…”

“Bem, muito… bem.” Satoru respira fundo uma última vez e ajeita a postura, a mão direita se afasta do seu rosto e seus olhos voltam a enxergar o quarto de Suguru, a princípio a imagem é embaçada, mas as cores e formas se tornam nítidas em poucos segundos. O que é bom, mas também é horrível, porque agora Satoru tem que lidar de novo com a imagem cristalina de Suguru.

O rosto preocupado de Suguru, os olhos desesperados de Suguru, as mãos de Suguru levantadas em direção a Satoru, como se estivesse pronto para pegá-lo a qualquer segundo.

Mesmo que Satoru não tivesse os Seis Olhos, ele sabe que essa visão seria avassaladora para os seus sentidos. Ele precisava se afastar dali imediatamente.

“Você pode… hm, você pode, tipo, dar um passo para o lado, por favor?” É humilhante ter que proferir essas palavras, mas Satoru se sente fisicamente fraco o suficiente para admitir que precisava de ajuda no momento. E a ajuda era Suguru se afastar para Satoru passar, porque ele estava com medo demais para simplesmente sair andando e correr o risco de encostar em Suguru de novo e ser mandando de volta para o vórtex de ansiedade que ele estava.

Suguru parece confuso, seus lábios se abrem e fecham algumas vezes antes de ele olhar ao redor e então de volta para Satoru.

“Eu… huh?”

“Só… por favor, você pode só, se afastar? Um pouco? Tipo, ficar no canto do seu quarto? Eu quero… eu preciso sair e ir para o meu quarto. Nesse exato momento. Então, será que você pode só…” Satoru faz um gesto de abanar com a mão direita, para sinalizar o lado para qual Suguru tinha que ir, o lado oposto a porta.

Muitas emoções cruzam o rosto de Suguru em um único segundo, mas ele é rápido em se recompor e dar vários passos para o lado, liberando o caminho para Satoru passar.

“Hm, obrigado, amigo.” Satoru agradece e sai do quarto sem pensar duas vezes. Suas pernas se movem agilmente e o levam para o outro lado do corredor em um segundo, as mãos indo de encontro a maçaneta da porta e a abrindo freneticamente.

“Satoru!” A voz de Suguru para o movimento de Satoru, que estava prestes a bater a porta atrás de si. Satoru levanta o rosto e encontra os olhos de Suguru. Eles ficam em um silêncio suspenso por alguns segundos até Suguru voltar a falar. “Você… você vai ficar bem?”

Suguru parece genuinamente angustiado quando profere aquelas palavras, o que faz o peito de Satoru voltar a doer.

“Eu…” Satoru não sabe o que responder. Ele está tão cansado que quer dizer simplesmente que não sabe, ou que tem certeza que não ficará bem. Porque ele nem sabe o que está sentindo, o que está acontecendo, o que ele vai fazer. Satoru se sente perdido de uma forma que poucas vezes já sentiu. Mas há também uma outra urgência de extinguir aquela angústia de Suguru. E isso parece mais importante do que qualquer coisa. “Sim, eu vou ficar bem, Suguru. Prometo.”

Então Satoru sorri, é um sorriso cansado, mas sincero. Suguru espelha o sorriso de Satoru e é a última coisa que Satoru vê antes de encostar a porta, fechar os olhos e se jogar na cama.

Satoru praticamente desmaiou de exaustão assim que deitou. Ele queria organizar os pensamentos e testar o Infinito antes de descansar, mas assim que seu corpo entrou em contato com o colchão macio o sono o levou. Satoru acordou horas depois, tudo já estava escuro e quando ele olhou a hora no celular, viu que já era quase meia noite. Ele também viu que Suguru tinha mandando mensagens perguntando como Satoru estava, se tinha conseguido descansar, se estava com fome e uma de quase uma hora atrás dizendo que ele tinha deixado uma garrafa de água e donuts, da padaria que Satoru gostava, na frente da porta dele.

Satoru decidiu que não queria explorar os sentimentos que estava sentindo naquele momento, ele precisava ser prático e profissional. Ele se certificou que não havia ninguém no corredor, para então pegar a água e a comida que Suguru tinha deixado para ele. Satoru precisava do maior tempo possível sozinho para conseguir reorganizar os próprios pensamentos. A água foi muito bem-vinda para garganta seca de Satoru, assim como os donuts de chocolate e morango que melhoram automaticamente seu humor. Depois disso, Satoru foi até o banheiro e tomou um banho rápido para tirar todo o suor do corpo. O horário possibilitou que ele não encontrasse ninguém pelo caminho.

Quando Satoru deita na cama de novo, se sente bem melhor, seus músculos ainda estão doloridos de toda a tensão que foram submetidos mais cedo e a dor de cabeça não tinha passado por completo, porém pelo menos ele não está mais com sede ou se sentindo nojento.

Mas o silêncio da madrugada deixa os pensamentos de Satoru altos demais. Pensar sobre a falha do Infinito e a reação subsequente de Satoru é angustiante e embaraçoso. Saber o quão sem controle Satoru poderia ficar é alarmante, ainda mais quando não houve nenhum motivo aparente para tudo isso.

Satoru passa a maior parte da madrugada acordado, sem sequer conseguir fechar os olhos. Ele avalia o ocorrido de todos os ângulos, repassa tudo que sabe sobre a própria técnica, cria cenários imaginários terríveis e quando é quase de manhã, ele consegue dormir de novo.

O dia seguinte é desconfortável, para dizer o mínimo.

Satoru acorda atrasado e está sem os seus óculos, que ele tinha esquecido no quarto de Suguru. Ele pula o café da manhã e quando entra na sala de aula, Yaga já está explicando algo, o que lhe rende uma carranca e um praguejar audível. Satoru se atrasar não é uma novidade, então Shoko nem pisca quando Satoru se joga na cadeira. Yaga também continua a explicação sem se importar em contextualizar o que está falando. O único que presta atenção em Satoru é Suguru.

Satoru sentiu o olhar de Suguru assim que colocou o primeiro pé dentro da sala, seguindo todos os seus movimentos sem se importar em sequer ser discreto. Satoru pretendia fingir que nada estava acontecendo, mas por mais que seu rosto estivesse impassível enquanto encarava Yaga, era impossível não sentir os olhos de Suguru pregados nele.

