Chapter Text
Camisa 10
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Chanyeol ergueu a gola do uniforme, limpando o suor da testa quando o árbitro apitou falta para o seu time outra vez. Ele engoliu seco, odiando cada segundo daquela partida — do peso ensurdecedor dos gritos da torcida coreana à sensação de derrota que sentia a cada drible que era incapaz de fazer.
Na verdade, havia mesmo pouquíssimo a ser feito.
O time alemão não tinha toda aquela fama por nada. E a Coreia do Sul… bem, Chanyeol ainda nem era nascido na última vez em que seu país passou das oitavas de final.
Quando encarou o placar no telão, marcando um gol para o time adversário e absolutamente nenhum para o seu, com o adicional de primeiro tempo chegando ao final e gritos tornando-se vaias, Chanyeol desejou que o gosto de sangue misturado com suor dentro da boca fosse veneno. Se caísse duro ali, no meio do gramado, seria menos embaraçoso do que ter que dar uma entrevista dizendo como estava se sentindo ao ver seu país se despedir da Copa do Mundo — “por sua causa”, eles diriam, nas entrelinhas.
E a pior parte não era o peso das pernas sobre as chuteiras já suadas, nem o jeito que o coração batia pesado na base do pescoço ou sequer a maneira como a torcida parecia prestes a pular em cima dele para obrigá-lo a fazer um gol, mas o olhar que o perfurava a alma e fazia seu estômago sangrar. O vinco entre as sobrancelhas sobre aqueles olhos, o ódio e a vontade de brigar constante que Byun Baekhyun parecia destinar somente a ele e a mais ninguém.
A estampa branca nas costas da camiseta vermelha ainda fervia na sua cabeça.
BAEKHYUN.
10.
Chanyeol fez todo o caminho até o campo para cantar o hino nacional com o olhar preso nessas letras, tentando ignorar o quanto ficava desconfortável com aquele jogador fazendo parte do seu time, tendo que colaborar com ele e não marcá-lo como de costume.
Eles eram adversários no cenário europeu, constantemente se esbarrando na Champions League e trocando aquele tipo de olhar que Baekhyun direcionava a ele naquele momento. Chanyeol nunca entendeu o motivo, de onde vinha todo aquele desprezo, mas passou a devolvê-lo só porque sim. Criou um certo tipo de antipatia por aquele jogador arrogante, não só porque Baekhyun nitidamente o odiava por motivo nenhum, mas também porque ele era um puta jogador (e Chanyeol tinha um pouco de inveja, mesmo que não admitisse em voz alta). Com uma agilidade de dar inveja, Baekhyun carregava o Real Madrid nas costas e fechava cada vez mais contratos, aqueles com patrocinadores que todos os outros jogadores almejavam alcançar — e raramente conseguiam.
Baekhyun era um cara arrogante, o tipo de jogador que é bom e sabe que é, que anda por aí dirigindo Porsche só para deixar claro que sabe fazer dinheiro com o próprio futebol e que não cansa de sair nas páginas de notícias por escândalos idiotas. No geral, não era apenas Chanyeol o alvo do seu desprezo, mas havia algo diferente na maneira como Baekhyun encolhia as sobrancelhas na testa para olhar para ele. Era caricato, até. Como se estivesse emulando “raiva” como emoção por trás de alguma outra que ele se impedia de dar nome. Ou só não queria deixar que Chanyeol soubesse qual era — o que sempre causava um incômodo engraçado no seu estômago.
Quando o jogo voltou a correr, Chanyeol retornou a atenção para a bola no meio do campo e se sentiu um pouco tonto quando viu que seu camisa 13, Minseok, tocou para Baekhyun. E, porra, ele havia driblado dois zagueiros da Alemanha para tocar a bola na sua direção.
Chanyeol estava a pouquíssimos metros do gol, bastava um toque seco na bola para fazer a rede tremer e a torcida vibrar, mas… merda, deu tudo errado. Tudo!
Ele pensou demais. Pensou no goleiro que estava numa posição quase impossível, pensou em como seria ridículo dar um único toque na bola para marcar aquele ponto, pensou que Baekhyun ganharia o destaque daquela jogada e seu nome seria ridicularizado pelos comentaristas.
Ah, não… era amargo demais pensar nessa possibilidade. O sentimento inicial era de “nem fodendo que eu vou servir de palco pra esse filho da puta brilhar”, e esse pensamento infantil e ridículo foi o que empurrou seu corpo para a ruína.
Ele tentou marcar com uma meia-bicicleta, mas descobriu pouquíssimos segundos depois que esse seria o maior erro da sua carreira. Um erro que o assombraria pelo resto da vida, porra.
A bola voou para o gol no ângulo mais errado possível, graças ao chute torto que tentou realizar. Bateu na trave e voltou para os pés de um dos alemães, que a devolveu para o outro lado do campo.
Quando olhou para Baekhyun, meio desesperado, viu aquele olhar raivoso tornar-se tão mais intenso do que antes que nem precisaria beber veneno para sentir o gosto. Era quase como se o camisa 10 estivesse enfiando o mais poderoso deles dentro da sua goela.
O apito soou alto, ecoando por todo o campo, assim como os gritos estridentes de setenta mil pessoas tentando se sobressair sobre qualquer outro som. O problema era que, naquele momento, nenhum ruído era capaz de competir com as batidas do seu coração, pulsando tão intenso que doía nos ouvidos.
O primeiro tempo chegou ao fim.
Então, o time recuou para os vestiários, todos de cabeça baixa, arrastando as chuteiras pelo concreto e xingando Chanyeol. Não verbalmente, mas ele imaginava que, em pensamento, eles estivessem mesmo.
Chanyeol tinha acabado de resgatar uma garrafa d’água que alguém estendeu para ele e estava tirando o gosto ruim da boca com um bochecho, cuspindo pesado entre os próprios pés, quando sentiu um puxão firme na gola da camiseta.
Antes que pudesse antecipar o ataque, Baekhyun o prendeu contra a porta de entrada do vestiário, com tanta raiva que o deixou meio tonto. Não exatamente pelo susto, mas ele não quis racionalizar o motivo mais a fundo.
— Que porra você tá fazendo, hein, Park? — esbravejou ele, segurando com muita força a gola da sua camiseta. Dos dois lados! Chanyeol sentiu o peito dele, molhado até por fora do uniforme, encostando no seu. Sentiu o calor do hálito dele assim que Baekhyun praticamente rosnou a centímetros do seu rosto. E a pior parte, a que piorava a sua tontura, era sentir as coxas suadas roçando nas suas sob as bermudas enquanto o camisa 10 o empurrava contra a porta. Do jeitinho que ele costumava fazer quando jogavam em times rivais. Quando Baekhyun insistia em marcá-lo de tão perto. — Você só tinha que dar um toque, porra! Era nosso!
Chanyeol não tinha mais o que cuspir, mas fez questão de puxar do fundo da garganta e soltar ao lado dele, em um sinal forçado de desprezo.
— Não enche o saco, tá? — respondeu, sem se mexer. Mesmo sabendo que, com todo o seu tamanho, poderia afastá-lo com um empurrão. — Cometi um erro, vai me bater por isso?
— Eu devia — Baekhyun puxou a gola da camisa só para empurrá-lo de novo, com mais brutalidade, na direção da porta de metal. — Para de fazer graça pra aparecer e faz a merda de um gol pro seu país, caralho! — Chanyeol engoliu seco e Baekhyun tirou as mãos dele, mas não deu um único passo para trás. Em vez disso, abaixou o tom de voz para continuar a falar: — Se a gente perder só porque você quer dar show, eu faço questão de te dar essa surra depois do jogo.
Chanyeol jurou que pôde ouvi-lo completar com um “seu merda!” antes de sair definitivamente de perto dele, mas se limitou a girar os olhos e finalmente beber um pouco de água.
Seu olfato ainda parecia cheio de Baekhyun.
Cheio de menta, suor e testosterona.
Ele sentou por um instante, jogando a cabeça para trás enquanto tentava massagear as próprias coxas, pensando que teria empurrado sem nenhum cuidado qualquer jogador do seu time que tivesse o encurralado daquele jeito, então por que, merda, por que com o único cara com quem tinha uma inimizade tão óbvia ele não conseguiu fazer isso? Por que quase desejou que Baekhyun continuasse a pressioná-lo contra aquela porta? Por que ficava tão nervoso com a ideia de ser repreendido por ele?
Caralho, odiava tanto dividir espaço com esse cara. Compartilhar a mesma cor de camisa. Odiava tanto pensar nisso em um momento tão importante, em um jogo tão decisivo.
Àquele ponto, Chanyeol não saberia dizer até onde estava obcecado por aquele olhar irado do seu rival e até onde era pura dissociação. Ele tinha acabado de errar feio — feio pra caralho — com o seu país. Talvez pensar em Baekhyun fosse sua maneira de não pensar que tinha acabado de fazer uma merda gigante como aquela por puro ego. Jogar nele todo o ódio e toda a raiva que estava sentindo por si mesmo era um caminho muito mais fácil, afinal de contas.
O treinador dizia algo aos berros, alguém usava gelol, outros jogadores se molhavam com o que restava da água nas garrafas e Chanyeol, imóvel, mantinha o olhar fixo no chão, perdido dentro da própria cabeça. Jongin tocou seu ombro, deixando dois tapinhas de incentivo nas suas costas, tentando dar uma força.
Ele não tinha certeza se conseguiria sorrir na direção do colega, mas tentou.
O intervalo passou como um raio de tão rápido e Chanyeol precisou ouvir um sermão do treinador sobre como precisava honrar a camisa que estava vestindo, sobre como não deveria fazer nenhum passe difícil e nem tentar jogar bonito — tinha que apenas jogar, caralho. Mesmo com os xingamentos e os tapas figurativos, nada foi tão doloroso quanto ver Byun Baekhyun sendo elogiado como cérebro da equipe e recebendo um aceno cúmplice do treinador assim que foi instruído a passar todas as bolas que conseguisse para o Park, “mesmo que ele continuasse fazendo merda”.
— Se vocês não conseguirem jogar no mesmo time pelos próximos cinquenta minutos, eu vou garantir que nenhum dos dois pise numa Copa do Mundo nunca mais. Entenderam bem?
Nem Chanyeol e nem Baekhyun disseram nada, mas assentiram, concordando com a condição.
Chanyeol quis bufar como uma criança contrariada, porque sentia a injustiça de ser o único com uma bronca genuína nas costas — quando ele jamais teria agredido um dos colegas de time por um gol perdido, mas beleza! No fim, ele se limitou a um longo gole de água antes de ficar de pé e voltar para o campo junto dos colegas, dando o melhor de si para reconhecer amargamente o próprio erro e manter a cabeça no lugar para não repeti-lo. Afinal, por pior que fosse a sensação de ver Baekhyun brilhar às suas custas, ele sabia que seria muito pior levar uma derrota para casa porque não fez o que sabia fazer de melhor: a merda de um gol.
Quando a sola da chuteira fincou no gramado e o juiz apitou o início do segundo tempo, Chanyeol tentou ignorar todos os pensamentos acerca daquele jogador arrogante e focar nas palavras do treinador.
Honrar a camisa.
Não jogar bonito, só jogar.
Era mais difícil do que parecia quando via “BAEKHYUN, 10” por toda parte.
Quando ele levantava a mão direita na sua direção e tentava guiá-lo como um maestro para onde queria que Chanyeol fosse, por exemplo. Ele passava por corredores estreitos e tirava a bola de perto dos alemães mais vezes do que Chanyeol conseguia contar, mas raramente era capaz de passar, porque a marcação estava mais intensa do que nunca.
Já passava dos vinte e cinco minutos quando uma oportunidade de ouro surgiu.
