Work Text:
Danny era um ladrão e estava se preparando para mais um roubo. Calma, ele não era realmente um ladrão.. Bem, sim, sim ele era, que droga. Mas ele poderia explicar!
Danny nunca pensou que terminaria assim um dia, se escondendo em galpões e prédios abandonados para dormir com um pouco de segurança e tendo que roubar comida, mas a vida sempre dá um jeito de te virar de cabeça pra baixo.
Espera, isso está indo rápido demais, vamos retroceder e dar um pouquinho de contexto para essa situação.
Faz pouco mais de 2 meses que Danny finalmente obteve coragem suficiente para contar aos pais sobre seu alter ego. Ele realmente não esperava ter que contar tão cedo, principalmente sem um bom plano B de segurança, mas as coisas estavam começando a ficarem perigosas demais.
Jazz conseguiu uma bolsa de estudos para uma faculdade especializada em psicologia e finalmente saiu de casa há quase um ano. Ela não queria ir e deixar Danny sozinho, mas ele garantiu que ficaria bem (afinal, ele já tinha 15 anos, era grande o bastante pra tomar conta de si mesmo, certo?), e que tipo de irmão ele seria se não apoiasse ela nessa grande oportunidade? Depois de tudo que ela já fez por ele.
Depois que Jazz saiu, mamãe-não, Maddie e Jack ficaram ainda mais obcecados pelo trabalho, se é que isso era possível. Eles receberam uma grande oferta para colaborar com o GIW na produção de armas ectoplasmáticas. Danny tentou convencê-los a recusar mas, como sempre, sua opinião foi ignorada com sucesso.
A princípio ele não se preocupou muito, afinal o GIW continuou tão incompetente como sempre, mas nos últimos meses isso mudou significativamente. Ele não tem certeza, mas os pais ouviram mencionar algo como “mudança na gestão”. Eles ficaram assustadores.
Em qualquer lugar que ele virasse, em qualquer esquina, em qualquer lugar que ele aparecesse como Fantasma, eles estavam lá, procurando por ele. Talvez com a ajuda de Sam e Tucker as coisas pudessem ter sido acabadas de uma forma diferente, mas eles se aperfeiçoaram nos últimos dois anos e agora ele estava sozinho. Completamente sozinho.
GIW estava ficando cada vez mais cruel, cada vez mais implacável. Ele tentava, tentava mesmo manter todos os fantasmas afastados daquele lugar, tremendo que eles fossem capturados. Seria um ótimo dia se ele conseguisse chegar em casa sem uma costela fraturada.
A gota d'água veio quando ele ouviu os pais (não, não mais pais), quando ouviu Maddie e Jack conversarem no laboratório sobre como estavam ansiosos para finalmente poder dissecar um núcleo recém adquirido. Isso fez Danny se sentir doente. Um núcleo era a coisa mais sagrada para um fantasma, a mais íntima, e eles iriam simplesmente destruí-lo? Não, ele não poodia permitir isso.
Ele entrou escondido no laboratório durante a noite, removeu o núcleo fragilizado do pote onde fora guardado como algum tipo doentio de troféu e o jogou de volta aos reinos infinitos pelo portal. Ele não sabia a quem pertencia o núcleo e, honestamente, preferia não saber.
Quando achou que tinha cumprido seu trabalho em silêncio e eficazmente, a luz acendeu atrás dele.
Seus pais estavam parados na entrada, ambos com olhares de choque no rosto. Aparentemente eles haviam visto toda a cena em silêncio e Danny não percebeu (ele culpa a concussão da noite anterior, obrigado Skulker). Naquele momento ele percebeu que não havia como negar ou fingir outra péssima história de cobertura.
Então, ele se arriscou. Ele contou aos pais sobre tudo, o acidente, seus poderes, como ele só queria ajudar as pessoas e, mais importante, que ele continuava sendo ele mesmo, ainda era o menininho deles. Eles iriam acreditar nele, certo? Afinal, eles eram seus pais.
Bem, ele havia sido otimista demais em pensar que seus pais o amariam incondicionalmente. Eles apenas ficaram ali, olhando horrorizados, durante alguns poucos minutos que mais pareciam horas. Finalmente, pareciam acordar do transe e reagiram. Tiraram as armas dos coldres tão rápido que Danny nem teve tempo de reagir. Eles atiraram diretamente nele, mirando no núcleo dele. No núcleo dele.
Danny caiu para trás com força, derrubando uma das mesas com o impacto de seu corpo. Ele ficou momentaneamente atordoado, sem acreditar no que estava acontecendo realmente. Eles eram seus pais e atiraram nele. Seus pais atiraram nele.
