Work Text:
Depois que o terceiro ano do meu sênior terminou, percebi que ele estava meio perdido.
Não que eu pudesse culpá-lo.
Depois de vencermos os Nacionais pela segunda vez, Sawamura recebeu propostas de todos os lados. Dessa vez, felizmente, sem nenhuma lesão. Fomos os melhores do início ao fim, e ele, como Ace, assumiu toda a responsabilidade como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
No meu primeiro ano, eu quase não joguei. Passei boa parte da temporada assistindo ao desespero de Sawamura depois que ele lesionou o braço justamente nos Nacionais.
Ainda assim, ele conseguiu.
Junto com Furuya, levou o time à vitória.
E Miyuki Kazuya — aquele sênior irritante — teve uma contribuição considerável para isso. Apesar de todas as dificuldades, ele nos ajudou a chegar aos Nacionais e, mais importante, a vencer.
Então Miyuki se formou.
E eu assumi.
Ainda não estava completo. Talvez não fosse melhor que Kazuya. Mas provei que conseguia fazer bonito.
Minha bateria com Sawamura-senpai chegou aos Nacionais mais uma vez. E, no auge, ele foi simplesmente o melhor.
Era o arremessador que eu queria continuar recebendo pelo resto da vida.
O único problema era ter um ano a menos. Eu odiava isso. Porque significava que eu não podia simplesmente reivindicá-lo.
E, aparentemente, Miyuki estava solto por aí fazendo propostas indecentes.
— Senpai... — falei, entregando-lhe as opções. — Meiji, Keio ou Yomiuri Giants.
Sawamura olhou para o papel como se eu tivesse acabado de lhe entregar um enigma de altíssima dificuldade.
— Uh? Mas... Koshien...
— Koshien? — Meu olho chegou a tremer. — Ou você está falando do Miyuki-senpai?
— Bom... ele está no Hanshin Tigers. E o estádio de Koshien é o melhor...
Claro. Não era nem uma questão de beisebol. Era Miyuki.
— Senpai, eu consegui uma vaga em Keio. Posso tentar dar um jeito ser aceito na Meiji. E um olheiro da Yomiuri entrou em contato comigo.
— Eu sei. — Ele franziu a testa. — Mas um ano inteiro... Vou ficar todo esse tempo sem uma bateria decente.
Parei. Aquilo quase pareceu uma declaração. Até ele completar…
— Ah! Você também pode entrar nos Tigers, não pode? Você consegue!
Revirei os olhos.
Naturalmente eu podia.
Ele estava tentando me levar junto. O que era... frustrantemente agradável. Mas ainda havia uma questão que não conseguia ignorar. Sawamura estava sentindo falta da bateria com Miyuki?
— Vamos ter que disputar com essa dupla para sempre se ficarmos no mesmo time... — murmurei.
Eu confiava que Sawamura seria melhor que Furuya-senpai. Também não tinha medo de enfrentar o irritante do Miyuki outra vez.
Mas eu precisava mesmo ver Sawamura sendo ignorado ou subestimado novamente?
Sério. Por que demoravam tanto para reconhecer o Ace que Eijun era?
Furuya tinha uma personalidade forte e era naturalmente confiável. Era um arremessador incrível. Mas não era o arremessador com quem eu queria formar uma bateria.
Sawamura era melhor.
Pelo menos para mim.
Às vezes, porém, parecia que ele preferia Miyuki. Talvez eu realmente precisasse me esforçar mais. Aquele desgraçado só estava por cima porque tinha nascido dois anos antes de mim. Só isso.
Eu conseguiria recuperar esse tempo.
Não perderia Sawamura para Miyuki.
Sawamura arregalou os olhos, subitamente animado. Como esperado, provavelmente não tinha entendido metade do problema.
Para ele, Furuya e Miyuki eram rivais, mas também eram amigos queridos.
Conhecendo-o, tudo o que queria era jogar com todos. Infelizmente, não era assim que o mundo funcionava.
Tirando, Furuya, Miyuki e Chris-senpai, ninguém mais estava em um time profissional. E, graças a Deus, o time do Chris-senpai era estrangeiro. Ou eu estaria realmente ferrado.
— Eu quero jogar com o Furuya-senpai e o Kazuya-senpai! Não disputar a mesma vaga outra vez... — disse, exatamente como eu esperava. — Se somos os melhores, vamos ser os titulares!
Fechei os olhos por um instante. Era impossível discutir com alguém cujo cérebro funcionava em três coisas: arremessos, rebatidas e Miyuki.
— Senpai, você percebe que estou tentando decidir o nosso futuro?
— Sim!
— E qual é a sua prioridade?
Ele pensou por dois segundos.
— Ser o Ace.
— Então você quer ganhar?
— Sim! Vamos derrotar eles!
Suspirei.
É.
Definitivamente, eu precisava continuar sendo o receptor dele.
Alguém precisava cuidar daquele idiota.
— Para realmente derrotá-los, precisamos estar em times rivais. Só assim poderemos provar que nosso beisebol é melhor jogando para valer.
— Eu entendo isso! — Seus olhos brilharam. — Você quer derrotar o Miyuki e eu quero derrotar o Furuya. Então faria sentido irmos para times rivais...
Finalmente.
— Mas...
Eu sabia.
— Eu também quero formar uma bateria com o Miyuki... E ter o Furuya como parceiro.
Fiquei em silêncio.
— Entendi.
Então era isso.
Faltava-me competência.
Ou, considerando a lógica de Sawamura, simplesmente faltava-me a capacidade de cobrir o lugar do Miyuki. Sou só um substituto…
— Mas você tem razão! Eu vou pensar mais a respeito. Ainda tenho tempo para escolher.
— Certo, veterano. — Levantei-me. — Vou para casa. Tenho algumas estatísticas para revisar.
— Já? Ainda está cedo!
Tínhamos saído juntos para uma cafeteria no shopping. Eu estava tomando um iced coffee enquanto Sawamura devorava uma fatia de bolo acompanhada de chocolate quente, porque, aparentemente, café era amargo demais para o antigo Ace dos Seidou.
— Sinto que já tomei muito do seu tempo.
— Mas eu estou formado! Não tenho mais nada para fazer... E a gente nem trocou uma bola!
Olhei para a mochila de beisebol ao lado dele.
— Ah. Então foi por isso que você trouxe isso.
— Sim! Vai receber minhas bolas, não vai, Okumura?
— É... acho que vou.
— Hehe! Ainda bem! Eu ainda tenho pesadelos de quando nos conhecemos, sabia? Mas pior foi quando você se recusou a pegar minha bola!
— Eu ainda não era digno, senpai.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Então abriu um sorriso.
— Hehe! A gente se dá tão bem agora! Nem parece que você me odiava!
— Eu não diria que odiava...
— Gosta de mim agora, né?
Suspirei.
Ele realmente fazia perguntas perigosas com a mesma inocência de quem perguntava qual era a velocidade máxima de uma bola.
