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Mahogany Blood

Summary:

Evelyn Tavora é a filha esquecida de uma linhagem de elite. Criada para ser a guardiã perfeita, sua liberdade é interrompida quando Dimitri Belikov surge com uma missão: levá-la de volta a St. Vladimir para concluir um treinamento que ela nunca desejou.
Enquanto visões sombrias começam a fragmentar suas noites, o impensável acontece: um ataque Strigoi atinge o coração da Academia. A falha reside no sistema de segurança impenetrável desenvolvido pela mãe de Evelyn — um mecanismo que só responde ao sangue da linhagem Tavora.
Com a reputação da família em xeque perante a Corte e a traição pairando nos corredores, Evelyn e Dimitri precisam unir forças para provar a inocência dos Tavora antes que o sistema se torne a própria armadilha mortal.

Notes:

Voltei com minha obsessão por Academia de Vampiros e pelo Dimitri Belikov, e depois de meses sem conseguir escrever algo que eu goste, isso até que fluiu bem.

Work Text:

Ele não deveria estar acordado a essa hora, mas os barulhos incessantes lhe tiraram seu precioso sono. O sol já se punha no horizonte, inundando a casa num brilho dourado confortável. A cozinha era o cômodo mais silencioso naquele momento, e o Dhampir decidiu que era ali mesmo que iria ficar. Passou um café e sentou silenciosamente sobre a cadeira de madeira maciça. Enquanto bebia, observou uma bolsa de couro caída sobre o chão, provavelmente tirada às pressas pela mulher que agora estava lá encima com o seu Moroi.  

A maioria dos empregados dormia, então era pouco provável que alguém tenha notado que os pertences da guardiã mais temida da guarda real estavam espalhados pela casa. Ele suspirou, pousando a xícara de café e pegando as peças jogadas. As reuniu no canto da mesa e encheu sua xícara de novo. Assim que a levou aos lábios, a cabeleira cacheada da Dhampir chegou primeiro que ela na cozinha. Suas bochechas coradas denunciavam que ela não esperava encontrar com ele ali. 

— Bom dia. — ele cumprimentou, escondendo o sorriso bebericando o café. — Servida? 

Os olhos verdes da Dhampir varreram o local, sua boca abrindo várias vezes antes dela proferir uma frase coerente. Havia poucas coisas nesse mundo que deixavam Ember Ivory Tavora desnorteada, e não era um grupo de Strigoi ou os longos treinos com sua mãe. O que realmente derrubava Ember era algo mais quente e vivido: Ivan Zeklos. 

Ela mordeu a boca, procurando algo, mas sem querer dizer em voz alta. O outro Dhampir arqueou a sobrancelha. Ele e Ember já tinham passado da fase de se estranharem e se esconderam atrás do dever. A relação era quase uma parceria se não fosse por um detalhe: Ember transava com Ivan quase todas as sextas-feiras. A Corte os mataria se soubesse, mas ele sabia como manter a boca fechada.

No começo, ele desaprovou a atitude do seu Moroi, mas não havia muito que pudesse fazer. Depois de um tempo, ele realmente viu o que estava acontecendo. Os olhares demorados, os presentes, e infelizmente ouviu as juras de amor. Eles estavam apaixonados. 

E para a família de Ember, isso era um comportamento completamente desincentivado. As Tavora eram conhecidas por seu temperamento frio e combate impecável, perfeitas guardiãs. Guardiãs como elas não poderiam se dar o luxo de se apaixonar, principalmente por um Moroi. Ember nunca sorria em público, um rosto ao mesmo tempo tão angelical quanto mortal. Para um olhar desatento, ela poderia ser confundida com um Moroi, se não fosse suas habilidades de luta que falavam seu legado por si mesma. Mas ela sempre sorria com Ivan, o Dhampir poderia jurar que a ouviu gargalhar uma vez.

— Minha carteira… onde ela está?— ela finalmente profere, meio ofegante. O Dhampir franze a testa, olhando para o chão. E então nota uma foto gasta no chão. Ele se levanta para pegar mas ela é mais rápida. — São eu e minhas irmãs, está velha, elas nem tem mais esse tamanho. 

Ember pega a foto com cuidado entre os dedos, a sombra de um sorriso em seu rosto. Lentamente, ela passou a foto para o guardião pela mesa. Ele a pegou e analisou a imagem. Nela, havia três garotinhas. Duas abraçaram a garota do meio, que era mais alta, com certeza Ember. Até mesmo por foto os olhos verdes dela se destacavam. A do canto direito estava sem um dos dentes da frente enquanto a do lado esquerdo tinha o cabelo mais cacheado que as outras duas. Das três, era a que tinha a pele mais escura. Três Dhampirs saudáveis. 

— Elas são gêmeas? — ele perguntou, pousando a foto. 

