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Sua cabeça girava, enquanto a garganta seca queimava sem cessar sob o desejo incontrolável daquele líquido escarlate. A cada respiração, a ardência parecia se aprofundar, espalhando-se por seu peito como se a própria sede consumisse lentamente suas forças. O peso do corpo tornava-se insuportável e as pernas já mal o sustentavam. Em uma tentativa inútil de conter aquela necessidade, Zero apertou o próprio pescoço enquanto caminhava até a porta do estábulo, o lugar para onde sempre fugia quando precisava permanecer sozinho.
Sozinho... ao menos em partes.
A presença da égua branca jamais o incomodava. Pelo contrário. Em meio ao caos que tomava sua mente, Lily era uma das poucas presenças capazes de lhe trazer algum conforto.
— Está tudo bem, Lily... Não precisa me olhar assim. Eu vou ficar bem.
As palavras saíram mais fracas do que pretendia. Por fim, permitiu que seu corpo deslizasse até o chão, encostando-se à pesada porta de madeira.
Como de costume, conversava com a égua como se ela pudesse compreendê-lo. E, de certa forma, acreditava que compreendia. Afinal, Zero era o único capaz de aproximar-se dela sem despertar qualquer reação agressiva. Enquanto os demais alunos da Turma do Dia eram recebidos com mordidas, coices ou olhares desconfiados, bastava sua presença para que Lily permanecesse tranquila, aceitando suas carícias e permitindo que apenas ele a montasse.
Naquele momento, porém, a égua apenas aproximou o focinho, soltando um relincho baixo e inquieto. Seus grandes olhos escuros permaneciam fixos no albino, como se percebesse que havia algo profundamente errado.
A sensação de queimação em sua garganta aumentou mais uma vez.
Levando a mão ao bolso do casaco, Zero procurou às pressas pelas malditas pastilhas que o diretor Cross insistia para que carregasse consigo. Elas amenizavam a sede por algum tempo, mas nunca eram suficientes. Seu corpo não queria comprimidos. Queria sangue. Sangue puro, quente e fresco.
Jamais pediria aquilo a Yuuki.
Mesmo depois de ela lhe oferecer o próprio sangue ao descobrir sua condição, o medo de perder o controle permanecia maior do que qualquer necessidade. Bastava lembrar da última vez para sentir o estômago revirar. Se cedesse novamente, talvez não conseguisse parar antes de tirar a vida da garota que, embora jamais admitisse em voz alta, era uma das pessoas mais importantes para ele.
Quando finalmente encontrou a cartela em seu bolso, seu coração afundou.
Estava vazia.
— Droga...
Murmurou entre os dentes, fechando os olhos por um instante enquanto tentava controlar a respiração. Precisava manter a calma. Precisava apenas chegar ao escritório do diretor, onde sabia existir um estoque das pastilhas guardado no armário.
Apoiando-se no pesado trinco de ferro da porta, obrigou o próprio corpo a ficar de pé. As pernas ainda vacilaram, mas conseguiu recuperar o equilíbrio antes de seguir apressado para fora do estábulo.
O caminho mais curto até a Academia Cross obrigava-o a atravessar o grande pátio que separava os dormitórios da Turma da Noite da área dos estábulos. Não era o trajeto que gostaria de fazer naquele estado, principalmente agora que o crepúsculo já havia dado lugar à noite e os vampiros começavam a despertar. Ainda assim, não tinha escolha.
Cada passo parecia exigir um esforço maior que o anterior. A sede tornava seus sentidos aguçados de maneira dolorosa, enquanto o mundo ao seu redor parecia ganhar contornos mais nítidos. O vento carregava aromas diversos, mas nenhum deles era capaz de silenciar o chamado incessante do sangue.
Foi então que algo o fez parar.
Sem compreender exatamente o motivo, Zero estacou no meio do campus.
Sentia-se observado.