Depois de alguns minutos de Satoru tentando fingir que não sentia Suguru o fuzilando com o olhar, ele finalmente se rende e dá um longo suspiro. Satoru então encara Suguru com a mesma intensidade.

É desconcertante ter que ficar cara a cara com Suguru depois do que aconteceu, ainda mais sem os óculos para proteger um pouco o seu rosto (e dignidade). Mas Satoru sabe que seus olhos azuis podem ser perturbadores de encarar, então ele se aproveita disso para lançar um olhar profundo que consiga transmitir tudo que ele não pode falar em voz alta: por favor, cale a boca, não pergunte nada, finja que nada aconteceu, não fique me olhando como um esquisito até todo mundo começar a me olhar também e eu ser obrigado a dizer o que aconteceu ontem.

Suguru parece entender exatamente o que Satoru diz com os olhos, porque ele respira fundo e vira o rosto, voltando sua concentração para a explicação de Yaga. Satoru suspira aliviado e faz o mesmo.

“Como você está se sentindo?” Suguru pergunta assim que eles ficam sozinhos.

Satoru já esperava por isso, agradeceu internamente que Suguru tenha agido como se nada tivesse acontecido durante a aula e o almoço, fazendo perguntas para Yaga, estudando com Shoko e zombando de Satoru como se fosse qualquer outro dia normal. Até dando um jeito de devolver os óculos de Satoru discretamente como se esquecê-los com Suguru fosse apenas algo normal do cotidiano. Suguru parece entender que expor a situação de Satoru naquele momento era a última coisa que ele queria, porque Suguru entendia Satoru melhor do que ele mesmo.

Mas Suguru era alguém preocupado, então Satoru sabe que não tem escapatória.

“Bem, ótimo, perfeito na verdade, e você?” Satoru responde, com um grande sorriso no rosto. Suguru franze as sobrancelhas.

“Satoru…” Suguru diz como se estivesse repreendendo uma criança mal educada.

“Estou bem, de verdade! Eu tive um lapso momentâneo ontem, tá bem? Temos coisas bem mais importantes para se concentrar, como, por exemplo, meu Infinito. Preciso da sua ajuda para testar se está funcionando, eu fiquei pensando no que pode ter acontecido e acho que você estava certo, sobre o calor e tudo mais. Me sinto ótimo hoje, então preciso que você, sei lá, tente me dar um soco ou jogue algo na minha direção, beleza?” Satoru fala rápido, sabe que está soando mais nervoso do que gostaria de demonstrar, mas o Infinito não funcionando era um problema impossível de ignorar, então quanto antes voltasse ao normal, melhor para a saúde física e mental de Satoru.

“Não vou te dar um soco, Satoru! Mesmo você merecesse um…

“Ei!”

“Não seria certo te acertar agora, não depois de você quase ter desmaiado no meu quarto ontem.”

“Eu não ia desmaiar” Satoru totalmente ia desmaiar e sabe que Suguru também sabe disso.

“Não importa, sua cabeça já está ferrada o suficiente, não vou contribuir para aumentar sua estupidez. Eu posso simplesmente te tocar.”

E Suguru faz isso.

Como se não fosse nada, Suguru estende a mão e toca na bochecha de Satoru.

É como levar um choque, é súbito e faz Satoru congelar como no dia anterior. O toque de Suguru continua gentil, os dedos mal pressionando o rosto de Satoru, mas assim como o primeiro toque, é avassalador. Quente. Intenso. Convidativo.

Satoru dá um passo para trás, se afastando da mão de Suguru e substituindo pela própria, que tapa a bochecha como se ele tivesse sido machucado.

“Ah… huh… N-não era isso… Eu não estava preparado!” Satoru briga, sabe que está com o rosto vermelho porque tem a sensação como se toda sua cabeça estivesse pegando fogo.

“Você não disse que o Infinito é algo inconsciente e está sempre ativado? Você não deveria ter que se preparar se esse fosse o caso.” Suguru responde, mas baixa as mãos e não tenta se aproximar de Satoru novamente.

“Ele é inconsciente e sempre está ativado, só não… Agora.” Satoru suspira frustrado, a ansiedade está começando a se enrolar pelo seu estômago de novo e é preciso toda força de vontade para não cair em outra crise de ansiedade. “Certo, vamos tentar de novo. Estou pronto agora, você pode… me tocar.”

Suguru franze a sobrancelha, não parecendo estar nada convencido das palavras de Satoru, mas ele dá um passo para frente e estica o braço de novo.

Tudo parece estar em câmera lenta. Satoru aperta os punhos ao lado do corpo, a garganta fechada, uma gota de suor escorrendo pelo rosto enquanto os olhos seguem a mão de Suguru.

Suguru se aproxima, se aproxima, se aproxima…

E toca no rosto de Satoru de novo.

Satoru não consegue conter o gemido de frustração que escapa dos seus lábios.

“Porra, porra, porra!” Satoru xinga e se afasta de Suguru, encarando a mão do amigo como se fosse uma arma mortal apontada para ele.

“Satoru, calma, respire fundo.” Suguru está usando a voz tranquilizadora de novo e Satoru quer gritar. “Isso não é o fim do mundo.”

“Não, Suguru, você não entende! Isso é sim o fim do mundo, do meu mundo, pelo menos. Eu sou intocável, eu preciso ser in…” Satoru vê com o canto dos olhos uma maçã batendo no seu Infinito, próximo ao seu rosto. Ele fica mudo.

“Vocês dois estão discutindo de novo? É impossível para vocês agirem como qualquer coisa senão um casal de casados há cinquenta anos?” Shoko zomba enquanto se aproxima, ela tem outras duas maçãs na mão, uma tem uma mordida, a outra ela estende em direção a Suguru, que encara Satoru com uma expressão de surpresa que provavelmente reflete o próprio rosto de Satoru.

Satoru olha para o chão, próximo dos seus pés está a maçã que quase acertou o seu rosto.