— É... inegável que eu gosto de você.
— Hehe! Eu também, Menino Lobo! Gosto muito de você!
Meu coração deu uma pequena travada.
Ele continuou, completamente alheio ao estrago que tinha acabado de causar.
— Então precisamos estar no mesmo time! — falou.
— Certo...
É claro.
Para Sawamura, aquilo era simples. Ele queria jogar beisebol comigo. Queria jogar com Miyuki. Queria jogar contra Furuya.
E, se dependesse dele, provavelmente queria colocar os três no mesmo campo e ainda encontrar uma maneira de fazer todo mundo ser titular.
Voltei a me sentar, embora ainda não tivesse desistido completamente da ideia de ir embora. Só não parecia muito educado abandonar Sawamura no meio da conversa, principalmente quando ele continuava comendo o bolo como se tivesse acabado de descobrir uma nova fonte de energia para arremessadores.
E, mesmo sem admitir, eu também queria receber seus arremessos. Sentia falta de treinar com o veterano. Afinal, no ano passado, ele passou um bom tempo sem ir para o time depois de ganharmos o Nacional. Era aquele período em que o novo time estava se preparando, então eu fiquei ocupado. Ele deveria estar estudando para conseguir entrar em uma faculdade.
Agora eu também estava nessa mesma situação. Dessa vez, fomos para os Nacionais, mas não vencemos. Eu tinha muito a pensar: no que deveria melhorar, no que precisava corrigir e, ainda por cima, precisava decidir meu futuro e conciliá-lo com o de Sawamura.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele empurrou o prato na minha direção e, com a maior naturalidade do mundo, ofereceu o próprio bolo.
— Quer?
— Não, obrigado.
— Você não gosta de doces?
— Gosto.
A resposta saiu rápida demais. Sawamura inclinou a cabeça, claramente tentando entender a lógica por trás daquilo.
— Então por que não quer?
— Porque não quero.
— Ah...
Ele pareceu aceitar. Por aproximadamente três segundos.
— Então você só não gosta desse bolo?
— Eu não disse isso.
— Então você gosta de bolo!
— Senpai...
— O quê?
— O senhor poderia simplesmente comer o seu?
Ele começou a rir, apoiando o garfo no prato.
— Você está bravo.
— Não estou.
— Está sim.
— Não estou.
— Está falando todo formal, na skin Lobo Raivoso de novo!
Parei por um instante. Era verdade. Eu estava sendo mais formal que o habitual, mas não pretendia dar a ele a satisfação de saber o motivo.
Depois de tudo o que ele tinha acabado de dizer sobre Miyuki, eu não estava exatamente no melhor humor. E, se eu continuasse pensando na possibilidade de Sawamura escolher o Hanshin apenas para ficar perto daquele sujeito, provavelmente acabaria quebrando o garfo na mesa.
— Eu sempre falo assim com o meu sénior.
— Não fala!
Sawamura apontou o garfo para mim como se tivesse acabado de descobrir uma evidência irrefutável durante uma investigação.
— Você me chama de Sawamura-senpai o tempo todo. E eu te chamo de Menino Lobo às vezes.
— E daí, senpai?
— Mas nós somos amigos.
Aquilo me fez ficar em silêncio por alguns segundos. Ele falou com tanta naturalidade que pareceu estranho. Talvez porque, para mim, nossa relação tivesse começado de uma maneira muito diferente. No início, eu mal suportava aquele arremessador barulhento. Eu fui desrespeitoso, brigamos inúmeras vezes, mas, depois, passei a respeitá-lo e confiar nele. E, em algum momento, sem que eu percebesse exatamente quando, Sawamura tinha se tornado alguém que eu não queria perder.
— Então acho que podemos parar de usar só apelidos e sobrenomes, não acha? — ele continuou, como se tivesse acabado de resolver uma questão simples. — Eu posso te chamar de Koushuu.
Meu coração deu uma pequena acelerada, mas mantive a expressão neutra.
— Não.
— Por quê?!
— Porque não me parece apropriado.
— Mas nós somos amigos!
— Isso não significa que eu possa simplesmente chamá-lo pelo primeiro nome.
— Por que não?
Porque não era tão simples assim. Porque ouvir Sawamura dizer Koushuu parecia muito mais íntimo do que deveria. Porque eu estava acostumado a ouvi-lo gritar “Okumura!” durante os treinos e “Menino Lobo!” quando queria me provocar.
— Koushuu...
Levantei os olhos. Sawamura estava sorrindo para mim, completamente alheio à pequena crise existencial que tinha acabado de provocar.
— O quê?
Ele pegou outro pedaço de bolo e estendeu o garfo na minha direção.
— Come.
— Já disse que não quero.
— Mas você gosta de doces!
Fechei os olhos por um instante. Esse homem conseguia transformar qualquer conversa simples em uma armadilha.
— Se você não comer, eu vou ter que comer sozinho.
— É uma fatia. Então você dá conta.
— Mas eu queria dividir com você.
Sawamura continuava sorrindo daquele jeito aberto, completamente despreocupado. Era difícil saber se ele estava flertando comigo ou simplesmente sendo Sawamura. Provavelmente a segunda opção.
E, considerando a cabeça dele, talvez ele nem soubesse que existia diferença.
— Só um pedaço.
Ele empurrou o prato ainda mais para perto de mim, satisfeito como se tivesse acabado de conseguir uma vitória nacional.
— Então somos oficialmente amigos!
— Nós já éramos amigos.
— Então agora somos amigos que comem bolo juntos!
— Isso não é uma categoria específica de amizade.
— É sim!
Ele riu, e eu percebi, tarde demais, que também estava sorrindo.
Aquilo era perigoso.
Muito perigoso.
Porque, se continuasse assim, talvez eu realmente começasse a acreditar que tinha alguma chance contra Miyuki.
Mesmo que Sawamura ainda não parecesse fazer a menor ideia de que eu estava competindo por ele. E, no fundo, eu nem ligava mais para Miyuki da mesma maneira.
Era diferente do que eue sentia em relação ao Furuya. Eu não queria ser amigo de Kazuya. Queria apenas fazer aquele homem desaparecer.
Ele era irritante. Eu o respeitava como receptor, isso era inegável, mas, fora do campo, ele mais parecia um ex-primeiro-amor que se recusava a sair de cena. Um fantasma irritante que estava sempre por perto, fazendo o atual ser comparado com o anterior.
Enfim, só me restava me esforçar mais.
Muito mais.
Porque, se Sawamura inevitavelmente fosse atrás de Miyuki... eu pretendia fazer questão de que os Hanshin Tigers também me escolhessem.
Afinal, alguém precisava receber as bolas daquele idiota.
E esse alguém seria eu.
Terminamos o bolo e saímos da cafeteria. Sawamura insistiu em passarmos pela praça ao lado do shopping. Eu não tinha levado meu equipamento completo, mas também estava com a minha luva dentro da mochila. No fundo, eu já esperava que ele fosse me arrastar para algo assim. Não seria a primeira vez.