Jongin fez um passe magistral para o camisa 10, que tocou por entre as pernas de um zagueiro e avançou com agilidade para buscá-la dois metros adiante. Mais um toque ligeiro e guiou Chanyeol para a esquerda da grande área, onde o caminho estava livre.
Dessa vez, ele tinha espaço para fazer a jogada mais bonita de toda a Copa, se quisesse. Tinha espaço para qualquer coisa. Mas, focado em apenas fazer, tudo o que veio depois foi exatamente o que ele devia fazer: dar um toque para o centro da trave.
Chanyeol poderia jurar que sentiu o coração parar dentro do peito, desde o momento em que a bola rolou por entre as pernas do goleiro adversário até quando fez a rede balançar. O sorriso foi instantâneo; apareceu no instante em que soltou a respiração com força e voltou ao mundo real, exatamente no mesmo segundo em que gritos de comemoração explodiram ao redor deles e a torcida coreana fez uma festa como Chanyeol nunca tinha visto.
Ele continuou correndo, contendo a velocidade do passo quando buscou o camisa 10 com o olhar e o encontrou correndo também.
Na sua direção.
O placar marcou 1 a 1.
O corpo do armador se chocou contra o seu com violência.
Baekhyun não estava com o olhar cheio de raiva, mas com o mesmo sorriso que Chanyeol ostentava quando pulou na sua direção para um abraço apertado. Seus braços se fecharam ao redor do pescoço dele enquanto as pernas agarraram a sua cintura. E ele, tomado pela euforia de marcar um ponto para a sua equipe, agarrou a cintura suada do camisa 10 como se fossem cúmplices desde sempre.
Sem filtros, afundou o nariz no pescoço suado dele, apertando-o com força enquanto caminhava a passos curtos pelo gramado, carregando-o para lugar nenhum. Chanyeol sentia a fragrância do seu perfume ainda impregnada na pele, mesmo por baixo de todo aquele suor, e nem percebeu quando o apertou com mais força nos braços, quase como se estivesse desejando levar aquele cheiro no próprio uniforme.
Não demorou para que o resto do time os rodeasse com pulos e gritos animados, cortando aquele momento entre os dois que Chanyeol nem sabia que tinha almejado tanto.
Quando se soltaram, ele sentiu vontade de dar tudo de si para marcar mais um gol. Não porque isso os levaria para as quartas de final, mas porque queria muito sentir aquele abraço — e aquele cheiro — outra vez.
O que restou do segundo tempo foi uma batalha ainda mais intensa.
Os alemães se recusaram a aceitar a maneira como a Coreia do Sul cresceu no jogo, então fecharam a marcação com ainda mais vontade. Era quase impossível recuperar a bola uma vez que os adversários retomavam a posse, mas o time coreano estava dando o sangue para, pelo menos, impedir que marcassem mais um gol.
Jung, o goleiro, encarava o rosto dos colegas em puro desespero, sem saber até onde conseguiria dar conta, pedindo socorro.
Para Chanyeol, o movimento das pernas se tornava cada vez mais difícil, mas sua cabeça estava mais calma, quase fazendo silêncio, cedendo o foco para o único objetivo que tinha pelos próximos minutos. As letras brancas formando aquele nome irritante — e, para os seus olhos, florescente — já não pareciam mais aquele filme de terror todo. Na verdade, se tornaram uma espécie de guia. Onde quer que Baekhyun fosse, Chanyeol seguia, tentando garantir espaço para um novo passe, uma nova jogada absurda e ágil que pudesse garantir o novo toque — o novo ponto.
A multidão urrou com paixão quando os jogadores coreanos se aproximaram da grande área inimiga.
Baekhyun passou a bola pelo zagueiro gigantesco da Alemanha, driblando sua marcação, enquanto Chanyeol vinha em busca do passe, embora estivesse secretamente torcendo para que o Byun fizesse um golaço com um brutamonte como aquele nas costas.
Porra, seria lindo pra caralho de assistir.
Bem nesse momento, outro adversário avançou na direção dele e impediu seu avanço. Chanyeol, que estava tão atento aos pés do camisa 10, observou o suficiente para perceber que Baekhyun não estava querendo seguir em frente, mas tocar para trás. Então, correndo como um trem desgovernado na direção dele, Chanyeol gritou um “tô aqui” às suas costas, recebendo com orgulho aquele toque que o outro time não havia calculado.
Ele chutou para a lateral e correu com a maior velocidade que era capaz de alcançar, fincando a chuteira no gramado com tanta força que era quase como se nem estivesse sentindo dores nos quadris e na panturrilha até aquele instante. Chanyeol avançou com fome, com sede e com sangue nos olhos, chutando para o gol com tanta força que fez tremer a câmera presa na rede. O goleiro alemão fez um esforço colossal para não deixar a bola passar, mas Chanyeol acertou em cheio no ângulo, um chute intenso que a fez atingir exatamente a região da trave que a defesa não pôde alcançar.
Nesse momento, ele escorregou de joelhos na grama úmida, caindo de quatro no campo graças à força excessiva que colocou nas pernas durante aquela movimentação. Puxando o ar para dentro dos pulmões como se estivesse em uma crise de asma, ele sentiu os olhos ardendo pelo excesso de suor escorrendo para dentro deles e possivelmente algumas lágrimas de alívio se formando.
2 a 1 para a Coreia.
Os gritos da torcida estavam quase deixando-o surdo.
De repente, um peso nas suas costas fez com que seu corpo rolasse para a grama e, sem aviso, Baekhyun estava em cima do seu corpo.
De barriga para cima, Chanyeol sentiu as duas mãos do camisa 10 em seu rosto enquanto ele sorria bonito — ainda muito arrogante, mas também lindo demais. Instintivamente, suas mãos foram novamente para a cintura dele, mantendo-o no lugar. Ele soltou uma risada rouca quando Baekhyun o xingou de filho da puta, não só porque estava eufórico, mas porque a sensação do peso da coxa dele contra o centro do seu quadril era quase como sentir cócegas. Deixou o corpo todo travado de tensão, exatamente o tipo de tensão que tinha que disfarçar com um riso.
O coração vacilou quando Baekhyun avançou na direção dele e Chanyeol chegou a fechar os olhos em antecipação, mas tudo o que recebeu foi outro abraço apertado antes que os outros colegas fizessem um montinho em cima dos dois e começassem a rolar pelo gramado aos berros e gargalhadas.
Mais cinco minutos de pressão. Um acréscimo de seis. Outro soar longo do apito.
Fim de jogo.
Coreia do Sul 2. Alemanha 1.
E o sonho das quartas de final, alcançado.
Chanyeol estava em êxtase.
Mas o resultado do jogo obviamente não estava nem perto de ser o principal motivo.
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Todo o trajeto até o ônibus da seleção não passou de um grande borrão.
Chanyeol tentou ser ponderado nas entrevistas, bebeu seu shake mais rápido do que os colegas de time e se enfiou no chuveiro para uma ducha ligeira antes de mergulhar na banheira de gelo para relaxar os músculos. Os quinze minutos com o corpo gelado não foram o bastante para desfazer todos os pontos de tensão espalhados pelo seu corpo, mas ele não relatou isso ao fisioterapeuta após sair do banho frio. Diferente do goleiro e outros dois jogadores, que estavam lesionados e precisavam de cuidados imediatos, ele apenas disse que estava tudo bem, passou pelos exames sem se aprofundar nas reclamações e vestiu o uniforme limpo para participar do momento com a imprensa, que também passou diante dos seus olhos como um vídeo acelerado.
Mesmo que quisesse escapar dos jornalistas, ele ainda precisava honrar o tamanho do próprio nome, o número da camisa e o título de centroavante da Coreia do Sul. Então, antes de tornar-se um dos últimos a embarcar no ônibus, ele teve que sorrir para as câmeras e responder a infinidade de perguntas e curiosidades de todos os repórteres espalhados pelo longo corredor da zona mista. Ele ouviu o time coreano passar por ele cantando e dançando, abraçados como se fossem melhores amigos, e riu sincero, especialmente quando viu que Baekhyun estava os observando com felicidade nos olhos também. Aquele vinco sério e cheio de raiva tinha cedido espaço para um sorriso orgulhoso e a expressão mais contente que já tinha visto no rosto dele.
Quando finalmente embarcou, um hip hop explodia de uma caixa de som, nos bancos do fundo. Indo de Giriboy à Jay Park, o clima de festa era contagiante ali dentro — e o time todo gritou por Chanyeol quando ele pisou no último degrau, arrancando de si outra risada.
Mais uma vez naquele dia, ele comemorou com toques nas mãos e nas costas de cada um dos seus colegas, caminhando pelo corredor do ônibus até alcançar um assento vago.
Seu jantar foi servido de imediato, com arroz e peixe na temperatura perfeita para sua fome. Todos os outros jogadores já estavam ocupados com as próprias porções, mas Baekhyun, acomodado no banco que ficava do outro lado do corredor, mexia distraidamente na comida enquanto observava o celular, parecendo trocar mensagens com alguém enquanto aquela carranca de sempre voltava a sua expressão. Chanyeol sentiu o ímpeto de se aproximar e perguntar se tinha algo errado — afinal, porra, estavam nas quartas de final de uma Copa do Mundo! —, mas dois abraços guiados por um impulso patriota e alguns sorrisos trocados não eram exatamente o que ele veria como o início de uma amizade. Então, simplesmente desviou o olhar e tentou se concentrar na comida, mesmo que sua mente constantemente o traísse, levando-o de volta para o camisa 10, logo ali.
A música, não mais ensurdecedora, parecia apenas a trilha sonora daquele momento patético onde Chanyeol tentava, mais do que deveria ser necessário, manter o olhar em qualquer outro lugar.
A chegada ao hotel foi um alívio.
Mesmo que um número significativo de colegas tivesse optado por frequentar a sala de convivência até altas horas da madrugada, Chanyeol estava sentindo-se sufocado demais para continuar perto de qualquer pessoa. Assim como Baekhyun e o resto da equipe, ele seguiu direto para o próprio quarto, onde tentaria descansar no mais absoluto silêncio.
Leu algumas mensagens no celular, sendo a maioria delas da sua família e amigos parabenizando-o pelo jogo emocionante, tentou distrair a mente em qualquer rede social e leu críticas pontuais a respeito do seu desempenho. E o sono nunca vinha.
Foi quando viu o relógio alcançando as três horas da manhã que decidiu vestir um conjunto leve de roupas e descer para a academia do hotel. Seu corpo ainda estava agitado, sua mente ainda mais, por isso queria gastar as energias restantes em alguma coisa que não fosse a tela do seu celular e a infinidade de comentários negativos que ainda leria se continuasse procurando por eles.
Chanyeol invadiu a academia despreocupado, deslizando a porta com um som abafado do vidro contra o veludo. Seu olhar passeou pelo ambiente sem realmente prestar atenção aos outros aparelhos, focado em encontrar uma esteira onde pudesse subir e correr por quanto tempo aguentasse.
Quando ele deixou o celular sobre o suporte, no painel já acionado, ele ouviu o início de uma música nos fones de ouvido e começou a caminhar devagar, quase tropeçando ao finalmente se dar conta de que não estava sozinho.
Ele precisou se apoiar no braço da esteira para retomar o ritmo, engolindo em seco ao perceber que era Baekhyun quem estava deitado no banco do supino, com as mãos firmes ao lado dos pesos enquanto sua respiração saía meio entrecortada e seu peito subia e descia de uma maneira errática. O camisa 10 fazia tanta força nas coxas para manter os pés firmes no chão e sustentar aquele objeto com os braços que Chanyeol teve que engolir outra vez ao perceber-se particularmente atraído por aquela região. Não só porque as coxas dele pareciam muito maiores naquela posição, fazendo esforço, mas porque o maldito estava usando um short curto, muito mais alto do que os do uniforme oficial. Chanyeol via volume por todos os lados; nas coxas, no quadril largo, na bunda que estava quase visível, no… centro do quadril — porra, estava salivando.
