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O Segundo Ato de Tobias Snape

Summary:

Um homem morre em nosso mundo e acorda dentro de Tobias Snape, no instante exato em que Eileen anuncia a gravidez. Sem magia, sem atalho — só a lembrança inteira do que aquele filho vai enfrentar, e a teimosia de mudar cada centímetro do caminho. AU pré-Marotos, contado de dentro de casa: fantoches de pano, um bar que ele aprende a evitar, um menino que cresce sabendo, todos os dias, que é amado.

Chapter 1: Capítulo 1 - A Notícia

Chapter Text

 

 

A última coisa que Daniel Ferraz fez na vida foi fechar um livro.

 

Capítulo vinte e seis, a voz do Hagrid meio falhando porque ele estava resfriado e o Theo tinha reclamado duas vezes que o gigante estava "com voz de vovó". Fechou o livro na página marcada pelo cadarço vermelho, apagou o abajur no formato de foguete, disse boa-noite pro vulto debaixo das cobertas. O menino respondeu boa-noite sem abrir os olhos, já indo embora pro sonho, e Daniel ficou um segundo ali na porta, como sempre ficava, olhando aquele quarto pequeno cheio de dinossauros de plástico, e sentiu aquilo que sentia todas as noites: hoje deu certo. Hoje o pai foi bom.

 

Depois foi dormir. Não acordou mais.

 

E então, sem transição nenhuma, sem corredor branco, sem trombeta, estava acordado.

 

Acordado era um jeito de dizer. O que existia primeiro era o cheiro. Carvão molhado e fumaça de rio e alguma coisa azeda nas juntas dos azulejos, um cheiro inteiro entrando pelo nariz de uma vez, denso, estrangeiro. Depois o som: um trem distante arrastando ferro contra ferro. Depois o corpo, e o corpo veio por último e veio errado.

 

Pesado. As costas doloridas num ponto baixo, os joelhos estalando quando ele tentou mexer as pernas, as mãos — ele olhou as mãos e o mundo inclinou — mãos grandes demais, ossudas, com nós grossos nos dedos e uma cicatriz torta atravessando o polegar esquerdo, cicatriz velha, daquelas que a pele já desistiu de reclamar.

 

Não eram as mãos dele. Ele era professor, passava o dia segurando giz e caneta hidrográfica, tinha uma marca de tinta permanente na lateral do indicador direito. Essas mãos aqui tinham calo de outra coisa. De peça pesada, de garrafa, de briga talvez.

 

Sonhando, pensou. Sonhos faziam isso, montavam quartos errados com móveis emprestados. Ele fechou os olhos com força e contou até dez, o truque que ensinava pros alunos nervosos antes de prova.

 

Abriu. A cozinha continuava lá.

 

Pequena, quadrada, suja de um modo que não era bagunça de gente viva, era abandono de anos. A janela sobre a pia dava para um muro de tijolo escuro cortado por um aterro de trem. Uma xícara esbranquiçada de chá frio na mão dele — na mão dele, ele percebeu que estava segurando a xícara, que estava de pé, apoiado no aparador, como se tivesse parado ali no meio de um gesto antigo. Calça cinzenta de brim duro. Camisa aberta no pescoço. No bolso da frente da camisa, um relógio de bolso amassado num canto.

 

— Tobias?

 

A voz veio da porta da cozinha. Feminina, contida, com uma aresta por baixo.

 

Ele virou a cabeça.

 

A mulher encostada no batente devia ter pouco mais de vinte anos. Magra, cabelo preto puxado num rabo de cavalo tão apertado que esticava os cantos dos olhos, braços cruzados sobre um avental surrado. Bonita de um jeito severo, sem nenhum esforço para parecer gentil, e olhava pra ele com uma expressão que Daniel conhecia de sobra de sala de professores: a cara de quem vai falar uma coisa difícil e já está se armando pra levar a resposta ruim.

 

— Tobias — repetiu ela, mais baixo. — Você está me ouvindo?

 

O nome caiu nele como água quente.