Eu poderia ter recusado. Afinal, não tínhamos um campo adequado ali, nem mound, nem home plate e muito menos alguém para rebater. Mas a verdade era que eu também queria. Fazia tempo demais desde a última vez que tive a oportunidade de receber seus arremessos.
Era a primeira vez que nos víamos fora da escola sem ser por causa do time. Também era a primeira vez que saíamos sem os uniformes da escola ou do time. Então, nem sequer estávamos vestidos adequadamente para trocar algumas bolas. Ainda assim, ele trouxe sua bolsa e eu, minha mochila. No fim, éramos apenas dois esquisitões que queriam jogar beisebol.
A praça tinha uma área aberta de concreto, relativamente vazia naquela hora. Não era exatamente o lugar ideal para treinar, mas seria suficiente para trabalhar o comando e testar algumas combinações. Sawamura colocou a bolsa no chão, tirou a luva e começou a alongar o braço. Quando me agachei, ele já estava sorrindo daquele jeito irritantemente animado.
Só espero que essa bola não voe na minha cara...
Mas eu não podia perder para o Miyuki quando se tratava do Eijun. Eu já estava cansado de ver aquele desgraçado recebendo os nossos pitchers sem sequer usar uma máscara de proteção. Mas, se fosse o Furuya... eu não me importaria. Por mim, ele que fosse idiota o bastante para pegar aquela bola sem proteção.
— Quanto tempo faz que você não recebe minhas bolas, Menino Lobo?
Esse idiota...
E aquele papo de me chamar pelo nome? Já havia voltado para esse apelido ridículo.
— Espero que não esteja enferrujado, senpai.
— Hehe! Então se prepara!
— Não precisa me avisar toda vez, senpai.
Ele riu e caminhou alguns metros para trás. Não tínhamos uma distância perfeita entre o mound e o home plate, então precisaríamos compensar, mas aquilo não importava. Eu queria observar o release, sentir a rotação e avaliar o comando. Depois de tantos meses, precisava descobrir se alguma coisa havia mudado.
Levantei a mão e mostrei o primeiro sinal.
Four-seam.
Sawamura assentiu imediatamente. Coloquei a luva no alvo e esperei. Ele iniciou a mecânica, carregou o peso para frente e soltou a bola, acelerando o braço até o final do movimento. A trajetória veio limpa, diretamente para o centro da minha luva.
Aquele som, tão bom de ouvir, fez meu coração acelerar. Quando a bola do senpai chegava à minha luva, era diferente de qualquer outra. Eu não sabia explicar exatamente o motivo. Talvez fosse a sensação de reconhecer aquele arremesso depois de tanto tempo. Talvez fosse apenas porque era a bola dele.
Levantei a mão novamente e pedi uma cutter. Dessa vez, Sawamura demorou um pouco mais para responder. Observou o sinal, respirou fundo e entrou na mecânica. A bola saiu parecendo uma four-seam, mas começou a cortar para o lado da luva perto do final da trajetória. Tive que mover a luva alguns centímetros para acompanhar a quebra.
— O movimento está aparecendo um pouco tarde — avisei.
— Beleza! Vou melhorar!
A próxima sequência seria mais importante. L Sawamura tinha desenvolvido um repertório muito mais amplo durante o ensino médio, e uma das maiores vantagens dele era justamente não depender de uma única arma.
Ele conseguia misturar velocidade, movimento e localização, o que dificultava bastante a leitura do rebatedor. Por isso, eu queria testar as bolas uma por uma antes de começar a combiná-las.
Mostrei o terceiro sinal.
Changeup.
Sawamura assentiu. A mecânica parecia praticamente igual à da bola rápida, o que era exatamente o que eu queria observar. O braço manteve uma boa velocidade, mas a bola perdeu força no caminho até mim.
Recebi um pouco abaixo do alvo. Eu ainda ficava surpreso com o quanto a changeup do senpai caía. Era perfeita. Todo mundo era cheio de elogios ao Narumiya Mei, mas eu preferia as do Sawamura. Eram mais difíceis de entender, principalmente quando ele conseguia esconder bem o grip e manter a mecânica semelhante à da four-seam. Isso fazia o rebatedor errar o timing com mais facilidade.
— Boa mudança de velocidade.
— Você notou que eu estou jogando mais forte e mais rápido? — ele se gabou. — O Chris-senpai me passou um treinamento que um técnico muito famoso dos Estados Unidos ensinou a ele!
Começou a se gabar...
Mas, sim, era notável que os arremessos do senpai estavam ainda mais incríveis. Ele sempre parecia melhor cada vez que eu o via. Eu o admirava profundamente.
Aquilo era algo que eu precisava reconhecer nele. Sawamura podia ser incrivelmente cabeça-dura, mas, quando o assunto era beisebol, ele absorvia qualquer informação que pudesse ajudá-lo a melhorar.
— Dá para o gasto, senpai.
— Quero elogios, Koushuu!
— Então faça melhor.
Sawamura me mostrou aquele olhar de gato, e eu tive que segurar a risada. Quando ficava irritado, ele sempre fazia aquela expressão. Era meio fofo... apesar de eu odiar vê-la durante os jogos. Quando fazia aquela cara em campo, normalmente significava que estava nervoso e, logo em seguida, fazia alguma merda.
— Relaxa, relaxa, senpai! — mandei.
Ele respirou fundo e, então, fez aquela expressão de bobo. Eu já sabia o que significava. Era quando ele estava concentrado de verdade e não deixaria a bola sair voando para algum lugar que não deveria.
Mostrei o próximo sinal.
Slider.
Ele entrou na posição e iniciou o movimento. Dessa vez, a bola saiu com uma rotação diferente e começou a escapar do alvo no caminho. Acompanhei a trajetória com os olhos e ajustei a luva no último instante.
— Boa.
— Foi boa mesmo?
— Sim.
— Então essa está perfeita!
— Eu não disse isso.
— Mas disse que foi boa! Você me elogiou, então eu fui bem!
— Existe uma diferença considerável entre uma bola boa e uma bola perfeita, senpai.
— Você é muito exigente, Menino Lobo.
— Alguém precisa ser.
Ele fez uma careta, mas não reclamou mais.
Começamos a alternar as bolas. O objetivo não era apenas receber. Eu queria verificar se ele conseguia manter a mesma mecânica enquanto alternava velocidades e grips, além de observar como o comando se comportava quando a sequência mudava constantemente. Comecei a variar os alvos: uma four-seam no canto externo, uma changeup baixa e, em seguida, uma cutter para dentro.
A cada sinal, ele ajustava a abordagem sem precisar perguntar. E isso me deixou satisfeito. Não porque estivesse fazendo algo extraordinário para um arremessador do nível dele, mas porque significava que nossa comunicação ainda funcionava mesmo depois de tanto tempo sem jogar juntos.
