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Prólogo
Diante de qualquer outra situação eu não me encontraria parada de frente a porta de Jason Dean.
Ou era isso que eu gostaria de acreditar ao não hesitar tanto quanto eu gostaria antes de tocar três vezes a campainha. Eu precisava encontrá-lo essa noite, tento me lembrar. Minha escolha de vir até aqui não foi imprudente. Talvez tenha sido um pouco influenciada por uma certa dose de álcool, porém isso não tem tanta importância.
O caminho até aqui havia sido difícil como sempre é. No lado oposto à direção do meu dormitório e do lado de fora do campus da faculdade. E o fato de nenhum ônibus seguir até o seu bairro não ajudava em nada a combater a caminhada nessa noite fria.
Vê-lo essa noite era exatamente o combustível que eu precisava para esquentar meu corpo e esquecer de tudo. Quando eu fecho os olhos consigo ver sua imagem formada em minha mente me atraindo para a segurança de seus braços e me anestesiando em sua loucura.
E de qualquer forma, amanhã, eu estarei livre para me arrepender de certas escolhas que sei que tomarei nessa noite. Mas depois desse dia terrível, eu mereço tomar algumas decisões erradas e ignorar todo o autocontrole que venho cultivando desde a última vez que eu o vi. E eu estaria disposta a enfrentar as consequências desde que isso significasse passar pelo menos essa noite na sua cama quente e beijá-lo até perder fôlego.
— Merda. — Dou um passo para trás, constrangida, quando essa é a primeira coisa que o escuto dizer ao abrir a porta. — Veronica? O que você está fazendo aqui uma hora dessas?
— Uhm, nada demais. — Respondo sem jeito ao olhar para os meus pés e então de volta para ele mostrando os dentes.
Jason estava com uma aparência desleixada. Seu cabelo bagunçado e uma olheira recém-formada lhe davam um ar de quem acabara de se levantar faz pouco tempo. Por um instante, acredito ter interrompido seu sono, mas sou surpreendida ao sentir um aroma vindo de dentro de casa.
Minha barriga ronca em antecipação e mais uma vez sinto a vergonha queimar minhas bochechas. O rapaz ergue de leve suas sobrancelhas e então inclina a cabeça, abrindo a porta para eu entrar. E antes de passar pelo portal, lhe ofereço um sorriso tímido que é retribuído com dedos embaraçando meu cabelo.
— Obrigada por deixar eu entrar.
— Não precisa me agradecer por nada. — Ele resmunga ao fechar a porta, seu foco mudando para o caminho até o fogão.
Por alguma razão, JD parece apreensivo pela primeira vez ao ter minha presença aqui. Eu sei que minha visita é inesperada, porém nunca vi seu maxilar tão tenso por apenas uma surpresa minha. Por isso decido perguntá-lo com cuidado antes de me fazer confortável em sua casa:
— JD, eu posso passar a noite aqui? Por favor? Eu prometo que assim que amanhecer, eu volto para casa e…
— Não precisa se preocupar, ok? Relaxa. — Ele me interrompe com um tom seco, a atenção agora focada na panela. — Pode passar o quanto tempo quiser aqui, minha cama é sua.
— Obrigada. — Solto um longo suspiro aliviada ao fechar os olhos. — Eu realmente tive um péssimo dia e só queria passar a droga dessa noite com você.
— É uma honra para mim também ter sua companhia. — Jason murmura ao me zombar. Solto uma risada cínica, procurando uma cadeira com os olhos quando sinto minhas pernas fraquejarem. — Você não jantou, né?
— Para ser franca, não. — Confesso ao arrastar um banquinho para perto da bancada onde JD estava. O rapaz me lança um rápido olhar de soslaio e desliga o forno.
— Não tenho muita, mas qualquer coisa a gente pede uma besteira mais tarde. Pode ser?
— Por mim está ótimo.
Descanso minha cabeça no mármore ao observá-lo escorrer o macarrão na pia. Um largo sorriso se abre em minha face ao tentar adivinhar o prato que ele estava fazendo. Entretanto minha esperança se esvai no momento que o rapaz me alerta:
— Não fique tão animada, essa cozinha não vê um pacote de orégano faz mais de um mês.