Pareceu impossível se despedir de toda a adrenalina que estava impedindo-o de cair no sono, porque aquela visão estava fazendo seu coração acelerar pra caralho.
Chanyeol descontou aquela tensão toda em uma corrida meio desesperada, fazendo um barulho alto com a respiração que finalmente fez Baekhyun erguer a cabeça e reconhecer a sua presença.
Ele suspirou, endireitou a postura no banco e pegou a garrafa d’água que o esperava no chão, entre os seus pés. Enquanto abria a tampa, fez um sinal com o queixo para Chanyeol.
— E aí, Park — disse, sem demonstrar muito ânimo. — Insônia?
Já em ritmo de jogging, Chanyeol tirou um dos fones antes de respondê-lo.
— É — disse, apenas. Com o silêncio ao redor, livre de toda a pressão do campo, de toda a euforia que a ideia de mandar a Alemanha para casa causava, ele se lembrou vividamente do empurrão no intervalo entre os dois tempos. Se lembrou de sentir-se humilhado por ele, de como quis arrumar uma briga. Lembrou de cuspir perto dos seus pés. No entanto, era a primeira vez que Baekhyun e ele ficavam sozinhos em um ambiente. Era a primeira vez que tinham a oportunidade de conversar de verdade. Por mais que tivesse um pouco de medo daquele caminho, Chanyeol sentiu-se sendo arrastado através dele. — Adrenalina. Sabe como é — completou, por fim, tentando manter o papo vivo.
— É. — Baekhyun repetiu. — Sei bem.
E então, voltou a se deitar no banco, envolvendo a barra de metal do supino para voltar a erguê-lo.
Chanyeol acelerou a corrida, mas não encaixou o fone de volta. Nem desviou o olhar. Não exatamente de Baekhyun, mas das coxas dele. Do movimento debaixo do short.
Porra, por que estava tão atraído por aquela visão?
Depois de assisti-lo repetir a sequência pela terceira vez, Chanyeol pressionou o botão vermelho da esteira e desceu devagar. Mais uma vez banhado de suor, ele tirou a camiseta e tentou secar os cabelos com ela, deixando-a pendurada como um capuz sobre a cabeça enquanto se aproximava do espelho. Com a própria garrafa de água nas mãos, ele viu através do reflexo quando o olhar do camisa 10 o acompanhou, secando seu abdômen como se fosse o único lugar possível para onde encarar.
Talvez também tivesse visto Baekhyun engolindo em seco, mas não tinha certeza.
Enquanto passava o tecido da camisa pelo pescoço suado e bebia metade da garrafa numa única virada, ele ouviu a voz do outro jogador ecoar de leve pela academia vazia.
— Fiquei sabendo que você andou falando bem de mim pra KBS — disse Baekhyun, irrompendo o silêncio. Com um sorriso de canto na boca, ele também bebeu da própria água antes de se levantar e voltar a falar. — Fizeram uma matéria sobre nós dois.
Chanyeol virou o corpo na direção dele assim que percebeu que Baekhyun estava se aproximando, com a tela do celular voltada para o seu rosto.
Quando segurou o aparelho, espirrando o resto da água da garrafa no próprio pescoço, viu como o olhar dele desceu por seu tronco, agora perto demais para tentar se convencer de que foi apenas impressão sua. Uma sensação engraçada fez cócegas dentro do seu peito de novo ao ser olhado daquele jeito e Chanyeol rapidamente tentou voltar o foco à matéria jornalística que Baekhyun tinha mencionado.
Embora estivesse desejando mais do que tudo fugir de todos os comentários na internet, havia algo naquilo — na ideia de dividir uma matéria com Baekhyun — que o atraía como uma armadilha.
Ele leu o título.
Rivais, rivais; negócios, à parte — conheça o relacionamento de Byun Baekhyun e Park Chanyeol, estrelas sul coreanas que expulsaram a Alemanha da Copa na noite de hoje (e comemoraram como irmãos).
— Que merda — desdenhou, sem pensar muito.
— Merda? — Baekhyun riu. — Eu achei maneiro.
Chanyeol desceu a matéria, lendo meio por cima, mexido com a foto do primeiro abraço que compartilharam em campo seguida por todo o contexto de rivalidade na Europa e sobre como pareciam inimigos nos primeiros jogos, mas surpreenderam a torcida com a partida daquele dia.
Curioso, ergueu o olhar para Baekhyun, encontrando um pouco de diversão na expressão dele.
— Maneiro por quê? — quis saber.
Baekhyun deu de ombros, fazendo um movimento despreocupado com os lábios.
— Primeiro porque é a matéria de destaque no site, então… — pontuou, como se fosse óbvio, pegando o celular de volta, no que se tornou um breve contato entre os dedos dos dois. Chanyeol se sentiu meio bobo por reparar nisso, mas reparou. — Segundo… foi bonitinho. Você, dividindo o mérito comigo.
— Ué… — Inesperadamente sem graça, Chanyeol deslizou a camiseta pelo pescoço, secando a pele com batidinhas surdas. — Eu só fiz os dois gols por sua causa. Não ia levar o mérito sozinho.
— Se fosse um otário, levaria, sim.
— Mas eu não sou — rebateu, rápido demais. Chegou a pensar que era meio humilhante parecer tão desesperado para não ser visto como um otário por ele, mas Chanyeol já não sentia que tinha algum controle sobre as próprias reações. Estranhamente, estava sentindo-se desconcertado nesse nível. — Você jogou pra caralho… aqueles dois gols não teriam acontecido sem…
O sorriso de canto que Baekhyun exibia cresceu um pouquinho, mas não chegou a se tornar uma expressão genuinamente feliz. Era só… satisfeita, Chanyeol achou. O que tornava tudo ainda mais embaraçoso, de alguma maneira.
— Sem mim? — sugeriu ele.
— Sem a sua assistência. — Chanyeol corrigiu. Baekhyun estava um passo mais perto e ele pôde sentir o cheiro do camisa 10 de novo. Mais perfume do que suor, dessa vez.
— Sem mim — concluiu, fazendo Chanyeol revirar discretamente os olhos e se render a um sorriso, sem nem perceber. Baekhyun negou com a cabeça, avançando outro passo. E mais um. — Os gols também não teriam acontecido sem você, Park. Cada um fez o que devia fazer. É assim que um time funciona.
Chanyeol ficou arrepiado, sem saber se era pelo ar-condicionado da academia batendo contra o seu corpo ainda meio molhado — de suor e água — ou por causa da maneira como a respiração do Byun batia contra o seu queixo conforme ele falava.
— Eu sei como um time funciona — rebateu, tentando escapar da hipnose dos olhos dele. — Não muda o fato… você jogou muito. Merece todo o reconhecimento.
Baekhyun foi quem desviou o olhar depois disso, abaixando a visão para algum ponto entre os dois enquanto soprava um riso de lado.
— Beleza. Valeu, Park.
Ele bateu a palma da mão na tampa da garrafa com força, fazendo aquele barulhinho agudo da pressão molhada ecoar pela academia antes de arrastar os tênis para fora dela.
Chanyeol pensou em chamá-lo de volta antes que Baekhyun escorregasse a porta de vidro e sumisse pelo corredor. Um “ei”, um “Byun”, qualquer coisa que fizesse o camisa 10 voltar o olhar para ele e ficar por mais alguns segundos, continuar dentro daquela bolha sufocante que havia crescido ao redor deles.
O pior foi perceber que Baekhyun chegou a olhar por cima do ombro antes de sair, como se estivesse dando uma chance para que ele realmente o fizesse. Para que pelo menos tentasse convencê-lo a ficar ali um pouco mais.
No entanto, covarde, Chanyeol enfiou os dois fones de volta no ouvido e retornou para a esteira, obstinado a esquecer tudo o que estava sentindo naquele dia em uma corrida mais intensa — embora Baekhyun tivesse deixado o perfume para trás, e isso tornasse aquela movimentação quase ridícula. Ele sentiu como se estivesse avançando em desespero na busca por aquele aroma — e nunca fosse realmente capaz de alcançá-lo.
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Antes de mergulharem de cabeça nos treinos táticos para o próximo jogo, os jogadores da seleção coreana tiveram um dia inteiro de recuperação. Depois de um café da manhã agitado no refeitório privado, os titulares tiveram meia hora de bate papo e risos animados antes que seguissem em direção à piscina para o treino regenerativo.
Chanyeol tinha procurado o olhar de Baekhyun durante a manhã inteira, incapaz de se satisfazer com a visão distante do camisa 10 se empanturrando com panquecas cheias de mel, mesmo que ainda pudesse ver o jeito que ele alcançava o doce com a ponta da língua e lambia os lábios duas vezes depois, se certificando de não deixar nem um cantinho sujo.
Minseok estava sentado ao seu lado e pareceu perceber prontamente para onde é que o Park estava olhando com tanta atenção. Com um sorriso divertido, ele bebeu pelo canudinho um gole do suco de beterraba que segurava na mão, destinando um olhar cheio de palavras não ditas para Jongin, que assentiu e sorriu também.
— Você não tá com raiva dele, né? — perguntou ao Park, chamando a atenção dele com um empurrão leve no joelho por baixo da mesa. Chanyeol estranhou o tom de piada naquela pergunta, sem entender exatamente onde Jongin queria chegar. O olhar cheio de dúvidas bastou para que ele continuasse: — Sei que você não queria perder o holofote pra ele, mas, porra… a gente mandou a Alemanha pra casa. Não dá pra ignorar esse detalhe e ficar feliz?
— Quê? — devolveu Chanyeol, unindo as sobrancelhas em confusão legítima. — Como assim?
Jongin fez um sinal com a cabeça na direção de Baekhyun.
— Tá olhando pra ele com essa cara de poucos amigos — apontou. — Tá todo mundo animado e você aí com essa carranca pra ele. — Jongin suspirou, apoiando os cotovelos na mesa. — Olha… por que não finge que o que tá saindo no jornal é verdade e que a inimizade de vocês ficou lá na Europa, Park? A gente tá lutando pela vitória da nossa casa aqui, juntos, não disputando espaço na Champions. Lembra disso, beleza?
Chanyeol ouviu aquilo com uma ardência chata na garganta e preferiu concordar com a cabeça ao invés de argumentar.
Nem tinha o que dizer, na verdade.
Preferia que o ódio fosse lido na sua expressão obcecada antes de qualquer outro sentimento que estivesse nutrindo por aquele jogador, por isso nem arriscou tentar explicar que não estava exatamente com cara de poucos amigos para Byun Baekhyun, não. Não. Era melhor aceitar a bronca, ainda que não lhe coubesse.
Se tivesse que ser sincero, não havia nenhum resquício de raiva em relação ao último jogo. Na verdade, quase poderia afirmar que estava sentindo orgulho do camisa 10. Um pensamento absurdo — intrusivo, provavelmente.
Baekhyun só olhou de volta para ele quando já estavam dentro da piscina, prontos para o início da atividade. Chanyeol perdeu um tempo considerável estudando a maneira como ele penteava o cabelo molhado para trás e caminhava rebolando dentro da piscina, mais lento do que na superfície graças ao peso em volta das pernas. O quadril estava visível devido à altura da água, e Chanyeol estava prestes a enlouquecer com a visão, ignorando completamente o clima dos colegas, que ainda era de ânimo e gargalhadas, ao redor.