Eu queria uma disputa real. Queria estar no time profissional junto do Sawamura. Eu o seguiria para onde quer que fosse. Mesmo que, para isso, tivesse que lidar com aquela pedra no meu sapato para sempre.
— Senpai... você anda treinando suas rebatidas? — perguntei, me levantando.
— Ehh... por que isso seria importante? Eu consigo rebater bastante agora. Sou bom no bunt e...
— Calado, senpai — interrompi. — Você precisa treinar as rebatidas de vez em quando também. Não vamos mais jogar contra pessoas do ensino médio. Vamos jogar contra os melhores e precisamos estar em forma.
— Aaaaa, eu sei, eu sei! Mas é que arremessar é tão mais legal e...
— No sábado, vamos nos encontrar em um centro de rebatidas. Eu também preciso melhorar.
— Okay! E depois podemos trocar umas bolas de novo?
— Você é mesmo impossível... mas sim, senpai, podemos.
— Então pegue mais dez arremessos meus. Vamos testar novas variações e...
Apenas sorri, deixando que ele me contaminasse com aquela energia. Eu amava beisebol... mas acho que amava ainda mais quando o veterano estava comigo.
Ficamos até escurecer naquela praça, e fui eu quem teve que ser o chato e encerrar aquilo. Porque, se dependesse do Sawamura, ele passaria a noite inteira jogando e, no fim, ainda iria querer correr com um maldito pneu preso à cintura.
Fomos juntos até a estação de metrô. O veterano estava alugando um pequeno apartamento desde que saiu dos alojamentos. Ele até mesmo tinha conseguido um trabalho de meio período, o que eu realmente não entendia. Claro que havia um prazo para ele decidir em qual time iria jogar, mas normalmente ninguém levava tanto tempo assim...
Parecia ser algo que realmente estava comendo seus neurônios.
— Então... até sábado, Koushuu — Sawamura se despediu de mim quando nossos caminhos se separaram, já que eu precisava voltar para Seidou.
— Senpai...
— Hun?
— Escolha o time que seu coração mandar — avisei.
Eu sabia que ele estava indeciso por minha causa. Mas, se o coração dele realmente queria o Miyuki, eu só precisava superar aquele desgraçado e me tornar o titular.
Se eu não conseguisse fazer nem isso, então não merecia o Sawamura.
— Você sabe o que isso significa?
— Não importa. Eu vou atrás do senpai onde quer que seja. Só preciso ser o melhor. Então serei digno de receber seus arremessos.
— Parece um cachorrinho.
Ele falou como uma piada.
Eu sabia.
Eu realmente estava sendo um.
— Quando escolher o time, me avise. Eu vou até você. Lobos são parentes de cachorros, então não fique surpreso — avisei.
— Ah... ok. — Ele pareceu ficar sem jeito. O que não era muito comum nele. — Você... não quer ir comigo até em casa?
— Uh? Por quê? — perguntei.
Ele queria me fazer receber mais arremessos dele? Sawamura só pensava em beisebol, então não fazia muito sentido.
— Só... sei lá! Você não está mais no time mesmo, então que diferença faz? Tá precisando estudar?
— Eu posso te acompanhar, senpai. Não preciso estudar nem nada assim. Só estou esperando o ano acabar... Meu futuro meio que já está decidido.
Eu levaria o beisebol como carreira. Minhas notas não estavam péssimas, então não precisava me preocupar muito com isso. Só precisava que o senpai decidisse onde iria jogar.
Depois disso, eu iria atrás dele.
Onde quer que fosse.
Sawamura continuou me encarando por alguns segundos, ainda com aquela expressão estranhamente sem jeito. Não era exatamente constrangimento. Parecia mais que ele estava tentando tomar uma decisão e não sabia muito bem como começar.
Então apontou para a saída da estação.
— Vamos.
— Para onde?
— Para minha casa. Você não disse que ia comigo?
Eu tinha dito aquilo, mas não esperava que ele realmente fosse me levar até lá. Não tive nem tempo de discutir. Sawamura já estava andando, então apenas o segui. Pegamos o metrô que levava até a região onde ele estava morando.
Quando entramos no vagão, encontramos dois lugares vazios lado a lado. Sentei perto da janela, e Sawamura se acomodou ao meu lado. Durante alguns minutos, ficamos em silêncio.
Era estranho. Eijun normalmente era muito tagarela. Não estávamos na escola, não estávamos no estádio e não havia ninguém do time por perto. Não tínhamos uniformes, não havia treino e ninguém estava nos esperando.
Meu estômago estava estranho. Será que era porque eu não tinha jantado?
Sawamura olhava para as próprias mãos quando finalmente começou a falar.
— Koushuu... Você sabe que é um receptor muito bom, não sabe?
— Sei.
Onde ele queria chegar com aquilo?
— Você consegue se adaptar muito bem. Acho que conseguiria receber qualquer pitcher. E você faz com que eles se saiam ainda melhor do que com qualquer outro receptor. Você consegue extrair o potencial dessas pessoas. É um talento invejável... Tanto que suas únicas falhas vêm da falta de experiência.
Meu peito apertou um pouco.
Ah...
Então era isso. Talvez ele estivesse tentando me dizer, de maneira indireta, que não precisava de mim.
Eu sabia que conseguia me adaptar. Era uma das coisas em que mais havia trabalhado. Um receptor precisava compreender o repertório do pitcher e saber como conduzi-lo, mas também precisava conseguir trabalhar com diferentes estilos e personalidades.
Furuya, por exemplo, tinha uma bola rápida poderosa e um estilo completamente diferente do Sawamura. Eu conseguiria recebê-lo facilmente. Também havia passado um ano inteiro trabalhando com outros pitchers, e conseguimos chegar longe na competição.
Mas eu não queria conhecer outras pessoas de novo...
— Então, se acabar indo para um time diferente... — ele continuou.
— Eu não quero.
Minha voz saiu mais fria do que pretendia.
Sawamura pareceu perceber.
— Koushuu...
Não, senpai! Eu não quero ir para um time diferente do seu.
Eu queria gritar aquilo para que ele entendesse, mas não o fiz.
Porque também não queria que ele se sentisse culpado. Não queria admitir que aquilo tinha doído. Se Sawamura realmente acreditava que eu poderia simplesmente escolher qualquer pitcher e seguir em frente, então talvez eu tivesse entendido tudo errado.
Talvez ele realmente quisesse Miyuki e toda aquela demora para escolher um time não fosse porque estava indeciso, mas porque não queria me magoar.
Afinal, eles tinham uma história juntos, e eu era apenas o receptor mais novo que apareceu depois.
Não disse nada.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Uh? — assenti.
Ele iria me pedir para não o seguir mais?
— Por que você nunca preferiu o Furuya?
— O quê?
— Você sempre foi muito bom recebendo as bolas dele também. E o Furuya é incrível. A bola dele é muito rápida, e você consegue acompanhar. Então... por que nunca quis formar uma bateria especial com ele?