— Eu não acredito! — Contorço minha expressão e faço um biquinho, o qual o garoto responde com um riso. Escapo um gemido ao declarar esse definitivamente o pior dia do ano.
— Não é para tanto, Ronnie. O cheiro pelo menos está delicioso. — Em quase um passe de mágica, meu rosto se ilumina ao escutá-lo se elogiar. Não importava quantos anos se passassem, Jason Dean ainda permaneceria o mesmo adolescente que eu conheci quando tinha 16 anos.
— Até que não está dos piores. — Provoco-o e o observo ficar ofendido, em seguida, ao balançar sua cabeça em desaprovação. — Quando você aprendeu a cozinhar desse jeito?
— Eu sempre soube o básico, mas desde que me mudei tive que aprender a me virar melhor. — Ele explica enquanto começa a colocar comida nos pratos. Olhando de perto, agora, consigo ver que o jantar era, na verdade, macarrão com molho Alfredo.
— Você nem me avisou quando se mudou para cá. — Balbucio ao me levantar para pegar meu jantar.
— Nem você me avisou que passou para faculdade e se mudou sem me dar nenhuma explicação. — O rapaz atira as palavras com casualidade em uma maneira de esconder o ressentimento velado nelas.
— Ai! Essa doeu! Mas pelo menos eu te deixei um bilhete! — Tento brincar, mas ao não escutar nenhuma risada, apenas tento evitar seu olhar. Coloco meu prato na mesa velha de madeira e me sento junto a ele, ficando de frente a sua figura. — Desculpa. Você está sendo muito gentil em me deixar passar a noite aqui de novo.
— Você não precisa fazer isso, Veronica. — JD resmunga ao trazer o garfo até a boca. Franzo o cenho e então imito após me sentir deslocada.
— Fazer o que? — Falho em falar com a comida na boca quando minha pergunta sai confusa. O rapaz tenta decifrar o que eu quero dizer, porém minha face o confunde ainda mais.
Não consigo evitar a não ser revirar meus olhos em prazer ao sentir aquele molho delicioso queimar minha língua. Era quase inacreditável pensar que havia sido JD que havia cozinhado isso.
Engulo lentamente minha garfada e me sirvo com um copo d’água antes de repetir minha frase. Minha boca ainda salivando em luto pela ausência de comida.
— Fazer o que?
— Fingir que não queria ir embora. — JD diz por fim.
Desvio minha atenção para o prato e depois o procuro novamente apenas para encontrar com seu olhar afiado. Quero refutá-lo, entretanto nada bom o suficiente me vem à cabeça. E ao notar isso, o garoto decide quebrar o gelo ao mudar de assunto:
— Você realmente gostou da minha comida ou preferiria o seu spaghetti com bastante orégano.
— O macarrão da minha mãe ainda ganha, JD. — Provoco-o ao levar uma grande garfada até a boca. Jason deixa escapar um pequeno riso e então adiciona:
— Então nesse caso, acho que vamos precisar marcar um outro dia para eu preparar para você.
— Você promete? — Minhas pupilas se dilatam com a promessa de comer algo de casa pela primeira vez em quase um ano.
— Prometo, com uma condição!
— E qual seria?
— Você passa a noite comigo aqui de novo.
Demoro para assimilar seu pedido de primeira. Mas uma vez que o compreendo, reviro os olhos enquanto minhas bochechas enrubescem.
— Acho que eu posso pensar um pouco sobre esse trato.
— Como você quiser. — Ele alarga o sorriso e depois brinca com a comida no prato. — Mas você não veio pra cá para falar sobre isso. O que aconteceu hoje?
— Tanta coisa. — Confesso em um grunhido após dar outra garfada.
— Você brigou com aquela menina que você divide quarto?
— Pior. — Escapo uma risada com o rosto congelado que faz Jason estreitar a visão com cuidado. — O coordenador me chamou para avisar que eu tenho uma grande chance de perder minha bolsa ano que vem.
— O que? — Suas sobrancelhas franzen conforme ele deixa o talher cair sem querer no prato, surpreso. Hidrato minha garganta até que ele erga seu olhar para mim novamente. — Eles não podem fazer isso com você, Veronica.