 

Tobias. Ele conhecia esse nome. Conhecia daquele jeito específico, fundo, de quem passou sete anos lendo em voz alta toda noite: Tobias Snape. Marido de Eileen. Pai de—

 

O chão não se moveu, mas tudo o resto moveu. Daniel agarrou o aparador porque a cozinha girou de verdade agora, um giro curto e violento, e por alguns segundos só existiu o barulho do próprio sangue nas orelhas e a certeza gelada e absurda e irrefutável subindo pelas costas: aquele nome tinha sido dito pra ele. Ela estava olhando pro rosto dele e chamando ele disso. E se aquele nome era verdade, então o resto era—

 

— Não — disse ele, em voz alta, e a voz saiu grossa, rouca, um grave que não pertencia à garganta dele. — Não, não, não.

 

— Está passando mal? — A mulher soltou o batente e deu um passo, hesitante. — Tobias, você está branco.

 

Ela tinha razão, ele se sentia branco por dentro. Porque junto com o nome vinham outras coisas. Não eram lembranças — ele sabia que não eram dele, elas chegavam com um peso diferente, um gosto de tabaco frio e raiva velha — mas chegavam assim mesmo, em ondas, cada uma pior que a anterior. Spinner's End, e de repente ele soube o nome da rua como quem sabe o próprio endereço. Uma fábrica às margens de um rio sujo, turnos dobrados, pó preto nas narinas. Um pub cujo balcão ele podia desenhar de olhos fechados. E o nome dela, subindo por conta própria, inevitável: Eileen. Eileen Prince, que casou com ele aos dezenove anos contra a vontade de uma família inteira e nunca, nem por um dia, tinha sido tratada em casa com a metade do respeito que tratavam uma estranha na rua.

 

Memórias de outro homem. Do dono dessas mãos, desse joelho estalando, dessa boca que agora obedecia a ele mas tinha quinze anos de hábitos próprios gravados no músculo. E junto com as memórias vinha o temperamento, também ele gravado no músculo: um pavio curtíssimo, uma vontade de bebida que Daniel sentiu na língua como sede real, e uma violência pequena e covarde dormindo em algum lugar atrás do esterno, com um pé fora do cobertor, pronta pra acordar.

 

— Eu preciso me sentar — disse Daniel, com a voz daquele homem, e sentou-se na cadeira mais próxima sem escolher.

 

Foi então que Eileen disse a notícia.

 

Ela tinha parado no meio do caminho entre a porta e a mesa, os dedos apertando o próprio cotovelo, e falou rápido, de uma vez, com os olhos fixos num ponto acima da cabeça dele, como quem pula numa água fria:

 

— Estou grávida. Há duas semanas que eu sei. Eu ia te contar domingo, mas você chegou bêbado de novo e eu perdi a coragem, e hoje eu não perco mais porque daqui a pouco eu vou pro trabalho e você vai ficar aqui o dia inteiro pensando, e eu não aguento mais te ver pensar. Então está dito. — Ela engoliu em seco. — É isso.

 

O silêncio depois da frase durou três batidas do coração de Daniel. Talvez quatro.

 

Porque ele sabia. Sabia daquele menino como poucas pessoas no mundo, em qualquer mundo, saberiam jamais. Sabia o cabelo negro e os olhos pretos e a inteligência afiada como navalha e a solidão. Sabia do menino que cresceria nesse corredor estreito aprendendo a ler socos no ar, que iria pra escola com camisas de segunda mão e raiva de presente, e que um dia — longe daqui, mas inevitável como trem no aterro — ia se fechar por dentro como uma porta com ferrolho, e ninguém, em dezenove anos de história, ia bater na porta pedindo licença.

 

Severus. O menino se chamaria Severus.

 

E junto com esse conhecimento, atravessando a cozinha como um vento gelado, veio a memória — a primeira coisa naquela casa nova que era mesmo dele, de verdade, inalienável.



Theo tinha cinco anos. Quarto pintado de azul-celeste, dinossauros na prateleira, o abajur-foguete recém-instalado e ainda emocionante. Era a semana em que tinham começado o primeiro livro, porque o coleguinha da rua tinha um e o Theo decidira que precisava da coleção como quem decide precisar de respirar. Daniel lia sentado no chão, de costas na cama, com o menino enfiado debaixo do braço esfregando o pé de meia na canela, do jeito que ele gostava.

