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Uma palavra.
E tão fácil de pronunciar, pela forma como casualmente saiu da boca de Dan quando falava com ele. Dan sorria de orelha a orelha após abraçá-lo e exibia o presente para os outros, que assentiam em aprovação. Allison e Matt discutiam na tentativa de decidir quem havia dado o melhor presente, Renee tentava pará-los e Dan estava feliz demais para se importar, mas Neil continuou naquela palavra.
Não era a primeira vez que a ouvia, mas era a primeira vez que era direcionada a ele, e não conseguiu entender. A última vez que se sentiu tão confuso foi quando Nicky havia dito que eram amigos.
— Neil?
Renee olhava para ele. Os ombros de Neil estavam curvados, a boca em uma linha reta, e encarava Dan como se ela fosse um grande ponto de interrogação. Eventualmente ela reparou também.
— Você… — Tossiu, a voz saiu rouca e baixa. —... me ama?
O sorriso no rosto da capitã deu lugar à expressão de choque com os olhos arregalados.
— Meu Deus, Neil. — Dan deixou o presente de lado na mesa e colocou a mão sobre o ombro dele. — Mas é claro que sim! Nós somos uma família.
Família. Outra palavra com a qual ainda batalhava.
Dan dizia aquilo como se fosse tão simples que ele se esforçou para acreditar que era de fato. Amor. E família. E ele tinha as duas coisas agora.
— Vem cá. — Ela o abraçou tão forte que sentiu a costela estralar. Matt apareceu do outro lado e fez a mesma coisa.
— Eu te amo também, Neil! — ele disse enquanto bagunçava seu cabelo.
O olhar de Neil estava direcionado à mesa, mas dava para ver Allison observar enquanto tomava a bebida, e Renee com um sorriso pequeno encarando a cena.
Duas vezes. Neil agora havia recebido aquela palavra duas vezes, mas nunca a havia dito para ninguém.
Quando o soltaram, os olhos começaram a encará-lo, esperando que dissesse algo. A linha nos lábios curvou um pouco para o lado e ele inclinou a cabeça. Matt e Dan deram de ombros e retomaram as conversas de antes. Sequer notaram quando ele se levantou e se afastou em direção a porta. Se notaram, não pensaram em chamá-lo de volta.
No corredor, suas costas se pregaram na parede ao passo que os olhos grudaram na porta adiante.
Amor .
Pelas coisas era fácil de medir. Neil amava Exy, tanto que passou o último ano fazendo de tudo pelo jogo. As raposas amavam apostas, não passavam um dia sem ter pelo menos umas cinco rolando. Matt amava carros, os olhos brilhavam sempre que via um dos modelos favoritos, os quais Neil não conseguia lembrar. Dan amava competir, Nicky amava fofocas, Allison amava maquiagem, Renee amava Jesus, Neil não fazia ideia de que coisas Aaron poderia amar, mas sem dúvidas deveria ter alguma coisa. Kevin amava Exy em níveis que as barreiras da língua não eram capazes de delimitar, Andrew amava…
Nada. Pelo menos essa era a resposta que ele daria. Ainda assim, daria pra dizer que ele amava o Maserati, que quase ninguém tinha permissão de chegar perto. Amava esmalte preto, pelo cuidado que tinha ao pintar as unhas sem deixar borrar periodicamente. Amava chocolate quente, amava trocadilhos, amava literatura gótica, amava ficar no terraço, e amava observar o céu em momentos específicos do dia, quando estava no azul claro de manhã cedo, ou no laranja quente de fim de tarde.
Amar coisas era simples, sem rodeios. Pessoas eram um campo bem mais complicado. Elas eram ariscas, escorregadias e intrínsecas. O Exy para sempre seria o Exy — as mesmas medidas na quadra, mesmas raquetes, mesmas regras, mesmas posições —, mas uma pessoa num dia poderia ser preocupada e atenciosa, e no outro dia poderia enchê-lo de cascudos por ser descuidado quando tentavam se manter escondidos. Ele sabia bem como era mudar milhares de vezes.
De Nathaniel, Alex, Stefan, Chris, Júnior, Abram, para Neil. Do castanho escuro de tinta de farmácia, castanho avermelhado que tingiram seus cabelos à força, para o ruivo natural dos seus fios. Das lentes de contato escuras para o azul claro frio. De defensor a atacante. De caça à raposa, de uma faceta atrás da outra até não saber mais o que era no final das contas.