— Não, Evelyn só é menor que nós mesmo, ela é a filha do meio, é essa do canto esquerdo. — ela aponta com a unha. — Isso foi antes do aniversário de oito anos dela. Foi antes de nossa mãe nos fazer lutar uma contra a outra. 

Ember suspira e enfia a foto na carteira, ajeitando o casaco nos ombros. Os botões de sua camisa foram arrumados à pressa, observou o guardião. Estavam nos lugares errados. Ela parecia alheia ao peso de sua fala, a mãe dela as fazia lutar quando crianças? Ele deixou o silêncio reinar por um momento e então continuou.

— Você não fala muito delas. 

— Você não fala muito comigo, Belikov. — ela rebateu, prendendo os longos cabelos num rabo de cavalo. — E tento não falar delas para não sentir saudades. Não as vejo desde a minha formatura.

Tavora era apenas dois anos mais nova que Dimitri, então fazia cerca de dois anos que ela não falava com as irmãs. Considerando isso, ele pigarrou. 

— Elas têm quantos anos atualmente?— ele deixou os braços depois de soltar a xícara na mesa. Ember se olhou pelo reflexo no microondas e sorriu, dando um riso frouxo. 

— Me diga o que tem nesse café, como você está falante hoje, Dimitri. — ela provocou. — Sou cinco anos mais velha que Evelyn e oito que Eloise. 

Dimitri acenou com a cabeça e apertou os lábios. O tom da Dhampir era claro, ela não queria falar sobre a família. Ele não poderia julgar, mal falava da própria. Porém, ele também não poderia evitar querer conhecer as filhas de Elizabeth Tavora, a mulher era uma lenda no mundo Moroi. Sua técnica era impecável, e ela tinha mais marcas molnija do que a maioria dos guardiões em toda sua vida. Ele só não queria ser tão óbvio perguntando sobre a matriarca.

— Minha mãe não ficou muito conosco depois que Eloise entrou no maternal, então ela não teve a mesma infância que eu e Evie. — o apelido parece ter escapado pelos seus lábios, pois logo em seguida ela limpa a garganta e pega sua bolsa. Dimitri se perguntou se ela realmente chamava treinos intensos com crianças de infância, mas manteve a pergunta para si mesmo. — Eu já vou, Daya deve estar me procurando a essa hora. 

A Moroi de Ember era uma duquesa cheia de energia. Com um humor sem limites, foi difícil ela e Ivan não se aproximarem. Foi o que levou ele e Ember a se conhecerem. Daya sempre disse que queria se mudar para mais perto do melhor amigo que via poucas vezes no ano. Quando se formou a primeira coisa que fez foi arrastar sua guardiã recém formada para sua nova casa. Ninguém ousou contestar a duquesa, seu pai era conhecido por ser um homem nada piedoso que sempre fazia de tudo para agradar sua filha. Apesar disso, a Moroi era gentil e caridosa. Também era uma das poucas pessoas que fazia Ember quebrar. 

— Claro. Avisarei Ivan que você já….— as palavras de Dimitri morrem em sua boca quando o pequeno celular dele toca em sua cintura. Ao mesmo tempo, o da guardiã também. Ele fraze a testa, desbloqueando o aparelho. — Uma mensagem da Corte. 

Ele levanta o olhar por um segundo para Ember antes de ler e nota seu rosto sem cor, os olhos travados na tela. Dimitri dá um passo pra frente para amparar a Dhampir, mas então Ivan desce as escadas apressado. Ele se volta para o protegido, que também está em completo choque. 

— A Corte acabou de anunciar um acidente de carro envolvendo os Dragomir…— Dimitri franze a testa e então volta o olhar para Ember, porque ela parecia tão catatônica com a notícia? Ela não era próxima da família, pelo menos não que ele soubesse. — Disseram que teve três vítimas fatais, Ember, você acha que…?

Quando a Dhampir responde, sua voz está embargada, rouca, seu olhar preso num ponto atrás de Dimitri. 

— O líder dos Guardiões da St. Vladimir me mandou uma mensagem. Evelyn também estava no carro. 

 

Ivan não parou um só segundo desde que Ember saiu pela porta, dispensando criados e até mesmo o próprio Dimitri para arrumar a própria mala. O Dhampir ficou um passo atrás, observando a cena pela porta do quarto. Como um membro próxima do acidentado, a família de Daya não desaprovou quando a guardiã pediu uma licença para ver como a irmã estava, uma vez que sua mãe não iria. Muito atarefada, ela disse. Evelyn não morreu, já é o suficiente, ela afirmou sem nem alterar o tom de voz. Ember engoliu as ofensas pelo telefone e pegou o primeiro avião para Montana. Ela chegou lá rápido o suficiente para ajudar os preparativos do enterro. 

Ivan e Dimitri não tiveram tanta sorte. 