Quando o preparador físico chamou a atenção do time e pediu que formassem duplas, Chanyeol assistiu com uma pontada de mágoa os companheiros mais próximos, Minseok e Jongin, formarem um par. A união rápida dos outros membros da seleção fez o centroavante se sentir tonto. Segundos depois, seu olhar caiu sobre Baekhyun, se aproximando devagar, sabendo que havia sobrado, exatamente como ele.
A atenção desceu para o seu quadril em um movimento involuntário, que Chanyeol prontamente desfez ao engolir em seco e voltar a encarar seu rosto.
— Sobrou? — provocou Baekhyun, assim que chegou perto o bastante para ser ouvido sem ter que erguer o tom de voz.
— Igual a você. — Chanyeol devolveu, sem sequer insinuar um sorriso, embora pudesse jurar que viu um se formando nos lábios dele. Bem discreto, quase imperceptível, mas não para os seus olhos tão atentos.
Todos foram instruídos a iniciar o primeiro exercício com o auxílio dos pares, indo e voltando dentro da piscina para relaxar os músculos e reduzir os inchaços. Chanyeol gostava dessa parte da Copa, não só porque sempre gostou de piscina, mas porque realmente funcionava com ele. Ele ficava tão relaxado que, no final do treino, costumava sair da água como se estivesse pisando nas nuvens.
Foi diferente naquele dia, obviamente.
Muito nervoso, ele descobriu que sentir a textura da pele do camisa 10 contra a palma das mãos era aquele tipo de coisa que não sabia que precisava, até ter. Enquanto o ajudava nos movimentos, Chanyeol sentiu como era apertá-lo na cintura, nas coxas, nas panturrilhas. Viu como Baekhyun era sensível quando chegava perto de qualquer zona minimamente proibida e sentiu a boca secar quando ele se encolheu ao toque firme das mãos na cintura macia, onde fez questão de mantê-las por todo o trajeto.
Eles não trocaram uma palavra sequer, mas, de alguma maneira misteriosa, Chanyeol sentia como se os dois estivessem conversando.
Quando foi a vez dele receber o apoio da sua dupla, Chanyeol torceu para não acabar passando vergonha, só porque o toque delicado do camisa 10 nas suas curvas não era exatamente o que estava esperando — foi surpreendentemente muito bom. Toda aquela brutalidade do dia anterior cedeu espaço para os toques gentis que o treino exigia. Mesmo que ainda fossem firmes e certeiros, Baekhyun claramente não o tocava como alguém que o odiava.
Era, na verdade, confuso.
— Se você não relaxar, isso aqui não vai servir pra nada — Baekhyun disse, de repente. Ele estava atrás de Chanyeol e subiu as duas mãos por suas costas, empurrando os músculos com as pontas dos dedos. — Solta essa tensão, Park.
Antes que pudesse reagir direito, contudo, uma nova palma do preparador chamou a atenção para mudar o exercício. E ele voltou a tocar em Baekhyun. Dessa vez, precisou sustentá-lo dentro da água para que ele pudesse pedalar. Com os braços servindo como apoio e o peito como encosto, sentiu o calor das suas costas por toda a sua pele, desde a clavícula até a barriga — toda aquela região em contato com o seu calor. Baekhyun, parecendo absolutamente confortável naquela dinâmica, deitou a cabeça em um dos seus ombros e fechou os olhos quando começou a movimentar as pernas. Sem mudar a expressão tranquila, ele segurou com firmeza as mãos de Chanyeol e as guiou de volta para a própria cintura.
— Segura aqui — instruiu. — Quero relaxar os braços.
Chanyeol precisou fazer força com os pés contra o piso da piscina para mantê-lo no lugar enquanto Baekhyun pedalava devagar debaixo da água e, sem questionar, acabou envolvendo a cintura dele para facilitar o movimento para os dois. Sentiu o camisa 10 suspirando pesado próximo a sua orelha enquanto, exatamente como havia dito, relaxava os braços, submersos na água, abrindo-os como se estivesse prestes a boiar.
— Melhor? — Chanyeol perguntou, baixo, meio débil.
— Uhum… — resmungou Baekhyun. — Com certeza. — Sem abrir os olhos, ele acomodou melhor a nuca no seu ombro e suspirou outra vez.
Chanyeol desceu o olhar lentamente, sentindo a boca secar conforme passeava pelo corpo do rival.
Tinha muita coisa acontecendo ali…
O abdômen estava encolhido pela posição do exercício, o peito cheio balançando levemente com o movimento constante, o pescoço perto demais da sua boca, os lábios separados em meio a respiração profunda, os olhos fechados, a proximidade absurda. Chanyeol foi fisgado pela visão de um Baekhyun relaxado, confiando completamente nele para mantê-lo seguro na superfície, passando uma sensação de poder que geralmente não tinha quando se tratava daquele jogador.
Geralmente, era como se o camisa 10 sempre estivesse por cima. Dominando-o. Então, vê-lo tão entregue ao controle das suas mãos era uma novidade — uma que ele odiou ter gostado tanto.
De repente, Baekhyun abriu os olhos e flagrou os dele, fixos no seu rosto. Chanyeol reagiu com um pequeno susto, um movimento involuntário dos braços, apertando um pouco o corpo dele debaixo da água. Inesperadamente, apenas arrancou um som baixinho — e… manhoso? — do camisa 10, que voltou a fechar os olhos antes de se aproximar do seu pescoço ainda mais.
Chanyeol, por sua vez, não ousou mover um único músculo depois disso. Continuou com os pés firmes no chão, os braços ao redor dele, a garganta seca. Havia algo naquela pele dourada, refletindo o sol das dez da manhã, puxando-o na direção do seu pescoço, mas Chanyeol recusou-se a se render. Mesmo que soubesse que aquele cheiro gostoso que roubou sua atenção durante a partida do dia anterior estava ali, a um palmo de distância, mesmo que todos os seus instintos pedissem que afundasse o nariz naquela curva macia só porque sim, mesmo assim… Chanyeol manteve-se firme e forte — não tão firme… e nem tão forte também.
Pouco depois, troca de posições.
Sua vez de ter Byun Baekhyun como apoio.
Quando se virou para usar o peito dele como suporte para as costas, sentiu as mãos do camisa 10 puxando-o delicadamente pela cintura e ouviu sua voz quebrando o silêncio tenso mais uma vez.
— Park… você tá duro.
Chanyeol quase engasgou.
Sem pensar muito, abaixou o olhar para a própria bermuda, instantaneamente preocupado.
— Não tô, não… — Se defendeu, prontamente.
— É claro que tá. — Baekhyun subiu o toque para os seus braços, alheio ao desespero patético do centroavante, pressionando os pontos de tensão com ainda mais força. — Vem cá, relaxa. Vou te segurar.
Após um suspiro pesado, quase uma bufada — impaciente consigo mesmo —, Chanyeol encostou nele e ergueu as pernas submersas na piscina para começar a pedalar. Baekhyun uniu as mãos sobre o seu abdômen, uma segurando a outra para manter o abraço firme ao redor da sua cintura. Chanyeol sentia que ele também estava fazendo força para manter-se no mesmo lugar e não acabar sendo empurrado para trás — e, por algum motivo desconhecido por ele, notar a força do camisa 10 fez um calor humilhante subir para as suas orelhas. Elas estavam vermelhas como sangue, Chanyeol tinha certeza disso.
Ainda que estivesse tentando relaxar, sentir o perfume do Byun envolvendo-o por todos os lados o impedia de fazer isso direito. Além de tudo, seu calor e a maneira como conseguia ouvi-lo respirar, sentindo o ar com cheiro de menta batendo contra o seu pescoço, também não estavam ajudando em nada.
Mesmo assim, Chanyeol manteve os olhos fechados e fez como ele, abrindo os braços sob a água e pedalando lentamente.
— Park — chamou, em um sussurro.
— Hum? — Chanyeol respondeu, sem coragem de abrir os olhos e encontrar os dele tão perto. Preferia continuar como estava.
— Foi mal, ok? Por ontem. — Sua voz continuava muito baixa, deixando claro que não queria que mais ninguém além de Chanyeol ouvisse. — Você foi muito burro e mereceu o esporro, mas eu não devia ter te empurrado daquele jeito. Não vai acontecer de novo.
Foi difícil processar a informação direito e Chanyeol sentiu-se meio perdido entre reagir positivamente ao pedido de desculpas ou ficar profundamente ofendido por ter sido chamado de burro.
— Aham — fez, tentando não cessar o ritmo da pedalada enquanto procurava as palavras certas para dizer. Era incapaz, porém. — Tudo certo.
Depois de um segundo em silêncio, Baekhyun soltou um “tá” em meio a um novo suspiro e não disse mais nada.
Chanyeol também não disse.
O treino regenerativo chegou ao fim logo depois, liberando os jogadores para um banho de meia hora no vestiário antes que o almoço fosse servido.
Com orgulho, Jongin lançou um dos braços sobre os ombros do Park enquanto caminhava ao seu lado até lá. Ele não disse nada, mas nem precisava. O sorrisinho que destinou a Chanyeol falava por si, bem como se estivesse elogiando-o por se comportar na companhia do rival.
Assim que alcançou o vestiário, Chanyeol ouviu a conversa alta ecoando alto por todo o ambiente. Os jogadores que já estavam debaixo das duchas conversavam aos berros por cima das divisórias de mármore e riam alto, brincando e pairando em torno do mesmo assunto, repetidamente: as quartas de final. A derrota da Alemanha. A vitória do dia anterior.
Baekhyun entrou para o banho e deixou a porta de vidro aberta, sem se preocupar com os olhares dos outros. Ele não se livrou da bermuda para o banho, mas Chanyeol desceu o olhar pelo seu corpo no exato momento em que ele havia abaixado o elástico da peça para passar o sabonete debaixo dela. O caminho de pêlos molhados chamou a sua atenção e ele desviou o olhar na mesma hora, sentindo as orelhas fervendo de novo.
Passou pelo banho e pelo almoço sem olhar para os lados, com o coração acelerando feio a cada vez que se lembrava daquela visão: a base do pau do camisa 10, quase visível sob a bermuda, o modo como ele esfregou o sabonete e jogou a cabeça para trás.
Chanyeol ficou tão nervoso com aquilo que estava quase rindo de si mesmo. Parecia um moleque virgem vendo pornografia pela primeira vez. Beirava o ridículo, porque não era a primeira vez que presenciava uma nudez — só naquele vestiário viu uns dez paus diferentes —, mas tudo sobre Baekhyun parecia sagrado demais para violar. Seu sorriso, seu cheiro — seu pedido de desculpas, seu pau.
Assim que terminou de comer, ele se despediu dos colegas e subiu para o quarto. Era finalmente o momento do dia em que toda a adrenalina já estava fora do corpo e os jogadores se retiravam para os próprios aposentos, fechavam as cortinas pesadas e embarcavam em um cochilo pelo resto da tarde, finalmente descansando da noite mal dormida e de todo o esforço físico que fizeram até ali. A maior parte dos colegas de time ficava na sala de convivência até sentir muito sono para aguentar, mas ele estava precisando ficar sozinho.
No quarto, enquanto o sono não chegava para acalmar sua mente, Chanyeol foi vencido pela curiosidade e decidiu usar o celular para pesquisar seu nome na internet. Ao lado do de Baekhyun.
Ele nem terminou de digitar e a barra de pesquisa já ofereceu algumas opções.
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Chanyeol estreitou os olhos para a tela e caiu em um buraco de minhoca quando clicou em uma das sugestões. Ele não sabia o que significava “ao3”, nem estava interessado em ver imagens daquele abraço de novo. Por fim, ele clicou em “momentos”, por pura curiosidade.