“Não vai me dizer que era algo realmente sério?” Shoko questiona e Satoru sai do torpor.

“Huh, Suguru estava me dando um sermão por me atrasar.” Satoru fala com um sorriso de canto, ele coloca as mãos no bolso para esconder as mãos e fingir tranquilidade.

“Não sei porque ele ainda tenta te fazer uma pessoa melhor, sinceramente.”

“Não seja rude comigo, Shoko! Sou a melhor pessoa que você conhece!”

“Sim, depois de todas as outras, com certeza você é.”

Quando Satoru olha para Suguru, ele o está encarando atentamente e em silêncio, parece contemplativo, como se estivesse resolvendo uma equação. Satoru levanta uma sobrancelha de forma questionadora, mas Suguru apenas desvia o olhar, aceitando a maçã de Shoko e agradecendo.

O acordo tácito de silêncio entre eles continua até Shoko ir embora dizendo que vai encontrar Utahime para um café.

“Quero testar uma coisa, vem comigo.” É tudo que Suguru diz antes de começar a andar, sem maiores explicações ou olhar para trás para ver se Satoru está de fato o seguindo. Satoru quer ser mais difícil, mas infelizmente está curioso e confia demais em Suguru para questioná-lo antes de se resignar a apenas seguí-lo em silêncio para seja lá qual fosse o lugar.

Testar uma coisa se revelou testar Satoru e seu Infinito. Suguru simplesmente levou Satoru de um lado para o outro do Colégio Jujutsu e fez ele interagir com pessoas e situações diferentes. Desde uma das suas maldições, atacando de surpresa, mas sendo facilmente impedida pelo Infinito, até pedir para Haibara jogar um lápis na cabeça de Satoru, que também não chegou nem perto de tocar Satoru.

Eles agora estavam sentados na cama de Suguru, como no dia anterior.

“Meu Infinito está funcionando, aparentemente..” Satoru diz, as costas na parede, os óculos no rosto e um lápis na mão.

“Aparentemente, sim.” Suguru responde, sentado ao lado de Satoru, o cabelo preso no mesmo coque bagunçado de sempre.

“Então por que isso…” Satoru cutuca o ombro de Suguru — ombro esse que está encostando no braço de Satoru, pele contra pele, como se o Infinito não estivesse funcionando — com o lápis. Suguru dá um gemido de dor e pega o lápis da mão de Satoru. “...está acontecendo?”

Suguru suspirou audivelmente antes de falar, como se estivesse prestes a dizer algo muito difícil.

“Olha, eu tenho uma teoria.”

“Sou todo ouvidos.”

“Eu acho que você se sente seguro demais comigo.” Suguru fala e olha para Satoru, como se não tivesse dito a coisa mais embaraçosa do mundo. Satoru sente o rosto esquentar imediatamente e desvia o olhar.

“Não seja tão convencido, Suguru.”

“Estou falando sério, Satoru. Eu acho que você simplesmente… confia em mim. Que eu não vá te machucar, pelo menos. Você mesmo disse que estava treinando seu Infinito para mantê-lo ativado vinte e quatro horas por dia, repelindo o que era uma ameaça e não fazendo nada se não havia nenhum risco a você. E passamos o tempo todo juntos. Acho que seu inconsciente só… se sente seguro comigo.” Suguru pelo menos parece hesitante agora, não mais encarando Satoru, mas sim a própria mão que brinca com o lápis.

“Hmpf, isso é um inconveniente.” Satoru murmura, sem saber o que falar, porque, infelizmente, ele acha que Suguru pode ter razão.

Usar o Infinito de forma constante exigia física e psicologicamente muita energia de Satoru, então para conseguir aproveitar melhor a técnica, ele estava treinando para gerenciar o que o Infinito repelia ou não. Mas seu treinamento no Clã Gojo ainda estava enraizado dentro de si e o que o Infinito considerava uma ameaça era noventa por cento de tudo que o cercava. Toques de pessoas faziam parte desses noventa por cento.

Mas, de fato, Satoru estava sempre com Suguru. Eles passam todos os dias juntos há meses. E Suguru nunca tinha machucado Satoru de propósito. Mesmo nos treinamentos, Suguru modera a força com que acerta Satoru e o obriga a deixar Shoko examiná-lo para ter certeza de que está tudo bem.

Suguru também sempre lembra Satoru de beber água, constantemente entregando uma garrafa para ele, leva Satoru para almoçar fora quando nota que ele está comendo muitos doces, briga quando vê que Satoru tem olheiras porque passou a noite jogando Digimon. O bem-estar de Satoru, aparentemente, parecia muito importante para Suguru. O que Satoru não tinha percebido até então, mas seu inconsciente, sim.

Mas Satoru não sabe o que fazer com o conhecimento de que seu corpo e sua mente se sentem seguros com Suguru o suficiente para nem considerarem usar o Infinito com ele. Satoru se sente completamente exposto, de uma forma que nunca se sentiu antes.

É mais aterrador porque as vozes repetindo que Satoru deveria ser intocável não ficam em silêncio nem por um segundo.

“É recíproco.”

Satoru estava tão perdido em pensamentos que a voz de Suguru o assusta a princípio. Satoru olha para o amigo, o óculos deslizando o suficiente para que seus olhos azuis fiquem expostos quando faz isso. Suguru encara Satoru, uma honestidade e vulnerabilidade expostas em cada traço do seu rosto e da sua voz.

“Eu me sinto seguro com você também, Satoru.”

Algo se contorce no interior de Satoru, seu estômago fica embrulhado e seu coração começa a bater mais forte. Ele está ansioso. Mas ao contrário da ansiedade aterrorizante e amarga que ele está acostumado, aquilo parece quente e estimulante, mais parecido com o que Satoru sente quando come um doce muito bom.

Satoru desvia o olhar de novo e se acomoda melhor na cama, deixando o peso do corpo descansar no braço de Suguru. A princípio, Suguru parece tenso com o movimento, mas logo relaxa, deixando-se afundar no colchão também, enquanto sustenta Satoru sem questionar.

