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Na noite de sua quase-morte, Mosto sentiu todos os tipos de dor. Primeiro, a destruição violenta que cada soco de Colosso imprimia em seu rosto para jamais ser apagada. Depois, a dor remanescente, fraca mas constante, de uma carne se adaptando a seu novo formato. A humilhação de se fingir de morto enquanto Giovanni mexia os pauzinhos para tirá-lo do ringue. Os solavancos do carro que o levou para uma enfermaria improvisada em um lugar não muito limpo, que reabriam seus ferimentos como minúsculos socos. A pulsação fantasma de um olho que não estava mais lá.
A vergonha. Essa, sim, era a dor mais profunda. Dela nasceu o ódio que incendiava a alma de Mosto, que ardia mais que os desinfetantes passados nas feridas abertas, os pontos gravados um por um com centenas de furos de agulha, a lenta reconstrução de uma casa esburacada feita apenas de destroços. Mas a noite passou. Giovanni ficou apenas o necessário, resmungando apenas um "cobre essa merda" antes de ir embora. Mosto passou horas encarando a parede, uma forma de não olhar para o próprio corpo, e eventualmente até o ódio acabou. Ele se deitou, resignado, na cama dura. Era absurdo simplesmente fechar os olhos e dormir depois de um dia como aquele. Ele caiu no sono mesmo assim.
Mosto acordou com a pessoa que tinha juntado os pedaços dele no dia anterior avisando que ele tinha uma visita. Ele esperou que não fosse Giovanni mandando-o lutar de novo; Mosto só tinha um oponente agora, e não perderia o foco até derrotá-lo, não importa o quanto Giovanni puxasse a coleira em seu pescoço. Ele fechou os punhos. Encarou a porta.
Mas era só Tarrafa, seu mais-que-amigo, dessa vez sem a barra de aço na garganta e carregando uma sacola de papel. Vê-lo causou uma ansiedade diferente em Mosto: ele agarrou o lençol áspero que estava esquecido em um canto da cama e jogou-o sobre o rosto, encolhendo-se instintivamente como uma criança assustada.
Ele não se encolheu enquanto Colosso o destruía. Mas pensar em Tarrafa vendo o que ele se tornou e rindo, ou pior, sentindo pena, era uma dor muito mais difícil de aguentar.
Mosto ouviu Tarrafa se aproximando e puxando uma banqueta para o lado da cama. Podia sentir o olhar dele, mesmo sem enxergá-lo. Ele queria olhar para Tarrafa também, estava com saudades, mas não podia arriscar. A sacola de papel cheia foi colocada a seu lado, um peso reconfortante. Um presente?
—Quê isso?
—Sanduíche. Come.
Tarrafa parecia bravo. Ou preocupado, Mosto não sabia dizer a diferença. De qualquer modo, ele tirou uma das mãos debaixo do lençol, segurou a sacola e a trouxe para si.
Pão, queijo e presunto. Frio, mas ainda fofinho. Mosto imaginou seu amigo entrando em alguma loja de conveniência com um buraco na garganta, sem camisa e com a marca do Pacto à mostra, e foi o primeiro sorriso que ele deu em muito tempo. Comeu metade em uma só mordida, com uma fome que não sabia que era capaz de ter: talvez fosse seu corpo se regenerando, pedindo mais alimento, talvez fosse porque, só de ser trazido por Tarrafa, aquele se tornava o melhor sanduíche do mundo.
Tarrafa ficou quieto por alguns minutos. Ele não se aproximou, nem tentou tocar Mosto, mas o olhar permaneceu: aqueles olhos sempre perdidos agora tinham um foco, estavam presentes, atentos. Ele com certeza não conseguiria encarar Tarrafa de frente no estado em que estava.
—Posso ver? — Tarrafa perguntou, afinal.
Mosto sentiu aquele medo de novo. Colocou a sacola de papel em sua cabeça e abaixou o lençol devagar. Tarrafa deu um suspiro que se transformou em uma crise de tosse com sangue.
—Não pode ser tão ruim assim.
—Mosto olhar espelho ontem. Mosto horrível.
—E eu tenho um buraco na goela. O que que tem?
—Colosso destruir rosto!
Tarrafa deu um soquinho no braço de Mosto, que se encolheu mais ainda.