— Furuya-senpai é um ótimo pitcher. Se estivéssemos falando apenas de capacidade, eu poderia receber as bolas dele sem problemas. Ele tem potência, velocidade e um repertório capaz de destruir qualquer rebatedor quando está em boa forma.
— Exatamente! — Sawamura assentiu imediatamente. — Todo receptor iria preferi-lo, porque ele tem aquele talento monstruoso.
— Mas eu não tenho interesse.
— Em quê?
Desviei o olhar, meio sem graça de admitir.
— Em qualquer outro pitcher.
— Mas você acabou de dizer que...
— Eu disse que conseguiria. Não que gostaria.
Ele ficou quieto.
Percebi que Sawamura me encarava com aquela expressão de quem não estava entendendo absolutamente nada.
Eu precisava explicar o que, para mim, parecia óbvio. Mas o senpai sempre foi meio denso. Já estava até acostumado.
Ainda assim, precisava deixar claro que eu nunca tive dúvidas.
— Então o quê? O seu amigo Seto... deixou escapar que você até recebeu um convite internacional, mas recusou por saber que eu não iria.
Seto realmente ficou muito irritado comigo por causa disso. Pelo visto, chegou ao ponto de procurar o Sawamura para tentar me fazer mudar de ideia.
Que idiota.
— Beisebol, para mim, é sobre encontrar alguém cujo arremesso faça você querer continuar atrás da luva.
— Hã?
Ele ficou vermelho.
— E-eu sou esse arremessador para você?
— Sim.
Sawamura abriu e fechou a boca algumas vezes.
— Isso foi um elogio?
— Se você quiser interpretar assim.
— Então você prefere receber minhas bolas? Entre todos do mundo, eu sou o seu favorito desde o início? — perguntou, sorrindo.
— Agora você entendeu, senpai.
Sawamura ficou quieto por alguns segundos.
Então sorriu novamente.
— Eu gostei de ouvir isso!
— Eu sei.
— E você gosta mesmo de receber minhas bolas mais do que as do Furuya?
— Eu já disse que sim.
O rosto dele ficou vermelho outra vez. Dessa vez, porém, tentou esconder olhando para a janela.
— Ah... saquei!
Ele ficou alguns segundos em silêncio antes de voltar a me olhar.
— Koushuu... então... se eu escolher um time, você vai mesmo atrás de mim?
— Esse é o plano. Então, se não odiar a ideia, por favor, escolha o que seu coração mandar e me espere.
— Vou esperar! Eu quero isso... — Ele parou, percebendo o que tinha acabado de dizer. — Quero dizer... você é meu receptor. Precisa fazer ao menos isso.
Meu coração acelerou.
Sawamura também pareceu perceber o peso das próprias palavras e ficou ainda mais vermelho.
Eu desviei o olhar para a janela, tentando esconder o sorriso.
Talvez aquele idiota realmente não soubesse o que estava fazendo.
O restante do caminho foi preenchido pelas conversas do senpai. Desse jeito o tempo passou bem rápido.
Chegamos ao apartamento em que o senpai estava morando. Eu realmente ficava surpreso por ele estar sozinho. Do jeito que era cheio de amigos, sempre pensei que ele arrumaria alguém para dividir o lugar com ele... Sawamura nunca pareceu ser o tipo de pessoa que ficava bem sozinho.
— Eu não pretendia trazer ninguém aqui hoje... então não repara na bagunça — pediu, destrancando a porta.
Eu esperava o caos. Sendo sincero, achei que estaria tão ruim que acabaria me sentindo incomodado o suficiente para limpar a casa do senpai.
Mas... não estava o fim do mundo.
Na sala, havia uma blusa de frio jogada no sofá e um copo sujo em cima da mesinha. O senpai correu até lá, pegou a blusa e levou o copo consigo, desaparecendo rapidamente na cozinha.
Enquanto ele parecia “preocupado” em esconder aquela pequena bagunça, fui tirando meus sapatos, pedi licença, fechei a porta e caminhei até o sofá, onde me sentei.
Sério... o que eu estava fazendo aqui?
O apartamento não era grande o suficiente para dar para jogar bola ali dentro. E também não tinha nenhuma praça por perto. Pelo caminho, não tinha visto nenhum lugar onde pudéssemos fazer qualquer coisa relacionada a beisebol.
Será que o senpai queria assistir a algum vídeo dele arremessando? Mas não havia nada novo para estudarmos. Talvez tivesse gravado algum treino recentemente.
Sawamura voltou com duas latas de refrigerante e um salgadinho servido em uma vasilha. Colocou tudo sobre a mesa e se sentou ao meu lado.
Acho que ele calculou mal o espaço onde deveria sentar... porque não foi para o meio nem para o canto do sofá. O senpai simplesmente sentou bem perto de mim, a ponto de nossos joelhos ficarem encostados.
Sawamura tinha alguma noção de espaço pessoal?
Ah, duvido.
Ele era sempre tão amigável com todo mundo que provavelmente nem percebia essas coisas.
Provavelmente ele só queria ficar perto porque estava acostumado a fazer tudo grudado nos companheiros de time.
Sawamura abriu uma das latinhas e tomou um gole antes de começar a falar. E, aparentemente, o fato de eu estar quieto não significava absolutamente nada para ele.
— Sabe o que eu estava pensando? Se eu conseguir melhorar minha four-seam mais um pouco, talvez consiga aumentar a diferença de velocidade entre ela e a changeup. E, se eu fizer isso, minha slider também vai ficar mais difícil de ler! Ah, mas ainda preciso trabalhar melhor o comando da cutter...
Eu apenas peguei minha lata de refrigerante e tomei um gole. Realmente, a velocidade sempre foi um problema. Apesar de atualmente lançar bolas bem mais rápidas e fortes do que no ensino médio, quando comparado aos jogadores profissionais, ainda havia uma brecha considerável. Mas eu nem estava preocupado. O Sawamura tinha uma mecânica muito boa. Seu braço praticamente desaparecia durante o movimento, e seu arremesso para o adversário sempre seria uma surpresa. Se o time perdesse, não seria culpa do Eijun, mas da bateria por não saber utilizar todo o seu repertório. No fim... era eu quem precisava me esforçar mais.
— Você acha que seria melhor começar com a four-seam ou com a cutter? Porque, contra rebatedores que ficam esperando a bola rápida, talvez seja melhor mostrar uma mudança de direção logo no começo. Mas, se eu usar a cutter cedo demais, eles podem começar a procurar a quebra… — Ele falava com as mãos, animado, quase derrubando o próprio refrigerante no processo.
— Senpai, você vai derrubar isso.
— Ah!
Ele segurou a lata com as duas mãos.
— Foi por pouco... Você sempre percebe essas coisas, Menino Lobo!
— É meu trabalho.