— Aparentemente eles podem se eu não aumentar as notas desse semestre.
— E você acha que consegue?
— Talvez, eu não tenho certeza. — Tento disfarçar meu estresse crescente, mas minha visão fica turva antes que eu consiga. Abaixo minha cabeça, conforme escondo minhas pupilas brilhantes. — Eu só estou preocupada, porque já foi bem difícil pagar a mensalidade desse ano.
JD mordisca pensativo o canto lábio, formando uma expressão pensativa. E de imediato, percebo que falei mais do que deveria. Com cuidado, seco as lágrimas que ameaçavam escorrer e limpo a garganta. Quando ergo minha atenção, encontro-o me analisando de maneira tão direta que é quase descarada.
— Por que você não pede ajuda aos seus pais, Veronica?
— Eu peço. — Tento respondê-lo, entretanto minha voz falha. — Mas a faculdade é tão cara e a poupança não banca tudo isso. Meus pais estão me pressionando para eu arranjar um emprego logo para ajudar, mas eu não acho nada.
Não sei quando em meio à tudo que eu disse o choro surge, porém uma vez que eleaparece, as lágrimas correm livremente por minhas bochechas. Trago minhas mãos até o rosto no intuito de escondê-lo diante de JD, entretanto isso é somente mais uma tentativa falha.
O rapaz me espera durante alguns minutos. Eu conseguia sentir sua atenção fixa em mim como se ela fosse palpável. E de alguma forma, aquilo me parecia muito pior do que uma total indiferença.
— Aconteceu alguma outra coisa hoje, Veronica? — Ele questiona, o tom da sua voz cautelosa e ciente demais de como eu poderia reagir.
Fecho minhas pálpebras em uma tentativa de apagar as os acontecimentos desse dia. Em busca de alguma maneira de me fazer calar a boca. Eu não poderia lhe dizer tudo, porém esconder nem que seja somente parte da verdade para ele me parecia um desafio.
— Sim. — Suspiro, levanto alguns dedos até a têmpora para amenizar a minha crescente dor de cabeça. Meus pensamentos tão desorganizados e quase escapo o que eu não deveria dizer. — Eles me… Eu fui assaltada à tarde.
— No caminho até aqui? — JD indaga enquanto inclina seu corpo para mais perto de mim.
Graças à sua nova posição, não sou mais capaz de visualizar com clareza sua expressão. A luz quente que se posiciona em cima dele e deforma metade sua face ao criar sombras escuras.
— Não, foi mais cedo.
— E onde isso foi?
— Eu não me lembro. — Mas eu me lembrava perfeitamente o lugar que eu fui abordada. JD não poderia saber a verdade ainda do que aconteceu nessa hora, muito menos os detalhes daquela intimação.
— Como assim não se lembra, Veronica? — Recuo ao curvar os ombros quando o rapaz eleva o volume da sua voz. E ao notar a mudança na minha postura, Jason revira olhos. — Você ao menos sabe quem fez isso com você?
— Eu só não sei! — A mentira escapa trêmula e por um momento, eu me questiono se ele desconfiou de mim. Entretanto quando o rapaz não me responde de imediato, sei que dessa vez consegui passar despercebida.
Meu plano daria muito mais trabalho do que eu pensei.
— Podemos mudar de assunto, por favor?
— Desde que nada mais grave tenha acontecido hoje.
— Não aconteceu mais nada, então. — Resmungo, aproximando meu prato mais uma vez para perto de mim.
A comida não estava mais tão quente quanto antes quando levo o garfo à boca. O macarrão também não me parecia mais tão gostoso. E algo naquela mesa estava diferente. Talvez vir até aqui não tenha sido a melhor das escolhas, apesar de receber um jantar grátis.
Ergo meu olhar e ele o acompanha conforme JD se levanta da cadeira. Minha testa se franze ao me perguntar se o rapaz me deixaria sozinha no cômodo essa noite. O sentimento que havia algo de errado com ele não se esvai.
— Eu vou pegar um maço no meu quarto. Você vai querer fumar? — Ele pergunta por formalidade ao coçar o pescoço sem jeito.
