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Segunda Chance.

Summary:

Em um mundo onde a cultura de ídolos tem crescido cada vez mais, vocês acompanharam a historia de um grupo de pessoas que receberam uma segunda chance. Após terem perdido o sentido de suas vidas, uma proposta foi colocada em suas portas de recomeçar, o quão longe será que eles chegam?

Chapter 1: Heidi.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Música: Via - Jay Ragsdale

‪‪★

“A ausência tanto é um remédio contra o ódio como uma arma contra o amor.”
Jean de La Fontaine.

A gritaria era tão alta que até os vizinhos do prédio ao lado escutavam com facilidade, a voz rasgada e dolorida, misturada com lágrimas de anos atrás que nunca tiveram a chance de sair. Existem muitas famílias que têm a chance de amar, muitos irmãos que tem o tempo de se perdoar, mas essa não é a história dessas duas.

“Você realmente vai abandonar tudo que o papai e a mamãe fizeram por nós pra seguir um sonho estupido?!” - A jovem grita, seus cabelos castanhos recém cortados caindo na frente de seus olhos junto com o movimento brusco de seu corpo.

“Não é um sonho estupido Emalyn! Eu genuinamente não sei de onde você criou essa ideia de que nosso país são essas pessoas puras e boas que sacrificaram tanto por nós” - Aaralyn grita recolhendo um grupo de roupas velhas e as colocando dentro de uma mala - “eles nunca nem apareceram nos nossos aniversários!”

“Eles são pessoas ocupadas, você sabe disso!” - A mais nova se aproxima tirando as roupas recém colocadas e as jogando no chão de maneira exagerada, quase como um ataque indireto.

“Emalyn larga as minhas coisas!” - Um grito seguido de um empurrão, contínuo de um tapa e acompanhado por desculpas, um ciclo eterno de agressão e medo colocado e repetido por suas vítimas constantemente, existe um limite para o quanto um fio aguenta até se romper.

A briga se torna uma despedida, um amor tão frágil que logo se tornava ódio, nutrido por abandono e pressão. Dizem que gêmeos conseguem sentir a dor um do outro, no fim talvez isso tudo só tenha sido uma maneira masoquista de ferir as próprias inseguranças uma da outra, talvez elas tenham nascido para se machucar.

O fio não foi rompido, foi cortado, era a única maneira de seguir em frente.

Ele entenderia…
pelo menos você espera que sim.

.
.
.

Música: Here is your Latte! - Wuthering Waves.

‪‪★

“Heidi onde que você enfiou o pão?!” - o jovem grita do outro lado do pequeno apartamento acompanhado do som de vidro caindo no chão - “Puta merda..”

“Nubis o que foi esse som?! Eu te pedi pra esperar 5 minutos! - a mulher corre de seu quarto terminando de colocar duas mechas brilhantes roxas em seu cabelo castanho - “Como que você consegue quebrar tantos copos em tão pouco tempo, foram três só essa semana!”

“Não era minha intenção, eu tava procurando o pão e ele acabou esbarrando na quina da bancada…” - com uma expressão culpada o platinado se ajoelha para recolher os cacos espalhados pelo piso.

A Makris encara seu colega de apartamento por alguns segundos com piscadas lentas o que leva a um resmungo do mesmo - “Eu vou pegar a vassoura e a pazinha, feliz?”

“Extremamente!” - ela diz em tom sarcástico vendo o garoto sair para buscar os equipamentos - “E varre direito! O pão tá na segunda prateleira, não esquece que você tem trabalho às quatro e seu chefe já avisou que vai te demitir se você se atrasar de novo! Bom dia Nubis!”

“Tchau Heidi, boa reunião!” - A voz ecoa na distância.

A jovem pega sua bolsa preta preenchida de borboletas e coloca uma bota pequena com um salto mediano, o que não deixa de declarar sua presença a cada porta de entrada que ela passa. Fazem dois anos desde que Aaralyn deixou de existir e Heidi nasceu, foi um processo complicado, principalmente a parte de sair de bilionária para trabalhar em um salão de balé como professora de crianças e morar com um moleque desempregado que fugiu de casa, mas a vida segue, sempre seguiu.