Mas hoje ele era Neil Abram Josten, o camisa 10, o atacante titular e vice-capitão das raposas de Palmetto State, e todas aquelas concepções não serviam mais na vida que levava. Neil não estava mais fugindo, e pessoas não eram mais perigosas. Agora elas poderiam ser… amáveis. Ele era amável. Para dois até então.
Mas o que era esse amor por pessoas que Dan e Matt jogaram em cima dele? E como era diferente de amar uma coisa? Duvidava de que Matt o visse como um carro, Neil era rápido, mas não tanto. Até que ponto amar uma pessoa seria diferente de amar o Exy?
— Neil?
Renee estava escorada na entrada do quarto das meninas com o sorriso ameno de sempre.
— Vai querer bolo? É de chocolate.
O rosto dele se retorceu em uma careta.
— Um pedaço.
Ele entrou de volta quando ela abriu espaço, e ignorou o olhar penetrante que Allison lhe dava enquanto Dan repartia o bolo e lhe entregava uma fatia num pratinho plástico laranja neon.
— Você não gosta de doce — Allison acusou.
— Não. — Neil se virou e saiu novamente. Dessa vez, cruzou o corredor e abriu a porta que encarara.
Andrew afundava em um pufe enquanto lia. Se tinha mais alguém ali, Neil não perdeu tempo para reparar, foi direto até onde estava e se ajoelhou de frente para ele. A expressão dele era serena, a respiração prolongada. Os olhos dele se moveram, não para Neil, mais um pouco acima na página que lia, como se saísse de foco, e Neil soube que ele não estava mais prestando atenção na leitura. Sorriu. Andrew então olhou diretamente para ele.
Neil ergueu o pratinho com bolo e um garfinho e Andrew pôs o livro de lado.
— Isso aí é bolo de chocolate? — De algum lugar atrás deles, Nicky perguntou. Andrew não se prestou a responder enquanto comia. Neil não viu o que acontecia, mas ouviu o amigo convencendo Aaron a se levantar para irem atrás de pedaços para eles.
O garfinho repartia o bolo em pedaços menores e eles sumiam dentro da boca de Andrew, que mastigava com todo o tempo do mundo. Neil não disse nada, apenas ficou ali observando-o comer. Sempre se perdia em pensamentos quando os fechos de sol, adentrando pela janela, atravessavam os olhos de Andrew. Uma sensação quente cruzava seu estômago ao encará-los. O castanho se vestia de âmbar, um laranja intenso como o pôr do sol de quando sentavam no telhado. Perdeu a noção do tempo, sequer reparou quando o prato vazio sumiu das mãos dele, só despertou com a sensação aguda das pontinhas do garfo em seu lábio, e os olhos cortantes de Andrew encarando-o. Neil tomou o garfo e o pôs de lado. Andrew se inclinou, afastando o corpo do pufe até se sentar.
— Tava bom? — Os dedos de Andrew se arrastaram do seu pescoço para a nuca, e Neil logo obteve a resposta quando ele empurrou a boca contra a sua e o devorou como se há dias não comesse.
Neil não se importou com o sabor doce quando estava diluído na saliva dos dois. Ele puxou os cabelos loiros e sentiu seu corpo bater contra o tapete. Quando Andrew o beijava assim, nada mais passava pela sua cabeça. Nada além de uma palavra.
Andrew se afastou, e Neil percebeu a própria respiração agitada. Os lábios vibravam e a cabeça girava. Andrew o segurou no lugar pelo queixo. O polegar dele apertou seu lábio, e os olhos exploraram todo seu rosto.
— Antes você costumava ser um mistério mal editado cheio de pontas soltas. Agora tá mais pra um paradidático pra crianças de 3 a 10 meses.
Neil fingiu não entender.
— Tô entediando você?
— Tá virando um clichê.
— Vou tentar ser mais “ineilvador”.
Andrew o encarou com as sobrancelhas franzidas, a boca fechada em uma linha trêmula, falhando em segurar os arranhões na garganta.
— Eu tô vendo você querendo rir.
— O que você tá vendo é um sintoma de aneurisma.