Certo, então havia o tal do Dilema do Ouriço. Satoru só se lembra dele porque achou o nome engraçado quando leu a primeira vez. Ele era jovem demais para ler livros de filosofia, mas o que não faltou na sua infância foram horas solitárias para vagar na grande biblioteca do Clã Gojo. Muitos livros foram começados e nunca terminados, ou folhados na busca de algo que prendesse a atenção de Satoru. O Dilema do Ouriço captou o interesse imediato do jovem Satoru. Parecia o nome de um conto divertido, mas estava dentro de um livro aparentemente sério de filosofia.

Na época, Satoru não entendeu muito bem aonde aquele dilema queria chegar. Uma parábola sobre ouriços fictícios sofrendo de frio, sem uma solução que não fosse dolorosa para resolver o problema. O autor usou o conto como metáfora para explicar porque os seres humanos necessitam de interação social, mas Satoru só conseguia pensar em como isso não fazia sentido, já que ouriços tinham espinhos e seres humanos não. E ouriços não tinham roupas para frio ou sabiam fazer uma fogueira, já seres humanos tinham diversas roupas e até lareiras, então não precisavam se abraçar ou qualquer coisa para sobreviver ao frio. Então, para Satoru, a analogia não demonstrava utilidade alguma.

Porém, por algum motivo, Satoru nunca conseguiu esquecer dessa parábola e agora não consegue parar de pensar nesses malditos ouriços e seus malditos dilemas. Principalmente agora, com Suguru o encarando com gentileza nos olhos e um silêncio paciente pairando entre eles.

“Isso é estúpido.” Satoru murmura petulante, fingindo estar muito concentrado no PSP que tem nas mãos, onde o jogo de Digimon que ele começou naquela manhã o aguarda na tela.

“Satoru.” O tom condescendente de Suguru faz Satoru suspirar.

Satoru deveria ter previsto que isso aconteceria. Depois de todo o episódio do Infinito, Suguru tinha mudado com Satoru. Ele continuava seu melhor amigo idiota — zombando de Satoru sempre que tinha oportunidade, não medindo palavras, provocando Satoru com maldições, dando sermões morais e tudo mais. Porém, a postura preocupada e cuidadosa de Suguru estava ainda mais presente. Os olhos de Suguru agora pareciam seguir Satoru, observando atentamente como se estivessem constantemente zelando por ele.

Satoru está dividido, ele acha esse comportamento estranho e irritante — e também aconchegante e cativante. Satoru não é estranho a ter a atenção de Suguru para si, ele busca por isso na maior parte dos dias, porém parecia que o ar entre eles tinha mudado e se transformado em algo que Satoru ainda não conseguia entender completamente.

Entretanto, Satoru sabia que também era questão de tempo até Suguru cansar do acordo tácito de silêncio entre eles e finalmente colocar Satoru contra a parede — metaforicamente porque ele nunca faria isso de verdade desde que viu Satoru surtar da última vez.

Por isso agora Satoru estava sentado na própria cama, as costas no travesseiro, o PSP nas mãos, os óculos no rosto e doces espalhados pela cômoda. Quando Suguru entrou no quarto de Satoru, com os braços cheios de guloseimas e um sorriso no rosto, tudo parecia normal. Satoru o deixou entrar e se jogou na cama, já imaginando que filme eles poderiam assistir. Ele foi um tolo por não ver que tudo isso era uma farsa.

Suguru deixou Satoru todo confortável, apenas para sentar na frente dele, sorrir com os olhos fechados, abrir a boca e soltar: “Satoru, podemos conversar sobre o que aconteceu?”.

Satoru gemeu de desgosto tão alto que Suguru jogou um travesseiro na cara dele, o Infinito, como sempre, não fazendo nada para impedir o homem de cabelos pretos.

Satoru sabia que isso tudo era culpa daqueles malditos ouriços.

“Não quero fazer uma sessão de terapia, Suguru! É sábado! Somos jovens, a gente devia é estar fazendo coisas normais de jovem: jogar videogame, ver filmes, comer doces até vomitar, sair voando no seu dragão arco-íris e tudo mais.”

“Voar no meu dragão arco-íris é uma coisa normal de jovens fazerem?” Suguru questiona irônico, com seu sorriso inabalável mesmo sob o comportamento infantil de Satoru.

“Sim, quando se é o mais forte, e somos os mais fortes, então é normal pra gente.” Satoru retruca enquanto vê as palavras GAME OVER brilhando na tela do PSP.

“Claro, Satoru, o que você quiser.”

“Não seja condescendente, Suguru!”

“Não seja, pirralho, Satoru.”

Satoru revira os olhos e começa um novo jogo, fazendo de tudo para fingir que não estava incomodado em ser confrontado dessa forma, mas sabia que Suguru não estava comprando nenhum um pouco isso, porque ele continuava lá o encarando, pacientemente.

“Não quero te pressionar a nada, Satoru, nem fazer você se sentir mal. Mas a gente precisa conversar sobre o que aconteceu naquele dia.” A voz compreensiva de Suguru soa opressora nos ouvidos de Satoru, que se encolhe mais ainda, se escondendo atrás dos óculos e do PSP enquanto sente o próprio corpo ficando tenso.

“Realmente não precisamos. Aconteceu e passou. Eu surtei porque fui pego desprevenido, fiquei surpreso, só isso. Meu Infinito continua funcionando perfeitamente e eu confio que você não vai me machucar. Já falamos sobre isso. Fim. Hora de doces e dragão arco-íris.”

“Eu te trouxe doces e podemos passear com o dragão arco-íris depois. Agora, uma coisa é você surpreso, eu conheço você surpreso porque é muito parecido com você confuso ou ofendido: você faz uma careta e solta um huh, como se ficasse indignado demais em alguém fazer ou falar algo que você não espera ou não entende.”

“Huh?” Satoru faz uma careta e fecha a expressão quando percebe o que fez. Com o rosto quente de vergonha, Satoru revira os olhos e ajeita os óculos. “Tanto faz, eu posso ter outras reações que você ainda não conhece, Suguru, sou uma caixinha de surpresas.”

“De fato, tem muitas reações suas que eu não conheço ainda, infelizmente. Mas aquilo não foi só surpresa, você estava em pânico.”

