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Porão do Desespero

Summary:

No estúdio abafado e decadente do programa Infortúnio, Funérea comanda sua habitual sessão de niilismo e desespero existencial. Tudo muda quando Peruíbe, o malandro caiçara definitivo da Baixada Santista, invade o cenário exalando cheiro de praia, usando regata falsificada e trazendo um espetinho de queijo coalho gorduroso. Em vez de se abalar com as patadas cortantes e as ameaças de homicídio da Funérea, Peruíbe usa seu charme de quiosque e flertes abusados para pirraçar a apresentadora, testando os limites do autocontrole dela, puro entretenimento não é mesmo?

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

O ponteiro do relógio de parede do estúdio do Infortúnio estava preso entre o número quatro e o cinco desde o inverno de 2005.
Ninguém ousava tocá-lo. Mudar o horário naquele porão subterrâneo da MTV Brasil significaria admitir que o tempo passava, e para a Funérea, a passagem do tempo era apenas a confirmação biológica de que a humanidade estava apodrecendo em câmera lenta. O ar condicionado industrial, cujo motor roncava como um tiranossauro asmático, tossiu uma lufada de poeira cinzenta diretamente sobre a bancada de fórmica preta. A Funérea permaneceu estática. Ela não tossiu. Seus pulmões góticos já haviam se adaptado à atmosfera de cripta.— Olá. Se você ligou a sua televisão esperando encontrar alguma forma de entretenimento que mascare o vazio abissal da sua rotina medíocre, você errou de canal — a voz dela arrastava-se, uma linha reta de puro tédio e desespero existencial. — O programa de hoje deveria ser um monólogo de quatro horas sobre a inutilidade dos laços afetivos na era pós-industrial. No entanto, a produção, em um ato de sadismo corporativo requintado, decidiu liberar a entrada de um elemento radioativo neste recinto. Um indivíduo que transforma o ato de respirar em uma contravenção penal de baixo potencial ofensivo. Com vocês... Peruíbe. O homem que cheira a óleo de pastel e ambições mesquinhas.O silêncio fúnebre do estúdio foi brutalmente estuprado pelo som de um chinelo de dedo arrastando-se pelo chão de linóleo. Não um chinelo qualquer, mas um par de sandálias cuja sola já havia atingido a espessura molecular de uma película de insulfilm. Peruíbe entrou no cenário segurando um copo plástico de requeijão cheio até a boca com um líquido amarelo-turvo. Sua regata do Santos Futebol Clube estava tão gasta na altura das axilas que o tecido parecia ter sido roído por traças mutantes. Seus óculos escuros espelhados refletiam os refletores do teto, transformando seu rosto em um outdoor ambulante de pirataria litorânea.— Fala, minha deusa do cemitério! Que infortúnio maravilhoso! — Peruíbe soltou aquela risada rouca, balançando os ombros na ginga clássica de quem acabou de aplicar o golpe do bilhete premiado em um turista desavisado em Mongaguá. Ele marchou até a poltrona de corino rasgada, jogou-se nela de lado e bateu com o copo de plástico diretamente em cima do roteiro datilografado da Funérea. — O paizão chegou para trazer a energia do sol e o balanço do mar para esse porão que tá parecendo o fundo de uma geladeira velha!A Funérea não moveu um único músculo facial. Apenas seus olhos se estreitaram até virarem duas fendas pretas de puro ódio concentrado. A veia em sua têmpora esquerda começou a pulsar no ritmo de uma marcha fúnebre de Chopin.— Peruíbe — ela disse, e sua voz caiu mais dois tons na escala do asco. — Retire esse receptáculo de bactérias entéricas de cima das minhas anotações sobre o declínio demográfico da Europa central. E mude a direção do seu crânio. Seus óculos de camelô estão projetando um reflexo luminoso na minha córnea e eu me recuso a ser iluminada por qualquer coisa que tenha custado três reais na praça de São Vicente.— Que agressividade é essa, gata? Isso aqui não é lixo não, é o néctar dos deuses caiçaras! — Peruíbe tirou os óculos com a ponta do dedão, revelando os olhos castanhos brilhando com uma vigarice tão pura que beirava o misticismo. Ele se inclinou na bancada, diminuindo a distância entre eles para menos de trinta centímetros. — Isso aqui é uma batidinha de maracujá com cachaça de alambique que eu mesmo fiz lá no quiosque do Valdir. Trouxe pra você tomar um gole e ver se esse teu coraçãozinho de vampira acorda pra vida. Você tá muito pálida, Funérea. Esse teu rosto branco tá parecendo a areia da Praia Grande em dia de ressaca. Dá até vontade de deitar do lado e pegar um bronze.A Funérea travou os dentes com tanta força que um estalo ecoou pelo microfone de lapela.— Se você tentar estender qualquer toalha de praia a menos de dez metros da minha pessoa, Peruíbe, eu garantirei que os guardas do cemitério municipal utilizem o seu corpo como adubo orgânico para as samambaias da entrada. Seu vocabulário litorâneo me causa espasmos intestinais violentos.— Ah, mas você adora esse meu papo, não disfarça — Peruíbe deu aquele sorriso de canto, o clássico sorriso de quem sabe que o cobrador de ônibus não vai pedir a passagem. Ele usou o dedo indicador para empurrar o copo de plástico para o lado, limpando o campo de visão entre os dois. — Você faz essa pose de intelectual russa que lê livro de defunto, mas no fundo, bem lá no fundo desse espartilho preto, você tá doidinha para dar uma volta na garupa da minha CG sem escapamento, segurando na minha cintura e sentindo o vento da Imigrantes na cara. Não esconde o jogo da câmera, chuchu. O público sabe que o paizão te deixa balançada.

Notes:

Essa fanfic foi escrita somente porque eu estava sem nada pra fazer e lembrei que shippo Funérea e Peruíbe… Fassam mais fanfic deles pelo amor de Deus