Perto da meia noite, todos os vôos foram cancelados, uma tempestade de neve se alastrando com força sobre a cidade. O Moroi ficou possesso, andando pelos lados na enorme sala de estar. Ele resmungava com seu guardião sem parar. Até a pobre cozinheira, senhora Ivika, não aguentou os nervos dele e foi preparar um chá. Presos pela mãe natureza dentro de casa, o Dhampir se ocupou em ler um de seus exemplares, ou pelo menos tentou. Não havia muito a ser feito. O que tinha acontecido aos Dragomir era uma tragédia, de fato, mas a parte primordial do problema, a irmã de Ember, tinha sobrevivido, então não havia motivo para tanto pânico. Mas Dimitri não ousou dizer isso a Ivan. 

— Ela vai estar sozinha, organizando o enterro enquanto a irmã está internada no hospital. — ele resmungou. — Essa tempestade deve ser uma resposta da natureza pela preocupação de Ember, tenho certeza. 

— Ivan, Ember não controla os elementos. Você por outro lado está quase formando um furacão na sala de estar. — Dimitri fechou o livro com um suspiro, agora focando nos lamentos do Moroi. — Ela é uma guardiã… e uma Tavora, ela vai saber se virar, não se preocupe tanto. Conhecendo Elizabeth, você sabe muito bem que ela jamais permitiria que Ember desmoronasse na frente da Corte inteira. 

Ivan encarou o guardião antes de fingir um tremor. 

— Aquela mulher é assustadora, lembra quando ela ficou duas semanas na academia? Eu achei que ela ia me atacar a qualquer segundo…— ele fez uma careta. — Ela te derrubou uma seis vezes, não foi?

O Dhampir mordeu a parte interna da bochecha para não xingar. 

— Ela é dedicada, você quase não vê ela se movendo, é incrível. Ela treinou Ember com quase a mesma perfeição.— Ivan dá uma risada baixa. 

— Se não te conhecesse, diria que isso foi quase um elogio.— Dimitri revira os olhos, sorrindo. — Elizabeth Tavora pode não ter poderes, mas com certeza é uma força da natureza. A família toda é, na verdade. 

Sem hesitar ele concorda, e coloca a mão no ombro do amigo. Ivan lhe dá um sorriso amarelo, suspirando. 

— Fico feliz que Evelyn esteja bem, não sei como Ember estaria se algo acontecesse com ela. Ela basicamente criou as irmãs desde pequenas, a mais nova mal entrou na adolescência. — ele olha para a lareira. — Emy me disse que ela é muito próxima de Vasilisa, pelo pouco que Ellie disse a ela. 

E lá estava de novo, a intimidade dos segredos da família Tavora sendo jogados no colo de Dimitri. Ele segurou uma careta de incômodo. Os apelidos das irmãs rolavam pela língua de Ivan sem pudor, como se fossem da própria família. Ele pensava que nunca ia se acostumar com o afeto que Ivan estendia as… ele poderia chamar de cunhadas? Algo como isso.

O guardião se lembrou da vez que escutou o Moroi oferecendo a Ember que trouxesse suas irmãs para morar com ele. Ela recusou, claro, esse arranjo não poderia ser feito sem que algumas delas acabassem na comunidade. E para os guardiões da América, comunidades significavam ser meretriz de sangue. Isso não era uma verdade absoluta, mas ele não interferiu. Não conseguia se imaginar cuidando de duas Dhampirs que não eram conhecidas por serem fáceis de lidar. Além de toda a dor de cabeça que teriam com Elizabeth. Mas Ivan não estava a par dos problemas administrativos do pedido, ele só o fez. 

Dimitri que resolvesse o problema depois se o plano mirabolante dele desse certo. Era sempre assim. 

Então foi bom ter uma voz da razão do outro lado, no caso, Ember. 

Nesse momento, Ivika entra na sala, trazendo o chá numa bandeja de prata. As mãos trêmulas pela idade. Dimitri se levantou e pegou a bandeja dela, sorrindo em agradecimento. Ele a colocou sobre a mesa de centro e serviu uma xícara para Ivan, que tomou um gole devagar. 

— Obrigada, Ivika. Como sempre, o chá está divino. — Ivan agradeceu, sorrindo para a Dhampir idosa. Ela fez uma leve reverência e saiu, deixando os dois a sós. — Meu Deus, eu amo essa mulher, ela tem mãos mágicas. 

— Beba e descanse um pouco, Ivan. Te avisarei se Ember mandar notícias. — Dimitri liga a TV e se levanta do sofá, levando o livro consigo. — A tempestade deve parar pela manhã. 

— Obrigado, amigo. — Ivan se ajeitou, pegando uma manta que ficava perto do sofá. — Eu não sei o que eu faria se Ember não voltasse, se algo acontecesse com ela ou com você.

Mas não foi Ember que não voltou. Ou Dimitri. 

Foi Ivan.