— Bom, não dá pra soletrar aneurisma sem “ri”.
Andrew se afastou.
— Sai daqui.
Neil precisou de toda a sua força para segurar o riso também, e se levantou, embora frustrado.
— Só aparece de novo quando eu terminar esse livro.
Neil olhou de Andrew para o livro de volta às mãos dele e ergueu as sobrancelhas. Parecia mais um tijolo, era mais fácil Andrew utilizá-lo como uma arma do que de fato finalizar a leitura. Sabia que ele não estava falando sério, mas já que estava cansado de clichês, Neil resolveu fazer o que ele disse, para variar, então deu de ombros e saiu, voltando para o quarto das garotas.
Lá dentro, Nicky implorava por mais um pedaço de bolo, e Kevin estava de braços cruzados numa cadeira no canto. Quando viu Neil escorado na porta, seu rosto se retorceu em raiva e indignação.
— Se me impediram de entrar pra pegar meus livros, o que você tá fazendo aqui?!
A pergunta atraiu a atenção das outras raposas, que encararam Neil com a mesma dúvida.
— Não era pra você tá com o Andrew agora? — Allison foi a primeira a falar. — Dizendo uma coisinha…
— Allison. — Renee pigarreou e ela bufou e se sentou.
Os outros continuaram o olhando à espera de uma resposta. Neil deu de ombros e avançou até uma cadeira vaga.
— Ele tá lendo.
Quando viram que não conseguiriam mais explicações, deixaram o assunto de lado. Kevin na mesma hora se levantou e foi pro quarto atrás dos livros dele. Neil ficou ali, observando as raposas aproveitando o resto da festa. Dan e Matt dançavam juntos, com ela descansando o rosto no ombro dele, Renee sorria e balançava a cabeça enquanto ouvia sobre todos os assuntos intermináveis que Allison tinha na conta, Nicky contava sobre os planos para o aniversário de Erik, e Aaron, apesar da carranca, ouvia sem reclamar, e compartilhou o que fez para Katelyn. O tempo passou enquanto Neil se perdia em pensamentos. Quando viu, o quarto se esvaziava e a bagunça era arrumada. Renee apareceu ao lado dele com dois sacos de lixo nas mãos, pedindo que fosse com ela levá-los para fora.
— Você ficou quieto — disse ela quando desciam as escadas.
Não foi uma pergunta, então ele não respondeu, mas Renee continuou olhando para ele como se o esperasse falar, era questão de saber quem cederia primeiro. Por fim, ela suspirou.
— A declaração da Dan mexeu mesmo com você, né?
— Eu não sei o que significa.
Ela ergueu as sobrancelhas, mas não precisou que ele explicasse. O passado de Neil não era mais segredo para ninguém, Renee conseguia deduzir sozinha por que ouvir aquela palavra era algo tão inesperado.
— Acho que todo mundo tem a sua própria maneira de ver o amor — disse ela, por fim.
— Uau, isso explica tudo — ironizou. Renee sorriu e balançou a cabeça. Já estavam do lado de fora do prédio quando voltou a falar.
— Quero dizer que todo mundo ama do próprio jeito. — Ela reformulou. — E recebe amor do próprio jeito. E nem sempre as duas coisas coincidem. Por exemplo, Dan ama ao dar abraços, você não se importa de aceitá-los, mas acha que o Andrew teria a mesma reação?
Não desperdiçou o seu tempo respondendo aquela pergunta, mas a menção ao goleiro mexeu com ele, como se sua audição aguçasse.
— Você nunca tinha interagido com essa palavra antes, mas não significa que era incapaz de interagir com o sentimento até então. As coisas não existem por que têm nome. Têm nome, porque existem. Se você ainda não sabe dizer o que é, pensa sobre o que não é.
Neil olhava para ela como se ela fosse as matérias complicadas que ele havia excluído no primeiro semestre da faculdade. Percebendo o rosto cheio de dúvidas, Renee continuou, olhando para cima. Ele seguiu o olhar dela.
— A fé que eu tenho é fé porque não é descrença, o Exy não é lacrosse, eu sou goleira porque não sou atacante. — Ela voltou a olhá-lo e ele retribuiu. — Você se lembra de quando me odiava?