Hoje é um dia especial! Desde que a jovem entrou no salão de balé ela tem trabalhado com a mesma classe e com o mesmo grupo de crianças, o que não é um problema, mas com uma classe extra vem mais dinheiro, e dinheiro nunca é mal visto. A madame Arielle, diretora do estúdio, a chamou para uma reunião especial dizendo ser um assunto de extrema relevância, que mal faz esperar que seja um aumento?

A ansiedade é palpável no rosto da Makris em todo o caminho, quase caindo com o balanço do metrô e se esbarrando em praticamente todas as árvores que encontrava, na distância é possível ver uma grande estrutura greco romana de três andares, com estátuas na frente ilustrando deuses mitológicos e uma grande placa escrito “Galaris” com uma fonte que faz referência ao alfabeto grego.

“Heidi!” - uma voz masculina grita de dentro do estúdio se aproximando lentamente.

“Nathaniel, bom dia!” - Ela diz vendo o garoto se aproximando lentamente com seus cabelos castanhos presos em um pequeno rabo de cavalo completamente desorganizado e seus olhos rosados perdendo o brilho entre as grandes olheiras marcadas em seu rosto - “Se bem que você não tá com cara de quem dormiu…”

“No dia que você me encontrar e eu tiver com a cara de quem dormiu, eu falhei no meu trabalho” - ele resmunga ajustando os vários papéis em sua mão.

“Eu já te disse que isso não é saudável” - As palavras recebem um olhar imediato de desaprovação do mais velho - “É sério Nath, você é um ano mais velho que eu e já parece ter 40!” - Mais um olhar - “Okay, talvez não tão longe, mas você entendeu meu ponto.”

“Eu to bem Heidi, você devia se preocupar com si mesma, a senhora Arielle já tá te esperando na sala dela e você parece que esbarrou em todas as árvores no caminho pra cá” - silêncio - “mas é claro que esbarrou.”

O homem se aproxima e começa a ajustar o cabelo da Makris com cuidado enquanto a mesma solta pequenas risadas - “Valeu, fico te devendo essa!” - ela corre para dentro do estúdio.

“Você já ta me devendo coisa demais!” - Ele grita na distância.

O caminho até a sala é harmonioso, os alunos constantemente parando seus passos para dar um abraço ou apenas um oi para sua amada professora, uma música se ouve na distância sempre acompanhada dos sons rítmicos dos passos de bailarinas em treinamento. Alguns anos atrás esses corredores eram vazios e silenciosos, um ambiente rigoroso e triste para aqueles que trabalhavam e estudavam no local, Heidi se dá um pouco de crédito pela mudança, foi difícil na época, mas com o tempo o lugar foi se curando e agora se tornou um ambiente saudável e aconchegante.

A sala de Arielle é o único cômodo do terceiro andar, sendo uma única porta no fim das escadas com detalhes que representam ao Sol e a Lua em homenagem a Artemis e Apolo, deuses apreciados por sua família, existe um pequeno sino pendurado ao lado que serve como uma campainha e toca uma pequena melodia. A jovem respira fundo, ajustando o próprio vestido, os olhos roxos piscando lentamente junto com o ar que sai de seus lábios, é agora ou nunca.

“Senhorita Arielle? Eu vim para a reunião, posso entrar?” - De maneira estranha uma conversa já parecia ter começado dentro da sala, com o som de outra voz acompanhada da representante, que interrompe o assunto para entregar uma resposta.

“Claro Heidi, a porta está aberta, só virar a maçaneta”

“Ah, certo!” - ela diz levemente envergonhada - “Com licença!”

O perfume de Rosa Turca é a primeira coisa notável ao entrar no local, dando ao ambiente um aroma rico e sofisticado, o cômodo recém limpado, com duas pequenas estátuas referentes aos deuses irmãos logo na entrada, no centro uma grande mesa com fotos de família e atrás existem vários troféus dos mais de 50 anos de império dos Galaris no mundo do Ballet, sendo até hoje uns dos mais renomados na arte. Sentada em sua grande poltrona se encontra uma mulher alta e loira, com olhos azuis meia noite, ela usa um vestido branco longo e brincos de diamante.