“Não fico em pânico.” Satoru responde rápido demais. Suguru aperta os olhos.

“Você ficou.”

“Não fiquei!”

“Você estava tremendo e hiperventilando, Satoru. Você quase desmaiou.

“Mas não desmaiei! Porque eu não estava em pânico.”

“Satoru, eu nunca te vi chorar e você chorou porque eu te toquei e…”

“EU DEVERIA SER INTOCÁVEL!” Satoru levanta a voz enquanto estica as costas e se eleva sob Suguru. O PSP é jogado de qualquer jeito na cama enquanto Satoru arranca os óculos do rosto para encarar Suguru. “Você sabe qual é o princípio básico da minha técnica? Qualquer coisa que se aproxima do infinito desacelera e nunca alcança o usuário. É isso que o Infinito faz. E só eu posso usá-lo perfeitamente porque só eu tenho os Seis Olhos. Então, qualquer coisa que tente se aproximar de mim vai falhar. Porque eu nasci para ser o mais forte e o mais forte é intocável, Suguru.”

Suguru encara Satoru em silêncio, os olhos levemente arregalados e sem mais seu sorriso tranquilizador.

“Você sabia que quando eu nasci, a balança de poder do mudo Jujutsu mudou, né? Porque fazia quatrocentos anos que ninguém tinha nascido com o Infinito e os Seis Olhos. Até que Gojo Satoru nasceu.”

Satoru se encosta de novo nos travesseiros apoiados na cabeceira da cama, a mão direita traz os óculos até a altura do rosto e ele o analisa fingindo interesse.

“Eu não sou uma pessoa normal, nunca fui. Eu sou uma arma valiosa. E como arma, eu posso ajudar ou causar um estrago bem grande. Quando outra pessoa falha, é só um erro qualquer insignificante. Se o Haibara levar um golpe de uma maldição é só mais um dia. Se eu falhar, se eu levar um golpe, isso pode afetar todo o mundo Jujutsu. Ser tocado significa que eu falhei. Significa que eu tenho uma fraqueza e eu não posso ter nenhuma fraqueza”

Satoru continua concentrado no óculos, enquanto Suguru absorve suas palavras em silêncio. Quando Satoru fala de novo, é com a voz baixa, quase um murmúrio:

“Quando você me tocou, você passou pelo Infinito como se ele nem existisse, como se não fosse nada. Você poderia ter me machucado se quisesse, poderia até ter me matado, eu estaria muito distraído para conseguir te impedir. Isso me assustou. Muito. Me assustou ainda mais porque você não me machucou, mesmo que pudesse, mesmo que ainda possa.”

“Eu não vou. Nunca” Suguru fala instantaneamente, sem nenhum tipo de hesitação, com uma certeza e um tom como se implorasse para Satoru acreditar naquelas palavras. E Satoru acreditava.

“Eu sei.”

Um silêncio se instala entre eles, Suguru parecendo estar ocupado assimilando tudo o que foi dito e Satoru fingindo não estar a beira de outro ataque de nervos por ter se exposto tanto.

Quando Satoru cria coragem de levantar os olhos dos óculos para o rosto de Suguru, ele encontra o homem com uma expressão de conflito. Os olhos violeta de Suguru estão analisando o padrão da coberta de Satoru, as mãos fechadas em punho e os lábios entreabertos, como se estivesse criando coragem para falar algo.

“O que foi?” Satoru questiona, o sentimento de não saber o que se passava na cabeça de Suguru era enervante.

“Hm, Satoru…” Suguru começa, então umedece os lábios, suspira e finalmente encara Satoru. “Como foi o treinamento do clã Gojo?”

“Huh?” Satoru franze a testa confuso com a pergunta.

“Você comentou que foi treinado, que sua técnica teve que ser desenvolvida. Como foi esse treinamento que você recebeu?” Suguru pergunta, uma calma falsa se escondendo no seu tom. Aquela pergunta parecia esconder algo também, mas Satoru não tinha certeza onde Suguru queria chegar com aquilo.

“Hm, normal, acho? Não totalmente normal, porque eu não sou qualquer um, mas tipo, o de sempre dos clãs, sabe?”

“Não, não sei. Eu passei toda minha vida longe do mundo Jujutsu, lembra? O que é normal para um clã no meio Jujutsu fazer?” Suguru pressiona, ainda calmo, mas incisivo.

Certo, então realmente tinha algo por trás daquela pergunta. Satoru sente o nervosismo se infiltrando embaixo da pele. Colocando o óculos na cômoda, Satoru decide se ocupar escolhendo um dos doces que Suguru tinha trazido.

“Clãs são meio conservadores, por assim dizer. Eles prezam uma educação formal e um treinamento rigoroso, todas essas chatices. E como eu nasci com o Ilimitado e os Seis Olhos, eu fui meio que o centro das atenções, sabe? Então, desde cedo todos os professores mais fortes do clã foram encarregados de me ensinar tudo sobre o clã Gojo, sobre as técnicas, as maldições. E também foram responsáveis por me ajudarem a aperfeiçoar as minhas técnicas, principalmente o Infinito.”

Satoru pega um pacote com Kikufuku Mochi e começa a abri-lo, ansioso para sentir o sabor doce na boca.

“E como eles te ajudaram a aperfeiçoar as suas técnicas?” Suguru pergunta enquanto Satoru está ocupado abrindo o pacote de plástico.

“Com todo tipo de treinamento. Como você sabe, o propósito do Infinito é não deixar nada me tocar, então basicamente eles ficavam tentando me acertar enquanto eu tinha que manter o Infinito ativado. Eu tive que aprender combate corpo a corpo também e todas as regras chatíssimas das maldições, mas como o Infinito era uma das coisas mais valiosas em mim, acabou sendo o foco dos treinamentos.” Satoru enfia o doce na boca de uma vez só, aliviado por ter algo para fazer fora ter que falar do clã Gojo, que realmente não era seu tópico de assunto favorito. O sabor doce o deixa automaticamente mais relaxado e feliz.

“Com que idade começou os treinamentos?” Suguru questiona, o olhar pesado em Satoru.