Ele pegou um salgadinho e colocou na boca, ainda sorrindo. Eu não entendia como alguém conseguia falar tanto enquanto comia. O veterano era sempre tão tagarela.
— Ah, mas falando sério! Você acha que eu deveria testar uma sequência diferente quando formarmos bateria de novo?
Formarmos bateria.
Aquelas palavras fizeram meu peito apertar. Então eu realmente poderia jogar com ele de novo, não é? Seríamos do mesmo time... Ele não iria pedir para eu desistir disso, certo? Não havia me chamado até aqui só para me dar um golpe. Acho que, no fundo, eu estava preocupado com isso. Não queria ser um substituto do Miyuki para sempre...
— Verei isso...
— Você fez uma cara estranha — avisou.
— Não fiz.
Sawamura se aproximou um pouco para olhar meu rosto.
Perto demais.
— Está vermelho?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho. Por que eu ficaria vermelho?
Ele continuou me encarando por alguns segundos, como se estivesse procurando alguma coisa.
— Você fica fofo quando está sério.
Meu cérebro simplesmente parou.
— ...O quê?
Sawamura piscou, como se não tivesse percebido o que havia acabado de falar.
Eu nem estava corado. De onde ele tirou aquela história? Por que estava me chamando de fofo?
— Você fica fofo — repetiu.
— Senpai.
— Hm?
— Eu sou um homem adulto agora. Tenho dezoito anos!
— Eu sei.
— Então por que está falando isso?
— Porque você é fofo.
Ele disse aquilo com a maior naturalidade do mundo.
— Principalmente quando está no campo, irritado e pensando em qual arremesso pedir para destruir o rebatedor. Aquele olhar selvagem de lobo mau! Hahaha! É muito fofinho.
Desviei o olhar imediatamente.
Esse idiota! Nem devia saber como suas palavras soavam ambíguas.
— O veterano deveria prestar mais atenção ao assunto beisebol, não ao meu rosto.
— Mas eu estou falando de beisebol!
— Não estava.
— Estava sim! Eu estava falando de você! E de como você fica fofo quando está sério.
— Isso não melhora a situação.
Ele começou a rir. E, enquanto ria, acabou se inclinando para o meu lado. O ombro dele encostou no meu.
Não pareceu perceber.
Eu fiquei imóvel.
— Ah, e outra coisa — ele continuou. — Você fica muito bonitinho quando está concentrado também. Seja em campo, quando estamos pensando em estratégias... ou agora.
— Bonitinho?
— Sim.
— Não deveria usar esse termo para um receptor.
— Por quê? O Miyuki-senpai é elogiado o tempo todo pelos outros. Mas ele não é fofo, ele é irritante. O Chris-senpai é bonito, mas é mais legal. Mas o Koushuu é o mais fofo. Eu te acho o receptor mais bonito!
Eu preferia que ele me achasse o melhor receptor, não o mais bonito... Até porque isso nem era verdade.
— Senpai...
— O quê?
— Você está fazendo isso de propósito?
— Fazendo o quê?
Ele parecia genuinamente confuso.
— Ah... esquece, senpai. Não é nada.
Aquilo ou era uma forma muito bonita de me dispensar como seu receptor ou um flerte. Mas, vindo do Eijun, eu não sabia o que esperar. Às vezes, ele simplesmente falava qualquer coisa que passava pela cabeça.
Sawamura pegou outro salgadinho e, dessa vez, apoiou o braço no encosto do sofá atrás de mim. A posição fez com que ele ficasse ainda mais perto.
Meu joelho continuava encostado no dele.
E ele não parecia ter nenhuma intenção de se afastar.
— Koushuu?
— Sim?
— Você acha que eu melhorei muito?
A pergunta veio mais séria.
Ah, voltamos ao assunto normal: seus arremessos.
— Sim.
— Mais do que no ano passado?
— Muito mais.
O sorriso dele apareceu imediatamente.
— Eu sabia!
— Não se ache. É por isso que eu não gosto de te elogiar.
— Mas você acabou de dizer que eu melhorei muito!
— Porque é verdade.
— Então meu beisebol está ficando melhor?
— Está.
— E você ainda quer receber minhas bolas?
— Sim. Quero jogar com o senpai logo.
Sawamura ficou vermelho. Dessa vez, foi ele quem desviou o olhar.
Eu não entendia por que ele ficava sem graça por eu querer ser o seu receptor. Era natural. Muitas pessoas gostariam de ter o Eijun no time.
Fiquei em silêncio. Então ele mexeu um pouco no sofá, aproximando-se novamente.
— Isso é bom... Porque eu também gosto quando você recebe minhas bolas.
Meu coração acelerou.
Eu sabia que isso não significava que eu era o favorito dele como receptor. Mas só de ele não odiar que eu fosse seu receptor já me deixava feliz.
— E sua luva faz um barulho muito bom — me elogiou.
— Senpai.
— Hm?
— Você está ocupando metade do meu espaço pessoal.
Sawamura olhou para baixo, percebendo finalmente que nossos joelhos continuavam encostados. Como estava com o braço apoiado no encosto atrás de mim, a posição fazia parecer que ele estava quase me dando um meio abraço.
— Ah… — Ele não se afastou. — E daí?
— Você fica assim também com o Miyuki-senpai?
— Uh? Eu não ligo para o Miyuki fora do campo. Sou amigo dele e tal, mas a gente não sai junto sem ser por causa de beisebol.
— Isso também não se aplica a mim? — perguntei, confuso.
— A gente fica trocando mensagens todos os dias! — falou, parecendo incrédulo por eu estar dizendo aquilo.
— Sobre beisebol!
— Ontem estávamos pesquisando como fazer bolo...
— Porque o senpai disse que tentou fazer um e sujou o micro-ondas. Pelo forno era melhor e...
— Esse é o ponto! Falamos sobre beisebol porque é o que fazemos todos os dias, mas também falamos sobre nossa rotina em geral. Eu não tenho esse tipo de conversa com o Miyuki ou com o Furuya. E... hoje fomos a uma cafeteria. Eu sei que acabou em beisebol, mas é porque gostamos disso.
— Ah... sim.
Acho que o Sawamura só queria dizer que eu era mais amigo dele do que o Miyuki, mas eu nem ligava para isso. Eu queria ser seu receptor acima de tudo.
— E estamos aqui agora. Você sabia que é o primeiro, sem ser da minha família, a me visitar? — mencionou.
Meu corpo ficou rígido.
O braço que antes estava apoiado no encosto do sofá agora estava realmente sobre os meus ombros.
Sawamura parecia completamente confortável com o braço sobre meus ombros. Eu não conseguia me acostumar com aquele jeitinho amigável dele. Parecia que, quanto mais nos aproximávamos, pior ficava. O pior é que eu não estaria tenso assim se fosse o Seto. Acho que nem ligaria. Ou talvez simplesmente o empurrasse. Mas, com o veterano, eu nem conseguia sair do lugar.