A sensação era estranha, quase sufocante, como se diversos pares de olhos repousassem sobre ele ao mesmo tempo. Instintivamente ergueu a cabeça, permitindo que o olhar percorresse a fachada do dormitório da Lua até encontrar uma das grandes janelas do segundo andar.
Ali estava ele.
Imóvel diante da vidraça, Kaname Kuran observava o campus em absoluto silêncio.
Mesmo à distância, o brilho discreto de seus olhos vermelho-carmesim destacava-se através dos longos fios castanho-escuros que emolduravam seu rosto pálido. Sua expressão permanecia serena, elegante e completamente indecifrável.
Os olhares se encontraram.
Por alguns segundos, nenhum dos dois desviou os olhos.
As írises violetas de Zero refletiam uma antipatia quase instintiva, que lentamente se traduziu no franzir de suas sobrancelhas. Kaname, por outro lado, permaneceu absolutamente imóvel, sustentando aquele contato visual com a mesma tranquilidade de quem observava uma paisagem qualquer.
Então aconteceu.
Uma pulsação percorreu violentamente o corpo de Zero.
Sua garganta incendiou-se de maneira muito mais intensa do que antes, arrancando-lhe um breve arquejo. Não era apenas sede. Era uma fome desesperadora, quase irracional, que parecia despertar de algum lugar profundo de sua própria existência.
Assustado com a intensidade daquele impulso, levou a mão à boca e cravou os dentes contra a própria pele, tentando conter o instinto que ameaçava dominá-lo. Desviou os olhos de Kaname quase de imediato e, sem sequer perceber, já corria em direção ao prédio principal da
Academia, afastando-se o mais rápido possível do campo de visão do sangue-puro.
Assim que atravessou a porta do escritório do diretor Cross, fechou-a atrás de si com força suficiente para fazê-la estremecer. Respirando pesadamente, dirigiu-se imediatamente ao armário, abrindo portas e gavetas de maneira quase desesperada até finalmente encontrar a caixa com as pastilhas.
Sem pensar duas vezes, destacou quatro comprimidos e os colocou na boca de uma só vez, engolindo-os rapidamente com a água de um copo que repousava sobre a mesa. Só então apoiou ambas as mãos na madeira, curvando levemente o corpo enquanto recuperava o fôlego.
Aos poucos, a sensação abrasadora em sua garganta começou a diminuir, permitindo que seus pensamentos voltassem a se organizar.
Mas uma dúvida insistia em permanecer.
O que havia sido aquilo?
Kaname Kuran.
Aquele sangue-puro arrogante. Aquele vampiro que representava tudo o que Zero aprendera a odiar durante a vida inteira. Um monstro... exatamente como ele próprio estava condenado a se tornar.
Ainda assim, bastara um único olhar para que algo despertasse dentro de si.
A sensação era assustadoramente semelhante àquela que experimentara ao sentir o cheiro do sangue de Yuuki pela primeira vez. Era como se uma fera adormecida tivesse aberto os olhos, reconhecendo diante de si uma presa impossível de ignorar.
Seu corpo... Estava desejando o sangue de Kaname?
A ideia parecia absurda.
Talvez a simples presença de um sangue-puro exercesse uma influência maior sobre um vampiro como ele. Talvez fosse apenas isso. Talvez seu organismo reagisse de maneira instintiva diante de alguém com um sangue tão poderoso.
Era a única explicação que conseguia aceitar.
No entanto, por mais que tentasse convencer a si mesmo, a verdade permanecia incômoda em algum lugar dentro de seu peito.
Seu corpo ansiava pelo sangue de Kaname da mesma forma que ansiava pelo sangue de Yuuki. E isso o aterrorizava.
A noite ainda estava apenas começando. Agora que recuperara parte do controle, precisava encontrar Yuuki para iniciarem a ronda noturna. Olhou rapidamente para o relógio sobre a parede e soltou um longo suspiro de irritação.
Estava atrasado. E conhecendo Yuuki, certamente teria de suportar uma boa bronca antes mesmo que a patrulha começasse.