“Hmm, eu… não lembro exatamente? Quer dizer, acho que desde sempre? Não tudo, mas como eu sofri atentados desde que eu nasci, eu também sempre fui treinado para ser intocável. Quando eu tinha acho que uns quatro anos ou algo assim, eu tinha um ursinho que eu adorava, andava pra lá e pra cá com ele, porque ele tinha olhos azuis e como eu tinha olhos azuis eu achava muito legal, enfim. Eles faziam um jogo comigo, eu tinha que conseguir usar o Infinito para impedir minhas babás de pegarem o urso de mim. Se eu não conseguisse usar a técnica direito, eles trancavam o urso em um baú até o outro dia. Foi realmente muito útil porque eu sempre odiei não ter o que eu queria, então depois de perder o urso umas três vezes, eu me tornei profissional em ativar o Infinito a tempo quando alguém estendia a mão na minha direção.”

Satoru dá um sorriso com o fim da história, mas quando olha para Suguru, só recebe uma expressão horrorizada em resposta. Hm, estranho. Satoru sente o fim do doce na boca e começa a procurar outro para poder desviar o olhar do rosto de Suguru.

“Você… Hm… Certo.” Satoru ouve Suguru respirar fundo e começar a se movimentar, sentando agora com as pernas na cama e o corpo virado totalmente de frente para Satoru. “Vou ser sincero, Satoru, naquele dia que você… Enfim, naquele dia, você comentou algo e eu não paro de pensar sobre isso. Você disse que sofreu queimaduras de segundo grau quando tinha oito anos e usou o Infinito logo depois.”

Satoru pega um pacotinho de Daifuku de matcha e abre, colocando um na boca em seguida. Ele volta a se recostar no travesseiro que está nas suas costas e finalmente encara Suguru de novo. Suguru parece tenso, postura ereta, as mãos no colo e uma expressão no rosto dividida entre claramente irritado e fingindo que estava tranquilo. Uma expressão que Satoru já tinha visto sendo dirigida a usuários de maldições que faziam coisas particularmente ruins, como machucar crianças.

Ver esse rosto sendo direcionado a ele era desconcertante e também confuso. Foi Suguru que o pressionou a falar como sessão de terapia e agora estava irritado?

“Hm, sim? Eu disse isso, e daí?” Satoru questiona e coloca mais um Daifuku na boca, o sabor ainda era doce e bom, mas não tão bom quanto seria se ele estivesse apreciando essa iguaria enquanto eles estivessem assistindo algum filme trash de terror.

Suguru fecha os olhos e respira fundo, como se tivesse tentando se acalmar, como se Satoru tivesse feito uma pergunta idiota, o que só serve para deixar Satoru mais irritado. Ele enfia mais um doce na boca para se impedir de começar a brigar com Suguru.

Quando Suguru volta a abrir os olhos, ele olha profundamente para Satoru.

“Como você sofreu essas queimaduras? Foi um acidente?” Suguru pergunta, usando o tom de voz falsamente calmo.

“Bom, se por acidente você quer dizer que não deveria acontecer, sim, foi um acidente. Fui acidentalmente um idiota. Em minha defesa, eu já estava de saco cheio naquele dia, eu queria sair para brincar e eles continuavam fazendo testes. Tinha uma lista de coisas que eu deveria impedir e o fogo era tipo, uma fácil, mas eu fiquei resmungando e querendo fazer tudo rápido e aí acabei com uma queimadura de segunda grau e não pude sair para brincar de qualquer jeito, o que foi péssimo. Mas também nunca mais me queimei.”

“Eles… Eles te queimaram como treinamento? Quando você tinha 8 anos?” Suguru pergunta, dessa vez sem esconder a raiva que pingava a cada palavra que ele proferia. Nada mais parecia suave na sua expressão, seu rosto também não estava mais dividido querendo esconder a revolta que ele parecia estar sentindo.

“Hm, mais ou menos? Quer dizer, me machucar não era o objetivo fora as punições, nos treinamentos o foco era tipo, me treinarem, então eles queriam que eu não me machucasse, que eu aprendesse a usar meu Infinito em qualquer situação.”

Certo, Satoru deixou as palavras fluírem porque essa era a explicação padrão e algo que ele gostava de acreditar, mas tinham um gosto amargo porque ele também sabia que estava ignorando algumas coisas. Como o fato de muitas pessoas no seu clã não gostarem dele e alguns dos seus treinadores sorrirem felizes quando o Infinito de Satoru falhava depois de um dia inteiro de ele se comportando como um pirralho mimado.

Mas essas situações pareciam exceções, porque Satoru sabia que o objetivo dos treinamentos era tornar ele melhor e mais forte. E ele sabia que eles não tinham escolha. E que ele também não tinha escolha. Não importava o quanto doesse. Era o que era, no fim das contas.

“Então eles simplesmente jogavam armas em você? Fogo? Te empurravam até você ficar cheio de contusões? Até você não deixar o Infinito escapar nem por um segundo?” Suguru questiona, mordaz, as mãos em punhos no colo.

Satoru sente uma pressão no peito e sabe que é ansiedade, que estava lá esse tempo todo, mas que sempre era mais silenciosa quando ele estava com Suguru. Porém, naquele momento, vendo toda raiva de Suguru e tendo que ser lembrado do seu passado no clã, estava crescendo e se tornando forte e opressora.

Satoru consegue sentir cada palavra que Suguru proferiu na pele. Eles simplesmente jogavam armas em você? Sim, facadas, e flechas, e pedras, e lanças e qualquer coisa que machucasse. Um corte feio se abriu no seu braço direito na primeira vez que ele estava conversando com um dos seus professores e ele atirou uma faca sem aviso. Quando o sangue começou a manchar sua roupa clara e formar uma poça no chão, Satoru só podia ouvir calado o sermão de como era vital Satoru estar sempre pronto para qualquer coisa, porque o inimigo não anunciava um ataque. Fogo? Obviamente, porque fogo era um perigo, e explosões, e coisas tóxicas. Esse treinamento era normalmente moderado, Satoru poderia treinar com uma mão em cima de uma vela, aproximando a pele devagar até o Infinito esbarrar na chama. Isso se ele não estivesse agindo como um pirralho e seu professor perder a paciência e puxar sua mão sem aviso para uma chama acesa, causando uma queimadura que doeria por semanas. Te empurravam até você ficar cheio de contusões? Essa era a mais clássica, Satoru sempre achou combates e lutas corpo a corpo uma chatice, então na maior parte do tempo ele se recusava a cooperar, dizendo que seu Infinito e suas outras técnicas eram o suficiente, que ele não precisaria sair socando ninguém. Então eles o cercariam e o fariam passar horas impedindo os ataques que vinham, vários professores tentando o agarrar, o chutando, dando socos, gritando. Aguardando o momento que o Infinito deslizaria por um segundo, para então acertar Satoru com força e sem parar, até ele estar encolhido no chão, engolindo o choro enquanto era lembrado de que, se ele soubesse se defender e lutar, nada daquilo estaria acontecendo.