“Boa tarde, espero não ter atrapalhado nada” - a Makris diz com um sorriso fraco fechando a porta atrás de si.

“Imagina, você chegou na hora certa! Eu imagino que você já deve ter ouvido falar da senhora Hualing!” - a representante diz com ânimo na voz, apontando para a mulher sentada na cadeira a frente.

A jovem rapidamente toma uma expressão de choque em sua face, olhando para o assento com a bela mulher com traços asiáticos marcantes, olhos vermelhos escarlate e um cabelo longo liso que cai lindamente sobre o vestido vermelho delicado que escorrega sobre seus ombros de maneira quase provocativa, ela usa um batom em cor vinho que marca seus lábios em sintonia com a sombra passada abaixo de seus olhos quase como um delineado.

Hualing, é difícil não conhecer, a muitos anos atrás existia um grupo conhecido como Meikai (冥界), eles eram compostos de 5 membros, 3 japoneses e 2 chinesas, inspirados em certos membros do submundo: Pandora, Hades, Thanatos, Hypnos e Perséfone. O grupo teve um sucesso absurdo até ser separado de maneira misteriosa, existem muitos boatos sobre o motivo, mas nunca foi realmente descoberto. Yue Hualing era Perséfone e foi a única participante a desaparecer completamente da mídia, virando uma das figuras mais comentadas após o fim do grupo por sua personalidade agressiva, muitos dizendo que ela teve algum envolvimento direto com o "disband”.

“Claro! Seria quase impossível não ter ouvido sobre” - Heidi anda rapidamente até a frente da antiga idol e estende sua mão - “é um grande prazer te conhecer.”

A chinesa encara para a mão da garota por alguns segundos até estender a própria mão com um sorriso sincero - “É um prazer “小花’” - ela diz com as linguagens se morfando com facilidade.

“Igualmente?” - a Makris diz com um sorriso nervoso, claramente sem entender a última palavra.

Hualing solta uma breve risada e aponta para o assento ao seu lado enquanto Arielle se ajusta em sua poltrona novamente.

“Com licença” - Heidi diz ao se sentar.

“Certo, você deve estar se perguntando o porquê você foi chamada aqui essa tarde considerando que essa é sua semana de folga” - correto - “na verdade quem te requisitou foi a senhora Hualing, eu sou apenas uma intermediária para o acordo.” - a mulher diz enquanto ajusta seus brincos e pega um papel da gaveta mais próxima e coloca na mesa.

“Acordo? Desculpa, eu achei que isso seria algo sobre dança ou sobre as minhas classes, do que estamos falando?” - a Makris se vira com uma expressão conflituosa para a dupla e o contrato aplicado em sua frente.

“Heidi, minha “小花” - Yue se aproxima arrastando lentamente a cadeira - “você deve saber que eu participava de um grupo a muitos anos atrás que infelizmente se separou de maneira trágica” - a mulher diz fingindo limpar uma lágrima de maneira dramática, com cuidado para não tocar na maquiagem - “isso colocou muitos escândalos no meu nome por conta da minha suposta rebeldia, o que hoje em dia claramente podemos ver que foi um exagero”

A memória das notícias sobre Perséfone e como ela tinha agredido uma jornalista e quebrado um vidro na cabeça de um de seus patrocinadores vieram à mente de maneira breve, Heidi prefere não mencionar.

“Eu decidi criar um grupo de pessoas que foram rejeitadas pelo mundo e que se rebelaram contra aquilo que foi implantado em seu destino, e você é a primeira na minha lista” - Hualing segura as mãos da Makris com delicadeza - “eu acompanhei todo o seu processo, os escândalos nas notícias e as mentiras colocadas no seu nome, o que você acha de provar para os seus pais de que existe um sucesso fora das regras que eles ditaram pra você?”

