Chapter Text
Aguiar estava cansado pra caralho de ficar em casa remoendo a própria vida.
Por isso, quando um colega da delegacia mandou mensagem insistindo pra ele aparecer numa festa “só pra descontrair”, ele acabou aceitando. Entrou no loft no Vila Madalena por volta da meia-noite, de camisa preta e calça jeans escura, sentindo-se imediatamente fora de lugar.
Pegou uma cerveja e sentou numa poltrona no canto da sala, meio largado. A música eletrônica batia baixa, as luzes vermelhas piscavam. Ele observava o movimento sem muita vontade de participar.
Foi quando viu Jae Yoon.
No meio de um pequeno grupo de amigos, Jae dançava de um jeito solto, natural. Cabelo preto liso balançando no rosto, blusa preta justa com o X vermelho discreto no peito, calça larga. Não estava fazendo pose pra story nem nada. Só dançando, rindo de leve quando um amigo falava algo no ouvido dele, movendo os ombros e o quadril no ritmo. Parecia confortável, dentro do próprio corpo, vivo de um jeito que o delegado já não lembrava como era.
Jonas tomou um gole longo da cerveja, sem conseguir desviar o olhar.
Porra...
O garoto era bonito. Jovem. Tinha uma energia diferente do resto. Enquanto os outros pareciam estar “produzindo conteúdo”, Jae só parecia estar se divertindo de verdade.
20 minutos se passaram e ele nem notou, sentado, bebendo devagar, observando. Quanto mais olhava, mais sentia aquela puxada no peito. Uma atração quieta, incômoda. O tipo de coisa que ele sabia que não devia sentir.
Em certo momento, a música baixou um pouco. Jae Yoon saiu da pista, suado, pegou uma garrafa de água e passou perto da poltrona onde o homem estava. Seus olhares se cruzaram.
Jae parou por um segundo, como se tivesse reconhecido ele.
"Você é o Aguiar, né?", perguntou, voz calma, um pouco rouca por causa da dança.
Jonas acenou com a cabeça, sem sorrir.
"Sou."
Jae deu um meio sorriso, quase imperceptível.
"Não esperava ver um delegado numa festa dessas."
"Eu também não", Jonas respondeu seco, girando a garrafa de cerveja na mão. "Fui arrastado."
Jae soltou uma risada baixa, quase só soprando o ar pelo nariz. Olhou para o lado por um momento, depois voltou o olhar para Aguiar.
"Tá entediado?"
"Um pouco."
Jae se encostou na parede perto da poltrona, ainda segurando a garrafa de água. Não forçou conversa, mas também não foi embora. Ficou ali, a uns dois metros de distância.
"Você não dança?", Jae perguntou depois de um tempo.
Jonas bufou.
"Não danço desde 2008."
Jae ergueu uma sobrancelha, divertido.
"Antigo."
"É, um pouco."
Silêncio curto. Jae tomou um gole de água e limpou o canto da boca com o dorso da mão.
"Eu te vi olhando", disse, direto, sem drama na voz.
Aguiar sustentou o olhar dele. Não negou.
"É difícil não olhar quando alguém tá se divertindo de verdade no meio dessa palhaçada toda."
Jae inclinou a cabeça levemente, como se estivesse avaliando a resposta. O X vermelho no peito dele subia e descia com a respiração ainda acelerada da dança.
"Você não parece se divertir muito, Aguiar."
"Não mesmo."
Outro silêncio. Dessa vez mais longo. Jonas terminou a cerveja e colocou a garrafa no chão ao lado da poltrona.
Jae Yoon ficou mais um instante ali, depois deu um leve aceno com a cabeça.
"Boa noite então, delegado."
"Boa noite."
Jae voltou para perto dos amigos, mas Jonas percebeu que ele olhou para trás uma vez antes de entrar na pista novamente.
No caminho de volta para os Jardins, dirigindo sozinho, Aguiar balançou a cabeça ao sintonizar na rádio e ouvir uma voz cantando “nova demais pra mim”. Ele não pode deixar de pensar na ironia.
Mesmo assim, a imagem de Jae dançando, com aquele sorriso brilhante e o X vermelho no peito, ficou martelando na cabeça dele até chegar em casa.
Aguiar parou a Hilux na garagem da casa nos Jardins e desligou o motor. Eram quase duas e meia da manhã. Assim que abriu o portão, Princesa e Docinho vieram correndo, abanando o rabo com força e pulando nas pernas dele.
“Calma, meninas… eu sei, tô atrasado.”
Ele se abaixou, fazendo carinho nas duas labradoras pretas, deixando que lambesse seu rosto. Era o único momento do dia em que ele realmente relaxava. Entrou com elas, acendeu a luz da sala e tirou os sapatos. A casa estava silenciosa, como sempre. Cheiro de madeira e ração.