Satoru sabia daquilo melhor do que ninguém e não era algo que ele gostava de ser lembrado, então por que Suguru continuava falando aquilo como se estivesse irritado por Satoru não entender algo?

“Clãs não são conhecidos por serem os melhores lugares do mundo, Suguru, mas é o que é. Eu precisava receber treinamento se quisesse ser o mais forte. E agora eu sou. Então no fim, eles estavam certos. Eles eram chatos, pedantes e não gosto de nenhum deles, mas o treinamento deu certo. Valeu a pena”

Satoru estava preparado para Suguru perder o resto da paciência que ele estava fingindo ter, esperava que ele suspirasse, revisasse os olhos, olhasse com irritações e depois deixasse para lá, como acontecia quando algo o irritava. Ou quando Satoru o irritava.

Mas o que aconteceu foi muito pior, porque no momento que as palavras saíram dos lábios de Satoru, Suguru o olhou como se o coração dele tivesse se partido.

“Satoru… não…” Suguru murmura, os ombros caindo e as mãos agora se mexendo, como se quisessem agarrar algo. “Você não pode acreditar realmente nisso. Você era uma criança. Se eles quisessem te manter seguro, eles deviam te proteger. Se eles quisessem te treinar, deviam ter esperado até você ficar mais velho para entender o que estava acontecendo. Meu Deus, você acha que quando uma criança de oito anos vai aprender Jiu-jitsu ou Judô, ela é espancada por pessoas mais velhas até ir para o hospital ou aprender a revidar?”

Suguru parecia desesperado, as sobrancelhas juntas e um olhar quase de súplica, como se Satoru concordar com sua linha de raciocínio fosse vital para que Suguru não sofresse o que parecia quase uma dor física pela forma como ele estava agindo. Nada disso estava ajudando a dissipar a ansiedade de Satoru.

Satoru realmente estava tentando seu melhor para se explicar, não deixar a ansiedade o dominar, fazer uma piada maldosa, levantar e ir embora. Falar do Clã Gojo era a última coisa que Satoru queria fazer, mas Suguru parecia tão incomodado com essa questão que ele queria terminar logo isso para nunca mais esse assunto ser trazido à tona.

“Hm, certo, eu não acho que velhos espanquem crianças por aí nas aulas de Judô até porque isso seria bem ruim para os negócios. Mas a questão é essa, Suguru, pessoas normais não deveriam passar por isso, eu entendo, não sou louco, okay? Mas eu não sou uma pessoa.” Satoru morde o lábio inferior e franze a testa. “Quer dizer, não sou uma pessoa normal. Era isso que eu queria dizer. Você estava me ouvindo antes, né? Toda a questão da balança de poder e das técnicas raras, e tudo mais.”

Assim que ele profere a última palavra, Suguru se levanta da cama e se afasta para um canto do quarto, deixando um Satoru confuso para trás. Satoru conseguia ouvir o som da respiração de Suguru porque estava pesada e preenchia o silêncio que ficou no quarto.

Satoru olha para o próprio colo e encara o pacote de Daifuku vazio que agora tem nas mãos, ele aperta com força. O coração de Satoru batia desconfortavelmente dentro do peito e ele queria gritar, queria levantar e ir embora, queria quebrar coisas ou simplesmente sumir. Parecia que ele tinha dito a coisa errada de novo, porque aparentemente era só o que ele conseguia fazer. Mas isso era tudo culpa de Suguru por insistir nesse assunto ridículo do clã Gojo.

“Eu não sei porque você está irritado comigo agora, quem se importa com que treinamento eu recebi, afinal? Não estou fazendo propaganda do meu clã por aí, então não é como se eu defendesse os métodos deles. Só estou falando o que aconteceu porque você insistiu em saber.” Satoru exclama, deixando claro sua própria irritação com aquele assunto. O quarto estava ficando cada vez mais quente e Satoru não se importa de suspirar audivelmente também, sentia que uma dor de cabeça ia ser inevitável naquele dia.

“Satoru… eu não…” Suguru vira e encara Satoru com uma expressão de tristeza e desespero de novo. Em dois segundos, Suguru estava do lado de Satoru, mas ao invés de voltar para cama, ele coloca um joelho no chão, uma mão na perna de Satoru e olha para ele em súplica. Satoru fica paralizado encarando Suguru de volta. “Eu não estou irritado com você. Completamente o oposto disso. Estou irritado com todas as pessoas do seu clã. Irritado…” Suguru dá uma risada irônica enquanto desvia o olhar. “Não é a palavra certa. Com ódio. Nojo. Desgosto. Talvez alguma dessas seja mais apropriada.”

Satoru ainda não consegue se mexer, a visão de Suguru ajoelhado para ele, a mão firmemente na sua coxa, porque é claro que nem em uma briga com Suguru o Infinito iria se manifestar, olhando para ele com tanta intensidade, tudo isso é muita coisa para o cérebro de Satoru tentar começar a processar.

Quando Suguru volta a olhar diretamente para os olhos de Satoru, é como se fosse impossível respirar.