Foi nessa que descobriu montagens, fanfics e infinitos vídeos dos dois, espalhados por todas as redes sociais. Em pouquíssimas horas, a internet já estava cheia de edições com músicas românticas de fundo e ângulos diferentes em câmera lenta do que foram os momentos que os dois trocaram em campo na noite anterior.
Ele negava devagar com a cabeça, tão entretido quanto incrédulo, sentindo-se um idiota por ter permitido que aquela cena tivesse registros. Inúmeros.
Nos vídeos editados, havia duas em específico que não ficavam de fora: primeiro, Chanyeol com o nariz enfiado no pescoço do camisa 10. Depois, Baekhyun segurando o rosto dele, deitado no gramado, com um sorriso lindo na boca.
Chanyeol estava acostumado a assistir a própria imagem, não só nos diversos anúncios e comerciais que gravava ao redor do mundo, mas também em campo. Ele era obcecado por assistir as próprias jogadas e se corrigir, tentar perceber onde tinha que melhorar, aperfeiçoar qualquer passe ou estratégia que ainda fizesse errado. Com isso, ele estava acostumado, sim. No entanto, análises focadas em olhares, sorrisos e expressões de raiva eram novidade para ele.
Entre tantas postagens, encontrou uma sequência de tweets que mostrava detalhe por detalhe daquela “rivalidade”, desde 2022, o ano em que competiram no cenário europeu pela primeira vez. Pelos olhos das outras pessoas, aquele universo ao redor dos dois parecia completamente diferente. Em um dos vídeos, Baekhyun olhou para ele por exatamente dez segundos seguidos, acompanhando sua aproximação com as duas mãos na cintura e uma breve mordida nos lábios, que o dono do post fez questão de aproximar com um zoom. Havia outras gravações dos dois quase se empurrando no campo, discutindo por causa de falta, trocando os costumeiros olhares raivosos que Chanyeol já conhecia bem. Mas também havia momentos que ele sequer se lembrava. Baekhyun se aproximando com um olhar preocupado quando Chanyeol sofreu uma lesão; Baekhyun sorrindo após uma substituição que levou o Park para o campo; Baekhyun elogiando seu jogo para uma coletiva espanhola; Baekhyun afirmando que só derrotaram o Manchester porque eles tinham apenas um Chanyeol no time. Para piorar, também havia o próprio Park em foco: nos primeiros jogos da Copa, com o olhar focado nas costas do camisa 10; na Champions, torcendo para o Real Madrid em uma partida contra o Juventus e gritando o nome dele; sorrindo feito um bobo quando Baekhyun decidiu esquecer o papel que tinha no próprio time, avançou para a grande área adversária e fez um golaço.
Então, o jogo contra a Alemanha.
Havia um compilado com nome engraçado no YouTube: Byun Baekhyun e Park Chanyeol esquecendo que são inimigos por dez minutos seguidos.
Chanyeol clicou, rendido àquela armadilha de se enxergar pelos olhos dos outros com um contexto que ele, apenas vivendo a própria vida, não conseguia enxergar sozinho.
Ele assistiu aos pequenos cortes do jogo onde os olhares dos dois se encontravam, onde Baekhyun tocava suas costas com gentileza ao passar por perto — o que seu cérebro absolutamente não havia registrado —, onde o camisa 10 abriu o sorriso mais contente do mundo no exato segundo em que Chanyeol marcou o primeiro gol. A câmera lenta registrou o movimento dos seus braços e pernas quando, no instante segundo, ele avançou em uma corrida desenfreada na direção do Park, cravando as travas da chuteira na grama antes de dar um salto e pular no seu colo como se fossem melhores amigos. Chanyeol nem percebeu que estava com um sorrisinho no rosto enquanto assistia, observando cada detalhe: os próprios braços recebendo Baekhyun no colo, os dois se apertando e rindo de felicidade. Depois, um zoom fez questão de mostrar a maneira como Chanyeol acariciou a cintura dele com o polegar. O jeito como ele afundou o nariz no seu pescoço e ficou — por muito mais tempo do que se lembrava de ter feito.
Chanyeol ainda ficou para assistir o resto, mesmo sentindo o coração batendo de um jeito esquisito — mesmo com aquele sorrisinho besta ainda na boca.
Ele não sabia se estava achando engraçado, absurdo ou inacreditável. Era como se estivesse assistindo a sua vida de fora, guiado por um contexto romântico construído pela fanbase e que nunca existiu.
Ao menos, não no seu ponto de vista.
Ao menos, não até aquele jogo.
Com um suspiro derrotado, ele bloqueou a tela e decidiu se obrigar a dormir. Sua cabeça precisava urgentemente de um descanso — uma pausa de algumas horas sem Byun Baekhyun.
‧ • ⚽️ • ‧
Chanyeol tirou um cochilo de quatro horas.
Acordou de um sonho com o camisa 10 e levantou com uma carranca de frustração por isso.
Minutos mais tarde, chegou à sala de convivência e se jogou no sofá ao lado de um dos colegas, Kyungsoo, que ofereceu um simpático “e aí, Park?” sem desviar os olhos da televisão. Ele, Jung e o reserva mais novo, Sion, estavam focados em uma partida de Call of Duty no XBOX, em um silêncio absoluto que indicava o quanto estavam concentrados em vencer.
Depois de devolver aquele “e aí” com outro, Chanyeol estudou a sala com mais cuidado e viu mais quatro companheiros de time jogando cartas em uma mesa logo atrás, uma dupla conversando e gesticulando sobre algo que ele não era capaz de ouvir e, por fim, Byun Baekhyun, jogado em um pufe, com o celular entre os dedos, digitando furiosamente, com aquela carranca de sempre.
Lembrando-se dos registros dos próprios olhares na direção dele, Chanyeol imediatamente desviou a atenção de volta para a TV e engoliu em seco.
Ele estava tentando assistir aos tiros infinitos do jogo e entender em que pé estavam naquela campanha, mas a visão periférica ainda estava buscando Baekhyun, seus pensamentos pairando ao redor daquela raiva destinada ao telefone e ao modo como ele parecia ainda menor do que já era dentro do moletom da seleção, com a franja limpa caindo na testa, sem o topete usual e cheio de gel que ele exibia durante os jogos. Parecia inocente, até. Quase fofo.
Chanyeol cruzou os braços sobre o peito — olhando a TV, mas observando o camisa 10. Sem querer, se perguntou por que o celular sempre acabava com a sua paz, que já parecia pouca. Baekhyun nitidamente discutia com alguém, mas… quem?, Chanyeol pensava. Um empresário? Patrocinador? Um familiar? Uma namorada? Ou… namorado?
Quando se deu conta do caminho que estava seguindo com aquele tipo de pensamento, ele decidiu se levantar em um rompante e contornar o sofá para mudar de sala. Logo ao lado daquela, uma porta levava à sala de cinema; uma com sofás maiores e vazios, pufes mais macios, luzes mais baixas. Chanyeol ligou a televisão de oitenta polegadas no jogo daquele dia, observando o Brasil jogar contra a Noruega. Quem vencesse, os enfrentaria no próximo jogo — e Chanyeol não fazia ideia de qual opção era a menos pior.
Assistir ao jogo foi uma boa ideia, inicialmente.
Focar no trabalho foi o melhor mecanismo de defesa possível para fugir da própria mente, que estava levando-o de volta para a curiosidade mórbida repentina sobre a vida pessoal do camisa 10. Então, quando se concentrou nos passes e no tipo de jogo dos possíveis adversários, Chanyeol não estava mais com a cabeça nele.
Os comentaristas, no entanto, fizeram questão de empurrá-lo de volta para o limbo.
Enquanto o jogo rolava sem fortes emoções e sem passes importantes, eles arrastaram um bate-papo que fez seu coração dar um solavanco.
— Lembrando que quem vencer essa partida vai enfrentar a seleção coreana nas quartas de final, neste sábado.
— É, e depois da vitória da Coreia do Sul contra a Alemanha, o time que vencer esse match tem que ficar esperto.
— Com certeza. Se o Park e o camisa 10 continuarem jogando com o mesmo neurônio, vai ficar complicado para os adversários.
Bem nesse momento, ele ouviu um som vindo de trás. Uma risada curta. Por puro reflexo, desviou o olhar da TV para a origem do barulho: a porta da sala, que tinha ficado entreaberta. Baekhyun estava lá. Encostado no batente, ele também olhava para a tela, mas com os braços cruzados e uma postura relaxada, que simplesmente não combinava com toda a raiva de minutos atrás.
Ele devolveu o olhar para Chanyeol, com o resquício de um sorriso na boca.
— O quê? — perguntou, tentando disfarçar até de si mesmo o fato de que seu coração tinha acelerado muito mais com aquela presença.
— Isso — respondeu Baekhyun, apontando com o queixo para a tela da televisão enquanto afastava o corpo da porta para entrar na sala. E se aproximar, trazendo consigo aquele maldito perfume. E se sentar. Não em qualquer assento, dos inúmeros que estavam disponíveis naquela sala escura, mas ao seu lado. — Agora somos o terror das quartas, então?
Chanyeol, muito consciente de que estava olhando demais outra vez, voltou os olhos para o jogo.
— Aparentemente sim.
Ele percebeu o movimento da cabeça do camisa 10, assentindo devagar.
— Maneiro — decretou, voltando a cruzar os braços. O movimento fez seu cheiro alcançar Chanyeol com uma intensidade maior, quase sufocante, mas de um jeito agradável. Difícil de explicar. Mais difícil ainda de sentir. Baekhyun escorregou no assento, apoiando a nuca no encosto do sofá, relaxando as pernas e balançando um dos joelhos. — Tá torcendo pra quem?
— Não sei ainda. — Chanyeol disse, apenas. Encarou a tela, ruminando a pergunta para tentar escapar do efeito que aquele aroma tinha sobre ele agora. Analisando os dois times, era mesmo difícil decidir qual dos dois causava mais medo. Para quem torcia? Para ele mesmo. Para a seleção coreana. Para uma boa sorte enviada do céu por qualquer divindade que estivesse disponível no sábado. — O Brasil tá cansando a marcação, mas… sei lá. A Noruega tem o Haaland.
Soltou um muxoxo depois de falar, um “tsc” estalado que ecoou pela sala escura depois daquele sussurro. Pensar nos dois casos era aterrorizante, especialmente porque o norueguês em destaque tinha a mesmíssima posição que ele. Chanyeol já conseguia imaginar o tipo de comparação que teria que ouvir caso enfrentassem a Noruega. Caso perdessem.
— Nah. Você é melhor.
Baekhyun ainda balançava o joelho para cima e para baixo quando devolveu o sussurro, com aquela frase minúscula, aquelas três palavras que Chanyeol nunca, jamais, imaginou escutar do camisa 10. Naquele ambiente escuro e vazio, parecia quase um crime falar mais alto do que aquilo, mas a voz grave e meio rouca soou mais como um segredo compartilhado do que um simples comentário feito em voz baixa.
Chanyeol virou o rosto para olhar para ele e Baekhyun retribuiu o movimento. Amassou a bochecha no encosto do sofá ao deitar o rosto na sua direção, erguendo um canto da boca em um sorriso quase invisível. A franja limpa e lisa caindo na linha da sobrancelha e o rosto amassadinho pelo estofado faziam Baekhyun parecer tão… macio.
— Melhor que o Haaland? — Decidiu perguntar, ainda murmurando, meio cético. Aquele sorriso poderia muito bem ser de puro deboche, afinal. Na verdade, vindo de Baekhyun, aquela afirmação parecia mesmo uma piada de mau gosto.
Mas Byun assentiu, em um movimento curto, econômico.
— Melhor do que a maioria, Park.