 

Naquela noite tinha chegado o professor de Poções. A descrição: negro como um grande morcego, olhos negros frios e vazios como túneis escuros.

 

— Pai. — O Theo sentou de repente na cama, o cobertor caindo, o rosto sério daquele jeito que fazia qualquer conversa virar assunto de Estado. — O Snape é vilão?

 

Daniel fechou o dedo na página e pensou, com todo o cuidado do mundo, porque aquelas perguntas mereciam cuidado.

 

— Ainda não sei — disse.

 

— Como assim ainda não sabe? Você já leu esse livro um monte de vez.

 

— Li. Mas eu não sou quem tá descobrindo. Você é. — Ele puxou o menino de volta pro travesseiro. — E tem uma regra, filho: vilão de verdade não é quem parece mau. Vilão de verdade é o que faz a pessoa má de propósito, mesmo podendo fazer bem. Parecer mau é só roupa. Às vezes a roupa tá errada na pessoa certa.

 

O Theo encarou ele por uns segundos, processando com a testa franzida, os pés de meia enrolando um no outro.

 

— Igual o T-Rex no filme? Que parece assustador mas no final salva todo mundo?

 

— Exatamente igual.

 

— Então o Snape pode ser o T-Rex.

 

— Pode ser — disse Daniel. — Vamos descobrir junto.

 

E o menino sorriu, satisfeito, afundou no travesseiro e mandou continuar da parte que parou, e Daniel leu mais dois capítulos porque ninguém tinha coragem de parar naquela noite.

 

Vamos descobrir junto.

 

Ele estava sentado agora na cadeira da cozinha de outro homem, num país outro, num mundo outro, dentro da roupa errada na pessoa certa — ou na pessoa errada, ele ainda não sabia — e a frase do filho doía nele como lasca de vidro debaixo da pele. Porque tinha acabado de entender, com a clareza brutal das coisas óbvias, qual era o T-Rex dessa história.

 

Ele era.



— Você não vai dizer nada?

 

A voz de Eileen rachou na ponta, e Daniel saiu de si mesmo de volta pra cozinha. Ela estava exatamente onde tinha parado, mas algo no rosto dela tinha mudado: o queixo erguido um centímetro a mais, os braços cruzados apertados até os nós dos dedos embranquecerem. Ele reconheceu aquela transformação porque tinha visto em dezenas de alunos ao longo dos anos — a armadura que uma criança monta em tempo real, na frente dele, quando a resposta demora demais.

 

Ela achava que sabia qual resposta vinha. Pela postura, pela prática, pelo número de vezes que aquele roteiro já tinha sido encenado naquela cozinha, ela já estava ouvindo a resposta ruim. E se preparando pra não chorar na frente dele, porque chorar na frente de Tobias Snape era dar vantagem.

 

E dentro do peito de Daniel, o corpo antigo ofereceu sua resposta pronta, ensaiada, com quinze anos de rodagem: jogar a xícara na parede, perguntar de que diabo ela tinha certeza, insinuar, magoar, sair e beber até a pergunta deixar de existir. A vontade veio completa, com texto e encenação, tão nítida que quase era audível. Não era desejo dele. Era reflexo de joelho de outro homem — mas o joelho estava preso na perna dele agora, e ninguém ali sabia a diferença.

 

Daniel respirou fundo. O cheiro de carvão e rio entrou junto, sólido, real, e ajudou mais do que qualquer conselho que ele daria a um aluno: nada ali era bonito, nenhuma fala grandiosa sobreviveria àquela cozinha. Só palavra pequena. Palavra que coubesse.

 

Ele pousou a xícara na mesa. Devagar, sem barulho.

 

— Senta — disse ele.

 

Eileen piscou.

 

— O quê?

 

— Senta, Eileen. — Ele puxou a outra cadeira com o pé, sem levantar, porque levantar rápido parecia coisa de homem prestes a gritar. — Você vai falar em pé com os braços travados igual quem espera sentença? Não é isso que isso é.