“Eu gostaria de poder ir até o seu clã e matar todos eles, Satoru, pelo que fizeram com você.” O fogo que parecia arder nos olhos de Suguru deixava claro que ele falava sério. Satoru aperta a embalagem vazia nas suas mãos com mais força. “Você era uma criança e eles abusaram de você desde o seu nascimento. Eu não quero saber com qual técnica milenar você nasceu, ninguém deveria sofrer o que você sofreu, ponto final. Satoru, quando você nem sabia escrever direito eles estavam te machucando fisicamente, além de te isolarem e fazerem essa porra de lavagem cerebral onde você acha que mereceu tudo isso. É doentio e repulsivo. Não importa que seja o mundo jujutsu, ninguém deveria passar por isso, entendeu?”

Satoru acha que é uma pergunta retórica, mas mesmo que não fosse, ele não tinha forças para responder, porque estava tentando com afinco não deixar nenhuma lágrima escapar. Sua garganta estava fechada e seu peito apertado. O pior talvez foi que mesmo sem o seu Infinito e toda a ansiedade, Satoru não se sentia em perigo. Era avassalador estar tão vulnerável e querer continuar assim.

“E o mais doloroso é ver que você acha que tudo foi justificado. Que você agora não se considera nem uma pessoa…”

“Eu… eu sei que sou… e-eu só… eu não quis dizer…” Satoru tenta falar, mas tropeça nas palavras e quando sente uma lágrima isolada escorrer pelo seu rosto, morde o próprio lábio inferior com força.

Suguru leva a mão livre até a bochecha de Satoru e limpa a lágrima delicadamente, mas deixa a mão ali, sua pele tocando a de Satoru como se aquele fosse o lugar certo para estar. Mais lágrimas ameaçam cair, mas Satoru não permite.

“Satoru, eu não queria te deixar triste, eu não quero te deixar mal. Mas também não consigo ignorar o quanto você sofreu e como isso ainda está enraizado na sua mente. Agora eu entendo porque você reagiu do jeito que você reagiu. Se a sua vida toda você só foi permitido ser tocado para te machucarem, não me admira que isso te assuste tanto.”

As palavras pesam em Satoru, como se ele tivesse engolido uma rocha gigante que agora repousava de forma dolorosa dentro do seu estômago. Satoru sente a própria respiração começar a acelerar e suas mãos começarem a abrir e fechar rapidamente.

“Não, não, não… Eu… Suguru, eu estou… bem! E-eu não… Eu não fui tocado só para me machucarem, eu… isso não me assusta, eu não tenho medo de… de nada, você não… você não entende.” Satoru deixa as palavras fluírem desconexas, sem conseguir finalizar nenhuma linha de raciocínio. Queria poder ser coerente para que Suguru não olhasse com tanta pena, mas as próprias ideias dentro da cabeça de Satoru pareciam não fazer sentido. Ele queria dizer tanta coisa, mas também não queria dizer nada. Era sufocante.

Ele precisava que Suguru entendesse que ele não era essa vítima frágil e assustada que Suguru estava descrevendo. E que ele não foi agredido a cada toque da sua vida. Que ele não queria a pena de Suguru, olhares tristes, condescendência e ser pintado como essa coisa quebrada que nunca teve controle da própria vida.

Mas era tão difícil falar tudo isso quando terminar uma frase levaria Satoru as lágrimas e ele simplesmente não conseguia lidar com uma crise de choro no momento.

Satoru sente ambas as mãos de Suguru segurarem seu rosto e não tem escolha a não ser encarar o amigo que ainda estava ajoelhado ao seu lado.

“Satoru… posso te abraçar?” Suguru pergunta com a voz gentil e suave e isso quase quebra Satoru. Ele não consegue responder em voz alta, então apenas assente com a cabeça, o que é suficiente para Suguru, que se senta na cama e o puxa para seus braços.

Isso é estranho, pensa Satoru. Não por causa da conversa melodramática e não porque o abraço era ruim, mas porque Satoru achava que aquele era o primeiro abraço deles. Eles viviam colados, sim, Satoru adorava ficar pendurado com Suguru na época que o Infinito ainda funcionava perfeitamente. E eles já tinham lutado várias vezes, se empurrado de brincadeira, cutucado o rosto um do outro apenas pelo prazer de se irritarem. E mesmo depois de o Infinito não funcionar mais, apenas leves toques de ombros, mãos que se esbarram e esse tipo de coisa.

Agora isso era um abraço de verdade. Que Suguru foi em busca e Satoru aceitou sem hesitar. Os braços de Suguru conseguiam cobrir Satoru completamente, porque apesar de Satoru ainda ser o mais alto, Suguru ainda era maior, com os ombros mais largos e músculos de dias e dias de treinamento. Um dos braços de Suguru abraçou a cintura de Satoru e o puxou para perto, enquanto o outro se enrolou nele até que a mão de Suguru estivesse gentilmente segurando a parte de trás do pescoço de Satoru. Apesar da ansiedade e confusão de Satoru, era como se estar nos braços de Suguru fosse uma hábito já inerente a Satoru, porque assim que ele sentiu aqueles braços o puxarem, Satoru passou os próprios braços ao redor de Suguru e se agarrou nele como se sua vida dependesse disso.

Talvez dependesse.

“Você é uma pessoa, Satoru. Uma pessoa muito importante. Não por causa das suas técnicas, mas por causa de quem você é.” Suguru murmurou no ouvido de Satoru, deixando as palavras serem absorvidas com calma. E como se fosse o melhor e mais requintado dos doces, Satoru consumiu elas com entusiasmo, deixando que o tom gentil e suave de Suguru se infiltrasse o mais profundamente possível debaixo da sua pele. “Você é a pessoa mais importante do mundo pra mim.

A última parte não passou de um sussurro.

“Eu não vou deixar ninguém mais te machucar, eu prometo.”

Satoru sentiu mais lágrimas escorrerem pelo rosto, mas não se importou mais em tentar impedi-las.

Anos depois, Satoru ainda lembraria de cada detalhe desse dia e finalmente entenderia exatamente o Dilema dos Ouriços.

Notes:

Os paradoxos do infinito e o dilema do ouriço são tão gojo que tenho vontade de ir para a sacada, rasgar minha roupa e uivar para a lua no meio da noite.

Se vocês estiverem se perguntando onde está a parte picante de fato e etc sim está no próximo capítulo.