Chanyeol soprou uma risada, ainda mais incrédulo do que antes, e desviou o olhar de volta para a TV. Cruzou os braços também, negou com a cabeça lentamente, lambeu os lábios e riu de novo.
— Eu não era burro até hoje de manhã?
— Eu nunca disse que você era burro — respondeu Baekhyun, tranquilo. — Disse que foi burro. Tem diferença.
Chanyeol apertou a própria mordida, tensionando um pouco o maxilar.
— Sei.
Depois disso, eles assistiram o jogo em silêncio, por um tempo.
Baekhyun voltou a teclar no celular durante alguns segundos, com a mesma carranca no rosto, mas suavizou o cenho franzido assim que voltou a atenção para a partida. O Brasil brincava no meio do campo, a Noruega avançava, o goleiro sul americano mostrava a que veio. Então, a bola trocava de lado, indo para a grande área dos nórdicos, mas o brutamontes no gol também impedia os brasileiros de pontuar, com uma maestria assustadora.
Chanyeol imaginou-se de frente para ele e sentiu a espinha gelar.
Quando o juiz apitou o fim do primeiro tempo, com o placar empatado no zero a zero, Baekhyun se esticou ao seu lado, alongando os músculos, e soltou um gemido preguiçoso, relaxando o corpo ainda mais no sofá. Ele voltou a atenção para o telefone e Chanyeol desviou o olhar para a tela por meio segundo. Não conseguiu enxergar nada da conversa que estava aberta, mas imediatamente se lembrou de ter olhado para aquele mesmo telefone durante a madrugada. Quando Baekhyun disse que achou “maneiro” estar junto com ele em uma matéria do jornal.
Dessa vez, foi ele quem franziu o cenho. Olhando para a televisão sem realmente prestar atenção nos anúncios e comentários aleatórios durante o intervalo, ele unia peças extremamente perigosas dentro do próprio cérebro. Baekhyun elogiando-o em entrevistas, Baekhyun elogiando-o agora, os olhares, os toques, as fanfics, o pedido de desculpas desajeitado, a preocupação, os sorrisos, os abraços. O modo como ele deitou no seu pescoço e praticamente gemeu.
Chanyeol nem percebeu quando o seu joelho começou a balançar também, subindo e descendo com a ponta do tênis fincada no chão. Seu estômago parecia borbulhar dentro do corpo, ansioso, tentando enxergar sentido na própria existência depois daquela nova perspectiva.
Talvez… talvez fosse apenas isso. Um momento de confusão tornando-o facilmente influenciado pelo ponto de vista de uma pequena parcela da internet.
Baekhyun elogiá-lo em uma entrevista era o tipo de coisa que qualquer outro jogador profissional faria. Naquele momento também. Até porque, se estivesse enfiado no tipo de narrativa que seu cérebro insistia em querer acreditar que estava vivendo, Baekhyun não teria dito que ele era melhor que a maioria. Certo? Teria dito: você é melhor que qualquer um, Park. Então se aproximaria, enfiaria a mão nos seus cabelos e daria um beijo demorado na sua boca. Com a língua escorregando fundo sobre a sua, rendido, entregue… mas. Enfim! Não era esse o caso. Além do mais, ele olhava para todos os outros jogadores também. Os outros também o tocavam distraidamente no meio dos jogos. Provavelmente tinha fanfics dele com outros colegas. O pedido de desculpas era o mínimo. A preocupação também. Absolutamente normal. Os sorrisos eram de felicidade por pontuar contra um time tão forte e os abraços vinham do mesmo companheirismo patriótico. O jeito que Baekhyun relaxou na piscina era apenas um jeito comum de fazer o treino valer a pena.
— O que foi? — Ouviu Baekhyun perguntar.
— Quê? — devolveu.
— Por que tá mexendo a perna assim? Ansioso?
Chanyeol travou o maxilar outra vez.
— Você também tá mexendo.
— É — respondeu ele, rindo um pouco. — Exatamente. Eu tô ansioso. E você?
Contido, o centroavante devolveu o olhar fixo que Baekhyun estava destinando a ele e sentiu as pontas das orelhas queimando.
— Por que tá ansioso?
— Perguntei primeiro — disse Baekhyun, mostrando aquele projeto de sorriso outra vez.
Chanyeol bufou e tentou não sorrir também.
— Saber o resultado — respondeu, contando uma meia verdade. Apesar de saber que o medo existiria independente de quem fosse o vencedor, ele estava mesmo muito ansioso para saber quem os enfrentaria em poucos dias. Mais uma vez, o futebol não era o único motivo para estar nervoso — não era nem mesmo o principal —, mas Baekhyun não precisava saber disso.
— Hum — fez, erguendo um pouco o queixo. — Para. Não pira com isso, Park. A gente atropela qualquer um dos dois.
Após fechar as mãos em punhos, legitimamente nervoso, Chanyeol assentiu.
— E você?
— Eu o quê?
— O que foi? Sua perna.
Nesse momento, Baekhyun olhou para o próprio joelho balançando e soprou um riso curto, sem humor nenhum. Parou de mexer a perna e se ajeitou no sofá, sentando nele com uma postura mais adequada.
— Tem esse… jornal espanhol. Tá, sei lá, me ameaçando.
A resposta surpreendeu Chanyeol, que ergueu as duas sobrancelhas e embarcou de cabeça naquela conversa.
— Ameaçando? Como?
— Fofoca.
— Querem saber algo de você?
— Não… já sabem. — Baekhyun parou. Deixou que o narrador começasse a falar sobre o segundo tempo iniciado antes de completar. — Querem dinheiro pra não publicar.
As sobrancelhas se uniram imediatamente sobre a expressão interessada de Chanyeol e, meio chocado, ele virou o corpo na direção do camisa 10. Baekhyun tinha um semblante cansado, como se aquele assunto estivesse sendo estendido já há algum tempo e ele não soubesse mais o que fazer.
— Mas… isso não é chantagem?
— É.
— E não é crime?
— É…
— Você já falou com alguém?
— Meu empresário tá tentando cuidar disso.
— Como?
Baekhyun suspirou, dando de ombros.
— Ele acha que é melhor pagar.
— O quê?! — Chanyeol bufou, ainda mais indignado. Aquela barreira invisível que existia entre os dois, qualquer sinal de rivalidade ou estranheza, tinha dado lugar a uma empatia fervorosa, um senso de justiça e uma vontade de ajudá-lo, de alguma maneira, a escapar daquela situação. Porra, Chanyeol nem saberia o que fazer se estivesse no lugar dele. Parecia terrível. Assustador. No meio de uma Copa do Mundo! Por Deus. — Por quê?
— Eles não se importam muito com processos… já têm vários. Vão publicar de qualquer jeito.
— Isso é horrível.
— Não é a primeira vez que acontece.
— Não?
— Nem a segunda. E nem a terceira. — Ele esticou as pernas na frente do corpo, murchando a postura. — Também não vai ser a última.
Chanyeol estava com os olhos meio arregalados, de espanto e indignação.
— E você não pode… só dizer que é mentira?
— Não.
— Por quê não?
— Tem foto.
— Foto de quê? — insistiu, unindo as sobrancelhas em uma carranca.
— Foto minha, Park. — Baekhyun deitou o rosto no encosto do sofá outra vez, virado para ele, voltando a amassar a bochecha contra o estofado, o que a fazia parecer um bolinho de arroz. Chanyeol não deveria ter pensado nessa comparação em meio a um assunto tão sério, então engoliu em seco antes que o camisa 10 completasse sua resposta. — Com um cara.
Silêncio.
— Ah.
Ah…
Seus ombros caíram um pouco com a revelação e Chanyeol precisou desviar o olhar de volta para a TV antes que acabasse entregando alguma coisa com a carranca que fez. Era difícil dar um nome para aquele bolo gelado na garganta, porque obviamente não era um problema descobrir que Baekhyun gostava de caras, mas descobrir que ele estava com um cara. Em uma foto comprometedora o suficiente para custar dinheiro.
Sua boca ficou amarga enquanto ele sentia o peso daquela situação. A raiva dos jornalistas e da imprensa, o ressentimento sobre como tudo ao redor deles parecia girar em torno de trapaça e dinheiro. Mas, enroscado no meio dessa indignação toda, também havia um sentimento infantil e meio egoísta que Chanyeol preferia nem tentar dar um nome. Sua garganta secou.
— Pois é. — Baekhyun suspirou e também voltou a encarar a tela da televisão.
Chanyeol manteve um silêncio incômodo por um tempo, só assistindo ao jogo sem realmente prestar atenção, antes de conseguir falar de novo.
— Namorado? — perguntou, sussurrando mais baixo.
— Hum?
— O cara… da foto. É seu namorado?
Nesse momento, o sorriso que viu nascer nos lábios do camisa 10 foi meio hipnótico.
Baekhyun olhou para a sua boca por algum motivo que Chanyeol desconhecia e curvou os lábios em uma expressão misteriosamente divertida.
Então, os passos arrastados de um Jongin sonolento ecoaram pela sala assim que ele passou pela porta. Alheio ao momento que tinha acabado de quebrar no sofá, ele se sentou em um dos pufes e casualmente puxou assunto com os dois colegas.
— E aí, tá quanto? — perguntou ele, enquanto se acomodava com uma almofada no colo.
Baekhyun já tinha desviado o olhar e respondeu antes que Chanyeol pudesse.
— Zero a zero.
— Puts.
Os dois começaram a conversar sobre o placar do jogo e sobre como a partida estava indo. Jongin era expansivo e se dava bem com qualquer um, mesmo um homem de poucas palavras e cenho franzido como Baekhyun.
Chanyeol ficou ali, quieto, com os punhos bem fechados e os braços cruzados, olhando para a TV e respondendo apenas o que perguntavam diretamente para ele.
A sala encheu aos poucos. Toda a seleção coreana estava curiosa para saber quem seriam os seus próximos adversários, exceto pelos três colegas que estavam monopolizando a televisão da outra sala com o Call of Duty. Então, de repente, todos os sofás estavam ocupados, Minseok sentado entre Chanyeol e Baekhyun, e a conversa de minutos atrás pairando sobre o centroavante como uma nuvem escura.
Merda.
Precisava parar de pensar.
‧ • ⚽️ • ‧
De todas as maneiras que imaginou terminar aquele dia, estar na sala médica com Baekhyun entre as suas pernas, no meio da madrugada, não fazia nem parte da lista.
Para começar, Chanyeol não conseguiu pegar no sono depois da vitória do Brasil.
Ele deitou, tentou cansar a mente com qualquer bobeira na internet, tentou conversar com a família, com seu empresário, interagir com os seguidores, assistir a um filme, ouvir música.
Por fim, rendido, acabou descendo com o elevador até o térreo e caminhou pelo hotel. Saiu do prédio, viu o jardim, sentiu o vento da noite bater contra a sua pele, olhou as estrelas.
Às três da manhã, ele alcançou uma bola no meio do campo dos fundos e começou a chutar. Imaginou o time brasileiro ao redor da seleção coreana, fazendo seus colegas de bobos enquanto mantinham a posse de bola até cansá-los. Chanyeol sabia que o treino tático começaria em poucas horas, sabia que analisariam cada passo juntos, que seu técnico faria o possível para driblar a técnica do Brasil com suas próprias instruções, mas o medo ainda estava ali, sussurrando no seu ouvido que eles não tinham a menor chance.
Chanyeol imaginou os gritos da torcida.
Imaginou os olhos do goleiro sul americano fixos nele, atentos.
Quando chutou com raiva para o gol improvisado do campinho, fez a rede balançar e suspirou. Quando buscou a bola com calma para reiniciar a própria brincadeira, viu uma silhueta aproximando-se sobre o gramado, com as mãos enfiadas nos bolsos do moletom e o cabelo contornado pela luz amarelada que vinha do prédio.