— Por favor. — Respondo-o com um sorriso conforme seco por fim o resto das lágrimas que ainda molhavam meu rosto. Jason acena com a cabeça e antes que ele me abandone, eu lhe pergunto:
— Você tem alguma coisa para beber? Eu realmente não queria dormir sóbria essa noite.
— Deve ter alguma coisa no frigobar. — Ele resmunga apoiado na pilastra. — E, Veronica?
— Uhm?
— Acaba com essa comida logo para nós irmos para o quarto logo. — Engulo seco conforme suas palavras ecoam em minha cabeça.
Minhas pernas tremem quando decido me levantar da mesa e colocar o prato na pia. De repente, meu apetite parece satisfeito o suficiente para se bastar apenas com alguns goles de bebida.
Caminho até a sala e deixo minha sapatilha largada no chão ao pisar no tapete vermelho sangue. Com os olhos procuro o frigobar até encontrá-lo ao lado do canto esquerdo do sofá. Agacho-me até ficar na altura do refrigerador e tiro de dentro dele uma garrafa de uísque.
— Conseguiu achar? — JD pergunta enquanto chuta meu sapato para o canto ao surgir no cômodo. Ele tem um cigarro pendurado na boca e vejo que agora seu cinto está afrouxado.
— Claro. — Digo abrindo um sorriso forçado. Apesar de manter a expressão impassível, Jason solta uma fumaça branca entre os lábios e se aproxima para bagunçar meu cabelo. Reviro os olhos à medida que lhe entrego um copo de vidro. — Você vai deixá-lo todo embolado se continuar fazendo.
— Não vai ficar pior do que já está. — Ele rebate com a voz carregada de cinismo ao tomar o álcool da minha mão e encher o meu e o seu recipiente. — Por que você cortou? Eu preferia ele mais cheio, quando era maior.
— Não era nada prático arrumar aquela bagunça toda manhã. — Explico ao bebericar a bebida.
— Já que você prefere assim… — O rapaz balbucia conforme tira um isqueiro e um cigarro do maço. — Abre a boca, Ronnie.
Eu o obedeço, meu foco concentrado em seu rosto. JD posiciona o fumo em volta dos meus lábios enquanto os seus entreabertos quase deixam seu marlboro cair. Consigo sentir a ponta áspera dos seus dedos roçarem a minha pinha antes deles se afastarem para acender a ponta do cigarro.
Ainda com meus olhos perdidos nos dele, trago fundo e deixo que a névoa que sai do meu nariz esconda parcialmente sua figura de mim. Jason traz o copo gelado até ele e bebe o uísque em um longo gole e para então me imitar.
Engatinho até o sofá de couro para ficar diante de sua figura sentada. Deito minha bochecha em seu joelho e fecho os olhos quando sinto seus dedos massagearem meu cabelo. E por pouco, perco-me neste transe, entretanto JD possui outros planos ao apertar meus fios para que eu me posicione ao seu lado.
Jogo-me em seu colo conforme resmungo baixinho. Porém o garoto não parece se importar muito quando bufa ao me ver desconfortável. Quero me irritar com sua falta de empatia, mas antes que eu consiga, sinto seu rosto se afundando no meu pescoço.
— Porra, Veronica. — Seus lábios ainda frios da bebidas percorrem a região.
JD é capaz de me provocar um suspiro que eu nem ao menos sabia que estava segurando. Sua presença é quase uma tentação para que eu sucumba. E como resultado, minha espinha se arrepia e o incentivo para continuar a me aproximar mais dele.
— Você precisa acordar cedo amanhã? — Ele grunhe. Uma das mãos trazendo o copo gelado até o interior da minha coxa. Em um impulso, tento fechar as pernas, porém ele é mais rápido ao afastá-las.
— Não. — Respondo rouca ao fechar as pálpebras, inebriada com o choque de temperatura. Sinto meu pescoço reverberar com a sua risada e mordo o lábio inferior antes de tentar não gaguejar ao perguntar:
— Por que?
— Porque eu quero me demorar com você essa noite, Veronica Sawyer.