Aguiar foi até a cozinha, encheu os potes de água das cachorras e abriu a geladeira. Pegou uma garrafa de água e bebeu em pé, olhando o nada. A mente ainda estava no loft da Vila Madalena.
Ele não conseguia parar de pensar na garota.
No jeito que Jae dançava, solto, sem fingir. No sorriso pequeno. No olhar calmo quando disse “Eu te vi olhando”. Na voz baixa e rouca depois de dançar.
Jonas passou a mão no rosto, irritado consigo mesmo.
Ele subiu para o quarto, tirou a camisa e sentou na beira da cama. Pegou o celular e, contra a própria vontade, abriu o Instagram. Demorou menos de um minuto para encontrar o perfil.
@jaeyooon
Quase dois milhões de seguidores. Jonas rolou o feed devagar. Fotos em Paris, Tóquio, looks pretos sofisticados, alguns vídeos curtos dançando em eventos. Em todas as imagens Jae tinha a mesma expressão: bonita, distante, quase intocável. Mas naquela festa, por alguns minutos, ele parecia… real.
Jonas desligou o celular e jogou na cama.
Levantou, foi até a janela e olhou para o jardim escuro. Aos 42 anos, nunca tinha sido casado. Teve alguns relacionamentos que não deram certo porque o trabalho sempre vinha primeiro. Sua vida era reta, dura, previsível. Jae Yoon representava tudo que ele não era: jovem, livre, cheio de luz e movimento.
E ainda assim…
Jonas sentiu um calor incômodo no peito. Desejo. Culpa. Raiva de si mesmo por estar sentindo isso.
Ele deitou na cama ainda de calça jeans, olhando o teto. Princesa pulou na cama e deitou ao lado dele, colocando a cabeça grande no seu peito. Jonas fez carinho atrás da orelha dela.
“Eu to ficando louco, né?”
A cachorra só suspirou, como se concordasse.
Mesmo assim, Jonas demorou mais de uma hora para conseguir dormir. E quando finalmente pegou no sono, sonhou com luzes vermelhas, um X vermelho no peito e um olhar escuro que não desviava do dele.
No dia seguinte, acordou às 5h40 como sempre. Correu com as cachorras, tomou banho, fez café e foi para a delegacia. Tentou se concentrar no trabalho, um novo caso de homicídio no centro da cidade. Mas de vez em quando, no meio da reunião ou enquanto olhava laudos, a imagem voltava.
O cabelo preto balançando.
O sorriso pequeno.
A voz baixa dizendo “Boa noite, delegado.”
Jonas balançou a cabeça e abriu outro arquivo no computador.
“Foco, Aguiar.”
Mas era difícil. Pela primeira vez em muito tempo, algo tinha conseguido tirar ele do piloto automático. Podia tentar o quanto quisesse, a imagem da jovem coreana sempre voltava a sua memória.
Os dias seguintes passaram num ritmo estranho para Jonas.
Na delegacia, ele estava mais calado que o normal. Respondia só o necessário nas reuniões, enterrava-se em relatórios e saía para campo sempre que podia. Qualquer coisa para manter a mente ocupada. Mas à noite, quando chegava em casa, tomava banho, alimentava as cachorras e sentava no sofá, o pensamento voltava.
Jae Yoon.
Ele não tinha mandado mensagem. Não tinha adicionado o perfil. Apenas observava os storys de vez em quando, como um idiota. Jae postava pouco: um café preto numa xícara minimalista, uma foto da vista da cobertura à noite, um vídeo curto treinando em academia com fone de ouvido. Sempre com aquela aura distante.
Na quarta-feira à noite, Jonas estava sentado no jardim de casa com uma cerveja na mão. Princesa e Docinho brincavam com um bola no gramado. O ar estava fresco. Ele olhava o celular quando o aparelho vibrou.
Era uma solicitação de mensagem no Instagram.
@jaeyooon
Jonas sentiu o coração dar um salto. Ficou olhando a notificação por quase um minuto inteiro antes de abrir.
Jae:
vi você online algumas vezes. não sabia que delegado usava instagram
Jonas leu a mensagem duas vezes. Simples. Direta. Sem emoji, sem gracinha. Exatamente o estilo que ele imaginava que Jae teria.
Ele demorou um pouco para responder.
Aguiar:
Uso pouco. Só pra ver o que as pessoas postam.
Jae:
e o que você viu?
Ele hesitou. Não queria parecer ansioso ou estranho. Digitou e apagou duas vezes antes de enviar.
Aguiar:
Vi que você viaja bastante. E que dança bem.
A resposta demorou uns quatro minutos. O hoemem já estava achando que tinha sido seco demais quando Jae respondeu.
Jae:
Só depois de uma ou duas cervejas, é bom para estravazar.