— Você não dorme? — Baekhyun chamou, sorrindo daquele jeito minúsculo enquanto caminhava até lá.
Chanyeol manteve a bola firme no gramado sob a sola do tênis e apoiou as duas mãos no próprio quadril. Era meio hipócrita da parte dele fazer aquela pergunta, já que também estava ali.
— E você?
Então, o camisa 10 deu de ombros.
— Insônia — respondeu, apenas. — Toca pra mim.
Ele ainda tinha as duas mãos protegidas pelo calor dos bolsos quando recebeu a bola que Chanyeol chutou na sua direção e, então, começou a brincar com ele. Inicialmente, eles estavam trocando passes curtos e suaves, intercalando deliberadamente a posse em movimentos tranquilos.
No entanto, após um olhar provocante do camisa 10 e uma bola roubada, eles deixaram o fantasma da rivalidade pairar sobre o campinho. Imprudentes, aceleraram a corrida e começaram a brigar pela bola. Baekhyun se protegia das tentativas de Chanyeol com o quadril, virando de costas, correndo para longe.
Mas era um mano a mano não planejado, o que exigia proximidade constante. Roçar das coxas. Empurrões leves, dos ombros, do peito. Ele ouviu Baekhyun rir e quase se assustou, tentando buscar na memória quando foi a última vez que presenciou o camisa 10 emitindo aquele som. Não conseguia evitar se perguntar se ele sequer já tinha presenciado Baekhyun rindo daquele jeito. Ou se já tinha prestado atenção nisso.
Bem, agora ele prestava. Estava atento ao som. Deliciando-se com ele.
Baekhyun não estava rindo de sarcasmo, não estava provocando, não estava sendo um arrogante metido.
Estava se divertindo.
Com ele.
Chanyeol acabou soprando um riso também quando teve a bola roubada de novo e, assim que Baekhyun saiu correndo para o que deveria ser o seu gol, Chanyeol avançou em busca. Tinha pernas maiores, mas o camisa 10 era mais ágil. Era profissional nisso, afinal. Correr, driblar, manter a posse até o fim.
Baekhyun acertou o gol e sorriu, vitorioso, um sorriso parecido com o que exibiu no jogo contra a Alemanha, atingindo seu coração em cheio.
— Tá comendo poeira, Park — disse, chutando a bola de volta para Chanyeol.
— Tô pegando leve com você — provocou, mesmo que fosse uma mentira descarada.
— Tá, é? — desdenhou Baekhyun, com outra risada. — Pode vir com força, então. Eu aguento.
Chanyeol foi contagiado pela diversão dele, também estava rindo, mas não conseguiu evitar o efeito que aquelas palavras tiveram no seu corpo. Elas o atingiram de um jeito diferente, não despertando a sua competitividade, mas… outra coisa.
“Pode vir com força. Eu aguento.”
Porra, péssima escolha de palavras, Baekhyun.
Ainda assim, ele foi com tudo. Avançou em uma corrida brutal na direção oposta, para o outro gol, faminto para provar que conseguia — que estava “comendo poeira” porque queria, não porque era inferior ao Byun.
Baekhyun o alcançou sem esforço, no entanto, buscou a bola em um toque na diagonal e avançou na corrida para alcançá-la. Ele já estava ofegante em meio ao riso e, quando Chanyeol colocou mais força nas pernas para recuperar a posse, o camisa 10 estava despreparado para receber o impacto do seu peso contra o dele.
Ele perdeu o equilíbrio, levando Chanyeol junto, direto para a grama úmida de orvalho. Por reflexo, querendo protegê-lo do que tinha acabado de fazer, um dos braços do centroavante envolveu a sua cintura com força. Chanyeol deixou que a palma da mão oposta encontrasse o gramado primeiro, amenizando o impacto para os corpos unidos, mesmo que isso custasse o seu pulso. A culpa foi dele. Tinha que garantir que Baekhyun não se machucasse por sua causa.
Quando ele se deu conta, estava deitado sobre o corpo do camisa 10.
Chanyeol o encarou assustado, mas, contrariando todas as expectativas — uma bronca, um palavrão, um xingamento merecido —, Baekhyun riu de novo. Os olhinhos diminuíram de tamanho bem diante dele, a um palmo de distância, e os dentes apareceram naquele sorrisinho retangular. Suas bochechas estavam vermelhas pelo esforço, brilhando levemente pelo suor.
De repente, encarando-o de baixo, Baekhyun mordeu levemente o próprio lábio. Com Chanyeol entre as suas pernas, recuperando o fôlego — que tinha perdido por muitos motivos além da brincadeira —, ele flexionou uma delas ao seu lado e ergueu um pouquinho o quadril. Foi instantâneo: um pequeno choque percorreu todo o corpo do centroavante, começando no meio das pernas e se espalhando por tudo. O atrito fez com que sentisse partes do camisa 10 que ele nunca imaginou sentir. Não daquele jeito, não de frente para o sorriso dele, não ouvindo sua respiração ruidosa transformando-se em um breve e quase inaudível gemido.
Chanyeol quis repetir o movimento só para sentir aquela onda gostosa de novo. Ouvir aquele som de novo. Então, sem pensar direito, meio hipnotizado, ele firmou as mãos na grama, encarando os lábios dele, e empurrou o corpo mais devagar. Sentiu Baekhyun erguendo um pouco as costas, subindo mais a perna para a sua cintura — retribuindo o movimento.
De repente, um toque quente na cintura fez Chanyeol ofegar. Ele sentiu os dedos firmes em contato com a sua pele, quase um incentivo vindo de Baekhyun para que continuasse a se mexer assim.
Mas então, a dor aguda no pulso falou mais alto do que todas as outras sensações. Com um som desgostoso arranhando a garganta, Chanyeol caiu para o lado na grama e segurou o braço com a mão boa.
E, assim, depois de argumentar que não precisava de pomada — nem de gelo, nem de faixa —, que era apenas uma torção leve e que estaria melhor no dia seguinte, ele foi vencido pelo cansaço e permitiu que Baekhyun o arrastasse para a sala médica.
Chanyeol se recusou a sentar na maca, não queria sentir que aquela lesão tinha sido pior do que realmente foi, então se acomodou em um sofá sem encosto que ficava ao lado da parede. O cheiro de álcool e gelol naquela sala era quase sufocante, mas Baekhyun estava ali com o seu perfume gostoso, entre as pernas dele, massageando seu pulso com a pomada devagar.
O silêncio que se seguiu entre os dois após a breve discussão sobre ir ou não cuidar da lesão era quase pacífico.
Chanyeol estava fugindo de racionalizar demais o que tinha feito na grama, mas seu corpo ainda estava quente. O de Baekhyun também. E a pior parte era que tê-lo entre as suas pernas, ajoelhado diante do sofá, tocando-o com carinho, não tornava as coisas mais fáceis.
Quando terminou de enrolar uma atadura ao redor do seu braço, Baekhyun colou a ponta com um esparadrapo, improvisando um curativo.
— Ainda bem que você corre com as pernas, Park — provocou, erguendo o canto da boca. Não era mais o sorriso feliz de antes. Tinha voltado àquele arzinho de deboche de sempre. — Dói?
Chanyeol moveu a mão fechada para um lado e para o outro, experimentando a sensação.
— Não muito.
Baekhyun assentiu, então.
— Até amanhã vai tá melhor — disse, finalizando o cuidado ao deixar de lado o material que usou. No entanto, ele não se afastou depois. Em vez disso, ergueu o olhar para o rosto do centroavante e o encurralou entre os braços, apoiando as duas mãos no sofá, uma de cada lado do seu corpo. Chanyeol ficou congelado sob o olhar fixo dele. — A resposta é não, aliás.
Sua última fala saiu mais baixa e Chanyeol engoliu em seco sem perceber. Seu olhar traidor o atraiu para os lábios do camisa 10, que não deveriam parecer tão…
— Não o quê? — perguntou, afastando o pensamento.
— Não tenho namorado. — Baekhyun o respondeu, ainda baixo, com a voz meio rouca e o olhar fixo em Chanyeol. Talvez ele tivesse deixado escorregar para a sua boca também. Talvez por tempo demais. Ou talvez o centroavante estivesse só imaginando. Projetando. Talvez fosse ele observando muito.
Levou apenas um segundo para lembrar da pergunta que havia feito horas atrás, mas um segundo tão curto que era quase como se Chanyeol ainda estivesse desesperado para saber a resposta.
— Hum… — devolveu, meio perdido nos olhos dele.
— Hum — repetiu Baekhyun. Outro sorriso cresceu discretamente nos lábios dele enquanto tombava a cabeça para o lado. Ainda encarando. Ainda sem se afastar um centímetro sequer. — Por que quis saber?
Piscando rápido, Chanyeol percebeu que agora sentia-se figurativamente encurralado também.
— Curiosidade…
— Sei. — O sorriso do camisa 10 cresceu um pouco. — Chanyeol…
Um arrepio subiu por sua espinha assim que ouviu o próprio nome sendo chamado naquele tom de voz. De perto. Com um sorriso. Não mais “Park”, nem “seu merda”, nem “seu filho da puta”. Só Chanyeol.
— Fala — pediu, sentindo o ar faltar.
Estavam tão perto, Baekhyun tão bem encaixado entre as suas pernas, suas mãos tão firmes no sofá, empenhadas em impedir que Chanyeol saísse correndo do nada, o olhar fixo nele, na sua boca, nos seus olhos, o hálito quente com cheiro de menta alcançando-o mais uma vez.
— Não se mexe — sussurrou, tão baixo que, se não estivessem tão próximos, Chanyeol nem ouviria.
Mas ouviu. E obedeceu.
Ficou parado, assistindo Baekhyun ficar de pé e, um instante depois, apoiar os joelhos no banco, onde suas mãos estavam antes. Ele prendeu suas pernas entre os próprios joelhos, apoiando-os com firmeza no estofado antes de sentar nas suas coxas.
Chanyeol ainda estava imóvel, com a respiração irregular, o olhar acompanhando o rosto dele, que também estava fixo no seu.
Sentiu vontade de perguntar o que Baekhyun estava fazendo, de erguer as mãos para impedi-lo de sair, de sentir o calor da sua cintura de novo, de erguer o rosto até alcançar o seu, de gritar em pânico por não saber como reagir àquilo, de sair correndo, de trancar a porta, de se esfregar em Baekhyun de novo. Tudo ao mesmo tempo.
— Baekhyun — sussurrou, sem saber o que dizer além disso.
O camisa 10 apoiou as mãos nos ombros dele e chegou mais perto, encostando os quadris, repetindo o atrito que aconteceu no campo. Naquela posição, Baekhyun estava alguns centímetros mais alto e tinha que abaixar o rosto para olhar para ele. Mais do que isso: quase encostou o nariz no seu ao se aproximar.
— Fala. — Ele repetiu.
Dessa vez, o hálito de menta resvalou na sua boca.
Baekhyun estava tão perto que era sufocante.
Chanyeol lembrou da sensação que aqueceu o seu corpo no gramado, de como Baekhyun voluntariamente retribuiu o roçar dos dois corpos, de como ele estava sorrindo, mordendo os lábios, desejando aquilo tudo.
Testando o terreno, subiu as mãos para as coxas dele, quebrando a obediência sob aquela ordem de não se mexer. Mas Baekhyun não reclamou. Ao contrário disso, empurrou o próprio corpo para mais perto e fechou os dedos em torno do tecido do seu moletom, agarrando a gola em um dos lados do pescoço.