 

— Você não sabe o que isso é. — As palavras saíram rápidas e afiadas, mas ela não saiu da sala, e isso era alguma coisa. — Você não tem ideia do que isso é. Da última vez que—

 

Ela mordeu a frase ao meio. Daniel não precisava da memória alheia pra completar: da última vez que contei uma coisa sua pra você. O corpo antigo guardava esse registro também, e agora que ele procurava, o registro vinha à tona sem vergonha — uma notícia contida, um erro cometido, um gasto feito sem consultar, cada um pago com berros, com porta batendo, uma vez com uma taça voando e estilhaçando na parede ao lado da cabeça dela. Nenhuma das vezes com pedido de desculpas no dia seguinte. O homem não sabia pedir desculpas. Nunca tinha aprendido; provavelmente ninguém tinha aprendido pra ele.

 

— Sei um pouco — disse Daniel, baixo. — Mais do que você imagina. Senta. Por favor.

 

O por favor fez nela um efeito estranho: ela sentou. Desconfiada, mantendo a mesa inteira entre os dois, mas sentou, e as mãos dela foram buscar uma à outra sobre a madeira gasta e apertaram-se lá, esperando.

 

Daniel olhou pra ela. Vinte e poucos anos, casada com um homem que nem ele suportava ser, e agora com uma notícia dessas presa entre os dentes como uma pedra quente, sem poder cuspir e sem conseguir engolir. Ele pensou em quantas alunas, ao longo dos anos, tinham atravessado a porta da sala dele com exatamente esse rosto. Ele sabia o que dizer pra elas. Passara a carreira inteira sabendo.

 

— Primeiro — disse ele —, eu vou te fazer uma pergunta, e eu preciso que você responda de verdade, porque eu tô com a cabeça muito estranha hoje e pode ser que eu tenha entendido tudo errado. Você quer esse bebê?

 

Os olhos dela arregalaram um milímetro. De todos os lugares de onde a pergunta podia ter vindo, aquele claramente não era nenhum.

 

— Isso não importa—

 

— Importa. Pra mim importa. Responde.

 

Eileen olhou pra mesa. Os polegares dela se friccionaram um contra o outro, e quando a voz saiu estava menor, sem nenhuma da aresta de antes:

 

— Eu queria. Antes de casar, eu já... — Ela parou, recomeçou. — Eu queria. Mas eu sei o que você vai dizer que a gente não tem. Dinheiro. Espaço. Você nem gosta de mim, gosta é da paz e do jantar pronto, e um bebê não é paz nenhuma, então...

 

— Então nada — disse Daniel.

 

E ali, naquela cozinha, ele tomou a decisão. Não foi difícil. Foi a única coisa fácil naquele dia inteiro, naquela vida inteira nova: a única bússola que funcionava apontando numa direção só. Ele não podia explicar pra ninguém de onde vinha a certeza — não pra Eileen, não pro padre, não pro espelho. Vinha de um quarto azul-celeste a mundos de distância, de um menino de cinco anos perguntando se o monstro podia salvar todo mundo, e de sete anos de noites provando, capítulo por capítulo, que aparecer todos os dias é a metade do amor, e a outra metade é não desistir no dia em que dá errado.

 

Ele tinha morrido sem terminar a história pro próprio filho. Esta aqui, essa da cozinha imunda, ele ia terminar.

 

— Escuta o que eu vou dizer — falou Daniel, e a voz saiu firme, o grave rouco daquele corpo servindo pela primeira vez pra alguma coisa boa. — Eu não vou prometer que vou virar outra pessoa de repente, porque promessa assim você já deve ter umas quantas guardadas na gaveta, e eu não sou aí de mentir pra mulher grávida. O que eu vou fazer é o seguinte: hoje eu não bebo. Amanhã eu prometo de novo, na tua frente, um dia de cada vez, e você confere. Esse bebê vai nascer numa casa onde ele sabe, desde o primeiro dia, que é querido. Não vai ter dinheiro sobrando, mas vai ter isso. E você — apontou pra ela, devagar, com o dedo torto do polegar cicatrizado — não vai criar nada sozinha do que der pra dividir. Noite mal dormida, médico, fralda, medo. Metade minha. Antes de pedir. Você não devia precisar pedir.