O silêncio é ensurdecedor, a expressão de Heidi se moldando em algo entre animo e confusão - “Que?”

“Isso mesmo que você ouviu minha querida “小花”, eu te quero no meu grupo, você pode se encaixar onde bem desejar, eu consigo ajustar tudo”

“Senhorita Hualing, isso é uma proposta muito grande, eu nem sei como raciocinar isso…” - a garota abaixou o olhar para as mãos conjuntas com a mulher.

Oportunidades nunca vem sem um custo, isso é algo fixado na cabeça de Aaralyn desde que a mesma nasceu, seja vindo das palavras de seus pais ou das experiências que o mundo lhe deu, se sua irmã estivesse aqui, teria questionado cada ato e revisado todo o contrato cinco vezes, era a maneira dela de se proteger. Cruzar a linha entre uma vida estável para uma vida de riscos é uma decisão que Aaralyn nunca teria se dado o direito de questionar, como sua mãe dizia: “Uma vida monótona, é uma vida segura”.

“Eu não sei se isso seria uma boa ideia, longe de mim questionar as razões da senhora, inclusive eu tenho grande admiração por todas as suas conquistas, mas isso tudo me parece muito repentino, eu precisaria pensar mais afundo sobre o assunto…” - Aaralyn diz enquanto solta as mãos da mulher, começando a afundar de maneira fraca uma de suas unhas na área do lado de seu pulso.

A chinesa encara por alguns segundos, deixando um silêncio desconfortável crescer pela sala, Arielle dedilha desconfortável sobre sua mesa claramente se questionando se deveria intervir.

“Certo, eu te darei um tempo para pensar sobre então.” - Yue diz enquanto se levanta, arrumando o vestido longo e entregando um cartão nas mãos da jovem - “Seu parceiro de apartamento também entra na minha lista, Nubis Orchid certo?”

“Ah, sim!” - A jovem olha para cima surpresa - “Como você?”

“Converse com ele também, eu já me comuniquei com os outros membros do grupo, e eu planejo juntar-los días 25” - Hualing olha para seu celular brevemente - “hoje é dia 20, eu esperarei você e seu colega na minha casa dia 24”

“Mas-”

“Eu sei que você aprendeu a não tomar riscos, é o básico de todo guia de sobrevivência” - a mulher diz enquanto pega os óculos escuros guardados em sua bolsa - “mas será que sobreviver é tudo que você merece?” - Os olhos escarlate encontram os roxos - “O que você realmente quer Heidi?”

A jovem abaixa a cabeça olhando para o cartão em mãos, simples, vermelho, com um endereço e um número de telefone.

“Eu espero por vocês, saiba que não existe dúvida em meu coração sobre suas capacidades.” - Yue abandona a sala, se curvando lentamente na porta para demonstrar educação a Arielle que apenas acena com um sorriso fraco.

A Aaralyn sabe que isso não é lógico, a Emalyn teria negado isso no momento que o contrato foi estendido.

Mas esse não é seu nome, e ela não é mais sua irmã.

“Tudo bem, Heidi?” - Arielle coloca a mão nos ombros da amiga com uma face preocupada.

A jovem se vira em um susto - “Ah, sim, não se preocupa!” - Ela sorri de maneira forçada - “Eu vou indo pra casa, a gente conversa depois okay?”

“...Claro, fica bem, se precisar de mim é só ligar” - a representante diz de maneira extremamente gentil.

“Eu sei.” - As duas trocam um breve abraço e Heidi se retira com velocidade do estúdio, Nathaniel tenta a questionar mas ela o ignora.

‘Quantas vezes você ainda vai fugir?’

A jovem corre pela rua segurando o cartão vermelho nas mãos trêmulas.

‘Até quando o seu medo vai te parar?’

Os saltos sobem pelas escadas rapidamente, ecoando pelo prédio.

‘Qual é o seu limite?’

A porta do apartamento é aberta de maneira agressiva - “Nubis!”

Notes:

Próximo capitulo: Nubis.

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