Neil engoliu em seco, desviando o olhar por um instante. Renee apenas sorriu.
— Você não odeia mais, né? Porque eu sou o contrário do que você pensava que eu era. Como você sabe que não é ódio?
Antes que Neil pudesse pensar em responder, um barulho alto a alguns metros chamou a atenção dos dois, fazendo-o pular com o susto. Ele se aproximou do objeto caído e se arrepiou ao identificar o tijolo. Ou melhor, o livro.
Na hora olhou para cima, e conseguiu distinguir a cabeleira loira esvoaçando com o vento e as roupas pretas cobrindo a silhueta. Sabia que era observado também e deixou um riso soprado escapar, mal reparando que Renee olhava para ele com o livro estendido em sua direção.
— É só uma palavra — disse ela, por fim, começando a caminhar de volta ao prédio. — Poderia ser outra.
Ela tinha razão.
Amor . Em espanhol, o qual ele sabia muito pouco, te quiero era usado com mais frequência do que te amo . Se Dan falasse em espanhol, ela teria dito o primeiro. Em francês, Je t’aime . Simples e direto. Se colocasse alguma coisa depois, como Je t’aime bien , já não era a mesma coisa, e seria o que a capitã teria dito a ele. Ich liebe dich, em alemão, não é dito para qualquer pessoa sem um contexto certo, ou sem causar uma situação constrangedora, mas havia o ich lieb dich . Era apenas uma palavra, mas o contexto, a intensidade, ou até mesmo uma letra a menos a mudava completamente. Porque não era a palavra que transformava o sentimento, era ele que a esticava e a moldava enquanto ela falhava em capturá-lo.
Ainda assim, sem a palavra, Neil talvez nunca tivesse percebido que o sentimento esteve ali, ao seu alcance, o tempo todo. Da mesma forma como não percebia que seus passos o guiavam para o terraço no modo automático, quer fosse uma decisão consciente ou não. Quando deu por si, já estava se sentando ao lado de Andrew, com o livro que ele havia jogado lá de cima descansando em seu colo.
O sol já estava quase se pondo, dando um espetáculo de todos os tons de laranja que já havia visto, mas aquele que mais tirava seu fôlego ainda residia nos olhos daquele ao seu lado. Andrew não se prestou a olhar para ele quando Neil se aproximou, muito menos seria o primeiro a falar, então um pequeno sorriso cresceu no seu rosto ao tomar a iniciativa.
— Já terminou, é? — provocou, colocando o livro onde não pudessem derrubar.
O olhar de Andrew seguia o trajeto do sol no horizonte, seus ombros estavam curvados. Neil até acreditaria que ele estava impassível, se suas pernas não balançassem em um ritmo constante e os dedos não brincassem com os rasgos da calça.
— Eu tenho um novo segredo pra você. — A afirmação finalmente fez os olhos dele virem em sua direção. — Mas quero algo em troca.
— Problema seu.
— Você quer saber.
— Não quero.
— Mentiroso.
Sorriu quando ele revirou os olhos.
— O que você quer?
— Um nome.
Se não estivesse tão perto, não teria visto o canto da boca de Andrew se esticar em um micro sorriso.
— Outro? Você é o quê, o Aurélio?
Neil balançou a cabeça e apontou para os dois.
— Pra isso.
— Não tem como nomear uma coisa que não existe.
— Andrew.
Andrew respirou fundo e passou alguns minutos em silêncio. Neil sabia que ele estava pensando.
— “A coisa nenhuma deveria ser dado um nome”. — Andrew falava como se fizesse uma citação. Ele parou por um segundo, antes de continuar com outra. Dessa vez, Neil a reconheceu: “O que há num nome? A rosa, se chamada de qualquer outra coisa, teria o mesmo perfume.”
Andrew estava citando os livros que lia. Neil bufou.
— Tá bom, Shakespeare, mas se eu não disser que vai anoitecer daqui a pouco, como vou saber que tenho que ir treinar com o Kevin?
— Olhando pro céu.
— E se eu estiver no dormitório?
— Vê as horas no relógio.
— E se…
— Qual é o segredo, Neil?
Neil hesitou, Andrew olhava diretamente para ele, com o corpo virado em sua direção. Não balançava mais as pernas, mas franzia as sobrancelhas.