—Então é só você quebrar a cara dele também.
—Mosto vai.
Silêncio. Estava ficando difícil respirar dentro do saco de pão. Mosto sentiu a mão de Tarrafa sobre seu punho cerrado, o polegar dele afagando os nós machucados de seus dedos com uma gentileza surpreendente. A pele esfolada pela luta de ontem ardia, mas era uma dor boa que o prendia à realidade, a si mesmo, a Tarrafa. Lentamente, ele levou as mãos à cabeça e levantou a sacola. Mosto conseguiu observar Tarrafa com atenção pela primeira vez; ele encarava a massa de carne remendada com uma expressão neutra, mas mesmo assim Mosto se sentia inspecionado, julgado.
Cobre essa merda. Giovanni tinha razão. Ele sempre teve.
—Ele fodeu sua cara mesmo...
—Tarrafa odeia!
—Não odeio não! Vem cá.
Tarrafa se levantou da banqueta e veio sentar-se na beirada da cama, a mão esquerda pousada sobre a coxa de Mosto, a direita percorrendo o lado deformado de seu rosto. Não com nojo ou pena, somente curiosidade. Ele sentiu no olho a ardência de uma lágrima, mas segurou. Não havia motivo para chorar.
Alívio. Mosto tinha certeza que tinha ficado feio demais para ser tocado por Tarrafa, olhar nos olhos dele, que o outro não o deixaria nem empurrar a barra de ferro em seu pescoço mais. Mas nada disso aconteceu. Tarrafa não ligava.
—Tá doendo?
—Um pouco.
—Então não posso te morder hoje?
Mosto desviou o olhar, envergonhado.
—Rosto não. Outro lugar pode ser.
Tarrafa sorriu. Fez um barulho que talvez fosse uma risada, talvez um engasgo. Um pequeno brilho metálico apareceu no buraco da garganta dele, e Mosto se aproximou para olhar.
—O que tem aí?
—É um negócio legal que eu achei. Queria dar pra você. Se você puder...
Tarrafa coçou o buraco com uma das unhas afiadas, e Mosto entendeu o recado: com os músculos reclamando de dor e cansaço, se levantou e foi para trás de Tarrafa, os punhos pressionando a barriga dele para desengasgá-lo, movendo-se com a memória muscular de quem fazia aquilo quase todos os dias. Quando Tarrafa tirasse a goela, como ele sempre dizia que faria um dia, Mosto sentiria falta dessa proximidade, das costas de Tarrafa pressionadas contra seu peito, do agradecimento rouco dele ao final.
Tarrafa deixou no chão a mesma poça de vômito e sangue de sempre, mas com dois objetos brilhantes no meio. Mosto se abaixou para pegá-los e os levou até o único olho, observando com atenção. Eram dois anzóis, simples, gastos, mas preciosos. Ele ficou vermelho até onde nem estava ensanguentado. Sorriu, mesmo com dentes faltando.
Tarrafa se levantou e tirou um dos anzóis da mão estendida de Mosto. Segurou a orelha esquerda dele, a mesma que foi deformada pelo Colosso, e perfurou-a com o anzol. Limpou a gota de sangue que saiu com o polegar, e então levou-o à boca, pressionando o dedo contra a própria língua.
Dor. A melhor que Mosto já tinha sentido. Seu coração já maltratado parecia que ia saltar do peito. O sorriso aumentava. Ele segurou o anzol que restava entre os dedos. Tarrafa inclinou a cabeça para deixar a orelha mais à mostra. Mosto sentiu um desejo incontrolável de beijar o lóbulo antes de perfurá-lo, então foi o que ele fez, e mesmo que Tarrafa preferisse uma mordida ele pareceu apreciar o gesto.
Mosto observou o anzol na orelha de Tarrafa, tocou o que estava em sua própria orelha. Ele se sentia menos feio. Mais humano. Ele se deitou e Tarrafa deitou por cima dele, aconchegado na curva de seu pescoço, relaxado como um gato sob o sol. Mosto o envolveu com os braços mais forte do que o normal, querendo sempre trazer aquele corpo pequeno para mais perto do seu.
Tomara que doesse. Era a declaração de amor mais pura que Mosto poderia dar.