 

Silêncio.

 

Eileen encarava ele como se ele tivesse falado em outra língua. Procurava o golpe, Daniel viu — procurava a piada cruel dobrada dentro do papel de presente, o preço miúdo escondido no fim da frase, porque na experiência dela toda generosidade tinha parcela escondida. E não achava. E a ausência do golpe parecia deixá-la mais perdida do que qualquer brutalidade teria deixado.

 

— Você bateu a cabeça — disse ela por fim. — É isso, não é? Chegou ontem assim, esquisito, quieto. Bateu a cabeça na fábrica e ninguém me avisou.

 

— Hoje não bati.

 

— Ontem?

 

— Não me lembro de ontem — disse Daniel.

 

Que era, ele concluiu de algum lugar muito fundo, a frase mais sincera que aquele corpo já tinha produzido em anos.

 

Eileen continuou olhando pra ele por um longo momento. Do lado de fora, o trem de carga voltou a passar, sacudindo o vidro sujo da janela, e ela não se moveu, não desviou os olhos, e Daniel teve a impressão estranha de estar sendo lido — lido por alguém que tinha passado anos decorando o rosto dele nas horas boas e nas ruins e agora encontrava nele uma página nova.

 

Quando o último vagão se foi, ela falou, baixinho:

 

— Se isso for pegadinha sua, eu nunca mais falo com você. Nunca. Eu juro por tudo que existe.

 

— Não é pegadinha.

 

— Porque eu aguento gritaria, aguento xingamento, eu já decorei esses. — O queixo dela tremia só um pouco, e ela o segurava firme como quem segura uma porta contra vento. — Aguento tudo menos piada com isso.

 

— Não é piada, Eileen.

 

Ela respirou fundo, uma vez, duas. Depois fez uma coisa pequena demais pra se chamar de sorriso: o canto da boca subiu uns dois milímetros e voltou correndo pro lugar, assustado.

 

— Então esquenta o pão — disse ela, levantando de súbito e alisando o avental, a voz já de volta à rotina, ao trabalho, ao mundo onde sentimentos grandes se guardam pra depois. — Tem pão de ontem na tábua. Barriga vazia não pensa direito, e você precisa pensar direito hoje mais do que qualquer dia da sua vida.

 

Ela parou na porta, de costas, uma mão no batente.

 

— Tobias.

 

— Fala.

 

— Se você estiver falando sério... — Ela não se virou. A luz começava a entrar pela janela suja e acendia de lado o fio de cabelo solto do rabo de cavalo. — ...então amanhã, quando prometer de novo, eu quero ouvir olhando nos meus olhos. Não pro chão.

 

— Combinado.

 

Ela foi. O portão de ferro bateu duas vezes lá fora, fazendo o barulho de sempre, e Daniel Ferraz — que era agora, pelos registros de Cokeworth e pelos fatos do universo, o Sr. Tobias Snape — ficou sozinho na cozinha da casa sete, com o chá morto, o pão de ontem e uma vida inteira pela frente.

 

Olhou pras próprias mãos abertas sobre a mesa. Mãos de operário, nós grossos, cicatriz torta. Mãos erradas, vestindo a pessoa certa. Ou o contrário. O Theo ia amar esse enigma, pensou ele, e então o pensamento doeu tanto que ele teve que parar e ficar imóvel e respirar por um tempo comprido, a testa encostada nos dedos tortos, enquanto a cozinha ficava embaçada e voltava ao foco.

 

Vamos descobrir junto, tinha prometido a um menino de cinco anos.

 

Descobriríamos.

 

Fora da janela, o céu de Cokeworth clareava devagar sobre os telhados pretos, cinza da cor de tudo. E em algum ponto desse céu, meses e meses adiante, uma coruja ainda sem nome esperava o seu turno sem saber disso.