Agora era Neil quem respirava fundo.
— Uma palavra.
Andrew inclinou a cabeça.
— Nova? Quem é o Shakespeare agora?
— Eu te amo.
Andrew parou. Neil parou. O mundo parou. Um minuto em silêncio. Uma hora. Um dia. Um ano.
Uma palavra.
E tão fácil de pronunciar pela forma como casualmente saiu da sua boca sem que tivesse controle. Saiu. Tomou conta dele, até que não coubesse mais em seu corpo. Martelou na cabeça durante todo o dia, deu voltas e voltas, presa na ponta da língua, e agora fugiu.
O tédio permaneceu no olhar de Andrew, mas Neil notou como os ombros dele ficaram tensos e as mãos se fecharam em punho, arranhando as próprias palmas. Arriscou levar uma mão ao cabelo dele e o puxou para perto, sentindo a respiração falhada bater em seu rosto, e os lábios trêmulos derreterem sobre os seus. Andrew amoleceu em seu toque. Afastou a boca da dele e desceu os lábios para o pescoço, fazendo as mãos dele finalmente o alcançarem, apertando suas coxas, deixou uma mordida ali e ouviu um chiado, junto com um puxão em seu cabelo para afastá-lo.
As mãos dele agora seguravam seu rosto com força, e os olhos pesavam ao encará-lo. Se ainda fosse o primeiro ano, Neil pensaria que Andrew o encarava com raiva, com o ódio que jogou tanto sobre seus ombros, cheio de ameaças violentas. Andrew o encarava com violência, mas não ódio.
Nunca com ódio.
Neil avançou para beijá-lo de novo e arfou com a mordida em seus lábios. Olhou nos olhos dele ao se afastar.
— Eu te amo, Andrew.
Duas vezes. Havia dito duas vezes. E as mãos dele se afastaram do seu rosto. Continuaram se encarando, mas Andrew permaneceu em silêncio. O sol que os aquecia ia se pondo mais a cada segundo, enluvando-os nos seus últimos feixes dourados.
— Tá escurecendo — Neil falou enfim, sem desviar o olhar. — Tenho que ir pro treino.
Ele não esperava de verdade que Andrew fosse dizer alguma coisa, mas não conseguia controlar os calafrios subindo pela espinha.
Num suspiro contido, fez que ia levantar.
— Fica.
Mesmo se a mão de Andrew não envolvesse o seu braço, a voz rouca teria o impedido de dar um passo sequer. Quando voltou a olhá-lo, a mão rastejou para o seu peito e o empurrou para baixo, fazendo ele se deitar. O corpo de Andrew se encaixou em cima do seu e Neil arfou com o quanto seus corpos se tocavam, ciente de que nunca antes Andrew havia permitido que ele ficasse tão perto. O rosto dele estava apenas há centímetros do seu, e a voz dele saiu tão baixa que pareceu sair de dentro da cabeça de Neil.
— Fica.
— Sim.
Neil fechou os olhos sem pestanejar, ansioso por outro beijo, mas os abriu em confusão quando ele veio em sua bochecha. E então na outra, em cima da queimadura. Andrew beijou seus olhos, um de cada vez, e a raiz dos seus cabelos, depois seu pescoço. Sentiu as mãos dele o puxando para cima, e o pedido para que tirasse o moletom, que foi colocado embaixo de Neil antes que se deitasse outra vez. Somente quando os beijos foram para os seus ombros, onde residia a marca do ferro quente e o furo da bala, foi que Neil percebeu o que ele estava fazendo.
Andrew beijava as suas cicatrizes. Cada uma delas. Nos braços, nos antebraços, nos pulsos, nos nós dos dedos, no peito, na barriga. Não deixou nenhuma para trás. Quando voltou para o rosto de Neil, beijou suas lágrimas também, e enfim a sua boca. Neil se agarrou ao corpo dele como se tivesse medo de ele desaparecer. Pela primeira vez, entendeu o medo que Andrew tinha de que Neil fosse uma alucinação. Eles se beijaram como a coisa mais real que o universo foi capaz de tecer a partir das mesmas estrelas que os testemunhavam.
Uma palavra. Andrew só disse uma palavra. Ele lhe pediu que ficasse.
E Neil ia ficar.