Eu estava tentando agir como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Afinal, éramos amigos. Amigos podiam ficar próximos. Amigos podiam encostar uns nos outros. Não havia absolutamente nada de estranho nisso.
Era apenas... proximidade.
Novamente, meu amigo de infância, Seto, vivia me dando meios abraços e isso nunca tinha sido um problema!
— Você está muito quieto — comentou.
— Estou ouvindo, só não tenho nada a comentar.
Ele me observou por alguns segundos antes de levantar a mão e tocar minha bochecha com a ponta do dedo.
Eu congelei.
— O que está fazendo?
— Nada.
— Você acabou de tocar no meu rosto.
— Eu sei.
— Por quê?
— Porque sua bochecha é macia...
Fiquei olhando para ele. O senpai estava maluco?
— Essa é uma justificativa muito ruim.
— Mas é verdade. — Ele apertou minha bochecha de leve. — Bem macia.
— Senpai, tire a mão!
— Não quer que eu encoste mais em você?
— Não é isso.
— Então posso continuar?
A pergunta era tão inocente que eu não consegui encontrar um motivo razoável para dizer não.
— ...Por alguns segundos — cedi.
Ele só queria apertar minha bochecha. Acho que realmente pensava que eu era fofo...
— Hehe.
Ele sorriu e continuou apertando minha bochecha, como se eu fosse um bebê. Ou, pior, um filhotinho!
— Você tem uma pele boa, Koushuu.
— Isso é um elogio estranho.
— Não é. Você é bonito.
— Já entendi.
— Entendeu mesmo?
— Sim.
Ele finalmente soltou minha bochecha, mas a mão desceu até meu braço. Passou os dedos pelo meu antebraço como se estivesse analisando alguma coisa.
— Você está ficando mais forte.
— Treino.
— Eu sei.
Olhei para a mão dele. A forma como segurava meu braço me deixava ainda mais próximo dele, apertando meu antebraço um pouco mais forte.
— Senpai?
— O quê?
— Você está analisando meus músculos? — tentei adivinhar.
— Estou.
— Por quê?
— Porque são bonitos.
Meu cérebro novamente travou.
Eu não era musculoso o suficiente para receber esse tipo de elogio. Sawamura parecia ter mais força do que eu, já que eu não conseguia comer tanto e tinha dificuldade para ganhar massa muscular.
— Isso também é sobre beisebol? — perguntei.
— Mais ou menos. Um receptor precisa ser forte, não precisa?
— Precisa.
— Então estou elogiando seu preparo físico.
— Entendi.
Não tinha entendido.
Meu preparo físico não era dos melhores. Era mais uma coisa que eu precisava me esforçar para melhorar.
Minha cabeça estava rodando.
Eu estava perdidinho.
— Quando você fica sério, parece que vai morder alguém.
— Talvez eu esteja pensando nisso agora.
— Hehehe. Viu? Essa sua cara! — Ele apertou minha bochecha novamente. — Você é fofinho.
— Eu não sou fofo.
— É sim.
— Não sou, senpai!
— Koushuu… — Ele falou meu nome de um jeito diferente dessa vez. Mais baixo. — Você fica muito bonito quando fica irritado comigo.
Eu deveria afastá-lo. Deveria tirar o braço dele dos meus ombros e colocar alguma distância entre nós.
Mas não fiz.
— Você também — falei, tentando tornar aquilo casual. Uma situação comum. Dois amigos se elogiando na amizade!
— Eu o quê?
— Você é bonito também, senpai...
Ele arregalou os olhos, como se não esperasse que eu fosse elogiá-lo também.
Infernos!
Foi ele quem começou com essa história para começo de conversa.
— Eu sou bonito?
— Não fique animado — avisei.
— Você acabou de me chamar de bonito!
— Foi uma observação objetiva.
Ele riu e, de repente, apoiou a cabeça no meu ombro.
Fiquei imóvel.
Até quando íamos ficar assim? Se alguém nos visse, provavelmente zoaria a nossa cara...
Oh, mas ninguém veria.
Eu estava sozinho na casa do senpai.
Só nós dois...
Sawamura levantou um pouco o rosto para me olhar.
— Você não se incomoda quando eu encosto em você, né?
— Não é como se fosse um problema.
— Então posso continuar?
Olhei para ele.
Aquela expressão completamente inocente...
Eu me senti até culpado por pensar que ele estava com segundas intenções.
— Faça o que quiser, senpai.
Ele voltou a apoiar a cabeça no meu ombro.
E eu fiquei ali, olhando para a televisão desligada à nossa frente, tentando convencer a mim mesmo de que aquilo ainda era apenas amizade.
Só que...
Desde quando amigos ficavam assim do nada?
Sawamura permaneceu alguns segundos com a cabeça apoiada no meu ombro. Eu já estava começando a acreditar que ele finalmente ficaria quieto quando, sem qualquer aviso, passou os dois braços ao meu redor e me puxou para um abraço apertado.
— Senpai?!
— Você é muito confortável!
— Isso não é motivo para me esmagar!
— Mas você é fofinho!
Ele apertou ainda mais.
Eu conseguia sentir o rosto dele contra meu ombro. Meu corpo inteiro ficou rígido, mas, novamente, não o afastei.
Será que ele me tratava assim por eu ser um ano mais novo? Não... Não devia ser somente isso. Sawamura era senpai de vários outros amigos e nunca pareceu agir assim com mais ninguém.
— Seu cabelo também é bonito — começou a mexer no meu cabelo. — É macio, como o de um filhotinho.
— Eu sou uma pessoa.
— Um lobinho!
— Não existe isso.
— Existe sim. Um lobinho bravo e fofinho.
— Senpai...!
Ele riu, bagunçando ainda mais meu cabelo. Aquele idiota estava me deixando todo descabelado. Aquilo já estava me irritando mais do que me deixando sem jeito. Ele ficava me apertando, puxando, falando um monte de besteiras.
Esse idiota!
— Olha só essa cara! Parece que vai rosnar para mim.
— Talvez eu esteja pensando nisso.
— Hahaha! Viu? Meu lobinho!
Eu suspirei. Era impossível discutir com ele.
Sawamura finalmente afastou um pouco o rosto para me observar melhor. Seus olhos percorreram meu rosto com uma atenção que me deixou desconfortável.
— Seus olhos também são bonitos.
— Meus olhos?
Ele se aproximou um pouco mais.
O que ele queria comigo, afinal?
— Eu gosto dessa cor. Parece mesmo olho de lobo.
— Você vai continuar com isso?
— Vou.
— Imaginei — suspirei.
Acho que ele tinha tirado o dia para tirar uma com a minha cara.
Ele passou o polegar de leve pela minha bochecha. Dessa vez, nem reagi. Era melhor simplesmente ignorar. Era como quando um gato começava a atacar seu braço: quanto mais você reagia, mais ferozes ficavam as mordidas. Se eu ficasse parado, talvez ele perdesse o interesse em me provocar.