Jae:
você realmente não dança mesmo?
Aguiar:
Não. Sou ruim pra caralho nisso.
Jae:
que pena. você tem cara de quem dança bem se tentar
Jonas soltou uma risada baixa sozinho no jardim. Princesa levantou a cabeça, olhando para ele como se estranhasse o som.
Ele tomou mais um gole da cerveja e respondeu:
Aguiar:
Você me viu uma única vez, numa festa, e já acha que sabe como eu danço?
Jae:
Eu observo as pessoas, sou bom nisso.
Jae:
você também observava bastante aquela noite.
Jonas sentiu o pescoço esquentar. Jae não estava jogando indiretas sutis. Era direto.
Aguiar:
É que você brilhava de uma forma diferente.
Houve uma pausa mais longa dessa vez. Aguiar viu que Jae estava digitando e parando. Finalmente veio a mensagem:
Jae:
Você me achou diferente?
Aguiar:
Achei.
Aguiar:
De uma forma muito..interessante
Jae não respondeu por quase dez minutos. Jonas já estava achando que tinha falado demais quando o celular vibrou novamente.
Jae:
Talvez eu tenha gostado de ser observada por você.
Jae:
Boa noite, Aguiar.
Aguiar ficou olhando a tela por um longo tempo. Leu a mensagem três vezes. Depois desligou o celular e apoiou a cabeça no encosto da cadeira do jardim.
“Merda…”, murmurou.
Princesa veio e deitou aos seus pés. Ele fez carinho na cabeça dela distraidamente, olhando as estrelas fracas acima de São Paulo.
A atração que ele sentiu naquela noite não tinha passado. Pelo contrário. Estava ficando pior.
E o pior de tudo era que Jae Yoon parecia sentir algo parecido.
Jonas ficou mais de vinte minutos sentado no jardim depois daquela última mensagem. A cerveja já estava quente na garrafa. Princesa e Docinho tinham se deitado ao lado da cadeira, dormindo tranquilamente. Ele, no entanto, estava inquieto.
Abriu o chat novamente e leu a última mensagem de Jae várias vezes:
“talvez eu tenha gostado de ser observado por você.”
Era direta. Sem joguinhos, sem rodeios. Exatamente como o garoto parecia ser, decidida. Jonas sentiu uma mistura estranha de desejo e culpa. Desejo porque fazia muito tempo que alguém não mexia com ele dessa forma. Culpa porque Jae tinha dezenove anos. Dezenove. Ele tinha idade para ser seu pai, mas não era.
Ele digitou, apagou, digitou de novo.
Jonas:
Boa noite, Jae.
Simples. Sem mais nada. Não queria parecer ansioso, mas também não queria deixar a conversa morrer. Enviou e desligou o celular.
No dia seguinte, o trabalho foi intenso. Uma operação no período da manhã, depoimentos à tarde e um laudo que precisava ser revisado com urgência. Aguiar tentou se enterrar nas obrigações, mas o celular queimava no bolso. Toda vez que vibrava, ele sentia um impulso de olhar.
Só às 23h47, já em casa, ele recebeu outra mensagem.
Jae:
Você corre de manhã, né? vi uma foto sua com as cachorras no jardim há uns meses
Aguiar sorriu de canto apesar de si mesmo.
Aguiar:
Corro 5h30 todo dia. Ajuda a limpar a cabeça.
Jae:
eu treino à noite. academia quase vazia. prefiro assim.
Aguiar:
Gosta de silêncio?
Jae:
Gosto de não ter gente me olhando o tempo todo.
Jonas hesitou antes de responder:
Aguiar:
Mas você vive sendo olhado. Quase dois milhões de pessoas.
Jae:
é diferente. eles olham a versão que eu mostro.
Jae:
você olhou diferente naquela noite.
Jonas sentiu o peito apertar. Ficou um tempo pensando na resposta. Digitou devagar.
Aguiar:
Porque eu não tava interessado na versão que você mostra pros outros.
A resposta de Jae demorou quase quinze minutos. Quando chegou, foi curta:
Jae:
bom saber.
Depois disso, nenhum dos dois mandou mais nada. Jonas tomou banho, deitou na cama e ficou olhando o teto por quase uma hora. Princesa subiu e deitou ao seu lado, como sempre.
Ele passou a mão no pelo macio dela e suspirou.
“Eu tô me metendo numa merda sem tamanho, menina…”
Aguiar sempre teve controle da própria vida. Rotina. Disciplina. Trabalho. Solidão escolhida. Agora, pela primeira vez em muito tempo, algo escapava do controle.
E esse algo tinha apenas dezenove anos.
Ele fechou os olhos, mas o sono demorou a chegar. Na mente, só via luzes vermelhas, um corpo se movendo no ritmo da música e um olhar escuro que parecia ver através dele.