Quando recobrou os sentidos, Maddie e Jack estavam caminhando até ele com uma arma ainda maior em mãos, uma arma grande, ele nunca tinha visto esse modelo mas parecia perigoso. Danny entrou em pânico. Um pânico cru que não havia sentido antes, não quando o GIW quase conseguiu capturá-lo, não quando viu um de seus amigos fantasmas quase sendo dilacerados por seus pais, não, nada como isso. Isso era cruel, era o pior sentimento que jamais havia experimentado em toda sua existência.
Antes de conseguir tomar uma decisão concreta, sentiu um disparo atingi-lo. Felizmente, conseguiu proteger o núcleo, então o estômago levou a maior parte do impacto. O outro disparo que levou apenas alguns minutos atrás doeu, claro, mas isso.. Não, nada comparado a isso. A dor que ele sentiu não se comparava a nenhuma outra (e ele já havia sofrido ferimentos horríveis). Era como se todo seu ser estivesse sendo consumido pelas chamas do próprio inferno. Então, ele gritou. Gritou com toda força que lhe restava.
Em meio aos gritos, notou que Maddie e Jack estavam falando com ele. Não, falando não, gritando. Ele não conseguiu se concentrar o suficiente para entender com precisão o que estavam dizendo, mas captou algumas palavras. Coisas como “o que você fez com nosso filho?” e “Danny está morto”. Em algum momento, seus gritos deixaram de ser gritos e passaram a ser lamentos. Oh, droga. Ele estava usando o lamento fantasmagórico. Ele precisava parar ou iria destruir tudo. Mas ele não conseguia parar, a dor era muito forte. Ele só continuou gritando até que tudo ficou escuro.
Ele não sabe quanto tempo ficou apagado depois do grito, mas quando finalmente acordou a primeira coisa que notou foi o cheiro de queimado e algo pegajoso em seu corpo. Abrindo os olhos com dificuldade, viu um desastre. O laboratório e a casa foram reduzidos a cinzas ao seu redor, e ele estava deitado no meio de tudo. Olhando para cima de sua posição deitada, ele via diretamente o céu.
Danny se sentou lentamente. Os corpos de Maddie e Jack estavam caídos inconscientes perto do que antes era a saída daquele lugar, agora eram apenas escombros. Eles estavam vivos, respiravam. Danny não sabia se isso era bom ou ruim, honestamente.
Pelo menos ele destruiu o portal no processo, nenhum outro fantasma sairia por ali. Pequenas vitórias. Mas ele sabia que isso não iria detê-los, eles eram aliados da GIW agora, tinham acesso a toda tecnologia e ectoplasma que poderiam querer, sem limitações legais.
Levantando com dificuldade, percebeu que a coisa pegajosa que sentiu era seu próprio sangue. Uma mistura grotesca de sangue e ectoplasma. Ele não sabia que podia sangrar ectoplasma em sua forma humana.
Ele ouviu um movimento vindo dos corpos no chão e imediatamente saiu correndo, cambaleando e com dificuldade. Ele não sabia quanto tempo ficou inconsciente mas sabia que não demoraria para que a GIW aparecesse, junto com as pessoas curiosas. Ele precisava fugir, não podia deixar o GIW pegá-lo. Se eles descobrirem a existência de meio fantasmas, com toda a certeza tentarão replicar o experimento. Isso não podia acontecer.
Então, ele correu. Quando suas pernas começaram a ceder, ele se transformou em Phantom e voou o mais rápido que conseguiu. Não era inteligente estar em sua forma fantasma, o GIW poderia rastreá-lo com facilidade. Mas ele não aguentava mais caminhar e precisava ir o mais longe o mais rápido possível.
Claro, ele poderia ir até Jazz e ficar com ela. Ela o ajudaria. Mas ele não podia colocá-la em perigo. O GIW estava cruel demais, eles com certeza a puniram por ajudar uma “escória ectoplasmática” como ele. Não, ele não faria isso com ela. Ela estava bem, vivendo o sonho. Deixe-a viver o sonho, ela merece.
Ele não sabe por quanto tempo continuou correndo sem parar até desmaiar em um beco qualquer. Quando acordou, continuou correndo. Roubou comida de lixeiras e depois correu outra vez. Não sabe quantos dias esteve correndo, tudo parece um borrão desesperado.
Depois de dias, só os anciãos sabem quantos, ele finalmente chegou a uma cidade estranha. Havia muito ectoplasma ambiente natural, gerado através de mortes e conflitos. Era o lugar perfeito. Devido a alta quantidade de ectoplasma no ar, o GIW não conseguiria rastreá-lo com facilidade. Contanto que ele não usasse seus poderes com frequência, ele ficaria bem. Claro, isso significava que ele não poderia mudar para sua forma fantasma.. Mas ele consegue!
Ele passou os próximos dias dormindo atrás de lixeiras e em bancos de parque, caminhando sem rumo e descansando sempre que podia. Ele roubou um kit de curativos de uma farmácia, não era muito, mas o bastante para parar o sangramento da ferida em seu estômago.