Chanyeol pensou que a distância chegaria ao fim naquele exato momento, antecipou um beijo com o coração mais acelerado do que nunca, mas Baekhyun ainda estava só experimentando a proximidade, encarando-o de perto, deslizando lentamente a ponta do polegar pela lateral do seu pescoço, sem afrouxar o aperto na gola do moletom. Foi inevitável lembrar dos vídeos editados na internet. Imaginar um zoom pretensioso focando naquele toque, no carinho que ia e vinha sobre a região da sua jugular e que fez o centroavante engolir em seco de novo. No entanto, se ele fosse escolher o que merecia um zoom e uma câmera lenta, focaria no movimento dos lábios do camisa 10 quando ele escorregou a ponta da língua entre os dois, respirando pela boca e chegando mais perto.
Baekhyun acabou com o espaço entre eles, por fim.
Subiu os dedos para a sua nuca e os afundou entre os seus fios de cabelo, puxando-os com tanta força que Chanyeol arfou. Em resposta, ele subiu a mão boa por dentro do moletom, encontrando a cintura quente do camisa 10. Com os dedos firmes na pele macia, Chanyeol o puxou para baixo, para mais perto do seu quadril, no exato momento em que Baekhyun o empurrou para cima, reivindicando a proximidade dos rostos para chocar os lábios em um toque bruto.
Ele arfou tão pesado contra a bochecha do centroavante que o cheiro de menta deixou Chanyeol tonto.
A mão lesionada acabou seguindo o mesmo caminho da outra, segurando Baekhyun pela cintura para impedi-lo de sair dali. Enquanto isso, as línguas se encontraram de um jeito selvagem, ansioso. Diferente de qualquer beijo que Chanyeol já trocou na vida.
Aparentemente, não era apenas as mentes dos dois que permaneciam presas naquele momento do gramado, mas os seus corpos também, respondendo ao estímulo de estar tão perto um do outro como se fosse um insulto se separarem de novo. Pelo menos antes de matar aquela vontade, aquele tesão que começou com o raspão acidental — ou antes disso, até. No jogo. Na porra da Europa.
Chanyeol não estava satisfeito em tocá-lo na cintura, então desceu as duas mãos para as coxas grossas do camisa 10 e as apertou com firmeza por cima do moletom, cravando as pontas dos dedos na pele e subindo o próprio quadril em busca de mais. Queria aquele atrito até… até aliviar a sensação quente dentro da calça. O pau pesado, molhando a peça que estava vestindo sobre roupa íntima nenhuma.
Curioso, ele decidiu explorar e descobrir se também era o caso de Baekhyun.
Enquanto seus lábios estavam ocupados contra os dele, as respirações pesadas indo de encontro ao rosto um do outro, Chanyeol voltou a subir as mãos e invadiu a calça dele, buscando pela cueca.
Para sua surpresa, deparou-se com apenas dois elásticos na curva das coxas, revelando uma jockstrap e fazendo o centroavante gemer com a constatação. Ele afundou as pontas dos dedos na pele do camisa 10, que gemeu também, mais dengoso, acelerando o movimento contra o seu pau.
Baekhyun separou o beijo, encarando-o de perto com os olhos tão excitados que mal mostravam qualquer sinal das íris castanhas. Seus lábios estavam mais vermelhos que o comum, molhados, e ele se agarrou ao cabelo de Chanyeol como se quisesse puni-lo por fazer tudo aquilo com ele.
Ainda assim, Baekhyun voltou a fechar os olhos e encostar a testa na sua bem antes de abafar os próprios sons na boca do rival outra vez.
— Goza comigo, Park — pediu (ou mandou — o que era mais condizente com seu tom de voz e com o jeito que puxou seu cabelo com mais força), com os lábios ainda encostados, descendo a mão livre pelo seu braço.
— Você quer? — Chanyeol devolveu, tão ofegante quanto ele.
— Eu tô quase…
Arfando em resposta, Chanyeol abriu as duas mãos sobre a sua bunda, envolvendo toda a pele que a jockstrap deixava exposta por baixo da calça, e apertou com tanta vontade que Baekhyun arfou também.
— Então vem… — sussurrou, ouvindo o próprio tom de voz mais grave do que o normal, beirando a rouquidão sedutora que jurou ouvir no outro. Chanyeol estava cego de tesão e se esfregava no corpo de Baekhyun como um animal. — Vem. Deixa vir.
Quando forçou o quadril dele mais para baixo — mais para si —, assistiu de perto o modo como Baekhyun deitou a cabeça para trás e abriu um pouco a boca, sufocando um gemido mais alto. Ele fechou os olhos com força enquanto o agarrava com os dedos, como se fosse cair se não o segurasse tão firme. Assim, a linha da garganta ficou toda exposta, exibindo a pele orvalhada, com o pomo de Adão mais discreto que Chanyeol já viu em outro homem, exalando aquele perfume maldito e delicioso que o centroavante precisou lamber.
Foi além disso, no entanto.
Enquanto rebolava contra ele e sentia o próprio pau pulsando cada vez mais desesperado, Chanyeol abriu o moletom que Baekhyun usava só para ter mais pele para explorar. Então, beijou a curva do pescoço, exatamente onde enfiou o nariz quando fizeram o primeiro gol contra a Alemanha. Beijou com muita fome, lutando contra o próprio impulso de marcar a pele e deixá-lo com outro problema para resolver com a imprensa. Em vez disso, se limitou a distribuir apenas beijos molhados e escorregar a língua sobre a pele suada, traçando um caminho delicioso desde a garganta dele até o seu peito.
Baekhyun ainda gemia, fazendo um esforço óbvio para manter os sons o mais baixo possível, mas respondia a cada um dos estímulos com apertos mais fortes no seu cabelo. Ele quase choramingou quando Chanyeol abriu mais o seu moletom e subiu a língua para a sua axila, lambendo a região de baixo para cima com a lentidão de alguém que está degustando. Depois, traçou o caminho para baixo com mais beijos molhados, sentindo o camisa 10 se encolher inteiro.
Quando alcançou um dos mamilos dele, envolvendo-o com a boca por puro instinto, Baekhyun acelerou o movimento do próprio quadril até o limite, soltando o ar em frações curtas e em gemidos entrecortados. Fez tanta força no aperto contra a sua nuca que Chanyeol tinha certeza que as pontas dos seus dedos estavam esbranquiçadas.
Bem naquele momento, Baekhyun explodiu.
O toque firme entre o seu cabelo transformou-se em um abraço apertado ao redor do pescoço, prendendo o rosto de Chanyeol contra o próprio peito enquanto ele seguia chupando sua pele macia, brincando com os dentes e a língua bem devagar.
— Seu filho da puta… — Baekhyun soprou o xingamento com um sorriso na boca, bem contra o seu ouvido, tão manhoso que sentiu a ereção fisgar.
Senti-lo gozando no seu colo fez Chanyeol gemer tão entregue que foi quase humilhante. Ao choramingar contra o mamilo enrijecido, ouviu o banco ranger quando passou a se mexer com mais impacto, intensificando o atrito até chegar lá — se desfazer também, com o coração parecendo prestes a explodir junto dentro do peito.
Com a respiração transformada em lufadas fortes, quase tão intensa quanto ficava depois de uma partida importante, Chanyeol afastou os lábios do seu peito bem devagar, despedindo-se com chupadinhas leves e beijos lentos. Então, ele apoiou as costas na parede e relaxou as mãos contra as suas nádegas.
Baekhyun tinha afrouxado o aperto no seu cabelo e o encarou de cima.
Igualmente exausto, ele abriu um sorriso em meio a respiração ruidosa.
Chanyeol puxou o próprio lábio pra dentro da boca.
E acabou sorrindo também.
‧ • ⚽️ • ‧
Quando Chanyeol abriu a porta da sala médica e fez sinal para Baekhyun passar primeiro, o camisa 10 terminou de fechar o zíper do moletom e enfiou as mãos nos bolsos de novo, arrastando os passos até o corredor.
Chanyeol tinha amarrado o próprio casaco ao redor da cintura, fingindo que estava sentindo tanto calor ao ponto de sair andando pelo hotel só de regata branca. Estava, na verdade, apavorado com aquela mancha molhada na frente da calça. Baekhyun, no entanto, estava confiando na proteção da sua jockstrap — ou não se importando muito com mancha nenhuma (Chanyeol não saberia dizer). Ele apenas desceu as mãos dentro dos bolsos até fazer o moletom tampar a frente do próprio quadril — então talvez se importasse, sim.
Eles caminharam pelo corredor lado a lado, bem devagar, avançando um passo a cada três segundos enquanto exibiam sorrisinhos idiotas e, de vez em quando, deixavam um riso solto escapar, soprado do nada.
Chanyeol, de repente, não queria ter que se despedir dele. Parecia um sentimento absurdo, mas também impossível de ir contra. Então, prolongar o caminho até o quarto parecia a maneira menos humilhante de demonstrar aquilo, que queria passar mais alguns minutos dividindo a madrugada com o seu maior rival.
Quando os dois entraram no elevador, ele descansou as costas na parede de metal da esquerda. Baekhyun, na da direita. Então, ficaram de frente um para o outro.
Chanyeol apoiou as mãos na barra lateral, tensionando os bíceps expostos graças a regata.
Baekhyun ergueu uma sobrancelha ao encontrar o seu olhar.
— Satisfeito agora?
— Eu?
— Uhum — fez, empurrando o tênis de Chanyeol com a ponta do seu. — Tá desde ontem me implorando um beijo com os olhos.
— Cala a boca… — Chanyeol tentou não rir, mesmo com as bochechas queimando.
— Tá pedindo mais um?
Infelizmente, não teve como fugir do flagra, porque estava olhando aquela boquinha vermelha e ainda inchada com tanta atenção que provavelmente os seus fãs do twitter adorariam ter o momento registrado em vídeo.
— É, sim.
Baekhyun desviou o olhar logo depois, assim que as portas do elevador abriram e eles tiveram que sair.
O quarto do camisa 10 ficava exatamente do outro lado do corredor, a dois passos do elevador, então o tempo estava oficialmente esgotado.
Baekhyun apoiou as costas na parede ao lado da porta, com o olhar em Chanyeol e o lábio inferior preso entre os dentes. Tinha um sorrisinho na boca que parecia insinuar muitas, muitas coisas.
— Bom.
— Bom… — Chanyeol repetiu, limpando a garganta com um ruído discreto. — Espero que consiga dormir.
Baekhyun assentiu, devagar, descendo o olhar pelo seu corpo sem nem tentar esconder que estava avaliando os seus braços — e toda a região escondida sob o pouco tecido da regata.
— Acho que agora eu consigo. — respondeu ele, deixando Chanyeol com o coração acelerado de novo.
Afinal, Baekhyun parecia insinuar que só precisava daquilo para poder pregar os olhos e Chanyeol achava meio absurdo, porque era assim que ele se sentia — depois de gozar (com Baekhyun), era como se tivesse relaxado tanto que o cansaço acumulado o atingiu como uma porrada.
— Então tá… — soltou, em um suspiro. — Bom descanso, Byun.
— Até amanhã.
Dando a conversa por encerrada, Baekhyun abriu a porta do próprio quarto e avançou um passo para dentro. Chanyeol se virou também, arrastando os pés sem a menor pressa na direção da sua suíte.
— Park.
O chamado fez o centroavante virar o rosto de volta.
Como se tivesse esquecido alguma coisa, o camisa 10 havia voltado e apoiado a mão no batente, segurando-se nele. Com um sorriso contido, ele encostou a bochecha bem ali.
— Byun — respondeu, com um sorriso escondido também.
— Vou deixar a porta destrancada… caso a insônia não vá embora. — Ele deu de ombros, mais delicado do que um armador do Real Madrid deveria parecer. — Só pra você saber.
Fim.