Não havia malícia no olhar dele, nem aquela hesitação típica de alguém que estivesse tentando flertar. Ele simplesmente... fazia aquilo.
Abraçava.
Mexia no meu cabelo.
Apertava minha bochecha.
Elogiava meus olhos.
Como se fosse perfeitamente normal.
Talvez fosse assim que ele tratava quem considerava próximo.
Eu estava começando a me sentir um pouco idiota por pensar demais sobre aquilo.
— Koushuu, você é realmente muito fofo.
— Já falou isso.
— Mas eu quero falar de novo.
Ele sorriu e apertou minha bochecha outra vez.
— Meu lobinho.
— Eu não sou seu.
A resposta saiu antes que eu pudesse pensar.
Sawamura piscou. Por um instante, ficamos nos encarando.
— Não? Então você não é meu lobinho? Você tem outro arremessador?
— Senpai... Você sabe que não. Eu só tenho você...
As palavras escaparam antes que eu pudesse impedir.
Sawamura ficou em silêncio por um instante.
— Ah...
— Então pode ser meu lobinho quando estivermos juntos, sozinhos?
— Isso não faz sentido. Só você me chama assim, e eu não vou dizer que sou o seu lobo. Posso falar que sou o seu receptor!
— Admita que é meu lobo! — teimou.
E então, antes que eu pudesse prever qualquer coisa, Sawamura se inclinou e depositou um beijo rápido na minha bochecha.
Meu corpo inteiro travou.
Ele se afastou como se não tivesse feito absolutamente nada.
— Pronto! Te marquei. Agora é meu, certo?
— Que porra...
— O que foi?
— Você acabou de me beijar.
— Na bochecha.
— Eu sei onde foi.
— Então qual é o problema?
— Nenhum.
O que eu deveria falar? Eu nem sabia por onde começar a explicar qual era o problema. Então disse que não havia nenhum. Como se fosse completamente normal ganhar um beijo daquele jeito...
Ele sorriu, completamente tranquilo. Como se tivesse acabado de me dar um tapinha no ombro.
Sawamura se aproximou novamente. Dessa vez, senti a respiração dele perto do meu ouvido.
Meu corpo inteiro se arrepiou.
— Koushuu... eu decidi.
A voz saiu baixa, quase um sussurro. Meu coração deu um salto.
— Decidiu o quê?
Ele demorou alguns segundos para responder, como se estivesse aproveitando o suspense.
— Vou para os Yomiuri Giants.
Eu me afastei apenas o suficiente para conseguir olhar para ele.
— Sério?
— Sério.
Por alguns segundos, simplesmente fiquei encarando o senpai.
Então toda a tensão que eu estava sentindo desapareceu.
Mentira!
Isso não podia ser real... Eu tinha certeza de que ele me dispensaria ou me faria ir atrás dele no time do Miyuki.
— Você me escolheu!
— Escolhi!
— Vamos para os Giants!
— Sim, vamos!
Não consegui evitar o sorriso.
Era uma sensação estranha. Eu estava tão preocupado com a possibilidade de ele escolher um caminho que me deixasse para trás que nem percebi o quanto estava ansioso por aquela resposta.
Então ele me chamou aqui para contar uma boa notícia.
— Você está muito feliz! — Sawamura começou a rir ao perceber que eu sequer conseguia esconder minha surpresa e animação.
— É claro que estou.
— Parece um filhotinho!
— Não comece.
— Está até com os olhos brilhando!
— Senpai! Não estraga o momento me zoando — reclamei.
Mas, na verdade, eu estava feliz demais para me importar.
Eu poderia receber os arremessos dele todos os dias, acompanhar sua evolução e, quem sabe, virar a sua bateria favorita e...
Mas uma dúvida surgiu.
E se eu estivesse fazendo ele se sentir culpado? E se ele estivesse com pena de me rejeitar?
— Senpai, tem certeza? Sobre os Giants? Você não queria jogar com o Miyuki?
Ele ficou pensativo por alguns segundos.
— Eu gosto de jogar com ele. O Kazuya é um ótimo receptor. No meu segundo ano, eu realmente pensei que queria fazer isso com ele para sempre.
Meu humor caiu um pouco.
Então era isso... Ele ainda preferia o irritante do Kazuya.
Seria certo ser egoísta agora? Eu não queria que o Sawamura se arrependesse de ficar comigo também.
— Mas... eu segui o seu conselho.
— Meu conselho?
— Você disse para eu escolher o time que meu coração mandasse. Então foi isso que eu fiz.
— E seu coração escolheu os Giants?
— Escolheu.
Ele sorriu de um jeito tão tranquilo que, pela primeira vez, não senti aquela insegurança.
Então eu não estava o pressionando. O senpai realmente tinha decidido por conta própria.
— Eu quero jogar com você, Koushuu.
Meu rosto esquentou. Isso me deixou mais tímido do que aquele beijo na bochecha.
— E também quero jogar contra o Miyuki e o Furuya! Desse jeito vai ser mais divertido! Destruir eles... Mal posso esperar!
É claro.
Era impossível ele não transformar aquilo em uma competição.
— Entendi. Vamos destruir aqueles dois. Eles não vão ganhar um torneio.
Sawamura começou a rir novamente, parecendo empolgado com a ideia.
Ele pegou minha mão e entrelaçou nossos dedos, e eu voltei a perceber como estávamos próximos.
De novo...
Mas agora eu estava tão feliz que isso simplesmente nem importava. Se ele queria continuar fazendo essas coisas estranhas, pelo menos hoje, por mim, estava tudo bem.
Apertei sua mão e me deixei ficar ainda mais próximo dele.
Quando Sawamura veio beijar a minha bochecha, eu devolvi, dando um beijo na dele também.
Percebi como ele ficou corado.
E eu nem tive tempo de entrar em negação.
Sawamura me soltou para, logo em seguida, segurar meu rosto com ambas as mãos e beijar minha boca.
Foi apenas um selinho, porém aquilo era algo de que não podíamos voltar atrás.
Amigos não faziam isso.
E nenhum de nós dois jamais tinha beijado alguém antes.
— Não sinto que venci da maneira certa — reclamei contra a boca dele.
— Uh? O quê? — perguntou, confuso por eu estar falando tão perto.
— Não venci o Miyuki por ser o melhor receptor. Foi porque eu te seduzi!
Não foi intencional, mas foi o que eu fiz.
Merda...
Joguei sujo.
Eu não sabia que era tão fofo assim!
— O quê? — ele riu. — Caramba... Bom, eu fui seduzido mesmo, então você tem um ponto.
— Não era para você concordar — retruquei, olhando para ele, irritado.
— Ei, eu sou a vítima aqui! Fui seduzido pelo lobo mau e...
Calei a boca do senpai com outro beijo.
Que raiva!
Eu tinha ido do dia mais feliz da minha vida para o mais irritante em questão de segundos.