A ferida não estava cicatrizando. Ainda doía, muito. Isso não era normal. Seus ferimentos sempre se curavam depois de algumas horas ou, pelo menos, mostravam indícios de cura. Esse não.
Ele disse a si mesmo que tudo ficaria bem, só estava levando mais tempo que o normal, não é grande coisa. Certo?
Um dia, depois de outra caminhada pelas ruas escuras de Gotham, (ele descobriu recentemente o nome da cidade) encontrou por acaso um velho galpão abandonado. Havia apenas caixas e muita poeira dentro, mas para a sorte de Danny havia um segundo andar discreto na parte de trás. Não era grande mas era difícil de ver se você não o estivesse procurando ativamente. Nova casa!
Ele se instalou. Limpou o melhor que pode e colocou as coisas que havia roubado junto ao lençol velho que encontrara ali.
Danny estava tentando encontrar qualquer coisa que o distraísse de pensar nos pais que agora o querem morto (bem, mais morto do que já está), na sua casa de infância destruída, sua vida roubada dele..
Foi quando uma névoa azul saiu de sua boca e ele, automaticamente, se colocou em posição de ataque. Mas não era um inimigo. Era um espírito de uma senhora, talvez de uns 80 anos, curvada e com um sorriso gentil em seu rosto.
“Com licença, jovem, poderia me entregar esse pequeno laço vermelho atrás de você?” Disse a senhora, com o mesmo sorriso gentil. Danny olhou para trás e realmente, havia um lacinho que não tinha notado antes. Pequeno demais para ser de um adulto. Ele o pegou nas mãos e se aproximou dela.
“Posso perguntar o que quer com isso?” Perguntou ele, com a dúvida escorrendo de seu tom de voz. Talvez aquilo fosse uma arma disfarçada e ela estivesse prestes a atacá-lo. Ele é paranoico, processe-o.
“Oh, isso era da minha querida neta. Ela me deu de presente antes da minha morte. Deveria ter sido enterrado comigo, mas foi perdido. Levo.. não sei quantos anos venho seguindo o laço, esperando que alguém com uma conexão com os reinos pudesse finalmente entregá-lo a mim. Este é o meu assunto inacabado. Quero te-lo de volta para finalmente descansar.”
Curiosidade; os espíritos não são como os fantasmas. Enquanto os fantasmas são formados apartir de fortes emoções e muitas vezes nem chegam a estar, de fato, vivos, os espíritos são almas com assuntos inacabados. Pode ser qualquer coisa mas, na maioria das vezes, costuma ser um objeto roubado que deveria estar com eles mas que foram roubados de seu túmulo.
Bem, se é isso mesmo, Danny não pode recusar. “Claro, senhora.” disse ele enquanto estendia o laço em sua direção.
A senhora enviou pra ele e, com delicadeza, pegou o laço. Danny não sabe como ela pode tocar nele agora há mais de 5 minutos, quando o laço estava no chão, ela não podia. Hum, vai saber.
Após pegar o laço, a senhora não disse nada. Apenas fez uma pequena reverência e, como se nunca tivesse estado ali, distante.
Mas aí vem a parte estranha. Quando a senhora desapareceu, Danny sentiu um puxão em seu núcleo. Não de uma forma ruim, não, isso era bom. Era como se sua obsessão estivesse satisfeita.
Pequena aula de biologia fantasma; todos os fantasmas têm uma obsessão que muitas vezes estão ligadas às coisas que amaram na vida. A obsessão de Skulker é caçar, a de Amber são seus shows, etc. E a de Danny é ajudar as pessoas, ele precisa disso. Se ele não cumprir com sua obsessão, vai enlouquecer um pouco.
Obviamente, ajudar esse espírito a descansar fez com que sua obsessão fosse cumprida por hora. Então ele teve uma ideia. Ele já não pode bancar o herói como fazia em Amity, não, eles o capturaram e provavelmente seriam expulsos da cidade pelo Batman e sua ridícula regra anti-meta (apesar de ele não ser um meta humano, estar morto é uma condição médica, muito obrigado). Ele ainda precisa manter sua obsessão sob controle, então aí está a solução! Ele poderia ajudar os espíritos a recuperar seus objetos roubados e assim guiá-los ao descanso eterno. Dois coelhos com uma cajadada.
E agora voltamos ao presente, com Danny sentado no topo de um antigo museu nos limites da cidade. Esse não seria seu primeiro roubo, já fez isso algumas vezes desde que chegou.
Ele não fazia ideia de que iria roubar dali, mas podia sentir que esse era o lugar certo. Ele só precisa ver para saber. Muito bem então, mãos a obra!
O que Danny não sabia era que, ao mesmo tempo que ele planejava sua entrada pelo telhado, uma certa mulher também planejava sua entrada por outro lugar
